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História Doce Sorte - Capítulo 2


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Notas do Autor


Tenha uma ótima leitura e obrigada por ler <3

Capítulo 2 - Consequências


Fanfic / Fanfiction Doce Sorte - Capítulo 2 - Consequências

Súcubo (em latim succubus, de succubare) é uma personagem referenciada pela cultura pop e mitologias como um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital.

O súcubo se alimenta da energia sexual dos homens e coleta seu para engravidar a si mesma ou a outros súcubos, e quando invade o de uma pessoa ele toma a aparência do seu desejo sexual e suga a energia proveniente do prazer do atacado. As súcubos tendem a ficar mais fortes e mais frequentes em épocas de transição de lua cheia, com isso ficando mais descontroladas e mais sedentas.

Bloqueei a tela do meu celular e o deixei por cima do meu peito, depois massageei minhas têmporas enquanto suspirava. Eu havia desbloqueado o aparelho e estava aberto exatamente nesta página do Google, na Wikipédia. Acho que eu pesquisei isso em algum momento na faculdade graças ao pesadelo e me esqueci, sei lá, ou o FBI está acompanhando toda minha vida ouvindo tudo que eu digo pelo microfone do aparelho e, em forma de entretenimento, pesquisaram isso no meu celular e deixaram propositalmente para agora os agentes estarem em uma sala rindo da minha cara de idiota. Acontece.

Esse foi um dos primeiros surtos que tive assim que despertei ainda no estado caótico de embriaguez de morto vivo, onde meu corpo não sabe se está acordado ou sonhando. E quando me forcei a me sentar na cama e meus pés tocaram o chão, acho que meu primeiro pensamento lúcido deveria ser do ruído irritante de alguma espécie de roda barulhenta que vinha de trás daquela porta, ou então me perguntar se realmente estou nos EUA e não em solo Russo, já que o chão parecia a ponta de um iceberg de tão frio.

Mas o que meu cérebro achou coerente ir em disparo para pensar primeiro?

Nela.

É sério, eu sou o ser humano mais gentil e bondoso da face da terra, eu tenho que ir para o céu, não, tenho que ganhar um Oscar! Porque sinceramente, acordar completamente acabado; fragmentado; destruído num hospital com o corpo todo dolorido e a primeira coisa a se pensar é na vizinha que nem o nome sei, é muita bondade pra uma pessoa só.

Bom, eu acho que estou no hospital, né, quer dizer, tem vários fios embutidos na minha veia... Devo me preocupar se isso não for realmente um hospital?

Olhei para o lado e havia outra cama junto com um soro ao lado e uma mulher deitada. Ah, um amontoado de fios  loiros espalhados pelo travesseiro foram o suficiente pra me fazer sentir um arrepio gélido percorrer por toda minha espinha dorsal e de tão forte me fazer tremer os ombros. 

Eu, que estava acordando aos poucos, caí de paraquedas de volta na realidade. Tudo que me era muito vago, lembrei "misteriosamente" agora. O trauma foi tão forte que tenho até medo de pensar nela e estar com ela consegue ser pior que sexta feira 13, Halloween e meu pai muito irritado... Tudo isso no mesmo dia. Sim, até seria exagero meu se eu não estivesse agora num hospital depois disso tudo.

(PS: Eu constatei que é um hospital realmente por que tentei me levantar e só nesse mero movimento descobri que a roupa hospitalar é algo inconfundível por que te dá a possibilidade de sentir o vento frígido com a parte de trás do corpo. Também descobri como foi bom a Succubus estar apagada, se não ela teria uma visão... Bem... Deixa para lá).

Depois que ela desmaiou no apartamento e eu tentei acordá-la na esperança de não complicar mais a minha situação na frente da síndica e proprietária; ela resolveu não dar nenhum sinal de vida como se fosse um cadáver só para acrescentar mais na minha imagem de se não bastasse pervertido, agora possível psicopata ou assassino.

Mas fora isso, depois de muito tentar acalmar a proprietária que gritava muito enquanto jogava baldes e baldes de água querendo transformar o apartamento da loira em Titanic, chamaram os bombeiros e a ambulância e, por piedade, não chamaram a polícia também. E parece que os paramédicos tiveram pena e me trouxeram junto já que nem eu estava bem. Estar bem... O que é isso mesmo?

– Então finalmente acordou! - Eu me assustei tanto com a presença da enfermeira que me tremi por breves segundos igual um peixe asfixiado fora d'água. Sabe, bater na porta não mata, na verdade, previne matar os pacientes. Ela nem ao menos esperou a minha resposta, apenas se aproximou de mim já me examinando. - Parece que está melhorando... - Ela murmurou com um estetoscópio invadindo minha roupa hospitalar e tocando o meu peito. Sussurrou para que eu respirasse fundo algumas vezes e, depois de terminar o check-up, ligou o abajur do meu lado e sentou-se numa cadeira que até então não estava no meu campo de visão. - Então, o que está sentindo?

– Provavelmente tudo que não devia. - Ela sorriu para mim e internamente agradeci. É até legal manter contato ''social'' com pessoas normais, mas ainda sim prefiro um livro. - Meu corpo todo dói, minha cabeça também e às vezes sinto que um caminhão passou por cima de mim. Fora a febre e essa sede que não passa. - Ela levantou sua prancheta e ficou folheando e lendo algo, enquanto que eu só olhava para maca atrás dela onde a loira está. - Eu não sei, também tenho a leve sensação de estar um pouco dopado. - Eu falei no meu tom normal, mas saiu num sussurro arrastado.

– Isso é normal já que te demos um pequeno coquetel e ainda não fez efeito totalmente.

– Aliás, eu estou apagado a quanto tempo? - Tá, eu confesso que sempre quis dizer isso, sei lá, é tão livro!

– Há cinco horas mais ou menos. Ah, provavelmente sua imunidade só caiu, quanto a sede, vou aplicar outra dose do soro, assim vai te saciar. Mas, olha... - Em momento algum ela havia parado de ler as folhas da prancheta enquanto falava, só agora que olhou em meus olhos. - Você, de longe, está muito melhor que ela aqui. - Apontou com o dedão para atrás de si, onde a Succubus está.

– O que ela tem?

– Suspeitas de Pneumonia. Houve um incêndio, né? É bem comum vítimas de incêndio dentro de algumas horas demonstram sintomas de pneumonia. - Eu sei que ela inalou muita fumaça já que desmaiou lá dentro enquanto o fogo ainda se alastrava e crepitava tudo, mas eu tenho total certeza que não foi por isso!

– Sim, ela inalou muita fumaça, mas ela já estava mal antes do incêndio, na verdade, ele só aconteceu por que ela estava com febre e eu resolvi cozinhar algo para ela e... Me distraí... - Engoli à seco quando pensei no motivo da minha ''distração''. Depois ela me perguntou se eu realmente tinha certeza e eu assenti.

– Certo, então as coisas mudam um pouco... Você vai ficar 24 horas em observação. Mas fora isso, está tudo okay, já a sua namorada vai ter que ficar mais alguns dias internada.

Não conseguia falar, me mexer, muito menos negar o ''sua namorada''. A essa altura do campeonato, isso já é o menor dos problemas, o principal problema era que eu estava sonolento, mas não o suficiente para dormir de uma vez. A médica percebeu minha sonolência e havia saído do quarto, enquanto que eu fiquei aqui me remoendo por que não trouxe meu carregador comigo?!

24 horas... Eram 24 horas que eu podia passar lendo algum livro digital sem ter que me preocupar em ter que me alimentar ou me nutrir, o soro estava ali para isso... E ainda teria atestado médico para o trabalho!

Como eu desperdiço uma chance dessas?!

////

Eu nunca achei que iria passar dia 3 de dezembro, o segundo dia de minhas férias que tanto cobicei por meses, em observação por 24 horas em um hospital. Sinceramente, não faço a mínima ideia de o que eles poderiam descobrir de uma pessoa dormindo praticamente o dia todo. Bom, que a minha saúde é uma porcaria isso eu já sei; eu fui sortudo o suficiente de nascer com asma e uma doença rara que compromete bastante o meu corpo, mas, pelo visto, não foram só essas doenças, ontem eu descobri que devo ter mais alguma outra doença rara ou que o tipo de animal acéfalo que eu sou ainda não foi descoberto, por que quem em sã consciência consegue colocar fogo, FOGO, no apartamento da pior pessoa possível de Boston? Sério, eu não me perdoarei nunca!

Mas fora isso, eu voltei para casa no dia 4 e conversei com meu chefe e ele me deu o dia de folga. Praticamente passei a tarde toda alternando entre a cama e cozinha, onde fazia sopas e vitaminas. Assim que passei a primeira noite em minha saudosa cama, não sei descrever o quão reconfortante foi acordar no dia seguinte e não ter uma vizinha às 07 da manhã gritando coisas... Adoráveis.

Me sinto mal por ela estar hospitalizada e a culpa ser parcialmente minha? Talvez

E resolvi tirar o dia 5 de dezembro para relaxar, afinal, eu mereço férias da sociedade! Escolhi não ficar o dia todo lendo algum livro que abordasse um tema religioso e até as 03h da madrugada, não, como estou querendo relaxar eu não sou tão estúpido assim, e também não vou cometer o mesmo erro duas vezes, escolhi dessa vez  descansar bastante a mente apenas; por isso eu optei por ler um livro sobre um filósofo do período clássico da Grécia Antiga, Platão, por que é assim que se relaxa!

Não sei se tem algo haver com isso de consciência pesada, mas assim que terminei o livro Alegoria da Caverna, eu fui dormir e sonhei que eu era um homem das cavernas que nunca ia ver o lado de fora, ficava somente dentro da caverna, e o sonho estava muito filosófico e de extremo aprendizado interno, até que em tudo desandou quando chegou uma mulher das cavernas loira e botou fogo naquilo tudo rindo. Não sei por que, mas senti uma raiva familiar e saí da caverna de braços cruzados chutando o chão.

Enfim, minha imaginação é formidável.

Bom, fora o pesadelo o meu dia está relativamente normal. Agora eu estou aqui dentro do carro preso em um engarrafamento eterno, já ouvi música, batuquei no volante, muito aleatoriamente me recordei das vergonhas alheias que passei em 2013, roí unha, saí do carro só pra esticar as pernas e depois voltei. Agora estou aqui com a mão no queixo enquanto olho para o céu e refuto o que me motiva a perder horas da minha vida quase todo dia em um engarrafamento. O que me trouxe há essa enorme avenida? O capitalismo? Emprego? Dinheiro? Necessidade ou escolha? Afinal, o que é o livre arbítrio? O que é que chamamos de vida, se na verdade, vid-

Opa, o carro da frente finalmente andou!

Eu fiz o que pude, mas cheguei com uma hora de atraso. Bom, tomara que não percebam. Atravessei o bar tentando 1) não pisar em nenhum vômito, 2) não esbarrar em ninguém e 3) não tropeçar nos fios do som e acabar com a música e consequentemente receber vários olhares mortíferos de todas as direções possíveis.

Isso com certeza nunca aconteceu.

– Luckin! Ela vai comer teu fígado! - Uma das funcionárias cochichou no meu ouvido quando passou por mim e logo depois saiu disparada enquanto equilibrava bandejas na mão. Olha, eu nem fazia ideia que estava atrasado, mas obrigado pelo aviso, em! Ufa!

Entrei no vestiário dos funcionários e me arrumei na'' velocidade da luz''. Sabe, eu gosto de pensar isso por que me faz crer que eu realmente fui rápido, me tira da realidade que estou aqui a alguns minutos consideráveis tentando desfazer esse nó de escoteiro que eu mesmo dei no meu avental marrom.

– Ah, você ainda está aí! - Disse um funcionário que eu esqueci o nome (não é por mal, eu juro, é só que ele compete com uns mil personagens de livros para eu gravar o nome também).

– É, pois é... - Ri fraco e cocei a nuca.

– Mano, lá fora tá uma loucura e precisamos de você, então vem logo! - Ele voltou a falar e é o que eu estou fazendo já, mano. Não preciso de um técnico do meu lado.

Eu acho que murmurei um "sim" ou algo do tipo só por educação e saí do vestiário e o mesmo caos de sempre já logo me engoliu com aquela música estranha de fundo. Eu sou horrível quando se trata de ter que servir, algumas vezes acontece de ser minha vez e eu confesso que assassino alguns copos, mas é desumano o trabalho que fazemos aqui, okay!

Quando me aproximei do balcão e vi aquela cena dela em total desespero, coloquei a mão na frente da boca e segurei a risada e ela logo percebeu quando seus olhos  encontraram os meus, instantaneamente a vi fechar o cenho e fazer um pequeno biquinho que eu enterrei a sete chaves dentro de mim ter achado muito fofo.

– Você é um tremendo de um sádico! - Ela disse discretamente quando passei por trás dela.

– Jura? Minha imagem é de alguém tão perverso assim?

Eu disse mais para mim do que outra coisa já que ela não me ouviu, pois passava o cartão de um cliente na máquina de crédito e débito enquanto atendia outro da fila e anotava algo, tudo isso enquanto tentava manter uma conversa nada racional com um bêbado que perguntava pela quarta vez onde é o banheiro.

Isso que foi o motivo de eu ter achado graça.

Ri nasalmente quando abri o caixa e tinha as notas e moedas simplesmente jogadas na perfeita organização de alguém que estava arrancando seus cabelos e gritando. Pobre Samantha. Ela me lançou um olhar fumegante depois de ouvir minha outra risada.

– Eu assumo daqui. - Eu disse e ela depois de terminar de atender o cliente, rapidamente olhou em meus olhos com as sobrancelhas tensionadas e depois olhou de volta para a fila que só se estendia.

– Você não vai conseguir, hoje estamos lotados e-

– Samantha, eu consigo! Vai lá, provavelmente precisam de você. - Sorri e ela novamente me olhou por alguns segundos avaliando o meu rosto para ver se confiava ou não, mas no Sunshine's Bar não se tem muito tempo de parar para pensar, quem dirá de ficar se olhando, não que fosse um problema. Ela bateu de leve no meu ombro com a mão e logo depois saiu.

