História Dois Invernos - Capítulo 11


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Categorias Bangtan Boys (BTS), Got7, Lee Taemin, Red Velvet
Personagens Irene, JB, Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Lee Taemin, Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Seulgi, Youngjae, Yugyeom
Tags Abo, Alfa Taehyung, Omega Jungkook, Taekook, Vkook, Yoonmin Mention
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Palavras 6.386
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Fantasia, Ficção, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, gente.

Esse é um capítulo especial e ele vai abordar o passado do Taehyung. Por favor, prestem atenção, tá? Hmm. Jeon Haneul está nesse capítulo também, para quem não se lembra, ele é o avô paterno do Jungkook, e apareceu brevemente por aqui antes. O próximo capítulo também será especial e seguirá essa base, mas ele vai abordar o passado do Jungkook.

Boa leitura!

Capítulo 11 - Sobre o fogo


 

Sobre o fogo

. Jeon Haneul

 

Jeon Haneul podia ser o que se considera atualmente como um “jovem adulto”, naquele tempo. Devia ter seus vinte e poucos e fazia uma patrulha rotineira pela floresta, um costume deveras antigo de seus ancestrais e que o imenso lobo negro de olhos vermelhos se recusava a abandonar — era apenas orgulhoso demais para enterrar as tradições de sua família. As matilhas ancestrais eram consideradas extintas, não sendo necessária a vigia de seus respectivos territórios como alfas pré-históricos e Haneul sabia, perfeitamente. Mas ele nunca se importou com isso.

Bem, os tempos eram outros, afinal. Alfas, Betas e Ômegas não possuíam as obrigações semelhantes àquelas de antigamente pertencentes às alcateias, como era na sua infância. Algumas pessoas sequer se transformavam nos grandes e familiares lobos, seus corpos se adaptavam às novas condições de existência, mais evoluídas. Eram apenas pessoas comuns.

É claro que se pudesse regressar, não moveria uma única pedra em sua trajetória, isso não. Foi sua constante teimosia e dificuldade de aceitação as responsáveis por lhe fazer encontrar aquela criaturinha miúda e indefesa, no meio da floresta.

Entre as antigas alcateias originais, aquelas onde os membros eram capazes de compartilhar os próprios pensamentos enquanto grandes lobos, era muito comum a sensibilidade aguçada, ainda sem origem especificada, porém teoricamente desenvolvida a partir da intensa convivência dentro de um determinado grupo. Uma ligação que está muito acima do que é considerado normal para a sociedade atual. Isso fazia de um homem, por exemplo, sensível ao ponto de ver o que se pode considerar como fragmentos de uma realidade que pode ou não existir — tudo seria sempre muito relativo —, através de sonhos. Um fenômeno raro, mas possível, dependendo do grau de envolvimento dentro de uma matilha: ter um simples acesso comum ao pensamento de outro membro, às vezes, desperta regiões normalmente adormecidas no cérebro, e isso obviamente gera consequências. Em outras palavras, essa grande exposição do íntimo de outro ser humano tem um preço não muito agradável, dependendo do ponto de vista: visões, que podem ou não se concretizar. A dúvida existiria sempre, e o que para muitos pode ser considerado um milagre, para Haneul era uma maldição.

Imagine ser capaz de, raramente, ter acesso ao futuro através dos sonhos. Nada muito nítido, apenas fragmentos perdidos dentro da sua própria mente, sem ter a certeza de que se concretizariam. Pessoas que não possuem a capacidade de acessar uma realidade alternativa já sofrem com as diversas possibilidades de resultados, provenientes das próprias escolhas durante a vida. Imagine, então, aqueles que conseguiam ter esse acesso, mas nunca saberiam como tornar concreto aquilo que lhes foi exibido através do inconsciente. 

É como saber onde está o pote de ouro, sem possuir o caminho que te leva até ele. E quando você não o encontra, está sujeito a passar o resto de sua vida se perguntando o que poderia ter feito de diferente para conseguir. Perguntas que jamais seriam respondidas, uma eterna tortura.

Haneul sempre foi um alfa fiel aos próprios princípios, e isso fez de si um homem forte. Talvez tenha sido a sua confiança em si mesmo a responsável por fazer aquele sonho se concretizar: Desde os dezesseis, sonhava com um pequeno serzinho, um bebê envolto por neve. Sempre a mesma coisa, nenhum detalhe diferente do que estava predestinado a ser.

Sun apareceu pouco tempo depois, e ele tinha certeza de que seria ela a responsável por lhe abençoar com aquela criança tão esperada, que sempre aparecia iluminada, como se fosse um aviso de que ela seria importante. Mas não foi.

Jeon Jaehyun, o seu único filho, partiu para Seul para estudar medicina, um curso que seus pais nunca puderam bancar. Exatamente por isso o — até então — garoto, desde muito cedo, se dedicou aos estudos com o que Haneul enxergava como uma devoção. É claro que tinha orgulho do menino, mas Jaehyun não se parecia em nada com aquele bebê que já não lhe visitava em sonhos desde o nascimento do filho. A confirmação de que ele não fazia parte da história traçada para seu futuro veio quando, após a partida de Jaehyun, o bebezinho sereno voltou a aparecer para o alfa durante algumas noites. Ele se tornou mais nítido, quase palpável, e o alfa pensava que seria, possivelmente, seu segundo filho com a esposa.

