História Divorce - Capítulo 1


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Romance
Visualizações 2
Palavras 3.795
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo 01 - Forever isnt for everyone


Abri a porta do pequeno apartamento e fui recebida por uma lufada de ar quente reconfortante em contraste com o ar gélido das ruas nova iorquinas. Abril já havia iniciado e a primavera já deveria ter vingado, mas aquele vento cortante e extremo decididamente não havia ido embora com a estação soturna anterior. Aliás, parecia que a era cinzenta e fria do inverno tardava a dissipar-se completamente, ironicamente análoga a meu estado de espírito. Afinal, internamente, eu vivia um inverno rigoroso e demorado, apostando todas as fichas em uma primavera que demorava a se estabelecer. A penumbra do aposento mal mobiliado era precariamente exposta pelos fracos feixes de luz que invadiam a janela. O ambiente quente, vazio e sem luz era estranhamente confortável.

Depositei as chaves no aparador, retirei o pesado sobretudo jogando-o junto com a bolsa na poltrona ao lado da porta. Eu finalmente estava em casa, consolei-me mentalmente. Ainda que, claramente, aquele lugar não chegasse nem perto de um lar, era reconfortante ter para aonde voltar depois de um dia tão cansativo. Eu tinha total consciência da necessidade de dar um jeito naquele apartamento - Jessa me lembrava aos resmungos aquilo semanalmente - mas eu não tinha a mínima disposição ou vontade para isso. Os únicos móveis dispostos na sala eram um sofá, uma mesa de centro e um tapete velho. Nem de longe se assemelhava a uma residência de verdade, parecia mesmo um apartamento abandonado, um conjunto de concreto vazio e sem vida, e honestamente não me incomodava.

Cerrei as pálpebras numa piscada um pouco mais longa e constatei que eu poderia definitivamente dormir de pé no meio da sala. A exaustão deixava minha mente pesada, todos os meus membros fracos e as articulações doloridas, afinal de contas, não era fácil sobreviver a um plantão que durava mais de vinte e quatro horas. Eu sempre soube que seria médica, desde o dia em que coloquei um band-aid infantil no joelho ralado do meu irmão e senti pela primeira vez a satisfação de ajudar e cuidar de alguém. E hoje, eu estava no quinto e último ano da faculdade realizando os estágios clínicos e se tudo corresse bem e dentro do planejado, em dois meses eu faria a prova final e me tornaria a pediatra que sempre sonhei. Toda aquela dedicação e todo aquele cansaço seriam compensados.

A ideia de dormir por ali mesmo era tentadora, mas um resquício de responsabilidade me alertou que era necessário forrar o estômago. Com um esforço absurdo arrastei minhas pernas, como um zumbi, até a cozinha. Abri a geladeira em busca de algo e constatei que, definitivamente, eu precisava ir às compras. Eu passava a maior parte do meu tempo dentro da ala infantil do hospital, portanto as minhas raras refeições eram feitas por lá, não me parecia relevante ir ao supermercado. A verdade é que comer havia se tornado um ato absolutamente desagradável. E não só porque eu havia passado por dias difíceis e o meu apetite se tornara nulo, mas também porque das vezes que eu tentava realizar uma refeição decente eu era atingida por uma náusea aguda e minutos depois acabava no banheiro colocando tudo para fora.

Peguei um suco de laranja na geladeira e algumas bolachas murchas no armário, tentando me convencer que aquilo seria o suficiente, ao menos por essa noite teria que servir. Sentei-me à bancada da cozinha me preparando emocionalmente para o ritual que se tornara as minhas refeições. Engoli um pequeno gole do suco e esperei alguns segundos pelo embrulho no estomago ou pelas ânsias, que felizmente não vieram. Calmamente e receosamente mordisquei as bolachas.