– Estou te devendo uma! - Eu sorri mais ainda. Eu sei que hoje é a sua vez no caixa, mas quem está me livrando de manchar minhas mãos me tornando um assassino de copos é ela.

Eu olhei para a longa fila que se formava e suspirei cansado antes mesmo de começar a trabalhar. Mas está tudo bem, sempre que posso fico no caixa desde que o dono, Kennedy, um senhor irlandês muito amigável que percebeu, como ele diz, o meu "dom" com números, e claro, minha proeza de lidar com várias coisas ao mesmo tempo (Isso a vida que me ensinou, deixo aqui os devidos créditos), então ele me nomeou como o seu caixa favorito.

O tempo foi passando e a fila diminuindo, e eu consequentemente me desdobrando ao máximo até sentir a costumeira dor nos pés. Eu lembro que pedi internamente no carro para que não estivesse tão cheio hoje, já que hoje é plena quinta feira a noite... Mas como eu disse, a vida me treina arduamente todo dia para que eu saiba me virar. Por que escolhi logo trabalhar em um dos bares mais famosos da minha cidade?! Na verdade, por que logo um bar e não em uma biblioteca?

Ainda me martirizo, mas sei que só aqui eu consigo ter a minha agenda em perfeita organização com a faculdade... Bom, esse emprego não é o que eu exatamente esperava trabalhar, mas pelo menos não é toda noite que trabalho, temos um sistema de turnos, e é por isso que estou nesse emprego, ele cobre estrategicamente todos os buracos da minha agenda que minha faculdade deixa.

E não é tão horrível assim. É, é ruim, mas já me acostumei. Só é muito movimentado, mas meio que eu entendo o por que. Não que eu goste, mas a cerveja daqui parece ser de excelência. Tem artesanal, irlandesa, preta, especial, comum... Fora a decoração rústica e sofisticada; as várias lâmpadas amarelas penduradas perto do balcão marrom refletem nas mil garrafas que preenchem uma parede inteira com os líquidos e vidros de diversas cores reluzem em um belo tom de ''certamente se está bebendo algo daqui, o seu fígado vai parar de funcionar daqui a alguns minutos''.

E como se não bastasse os mil clientes bêbados fedendo a cheiros estranhos, mas que, infelizmente já me são costumeiros, me aparecem dois mongóis, retardados levemente alterados no final da fila. Revirei os olhos enquanto suspirava pesado com todo pulmão. Quando chegou a vez dos imbecis, um dos panacas se debruçou sobre o balcão enquanto que o outro do lado ria.

– Saudades, gatinha?

– Eu tenho realmente que te responder? - Eu disse com um asco presente na voz e o Damon riu de volta.

– Hoje você chegou atrasado, o que estava fazendo, hein, Lucking? - Ethan falou por cima de Damon, que dizia algo que não ouvi e agradeci muito ao descendente de asiático, até perceber a malícia na sua fala.

– Senhor, se não vai pagar então vou pedir que se retire, nós não damos esmola aqui. - Falei entredentes e como sempre os dois idiotas caíram na gargalhada e eu sorri com a visão desses bestas.

– Você viu, não viu, Damon? O sorriso tosco que ele deu pra aquela mulher que ele atendeu antes de nós! - Eu bati levemente a palma na testa e suspirei ouvindo eles me ignorarem e iniciarem o típico diálogo.

– Que? Que mulher? Espera, ele por acaso conversa com mulheres?

– É inacreditável que vocês não tenham realmente nada para fazer e ficam aqui me importunando!

– Relaxa aí, King! - Eu revirei os olhos.

– Ei. - Damon me chamou e sendo uma das raras vezes, eu consegui realmente ver seriedade ao fundo de seus olhos escuros como se ele quisesse me falar algo sério, tinha até os braços cruzados apoiados no balcão. O respondi com um movimento de cabeça para que continuasse. - Vai lá dentro e arruma aquela bebida esperta pra nós, vai! Eu sei que você sabe fazer uma batida deliciosa! - Soltei o ar pela boca desapontado, eu achei que ele fosse dizer algo sério... A sorte deles é que não tem mais fila, só aparecem alguns clientes para pagar bêbados o suficiente para não notarem o meu olhar mortal que lanço nos dois reles.

– Sim, eu vou lá pegar a sua bebida sim, só me espera no beco aqui do lado na saída da cozinha, vou te dar um líquido bem maneiro! - Nem eu me aguentei sério imaginando o que seria... Eu até continuaria falando com eles aqui, mas um dos funcionários se aproximou e eles perceberam, e como sempre, já se afastaram se misturando na multidão para realmente ir beber algo. Depois que contei que estava trabalhando em um pub só faltou os dois soltarem fogos.

Com certeza eles gostam muito mais do que eu do meu emprego.

A única coisa que eu não sou tão fã é que o nome daqui não é Sunshine's Bar atoa, nós, funcionários e clientes, literalmente ficamos até os primeiros raios solares da manhã de pé, eles por álcool e diversão, eu por capitalismo e dinheiro.

///

Eu estava acabado, finalmente havia terminado o meu turno e já era possível sentir a umidade do ar de quando se está amanhecendo. Estava destruído, sabe o que é sentir que um trator passou lentamente por cima de você e deu ré e passou de novo tantas vezes que já perdeu a conta? Então.

Apertei a minha nuca com uma mão e estalei o pescoço enquanto suspirava, abri a porta do vestiário dos funcionários e vi Samantha sentada em frente ao seu armário enquanto tentava prender o seu cabelo, que é curto o suficiente para ela não conseguir e toda vez que ele escapava de seus dedos ela contorcia um pouco o rosto. Eu mordi o lábio inferior olhando fixamente para o chão e pensando o quão fraco eu sou por ter me rendido tão fácil e achado isso fofo... De novo.

– Está tudo bem? - Ela me olhava preocupada e eu ri minimamente, negando com a cabeça  enquanto ia em direção ao meu armário, abrindo-o.

– Estar bem... O que é isso mesmo? - Sussurrei somente para que eu ouvisse. - Sim, e você? - Respondi em voz alta enquanto ouvia ela rir.

– Está bem mesmo? Tem certeza? Por que eu não faço ideia de como você acabou o fim do expediente com o cabelo molhado sendo que só estava no caixa! - Me sentei no banco ao seu lado com a minha roupa para trocar já na minha mão.

– Eu trabalho na Sunshine's Bar... Muita coisa que é impossível acontece com frequência aqui. - Ela segurou a mecha úmida do meu cabelo que estava no meu rosto, e sei lá, a forma que ela estica o cacho brincando como se fosse uma mola e sorria era diferente.

– Estou curiosa e quero quero ouvir a história, então conta logo! - Ela continuou sorrindo e brincando com os meus cachos e eu ri também. Provavelmente estou com cara de idiota, que droga. Não que eu não esteja em tempo integral, mas com ela eu sinto que transparece mais.

– Tá bom, mas foi você que pediu! Não reclama depois, okay? - Ela assentiu. - Acontece que tem brigas aqui, você sabe disso. Também sabe nós temos que tentar separar os bêbados, mesmo que alguns deles sejam iguais gorilas de tão grandes. E também sabe que a todo momento aqui tem gente que tenta se exibir bebendo mais que consegue e acaba vomitando em qualquer lugar. E aconteceu de eu tentar segurar o gorila, ele me jogar para trás como um inseto e eu caí deitado no chão e a minha cabeça caiu em cima de uma poça de... Bom... - Coloquei a mão no queixo. - Matérias líquidas ácidas e nocivas ao estômago expelidos pela boca.

É sério, eu queria muito ter gravado a reação dela, eu estou caindo na gargalhada a uns cinco minutos enquanto passa na minha mente em um loop o seu sorriso sumindo gradativamente a cada segundo que eu ia contando a emocionante história.

Quando eu fiquei em silêncio e ela percebeu a sua mão agora paralisada ainda estava segurando o meu cabelo, ela na mesma hora soltou a mecha em um impulso levou a sua mão para perto do seu peito, mas entrou em um dilema mental e acabou limpando a sua mão na minha blusa enquanto eu sentia minha barriga doer novamente por conta da gargalhada.

– Luckin! - Ela quase gritou fazendo um barulho com a garganta de puro nojo. - Cara, eu te odeio!

– Eu te disse para não reclamar! - Deu um tapa no meu ombro levemente enquanto ria. - Mas não se preocupe, eu lavei cabelo como se minha vida dependesse disso, por isso está molhado.

– Não quero saber, você me deixou segurar seu cabelo esse tempo todo! Com certeza você é oficialmente a pessoa mais sádica que eu conheço! - Ela ia me dar outro tapa enquanto ria, mas eu segurei sua mão, só que eu tinha um sorriso de besta dez vezes maior que o dela. É que a ver sorrindo assim me deixa feliz.

– Você não conhece muita gente então, Samantha. - Estava apreciando o som da sua risada, mas a porta foi aberta e quando olhamos juntos eu tive que olhar para a direção contrária e assim poder revirar os olhos por ser logo ele. Soltei a mão dela e me levantei para fechar o meu armário. - Então vai precisar de carona hoje também?

– Sim. - Ela, que estava rindo tanto, agora estava séria, assim como eu.  E como se não bastasse, ele ainda está contaminando todo o local deixando-o pesado só pela sua presença irritante.

– O que? Samantha, mas eu não tinha te oferecido primeiro? - Disse o próprio, o cara mais desnecessário que eu já conheci em todos os meus 21 anos de existência.

– Sim, e eu recusei. - Ele tem um ego inflado só por que é o filho do dono do bar e se acha no direito de decidir algo, quando quem dá o veredito é o seu pai. E como se não bastasse, ele fica incomodando a Samantha, mesmo já tendo recebido um belo de um ''não''.

– Ah, é que naquela hora eu achei que você estivesse brincando. - Eu ri, mas quando recebi os olhares dos dois, eu comecei a tossir em uma tentativa frustrada de disfarçar a risada. - Posso saber o que é tão engraçado? - Me virei de frente para ele e  quando vi seu olhar com aquele ar ''superior'' eu quis rir de novo, quis muito. Quem botou este pensamento presunçoso dentro da cabeça dele de que ele é o dono do mundo? Talvez seja por que ele é ruivo natural de olhos claros? Não sei, a idiotice dele parece ser mais de oito mil.

– Nada, só estava me lembrando de uma coisa engraçada. - Respondi entre dentes e risadas curtas.

– Sei. - Ele me olhou de cima a baixo e era nítido o quanto estava insatisfeito por eu estar aqui, talvez ele quisesse levar outro ''não'' a sós, vai entender. - O que você está fazendo aqui se o seu turno ainda não acabou? - Seu tom de voz tinha tanta prepotência que me deixava enjoado, mas com certeza ele não chegava nem perto daquele cara no apartamento da loira a alguns dias, se comparar eles, esse daqui ao lado dele vai parecer um poodle ou um pinscher ladrando histericamente.

– Onde o seu pai está? - Indaguei calmamente. Atrás dele eu vi Samantha negando com a cabeça e com a palma me pedindo para me afastar dali e eu fiquei sem entender.

– Não, primeiro você me responde, depois você fala! Não é com um funcionário qualquer que você tá falando, é com o filho do dono! - Uau, nossa, parabéns! Só que o mais engraçado é que eu só vejo esse ''funcionário'' quando ele decide ir lá no caixa pegar ''alguns trocados''.

– É eu sei que você é o filho dele, mas se realmente fosse um bom funcionário saberia ao menos o horário que os turnos acabam. - Ver ele um pouco vermelho de provavelmente raiva e vergonha de estar ouvindo isso na frente da Samantha, foi sem dúvidas uma das melhores coisa da noite.

– O que voc-

– Tudo bem, garotos, chega por hoje! Tyler, eu acho que ouvi alguém te chamando e Luckin, vá se trocar logo, não pretendo sair daqui na hora do almoço! - Ela apontou para o banheiro atrás de mim e eu ergui uma sobrancelha a questionando e em resposta ela me lançou um olhar com o cenho fechado, ela parecia realmente tensa. Revirei os olhos e dei meia-volta e entrei no banheiro assim como ela pediu.

Enquanto trocava de roupa, era possível ouvir todo a tentativa de diálogo frustrado dele.

– Você realmente não quer que eu leve você?

– Não. - Eu novamente quase me engasguei em risadas ao ouvir essa resposta dela tão rápida sem nem hesitar e mesmo assim ele não entender o recado.

– Sabe, esse cara não é nada confiável... Eu já falei com meu pai que não acho certo deixar qualquer um no caixa, ainda mais esse cara aí! - O exemplo de adulto aí sabe exatamente que eu estou ouvindo tudo por que não tem absolutamente nenhum outro som para contrapor com a voz irritante dele, então ele fala exatamente por que sabe que estou escutando. - Mas enfim, eu só sugeri te dar a carona por que não sei se você também percebeu, mas esse cara tá fedendo a vômito e eu me importo com você, te conheço desde o colégio e não vou te deixar nas mãos de um esquisitão assim! - Nossa, eu sei que ele realmente não tem nenhum outro argumento melhor para se usar, mas esse é brilhante, de verdade.  

– Luckin não é qualquer um. - Instantaneamente sorri com o comentário dela.

– Sim, claro, foi apenas forma de falar, gata! - A forma que ele passa vergonha me desperta até um tique nervoso no olho esquerdo.

– Olha, Tyler, quem sabe outro dia, hum? Já tinha combinado de ir embora com ele hoje, então deixa para alguma outra ocasião.

– É que você sempre fala a mesma coisa e eu sempre fico me perguntando por que você se faz tanto de difícil. Ou... Isso por acaso é timidez? Por que se for qualquer um dos dois, a gente pode resolver isso agora. - A voz dele havia ficado mais baixa e mais grave e eu senti o mesmo cheiro que quando apareci no apartamento da Succubus. O cheiro de alguém desconfortável amarga toda uma atmosfera, ainda mais se tratando da Samantha, que graças a esse cara eu conheço bastante quando ela fica desconfortável.

