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História Do You Wanna Dance? - Capítulo 3


Escrita por: e dudandthesurtos


Notas do Autor


Eai amadas tudo bom? Como vai a quarentena? Lembrem-se de lavar as mãos sempre e FICAR EM CASA!!!!!!!

Hoje todas pudemos ver que a Itz está com coronavirus, então pra deixar todo mundo mais tranquilo e feliz, lá vem vossa dose diária de DYWD

Estamos amando os comentários, as interações, vocês são demais e não perdem por esperar heheh! Continuem nos marcando, mandando memes, comentários, somos movidas a biscoito rs (@barcaythesurtos e @marquininha no tt ;) )

Até amanhã,

Barcelona&Cannes.

Capítulo 3 - Burning Love


Sergio há muito não acreditava em destino. Na verdade, há mais de 30 anos não acreditava em nada que não fosse empiricamente comprovável. 

 

E se havia outra coisa que Sergio Marquina não acreditava de jeito nenhum era amor à primeira vista. Definitivamente não poderia se apaixonar por uma pessoa a quem não conhecia os gostos e as opiniões, assim, de pronto, de uma vez - só de olhar. E, por isso, foi tão difícil ver Raquel ir embora de seu apartamento no dia anterior, sabendo que provavelmente estava perdendo uma oportunidade sem igual na sua vida - onde já se viu, achar um amor desses depois dos 40 anos. E nem pensava só no quanto o sexo tinha sido incrível de um jeito que ele nem se imaginava tendo de novo, ou no quanto tinha se acostumado tão rápido à presença dela naquele apartamento. Pensava na oportunidade que perdia de reter aquela sensação de conforto e quentura dentro do peito que foi vê-la nua e confortável à sua frente tomando café e rindo de uma piada tosca que ele tinha feito.

 

Ao tomar café naquela manhã de segunda feira, Sergio tinha ensaiado desculpas para poder pedir a Ángel o telefone dela, mas, ao julgar pelo jeito que ele tinha olhado para ela naquela festa, Sergio duvidava que o advogado o ajudasse nessa tarefa. Poderia procurar alguma rede social dela, mas para isso ele teria que criar uma e seria extremamente óbvio que ele só estava fazendo aquilo para alcançá-la. Assim, quando colocou os pés para fora do prédio naquela manhã, Sergio já tinha se conformado que nunca mais a veria, e que sua lembrança estaria reduzida a fios loiros caídos no chão de sua casa - que ele limparia antes do meio da semana, - e naquela bendita música do Van Morrison que ele nunca mais escutaria sem achar-se burro por ter perdido ela de vista para sempre. Mas no fim das contas acabou achando que era exagero, e foi andando ao trabalho mais lentamente do que de costume, tentando se convencer de que provavelmente só estava emocionado porque o sexo tinha sido muito bom. Ninguém se apaixona do dia pra noite, Sergio, ele podia ouvir Andrés lhe falando aquelas palavras. Nesse momento, a última coisa que queria era ouvir seus colegas lhe perguntando sobre como tinha sido com ela. Não falaria nada - nem do nome, nem do sexo, e muito menos do Van Morrison. Iria se abster dos detalhes, até que se esquecesse deles. 

 

No entanto, quando passou pela porta do elevador do prédio onde estava instalada a empresa  Piñero Marquéz LTDA, Sergio voltou a acreditar em algo maior do que ele. Acaso, destino, Deus… ele só sabia que algo que não podia explicar tinha colocado Raquel em seu caminho de novo, e não pode evitar o sorriso quando a viu tão bonita usando aquele terno - e sua cara de espanto.

 

"Oi"

 

"Oi"

 

Raquel.



 

"Cê tá de sacanagem, né?" Ela logo disparou, o tirando de seu transe com o sorriso bobo.

 

"Eu juro que não" Ele declarou sincero levantando as mãos em legítima defesa.