Constantemente, nos últimos dias eu me questionava em que ponto as coisas viraram de ponta cabeça e começaram a dar terrivelmente errado. Embora, bem no fundo, eu soubesse que as coisas eram fadadas ao fracasso. Eu sempre soube. Entrei no jogo, apostei e perdi. Honestamente, só não imaginava que seria um final tão desagradável, tão doloroso, tão penoso. Já havia se passado um mês, afinal. Quatro longas semanas, terríveis, obscuras e doídas…

Eu havia me apegado ao último fio de esperança que me restara para acreditar que o tempo colocaria tudo em seu devido lugar e que aquela tonelada de sofrimento que esmagava o meu peito iria sumir, eventualmente. Aquilo tudo iria passar. Dia após dia eu tentava me recuperar aos poucos. Nas duas primeiras semanas, chorei. Chorei em todas as noites, chorei em todos os banhos, chorei na rua e no metrô, chorei escondida no banheiro do hospital, chorei na frente de desconhecidos, chorei no colo de Jessa. De ódio, de dor, de arrependimento, de autopiedade… Na tentativa de expelir todos os sentimentos perversos que me corroíam por dentro. Não funcionou. Já na terceira e nesta semana, um ímpeto de raiva e autopreservação me atingiu. Entrei em um período abençoado de negação. Resolvi viver para trabalhar e dormir, exatamente como uma máquina. Parei de raciocinar, pensar e sentir. Tranquei toda aquela dor em um dos lugares mais profundos da minha alma - como se eu estivesse anestesiada - embora eu soubesse que aquela dor estava ali, se eu não pensasse sobre ela, não existiria por alguns momentos. E, bem, de uma forma bizarra aquilo deveria ser superação. Ainda que Jessa insistisse em me repreender, era a minha forma de superar tudo o que tinha acontecido.

O barulho afiado da campainha invadiu meus ouvidos, interrompendo meus devaneios cafonas sobre dor e superação. Quem poderia ser? Ergui o olhar para o vão da cozinha americana que dava visão à porta, franzi o cenho em um sinal claro de confusão. Meu leque de opções para uma visita em pleno domingo à noite era bem limitado. Jessa estava em uma reunião importante em Boston e só voltaria amanhã à noite, meu irmão e meu melhor amigo estavam em alguma festa importante do ramo publicitário, meus pais moravam em Los Angeles e Adam… Bem, Adam e eu havíamos nos distanciado. Caminhei intrigada e curiosa de volta à sala, encostei-me na porta em uma tentativa ridícula de tentar captar algum ruído que denunciasse a pessoa do outro lado, mas um silêncio corrosivo foi a minha única resposta.

Abri a porta. E o susto e a sensação de desespero me atingiram de forma intensa e dilacerante. Meus olhos cruzaram imediatamente com aquele par de olhos tão conhecidos e tão nocivos. Todo aquele discurso de superação nunca pareceu tão patético. Porque, afinal, eu nunca o superaria. Por um segundo, tive a sensação de que todos os meus sentidos iriam entrar em um colapso e parariam de funcionar. Mas não foi o que aconteceu. Sem que eu pudesse controlar, meu coração começou a bombear sangue em uma velocidade absurda, denunciando o quanto eu estava viva. Independentemente do contexto, meu corpo sempre reagiria irracionalmente a sua presença. Eu podia sentir o meu sangue esquentar e percorrer morno pelas minhas veias, liberando aquela sensação quente - já tão conhecida - por todo meu corpo. Minha pele ardia, como se instantaneamente eu estivesse entrado em estado febril.

Atônica, cambaleei alguns passos para trás, constatando que minhas pernas pareciam duas varetas finas de tanto que tremiam, minha respiração, de imediato, ficou presa na traqueia. E ansiei, verdadeiramente, que ele fosse apenas uma projeção da minha imaginação machucada e viciada em sua imagem. Mas, infelizmente, não era uma alucinação ou alguma peça da minha mente. Matthew estava verdadeiramente parado a minha porta, com os fios do cabelo mais compridos e terrivelmente bagunçados, vestindo aquela maldita jaqueta de couro preta e com uma das sobrancelhas arqueadas, analisando minha reação. Um olhar, e toda a minha armadura, construída meticulosamente dia após dia, despedaçou-se em mil pedaços pelo chão. Como sempre acontecia, eu estava absolutamente vulnerável. Quatro semanas ignorando a existência daquele ser maldito e todos os sentimentos monstruosos que consequentemente ele me suscitava. Dias tentando segregar todos os tipos de emoções, dias tentando permanecer dentro de um corpo oco, para que em segundos, ele simplesmente abrisse a caixa de pandora liberando tudo de ruim que eu tinha por dentro.