Abri a porta e os vi sentados no banco de costas para o banheiro. Meu sangue ferveu ao ver ele com o braço ao redor da sua cintura e sem me dar conta eu já dava passos largos, quando cheguei ao lado dos dois, para minha surpresa, as mãos dela que sempre são tão delicadas, estavam tremendo de tanto que ela apertava os dedos com o punho fechado.

Não consegui olhar mais muita coisa quando vi a outra mão dele na sua cocha. Eu logo segurei a mão dela e a puxei, fazendo-a levantar e me olhar surpresa.

– Vamos! - Disse firme já indo em direção à porta.

– Porra cara, qual é a tua?! Não tá vendo que tá atrapalhando a gente aqui? - Eu me virei e olhei em seus olhos seriamente.

– O único atrapalhando aqui é você.

– O que?! Não, sai daqui agora, é uma ordem! - Ele apontou para a porta do vestiário como se eu fosse alguma espécie de cachorro e eu arqueei uma sobrancelha. Eu zerei a vida depois de enfrentar aquele cara lá de dois metros e todo tatuado, eu não sinto nenhum medo desse poodle aqui.

– Como queira. - Eu, que ainda estava segurando a mão dela, me dirigi até a porta junto com ela, mas senti ela parar de uma hora para outra e a olhei para ver o por que e adivinha quem segurou o seu braço?

– Samantha fica! - O chorume disse. 

– Não. - Eu disse enquanto olhava seriamente em seus olhos.

– Se não soltar a mão dela agora, vai se arrepender!

Revirei os olhos e me virei de novo para a porta e andei, na esperança de que ele soltasse-a e que eu pudesse ir logo embora daqui. Mas de novo, senti ela fazer corpo duro e novamente quando olhei, era o próprio segurando-a.

– Sério, será que não percebe que está machucando ela?! - Perguntei já alterando o tom de voz ao notar o quanto ele segurava forte o seu pulso.

– O único que não percebe as coisas aqui é você, seu merda! E quer saber? Se não consegue  nem fazer o que eu mando, então está despedido! - Ele apontou de novo para a porta e eu me sentir irritado não foi por ele me despedir, foi ele estar apertando o pulso dela tanto ao ponto de eu poder ver as veias saltando da mão dele. Isso, isso sim me estressou.

– Eu não dou a mín-

– Já chega! Os dois, me soltem AGORA! - Ela gritou e no mesmo instante a soltei. Ela simplesmente desvencilhou o braço dele do seu como se tirasse alguma sujeira de cima de si, depois pegou sua bolsa e saiu disparada pela porta. Corri atrás dela.

– Samantha! - Por mais que eu a chamasse, ela não olhava para trás, apenas atravessava todo o bar como um míssil. 

Quando peguei na sua mão e ela olhou para mim, vi raiva no seu olhar; ela comprimia os lábios em uma linha e tinha as sobrancelhas tensionadas. A senti soltar a minha mão da sua da mesma forma que se desvincilhou dele e eu só fiquei ali, parado na sua frente, completamente confuso. - O que? Está... Chateada comigo?

– O que você acha?! - Ela alterou o seu tom de voz e quando percebeu que alguns dos poucos clientes que restavam olharam para cá, ela fechou os olhos e respirou fundo, ajeitou de novo a sua bolsa no ombro e começou a falar. - Você não percebeu que eu a todo momento estava tentando fazer você sair dali e se afastar dele? Esqueceu que o Tyler te odeia por que cisma que nós temos algo? Cara, como você consegue ser tão idiota? Meu deus! - O que? Idiota? Eu tento ajudar ela a sair de perto do verdadeiro idiota e é comigo que ela está chateada?! - Luckin, eu desisto. Eu realmente tentei, mas só pela sua cara eu já sei o que está pensando. - Ela ia voltar a andar, mas eu segurei a sua mão de novo.

– Como assim idiota? É sério que você está chateada comigo e não com aquele cara? Sério? É do Tyler mesmo que estamos falando?

– Sim, é do Tyler, do filho do gerente que estava se coçando pra conseguir a primeira desculpa pra despedir você, e você, idiota, entregou de bandeja para ele essa chance a troco de nada!

– Samantha, eu estava tentando ajudar você! - Céus, eu fui parar no hospital por ter ajudado uma completa desconhecida, por que eu não a ajudaria?! É da Samantha que estamos falando, não qualquer uma! - Eu nunca ia te deixar lá com aquele maluco! - Ela soltou o ar pela boca, completamente frustrada e isso fez o meu peito apertar um pouco.

– Eu nunca pedi para ser salva ou algo do tipo, eu só queria uma carona, nada mais! - Ela olhou para mim, agora não estava mais tão irritada, agora era dez vezes pior, parecia triste, decepcionada... - Não queria que você se prejudicasse tanto por minha causa.

– Mas você sabe que eu não me importo, eu...

– Exatamente, você não se importa e esse é o problema. Você sempre tenta ajudar os outros, mesmo que isso signifique que você vai ter que arcar com todas as consequências sozinho depois. Agora você foi despedido, o Tyler do jeito que é vai arrumar uma forma de fazer a cabeça do pai e você não vai ser recontratado. Sem um emprego, como pretende pagar o seu aluguel, ou sei lá, sobreviver? E a faculdade? - Eu não consegui responder ela. E provavelmente foi isso que a fez ter esse olhar de desgosto e apertar firme a alça da sua bolsa, tão firme que eu senti um nó se formar no início da minha garganta. – Se tivesse ficado quieto e aguentado esse imbecil só por mais alguns minutos, não teria sido despedido por minha causa... - A vi olhar para o chão e suspirar.

– Eu sei que você está chateada, mas... Droga, Samantha... - Passei os dedos pelo meu couro cabeludo e puxei os fios levemente. - Então eu devia ignorar tudo só por ter medo de consequências? É isso?

– Não, Luckin, não é isso, meu Deus! Quantas vezes eu disse pra você que eu ia lidar com ele da minha forma e que você podia confiar em mim? Mas não, você sempre age por impulso! Sempre! - Ela esfregou as mãos no rosto e depois respirou fundo. - Olha, eu fico feliz que você se importe comigo, eu sei que a sua intenção ali foi a das melhores, mas como sua amiga, eu fico com medo. Medo de que as pessoas se aproveitem de você, medo que você se machuque por se colocar tanto em segundo lugar, medo que as sequelas sejam grandes e que você não possa suportar...Por que agora você foi despedido, mas e no futuro? Quais consequências você vai ter que lidar? - Quando ela percebeu que eu não a consegui responder, ela negou com a cabeça. - Me desculpa, a vida é sua e eu não devia estar falando tudo isso, você sabe o que faz. 

Ela andou e lentamente eu senti ela escapar da minha visão enquanto que eu permanecia ali, estático.  As pessoas falando ao fundo e a música eram quase estrepitoso, só perdia para a minha mente barulhenta com aquele silêncio ensurdecedor. O vidro transparentes da porta permitiam ver o céu em um tom de azul claro que te faz perceber que está amanhecendo. Pessoas passavam por aquela porta de madeira, mas eu fiquei ali parado por um tempo. Um longo tempo sentindo tudo ao meu redor lentamente caminhar, pessoas irem embora, tudo seguir seu ritmo, mas parecia que esse aperto no peito era o único que não seguia seu ritmo.

///

Estava voltando da casa do Ethan, havia passado dois dias por lá e só voltei hoje no dia oito de dezembro, que completa uma semana desse pesadelo que está sendo minhas férias. Meu telefone vibrou no meu bolso, interrompendo toda a minha linha de raciocínio importantíssima. E ainda é um número desconhecido, sinceramente, se for a operadora eu vou falar algumas coisas bem educadas já que meu humor agora não está dos melhores a algum tempo já.

– Alô? - Não ouvi nenhuma música ou voz robótica, o que é um alívio, mas ouvi algo que parecia ter sido uma risada nasal, não sei, enfim enlouqueci? - Quem é? - Insisti sem um pingo de vontade presente na voz, só quero chegar logo em casa e tomar um banho bem quente.

– Estava pensando em o que dizer assim que atendesse, mas não consegui pensar em nada muito legal, e nem sequer trote deu pra fazer. - Na hora eu parei de andar e de abrir o portão do prédio e bati a palma na testa assim que reconheci essa voz fina e suave, que engana facilmente passando a imagem de uma garota delicada, na verdade, é a própria anticristo loira.

– Onde conseguiu meu número? - Foi tudo que consegui dizer.

– Sim, eu sei, eu pensei em dizer isso também, mas não tem nenhuma outra sugestão? Não sei, algo mais marcante?

– Você é maluca, sabia? - Eu ouvi a sua risada e me convenci de que ela se diverte com tudo isso, então está provado que ela é de fato a encarnação do anticristo.

– Sim! Amei a sugestão, vamos conversar sobre o meu estado psicológico! - Ela disse enquanto ria e eu me perguntava qual estratégia ela conseguiu pra fugir do manicômio, eu li O Conde de Monte Cristo e não foi muito fácil dele sair de lá .

– A gente não vai conversar, só quero saber quem foi o traíra que deu o meu número ao capeta.

– Obrigada pela parte que me toca, querido. 

– E então? Onde conseguiu meu número?

– Já que você quer tanto saber, então por que não descobre por você mesmo? - Eu fiquei em silêncio enquanto subia as escadas do meu prédio e ouvia a sua risada baixa ecoar no meu ouvido.

– Você tem certeza que não bateu a cabeça em algum lugar? E que tipo de hospital dá alta para uma psicopata ficar andando solta pela cidade? - Eu sempre estou tentando segurar esse poço de doçura que existe dentro de mim, mas não importa o quanto meu humor esteja tóxico igual veneno, o quanto indelicado eu seja, ela não se abala, na verdade, ela está se acabando de rir.

– O mesmo tipo de hospital que me dá o seu número. - Droga, foi a porcaria daquele formulário enorme que me fizeram preencher. 

Okay, adicionar uma nota para me lembrar de fazer uma ligação a um certo hospital.

– Bom, foi um desprazer conversar com você e...- Eu parei de falar, simplesmente fiquei surpreso que o mundo não gira para realizar translação, não, ele gira exclusivamente para me ferrar a todo custo.

Acontece que eu estava subindo as escadas do meu prédio enquanto falava com a Succubus no telefone, só que quando eu virei as escadas e cheguei no terceiro andar, no meio do lance de escadas eu reconheci aqueles fios loiros espalhados pelos degraus onde ela estava deitada. A anticristo ficou sem fala por alguns segundos me olhando com surpresa também, até depois sorrir.

– Que sorte! - Ouvi sua voz baixa ecoar naquele espaço fechado das escadas e logo depois ouvi a mesma frase chegar novamente em meu ouvido pelo celular com um pequeno atraso. Respirei fundo e subi as escadas.

– Sim, muita sorte. - Reforcei a minha grandiosa animação no meu tom de voz de um velho de 85 anos. Subi a escada grudado na parede enquanto tentava não pisar nos milhares fios loiros espalhados nos degraus. Foi uma tarefa difícil, mas consegui não encostar um milímetro na loira ali, confesso que até me senti um pouco vitorioso.

– Vai mesmo me ignorar? - Confesso que queria muito, mas é meio impossível realizar tal proeza com essa escada que faz eco por nada e mesmo se eu não ouvir o que ela disse (por algum milagre), só percebi agora que o celular ainda está grudado no meu ouvido.

– É o meu sonho conseguir te ignorar. - Disse enquanto subia as escadas, pronto para virar no corredor e logo encerrar essa chamada e de fato ignorar a presença dela ali.

– Que maldade, Luckin. - Assim que ouvi ''Luckin'', paralisei. Eu já estava um pouco longe quase chegando no corredor, mas o celular fez questão de me fazer ouvi-la.

Como ela sabe meu nome?

Engoli à seco e é provável que tenha sido alto o suficiente para o celular captar e a fazer escutar já que desencadeou uma risada dela. Virei-me para ela, que agora estava deitada de bruço nas partes mais pontiagudas dos degraus, me olhando com aqueles olhos castanhos enormes, parecia estar entretida como se eu fosse alguma peça ou circo, sei lá o que ela pensa, nem sei se pensa.

– Eu te disse o que você queria saber, agora é minha vez de você fazer o que eu quero. - Arqueei uma sobrancelha e a succubus sorriu. - Calma, meu pedido é bem simples: vem aqui do meu lado! – A vi me chamar com a mão como se ela se abanasse, mas permaneci paralisado a encarando. – Eu não mordo, calma. Mas se não vier não vou te deixar em paz e talvez aí sim eu morda. - E eu não pude evitar engolir à seco de novo. Eu fiz uma expressão de quem quer muito se jogar de um prédio e a obedeci e desci tudo que tinha subido e sentei-me ao seu lado.

Se ela fez isso tudo sem estar motivada a não me deixar em paz, eu tenho medo do que ela é capaz de fazer se estiver.

– E então? - Disse sem um pingo de interesse. 

– Deita também, quero te mostrar uma coisa. - O que? O quanto eu sou desgraçado pela vida? Se for isso não tem problema, eu consigo ver daqui mesmo sentando. Senti seu olhar em cima de mim como se me apressasse, abri a boca e suspirei. Enfim desliguei o celular e me deitei ao seu lado por livre e espontânea pressão. Ela apontou para cima de nós, onde havia uma enorme teia de aranha que tomava a metade de todo o teto. - Não é bonito? – Eu realmente tenho medo de o que ela considera bonito.

Mas... De primeira, você olha e duvida de o quão limpo seja o prédio para essa teia de aranha chegar a esse tamanho, até cogita em sair do chão, mas depois de olhar com cuidado, realmente tem uma certa beleza. Como a teia está perto da janela e hoje choveu, algumas gotículas de água que estão presas na teia brilham um pouco graças á luz que vem da mesma janela.