 

"Você não me seguiu?"

 

"Não??"

 

Raquel rolou os olhos querendo não acreditar no que estava acontecendo.

 

"Você trabalha aqui?!" Ela disparou mais uma vez.

 

"Ué, sim. Sou diretor do departamento financeiro da Piñero Mar-"

 

"Merda."

 

Raquel apenas respirou fundo, massageando as têmporas em busca de qualquer paz interior. Deus, destino ou qualquer merda que fosse, tinha definitivamente decidido atazanar sua vida.

 

"Que bacana, que bacana… e qual é o seu andar?" Ela perguntou já temendo a resposta.

 

"Oitavo." 

 

Outro suspiro. A vontade que ela tinha era de gritar e pedir para a tal maldita Força Maior a levar dali de vez. Será possível que Raquel Murillo não teria um segundo sequer de paz nessa vida?! Era seu primeiro dia de trabalho, era sua nova chance e então… puff. Teria que encontrar com o gostosão da festa do Ángel todo santo dia dali pra frente, tendo que, além de futuramente lidar com estresse - Deus, só ela sabia o quão difícil era advogar em firmas - lidar também com o fato de ter, mais uma vez, dormido com um cara do trabalho.  Enfim, FOCO. Era tudo o que ela precisava. 

 

Não obstante, ainda teve sua mísera tentativa de focar perturbada quando viu que Sergio parecia se deleitar com sua angústia a olhando como se fosse devorá-la bem ali.

 

"Para de me olhar assim!"

 

"Assim como?!"

 

"Como se você estivesse me vendo pelada."

 

Sergio gargalhou. Era, provavelmente, o dia mais feliz de seu ano.

 

"Isso não devia ser um problema, já que você mesma fez questão de ficar andando pela minha casa desse jeito"

 

"Shii…" Raquel fechou os olhos e levantou a mão, mandando-o se calar "Não fala… Só, não fala."

 

Sergio sorria desenfreado, as mãos nos bolsos e os pés inquietos. O elevador nunca demorou tanto tempo para chegar ao seu destino. 

 

"Sério que você trabalha no mesmo lugar que o Ángel?"

 

"Sim, por isso ele me chamou pro aniversário. Não tinha percebido?"

 

"Claro que não. Puta merda, os seus amigos trabalham aqui também?"

 

"Sim" ele disse olhando pro chão, sorrindo.

 

"Puta que me pa-"

 

As portas do elevador se abriram e ele se apressou para sair, não sem antes sussurrar ao ouvido dela: "Se precisar de qualquer coisa me liga."

 

Raquel podia jurar que sentia seu sangue borbulhar e, aproveitando no último segundo, Sergio acrescentou:

 

"Seja bem vinda!" disse já de costas saindo do elevador e indo em direção a sua sala.

 

E é claro que Raquel foi pro outro lado, batendo os saltos tão fortes no piso que podia furar o chão. Que linda maneira de começar o dia.




 

Sergio estava nas alturas, tinha a sensação de que seus pés nem tocavam no chão. Qual era a possibilidade de ela aparecer para trabalhar na mesma empresa e no mesmo andar que ele? E junto a isso, qual era a possibilidade de ela estar justo no elevador que ele ia pegar naquele dia? Se ele tivesse chegado mais cedo, se ele tivesse chegado uns dois segundos mais tarde… Essa possibilidade era uma em um milhão. Uma em um trilhão.

Ele caminhou com as mãos nos bolsos sorrindo abertamente, dando bom dia para as pessoas que já tinham chegado. 

