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História Do outro lado da janela - Capítulo 1


Escrita por: LadyJoker01 e BLEACHProject

Notas do Autor


Olá gente ^^
Essa é a minha contribuição para o @BLEACHProject e espero que gostem dela tanto quanto eu gostei :')
Meus agradecimentos do fundo do coração vão para a: @wild_Meg e a @_Aki pela betagem da historia e a @NilmaUchiha por essa bela capa. Também agradeço a todas as garotas do projeto pelo apoio e pela paciência kkk

Boa leitura <3


Informação importante:
*Elsa Lunghini, de nome artístico Elsa é uma cantora e atriz francesa. No inicio do manga de Bleach, o Kubo diz que a música T'en va Pas é o tema da Orihime, com isso em mente, decidi fazer uma referencia.
https://www.youtube.com/watch?v=wZAaIRT3Ak0

Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Do outro lado da janela - Capítulo 1 - Capítulo Único

Karakura é uma cidade extremamente fascinante, sempre tem alguma coisa de interessante acontecendo em cada esquina, mesmo sendo apenas uma cidade de médio porte. Acredito que boa parte da culpa disso seja das pessoas que aqui habitam. Todas as tardes, quando acaba o meu expediente da padaria, ando pelas ruas de Karakura oferecendo pães para  meus amigos próximos e pessoas necessitadas e enquanto faço esse breve passeio, gosto de reparar no jeito de cada um.

Muitos parecem ter uma vida extremamente atarefada, sempre indo de um lado para o outro com suas gravatas e maletas, um comportamento que me faz lembrar do meu irmão mais velho Sora-kun. Para poder nos sustentar ele precisava trabalhar bastante, eu o via em poucos momentos, como na hora do almoço e no jantar, onde ele conversava comigo e me colocava para dormir. 

Em contraste aos atarefados, há aqueles que parecem levar a vida no modo econômico. Quando estava passando perto da rua do comércio, deparei-me com um senhor vestindo um quimono feminino floral, ele parecia um pouco bêbado, porém estava sóbrio o bastante para me desejar um bom dia. Sorri e desejei o mesmo a ele.

Eu moro em um simples apartamento pelo qual consigo pagar o aluguel com a ajuda de alguns familiares distantes. Os outros moradores do prédio costumam ser bem gentis e amáveis comigo, às vezes eu sinto que parte desse comportamento é derivado de pena, mas não é algo que puxa tanto a minha atenção. Na verdade, aconteceu uma coisa que vem consumindo muito do meu tempo livre.

Aproximadamente duas semanas atrás, fui despertada do meu cochilo pós trabalho pelo som de um caminhão sendo estacionado e algumas vozes masculinas. Ainda bocejando um pouco, aproximei-me da janela do meu quarto e comecei a espiar o que estava acontecendo na rua. Deparei-me com o caminhão de mudanças da empresa Õkina Henka, havia muitos trabalhadores entrando no prédio vizinho, todos segurando caixas de papelão.

Deitei-me novamente na cama e fiquei pensativa antes de adormecer novamente, ter um vizinho novo era ótimo. Logo pela manhã iria desejar boas vindas ao vizinho-san.

Quando amanheceu, olhei pela janela e percebi que a equipe de ontem à noite já estava a postos para começar a montagem do novo morador. Fiquei um tempo observando a movimentação, contudo, apenas avistei os trabalhadores e alguns estudantes que passavam pela rua. Ao vê-los, lembrei que precisava me apressar para ir à escola.Poderia dar as boas-vindas quando voltasse para casa. 

Infelizmente, o meu plano não deu certo, quando voltei  o apartamento se encontrava escuro e silencioso. Talvez o morador tivesse saído, o processo de mudança sempre consome muito tempo. Com isso em mente, voltei a minha rotina, mas sempre que podia dava uma espiada pela janela, procurando algum sinal de vida.

