História Dolce vita - Capítulo 1


Escrita por: e blhproject

Postado
Categorias EXO
Personagens Kai, Kris Wu, Lu Han
Tags Blhproject, Kai, Kailu
Visualizações 69
Palavras 13.764
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Estupro, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Se você se interessou pela história o suficiente pra chegar até aqui deixo de cara minha gratidão.

Espero que aprecie a leitura tanto quanto eu apreciei escrever.

Capítulo 1 - Amaro


“Para começar, seja feliz, seja ‘gente’ e depois seja o que mais você quiser.”

Para Luhan não existia nada mais gostoso que um bom doce de padaria.

Por essa razão todo dia ele caminhava alguns quarteirões com um pequeno peso nas costas para se dar ao luxo de simplesmente aproveitar a própria companhia e ter o prazer de comer um doce ou quatro. Uma vitória em sua concepção secreta de evolução juntamente com um passado nebuloso que tinha lhe tirado a perspectiva e a capacidade de sentir todos os gostos da vida por um longo tempo.

Ele não gostava de pensar sobre nebulosidades, entretanto. Tinha duas horas de terapias semanais reservadas para isso, então em seu dia a dia gostava de focar apenas no presente, no agora. E o “agora” era que Luhan estava desempregado por escolha própria procurando um emprego que lhe desse satisfação e liberdade para explorar seu lado criativo, do qual tinha muito orgulho.

Era uma terça feira nada animada, ele comia sua terceira rosquinha enquanto respondia e-mails de algumas empresas pequenas que se interessaram pelo seu currículo e gostariam de marcar uma entrevista. Ele gostava da sensação de ser requisitado nesse sentido, sabendo que seu último emprego e recomendações tinham lhe dado um refinamento maior ao mercado de trabalho. Mantinha-se humilde, claro, e observador para aceitar apenas aquilo que realmente lhe interessava; um lema que mesmo sem consciência levava para todos os aspectos de sua vida.

Observador demais e por vezes via coisas que não desejava encarar nunca mais. Uma maldade aqui, uma negatividade acolá, coisas que o faziam pensar nas nuances do ser humano e se todos de fato eram capazes de cultivar bondade. Esse era um questionamento constante, tão normal que mal o sentia na ponta da língua e que fazia arrepios correrem pelo corpo quando obtinha respostas.

Porém, o que fez os ombros magros sacolejarem em um arrepio involuntário naquela manhã tão típica foi uma silhueta familiar apoiada no balcão, cabelos cortados propositalmente de forma despojada, um blazer alinhado na medida certa em uma costa larga que ele jamais pensara encarar de perto novamente. Sua mente se fechou. Fundiu. Urrou. E suas pernas levantaram em busca de um equilíbrio que ele já tinha enquanto estava sentado. Suas pernas buscavam raiva. Confirmação. A proximidade confirmou que o cheiro era o mesmo de anos atrás, fato que nauseou suas narinas e memórias.

Wu Yifan representava para Luhan parte do seu passado e presente. Era um nome que doía dizer. A fonética das junções das sílabas sangrava quando saia de seus lábios. Wu. Yifan. Yifan. Yi. Fan. Wu.

Ele não era especial de maneira alguma -apesar do protagonismo indigno- e nem era saudades que fazia Luhan se retorcer em novecentos pedaços de almas quebradas diferentes. Era medo e culpa em suas piores formas, assustadoras com sorrisos debochados e mãos sangrentas. Formas que puxavam seu interior como um cabelo frágil, mas o couro ainda ardia. A falta de compreensão e a percepção tão ilógica da violência que pisava no próprio bom senso e construções pessoais. Da falta de amor em tantos sentidos, principalmente amor próprio. O amor próprio era delicado. Tocava a face de Luhan todos os dias pela manhã, acordando-o com um afago de dedos que de tão mornos poderiam ser de uma mãe. Mas junto com o torpor do sono se esvaia deixando um vazio tão solitário que ensinou a ele cada contorno da tristeza.

Naquele momento ele entendeu o abismo enorme em dizer tudo isso e mais para o Yifan distorcido de sua mente onde os olhos queimavam como o de um predador e o Yifan de carne e osso cujos olhos sorriam em despedida para a atendente do balcão de forma quase doce.