 

Não encontrou Monica, sua secretária, na mesa, que ficava na frente de sua sala e perto do café. Sergio logo sentou-se à sua mesa, e tirou seu telefone do bolso, pensando em mandar uma única mensagem para Andrés, só para que ele soubesse do que estava por vir. O andar do Marketing era o logo abaixo, o sétimo, e bastava uma mensagem para que Andrés se tropeçasse pelas escadas só para ver de onde vinha a fumaça e, consequentemente, a fogueira. Mas pensou melhor, por mais uns segundos, e tentou formular estratégias em sua cabeça. Ela verdadeiramente parecia irritada com ele quando o viu, e ele bem podia imaginar o porquê. Devia ser extremamente desconfortável chegar para trabalhar num lugar novo e dar de cara com a pessoa com quem transou nem 24h antes, e saber que teriam que se ver todos os dias a partir dali. Para Sergio, era a realização de um desejo obscuro - vê-la novamente e não deixá-la escapar como no dia anterior. Mas para ela deveria ser só um grande pesadelo. Ele respirou fundo e colocou o telefone sobre a mesa, e sorriu bobamente pensando que o universo tinha lhe dado uma chance, então decidiu que iria se divertir e aproveitar esse pouquinho de sorte naquela segunda feira de manhã. E não pode evitar uma risada nervosa quando sentiu um ligeiro arrepio no corpo lembrando que àquela hora, no dia anterior, ele dormia na mesma cama que ela.

 

Era um tolo se tinha duvidado da existência de algo maior, afinal.

 

Pela primeira vez em muito tempo Sergio teve vontade de largar toda a projeção monetária que tinha em pilhas e pilhas pelo setor do financeiro e apenas dar uma volta pelo outro lado do salão para dar uma olhada no jurídico. A realidade era que os dois setores se odiavam. Um ódio tão forte e banal que fez a direção geral do prédio ter que colocar outra máquina e espaço de café separados - para evitar discussões no meio do expediente - , que se tornaram a sensação do prédio inteiro já que todos os litros de café consumidos naquele andar eram de altíssima qualidade - e gratuitos aos funcionários.

 

O financeiro ficava do lado esquerdo a saída do hall dos elevadores. No salão enorme do oitavo andar não havia muitas portas ou salas para, como dito pelo RH, 'estimular a convivência entre os setores'. O que era, para Sergio, apenas uma estratégia fajuta de marketing, vide que o financeiro e o jurídico nem tinham tanto contato assim devido às funções quase que opostas dentro da empresa. Por ser uma empresa de distribuidoras de filmes, e era responsável pela administração das maiores distribuidoras tanto nacionais quanto internacionais, as paredes que não eram janelas eram tomadas por posters de filmes famosos que foram lançados pelas salas de cinema Piñero Marquéz LTDA mundo-afora. Essas eram as paredes mais bonitas para Sergio. Poder conciliar sua profissão que tanto gostava quanto um de seus maiores prazeres pessoais de ver e apoiar filmes era extremamente gratificante. Agora sabendo que iria encontrar com Raquel todos os dias naquele lugar deixava tudo ainda mais fascinante. 

 

Havia 3 salas de reunião pelo andar inteiro: Uma de conferências, outra de multimídia e a última de projeções. As 3 eram espalhadas pelo andar, com uma do lado esquerdo perto da sacada, outra no meio ao lado da sala de Ángel - que é o diretor do jurídico - e outra ao lado da sala de Sergio - que era o diretor do financeiro -. Os outros funcionários tinham espécies de cubículos sem paredes - apenas uma mesa com um desktop, um cabideiro para pendurar bolsas e casacos e algumas gavetas na escrivaninha para guardar outros objetos pessoais e/ou documentos. 

 

Do "lado de cá", ficava 'A Banda'. Chefiados por Sergio, o lado direito do oitavo era preenchido por dois cubículos de 4 pessoas, que formavam os dois sub-times do setor: o ADMF chefiado por Ágatha - Administração de Finanças, lida com projeções orçamentárias, fechamentos de campanhas e verificações de alto custo - e a GM chefiada por Yashin- Gestão Monetária, cuida da gerência de riscos em transações, verificações de PNL (qualidade/custo de produtos) e, quando necessário, suporte nas projeções orçamentárias -. Como líder há muito tempo, chefe exigente altamente detalhista e dono de broncas homéricas, os membros da Banda apelidaram Sergio carinhosamente de 'Professor'. Era ele que fazia a vista grossa de tudo o que entrava e saia do departamento, tendo sua sala sempre cheia de papéis, infográficos, louzas com cálculos gigantescos e muito trabalho. 