Com o passar dos dias meu novo vizinho da frente começou a atiçar mais a minha curiosidade. Não importava o horário, o apartamento sempre parecia estar vazio e quando demonstrava possuir um rastro de vida, no momento em que as luzes eram acesas, nenhuma silhueta podia ser vista. Comentei sobre isso com a Tatsuki-chan e ela disse que eu deveria deixar a pobre pessoa em paz, no entanto, eu simplesmente não conseguia deixar de dar algumas espiadas.

Acabei tomando a decisão de pôr um fim nesse mistério. Hoje decidi passar o meu dia inteiro de folga de tocaia. Peguei meus antigos binóculos, alguns doces e deixei o meu CD da Elsa* tocando baixinho para ter uma distração enquanto esperava.

— O trabalho de espionagem é bem mais interessante nos filmes — suspirei e virei-me na direção do pequeno aparelho de CD. — Pelo menos, Elsa, você está aqui para me fazer companhia, e você também, Enraku.

Andei na direção da estante e peguei o meu velho ursinho cor de rosa, talvez ele precisasse de mais alguns artigos de espionagem como uns óculos escuros e um chapéu.

— Acho que tenho esses artigos em algum lugar do meu guarda-roupa, espere aqui, Enraku. — Voltei a colocá-lo na estante e abrir o meu guarda-roupa, procurando os itens que havia citado.

Após alguns segundos procurando, consegui encontrar um par de óculos escuros, eles provavelmente ficariam grandes demais para ele, mas cabiam perfeitamente em mim. Coloquei-os e ouvi o toque da notificação do meu celular, procurei-o com os olhos e lembrei que estava carregando em cima do criado mudo.

— Preciso trocar esse celular — disse ao reparar na porcentagem dele. — Acho que está com a bateria viciada — suspirei e olhei para o visor das notificações, sorri ao perceber que a Kuchiki-san havia me mandado mensagem.

 

{...}

Kuchiki-san:

“Olá, Orihime, como está?”

Orihime:

“Olá, Kuchiki-san, estou bem e você?”

Kuchiki-san:

“Estou bem, o que anda fazendo?”

Orihime:

“Estou em um trabalho de espionagem, e quanto a você?”

Kuchiki-san:

“Espera, Orihime, espionagem??”

Orihime:

 “Yep, você lembra que eu comentei que havia um vizinho novo?” 

“Até agora não consegui nem vê-lo uma única vez”

Kuchiki-san:

“Sim, eu lembro, você comentou há poucos dias, é realmente estranho”

“A essa altura vocês já deveriam ter ao menos se visto”

Orihime:

“Exatamente, mas ele é tão silencioso e misterioso, parece até um fantasma”

“E se ele realmente for um??”

“Ou até um vampiro, eu nunca vejo ele fazendo nada durante o dia”

Kuchiki-san:

“kkk, Orihime você tem uma imaginação realmente fértil”

"Sério, ele é muito suspeito. Pode estar tentando se esconder de alguém”

Orihime:

“Será que ele é um foragido da polícia?"

Kuchiki-san:

“Creio que não. Se fosse, não teria conseguido se mudar legalmente”

Orihime:

“Ele poderia ser um ladrão de rostos, igual naqueles filmes de terror!”

Kuchiki-san:

“Acho que esse não é o caso”
“Talvez ele tenha fobia social, ou alguma doença”

Orihime:

“Eu não havia pensado nisso… Coitado, talvez eu possa o ajudar de alguma forma”

“Talvez se eu cozinhar alguma coisa o faça melhorar  ^^”

Kuchiki-san:

“Dependendo do que você vai fazer, talvez”

 {...}

Estava me preparando para responder a Kuchiki-san, quando notei que a minha música favorita do álbum da Elsa, T’en va Pas, estava começando. Levantei-me rapidamente e aumentei um pouco o volume do aparelho, gostaria de conseguir cantá-la, mas infelizmente não sou tão boa em francês. O instrumental do piano da música é tão belo que parece que está preenchendo todo o meu quarto com o seu som, na verdade parece até que suas notas estão mais altas do que a voz da própria Elsa.