De repente, parecia ser como antigamente, como sempre havia sido; todo o meu cansaço havia evaporado, meu corpo era apenas um organismo no mundo codificado geneticamente para responder apenas aquele outro organismo ali na minha frente. Porém, nada era como antes e nunca voltaria a ser. Ele havia me destruído, e os cacos que eu consegui juntar formaram uma casca mal remendada. Mágoa e ódio, eram o que tinha restado.

Ele maneou a cabeça para o lado, passando as órbitas por todo o meu corpo, da forma petulante e invasiva, analisando-me milimetricamente. Eu me sentia absolutamente desconfortável e exposta diante daqueles olhos. Após me estudar, franziu o cenho, travou a mandíbula e seus olhos brilharam mais escuros. Ele estava estranhando algo? Talvez, os quilos que eu havia perdido? Ou as bolsas de olheiras profundas e assustadoras debaixo dos meus olhos? Definitivamente, eu não era o melhor exemplo de saúde, e definitivamente ele não tinha mais nada com isso.

- Posso entrar? – Sua voz rouca, grossa e nasalada ecoou pelo ambiente, funcionando como uma faca afiada no meio do meu peito.

O quê?

Demorei mais do que o normal para raciocinar aquela simples pergunta. Fechei os olhos tentando buscar dentro de mim ou em alguma força superior o mínimo de lucidez para lidar com aquilo. Eu, definitivamente, não estava preparada. Eu havia bloqueado a existência daquela criatura em dos lugares mais profundos da minha mente e não era justo ele se projetar na minha porta sem aviso. Forcei minha garganta, abri a boca repetidas vezes em busca de algum som, que não veio. Engoli com dificuldade o nódulo que havia se formado na minha traqueia. Busquei pelo restinho de dignidade e do meu orgulho dilacerado para respondê-lo.

- É claro que não! – Respondi ríspida com a voz esganiçada e vacilante, demonstrando uma vulnerabilidade que eu não queria e não podia demonstrar.

Por puro desespero, tentei fechar a porta sem esperar por qualquer reação da parte dele. Talvez, eu não fosse capaz de suportar o som da sua voz, nem por mais uma sílaba. Mas o reflexo dele foi mais rápido e com um movimento forte impediu que eu fechasse a porta em sua fuça com apenas uma das mãos.

Respirei fundo buscando desesperadamente força no oxigênio, e perguntei ríspida:

- O que você quer, Matthew ?

O meu estômago revirou completamente ao ouvir a minha voz pronunciar aquele nome, letra por letra, em voz alta. Era a primeira vez, em todos aqueles dias, que eu me permitia articular qualquer pensamento que o envolvia.

- Precisamos conversar. – Apoiou o antebraço no batente da minha porta e me encarou sério. O azul dos seus olhos ainda estava um tom mais escuro do que o normal, o que indicava que ele estava irritado. Era só o que eu conseguia ou queria descobrir. Como de costume, seu olhar estava protegido atrás daquela barreira estúpida que ele havia criado com o tempo.

- Não, não precisamos. – Completei rapidamente ultrajada.

- Eu preciso conversar com você. – Frisou o primeiro pronome com firmeza.