Yifan agora estava se afastando, um grande copo de chá gelado nas mãos. Luhan o puxou pela manga, um sutil chamado e eles se encararam pelo que pareceu uma eternidade. Uma eternidade guardada dentro de cinco segundos. Luhan com os olhos arregalados esperando algum tipo de explosão que separasse os dois e Yifan subitamente inexpressivo. Talvez ele nem se recordasse de Luhan. O menor se questionou sobre isso, sobre suas memórias e aquilo que fazia seus dedos ossudos tremerem enquanto Yifan saia a passos largos da cafeteria.

De repente o gosto dos doces em sua boca não existia mais, nem o aroma do café, nem os risos desconhecidos que lhe faziam tão bem. Ele apertou o próprio cabelo com ira e uma pitada de descontrole por ter se permitido questionar coisas que ele sabia que estavam entranhadas em seu espírito e por ter  o deixado escapar sem ter dito absolutamente nada.

A verdade era que Luhan tinha muito guardado em seu peito. Coisas muito íntimas, sujas. Constatações que seu interior insistia em engasgar e embolar para colocar para fora. Ele tentou por muito tempo contextualizar, enumerar, organizar e estabelecer uma espécie de padrão para expressar sua dor, entretanto, nada erradicava aquela sensação de pânico e choro fácil toda vez que ele era obrigado a encarar sozinho certas situações. E ele estava sozinho naquele segundo, sentindo tudo e vendo o tempo escorrer pelos seus dedos junto com uma vida inteira que se resumia em uma oportunidade assombrosa.

Ele correu, correu tão rápido que nem captou seus próprios movimentos de colocar a mochila nas costas e jogar para a moça no balcão uma nota de dinheiro que com certeza era mais alta que o que tinha consumido.

Correu atrás de Yifan. Ele procurou e achou, com seus olhos observadores que amavam enxergar os detalhes belos da vida e das pessoas, a coisa mais feia que já tinha visto em seus anos.

Era difícil para ele conceber tanta feiúra porque na superfície não existia realmente uma.  E isso lhe amargava muito.

Yifan era perfeitamente normal, aparentemente.  Luhan sabia alguns detalhes antigos de sua vida. Ele adorava esportes. Basquete, mais precisamente. Isso explicava seu porte físico, algo que fizera Luhan se encantar por ele. Ele era estrangeiro — dividia a mesma nacionalidade com Luhan — e muito orgulhoso de suas raízes. Ele venerava sua mãe. Ele era, na superfície, um bom homem, mas Luhan tinha mergulhado fundo o suficiente nas águas de Yifan para saber que havia perversidade. Na realidade, ele fora afogado nas águas fundas de Yifan pelo próprio.

E agora via Yifan em cada mar desconhecido, sem poder nadar em paz.  Sentia como se tivesse um superpoder as reversas, onde ele podia olhar através das pessoas e ver as coisas odiosas, ações que não lhes pertenciam de fato.  Era nojento em sua concepção, totalmente imperdoável dentro de seus preceitos pacíficos de criação, embora fosse automático de quem se tornou. Era um conflito que lhe fazia mal, um temor irreal constante e que por muitas vezes lhe exauria.

Não confiar era cansativo demais. Era dominante e se tornava instinto. Dava medo, medo aterrorizante e infantil, onde não se consegue nem controlar a própria bexiga. Não confiar era... Triste. Porque Luhan amava as pessoas. Amava as possibilidades, mas não tinha confiança no abraço de tudo isso. Ou que os braços para o abraço sequer existiam. Confiança para Luhan era isso; uma figura disforme, sem braços, sem olhos, sem coração e que possuía o sorriso de Yifan.

Ele afundou em pensamentos enquanto seguia Yifan. Ele pensou no que diria, pensou se conseguiria dar um soco. Pensou nos lugares onde ele estava indo. Teve vontade de berrar com cada pessoa que ele falava e era gentil. Ele até mesmo descobriu onde Yifan trabalhava. Um banco no centro, lugar onde Luhan evitava ir, pois odiava filas.