— Espera um momento. — Diminuí um pouco o volume do aparelho e para a minha surpresa o volume do piano continuava o mesmo, virei para a janela do meu quarto e percebi que o som se intensificava, parecia estar vindo da janela do meu vizinho misterioso. Coloquei minha cabeça do lado de fora. — Você também gosta dela?! — Tentei gritar mais alto do que o som do instrumento.

Esperei por mais alguns segundos, mas não obtive nenhuma resposta, apenas pude ouvir as notas do piano. Finalmente, depois de dias, descobri algo muito interessante sobre o meu vizinho, ele era um pianista muito bom, será que era algum compositor? Que devido às pressões da fama e da mídia acabou se mudando para uma cidade que está fora dos holofotes? Talvez.

— Você toca muito bem vizinho-san! — gritei novamente, enquanto me movia um pouco para os lados para tentar ver alguma coisa. Infelizmente, só vi os pés do piano. 

Suspirei e continuei apoiada na parte de madeira da janela, o vizinho-san realmente tocava muito bem.

 

{...}

Embora não tenha aula no sábado, o meu horário de trabalho na padaria continuava o mesmo, exceto por hoje. Tive que levantar cedo para cobrir o turno de minha colega Rangiku-san. 

Ela me avisou que estava com uma ressaca bem forte, embora todos do trabalho pensassem que ela estava doente, decidi fazer esse pequeno favor. A única coisa que seria interrompida era minha missão secreta, que se tornou não tão secreta ontem, mas gosto de acreditar que é questão de tempo para finalmente conseguir pôr um ponto final em tudo isso.

Fechei a porta de casa e comecei a descer pelas escadas até finalmente sair do prédio. Acabei encontrando o senhor Komamura-san, ele parecia estar pronto para sair com o seu cachorro, Goro. Cumprimentei-o e  fiz carinho entre as orelhas do cão.

— Inoue-san, poderia me ajudar com uma coisa? — perguntou o senhor Komamura-san enquanto eu me virava para fitá-lo.

— Claro, o que seria? — Olhei-o com curiosidade, enquanto ainda mantinha um sorriso residual de ter brincado com o cachorro.

— Amanhã tenho que viajar para o interior, para visitar meu avô que se encontra doente, porém Goro terá que ficar em casa, já que alguns membros da família são alérgicos a pelos. — Ele olhou para o cachorro e em seguida para mim. — Poderia ficar com ele enquanto isso? Colocar água, comida e levar para passear?

— Sim, não vejo problemas. — Abaixei-me até a altura do São Bernardo e acariciei o topo de sua cabeça novamente. — Eu e Goro somos bons amigos, aposto que ele irá se comportar, não é? — Falei olhando para o cachorro, enquanto afinava um pouco a voz.

— Muito obrigado, Inoue-San, sei que ele ficará em boas mãos. Jogarei as chaves do meu apartamento embaixo da sua porta quando eu sair. — Ele me deu um sorriso agradecido.

— Não precisa agradecer Komamura-san. — Retribuí o sorriso — Mas agora, se me der licença, preciso ir andando — disse enquanto me levantava.

— Nós também. Tenha um bom dia- Ele fez um breve aceno com a cabeça.

Segui com o meu caminho até a padaria, aceitar o pedido do senhor Komamura-san mudaria um pouco os meus planos, mas não seria um estorvo, talvez até ajudasse um pouco, pois eu teria uma boa desculpa para passar de frente ao prédio vizinho.

{...}

Saí do meu turno um pouco mais tarde do que o esperado. Como havia um quadro reduzido de funcionários, tive que ficar para ajudar na limpeza e na contagem dos pães que sobraram. 

Como de costume peguei alguns para dar aos meus amigos. Enchi uma sacola e fui em direção ao apartamento do Sado-kun, ele sempre me recebe antes de ir treinar boxe. Não demorei muito para chegar lá, mas as luzes estavam desligadas, ele já devia ter ido.

— Acho que irei colocá-los na maçaneta da porta. — Amarrei a sacola bem firme na maçaneta e olhei para o céu. —- Já está escurecendo e parece que vai chover, acho melhor me apressar.