Bufei absolutamente contrariada e descontente. Ponderei por alguns segundos em mandá-lo de uma vez por todas para o inferno ou deixá-lo falar logo de uma vez. A primeira alternativa era muito mais satisfatória, sem dúvidas. E mais sensata também, afinal ouvir a melodia de sua voz e ser alvo daqueles olhos analíticos, deixavam-me absolutamente desnorteada e ensandecida. E eu estava farta de me sentir daquela forma. Porém, eu o conhecia melhor do que confessaria e sabia que ele não desistiria, porque era a criatura mais persuasiva e persistente da espécie.

- Não irei embora até você me ouvir, sabe que não. – Sentenciou prepotente. Um indício de um sorriso irônico brotou no canto de seu lábio esquerdo, mas não chegou a se espalhar. O desgraçado queria deixar claro que ainda conseguia ler os meus pensamentos. Ou me ler, como costumava dizer. Sabia bem que, provavelmente, eu estava em um dilema, mas que eventualmente cederia.

Revirei os olhos demonstrando claramente a minha insatisfação, mas me afastei dando passagem para que ele entrasse na sala. E assim ele o fez. Em qualquer outro dia, ele certamente teria feito uma expressão irônica e satisfeita por ter conseguido o que queria, como usualmente. Mas dessa vez ele não o fez. Poderia se esconder muito bem por trás daquela pose insuportável, mas eu sabia que por algum motivo ele estava desconfortável, ainda que não demonstrasse claramente.

Minhas pernas continuavam estremecidas e moles. Céus, quando aquele pesadelo finalmente acabaria? Quando ele finalmente me deixaria ir?

Minha mente não conseguia raciocinar todos os pensamentos que rodopiavam na minha cabeça como um furacão. Puxei o ar para os meus pulmões, acreditando que o que meu cérebro precisava era de oxigenação. O problema era que respirar com ele em um raio curto era tarefa insuportavelmente árdua. Encostei a porta e tornei-me a ele novamente.

- Fala de uma vez o que você quer. Não tenho a noite inteira à sua disposição. – Estimulei sem poupar o nível de acidez que escorria pela minha voz. Cruzei os braços numa tentativa precária de parecer mais segura, tanto para ele quanto para mim.

- O que é verdadeiramente uma pena, porque você sabe, eu poderia fazer a sua noite muito prazerosa. – Deu de ombros malicioso.

Tão típico e tão ridículo. Matthew Dawson não era Matthew Dawson se em cada dez palavras que saíssem da sua boca, no mínimo, oito não fossem maliciosas ou obscenas. Eu não entraria naquele jogo sujo que ele gostaria que eu entrasse. Eu estava ferida em tantos níveis que não daria importância para aquela petulância cretina.

- Cala essa boca imunda e....

Antes que eu pudesse completar o argumento, mandá-lo para algum lugar improprio e expulsá-lo da minha casa, ele se jogou no meu sofá e apoiou a cabeça nos braços e voltou a me encarar. Se eu não conhecesse tão bem aquela frieza, aquela naturalidade e aquela arrogância, seriam algo relacionado a algum distúrbio psiquiátrico, mas na realidade ele só queria me irritar e tirar o meu foco da situação. Ele estava encenando aquele papel, como sempre o fazia. Deus, era tão fácil odiá-lo… Verdadeiramente, eu não sei como fora capaz de encontrar algo bom dentro dele para sustentar um amor por tantos anos. Optei por ignorar aquela cena tão previsível vindo de quem vinha. Respirei fundo e soltei pesadamente o ar dos meus pulmões, exausta.

- Você precisa voltar para a casa, Emma . - Disse simplesmente com a expressão facial inalterada.

Senti uma risada desesperada e fria ser expelida pelas minhas cordas vocais. Certamente, ele não poderia estar falando sério. Ele era tão absurdo que fazia o meu sangue entrar em combustão de tal forma que o meu desejo mais primitivo era esmurrar a cara perfeitamente simétrica dele.

- O quê? - Perguntei não porque não tinha ouvido, mas para confirmar se ele realmente tinha dito aquilo. - Você sofreu alguma concussão cerebral?

- Eu não estou brincando. - Retrucou mal-humorado com a minha ironia.