Ele sentou em frente ao edifício em questão, longe o suficiente para ficar invisível. Ainda estava pensando demais e isso nunca era bom, mas pelo menos seu peito não saltava mais e suas mãos não tremiam. Ele estava terrivelmente atrasado para os próprios afazeres, devia estar a caminho de uma entrevista de emprego, uma ótima, aliás. Porém, simplesmente esqueceu tudo quando viu Yifan e nem sabia dizer ao certo por que.  Sentiu-se burro e infantil por estar fazendo aquilo, pequeno demais diante da sua própria motivação e um tantinho exausto.

Entretanto, ele continuou durante longas horas. Yifan andava bastante em seus intervalos e gostava de restaurantes caros. Falava muito ao celular também e sempre tinha alguém ao seu lado. Era até uma vida entediante considerando o fato de que nada daquilo era verdadeiro. Luhan simplesmente nunca aceitaria a vida e capa perfeita daquele homem. Ele não merecia a vida entediante que tinha.

Luhan podia ter ido até Yifan em qualquer hora, até mesmo entrado no seu espaço de trabalho e ter feito uma cena, ter colocado tudo para fora e de quebra tê-lo feito perder o emprego. Mas não era isso que ele queria. Ele não queria gritar, queria algo mais. Algo mais substancial e que lhe desse alguma paz de espírito. Ele não sabia o que. Talvez estivesse enlouquecendo de fome e frio.

O céu já estava escuro fazia algum tempo e Luhan se encontrava em um bar há quase meia hora.  Era bonito e caro o que o fazia sentir a necessidade de tirar o excesso de óleo do rosto e colocar uma roupa limpa. Ele não tinha dinheiro nem para comprar uma bebida naquele lugar. Sentia-se deslocado, mas isso não importava. Ele era invisível. Invisível e encarava Yifan, claro. Observava cada detalhe, pois Yifan tinha companhia e pela primeira vez desde o encontro deles pela manhã sua mente gritava realmente em alerta. Era uma mulher com certeza mais velha que ele mesmo e Yifan. Ela era bonita, de aparência madura e altiva. Muito elegante, quase entrava em contraste com Yifan. Ela ria, gargalhava junto com ele, uma taça de vinho branco nos dedos. Luhan se atentava a todos os detalhes, queria encontrar neles uma resposta, uma indicação de que ela sentia medo. Qualquer tipo de medo. Dos toques sutis, aos beijos nas bochechas, as caricias no cabelo... Nada. Ela confiava nele. Luhan sufocou com isso. Sufocou em silêncio, os olhos cansados piscavam com lágrimas que ele nem sentia que produzia. Sentia medo, tanto medo. E depositou um pouco desse medo para a presença dela, pois sua mente girava com imagens horrendas em todos os cenários possíveis, onde ela sempre sentia dor e nunca conseguia assimilá-la.

Ele sabia muito bem o que estava fazendo ao se projetar naquela mulher. Era um erro que cometia sempre, mas aquilo não era uma simples projeção, era? Luhan não estava dentro do metrô ou na rua, não eram pessoas aleatórias ali. Era Yifan e uma moça. Yifan e uma pessoa. Yifan e Luhan, mais uma vez.  Decidiu não ignorar isso contrariando todo seu senso de autoproteção, egoísmo e vontade de fugir. 

“Isso não é apenas sobre você, isso não é apenas sobre você, isso não é apenas sobre você, isso é maior que você, isso é maior que você, isso é maior que você.”

Com um mantra acelerado em mente, Luhan ficou. Até mesmo não percebeu o tempo passar claramente, mas quando deu por si já não estava mais naquele local. Andava em uma calçada larga e acompanhava perto demais o casal que caminhava grudado, talvez tentando espantar o frio da noite. Até mesmo conseguia escutar parte da conversa.

— Ei! — Luhan tentou gritar, mas sua voz falhada não chamou atenção de primeira. Baixa, cheia de insegurança e seca demais pelo dia sem uso.