Mais uma vez, estava enganado.

Descobriu isso ao retirar de trás de um arbusto aquela pequena criança, abandonada naquela floresta fria no meio da noite em Daegu. Indefeso, inocente, puro. Sentia que era especial.

Sun mal podia acreditar no que os próprios olhos viram quando Haenul voltou para casa com aquela criança em seus braços, enrolada na jaqueta do alfa. Ela lhe deu seu primeiro banho — pois estava sujo de terra — e o casal o levou imediatamente para o hospital. Haneul sentia como se uma missão tivesse sido cumprida em sua vida quando tocava aquele garotinho tão magro e pequenino, e foi como se arrancassem um pedaço seu quando o bebê foi tirado de seus braços para receber os devidos cuidados e futuramente, ser entregue à adoção.

Sun quis cria-lo, de coração e alma. Mas Haneul negou, pois ele sabia que aquela criança nunca deveria ser criada em sua casa. Cada um de seus sentidos alertava: aquele bebê não deveria ser o seu filho. O único contato que teriam seria aquele, onde sua vida foi salva e entregue a quem realmente deveria socorre-la.

Kim Taehyung — como foi batizado alguns meses depois — não deveria fazer parte de sua família em hipótese alguma, mas ele voltaria, um dia. O alfa sabia que o veria novamente.

Essa certeza estava presente em cada um de seus instintos.

 

xxx

 

. Kim Taehyung

 

Kim Taehyung já tinha seus dezesseis quando começou a trabalhar como entregador de jornais. Foi criado por uma senhora de cabelos curtos, sua mãe adotiva, a ômega que possuía diversos problemas de saúde e era extremamente frágil ao inverno. Simplesmente não suportava o frio, tinha extrema repulsa por essa época do ano.

O alfa amava a senhora Kim com sua vida, morreria por ela. O garoto não conhecia muito de seu passado ou sobre os pais biológicos e também não se importava tanto, afinal, mãe é quem cria. Fora adotado ainda muito pequenino; suas únicas lembranças eram as de sua infância naquela mesma casa pequena, naquele mesmo bairro simples, com aquela mesma mulher de imenso coração e cabelos loiros, quase no mesmo tom que os seus próprios. Aos domingos se embolavam em cobertas no sofá para assistir doramas e comiam porcarias até que o menino pegasse no sono, obrigando a mulher a carrega-lo até seu quarto, lhe dando um beijo de boa noite na pintinha que o garoto tinha na pontinha do nariz, antes de apagar a luz e acender o abajur — ele não gostava muito do escuro.

 Taehyung nem sempre teve tudo o que quis, mas, tudo o que tinha lhe fazia feliz e era o suficiente. Quando a mãe foi obrigada a ser internada em uma clínica particular, Taehyung foi aquele que custeou todo o seu tratamento, tirando de onde não tinha para manter a mulher viva enquanto podia — mesmo sabendo que já estava extremamente fraca e sendo avisado pelos médicos que ela não suportaria por muito tempo. Isso significava que ele precisaria se despedir.

Leucemia.

O alfa já era maior de idade quando a mulher faleceu, e não foi fácil comparecer ao enterro. Sua mãe não possuía muitos amigos na cidade — era uma época difícil, a sociedade a julgava muito por ser uma ômega solteira com um filho para criar. Ninguém desejava manter contato com ela e Taehyung era sempre alvo de olhares feios vindo dos vizinhos. Suportou todo o preconceito porque sabia como ela era especial, e como o amava com todo seu coração, era recíproco. Taehyung acreditava que vivia no meio de um bando de idiotas, todos hipócritas que pareciam dispostos a apontar o dedo, mas covardes o suficiente para não encarar o próprio reflexo.

Como consequência, Taehyung foi o único parente a aparecer no enterro, ele e apenas um beta que trabalhava na padaria que a senhora Kim frequentava durante todas as manhãs, talvez o único colega que se deu ao trabalho de apoiar o alfa. Foi bom ter ao menos alguém para lhe apertar as mãos como um sinal de compaixão, naquela fatalidade.

A casa que tanto amava passou a ser o seu tormento quando ela foi embora. E foi por isso que, com certo pesar, Taehyung a vendeu por um preço menor do que ela valia — não que valesse tanto assim —, mas que era o suficiente para quitar metade das dívidas adquiridas durante o tratamento da mulher e lhe sustentar por quem sabe, mais alguns meses. Tinha que limpar seu nome e arrumar um novo emprego, um que pudesse ajuda-lo a pagar o restante das contas, ainda precisaria pagar pelo enterro.

E ele era apenas um jovem de vinte.

Conseguiu um lugar de dois cômodos para se instalar, um pouco distante do centro de Daegu e menor que a antiga casa. Ele não possuía tantas coisas para carregar durante a mudança, só o essencial. Parte dos móveis também foi vendida, precisaria se contentar com o que tinha e devia ser paciente para recuperar quase tudo o que foi perdido. Nem tinha estruturas emocionais para recomeçar, tampouco dinheiro. Mas possuía esperança, talvez a única herança deixada pela senhora Kim. Taehyung sempre foi um garoto de alma forte.