- Qual é o seu problema? - Questionei irritada e sem mais nenhum pingo de paciência. - Se você veio até aqui para falar sobre isso, pode ir embora.

Eu estava farta dele e de toda aquela história. Eu nunca poderia me livrar daquilo, afinal?

Eu o amara mais do que pudera suportar, sim. Minha única e verdadeira paixão. Mas também a minha grande ruína. Depois de anos conturbados, de idas e vindas, de dramas homéricos, de uma relação completamente perturbada, intensa e insana, nos casamos. Sete meses depois, nos separamos. O desgraçado não conseguiu segurar o pinto dentro da cueca por muito tempo e me traiu. A última vez que eu havia olhada para a cara dele, eu estava carregando minhas malas para fora de casa, com uma porção de lágrimas nos olhos, após berrar loucamente que queria o divórcio. Fim do conto de fadas.

Em seguida, ele havia viajado para Dubai para resolver assuntos de trabalho e eu fiquei aqui essas últimas semanas numa tentativa furtiva de apagar sua existência da minha memória. E agora ele estava casualmente deitado no meu sofá, vomitando indiferentemente que eu tinha que voltar para casa.

- Você se lembra do nosso exaustivo acordo pré-nupcial? - Questionou, ignorando completamente minha impaciência.

Sentou-se no sofá e apoiou os cotovelos nos joelhos, encarando-me incisivamente. Seu olhar era intenso e me dava a impressão de que conseguia me visualizar por dentro. Desviei o olhar, porque naquele momento, eu não era capaz de lidar com todo o poder que detinha sobre mim.

- Você veio até aqui para discutir isso? Você está alguns meses atrasado. Qual é o ponto, Dawson?

- O seu pai exigiu alguns termos e um deles previa o nosso prematuro divórcio. - Balançou a cabeça descontente e soltou uma risada nasalada sem humor.

 - E qual é o problema da perspicácia dele? - Dei de ombros fingindo descaso.

- O problema é que tem uma cláusula que envolve uma quantia obscena de dinheiro.

- Como assim?

- Caso eu quisesse me separar antes de completarmos dez meses de casados, eu deveria pagar a você uma indenização, altíssima.

Oh, meu deus. A falta de fé do meu pai no meu casamento era desoladora. Mas no fim das contas, ele sempre esteve certo. Aquilo obviamente daria errado.

Eu conseguia lembrar vagamente sobre a cláusula, porque na época não dei importância alguma para aquele acordo pré-nupcial, eu queria a aprovação do meu pai e me casar, apenas. Fui ingênua e idiota. Papai sempre se colocou contra a minha relação com Matthew e quando aceitei me casar a única forma de deixá-lo mais tranquilo era deixá-lo cuidando dessa parte burocrática. Ele tinha receio que tudo não passava de mais um dos jogos de Dawson, e que quando ele vencesse, iria se cansar e me abandonar rapidamente. Caso algo do gênero acontecesse, eu sairia com o coração partido, mas ele sairia com alguns dólares a menos da sua conta bancária.

- E daí? - Perguntei impaciente sem entender onde ele queria chegar com aquilo.

- O problema é que a cláusula vale para nós dois. Caso você queira o divórcio, deve me pagar a mesma quantia.

- Obviamente, eu não tenho esse dinheiro. - Arregalei meus olhos, começando a gesticular nervosamente com as mãos.

- Exatamente. – Acenou positivamente como se tivéssemos chegado ao ponto central da discussão.

- O que você está querendo dizer com isso, Dawson? - Estreitei meus olhos absolutamente descrente de onde ele queria chegar com aquilo.

- Que nós não poderemos nos separar até julho. – Sentenciou como se fosse a frase mais banal do universo.

- Isso é ridículo! - Minha voz saiu um décimo mais alta.

- É o contrato. - Gesticulou com as mãos como se não tivesse culpa daquele contratempo.