 

O "lado de lá" como se referiam os outros membros do financeiro, era onde ficavam os funcionários do outro departamento, que se autodenominava 'A Carpa'. Todos os funcionários da carpa eram homens, brancos, de classe média alta que moravam no centro da cidade e assistiam futebol todo domingo, ou, segundo Ágatha, 'o pior tipo de homem'. Suárez, Antoñanzas e Ángel eram o 'trio de elite' que comandava o setor com unhas e dentes, sempre falando alto, reclamando das ações da bolsa sem saber nada de economia e a jogar indiretas sobre o financeiro durante o intervalo do café. E foi esse lado que Raquel foi imediatamente conhecer após sair do elevador cuspindo marimbondos.

 

Ángel a recebeu em frente a sala de reuniões de conferências. Ele carregava uma pasta branca grossa - que ela deduziu já ter algumas coisas para ela se ocupar -  e um copo de café, além de, claro, um sorriso enorme no rosto por vê-la. 

 

"Raquel! Seja bem vinda à Piñero Márquez" Ele exclamou enquanto a abraçava, a deixando mais calma e um pouco sem jeito. Você não é a primeira pessoa que me disse isso hoje, ela pensou.

 

"Obrigada, Ángel" Ela respondeu com outro sorriso um pouco mais genuíno. "Então, por onde eu começo?" 

 

"Por aqui, vou te apresentar ao pessoal da Carpa e mostrar o andar."

 

Ele foi andando na frente, a deixando um pouco para trás. Mostrou a sacada onde o pessoal costumava fumar, a ala da copiadora, o espaço do café e finalmente onde seria sua mesa no canto direito do andar. Era um cubículo junto a mais 3, que faziam visão a uma enorme parede de vidro e a sala de Ángel ao fundo. No que Raquel deduziu ser sua mesa, tinha seu crachá para que pudesse transitar pelo prédio, algumas balinhas que o pessoal do RH dava de boas vindas e um post-it dizendo 'Bem vinda a Carpa, Vice Diretora!'. Atrás de Ángel surgiram outros dois homens trajados de terno, um segurando uma florzinha que ela não soube dizer de que tipo.

 

"Raquel, estes são Suárez e Antoñanzas, que também trabalham conosco aqui na Carpa. O Suárez cuida da subseção de acordos tributários, e o Antoñanzas é gerente de contratos."

 

Ela se lembrava de ter conhecido um deles na festa, e se sentiu corar ao perceber que fora Suárez que ela dispensou com uma desculpa esfarrapada para ter o que conversar com… Bom, não importava. Suárez lhe entregou a flor e ela agradeceu com um sorriso. Antoñanzas a cumprimentou um pouco desajeitado, a fazendo retribuir da mesma forma. 

 

"Obrigada, gente! Muito obrigada!" Ela disse ainda sorrindo enquanto colocava a flor na mesa, deitadinha. "Onde é o banheiro?" 

 

"Ah, fica ali depois da sala de multimídia… vamos lá vou te apresentar pro outro departamento." Ele ofereceu gentilmente e Raquel gelou. 

 

"Ah, sim, o outro departamento… não precisa não, eu vou ao banheiro depois e-"

 

"Não, não, é rapidinho! Precisamos mostrar pro pessoal do Gafitas que nossa galera ganhou reforços!" Declarou Suárez claramente empolgado. 

 

"Gafitas?"