– Não diria bonito... - Murmurei como se encarasse uma obra de arte e estivéssemos a contemplando. Ficamos um bom tempo assim em silêncio, até eu o quebrar. - Como você está? - Logo após eu indagar, eu senti seu olhar em cima de mim, então olhei para ela e vi um pequeno sorriso em seus lábios. Revirei os olhos e cruzei os braços. - Quero dizer, você foi parar no hospital!

– Está com tanta saudade assim?

– Não! - Eu neguei sem nem hesitar por já saber que essa pergunta me esperaria, mas até eu acabei rindo com a agilidade que a respondi.

– Bom... - Ela voltou a olhar para a teia. - Depois de passar quase uma semana no hospital, eu descobri que a comida de lá é horrível, mas sobrevivi. É, acho que posso dizer que estou bem. - Estão sentindo esse cheiro? Parece que outra pessoa também não sabe o que é estar bem de verdade a um bom tempo. Olha, vou ser sincero, depois disso eu simpatizei com ela 0,001% a mais. - E você? - Ela olhou para mim e semicerrou os olhos. - Não parece estar bem. - Eu ri nasalmente.

– É incrível como em uma semana as coisas continuam a dar errado sem um minuto de descanso. - Acho que estava com isso engasgado o suficiente para chegar ao nível de desabafar isso com ela.

Por que meus primos não sabem de absolutamente nada que tem acontecido e sei que se souberem, vão tentar me ajudar e eu não quero atrapalhar esses idiotas em um momento tão crítico da vida deles, por isso escolhi não contar nada.

– O que aconteceu? - Ri e neguei com a cabeça. A pergunta não seria e o que não aconteceu?

– Quer em ordem cronológica ou alfabética? - Ela novamente me olhou e eu nem precisei virar o rosto para olhá-la nos olhos, já sabia que ela estava novamente me apressando só com o olhar. - Bom, discuti com uma pessoa importante pra mim e o pior é que tudo que ela disse faz sentido. E no fim disso tudo ainda ganhei contas e contas que não tenho a mínima ideia de como vou pagar.

– Como assim?

– Eu fui despedido. 

Ouvi a sua gargalhada ecoar por todo recinto e na hora bufei. A olhei e ela estava rindo com a mão na frente da boca e quando percebeu que eu a olhava tentando imaginar formas de a jogar daqui de cima do prédio sem parecer muito com um homicídio, ela balançou a mão negando ainda entre risadas.

– Calma, calma, eu tô rindo por que eu achei que essas merdas só estivessem acontecendo comigo... Parece até que estamos competindo pra ver quem está mais ferrado! - Ela respirou fundo e parou de rir. - Eu acabei de me encontrar com a proprietária no meu apartamento e... - A vi fechar os olhos e rir nasalmente enquanto negava com a cabeça. - Meu Deus, o apartamento está todo fodido! Não tem nada que salve. E ainda vai ficar quatro meses em reforma. - Okay, agora me senti ainda pior por saber que tudo isso também é minha culpa.

– Olha pelo lado bom, pelo menos vamos ser mendigos vizinhos em Boston. Eu por não ter como pagar o aluguel e você por não ter onde morar. - Estava esperando ouvir a sua risada maligna ecoar em todo recinto de novo, mas tudo que ecoou foi o silêncio. 

Senti seu olhar em cima de mim, então a olhei pelo canto dos olhos e ali eu vi um sorriso. Não um que ria da desgraça como eu achei que a capeta faria, era um conjunto de sorriso e olhos castanhos que brilhavam em um tom que eu perdi alguns segundos tentando decifrar. Não sei, seus olhos brilharam como se fosse uma criança e tivesse ouvido a seguinte frase ''vamos ao parquinho!''.

– Nossa... Quanta sorte.

– Como assim? - Por um momento eu desconfiei daquele sorriso. Não sei, algo me diz que o 'quanta sorte'' que ela pronunciou não foi de ironia, foi algo mais além.

– Você precisa pagar as suas contas, não é? E eu preciso de um lugar pra ficar por quatro meses. - Eu respirei fundo, o mais fundo que conseguia até sentir o pulmão arder um pouco e fechei os olhos. - Ei, você está bem? Está pálido! - Ela se aproximou calmamente como se fosse uma pessoa normal e tocou meu ombro me assustando.

– Eu vou ficar bem se você me responder só uma coisa... Onde você pretende passar esses quatro meses? - Ela abriu um sorriso para mim tão grande que seus olhos sumiram um pouquinho, igual a minha dignidade.

– Na casa de um amigo, por quê? - O seu sorriso sumiu e aquelas orbes castanhas me olhavam esperando uma resposta enquanto piscavam repetidas vezes, não sei, ela de alguma forma parecia emanar ingenuidade; por isso eu me permiti relaxar os músculos.

– Ah... - Soltei o ar que estava preso. - É só que uma ideia maluca passou pela minha cabeça. - Vi a anticristo sorrir e sentar-se na escada enquanto que eu permaneci deitado. Ela inclinou um pouco seu corpo para cima de mim, ficando cara a cara me olhando nos olhos enquanto eu sentia as mechas do seu longo cabelo tocar meu corpo. Ela sorria largo como se fosse uma criança e eu o parquinho.

– Mas em, Luckin! - Sua mão tocou meu ombro e o agitou levemente como se ela realmente fosse uma criança. - Quanta sorte, né? Você precisa de ajuda com o aluguel, eu preciso de um lugar pra morar... E nós dois somos amigos!

Eu já sabia, okay? Essa ideia passou pela minha cabeça duzentas vezes, só estava esperando ela dizer claramente para que eu finalmente pudesse levantar e subir as escadas e fazer o que devia ter feito a muito tempo: ignorar ela e me trancar em algum lugar seguro! Céus, quem brinca com o fogo aposta a vida! Minha pressão até caiu depois dessa, não sei se foi por eu subir as escadas tão rápido ou ouvir a sua gargalhada ecoando estridentemente em todo corredor. Quando olhei para trás e a vi apoiada na parede enquanto ria eu me senti em um filme de terror.

– Amigos? Agora desconhecidos são amigos?! - Eu pensei alto.

Quando eu estava já diante da minha porta, ela . A desgraçada só pode ser meu algoz, não tem como não ser! O ceifeiro que eu não encontrei naquela noite nesse corredor, na verdade, é ela. Ela caminhava lentamente em minha direção com aquela droga de sorriso intacto. E eu tenho certeza que esse negócio sorridente só apareceu na minha vida porque comecei a ler muito Nietzsche e refutar de alguns paradigmas.

– Desconhecidos? Ah, meu bem, a gente já passou dessa fase, lembra? - Eu olhei para ela e desviei logo depois de ver aquele sorriso de canto com malícia ou sei lá o que era, por Deus, eu só quero achar minhas chaves!

– Aquilo tudo só aconteceu por que foi você que subiu em cima de mim e começou a me beijar! - Ela cruzou os braços, arqueou as sobrancelhas, abriu a boca e fingiu estar ofendida.

– Ah, claro, e você nem retribuiu o beijo.  

– Enfim, por que você está me seguindo?! - Como a ideia de reviver tudo que aconteceu naquela noite não me pareceu muito segura, então resolvi mudar logo de assunto descaradamente.

– Você sabe que ainda sou moradora desse corredor, né? - É, infelizmente. - Bom, eu era, na verdade... - Como eu nunca aprendo, eu a olhei. Eu a vi olhando com um sorriso mínimo para a sua porta fechada. Não, não adianta fazer essa carinha de cachorrinho abandonado, eu não caio nessa. - Ah! Mudando de assunto, a sua roupa ficou aqui dentro! - Ela abriu a porta do seu apartamento, o adentrou e eu fiquei alguns segundos olhando para os lados pensando se entrava ali de novo até receber um olhar dela questionador. Se eu já cheguei até aqui... Fazer o que? A segui.

Mas assim que pisei dentro de seu apartamento, ouvi um barulho semelhante a pisar em uma poça, instantaneamente olhei para o chão e vi o carpete completamente alagado. Olhei para frente e a parede da sua cozinha estava com uma mancha preta das chamas que ia até o teto, e de brinde, o seu fogão estava completamente destroçado. O cheiro também não era dos melhores... Não sei, parecia ser uma fragrância  de queimado e mofo.

– Como eu recebi alta hoje, eu não tive tempo de lavar tão bem, então o cheiro de mofo ainda não saiu todo. 

Ela estendeu a minha camisa preta e a camisa xadrez verde que eu havia tirado no apartamento dela e deixado em algum canto qualquer. Sem perceber, sorri minimamente enquanto encarava a camisa que me trouxe algumas memórias boas, quando olhei para a succubus diante de mim, estranhei ver seu semblante um pouco apreensivo.

 – Você... Quer que eu compre outras iguais pra você? É só você me dizer seu tamanho que eu mando entregar... Deixa eu ver... - Ela estava fazendo algumas contas nos dedos enquanto olhava para o nada e eu sinceramente... Estou surpreso...?!

Primeiro por que ela sempre está rindo de tudo e todos; o mundo pode estar acabando e ela parece que vai estar lá rindo da desgraça e essa é a primeira vez que a vejo com um ar sério e mostrando estar realmente solícita com algo, então ver que ela sabe fazer esse tipo de feição é uma surpresa. Até por que eu estava convicto de que ela era igual as menininhas que o Ethan e o Damon ficam, daquelas que parecem bonecas de porcelana e tem no máximo até três falas.

– Talvez... Não sei. Eu consigo em cinco dias, mas posso fazer um esforço e conseguir para três. - Eu ri nasalmente, nem faço mais ideia do que ela está falando, coitada. Acho que tem algo haver com a blusa e entrega, sei lá.

– Não se preocupe, assim está ótimo. - Meio receosa ela me estendeu novamente as camisas e, céus... Até passadas estão! - Mas... Por que se preocupou tanto em dar as camisas? - Confesso que fiquei curioso.

– Por que são as suas camisas! - Eu semicerrei os olhos e curvei a cabeça ainda não enxergando a importância e ela revirou os olhos, sua convicção faz parecer que estava discutindo política. - Roupas são importantes! Bom, pra mim são! - Eu tive que rir de toda a sua firmeza na voz para defender sua tese. - E eu não ia ficar bem se você perdesse alguma blusa sua por minha causa.

– Sim, mas ainda são só umas camisas velhas. - Apesar de estarem velhas, é verdade que são importantes. Essa camisa xadrez foi a minha irmãzinha que me deu de presente de natal.

– Ah, você até que fica bonito com elas, então seria um desperdício. - Ela novamente me mostrou aquele sorriso enorme, como se fosse uma criança e eu provavelmente o parquinho. - Mas se quiser eu compro outra pra você!

– Não precisa, não quero te dar gastos desnecessários.

– Bom, estava no meu apartamento, então tenho que arcar com as consequências! - Ela disse com o semblante sério e a mão sobre o peito como se fosse uma espécie de escoteira e desse sua palavra.

Eu teria rido de toda sua convicção se esse não fosse um esplêndido momento para a Samantha aparecer na minha mente e eu me lembrar das suas palavras, que ela jogava na minha cara o quão burro eu sou de estar sempre querendo ajudar as pessoas mesmo que eu que vá ter que assumir todas as responsabilidades depois sozinho, mas sabe... O que me manteve calado naquela manhã fria foi que eu sabia que nem isso eu faço, nem lidar com as consequências eu lido, eu só pareço estar a todo momento... Fugindo.

E essas consequências me atingem de uma forma que não consigo dormir de noite, meu travesseiro pesa como uma bicórnea com tantos pensamentos. E como se as escolhas fossem peças de dominó uma atrás da outra enfileiradas em pé e por causa de minhas atitudes, por causa de um mero deslize em um apartamento, eu derrubei uma peça e agora sou obrigado a assistir cada uma derrubando a outra peça e por fim, agora eu cheguei na última peça caída ao tabuleiro.

E novamente uma mulher bem diante de mim me causou um pequeno nó no início da minha garganta. Droga. E o pior, eu a todo momento a julguei e agora eu odeio muito admitir isso, mas ela foi gentil. Mesmo que ela tenha perdido o seu apartamento por minha culpa, quer dizer, nós dois temos nossa parcela de culpa, mas mesmo assim ela em momento nenhum veio me cobrar a reforma ou algo assim. Eu, que estudo Direito devia saber muito mais que qualquer um que se ela quisesse, poderia me processar.

– Bom, eu até te ofereceria um café, mas eu já estou de saída... - Como eu estava em outra órbita, eu nem sei de onde ela tirou tantas malas em tão pouco tempo. - Só queria muito te entregar suas roupas, por isso te liguei. – Ainda acho que ela fugiu de um manicômio, mas... Talvez eu tenha a interpretado mal... ? 

– Você disse quatro meses, né? - Sim, eu também não acredito que vou fazer isso...

– Sim... Por quê? - Ela me encarou como se me questionasse com os olhos e se eu pudesse eu também me questionaria com os olhos.

– Vamos! - Peguei duas malas suas e quase me arrependi sentindo o peso absurdo quando as ergui. 

– Como assim? 

Eu já estava caminhando em direção a sua porta com as malas enquanto ela me seguia e seus passos faziam ''ploc'' no carpete, confesso que isso me ajudou muito a não desistir na metade do caminho por que a cada passo dela martelava na minha mente que isso também era minha culpa.

– Estou dizendo que você vai morar comigo nesses quatro meses! - Eu disse mais para mim do que para ela.

– O que acha de começarmos de novo? - Ela, que estava segurando as mãos atrás do seu corpo, estendeu uma mão para mim e eu fiquei estático a olhando de cima à baixo. - Prazer, Mellorine.

– Luckin. - Murmurei e quando apertei sua mão, engoli à seco quando percebi que avia um sorriso no seu rosto, mas não o mesmo dos milhões de sorrisos que ela me mostrou, esse sorriso parecia ser caloroso... Tão quente que eu já posso sentir me queimar.