Tentou pela segunda vez, conseguindo o olhar dos dois, especialmente de Yifan que estava surpreso, porém nada confuso. Um temor breve se passou pelos seus olhos e logo em seguida um pedido silencioso para que não abrisse a boca. Luhan conseguia sentir isso dele, urgência e raiva também.  Mas Luhan não se focou nele e sim na expressão da mulher que o olhava gentilmente como esperasse que ele fosse pedir alguma informação ou até mesmo alguma esmola. Ela parecia boa.

— Eu só... Eu só queria que você soubesse que ele me estuprou quando eu estava na faculdade.

Um silêncio assolou a calçada e Luhan deu alguns passos para trás, um pouco chocado consigo mesmo por ter dito aquelas palavras. A sensação de exposição foi desconcertante. Estava mais do que pronto para sair dali. Seus lábios estavam dormentes.

— O que? De que porra você está falando? — Yifan exclamou alto se direcionando a Luhan e logo em seguida para a namorada. — Eu não faço idéia de quem ele seja.

Ele era bom com mentiras, era bom com palavras. Sabia usá-las ao seu favor e uma parte de Luhan se recordava dessas façanhas. Yifan tinha entranhado na alma e no caráter os tipos de habilidades que o tornavam exatamente a pessoa odiosa que ele sempre fora. Não tinha hesitação, falhas, insegurança. Não era tentativa e erro, não foi um aprendizado e certamente não era uma fonte esgotável de calculismo.

—  Você vai mesmo fingir que não me conhece? Que não me reconheceu hoje pela manhã?

Luhan odiava mentiras e odiou ainda mais essa em particular. Yifan era doentio a ponto de não sentir absolutamente nada sobre o que fez. Não que Luhan se importasse com sua consciência ou se ela sequer existia, mas se questionava sobre o grau de humanidade perdido. E mais profundo ainda: ele ficava com raiva por ter que ver toda sua dor sendo pisada por mentiras fáceis. Afinal, era sua palavra contra a dele. Luhan era apenas um ninguém para aquela mulher.

— Por favor... O que está acontecendo? — A mulher sem nome olhava Luhan, mas o mesmo sentia que ela desejava escutar uma resposta do homem postado ao lado dela.

— Vamos embora, ok? Isso é loucura, amor. — Yifan segurou em seu pulso com demasiada força fazendo menção de virar as costas.

— O nome dele é Wu Yifan, seu apelido é Kris, ele é formado em Economia, tem um meio irmão caçula coreano e 27 anos. E em outubro de 2010 ele me estuprou.  — Luhan teve a sensação que gritou aquilo. Não se importou. Gritaria para aquela cidade toda ouvir se fosse possível. Não esperou para ver se Yifan estaria apavorado ou se sua namorada iria rir. E mesmo sendo tão observador, mesmo querendo fazer o que era certo apenas encarou apenas o chão cinza. Não tinha mais o que fazer ali, não tinha mais o que falar. Mesmo que tivesse sentiu que desabaria se tentasse.

Ele virou de costas e acelerou os passos de acordo com cada suspiro pesado e descompassado que saía de si. Estava chorando. O rosto bonito exausto se retorcendo em uma expressão de dor imensa, uma dor presa ano após ano, um choro que nunca tinha sido de fato admitido como forma de alivio.

Luhan jamais contava mentiras por mais que as verdades doessem no seu interior. E a verdade crua naquele instante era que ele não se sentia nenhum herói. Sabia que mais do que apenas colocar para fora seus demônios ou ter uma vingança pessoal de Kris, ele quis alertar aquela mulher e não ter a certeza de ter feito isso de maneira eficaz deixou Luhan inseguro. Ele tinha medo que ela fosse aceitar as mentiras de Yifan  mesmo depois de tudo. Estava um tantinho orgulhoso de si mesmo, mas isso não anulava a sensação desgostosa em seu âmago.

Torceu para que aquela moça fugisse de Yifan e que ela encontrasse alguém bom de verdade. Ninguém merecia viver numa ilusão, enrolado nas teias de manipulação de outra pessoa. Carregar sobre o peito uma culpa e sujeira que não lhe pertencia era algo que sugava a vida.  Ela certamente não merecia. Desejou que ela acreditasse em suas palavras, desejou que Yifan nunca tivesse tocado nela. Desejou, pois naquele momento era o que podia fazer com a energia que restara em seu corpo.