 

"É o banana do financeiro… " Explicou Antoñanzas 

 

"Chato pra cacete, tá sempre dando piti por causa de número que entrou, número que saiu, volta e meia vem aqui dar pitaco em algum processo que não foi protocolado e acabou movendo uma vírgula por lá..." Suárez complementou.

 

Raquel nem notou que, enquanto seu novo time a contava as fofocas, os quatro foram andando de seu confortável e isolado cubículo até o outro extremo do andar. Daquele lado havia quadros e mais quadros com gráficos coloridos, documentos abertos, dashboards com rascunhos e contas não terminadas, e tudo aquilo antes das 10h da manhã. 

 

"Puta merda." Foi o que ela ouviu antes de ver uma mulher loira de cabelos cacheados e muito bem arrumados derramar o que pareciam ser 4 copos de café no carpete branco do oitavo andar. A loira encarou os homens da Carpa um pouco perdida, sem saber o que fazer, e logo chegaram mais duas pessoas - uma mulher e um homem que parecia ter uns 2m de altura - que pareciam ser também do financeiro, atrás dela, além de, claro ele.

 

A outra mulher estranhamente familiar começou a rir parecendo incrédula, e logo levou todos os outros presentes a se juntarem em uma gostosa gargalhada. Sem entender muito do que acontecia, Raquel permaneceu estática tentando ao máximo não encarar Sergio, que estava vermelho como um pimentão maduro.

 

"Fala Gafitas! Já conheceu a nossa nova Vice Diretora?" Antoñanzas disparou.

 

Ahá, então Gafitas era Sergio? Hmm… Agora Raquel riu, finalmente entendendo. Sergio ajeitou os óculos forçando um sorriso.

 

“Vocês chegaram a se encontrar no meu aniversário, não?”

 

“Sim, sim” Sergio sorriu, simpático a ela. 

 

Raquel cumprimentou o homem de barba espessa a sua frente e segurou a respiração, olhando firme para o seu rosto. Focou nos olhos travessos por trás dos óculos, do riso fino que ele tentava disfarçar na boca e percebeu que do lado esquerdo de seu pescoço, meio encoberta pela gola da camisa, a marca meio avermelhada que ela tinha deixado em sua pele ainda estava ali. O contato das duas mãos fez Sergio se arrepiar, mas não poderia estar mais contente. Apertou a mão dela de leve, e não pôde evitar o pensamento de que menos de um dia atrás tinha entrelaçado as mãos às dela e as tinha segurado enquanto ela se derramava em sua boca. Raquel estreitou os olhos, decerto lendo a malícia nos olhos dele, e soltou a mão da dele rapidamente. Ah, Raquel…

 

“Raquel...”

 

A mulher forçou um sorriso, ao mesmo tempo que colocava uma mecha de cabelo para trás da orelha.

 

“Raquel Murillo” Ela cruzou os braços, como se estivesse se abraçando - claramente tentando se proteger de qualquer coisa que poderia vir dele - “Mas… Não me recordo do seu nome, desculpe”

 

O rosto de Sergio passou de confiante para divertido e, naqueles segundos em que ele buscou algum divertimento também no rosto dela e não encontrou, murchou para uma completa falta de jeito. Ele queria que ela estivesse brincando, mas pelo seu olhar, ela não estava. Fossem os risos de Ágatha ali atrás, ou a certeza de que depois Andrés apareceria para caçoar dele, Sergio soube que tinha sido um erro provocá-la. Afinal, numa disputa com plateia, ele certamente sairia perdendo. Coçou a garganta, disfarçando a vergonha.

 

“Sergio, Sergio Marquina.”

 

“O chefe do lado de lá, mas você pode lhe dar ordens e gritar o quanto quiser, que você só se reporta a mim” Ángel disse, querendo fazer graça, e não notou que Raquel abrira a boca sem reação alguma, quando os olhos de Sergio encontraram os seus e as ideias de “dar ordens” e “gritar”, naquele momento, não lhe parecessem engraçadas, somente embaraçosas. 