Três meses depois o alfa se encontrava desesperado por um emprego, e foi um milagre passar em frente aquela confeitaria banhada em um rosa bebê com uma plaquinha fixada no topo: Sunni, com um desenho de um pequeno sol cor de rosa ao lado.

“Estamos contratando” — Era o que dizia, e foi o suficiente para fazê-lo entrar às pressas naquele pequeno estabelecimento. Sun era o nome da senhora responsável pelo local, uma senhora que falava muitos palavrões, assim pensou o alfa.

No entanto, não lhe importava que fosse uma megera ou coisa parecida, ele precisava de dinheiro. Foi com o tempo que Taehyung viu, naquela mulher singular e tão alheia aos estereótipos impregnados pela sociedade que representava as pessoas mais velhas como frágeis e antiquadas, um ser humano com um imenso coração. Quando Taehyung apareceu pela primeira vez, Sun já tinha uma nova pessoa para ocupar o cargo e por culpa de uma mente falha, se esqueceu de retirar o maldito cartaz da vitrine. Não dava uma moeda naquele jovem bonito, porém inseguro demais. Ela informou que infelizmente não poderia contrata-lo, a vaga já possuía um novo dono.

E então, totalmente desprovido de filtros como era Kim Taehyung, ele lhe contou sua história. Não tinha mais nada a perder e pouco se importava se aquela senhora ranzinza era boca suja: ele precisava trabalhar. Não queria apelar e pedir por esmolas, mas se precisasse esfregar o chão para ganhar seu sustento ele o faria, sem pensar duas vezes. Antes limpar as gorduras das paredes do que tirar dos outros para se beneficiar, era o que a mãe dizia. Um trabalho é um trabalho, e é digno desde que não se passe por cima de ninguém. Tratava-se de honestidade.

Foi quando Sun lhe perguntou: “Então, você foi adotado?”

Taehyung que já sentia as lágrimas se acumularem nos olhos não entendia por que, justamente aquela parte de sua vida era a mais interessante para aquela ômega, dentre todas as informações que ele havia contado a ela. Ele pediu que ela lhe desse uma chance, pois precisava muito do emprego, e essa foi a primeira coisa que Sun lhe perguntou. Ele respondeu que sim.

“Está precisando, então está contratado. Gostei de você.”

Foi o que a senhora disse antes de sorrir e convidar o alfa para iniciar ali no dia seguinte, sem ao menos pedir seu currículo. Ela o deixou ali, boquiaberto no meio dos clientes, dando as costas em seguida — dizia ter assuntos a resolver naquela tarde. Apertou sua bochecha e se foi, simplesmente.

Taehyung não sabia cozinhar muito bem, ajudava a mãe com o que podia, mas não era o que se conhece como um expert. Foi Sun quem lhe ensinou tudo o que sabe a respeito do preparo de doces e outros alimentos, às vezes ele se perguntava o porquê de ela se importar tanto em lhe mostrar como se faz uma boa carne, quando esse não era o prato servido na confeitaria, nem de longe. Afinal, era uma confeitaria. Ela nunca justificou, apenas continuava lhe ensinando a preparar os próprios alimentos, e foi Sun quem lhe ajudou a limpar seu próprio nome, livrando-o das cobranças que eram feitas diariamente em seu celular ultrapassado, mas, útil.

Sunni curiosamente sempre esteve por perto para ajuda-lo, como uma amiga leal. Tinha parafusos soltos, é verdade. No entanto, seria eternamente grato a ela, nada mais importava.

E na primeira oportunidade que tivesse, seria igualmente bom para Sun.

Taehyung fora resgatado uma segunda vez.

 

xxx

 

. A Matilha

[?]

 

O beta alto que usava óculos de grau e se apresentava como Kim Namjoon estava novamente na confeitaria. Taehyung já se sentia incomodado, não que fosse um cliente ríspido, mas às vezes o alfa tinha a sensação de que ele o olhava estranho, como se estivesse sendo observado.

Apesar da sensação esquisita, tinha certa empatia por ele, algo que talvez nunca conseguisse explicar. Era dono de um sorriso gentil e de covinhas fundas na pele amorenada; estava sempre acompanhado de um livro ou um jornal, o alfa odiava basear-se em estereótipos, mas seguindo essa linha de raciocínio, parecia ser alguém inteligente. Bem, Taehyung tinha um trabalho a fazer e isso incluía servir os clientes nas mesas, por isso, colocou a xícara de porcelana junto ao pedaço de torta de banana com chocolate sobre uma bandeja e levou até o beta.

Foi recebido com um doce sorriso, como sempre.

— Bom dia, Taehyung. Como estão as coisas por aqui? Oh, obrigado. — Cumprimentou, tirando o jornal da mesa branca para que o alfa pudesse servi-lo — As tortas da Sunni nunca me decepcionam.

— Bom dia, Namjoon. — Kim não tinha o costume de chamar os clientes pelo nome, e só o fazia porque o beta já havia insistido muito para que não o tratasse com tantas formalidades — O movimento está bom, e essa torta fui eu que fiz. Espero que goste.  — Sorriu, sem conseguir esconder o orgulho que sentia de si mesmo. Limpou as mãos no avental, notando que este estava tão sujo quanto — Oh, droga. Desculpe por isso, vou me limpar.