É frustrante, mas pelo visto vou ter que arquitetar outro plano para o resto das minhas noites além de ficar lendo até de madrugada. E o pior, querendo ou não, agora será a dois. 

Súcubo (em latim succubus, de succubare) é uma personagem referenciada pela cultura pop e mitologias como um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter uma relação sexual com eles para lhes roubar a energia vital.

O súcubo se alimenta da energia sexual dos homens e coleta seu para engravidar a si mesma ou a outros súcubos, e quando invade o de uma pessoa ele toma a aparência do seu desejo sexual e suga a energia proveniente do prazer do atacado. As súcubos tendem a ficar mais fortes e mais frequentes em épocas de transição de lua cheia, com isso ficando mais descontroladas e mais sedentas.

Bloqueei a tela do meu celular e o deixei por cima do meu peito, depois massageei minhas têmporas enquanto suspirava. Eu havia desbloqueado o aparelho e estava aberto exatamente nesta página do Google, na Wikipédia. Acho que eu pesquisei isso em algum momento na faculdade graças ao pesadelo e me esqueci, sei lá, ou o FBI está acompanhando toda minha vida ouvindo tudo que eu digo pelo microfone do aparelho e, em forma de entretenimento, pesquisaram isso no meu celular e deixaram propositalmente para agora os agentes estarem em uma sala rindo da minha cara de idiota. Acontece.

Esse foi um dos primeiros surtos que tive assim que despertei ainda no estado caótico de embriaguez de morto vivo, onde meu corpo não sabe se está acordado ou sonhando. E quando me forcei a me sentar na cama e meus pés tocaram o chão, acho que meu primeiro pensamento lúcido deveria ser do ruído irritante de alguma espécie de roda barulhenta que vinha de trás daquela porta, ou então me perguntar se realmente estou nos EUA e não em solo Russo, já que o chão parecia a ponta de um iceberg de tão frio.

Mas o que meu cérebro achou coerente ir em disparo para pensar primeiro?

Nela.

É sério, eu sou o ser humano mais gentil e bondoso da face da terra, eu tenho que ir para o céu, não, tenho que ganhar um Oscar! Porque sinceramente, acordar completamente acabado; fragmentado; destruído num hospital com o corpo todo dolorido e a primeira coisa a se pensar é na vizinha que nem o nome sei, é muita bondade pra uma pessoa só.

Bom, eu acho que estou no hospital, né, quer dizer, tem vários fios embutidos na minha veia... Devo me preocupar se isso não for realmente um hospital?

Olhei para o lado e havia outra cama junto com um soro ao lado e uma mulher deitada. Ah, um amontoado de fios  loiros espalhados pelo travesseiro foram o suficiente pra me fazer sentir um arrepio gélido percorrer por toda minha espinha dorsal e de tão forte me fazer tremer os ombros. 

Eu, que estava acordando aos poucos, caí de paraquedas de volta na realidade. Tudo que me era muito vago, lembrei "misteriosamente" agora. O trauma foi tão forte que tenho até medo de pensar nela e estar com ela consegue ser pior que sexta feira 13, Halloween e meu pai muito irritado... Tudo isso no mesmo dia. Sim, até seria exagero meu se eu não estivesse agora num hospital depois disso tudo.

(PS: Eu constatei que é um hospital realmente por que tentei me levantar e só nesse mero movimento descobri que a roupa hospitalar é algo inconfundível por que te dá a possibilidade de sentir o vento frígido com a parte de trás do corpo. Também descobri como foi bom a Succubus estar apagada, se não ela teria uma visão... Bem... Deixa para lá).

Depois que ela desmaiou no apartamento e eu tentei acordá-la na esperança de não complicar mais a minha situação na frente da síndica e proprietária; ela resolveu não dar nenhum sinal de vida como se fosse um cadáver só para acrescentar mais na minha imagem de se não bastasse pervertido, agora possível psicopata ou assassino.

Mas fora isso, depois de muito tentar acalmar a proprietária que gritava muito enquanto jogava baldes e baldes de água querendo transformar o apartamento da loira em Titanic, chamaram os bombeiros e a ambulância e, por piedade, não chamaram a polícia também. E parece que os paramédicos tiveram pena e me trouxeram junto já que nem eu estava bem. Estar bem... O que é isso mesmo?

– Então finalmente acordou! - Eu me assustei tanto com a presença da enfermeira que me tremi por breves segundos igual um peixe asfixiado fora d'água. Sabe, bater na porta não mata, na verdade, previne matar os pacientes. Ela nem ao menos esperou a minha resposta, apenas se aproximou de mim já me examinando. - Parece que está melhorando... - Ela murmurou com um estetoscópio invadindo minha roupa hospitalar e tocando o meu peito. Sussurrou para que eu respirasse fundo algumas vezes e, depois de terminar o check-up, ligou o abajur do meu lado e sentou-se numa cadeira que até então não estava no meu campo de visão. - Então, o que está sentindo?

– Provavelmente tudo que não devia. - Ela sorriu para mim e internamente agradeci. É até legal manter contato ''social'' com pessoas normais, mas ainda sim prefiro um livro. - Meu corpo todo dói, minha cabeça também e às vezes sinto que um caminhão passou por cima de mim. Fora a febre e essa sede que não passa. - Ela levantou sua prancheta e ficou folheando e lendo algo, enquanto que eu só olhava para maca atrás dela onde a loira está. - Eu não sei, também tenho a leve sensação de estar um pouco dopado. - Eu falei no meu tom normal, mas saiu num sussurro arrastado.

– Isso é normal já que te demos um pequeno coquetel e ainda não fez efeito totalmente.

– Aliás, eu estou apagado a quanto tempo? - Tá, eu confesso que sempre quis dizer isso, sei lá, é tão livro!

– Há cinco horas mais ou menos. Ah, provavelmente sua imunidade só caiu, quanto a sede, vou aplicar outra dose do soro, assim vai te saciar. Mas, olha... - Em momento algum ela havia parado de ler as folhas da prancheta enquanto falava, só agora que olhou em meus olhos. - Você, de longe, está muito melhor que ela aqui. - Apontou com o dedão para atrás de si, onde a Succubus está.

– O que ela tem?

– Suspeitas de Pneumonia. Houve um incêndio, né? É bem comum vítimas de incêndio dentro de algumas horas demonstram sintomas de pneumonia. - Eu sei que ela inalou muita fumaça já que desmaiou lá dentro enquanto o fogo ainda se alastrava e crepitava tudo, mas eu tenho total certeza que não foi por isso!

– Sim, ela inalou muita fumaça, mas ela já estava mal antes do incêndio, na verdade, ele só aconteceu por que ela estava com febre e eu resolvi cozinhar algo para ela e... Me distraí... - Engoli à seco quando pensei no motivo da minha ''distração''. Depois ela me perguntou se eu realmente tinha certeza e eu assenti.

– Certo, então as coisas mudam um pouco... Você vai ficar 24 horas em observação. Mas fora isso, está tudo okay, já a sua namorada vai ter que ficar mais alguns dias internada.

Não conseguia falar, me mexer, muito menos negar o ''sua namorada''. A essa altura do campeonato, isso já é o menor dos problemas, o principal problema era que eu estava sonolento, mas não o suficiente para dormir de uma vez. A médica percebeu minha sonolência e havia saído do quarto, enquanto que eu fiquei aqui me remoendo por que não trouxe meu carregador comigo?!

24 horas... Eram 24 horas que eu podia passar lendo algum livro digital sem ter que me preocupar em ter que me alimentar ou me nutrir, o soro estava ali para isso... E ainda teria atestado médico para o trabalho!

Como eu desperdiço uma chance dessas?!

////

Eu nunca achei que iria passar dia 3 de dezembro, o segundo dia de minhas férias que tanto cobicei por meses, em observação por 24 horas em um hospital. Sinceramente, não faço a mínima ideia de o que eles poderiam descobrir de uma pessoa dormindo praticamente o dia todo. Bom, que a minha saúde é uma porcaria isso eu já sei; eu fui sortudo o suficiente de nascer com asma e uma doença rara que compromete bastante o meu corpo, mas, pelo visto, não foram só essas doenças, ontem eu descobri que devo ter mais alguma outra doença rara ou que o tipo de animal acéfalo que eu sou ainda não foi descoberto, por que quem em sã consciência consegue colocar fogo, FOGO, no apartamento da pior pessoa possível de Boston? Sério, eu não me perdoarei nunca!

Mas fora isso, eu voltei para casa no dia 4 e conversei com meu chefe e ele me deu o dia de folga. Praticamente passei a tarde toda alternando entre a cama e cozinha, onde fazia sopas e vitaminas. Assim que passei a primeira noite em minha saudosa cama, não sei descrever o quão reconfortante foi acordar no dia seguinte e não ter uma vizinha às 07 da manhã gritando coisas... Adoráveis.

Me sinto mal por ela estar hospitalizada e a culpa ser parcialmente minha? Talvez. 

E resolvi tirar o dia 5 de dezembro para relaxar, afinal, eu mereço férias da sociedade! Escolhi não ficar o dia todo lendo algum livro que abordasse um tema religioso e até as 03h da madrugada, não, como estou querendo relaxar eu não sou tão estúpido assim, e também não vou cometer o mesmo erro duas vezes, escolhi dessa vez  descansar bastante a mente apenas; por isso eu optei por ler um livro sobre um filósofo do período clássico da Grécia Antiga, Platão, por que é assim que se relaxa!

Não sei se tem algo haver com isso de consciência pesada, mas assim que terminei o livro Alegoria da Caverna, eu fui dormir e sonhei que eu era um homem das cavernas que nunca ia ver o lado de fora, ficava somente dentro da caverna, e o sonho estava muito filosófico e de extremo aprendizado interno, até que em tudo desandou quando chegou uma mulher das cavernas loira e botou fogo naquilo tudo rindo. Não sei por que, mas senti uma raiva familiar e saí da caverna de braços cruzados chutando o chão.

Enfim, minha imaginação é formidável.

Bom, fora o pesadelo o meu dia está relativamente normal. Agora eu estou aqui dentro do carro preso em um engarrafamento eterno, já ouvi música, batuquei no volante, muito aleatoriamente me recordei das vergonhas alheias que passei em 2013, roí unha, saí do carro só pra esticar as pernas e depois voltei. Agora estou aqui com a mão no queixo enquanto olho para o céu e refuto o que me motiva a perder horas da minha vida quase todo dia em um engarrafamento. O que me trouxe há essa enorme avenida? O capitalismo? Emprego? Dinheiro? Necessidade ou escolha? Afinal, o que é o livre arbítrio? O que é que chamamos de vida, se na verdade, vid-

Opa, o carro da frente finalmente andou!

Eu fiz o que pude, mas cheguei com uma hora de atraso. Bom, tomara que não percebam. Atravessei o bar tentando 1) não pisar em nenhum vômito, 2) não esbarrar em ninguém e 3) não tropeçar nos fios do som e acabar com a música e consequentemente receber vários olhares mortíferos de todas as direções possíveis.

Isso com certeza nunca aconteceu.

– Luckin! Ela vai comer teu fígado! - Uma das funcionárias cochichou no meu ouvido quando passou por mim e logo depois saiu disparada enquanto equilibrava bandejas na mão. Olha, eu nem fazia ideia que estava atrasado, mas obrigado pelo aviso, em! Ufa!

Entrei no vestiário dos funcionários e me arrumei na'' velocidade da luz''. Sabe, eu gosto de pensar isso por que me faz crer que eu realmente fui rápido, me tira da realidade que estou aqui a alguns minutos consideráveis tentando desfazer esse nó de escoteiro que eu mesmo dei no meu avental marrom.

– Ah, você ainda está aí! - Disse um funcionário que eu esqueci o nome (não é por mal, eu juro, é só que ele compete com uns mil personagens de livros para eu gravar o nome também).

– É, pois é... - Ri fraco e cocei a nuca.

– Mano, lá fora tá uma loucura e precisamos de você, então vem logo! - Ele voltou a falar e é o que eu estou fazendo já, mano. Não preciso de um técnico do meu lado.

Eu acho que murmurei um "sim" ou algo do tipo só por educação e saí do vestiário e o mesmo caos de sempre já logo me engoliu com aquela música estranha de fundo. Eu sou horrível quando se trata de ter que servir, algumas vezes acontece de ser minha vez e eu confesso que assassino alguns copos, mas é desumano o trabalho que fazemos aqui, okay!

Quando me aproximei do balcão e vi aquela cena dela em total desespero, coloquei a mão na frente da boca e segurei a risada e ela logo percebeu quando seus olhos  encontraram os meus, instantaneamente a vi fechar o cenho e fazer um pequeno biquinho que eu enterrei a sete chaves dentro de mim ter achado muito fofo.

– Você é um tremendo de um sádico! - Ela disse discretamente quando passei por trás dela.

– Jura? Minha imagem é de alguém tão perverso assim?

Eu disse mais para mim do que outra coisa já que ela não me ouviu, pois passava o cartão de um cliente na máquina de crédito e débito enquanto atendia outro da fila e anotava algo, tudo isso enquanto tentava manter uma conversa nada racional com um bêbado que perguntava pela quarta vez onde é o banheiro.

Isso que foi o motivo de eu ter achado graça.

Ri nasalmente quando abri o caixa e tinha as notas e moedas simplesmente jogadas na perfeita organização de alguém que estava arrancando seus cabelos e gritando. Pobre Samantha. Ela me lançou um olhar fumegante depois de ouvir minha outra risada.

– Eu assumo daqui. - Eu disse e ela depois de terminar de atender o cliente, rapidamente olhou em meus olhos com as sobrancelhas tensionadas e depois olhou de volta para a fila que só se estendia.

– Você não vai conseguir, hoje estamos lotados e-

– Samantha, eu consigo! Vai lá, provavelmente precisam de você. - Sorri e ela novamente me olhou por alguns segundos avaliando o meu rosto para ver se confiava ou não, mas no Sunshine's Bar não se tem muito tempo de parar para pensar, quem dirá de ficar se olhando, não que fosse um problema. Ela bateu de leve no meu ombro com a mão e logo depois saiu.