 

“Ah, sim?” Ela olhou para os pés, e Ágatha, que até agora ria baixinho com Yashin, se aproximou.

 

“Acho que nos conhecemos na festa, também, sou Ágatha” Ela disse, se metendo no meio de Sergio e Raquel - o que a mulher agradeceu internamente. Ah, a cumplicidade feminina. 

 

“Eu me lembro, sim.” Disse, sorrindo, não notando a expressão indignada que apareceu e morreu no rosto de Sergio no mesmo momento.

 

E, a partir dali, Sergio não ouviu mais. O desencanto lhe pareceu completo, se sentindo um idiota. Era óbvio que ela não lembraria dele, tudo tinha sido, o quê, o acaso? Ele não podia acreditar. Quando finalmente começava a crer em algo maior, quando sentiu uma pontadinha de esperança, a realidade lhe atingia. Nem era grande coisa, só um caso de uma noite que ele achou que potencialmente poderia ser mais alguma coisa só porque ela, por acaso, apareceu para trabalhar ao seu lado. O mundo real não é uma comédia romântica clichê, cariño. Estranho que até podia ouvir aquelas palavras saindo da boca dela. Sergio permaneceu em silêncio, olhando para um ponto no infinito, se sentindo entre em um looping de emoções que não levariam a lugar nenhum. 

 

"Com, licença, eu preciso… tenho o que fazer. Bom dia, e seja bem vinda, senhorita Murillo." Disse baixo, ajeitando os óculos e indo o mais rápido que podia sem parecer desesperado até sua sala.

 

Raquel - assim como o resto das pessoas ali presentes - não entendeu o que aconteceu, mas também não tinha tempo para aquilo no momento. Precisava começar seu primeiro dia como Vice Diretora e fazer o que tinha vindo para fazer: um bom trabalho. 




 

O trabalho daquela manhã ficou esquecido em cima da mesa, os números não teriam sua atenção enquanto Raquel ainda rodasse em sua cabeça. Agradeceu internamente por não ter enviado mensagem alguma a Andrés, que às estas horas estaria caçoando dele daquele desconforto bizarro de mais cedo. Sergio nem sabia porque se sentia tão inquieto; na verdade, nem era como se ele tivesse levado um pé-na-bunda. Ele já tinha aceitado que nunca mais iria vê-la, ter encontrado com ela poderia ter sido só uma simples recompensa do destino ou - o que achava ser mais real agora - mais uma provação em que teria que aprender a lidar com todas as expectativas e frustrações dentro de si mesmo. Não era culpa dela, ela tinha sido bastante clara quanto ao que se passou. 

 

Então, ainda assim, porque esse aperto no peito?

 

Sergio tentou respirar fundo mais de uma vez, esperando que quando expirasse a sensação fosse embora. Como nada pareceu mudar, Sergio decidiu que falar com ela seria a melhor solução: porque evitaria futuros desconfortos como esse, e ele não tinha mais idade nem tempo para desconcentrar-se do trabalho por causa de um caso interpessoal mal resolvido. Por mais que ela fosse linda - e muito linda - ela era só mais uma pessoa com quem ele acabou cruzando e que, por acaso, veio a trabalhar no mesmo local que ele. 

 

Estava decepcionado, claro, mas não podia culpá-la por não agir da forma como ele pensava que agiria. Assim, quando a hora do almoço chegou e ele se esgueirou para a porta de sua sala percebendo a movimentação do outro lado do escritório, seus olhos logo procuraram seus cabelos loiros. Ela parecia mergulhada em seu próprio mundo, mexendo no telefone e jogando a bolsa nos ombros enquanto se levantava. Sergio andou a passos largos em direção aos elevadores, e Raquel imediatamente percebeu que era ele que se aproximava. Enquanto seus olhares se cruzaram, num misto de apreensão e constrangimento, Andrés abria a porta da escadaria de incêndio e observava aquela cena absolutamente desconfortável. Sergio dirigiu os olhos a ele, e era óbvio que a única razão pela qual seu irmão tinha subido ali naquele horário era se alguém - que ele sabia muito bem quem era -  o tivesse avisado da nova “atração” da Piñero Marquéz. 