Comecei a andar rapidamente para casa, já estava começando a sentir alguns pingos d'água. Para a minha sorte, estavam caindo suavemente e meu apartamento não era tão distante. Normalmente, após passar pelo apartamento do Sado-kun eu vou até a janela do Kurosaki-kun e ofereço alguns pães, tem dia que ele aceita e tem dia que ele não está em casa, acho que este é um deles, pois a luz de seu quarto está apagada.

— Ou ele pode estar apenas dormindo — falei enquanto corria em frente a casa do Kurosaki-kun, faltava pouco para chegar em meu apartamento.

Quando finalmente cheguei à portaria, estava um pouco ofegante e levemente encharcada, pois infelizmente, não consegui ser mais rápida do que a chuva. Comecei a sentir meus pelos do braço arrepiarem, precisava trocar de roupa e me esquentar logo, seria extremamente frustrante ficar doente agora. Abri a porta do meu apartamento e assim que coloquei o primeiro pé na sala as luzes apagaram.

— Ah, não! — Procurei meu celular dentro da bolsa, por sorte estava totalmente enxuto, mas com a bateria fraca. — Espero que você aguente até eu encontrar velas.

Liguei a lanterna do aparelho e comecei a minha busca por velas, olhei na cozinha, na sala, no quarto e na área de serviço, mas não encontrei nenhuma sequer. Bem, fazia tempo que não precisava de uma, devo ter esquecido de comprar. Andei até a janela do meu quarto e espiei a rua.

— Acho que foi geral, não consigo ver nenhum poste aceso. — Olhei para a janela do vizinho-san. Fechada, provavelmente devido à chuva, e o apartamento estava tão escuro quanto o meu. Decidi fechar a minha janela, pois a água começava a respingar aqui dentro.

Tomei um rápido banho, vesti roupas secas, peguei meu guarda-chuva florido e minha capa de chuva. 

Não sei por quanto tempo irei ficar sem energia, então é melhor comprar as velas logo, acho que uma lanterna convencional também não seria nada mal. A loja do Urahara-san é aqui perto e com certeza tem tudo que eu preciso.

Ao sair do prédio reparei que as ruas estavam praticamente desertas, com apenas algumas pessoas correndo para os seus destinos Passei em frente ao prédio do vizinho-san, havia uma morena de cabelos loiros conversando com mais três mulheres na portaria do prédio. Elas estavam comentando sobre a queda de energia, pelo que consegui ouvir parecia que devido à chuva uma árvore caiu em cima de um dos geradores.

— Acho que irá demorar até ser consertado. — Suspirei e voltei a caminhar.

Demorei mais tempo do que usualmente demoraria para chegar à loja, acontece que no meio do caminho a chuva piorou bastante, com direito a trovoadas e relâmpagos. A porta de madeira da loja estava fechada, mas a plaquinha indicava que estava aberta, sendo assim, a abri e entrei no estabelecimento.

— Deixe-me ajudá-la, senhorita — disse uma doce voz à minha esquerda. As luzes das velas da loja iluminavam parcialmente o seu rosto, porém após alguns segundos pude reconhecer que quem falava era Ururu.

— Ah, sim. — Retirei a minha capa de chuva e entreguei-a para a garotinha.

— Oh, Orihime-san, é você — disse o senhor Urahara-san, balançando a mão que segurava um leque. — Você veio caminhando nessa dilúvio? — Ele disse em tom de brincadeira.

— Não estava tão ruim quando saí de casa — falei enquanto me aproximava do balcão.

— Então, em que posso ajudar você? — Ele pôs o leque no balcão e juntou as mãos.

— Estou sem velas em casa. — Olhei ao redor. — E pelo visto o senhor tem bastante aqui.

— Bem observado, Orihime-san, chegou um carregamento de velas e outras coisinhas ontem pela manhã, ainda nem terminamos de guardar tudo. — Ele olhou para a esquerda, segui o olhar e percebi que haviam algumas caixas espalhadas por toda a loja. — Quantas irá querer?