– Estou te devendo uma! - Eu sorri mais ainda. Eu sei que hoje é a sua vez no caixa, mas quem está me livrando de manchar minhas mãos me tornando um assassino de copos é ela.

Eu olhei para a longa fila que se formava e suspirei cansado antes mesmo de começar a trabalhar. Mas está tudo bem, sempre que posso fico no caixa desde que o dono, Kennedy, um senhor irlandês muito amigável que percebeu, como ele diz, o meu "dom" com números, e claro, minha proeza de lidar com várias coisas ao mesmo tempo (Isso a vida que me ensinou, deixo aqui os devidos créditos), então ele me nomeou como o seu caixa favorito.

O tempo foi passando e a fila diminuindo, e eu consequentemente me desdobrando ao máximo até sentir a costumeira dor nos pés. Eu lembro que pedi internamente no carro para que não estivesse tão cheio hoje, já que hoje é plena quinta feira a noite... Mas como eu disse, a vida me treina arduamente todo dia para que eu saiba me virar. Por que escolhi logo trabalhar em um dos bares mais famosos da minha cidade?! Na verdade, por que logo um bar e não em uma biblioteca?

Ainda me martirizo, mas sei que só aqui eu consigo ter a minha agenda em perfeita organização com a faculdade... Bom, esse emprego não é o que eu exatamente esperava trabalhar, mas pelo menos não é toda noite que trabalho, temos um sistema de turnos, e é por isso que estou nesse emprego, ele cobre estrategicamente todos os buracos da minha agenda que minha faculdade deixa.

E não é tão horrível assim. É, é ruim, mas já me acostumei. Só é muito movimentado, mas meio que eu entendo o por que. Não que eu goste, mas a cerveja daqui parece ser de excelência. Tem artesanal, irlandesa, preta, especial, comum... Fora a decoração rústica e sofisticada; as várias lâmpadas amarelas penduradas perto do balcão marrom refletem nas mil garrafas que preenchem uma parede inteira com os líquidos e vidros de diversas cores reluzem em um belo tom de ''certamente se está bebendo algo daqui, o seu fígado vai parar de funcionar daqui a alguns minutos''.

E como se não bastasse os mil clientes bêbados fedendo a cheiros estranhos, mas que, infelizmente já me são costumeiros, me aparecem dois mongóis, retardados levemente alterados no final da fila. Revirei os olhos enquanto suspirava pesado com todo pulmão. Quando chegou a vez dos imbecis, um dos panacas se debruçou sobre o balcão enquanto que o outro do lado ria.

– Saudades, gatinha?

– Eu tenho realmente que te responder? - Eu disse com um asco presente na voz e o Damon riu de volta.

– Hoje você chegou atrasado, o que estava fazendo, hein, Lucking? - Ethan falou por cima de Damon, que dizia algo que não ouvi e agradeci muito ao descendente de asiático, até perceber a malícia na sua fala.

– Senhor, se não vai pagar então vou pedir que se retire, nós não damos esmola aqui. - Falei entredentes e como sempre os dois idiotas caíram na gargalhada e eu sorri com a visão desses bestas.

– Você viu, não viu, Damon? O sorriso tosco que ele deu pra aquela mulher que ele atendeu antes de nós! - Eu bati levemente a palma na testa e suspirei ouvindo eles me ignorarem e iniciarem o típico diálogo.

– Que? Que mulher? Espera, ele por acaso conversa com mulheres?

– É inacreditável que vocês não tenham realmente nada para fazer e ficam aqui me importunando!

– Relaxa aí, King! - Eu revirei os olhos.

– Ei. - Damon me chamou e sendo uma das raras vezes, eu consegui realmente ver seriedade ao fundo de seus olhos escuros como se ele quisesse me falar algo sério, tinha até os braços cruzados apoiados no balcão. O respondi com um movimento de cabeça para que continuasse. - Vai lá dentro e arruma aquela bebida esperta pra nós, vai! Eu sei que você sabe fazer uma batida deliciosa! - Soltei o ar pela boca desapontado, eu achei que ele fosse dizer algo sério... A sorte deles é que não tem mais fila, só aparecem alguns clientes para pagar bêbados o suficiente para não notarem o meu olhar mortal que lanço nos dois reles.

– Sim, eu vou lá pegar a sua bebida sim, só me espera no beco aqui do lado na saída da cozinha, vou te dar um líquido bem maneiro! - Nem eu me aguentei sério imaginando o que seria... Eu até continuaria falando com eles aqui, mas um dos funcionários se aproximou e eles perceberam, e como sempre, já se afastaram se misturando na multidão para realmente ir beber algo. Depois que contei que estava trabalhando em um pub só faltou os dois soltarem fogos.

Com certeza eles gostam muito mais do que eu do meu emprego.

A única coisa que eu não sou tão fã é que o nome daqui não é Sunshine's Bar atoa, nós, funcionários e clientes, literalmente ficamos até os primeiros raios solares da manhã de pé, eles por álcool e diversão, eu por capitalismo e dinheiro.

///

Eu estava acabado, finalmente havia terminado o meu turno e já era possível sentir a umidade do ar de quando se está amanhecendo. Estava destruído, sabe o que é sentir que um trator passou lentamente por cima de você e deu ré e passou de novo tantas vezes que já perdeu a conta? Então.

Apertei a minha nuca com uma mão e estalei o pescoço enquanto suspirava, abri a porta do vestiário dos funcionários e vi Samantha sentada em frente ao seu armário enquanto tentava prender o seu cabelo, que é curto o suficiente para ela não conseguir e toda vez que ele escapava de seus dedos ela contorcia um pouco o rosto. Eu mordi o lábio inferior olhando fixamente para o chão e pensando o quão fraco eu sou por ter me rendido tão fácil e achado isso fofo... De novo.

– Está tudo bem? - Ela me olhava preocupada e eu ri minimamente, negando com a cabeça  enquanto ia em direção ao meu armário, abrindo-o.

– Estar bem... O que é isso mesmo? - Sussurrei somente para que eu ouvisse. - Sim, e você? - Respondi em voz alta enquanto ouvia ela rir.

– Está bem mesmo? Tem certeza? Por que eu não faço ideia de como você acabou o fim do expediente com o cabelo molhado sendo que só estava no caixa! - Me sentei no banco ao seu lado com a minha roupa para trocar já na minha mão.

– Eu trabalho na Sunshine's Bar... Muita coisa que é impossível acontece com frequência aqui. - Ela segurou a mecha úmida do meu cabelo que estava no meu rosto, e sei lá, a forma que ela estica o cacho brincando como se fosse uma mola e sorria era diferente.

– Estou curiosa e quero quero ouvir a história, então conta logo! - Ela continuou sorrindo e brincando com os meus cachos e eu ri também. Provavelmente estou com cara de idiota, que droga. Não que eu não esteja em tempo integral, mas com ela eu sinto que transparece mais.

– Tá bom, mas foi você que pediu! Não reclama depois, okay? - Ela assentiu. - Acontece que tem brigas aqui, você sabe disso. Também sabe nós temos que tentar separar os bêbados, mesmo que alguns deles sejam iguais gorilas de tão grandes. E também sabe que a todo momento aqui tem gente que tenta se exibir bebendo mais que consegue e acaba vomitando em qualquer lugar. E aconteceu de eu tentar segurar o gorila, ele me jogar para trás como um inseto e eu caí deitado no chão e a minha cabeça caiu em cima de uma poça de... Bom... - Coloquei a mão no queixo. - Matérias líquidas ácidas e nocivas ao estômago expelidos pela boca.

É sério, eu queria muito ter gravado a reação dela, eu estou caindo na gargalhada a uns cinco minutos enquanto passa na minha mente em um loop o seu sorriso sumindo gradativamente a cada segundo que eu ia contando a emocionante história.

Quando eu fiquei em silêncio e ela percebeu a sua mão agora paralisada ainda estava segurando o meu cabelo, ela na mesma hora soltou a mecha em um impulso levou a sua mão para perto do seu peito, mas entrou em um dilema mental e acabou limpando a sua mão na minha blusa enquanto eu sentia minha barriga doer novamente por conta da gargalhada.

– Luckin! - Ela quase gritou fazendo um barulho com a garganta de puro nojo. - Cara, eu te odeio!

– Eu te disse para não reclamar! - Deu um tapa no meu ombro levemente enquanto ria. - Mas não se preocupe, eu lavei cabelo como se minha vida dependesse disso, por isso está molhado.

– Não quero saber, você me deixou segurar seu cabelo esse tempo todo! Com certeza você é oficialmente a pessoa mais sádica que eu conheço! - Ela ia me dar outro tapa enquanto ria, mas eu segurei sua mão, só que eu tinha um sorriso de besta dez vezes maior que o dela. É que a ver sorrindo assim me deixa feliz.

– Você não conhece muita gente então, Samantha. - Estava apreciando o som da sua risada, mas a porta foi aberta e quando olhamos juntos eu tive que olhar para a direção contrária e assim poder revirar os olhos por ser logo ele. Soltei a mão dela e me levantei para fechar o meu armário. - Então vai precisar de carona hoje também?

– Sim. - Ela, que estava rindo tanto, agora estava séria, assim como eu.  E como se não bastasse, ele ainda está contaminando todo o local deixando-o pesado só pela sua presença irritante.

– O que? Samantha, mas eu não tinha te oferecido primeiro? - Disse o próprio, o cara mais desnecessário que eu já conheci em todos os meus 21 anos de existência.

– Sim, e eu recusei. - Ele tem um ego inflado só por que é o filho do dono do bar e se acha no direito de decidir algo, quando quem dá o veredito é o seu pai. E como se não bastasse, ele fica incomodando a Samantha, mesmo já tendo recebido um belo de um ''não''.

– Ah, é que naquela hora eu achei que você estivesse brincando. - Eu ri, mas quando recebi os olhares dos dois, eu comecei a tossir em uma tentativa frustrada de disfarçar a risada. - Posso saber o que é tão engraçado? - Me virei de frente para ele e  quando vi seu olhar com aquele ar ''superior'' eu quis rir de novo, quis muito. Quem botou este pensamento presunçoso dentro da cabeça dele de que ele é o dono do mundo? Talvez seja por que ele é ruivo natural de olhos claros? Não sei, a idiotice dele parece ser mais de oito mil.

– Nada, só estava me lembrando de uma coisa engraçada. - Respondi entre dentes e risadas curtas.

– Sei. - Ele me olhou de cima a baixo e era nítido o quanto estava insatisfeito por eu estar aqui, talvez ele quisesse levar outro ''não'' a sós, vai entender. - O que você está fazendo aqui se o seu turno ainda não acabou? - Seu tom de voz tinha tanta prepotência que me deixava enjoado, mas com certeza ele não chegava nem perto daquele cara no apartamento da loira a alguns dias, se comparar eles, esse daqui ao lado dele vai parecer um poodle ou um pinscher ladrando histericamente.

– Onde o seu pai está? - Indaguei calmamente. Atrás dele eu vi Samantha negando com a cabeça e com a palma me pedindo para me afastar dali e eu fiquei sem entender.

– Não, primeiro você me responde, depois você fala! Não é com um funcionário qualquer que você tá falando, é com o filho do dono! - Uau, nossa, parabéns! Só que o mais engraçado é que eu só vejo esse ''funcionário'' quando ele decide ir lá no caixa pegar ''alguns trocados''.

– É eu sei que você é o filho dele, mas se realmente fosse um bom funcionário saberia ao menos o horário que os turnos acabam. - Ver ele um pouco vermelho de provavelmente raiva e vergonha de estar ouvindo isso na frente da Samantha, foi sem dúvidas uma das melhores coisa da noite.

– O que voc-

– Tudo bem, garotos, chega por hoje! Tyler, eu acho que ouvi alguém te chamando e Luckin, vá se trocar logo, não pretendo sair daqui na hora do almoço! - Ela apontou para o banheiro atrás de mim e eu ergui uma sobrancelha a questionando e em resposta ela me lançou um olhar com o cenho fechado, ela parecia realmente tensa. Revirei os olhos e dei meia-volta e entrei no banheiro assim como ela pediu.

Enquanto trocava de roupa, era possível ouvir todo a tentativa de diálogo frustrado dele.

– Você realmente não quer que eu leve você?

– Não. - Eu novamente quase me engasguei em risadas ao ouvir essa resposta dela tão rápida sem nem hesitar e mesmo assim ele não entender o recado.

– Sabe, esse cara não é nada confiável... Eu já falei com meu pai que não acho certo deixar qualquer um no caixa, ainda mais esse cara aí! - O exemplo de adulto aí sabe exatamente que eu estou ouvindo tudo por que não tem absolutamente nenhum outro som para contrapor com a voz irritante dele, então ele fala exatamente por que sabe que estou escutando. - Mas enfim, eu só sugeri te dar a carona por que não sei se você também percebeu, mas esse cara tá fedendo a vômito e eu me importo com você, te conheço desde o colégio e não vou te deixar nas mãos de um esquisitão assim! - Nossa, eu sei que ele realmente não tem nenhum outro argumento melhor para se usar, mas esse é brilhante, de verdade.  

– Luckin não é qualquer um. - Instantaneamente sorri com o comentário dela.

– Sim, claro, foi apenas forma de falar, gata! - A forma que ele passa vergonha me desperta até um tique nervoso no olho esquerdo.

– Olha, Tyler, quem sabe outro dia, hum? Já tinha combinado de ir embora com ele hoje, então deixa para alguma outra ocasião.

– É que você sempre fala a mesma coisa e eu sempre fico me perguntando por que você se faz tanto de difícil. Ou... Isso por acaso é timidez? Por que se for qualquer um dos dois, a gente pode resolver isso agora. - A voz dele havia ficado mais baixa e mais grave e eu senti o mesmo cheiro que quando apareci no apartamento da Succubus. O cheiro de alguém desconfortável amarga toda uma atmosfera, ainda mais se tratando da Samantha, que graças a esse cara eu conheço bastante quando ela fica desconfortável.