 

“Boa tarde, senhores. Raquel… “ Ele ofereceu a mão a ela. “Bem vinda." Disse Andrés a loira, sem tirar os olhos dos dela. 

 

Ah, Deus, mais um…, ela pensou, bufando ligeiramente e vendo Andrés gargalhar. O mirou com um olhar de cala-a-boca-se-não-quiser-um-chute-em-você-sabe-onde e ele logo parou.

Sergio interrompeu o momento para a felicidade de Raquel, e a olhou quase suplicante.

 

“Podemos conversar sozinhos em um minuto, por favor?”

 

Raquel respirou fundo e pensou rápido. Só uma conversa, ele pareceu chateado antes então não deve ser nada demais. "Ok."


 

Quando Sergio fechou a porta de sua sala, Raquel já estava do lado oposto, com os braços cruzados. Quando entrou, ela pode perceber que era um ambiente que tinha mais a 'cara dele' - se é que ela realmente sabia o que isso era. 

 

“Eu-” 

 

Sergio levantou um dedo, como se anunciasse sua fala.

 

“Desculpe se pareci um perturbado que te seguia, mas não é razão para me evitar. Eu não tinha como prever essa situação.” Ele explicou colocando as mãos nos bolsos.

 

“Não estava te evitando” Ela pareceu engolir as próprias palavras.

 

“Então de verdade não se lembrava do meu nome?”

 

Raquel soltou uma risada fraca, soltando os braços. Era sobre isso?

 

“Jura que essa é a sua preocupação?”

 

“Não-” Sergio encostou-se na mesa. “Eu… Não esperava te encontrar aqui também, ok? Pra você é desconfortável porque não conhece quase ninguém, pra mim é desconfortável porque conheço todos há anos.”

 

Sergio” Ela disse, chegando mais perto, mas não tanto. “Isso só vai ser um problema se tornarmos ele um problema, certo?” Ele a olhou no fundo dos olhos e ela quis fazê-lo acreditar em cada palavra. “E é claro que eu me lembrava do seu nome, eu quis fazer uma brincadeira e você já ficou todo melindrado, não sabia que você não era bom com sarcasmo…” ela mudou o tom em poucos segundos e ele teve certeza que esse era um dom que só ela tinha. 

 

E, pela primeira vez, Sergio expirou e a sensação foi embora. E começou a rir, acompanhado dela logo em seguida.

 

“Acho que eu só perdi o rumo por um momento.”

 

“Tá tudo bem.”

 

“Não me entenda mal, eu só não estou acostumado a dormir com mulheres de quem eu não sei absolutamente nada.”

 

“Eu entendo, eu não faço isso com homens, geralmente, mas você não me deve nada...”

 

“Inclusive…” Ele saltou de onde estava apoiado e se pôs na frente dela “Eu fiquei preocupado porque eu percebi tarde demais que não tínhamos usado nenhum tipo de…”

 

“Proteção, sim.” Ela já parecia mais leve quando proferiu essas palavras, como se tivesse guardado isso no peito pelo tempo que estava a frente dele. “Eu tomo anticoncepcional e na minha cabeça embriagada eu devo ter pensado ser suficiente…”

 

Sergio riu, mais aliviado desta vez. “E como eu não tinha como saber nada de você eu já até liguei pra minha ginecologista e ela disse que vai me receitar daqueles coquetéis, sabe, então sem problemas se…”

 

“Nossa!” Ele falou mais alto do que ela. “Não se preocupe por isso, por favor, eu juro que…”

 

“Que o que?”