Tinha a intenção de dar as costas, mas foi impedido pela voz grave do Kim mais velho. Olhou para trás, com as sobrancelhas arqueadas.

— Não precisa se preocupar com isso, é só farinha. — Sorriu, tomando um gole do café e levando um pedaço da torta à boca — Uh, está deliciosa! — Taehyung riu um pouco daquele que falava de boca cheia — Não estou surpreso, sinceramente. Você fez algum curso em especial?

— Ahn, na verdade não. — Coçou a nuca, sentindo-se levemente desconfortável com o interesse que Namjoon tinha em saber de sua vida — Sun me ensinou tudo o que eu sei. Eu... Vou deixar você comer em paz, me chame se precisar. Preciso cobrir a Irene no caixa. — Se curvou para o beta.

— Então eu te vejo daqui a pouco.

— Sim. Imagino que sim. — Antes que Namjoon pudesse puxar mais assunto, Taehyung saiu de perto, retirando aquele avental imundo e se escondendo atrás do balcão do caixa. Suspirou, observando o beta, que estava de costas e parecia entretido em sua torta de banana.

Taehyung nunca entenderia aquele olhar estranho que Namjoon lhe lançava algumas vezes. Imaginou se estava interessado em si, mas descartou essa possibilidade logo em seguida, instintivamente. O beta não flertava consigo e tampouco mostrava desejar algo do tipo, o alfa não acreditava que sua fixação tinha relação com um interesse amoroso. Era mais como uma curiosidade... Estranha. E que se tornava cada vez mais frequente, já que durante todas as visitas do Kim mais velho ao local, Taehyung era obrigado a responder perguntas sobre, por exemplo, sua saúde física e mental. Só que não era algo aleatório ou como se estivesse questionando apenas por educação: ele literalmente queria obter as respostas. Completamente.

Após alguns minutos, o beta caminhou até o caixa e esperou pacientemente na pequena fila que se formava, não havia ninguém atrás de si. Taehyung se sentia nervoso só de estar perto dele, mas ele lhe parecia tão familiar. Talvez, apenas tenha criado empatia pelo outro, por sua gentileza e educação.

Claro que seria apenas isso.

Bem, ao contrário do esperado, Namjoon não lhe importunou com mais perguntas, apenas agradeceu pelo atendimento, pagou pelo o que consumiu e partiu, tão rápido que o alfa mal pode vê-lo sair pelas portas de vidro. Não pode conter o suspiro aliviado, sentindo uma maldita gotinha de suor escorrendo pela lateral de sua testa. Limpou quando Irene retornou ao seu posto e tratou de vestir um avental menos imundo do que aquele que trajava anteriormente. Por um instante, se sentiu um pouco tonto, mas seguiu o caminho até a cozinha. Ainda precisava preparar pão doce.

— Esse cara é realmente estranho. — Sussurrou para si mesmo, sumindo atrás da cortina segundos depois.

 

xxx

 

Caminhava pela calçada, os fones de ouvido pretos bem postos. Enfiou as mãos nos bolsos depois de ajeitar a touca cinza, já estava no ponto de ônibus, mal tinha percebido. A época gélida se aproximava e Taehyung não sabia descrever exatamente se gostava dela. Ele conseguia sobreviver, era um alfa forte, além de achar uma graça as criancinhas que criavam bonecos de neve no parque central, ao lado de suas famílias. Kim não o fez com tanta frequência durante sua infância, já que a mãe não se adaptava bem às baixas temperaturas.

— Vamos, ônibus maldito. Coopere comigo hoje. — Disse, notando a presença de outro jovem ali que também esperava pela condução tarde demais. Completamente sem graça, Taehyung sorriu como um pedido de desculpas. Sentiu o rosto corar.

Tinha que parar com a mania de falar sozinho por aí, dessa maneira ninguém o levaria a sério, tampouco aquele garoto que retribuiu seu sorriso com uma cara feia. Sem educação, pensava o Kim. Até parece que ele mesmo nunca havia feito algo do tipo, certo?

Então notou, do outro lado da avenida, sentado na calçada e escorado em uma árvore, aquele mesmo garoto de cabelos negros e pele pálida que às vezes teimava em ficar ali como se o amanhã não existisse. Taehyung franziu o cenho, não era a primeira vez que ele aparecia por ali apenas para ficar como se fosse uma pedra: não movia um músculo, os olhos vazios vez ou outra repousavam sobre o rosto de Taehyung, e quando eram correspondidos, aquele garoto — que o alfa já tinha percebido se tratar de um ômega — logo tratava de cortar o contato visual.

Mas ele nunca ia embora. Pelo menos, Taehyung nunca vira seu corpo se mover na intenção de partir antes que o ônibus do alfa chegasse. O problema é que naquela noite fria, justamente quando o Kim desejava sua cama mais do que qualquer outra coisa no universo após mais um dia cansativo no trabalho, o garoto magrelo decidiu levantar-se e atravessar aquela avenida como um foguete, parando bem em frente ao alfa que recuou dois passos para trás, o que já não era algo muito comum. Taehyung não costumava fugir de ninguém.

Tossiu, desajeitado.

— Pois não? — Perguntou com a voz firme, fitando a face do ômega branquelo.