Abri a porta e os vi sentados no banco de costas para o banheiro. Meu sangue ferveu ao ver ele com o braço ao redor da sua cintura e sem me dar conta eu já dava passos largos, quando cheguei ao lado dos dois, para minha surpresa, as mãos dela que sempre são tão delicadas, estavam tremendo de tanto que ela apertava os dedos com o punho fechado.

Não consegui olhar mais muita coisa quando vi a outra mão dele na sua cocha. Eu logo segurei a mão dela e a puxei, fazendo-a levantar e me olhar surpresa.

– Vamos! - Disse firme já indo em direção à porta.

– Porra cara, qual é a tua?! Não tá vendo que tá atrapalhando a gente aqui? - Eu me virei e olhei em seus olhos seriamente.

– O único atrapalhando aqui é você.

– O que?! Não, sai daqui agora, é uma ordem! - Ele apontou para a porta do vestiário como se eu fosse alguma espécie de cachorro e eu arqueei uma sobrancelha. Eu zerei a vida depois de enfrentar aquele cara lá de dois metros e todo tatuado, eu não sinto nenhum medo desse poodle aqui.

– Como queira. - Eu, que ainda estava segurando a mão dela, me dirigi até a porta junto com ela, mas senti ela parar de uma hora para outra e a olhei para ver o por que e adivinha quem segurou o seu braço?

– Samantha fica! - O chorume disse. 

– Não. - Eu disse enquanto olhava seriamente em seus olhos.

– Se não soltar a mão dela agora, vai se arrepender!

Revirei os olhos e me virei de novo para a porta e andei, na esperança de que ele soltasse-a e que eu pudesse ir logo embora daqui. Mas de novo, senti ela fazer corpo duro e novamente quando olhei, era o próprio segurando-a.

– Sério, será que não percebe que está machucando ela?! - Perguntei já alterando o tom de voz ao notar o quanto ele segurava forte o seu pulso.

– O único que não percebe as coisas aqui é você, seu merda! E quer saber? Se não consegue  nem fazer o que eu mando, então está despedido! - Ele apontou de novo para a porta e eu me sentir irritado não foi por ele me despedir, foi ele estar apertando o pulso dela tanto ao ponto de eu poder ver as veias saltando da mão dele. Isso, isso sim me estressou.

– Eu não dou a mín-

– Já chega! Os dois, me soltem AGORA! - Ela gritou e no mesmo instante a soltei. Ela simplesmente desvencilhou o braço dele do seu como se tirasse alguma sujeira de cima de si, depois pegou sua bolsa e saiu disparada pela porta. Corri atrás dela.

– Samantha! - Por mais que eu a chamasse, ela não olhava para trás, apenas atravessava todo o bar como um míssil. 

Quando peguei na sua mão e ela olhou para mim, vi raiva no seu olhar; ela comprimia os lábios em uma linha e tinha as sobrancelhas tensionadas. A senti soltar a minha mão da sua da mesma forma que se desvincilhou dele e eu só fiquei ali, parado na sua frente, completamente confuso. - O que? Está... Chateada comigo?

– O que você acha?! - Ela alterou o seu tom de voz e quando percebeu que alguns dos poucos clientes que restavam olharam para cá, ela fechou os olhos e respirou fundo, ajeitou de novo a sua bolsa no ombro e começou a falar. - Você não percebeu que eu a todo momento estava tentando fazer você sair dali ou se afastar dele? Esqueceu que o Tyler te odeia por que cisma que nós temos algo? Cara, como você consegue ser tão idiota? Meu deus! - O que? Idiota? Eu tento ajudar ela a sair de perto do verdadeiro idiota e é comigo que ela está chateada?! - Luckin, eu desisto. Eu realmente tentei, mas só pela sua cara eu já sei o que está pensando. - Ela ia voltar a andar, mas eu segurei a sua mão de novo.

– Como assim idiota? É sério que você está chateada comigo e não com aquele cara? Sério? É do Tyler mesmo que estamos falando?

– Sim, é do Tyler, do filho do gerente que estava se coçando pra conseguir a primeira desculpa pra despedir você, e você, idiota, entregou de bandeja para ele essa chance a troco de nada!

– Samantha, eu estava tentando ajudar você! - Céus, eu fui parar no hospital por ter ajudado uma completa desconhecida, por que eu não a ajudaria?! É da Samantha que estamos falando, não qualquer uma! - Eu nunca ia te deixar lá com aquele maluco! - Ela soltou o ar pela boca, completamente frustrada e isso fez o meu peito apertar um pouco.

– Eu nunca pedi para ser salva ou algo do tipo, eu só queria uma carona, nada mais! - Ela olhou para mim, agora não estava mais tão irritada, agora era dez vezes pior, parecia triste, decepcionada... - Não queria que você se prejudicasse tanto por minha causa.

– Mas você sabe que eu não me importo, eu...

– Exatamente, você não se importa e esse é o problema. Você sempre tenta ajudar os outros, mesmo que isso signifique que você vai ter que arcar com todas as consequências sozinho depois. Agora você foi despedido, o Tyler do jeito que é vai arrumar uma forma de fazer a cabeça do pai e você não vai ser recontratado. Sem um emprego, como pretende pagar o seu aluguel, ou sei lá, sobreviver? E a faculdade? - Eu não consegui responder ela. E provavelmente foi isso que a fez ter esse olhar de desgosto e apertar firme a alça da sua bolsa, tão firme que eu senti um nó se formar no início da minha garganta. – Se tivesse ficado quieto e aguentado esse imbecil só por mais alguns minutos, não teria sido despedido por minha causa... - A vi olhar para o chão e suspirar.

– Eu sei que você está chateada, mas... Droga, Samantha... - Passei os dedos pelo meu couro cabeludo. - Então eu devia ignorar tudo só por ter medo de consequências? É isso?

– Não, Luckin, não é isso, meu Deus! Quantas vezes eu repeti pra você que eu ia lidar com ele da minha forma e que você podia confiar em mim? Mas não, você sempre age por impulso! Sempre! - Ela esfregou as mãos no rosto e depois respirou fundo. - Olha, eu fico feliz que você se importe comigo, eu sei que a sua intenção ali foi a das melhores, mas como sua amiga, eu fico com medo. Medo de que as pessoas se aproveitem de você, medo que você se machuque, medo que as sequelas sejam grandes, por que agora você foi despedido, mas e no futuro? Quais consequências você vai ter que lidar? - Ela negou com a cabeça. - Me desculpa, a vida é sua e eu não devia estar falando tudo isso, você sabe o que faz. 

Ela andou e lentamente eu senti ela escapar da minha visão enquanto que eu permanecia ali, estático.  As pessoas falando ao fundo e a música eram quase estrepitoso, só perdia para a minha mente barulhenta com aquele silêncio ensurdecedor. O vidro transparentes da porta permitiam ver o céu em um tom de azul claro que te faz perceber que está amanhecendo. Pessoas passavam por aquela porta de madeira, mas eu fiquei ali parado por um tempo. Um longo tempo sentindo tudo ao meu redor lentamente caminhar, pessoas irem embora, tudo seguir seu ritmo, mas parecia que esse aperto no peito era o único que não seguia seu ritmo.

///

Estava voltando da casa do Ethan, havia passado dois dias por lá e só voltei hoje no dia oito de dezembro, que completa uma semana desse pesadelo que está sendo minhas férias. Meu telefone vibrou no meu bolso, interrompendo toda a minha linha de raciocínio importantíssima. E ainda é um número desconhecido, sinceramente, se for a operadora eu vou falar algumas coisas bem educadas já que meu humor agora não está dos melhores a algum tempo já.

– Alô? - Não ouvi nenhuma música ou voz robótica, o que é um alívio, mas ouvi algo que parecia ter sido uma risada nasal, não sei, enfim enlouqueci? - Quem é? - Insisti sem um pingo de vontade presente na voz, só quero chegar logo em casa e tomar um banho bem quente.

– Estava pensando em o que dizer assim que atendesse, mas não consegui pensar em nada muito legal, e nem sequer trote deu pra fazer. - Na hora eu parei de andar e de abrir o portão do prédio e bati a palma na testa assim que reconheci essa voz fina e suave, que engana facilmente passando a imagem de uma garota delicada, na verdade, é a própria anticristo loira.

– Onde conseguiu meu número? - Foi tudo que consegui dizer.

– Sim, eu sei, eu pensei em dizer isso também, mas não tem nenhuma outra sugestão? Não sei, algo mais marcante?

– Você é maluca, sabia? - Eu ouvi a sua risada e me convenci de que ela se diverte com tudo isso, então está provado que ela é de fato a encarnação do anticristo.

– Sim! Amei a sugestão, vamos conversar sobre o meu estado psicológico! - Ela disse enquanto ria e eu me perguntava qual estratégia ela conseguiu pra fugir do manicômio, eu li O Conde de Monte Cristo e não foi muito fácil dele sair de lá .

– A gente não vai conversar, só quero saber quem foi o traíra que deu o meu número ao capeta.

– Obrigada pela parte que me toca, querido. 

– E então? Onde conseguiu meu número?

– Já que você quer tanto saber, então por que não descobre por você mesmo? - Eu fiquei em silêncio enquanto subia as escadas do meu prédio e ouvia a sua risada baixa ecoar no meu ouvido.

– Você tem certeza que não bateu a cabeça em algum lugar? E que tipo de hospital dá alta para uma psicopata ficar andando solta pela cidade? - Eu sempre estou tentando segurar esse poço de doçura que existe dentro de mim, mas não importa o quanto meu humor esteja tóxico igual veneno, o quanto indelicado eu seja, ela não se abala, na verdade, ela está se acabando de rir.

– O mesmo tipo de hospital que me dá o seu número. - Droga, foi a porcaria daquele formulário enorme que me fizeram preencher. 

Okay, adicionar uma nota para me lembrar de fazer uma ligação a um certo hospital.

– Bom, foi um desprazer conversar com você e...- Eu parei de falar, simplesmente fiquei surpreso que o mundo não gira para realizar translação, não, ele gira exclusivamente para me ferrar a todo custo.

Acontece que eu estava subindo as escadas do meu prédio enquanto falava com a Succubus no telefone, só que quando eu virei as escadas e cheguei no terceiro andar, no meio do lance de escadas eu reconheci aqueles fios loiros espalhados pelos degraus onde ela estava deitada. A anticristo ficou sem fala por alguns segundos me olhando com surpresa também, até depois sorrir.

– Que sorte! - Ouvi sua voz baixa ecoar naquele espaço fechado das escadas e logo depois ouvi a mesma frase chegar novamente em meu ouvido pelo celular com um pequeno atraso. Respirei fundo e subi as escadas.

– Sim, muita sorte. - Reforcei a minha grandiosa animação no meu tom de voz de um velho de 85 anos. Subi a escada grudado na parede enquanto tentava não pisar nos milhares fios loiros espalhados nos degraus. Foi uma tarefa difícil, mas consegui não encostar um milímetro na loira ali, confesso que até me senti um pouco vitorioso.

– Vai mesmo me ignorar? - Confesso que queria muito, mas é meio impossível realizar tal proeza com essa escada que faz eco por nada e mesmo se eu não ouvir o que ela disse (por algum milagre), só percebi agora que o celular ainda está grudado no meu ouvido.

– É o meu sonho conseguir te ignorar. - Disse enquanto subia as escadas, pronto para virar no corredor e logo encerrar essa chamada e de fato ignorar a presença dela ali.

– Que maldade, Luckin. - Assim que ouvi ''Luckin'', paralisei. Eu já estava um pouco longe quase chegando no corredor, mas o celular fez questão de me fazer ouvi-la.

Como ela sabe meu nome?

Engoli à seco e é provável que tenha sido alto o suficiente para o celular captar e a fazer escutar já que desencadeou uma risada dela. Virei-me para ela, que agora estava deitada de bruço nas partes mais pontiagudas dos degraus, me olhando com aqueles olhos castanhos enormes, parecia estar entretida como se eu fosse alguma peça ou circo, sei lá o que ela pensa, nem sei se pensa.

– Eu te disse o que você queria saber, agora é minha vez de você fazer o que eu quero. - Arqueei uma sobrancelha e a succubus sorriu. - Calma, meu pedido é bem simples: vem aqui do meu lado! – A vi me chamar com a mão como se ela se abanasse, mas permaneci paralisado a encarando. – Eu não mordo, calma. Mas se não vier não vou te deixar em paz e talvez aí sim eu morda. - E eu não pude evitar engolir à seco de novo. Eu fiz uma expressão de quem quer muito se jogar de um prédio e a obedeci e desci tudo que tinha subido e sentei-me ao seu lado.

Se ela fez isso tudo sem estar motivada a não me deixar em paz, eu tenho medo do que ela é capaz de fazer se estiver.

– E então? - Disse sem um pingo de interesse. 

– Deita também, quero te mostrar uma coisa. - O que? O quanto eu sou desgraçado pela vida? Se for isso não tem problema, eu consigo ver daqui mesmo sentando. Senti seu olhar em cima de mim como se me apressasse, abri a boca e suspirei. Enfim desliguei o celular e me deitei ao seu lado por livre e espontânea pressão. Ela apontou para cima de nós, onde havia uma enorme teia de aranha que tomava a metade de todo o teto. - Não é bonito? – Eu realmente tenho medo de o que ela considera bonito.

Mas... De primeira, você olha e duvida de o quão limpo seja o prédio para essa teia de aranha chegar a esse tamanho, até cogita em sair do chão, mas depois de olhar com cuidado, realmente tem uma certa beleza. Como a teia está perto da janela e hoje choveu, algumas gotículas de água que estão presas na teia brilham um pouco graças á luz que vem da mesma janela.