 

“Que estou limpo. Não precisa tomar nada…”

 

“Você jura?” Ela o encarou com as sobrancelhas levantadas.

 

“Juro.”

 

“Se estiver mentindo e eu pegar uma infecção que seja…” Ela levantou um dedo para ele, mas seu tom era mais divertido do que de ameaça.

 

“Estou confiando também em você, Raquel.” Sergio levantou as duas mãos, como se pedisse cautela.

 

“Muito bem…” Ela cruzou os braços de novo.

 

“E uma última coisa: sei que seu primeiro dia não está sendo o mais confortável do mundo, então posso, pelo menos, pagar seu almoço? Eu realmente gostaria de, eu mesmo, reparar esse mal-estar e o mais depressa possível."

 

Raquel ponderou, analisando-o de cima abaixo. Ele não parecia alguém que mentia ou manipulava as pessoas, suas habilidades sociais deviam estar bem aquém da maioria, via-se no seu nervosismo latente, o tique dos óculos, as mãos que tremiam, os pés inquietos enquanto a encarava… Não faria mal algum, certo? O “erro” já tinham cometido mesmo, de que adiantava ter vergonha? Mas teria de ficar para outro dia.

 

“Hoje não vou ter esse gap de almoço, ainda preciso ir no RH entregar um resto da papelada de admissão, mas podemos fazer isso amanhã, se ainda te interessar.”

 

Sergio se aproximou bem lentamente e Raquel olhou rápido pela sala procurando todos os lugares em que poderiam se apoiar caso ele a beijasse.

 

“E se usarmos esse seu horário da médica, que felizmente está vago, para jantar depois do expediente?” Ela estreitou os olhos, desconfiada. “Te juro que é na melhor das intenções” Ele levantou as mãos novamente.

 

“Muito bem” Ela arrumou a bolsa no ombro. “Te mando uma mensagem dizendo o horário que saio e você manda o nome do restaurante.”

 

“Combinado.” Sergio estendeu a mão e ela prontamente a apertou, como se fechassem um acordo.

 

E, assim, resolvidos, ficaram se encarando por eternos segundos; ele sem poder evitar o sorriso satisfeito, ela sem saber para onde olhar que não fosse a marca vermelha de sua boca no pescoço dele. Nem aparece tanto, mulher, porque está tão obcecada por isso?

 

Sergio abriu a porta da sala e ela sorriu brevemente antes de sair rápido com os saltos estalando no chão, para bem longe dele. Ele se apoiou no batente da porta a olhando se distanciar, tão fissurado em suas curvas que não notou Andrés sentado na mesa de Monica, de braços cruzados, olhando de modo travesso ao outro diretor.

 

“Sabe quem teria uma ótima música para esse momento?” O irmão provocou.

 

“Andrés, agora não.” Sergio voltou a sustentar uma expressão dura no rosto, entrando novamente em sua sala para buscar o telefone e a carteira. Não desgrudaria daquele celular pelo resto do dia.

 

“Elvis, meu querido, Elvis! Só ele pra descrever esse momento tão…” Ele respirou fundo enquanto apoiava as mãos nos ombros do irmão. “Sublime.”

 

“Para de besteira.” Sergio se desvencilhou dele e caminhou para fora da sala.

 

 Your kisses lift me higher

Like the sweet song of a choir

You light my morning sky

With burning love

 

Sergio teve de aguentar Andrés cantarolando Elvis durante o almoço todo, mas tentou não se importar. Seu coração tinha suportado muitos altos e baixos em um curto período de tempo e sentir raiva do homem à sua frente tampouco seria mais saudável.

 

Engoliu a comida quase sem sentir o gosto, o telefone ao lado do seu prato, de prontidão.


Maldito Elvis, ele pensou, É realmente uma boa trilha sonora.


Notas Finais


ai eu amo serquel na fase início de um sonho e eu amo ainda mais as músicas boiolas que a gente tem que usar pra esses acontecimentos.................


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