— Oi. Você é o Kim Taehyung, certo? — Seus olhos negros e pequeninos demonstravam muita segurança no que fazia, seja lá o que fosse. Os lábios rosados estavam cravados em uma linha firme, fazendo com que sua expressão se tornasse ainda mais séria.

E tenebrosa.

— Como sabe meu nome? — Seria algum psicopata? Deveria ligar para polícia? Ah, inferno. Estava sem créditos.

— O meu nome é Min Yoongi. — Estendeu a mão para que o alfa apertasse, algo que não era muito comum aos olhos de Taehyung, mas de certa forma, admirável. É só que o contato entre alfas e ômegas que não possuíssem um determinado grau de intimidade não era bem visto pela sociedade.

Mas o Kim nunca se importou muito com isso mesmo, dessa forma, sem abandonar parte da insegurança, apertou a mão oferecida a si. Aquele outro garoto ao lado olhava preocupado, o coitado talvez estivesse com medo. Bem, era compreensível, na verdade.

— Min Yoongi... Você não me respondeu. Como sabe o meu nome? — Não havia dito de uma maneira grosseira, tomando o cuidado de estampar um sorriso simpático em seu rosto. O ômega não pareceu se abalar, de qualquer maneira.

— É o que está escrito bem aí. — O Min apontou para o lado direito do peito do alfa, e só então Taehyung notou que não havia tirado o maldito avental antes de sair da confeitaria, sendo distraído o suficiente para vestir até mesmo a jaqueta de couro por cima. Seu nome estava bordado no tecido. — A não ser que eu esteja cego.

— Ah! Claro! Claro que sim, esse é meu nome. Caramba, me esqueci do avental. — Com as bochechas coradas, Kim coçou a cabeça, sentindo um alívio momentâneo em seu coração. Ao menos não era um psicopata. Bem, esperava que não fosse um. — E-então, hm... Posso te ajudar?

— Eu sempre espero o meu amigo, Kim Namjoon, aqui nessa mesma avenida, depois que ele sai do cursinho. — Deu de ombros — Mas eu recebi uma mensagem dele avisando que não vem, e enfim... Estou sem condução para voltar, ele ia pagar minha passagem.

Taehyung entendeu aonde aquele ômega queria chegar, mas o que o surpreendeu não foi o fato de estar pedindo que pagasse sua passagem — o que já era extremamente estranho, considerando que na prática, eram apenas dois desconhecidos. Mas sim, o nome proferido por aquele que era mais baixo que o alfa: Kim Namjoon.

— Espera, você é amigo do Namjoon? Kim Namjoon?

— É, sou. Você o conhece? — Inclinou levemente a cabeça para o lado.

— Oh, sim. Ele é, hm, um colega. — Apertou um lábio no outro, caçando dentro do bolso da jaqueta a sua carteira. Min Yoongi notou o que estava fazendo.

— Você é realmente muito gentil, certo? — Levantou a cabeça ao ouvir a voz do Min, já sentia a textura do pouco dinheiro que tinha nos bolsos com a ponta dos dedos — Quer dizer que você não vê problema algum em abrir a sua carteira na frente de um estranho qualquer? — Cruzou os braços — Se eu quisesse te assaltar, eu o teria feito, sabia?

Taehyung levou mais do que o tempo esperado para processar, aos poucos, cada palavra que era dita pelo outro. Quando a ficha caiu, mal podia acreditar que o ômega estava mesmo tirando sarro de si, justamente, que planejava ajuda-lo com uma passagem. Nem percebeu quando o outro pobre garoto que esperava pelo ônibus saiu correndo, provavelmente temendo um possível criminoso.

Fechou a cara no mesmo instante.

— É brincadeira minha, Kim. Apesar de eu achar que você deveria ser, sim, um pouco mais cuidadoso. — Yoongi sorriu pela primeira vez, exibindo um sorriso gengival até que bonitinho, pensou Taehyung — Namjoon ainda vem me buscar. Eu sei que vocês se conhecem, ele me pediu para te entregar isso aqui. — Estendeu uma pequena caixinha dourada, que foi pega pelas mãos incertas de um alfa um tanto quanto aborrecido. — Eu não queria te assustar, desculpe.

— Não estou assustado. — Claro que não — O que é isso? — Abriu a caixinha antes de obter a resposta, notando que havia ali dentro um relógio prateado — Um relógio? — Admirado, pegou o objeto com a destra, analisando seus detalhes.

— Amanhã não é tipo, o seu aniversário? — Yoongi questinou, mas olhava para a avenida, provavelmente aguardando a chegada do amigo — Ele disse que você trabalha aqui perto e que se eu conseguisse, era pra te entregar. Amanhã ele tem uma apresentação, vai ficar fora o dia todo.

— Uau. Nossa, é realmente... Muito bonito, m-mas eu não-

— Não ouse recusar, o Joon fez de coração. — Virou para encara-lo, e Taehyung notou que Yoongi falava serenamente, como se o conhecesse há décadas — E não, ele não deseja seu corpo nu. Na verdade, acho até que ele prefere as mulheres betas, quem sabe. Ele não fala muito sobre isso. — Deu de ombros, observando sem um único vestígio de espanto a face embasbacada do loiro.