– Não diria bonito... - Murmurei como se encarasse uma obra de arte e estivéssemos a contemplando. Ficamos um bom tempo assim em silêncio, até eu o quebrar. - Como você está? - Logo após eu indagar, eu senti seu olhar em cima de mim, então olhei para ela e vi um pequeno sorriso em seus lábios. Revirei os olhos e cruzei os braços. - Quero dizer, você foi parar no hospital!

– Está com tanta saudade assim?

– Não! - Eu neguei sem nem hesitar por já saber que essa pergunta me esperaria, mas até eu acabei rindo com a agilidade que a respondi.

– Bom... - Ela voltou a olhar para a teia. - Depois de passar quase uma semana no hospital, eu descobri que a comida de lá é horrível, mas sobrevivi. É, acho que posso dizer que estou bem. - Estão sentindo esse cheiro? Parece que outra pessoa também não sabe o que é estar bem de verdade a um bom tempo. Olha, vou ser sincero, depois disso eu simpatizei com ela 0,001% a mais. - E você? - Ela olhou para mim e semicerrou os olhos. - Não parece estar bem. - Eu ri nasalmente.

– É incrível como em uma semana as coisas continuam a dar errado sem um minuto de descanso. - Acho que estava com isso engasgado o suficiente para chegar ao nível de desabafar isso com ela.

Por que meus primos não sabem de absolutamente nada que tem acontecido e sei que se souberem, vão tentar me ajudar e eu não quero atrapalhar esses idiotas em um momento tão crítico da vida deles, por isso escolhi não contar nada.

– O que aconteceu? - Ri e neguei com a cabeça. A pergunta não seria e o que não aconteceu?

– Quer em ordem cronológica ou alfabética? - Ela novamente me olhou e eu nem precisei virar o rosto para olhá-la nos olhos, já sabia que ela estava novamente me apressando só com o olhar. - Bom, discuti com uma pessoa importante pra mim e o pior é que tudo que ela disse faz sentido. E no fim disso tudo ainda ganhei contas e contas que não tenho a mínima ideia de como vou pagar.

– Como assim?

– Eu fui despedido. 

Ouvi a sua gargalhada ecoar por todo recinto e na hora bufei. A olhei e ela estava rindo com a mão na frente da boca e quando percebeu que eu a olhava tentando imaginar formas de a jogar daqui de cima do prédio sem parecer muito com um homicídio, ela balançou a mão negando ainda entre risadas.

– Calma, calma, eu tô rindo por que eu achei que essas merdas só estivessem acontecendo comigo... Parece até que estamos competindo pra ver quem está mais ferrado! - Ela respirou fundo e parou de rir. - Eu acabei de me encontrar com a proprietária no meu apartamento e... - A vi fechar os olhos e rir nasalmente enquanto negava com a cabeça. - Meu Deus, o apartamento está todo fodido! Não tem nada que salve. E ainda vai ficar quatro meses em reforma. - Okay, agora me senti ainda pior por saber que tudo isso também é minha culpa.

– Olha pelo lado bom, pelo menos vamos ser mendigos vizinhos em Boston. Eu por não ter como pagar o aluguel e você por não ter onde morar. - Estava esperando ouvir a sua risada maligna ecoar em todo recinto de novo, mas tudo que ecoou foi o silêncio. 

Senti seu olhar em cima de mim, então a olhei pelo canto dos olhos e ali eu vi um sorriso. Não um que ria da desgraça como eu achei que a capeta faria, era um conjunto de sorriso e olhos castanhos que brilhavam em um tom que eu perdi alguns segundos tentando decifrar. Não sei, seus olhos brilharam como se fosse uma criança e tivesse ouvido a seguinte frase ''vamos ao parquinho!''.

– Nossa... Quanta sorte.

– Como assim? - Por um momento eu desconfiei daquele sorriso. Não sei, algo me diz que o 'quanta sorte'' que ela pronunciou não foi de ironia, foi algo mais além.

– Você precisa pagar as suas contas, não é? E eu preciso de um lugar pra ficar por quatro meses. - Eu respirei fundo, o mais fundo que conseguia até sentir o pulmão arder um pouco e fechei os olhos. - Ei, você está bem? Está pálido! - Ela se aproximou calmamente como se fosse uma pessoa normal e tocou meu ombro me assustando.

– Eu vou ficar bem se você me responder só uma coisa... Onde você pretende passar esses quatro meses? - Ela abriu um sorriso para mim tão grande que seus olhos sumiram um pouquinho, igual a minha dignidade.

– Na casa de um amigo, por quê? - O seu sorriso sumiu e aquelas orbes castanhas me olhavam esperando uma resposta enquanto piscavam repetidas vezes, não sei, ela de alguma forma parecia emanar ingenuidade; por isso eu me permiti relaxar os músculos.

– Ah... - Soltei o ar que estava preso. - É só que uma ideia maluca passou pela minha cabeça. - Vi a anticristo sorrir e sentar-se na escada enquanto que eu permaneci deitado. Ela inclinou um pouco seu corpo para cima de mim, ficando cara a cara me olhando nos olhos enquanto eu sentia as mechas do seu longo cabelo tocar meu corpo. Ela sorria largo como se fosse uma criança e eu o parquinho.

– Mas em, Luckin! - Sua mão tocou meu ombro e o agitou levemente como se ela realmente fosse uma criança. - Quanta sorte, né? Você precisa de ajuda com o aluguel, eu preciso de um lugar pra morar... E nós dois somos amigos!

Eu já sabia, okay? Essa ideia passou pela minha cabeça duzentas vezes, só estava esperando ela dizer claramente para que eu finalmente pudesse levantar e subir as escadas e fazer o que devia ter feito a muito tempo: ignorar ela e me trancar em algum lugar seguro! Céus, quem brinca com o fogo aposta a vida! Minha pressão até caiu depois dessa, não sei se foi por eu subir as escadas tão rápido ou ouvir a sua gargalhada ecoando estridentemente em todo corredor. Quando olhei para trás e a vi apoiada na parede enquanto ria eu me senti em um filme de terror.

– Amigos? Agora desconhecidos são amigos?! - Eu pensei alto.

Quando eu estava já diante da minha porta, ela . A desgraçada só pode ser meu algoz, não tem como não ser! O ceifeiro que eu não encontrei naquela noite nesse corredor, na verdade, é ela. Ela caminhava lentamente em minha direção com aquela droga de sorriso intacto. E eu tenho certeza que esse negócio sorridente só apareceu na minha vida porque comecei a ler muito Nietzsche e refutar de alguns paradigmas.

– Desconhecidos? Ah, meu bem, a gente já passou dessa fase, lembra? - Eu olhei para ela e desviei logo depois de ver aquele sorriso de canto com malícia ou sei lá o que era, por Deus, eu só quero achar minhas chaves!

– Aquilo tudo só aconteceu por que foi você que subiu em cima de mim e começou a me beijar! - Ela cruzou os braços, arqueou as sobrancelhas, abriu a boca e fingiu estar ofendida.

– Ah, claro, e você nem retribuiu o beijo.  

– Enfim, por que você está me seguindo?! - Como a ideia de reviver tudo que aconteceu naquela noite não me pareceu muito segura, então resolvi mudar logo de assunto descaradamente.

– Você sabe que ainda sou moradora desse corredor, né? - É, infelizmente. - Bom, eu era, na verdade... - Como eu nunca aprendo, eu a olhei. Eu a vi olhando com um sorriso mínimo para a sua porta fechada. Não, não adianta fazer essa carinha de cachorrinho abandonado, eu não caio nessa. - Ah! Mudando de assunto, a sua roupa ficou aqui dentro! - Ela abriu a porta do seu apartamento, o adentrou e eu fiquei alguns segundos olhando para os lados pensando se entrava ali de novo até receber um olhar dela questionador. Se eu já cheguei até aqui... Fazer o que? A segui.

Mas assim que pisei dentro de seu apartamento, ouvi um barulho semelhante a pisar em uma poça, instantaneamente olhei para o chão e vi o carpete completamente alagado. Olhei para frente e a parede da sua cozinha estava com uma mancha preta das chamas que ia até o teto, e de brinde, o seu fogão estava completamente destroçado. O cheiro também não era dos melhores... Não sei, parecia ser uma fragrância  de queimado e mofo.

– Como eu recebi alta hoje, eu não tive tempo de lavar tão bem, então o cheiro de mofo ainda não saiu todo. 

Ela estendeu a minha camisa preta e a camisa xadrez verde que eu havia tirado no apartamento dela e deixado em algum canto qualquer. Sem perceber, sorri minimamente enquanto encarava a camisa que me trouxe algumas memórias boas, quando olhei para a succubus diante de mim, estranhei ver seu semblante um pouco apreensivo.

 – Você... Quer que eu compre outras iguais pra você? É só você me dizer seu tamanho que eu mando entregar... Deixa eu ver... - Ela estava fazendo algumas contas nos dedos enquanto olhava para o nada e eu sinceramente... Estou surpreso...?!

Primeiro por que ela sempre está rindo de tudo e todos; o mundo pode estar acabando e ela parece que vai estar lá rindo da desgraça e essa é a primeira vez que a vejo com um ar sério e mostrando estar realmente solícita com algo, então ver que ela sabe fazer esse tipo de feição é uma surpresa. Até por que eu estava convicto de que ela era igual as menininhas que o Ethan e o Damon ficam, daquelas que parecem bonecas de porcelana e tem no máximo até três falas.

– Talvez... Não sei. Eu consigo em cinco dias, mas posso fazer um esforço e conseguir para três. - Eu ri nasalmente, nem faço mais ideia do que ela está falando, coitada. Acho que tem algo haver com a blusa e entrega, sei lá.

– Não se preocupe, assim está ótimo. - Meio receosa ela me estendeu novamente as camisas e, céus... Até passadas estão! - Mas... Por que se preocupou tanto em dar as camisas? - Confesso que fiquei curioso.

– Por que são as suas camisas! - Eu semicerrei os olhos e curvei a cabeça ainda não enxergando a importância e ela revirou os olhos, sua convicção faz parecer que estava discutindo política. - Roupas são importantes! Bom, pra mim são! - Eu tive que rir de toda a sua firmeza na voz para defender sua tese. - E eu não ia ficar bem se você perdesse alguma blusa sua por minha causa.

– Sim, mas ainda são só umas camisas velhas. - Apesar de estarem velhas, é verdade que são importantes. Essa camisa xadrez foi a minha irmãzinha que me deu de presente de natal.

– Ah, você até que fica bonito com elas, então seria um desperdício. - Ela novamente me mostrou aquele sorriso enorme, como se fosse uma criança e eu provavelmente o parquinho. - Mas se quiser eu compro outra pra você!

– Não precisa, não quero te dar gastos desnecessários.

– Bom, estava no meu apartamento, então tenho que arcar com as consequências! - Ela disse com o semblante sério e a mão sobre o peito como se fosse uma espécie de escoteira e desse sua palavra.

Eu teria rido de toda sua convicção se esse não fosse um esplêndido momento para a Samantha aparecer na minha mente e eu me lembrar das suas palavras, que ela jogava na minha cara o quão burro eu sou de estar sempre querendo ajudar as pessoas mesmo que eu que vá ter que assumir todas as responsabilidades depois sozinho, mas sabe... O que me manteve calado naquela manhã fria foi que eu sabia que nem isso eu faço, nem lidar com as consequências eu lido, eu só pareço estar a todo momento... Fugindo.

E essas consequências me atingem de uma forma que não consigo dormir de noite, meu travesseiro pesa como uma bicórnea com tantos pensamentos. E como se as escolhas fossem peças de dominó uma atrás da outra enfileiradas em pé e por causa de minhas atitudes, por causa de um mero deslize em um apartamento, eu derrubei uma peça e agora sou obrigado a assistir cada uma derrubando a outra peça e por fim, agora eu cheguei na última peça caída ao tabuleiro.

E novamente uma mulher bem diante de mim me causou um pequeno nó no início da minha garganta. Droga. E o pior, eu a todo momento a julguei e agora eu odeio muito admitir isso, mas ela foi gentil. Mesmo que ela tenha perdido o seu apartamento por minha culpa, quer dizer, nós dois temos nossa parcela de culpa, mas mesmo assim ela em momento nenhum veio me cobrar a reforma ou algo assim. Eu, que estudo Direito devia saber muito mais que qualquer um que se ela quisesse, poderia me processar.

– Bom, eu até te ofereceria um café, mas eu já estou de saída... - Como eu estava em outra órbita, eu nem sei de onde ela tirou tantas malas em tão pouco tempo. - Só queria muito te entregar suas roupas, por isso te liguei. – Ainda acho que ela fugiu de um manicômio, mas... Talvez eu tenha a interpretado mal... ? 

– Você disse quatro meses, né? - Sim, eu também não acredito que vou fazer isso...

– Sim... Por quê? - Ela me encarou como se me questionasse com os olhos e se eu pudesse eu também me questionaria com os olhos.

– Vamos! - Peguei duas malas suas e quase me arrependi sentindo o peso absurdo quando as ergui. 

– Como assim? 

Eu já estava caminhando em direção a sua porta com as malas enquanto ela me seguia e seus passos faziam ''ploc'' no carpete, confesso que isso me ajudou muito a não desistir na metade do caminho por que a cada passo dela martelava na minha mente que isso também era minha culpa.

– Estou dizendo que você vai morar comigo nesses quatro meses! - Eu disse mais para mim do que para ela.

– O que acha de começarmos de novo? - Ela, que estava segurando as mãos atrás do seu corpo, estendeu uma mão para mim e eu fiquei estático a olhando de cima à baixo. - Prazer, Mellorine.

– Luckin. - Murmurei e quando apertei sua mão, engoli à seco quando percebi que avia um sorriso no seu rosto, mas não o mesmo dos milhões de sorrisos que ela me mostrou, esse sorriso parecia ser caloroso... Tão quente que eu já posso sentir me queimar.

É frustrante, mas pelo visto vou ter que arquitetar outro plano para o resto das minhas noites além de ficar lendo até de madrugada. E o pior, querendo ou não, agora será a dois. 

 



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