Passei as mãos pelos meus cabelos, descontando toda a minha raiva e incredibilidade nos meus longos fios. O desgraçado por dentro estava adorando, eu tinha certeza. Caso ele quisesse, poderia encontrar uma solução, mas ele claramente não queria. Era mais um dos seus jogos, e eu precisaria encontrar uma saída sozinha.

- Você pode pedir a separação e eu te devolvo o dinheiro, é simples! - Dei uma solução perfeita, afinal eu nunca quis e não queria nenhum um centavo daquele dinheiro maldito.

- Eu não me importo com o dinheiro, honestamente não faria diferença alguma na minha conta bancária. - Deu de ombros e apertou os olhos arrogante.

- Então qual é o problema?

- Eu não vou pedir a separação. Eu não vou desistir de você, de nós, Emma …

- Não existe mais eu, você, nós. - Repliquei desesperada apontando para mim e para ele.

- Eu não vou pedir o divórcio. - Sentenciou irredutível e sério.

Ele estava me chantageando? E como sempre acreditava que a merda do seu dinheiro poderia comprar o que quisesse ou solucionar todos os seus problemas. Céus, ele não tinha o direito de aprontar mais aquela comigo… Mais uma vez, eu o encarava de boca aberta e completamente desacreditada de suas atitudes. Ele poderia ir mais fundo do que isso? Ou pior, ele poderia ainda me surpreender negativamente depois de tanta mentira, traição e manipulação? Sim, ele podia. Afinal, ele era Matthew Dawson  e, certamente, sempre daria o seu pior. Mas dessa vez eu não era capaz de passar a mão em sua cabeça por suas atitudes horríveis justificadas em um passado triste e um psicológico destruído. O meu estoque de bondade estava esgotado, e eu não suportaria mais nenhum de seus defeitos.

 Você está me chantageando? - Perguntei com a voz trêmula.

- Não. Só estou evitando que você faça uma grande besteira. - Respondeu cínico. A cabeça doente dele provavelmente acreditava que estava fazendo o certo.

- Você está me obrigando a ficar com você. - Repliquei incrédula mais para mim do que para ele - Você definitivamente chegou ao fundo do poço, porque o único jeito de me manter presa a você é obrigada.

- Vou te dar alguns dias para se acostumar com a ideia. Ou você cumpre com a cláusula, você quem sabe. - Ignorou minha acusação ácida e retrucou frio.

- Você não faria isso comigo. - Tentei parecer segura, embora eu soubesse que com certeza ele o faria.

 Não existe nada que eu não faria por você, Emma .

- Por você. - Retruquei entre os dentes - Tudo o que você faz sempre é pelo seu bem. Saia da minha casa! - Ordenei sentindo todo o mínimo de autocontrole escorregar pela minha língua em forma de berro.

Ele soltou um suspiro resignado, mas não disse mais nada. Ao menos por uma vez, acatou minha ordem e saiu do meu apartamento me deixando absolutamente abalada e desnorteada. Assim que ele saiu, descontei toda a minha frustração na porta que bateu com tal força que fez a janela de vidro estremecer.

Cretino.

Cretino.

Cretino.

Eu poderia entrar em um estado de combustão a qualquer momento. Mas, eu não era humanamente capaz de raciocinar sobre aquilo naquele momento. Eu estava exausta e ele havia levado consigo o que restara da minha energia. Eu precisava dormir. Dei alguns passos no pequeno corredor e entrei na segunda porta onde ficava o meu quarto. Peguei o primeiro pijama que encontrei e percebi o quanto minhas mãos tremiam. Eu estava farta daquele poder que ele exercia ao meu corpo e à minha mente, aquilo teria que acabar. Vesti o pijama e me joguei na cama, apertando os olhos implorando para que aquela noite se esvanecesse da minha mente de uma vez. Mas não aconteceu. Lágrimas grossas começaram a brotar nos meus olhos e meu pulmão começou a queimar até explodir em um choro desesperado. Matthew  havia voltado e estava disposto a me levar de volta para o inferno.



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