— ‘Hmm… — Fiquei pensativa por alguns segundos. — Acho que dois pacotes serão o suficiente e acredito que eu vá precisar de uma lanterna e pilhas também.

— Jinta, pegue uma lanterna e pilhas para a Orihime-san! — Ele pôs as mãos ao redor da boca e gritou em direção a uma área escura da loja, em seguida abaixou-se e ao voltar pôs dois pacotes de velas em cima do balcão.

Poucos minutos depois, uma nova luz irrompeu na escuridão. Era Jinta-kun segurando uma vela acesa, na sua outra mão carregava várias lanternas de cores diferentes, acabei escolhendo uma amarela com preto, Urahara-san pôs minhas compras em uma sacola e eu o paguei.

— Obrigada, Urahara-san.

— Não acha melhor ficar até a chuva acabar? — Ele me olhou, levemente preocupado.

— Não, eu estou bem, acho que até já diminuiu um pouco. — Fiz uma breve pausa. — Não estou nem mais escutando os trovões.

— Tenha cuidado — disse Ururu, enquanto se aproximava para me entregar a capa e o guarda-chuva.

— Obrigada. — Sorri para ela.

Comecei a andar em direção a porta, quando de repente sinto algo impedindo a passagem do meu pé. Não tive muito tempo para pensar no que havia acontecido, fechei os olhos rapidamente e coloquei as mãos em frente ao meu rosto. 

Quando abri os olhos novamente percebi que havia tropeçado numa caixa e minhas compras estavam todas no chão, a lanterna rodava na direção da porta de madeira. 

Um vento frio invadiu a loja, alguém havia entrado. Não tive muito tempo para olhar quem era. Tentei me recompor, minhas mãos doíam por causa do impacto com o chão, quando senti uma pequena mão nas minhas costas.

— Você está bem, Orihime-san? — Ururu me olhou preocupada, virei para trás e vi que o Urahara-san e Jinta-kun estavam começando a ir em minha direção.

— Sim, sim, estou bem. — Peguei a sacola com as velas que estavam no chão e comecei a me levantar. — Não precisam se preocupar, foi só um tropeço. — Aquilo não era totalmente verdade, mas eles não precisavam se preocupar com isso.

— Aqui está a sua lanterna — disse uma voz diferente das demais.

Olhei para o dono da voz. Era um homem um pouco mais alto do que eu, estava com uma capa de chuva preta e ainda segurava o guarda-chuva, seus olhos verdes contrastavam com seus cabelos negros que caiam na testa por causa da chuva. Ele estendeu a lanterna para que eu pudesse pegá-la, e foi o que fiz.

— Obrigada. — Dei um breve sorriso.

— Tome cuidado. — Ele retirou a capa e entregou-a junto ao guarda-chuva para Ururu.

Saí da loja do Urahara-san um pouco constrangida, mas poderia ser bem pior. Eu poderia ter me machucado feio, mas depois dessa eu só desejo chegar logo em casa.

{...}

Demorei um pouco para dormir ontem, como estamos no verão e estava chovendo, a noite ficou com o clima abafado, mas aproveitei para ficar espiando um pouco mais a janela do vizinho-san. Ele havia acendido algumas velas, pude ver a  sombra de sua silhueta, mas infelizmente não foi muito revelador. 

Acordei primeiro que o meu despertador, apenas alguns minutos de vantagem, mas serviram para me dar um pouco de orgulho logo pela manhã. Levantei e observei a janela que estava aberta. 

Ouvindo com atenção era possível escutar o que estava acontecendo do lado de dentro do apartamento do vizinho-san, ele parecia estar praticando algum instrumento, provavelmente um violão, adoraria poder observar mais de perto.

Escutei um som vindo da minha porta, deve ser o Komamura-san colocando as chaves de seu apartamento debaixo do meu carpete. Saí do quarto e andei em direção à sala. Meu palpite estava correto, junto das chaves havia um pequeno bilhete.