— Não é isso, eu nem pensei nessa hipótese! — Claro que pensou — É só que... Ele não precisava se incomodar tanto. — Na verdade, era um belo relógio. Devia ter custado caro, a marca estava gravada na parte interna em caligrafia dourada. Sentia-se, de certa forma, culpado. Culpado por ter julgado Namjoon quando ele próprio odiava julgamentos sem embasamento.

Havia a possibilidade de que o beta apenas desejasse ser seu amigo, certo? Existem pessoas solitárias pelo mundo...

— Ah, não esquenta, ele é assim mesmo. Semana passada comprou cervejas para o padeiro do bairro dele, simplesmente porque gosta do cara. — Taehyung notou um táxi estacionar do outro lado da avenida, vendo o rosto de Namjoon aparecer sorridente através da janela. Ele acenou, e o Kim correspondeu, tímido — Veja, ele chegou. Quer uma carona? Nós podemos rachar. Só não demore tanto para decidir, o taxista não me parece muito feliz com essa parada extra. Velho rabugento. — Yoongi olhou feio para o senhorzinho de cabelos grisalhos que apertava a buzina como se sua vida dependesse disso — Eu já estou indo, inferno! — Gritou.

— Oh, não será necessário. Obrigado! E por favor, diga ao Namjoon que eu irei agradecer melhor da próxima vez que for me visitar e que eu... Eu fiquei muito feliz por ele ter lembrado. O relógio também é lindo. Obrigado. E me desculpe. — Vomitou tudo de uma vez, sentindo-se um completo imbecil. Sentia-se tão inútil por não conseguir conversar como uma pessoa normal. Qual era o seu problema, afinal de contas?

— Ok, eu digo a ele, e não se preocupe. — Min disse gentil, afastando-se aos poucos de onde o alfa se encontrava. Vestia roupas de moletom pretas e as mãos estavam escondidas nos bolsos — Ah, feliz aniversário, Taehyung! — Taehyung agradeceu, mas Yoongi já havia corrido até onde se encontrava o táxi.

A porta do veículo se abriu e Taehyung pode ver o rosto iluminado do beta que sorria para ele, sendo prontamente correspondido.

— Obrigado! — Gritou, recebendo mais um sorriso de Namjoon, mesmo que de longe.

A porta se fechou e o taxista finalmente deu partida. Kim ficou ali parado, observando o relógio que tinha nas mãos. Decidiu guardar na caixinha e colocar na mochila, depois pensaria em uma maneira de agradecer o beta pela generosidade. Sentia-se até meio acanhado, a única que lhe presenteava, geralmente, era Sun. Depois do falecimento da mãe, ela era a única lhe dar um “feliz aniversário”.

Bem, no final de tudo, talvez Taehyung ainda fosse capaz de fazer amigos. Certo?

 

xxx

 

Taehyung estranhava o fato de estar conhecendo novas pessoas, e mais ainda, estarem gostando muito de si. Muito mesmo. Até demais.

Não fazia ideia de onde surgiam aqueles garotos que repentinamente entravam na confeitaria e agiam como se fossem seus melhores amigos, também travavam Sun de maneira que os fizesse parecer íntimos, conhecidos de longa data ou coisa assim. Como não devia importunar muito os clientes, sempre os tratava com a mesma gentileza. Havia um garoto ruivo de nome Hoseok, que vivia na lojinha comprando os doces tradicionalmente brasileiros que Sun o ensinara a fazer: brigadeiros. E só levava os maiores, em grande quantidade. Também tinha aquela criaturinha sorridente de cabelos loiros, Jimin, que aparecia acompanhado de Namjoon vez ou outra, além de um homem aparentemente mais velho, Seokjin, apreciador de bons livros e chá. O alfa notou que mesmo após três meses, essas mesmas pessoas começaram a frequentar a confeitaria religiosamente. E isso não seria considerado nada fora do normal, claro que não.

Se todas elas não possuíssem aquele mesmo olhar medidor que Namjoon lhe lançava diversas vezes. Isso o fazia pensar se havia algo de extremamente errado ou péssimo em seu rosto — das duas uma —, pois aqueles garotos viviam lhe observando dos pés à cabeça, diariamente. Haviam cinco deles, Namjoon agora aparecia às segundas, Seokjin às terças, Jimin às quartas, Hoseok às quintas e aquele menino, Yoongi, estava sempre às sextas no mesmo ponto de ônibus. Era bizarro porque parecia esperar por si, e sempre dava um jeito de puxar assunto.

Os eventos incidiram de uma maneira muito veloz.

Era sábado qualquer quando, pela primeira vez em sua vida, Taehyung sentiu aquele calor atormentador possuir seu corpo, desde as unhas dos pés até os fios dos cabelos. Não era a primeira em que se transformava no grande lobo caramelo, mas era a primeira em que ele não possuía controle algum sobre essa transformação.

Ele não soube explicar como ou o porquê, de naquela noite fria, decidir caminhar pela floresta após acordar queimando em febre. Simplesmente saltou da cama e correu para fora, rumo às árvores sob o azul intenso do céu estrelado. Quando olhou para baixo, já não eram seus pés humanos que enxergava e sim, as quatro patas gigantescas. Taehyung não se recordava de ter dado o comando para que aquilo acontecesse, era como se simplesmente tivesse explodido de uma hora para a outra. E então correu. Correu o mais rápido que podia, sentindo o vento gelado fazer seus olhos arderem como o inferno.