“Orihime-san, devo-lhe agradecer novamente por ficar com Goro, porém preciso alertá-la sobre algumas coisas: A ração dele está num pote embaixo da pia da área de serviços, coloque duas xícaras de medida na vasilha dele; Ele bebe muita água então por favor certifique-se de que a vasilha esteja sempre cheia (ele prefere água gelada). Por fim, quando for passear com ele, tenha pulso firme, às vezes ele gosta de tentar perseguir gatos e borboletas.” Coloquei o bilhete no bolso do pijama.

— Talvez seja mais trabalhoso do que pensei.

Minha barriga começou a roncar, talvez umas torradas de chocolate com atum sejam o suficiente para um café da manhã forte e nutritivo. Certo, talvez o chocolate não seja tão nutritivo assim, mas deixa as torradas muito mais saborosas.

{...}

Depois de preparar meu café e tomar banho, saí do apartamento e desci para o andar abaixo do meu, procurei o número do apartamento do Komamura-san. Assim que abri a porta fui recebida pelo grande cão da raça São Bernardo, ele pulou em cima de mim e pôs a língua para fora.

— Olá, Goro! —  Sorri. — Ficou muito tempo me esperando? — Fechei a porta atrás de mim.

O cachorro se abaixou um pouco, colocando as patas dianteiras totalmente no chão, enquanto as traseiras se preparavam para um salto, e começou a latir.  Estava apenas querendo brincar.

— Vamos ter muito tempo para isso, garoto, mas primeiro preciso verificar algumas coisas. — Comecei a caminhar em direção à área de serviço, decidi conferir se a água e a comida já estavam em seus devidos lugares.

O apartamento do Komamura-san é muito bonito, embora tenha a mesma estrutura do meu, possuía um toque especial na decoração. Era evidente que ele era um amante dos animais, em exclusividade dos cães. 

Havia vários retratos nas paredes dele com Goro, desde da fase de filhote até a atual, mas não era apenas isso, ele parecia ser bastante interessado em peças temáticas da era Meiji, já que substituiu a cor primária dos corredores por papéis de parede que lembravam as antigas pinturas desse período. Entrei na área de serviço e encontrei as vasilhas citadas, a de água estava vazia, sendo assim a enchi com água gelada, como solicitado. O cachorro me seguia para todos os lados.

— O Komamura-San tem o costume de levar você para passear pelo período da manhã, não é? — falei olhando para o animal, mesmo que ele não me respondesse, era bom falar com alguém.

Goro apenas me olhou de volta e balançou a cauda, o chamei para brincar na região da sala. Havia uma grande janela naquele cômodo, dando vista a esquina da rua à frente. Coloquei a minha cabeça para fora e dei uma rápida olhada na janela do vizinho-san; ele havia acabado de fechá-la. Se eu estivesse em casa poderia tê-lo visto. 

Suspirei  e tirei a cabeça da janela, virando-me para o cachorro que me olhava enquanto segurava a sua coleira na boca. Acho que consegui a minha resposta.

Sorri para o cão e comecei a colocar a coleira nele, abri a porta do apartamento e desci as escadas.

— Certo, Goro, vamos dar uma voltinha no quarteirão.

Embora fosse grande, Goro não me deu nenhum trabalho, passeamos tranquilamente pelas ruas. Paramos em algumas paredes e hidrantes, pois ele queria sentir o cheiro dos outros cachorros, acenei para alguns conhecidos e, após meia hora de caminhada, estávamos a caminho de casa. 

Até que um gato branco com heterocromia passou pelo nosso caminho. Em menos de um estalar de dedos lembrei-me do bilhete do Komamura-san e olhei para Goro. Ele estava começando a rosnar para o felino.

— Calma, Goro, é apenas um gatinho. 

Mas minhas palavras não chegavam até o cão, pelo contrário, ele começou a latir e forçar a coleira. Tentei segurar com força e levá-lo para o outro lado da calçada.

Em resposta ao comportamento do canino, o gato bufou e se eriçou, começando a emitir um som agudo, o que não deixou o São Bernardo nada feliz. Comecei a sentir a verdadeira força do animal, quase não conseguia segurá-lo em um lugar só e já estava sentindo os meus pés se moverem na direção que ele queria.

— Goro, para!- Gritei com ele e puxei sua coleira com as duas mãos, o atrito entre elas e o tecido começou a me machucar, mas isso não importava, precisava acalmá-lo.

O gato começou a correr e para o meu desespero vi a coleira se partir, em questão de segundos me deparei com uma cena de perseguição digna de desenhos animados, mas não podia ficar parada só observando, comecei a persegui-los o mais rápido que podia. 

O felino parecia um ponto branco atravessando as ruas, indo de um lado para o outro e passando no meio das pessoas, Goro ficava apenas alguns centímetros atrás e, devido ao seu tamanho, assustava a todos que passavam pelo caminho.

— Mil perdões — falei diversas vezes para as pessoas que estavam metidas naquela confusão.

Estava começando a ficar cansada e ofegante quando vi o gato entrando no prédio vizinho ao meu. O cachorro o perseguia, quase atropelando o rapaz de cabelos azuis que passava pelo portão do prédio.

— Com licença e desculpa — disse rapidamente a ele enquanto corria atrás dos animais.

Segui-os em direção a uma porta aberta perto da pequena garagem do prédio, entrei no local sem pensar duas vezes, poderia me explicar depois que conseguisse acalmar o cachorro. 

Para a minha infelicidade aquela porta dava acesso às escadas e os animais haviam fugido de minha vista, usei todo o meu fôlego restante e comecei a subir as escadarias. Corri pulando alguns degraus até alcançá-los novamente, o gatinho virou na direção dos apartamentos do terceiro andar e começou a correr pelos corredores. Goro latia e o perseguia, conseguia ouvir a sua respiração ofegante, ele estava tão cansado quanto eu.

Vi ao longe o gatinho arranhar a última porta do corredor, ele parecia desesperado, mas era a minha chance. Goro estava se aproximando do felino quando a porta do apartamento se abriu, fazendo que o gato pulasse em direção a algo. Não pensei muito nos meus movimentos, apenas senti os meus pés saindo do chão e em seguida segurando o cachorro.

— Por favor, Goro, fica calmo, você é um bom menino — disse enquanto segurava o cachorro em meus braços. Ele não parava de se mexer e latir, sua força era impressionante, fechei os olhos com medo de ser machucada por ele.

Nesse momento senti que estava sendo observada, abri os olhos e me deparei com um homem me olhando fixamente de cima, enquanto segurava o pequeno gato em seus braços. Seu olhar indicava confusão e naquele momento uma aura de vergonha pairou sobre mim, na verdade, aqueles olhos eram familiares, já havia o visto uma vez na loja do senhor Urahara-san.

— Por que sempre que a encontro, você está no chão? — perguntou o homem à minha frente.

— E-eu… — As palavras sumiram de minha cabeça, apenas pensava em me desculpar. — Desculpe-me por isso.

Levantei-me um pouco sem jeito enquanto tentava segurar o cachorro que ainda se encontrava inquieto. 

O desconhecido à minha frente soltou o gato dentro do apartamento e se aproximou de Goro, lentamente posicionando a sua mão por cima da cabeça do animal. Ele se mantinha com os olhos focados no canino, transferindo uma posição de dominância. Em questão de segundos o São Bernardo se acalmou e abaixou a cabeça, como se estivesse envergonhado.

— Isso foi impressionante — disse enquanto ainda observava o comportamento do cachorro.

— Essa é uma técnica usada em vários tipos de animais para mostrar confiança e dominância, o jeito que você estava falando com ele não iria funcionar — ele me explicou calmamente.

— Muito obrigada, ‘anh… — Dei uma breve pausa. — Como posso lhe chamar?

— Eu me chamo Ulquiorra Cifer — ele disse enquanto acariciava a cabeça de Goro.

— Sou Orihime Inoue. — Sorri, gentil.

— É, eu sei — ele disse calmamente.