Até encontrar algo como um campo de terra, não tão grande, mas em um tamanho proporcional o suficiente para guardar os  outros lobos que ali estavam. E foi quando uma voz familiar invadiu sua mente. Suas pupilas se dilataram como se um universo único se expandisse dentro do seu ser. Era a voz de Kim Seokjin.

“Estive sonhando com você durante dois anos.  Finalmente estamos aqui”

Seu coração parecia pesar toneladas ali, aquele lobo estava mesmo se comunicando consigo através dos pensamentos. Taehyung acreditava que aquele tipo de comunicação primitiva já não existia nos novos tempos, mas estava errado. Sempre esteve errado.

“Kim Taehyung. Você é o escolhido para ser o alfa líder. Nós te esperamos por muito tempo”

“Os laços de uma matilha são eternos, agora estamos ligados para sempre”

Reconhecia a última voz como sendo a de Yoongi, e então, antes que seu corpo pesado caísse na terra fria em um sono profundo, viu os lobos à frente se curvarem diante de si, todas as cabeças baixas perante sua presença.

Depois, tudo ficou escuro.

 

xxx

 

.Kim Taehyung

[Algum tempo antes do Inverno]

 

Devia ser a décima receita de bombom que errava.

Kim suspirou cansado, sua cabeça não funcionava direito há algumas semanas. Sentia-se muito alheio a tudo, coisas mudavam dentro de si e ele simplesmente não conseguia descobrir do que se tratavam ou de onde vinham. Seu organismo inteiro parecia se preparar para algo que ele nem mesmo conhecia. As noites mal dormidas eram sempre regadas aos sonhos esquisitos que acabavam tão rápido quanto começavam. Nada muito específico, apenas borrões escuros e vozes que ele não reconhecia. Era como entrar em batalha com a própria alma. Era como se houvessem dois dentro de si, e um estava contra o outro.

Então sentiu aquele cheiro incrivelmente doce que vinha de fora, qualquer coisa que estivesse segurando naquele momento foi ao chão. Tinha a impressão de que seu corpo entrava em euforia, ansiando por algo que ele não sabia o que era, porém, sabia que precisava disso. O que quer que fosse.

Sunni, você chegou? Que cheiro é esse? Pelos deuses!”

Apenas alguns passos foram necessários para sair da cozinha, até aquilo acontecer.

“Taehyung, meu mel, venha aqui! Quero que conheça meu neto. Você deve estar sentindo o cheiro dele.”

Ele era lindo.

Tinha cabelos negros, e os olhos igualmente escuros pareciam reter a noite dentro da íris. Sua boca era como um pequeno paraíso particular, sua pele se igualava a neve que sua mãe tanto odiara durante a vida. Mas ele jamais conseguiria odiar o inverno depois dele.

Ficou, durante o que pensou ser uma eternidade, admirando aquela criatura que lhe era tão familiar e tão desconhecida ao mesmo tempo. Por dentro, uma nova vida surgia em si, um novo propósito. Um novo motivo para continuar vivo. E nada nunca seria superior a ele.

“Jungkook, meu filho, limpa a baba que ‘tá escorrendo.”

Jungkook. Seu nome era Jungkook, então. Uma tranca havia se quebrado dentro do peito do alfa, algo que ele jamais havia sentido durante seus poucos e quase miseráveis anos de vida. Fogo queimava sua mente, uma explosão que se expandia. Era como ter o bem e o mal em guerra. Algo brigava para que ele não desse atenção ao garoto, mas seria impossível ignora-lo.

Foi avisado de que aquilo aconteceria antes do tempo certo, antes mesmo que pudessem sequer trocar algumas palavras. Seokjin já havia dito um milhão de vezes, e por mais um milhão de vezes Taehyung não considerou essa possibilidade.

Porque um Imprinting* não deveria ocorrer antes que dois indivíduos estivessem mutualmente envolvidos. Antes que houvesse reciprocidade. Mas, infelizmente, Taehyung estava condenado a amá-lo antes mesmo de saber sobre sua existência.

“Há um motivo para que seja dessa forma. Mas eu simplesmente não consigo ver.”

Era o que Seokjin dizia, em mais uma de suas tentativas para convencer o alfa de que não eram apenas sonhos aleatórios e sem sentido. Nunca foram.

“É impossível, Jin. Um Imprinting é desencadeado apenas quando é recíproco. Uma pessoa, sozinha, não é capaz de estar ligada dessa maneira a alguém que sequer construiu sentimentos por si.”

No entanto, o que antes era uma certeza, se rachou como um espelho e se partiu em milhões de pedaços. Porque no momento em que seus olhos se encontraram com os daquele ômega, o que antes estava congelado dentro de si, derreteu.

E se transformou em fogo.

 

xxx

 

— Jantar de noivado?

Jungkook lia, incrédulo, aquele convite estúpido que Sunni havia preparado junto a Taemin. Foi o estopim para que a fúria tomasse conta de si, e então ele rasgou aquele maldito convite na frente da avó. Sun estava parada ao lado do balcão de mármore, observando o neto através dos óculos de grau redondinhos. Fubá dormia tranquilamente em seus pés, protegidos do frio por pantufas em tons de rosa.

— Pra mim já chega. — O ômega deu as costas, vestindo a jaqueta de couro que havia comprado quando ainda tinha um emprego. Se preparava para pegar a chave e abrir aquela maldita porta, mas seu corpo travou ao ouvir a voz serena demais da ômega mais velha.

— Vai desistir do dinheiro que é seu por direito, Jungkook? — Perguntou, bebericando um pouco do café que havia preparado — E o que você vai ganhar em troca? Sabe que seu pai não vai deixar uma porra de uma moeda na sua conta se você não se casar né, garoto? — Sun continuava falando, mas seus olhos estavam fixos às unhas curtas que ela observava com desdém.

— Eu não me importo mais. — Não era verdade, ele ainda se preocupava com seu futuro financeiro. Só Deus sabia como era difícil dizer aquilo para a avó quando nem ele mesmo acreditava, mas foi o que fez. Estava tentando se proteger de si mesmo.

— E aonde você vai?

— Eu preciso... Não sei. — Levou as mãos à cabeça, bagunçando os próprios cabelos. As lágrimas se acumularam em seus olhos e sua voz embargada finalmente saiu de sua garganta com muita dificuldade — Atrás da única pessoa que me escuta. Eu vou procurar o Taehyung. — E então passou pela porta, sem se preocupar com o frio que fazia do lado de fora ou com os poucos floquinhos de neve que caíam do céu. As bochechas queimavam com o ar gelado.

Sunni ficou encarando aquela porta fechada, entrelaçando os dedos das mãos. O gato se enroscava em suas canelas e a senhora observava o vazio, lembrando-se do seu neto, já tão crescido, sacrificando a si mesmo. Sabia que ele tinha um caminho duro pela frente, renegar suas próprias convicções não é para qualquer um, principalmente quando não se tem certeza alguma sobre o futuro.

Ela se moveu, acidentalmente batendo o braço na xícara de porcelana. Viu cada um dos caquinhos se quebrando no chão, mas não se importou. A ômega sorriu, suspirando. Era como se um grande peso fosse tirado de cima de seus ombros velhos e cansados.

— Finalmente, Jungkook. — Sussurrou para o nada, e viu o gato assustado fitando seu rosto com os olhos gigantescos vidrados, em cima da mesa da cozinha.

Enquanto isso, Jeon seguia dentro do ônibus até o ponto mais próximo da morada de Kim Namjoon. Ele ainda não sabia onde se localizava a casa de Taehyung, então não tinha muita escolha. Secava as malditas lágrimas sempre que teimavam em escapar, a pele ardia por causa da fricção. Ele fungou uma última vez antes de descer do veículo e caminhar mais um quarteirão até, depois de mais alguns minutos, estar de frente para a porta do beta. Apertou a campainha.

— Jeon. — Ao contrário do esperado, não foi Namjoon quem o atendeu, e sim o próprio Kim Taehyung.

Um bolo se formava na garganta do ômega, ele tinha tantas coisas para dizer, todavia, tudo parecia entalado ali dentro. Piscou algumas vezes para se certificar de que estava, de fato, enxergando o que acreditava estar enxergando: os olhos do alfa estavam avermelhados e pouco inchados, assim como a pontinha do nariz e as bochechas. A sua respiração presa de alguma maneira.

Taehyung não estava preparado para aquela visita, mas, embora fosse minimamente uma maldição, era também a sua bênção particular.

— Tae, você está... — Levou a destra ao rosto do alfa, que instintivamente fechou os olhos ao sentir o toque frio em sua pele — Chorando?


Notas Finais


*Imprinting: Acho que alguns de vocês já devem conhecer, mas como Abo é um universo relativo e cada autor constrói sua história de uma maneira, eu vou explicar o básico sobre o que é (teoricamente) e sobre como ele vai funcionar aqui.

O Imprinting ocorre quando duas pessoas se reconhecem como parceiros em potencial, depois disso, os parceiros estão ligados intensamente por esse laço que não pode ser quebrado.

Em Dois Invernos, ele não segue cem por centro essa base. Aqui ele é retratado literalmente como o encontro do amor verdadeiro, no caso, ele ocorre primeiro com o Taehyung, o que seguindo a teoria não seria muito comum. Quem não curte muito um abo que retrata almas gêmeas, pode parar por aqui ahduasdhuasdha porque eu sou clichê sim.

Lembrando mais uma vez que não existe uma regra específica, existem autores de abo que não gostam de inserir esse tipo de ligação em uma história, por exemplo. Mas aqui acontece. Cada autor constrói seu próprio universo. Se quiserem dar uma pesquisada por aí, eu recomendo <3 É legal.

Eu liberei uma One Taekook ontem, para quem quiser ler: https://www.spiritfanfiction.com/historia/genius-13927184

Eu falei disso nessa One nas notas finais, e vou deixar esse avisinho aqui também: eu desativei meu twitter e será difícil me encontrar em algum site que não seja o Spirit ou o Inkspired. Foi proposital, eu não sei quando volto pro tt :// Tinha gente que falava comigo por lá, e eu quero dizer para essas pessoas que ainda podem falar comigo por aqui <3

Por hoje é isso. Obrigada por tudo, sei que nem sempre respondo os comentários mas eu leio TUDO. Muito obrigada, mesmo. Amo vocês!

agora vou comer um ovo frito pq tb sou filha de deus


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