— Sabe?! — Olhei-o confusa, só o tinha visto uma vez e não tinha como ele saber o meu nome.

Ele direcionou o olhar para mim e disse que poderia explicar, então me chamou para entrar em seu apartamento. Inicialmente, fiquei um pouco receosa, mas deixei esse pensamento de lado e comecei a acompanhá-lo.

— Desde que eu me mudei pra cá,  percebi que você vem me observando de sua janela. Aparentemente, você não percebia que eu podia te ver e quando houve a queda de luz, perguntei ao vendedor daquela loja quem era você — ele falou naturalmente, enquanto se sentava em uma poltrona. — Ele me disse que o seu nome era Orihime Inoue e desde pequena mora nesta vizinhança, devido a isso se dá bem com todos da região.

— Por isso mesmo estava te observando tanto, nunca havia visto você por aqui, mesmo já fazendo algumas semanas que se mudou pra cá. — Tentei me justificar. Parando para pensar, o que eu havia feito era até um pouco assustador.

— Eu não sou muito ativo durante o dia, a maior parte das atividades que faço são noturnas. — Ele deu um breve bocejo, provavelmente pelo o que disse, ele deve ficar a noite inteira acordado.

— De toda forma, devo me desculpar por ter sido tão inconveniente. — Senti as minhas bochechas esquentarem, baixei um pouco a cabeça, estava me sentindo constrangida por toda essa situação.

— Não tem problema, você não me parece uma ameaça.

— Obrigada. — Dei um pequeno sorriso. — Mas acho que já devo ir andando, eu devo está lhe atrapalhando, você deve estar cansado.

Dei alguns passos para trás e olhei ao redor. Observando o apartamento, a sala era um cômodo simples, porém grande o suficiente para comportar um piano de cauda, um pequeno sofá, a poltrona que ele estava sentado, uma TV e havia um video game conectado nela. A sala possuía cores frias e davam a impressão de que estava sempre escuro, talvez fosse por isso que parecesse não haver ninguém no interior do apartamento.

Ele se levantou e me acompanhou até a saída de seu apartamento. Embora o Ulquiorra-san parecesse ser uma pessoa reservada, eu gostaria de ter uma boa convivência com ele, então pensei rápido em algo que eu pudesse usar para nos aproximarmos.

— E-Eu estava pensando, há alguns dias eu estava ouvindo uma música da Elsa e escutei você me acompanhando.Perguntei se você gostava dela, mas acabei não recebendo nenhuma resposta — comentei um pouco envergonhada.

— Ela é uma das minhas cantoras favoritas e sendo sincero, eu não consegui ouvir você falando, o piano é muito alto.

— Ah, bem, ela é uma das minhas cantoras favoritas também. — Fiz uma breve pausa e olhei para o lado. — Sa-sabe, vai haver uma exposição sobre ela daqui a a-alguns dias… — Senti as minhas bochechas enrubrecerem novamente, estava com muita vergonha para terminar a minha proposta.

— E você gostaria que eu fosse com você?

Olhei para ele, aliviada por ele ter entendido e conformei com a cabeça. Goro deu um breve latido, fazendo-me lembrar de algo importante.

— Ah, sim! Antes que eu me esqueça, tenho que lhe dar o meu número. — Ri levemente sem jeito e depois citei os números para que ele anotasse na agenda do celular.

Desci as escadas do prédio e parti em direção ao meu apartamento, depois disso tudo, precisava sentar um pouco. 

Finalmente, o mistério do vizinho havia chegado ao fim e felizmente nenhuma das minhas teorias estavam corretas, embora talvez ele realmente fosse um compositor fugitivo, porém terei tempo para descobrir isso. Sorri perante essa hipótese e abri o portão, dando uma última olhada na janela do prédio vizinho.


Notas Finais


Para aqueles mais curiosos, o nome do gatinho do Ulquiorra é Hiromi.
Algumas cenas dessa fic foram inspiradas no filme "Medianeiras"
Espero que tenham gostado ^^ <3


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