Luhan nunca ficou tão contente de voltar para casa e tão triste de não conseguir expor isso.

 

          Assim que pisou dentro do apartamento sentiu cheiro de comida e cheiro de Jongin.

— Finalmente, hein? Achei que fosse ter que resgatar você da entrevista de emprego mais longa do universo. — Jongin tinha um sorriso caloroso e doce estampado no rosto enquanto esquentava algo no micro-ondas. Sorriso esse que sumiu assim que visualizou o rosto inchado pelo choro e extremamente fadigado de Luhan. Entretanto, ele não perguntou nada. Levantou o queixo e se aproximou tentando agir normalmente.

— Esperei você para jantar. Vamos? Estou faminto.

— Me dá cinco minutos? Preciso mesmo tomar uma ducha, me sinto imundo. —Sem esperar uma resposta concreta se direcionou ao banheiro no final do corredor curto e estreito.

O chinês era amante dos banhos mornos, gostava da sensação acolhedora da água aquecida e da coloração que sua pele aderia quando se tocava com o ar frio logo em seguida, mas nessa noite em especial ele se obrigou a entrar na água ultra gelada, um modo de se punir por pensar tão compulsivamente sobre o dia que estava terminando e de tentar cessar esses mesmos pensamentos. Ele estava em casa com Jongin e comida na mesa, tudo estava bem e normal. Ele estava a salvo e apesar do peso em seu coração, da preocupação e da tristeza que começava a sentir se sentia grato. Não precisava mais pensar em nada que o desagradasse, pelo menos durante o resto da noite. Ele sabia de tudo isso, mas era mais fácil falar do que de fato, fazer.

Quando finalmente se juntou a Jongin na cozinha não se sentia mais relaxado, mas tentou mudar isso esticando os pés na cadeira a sua frente se sentando de modo jogado. Observou Jongin servir a comida fumegante em um silêncio típico e confortável. Luhan apreciou aquilo demais, um lembrete da rotina segura, da presença íntima e constante de uma pessoa especial que cuidava de si e que nunca lhe faria mal.

— Como foi a entrevista hoje? — Jongin indagou logo que iniciaram a refeição.

Ele amava isso em Jongin. O fato de que ele o conhecia o suficiente para saber que confrontar não trazia resultado algum. Era reconfortante para Luhan. Jongin acalentava e zelava sem tocar nas feridas, sem nunca ceder à própria curiosidade egoísta com perguntas que apenas machucariam mais.

— Eu não sei ao certo. — Luhan sorriu fraco, um tanto desconfortável. Odiava mentir, especialmente para seu melhor amigo, ainda mais quando ele sabia que o mesmo não acreditaria em suas palavras. — Não acho que o cara que me entrevistou tenha gostado de mim. Eu estava muito travado.

— Se a pessoa que te entrevistou tiver o mínimo de ambição vai enxergar o seu talento mesmo que você tenha travado na entrevista. Não se preocupe Lu. — Ele era doce, obviamente. Gentil o suficiente para agir como se tivesse comprado a história de Luhan. Era o tipo de pessoa que soltava elogios fáceis e sinceros, sempre na medida certa. Um carinho com palavras que Luhan aprendera a absorver durante os anos sem ficar desconfortável ou desacreditar. Luhan apertou seu pulso em agradecimento e não soltou durante o resto da refeição.

— E no seu trabalho, Nini? Aquele maluco continua roubando seu grampeador? — Luhan se permitiu apreciar os pequenos problemas de Jongin no escritório e a forma como ele ria ao mesmo tempo em que parecia profundamente revoltado com questões tão triviais. Era normal, era lindo e de uma forma estranha era uma parte extremamente importante para Luhan sentir que estava em órbita novamente.

Aquilo era a vida real, sua vida real. Não o passado, não Kris, não os medos e a insegurança. Jongin e seu grampeador fujão, comida simples e quente todas as noites, entregar currículos, filmes franceses aos sábados e doces de padaria; aquela era sua vida real.

Jongin obviamente era alguém importante, até essencial na vida de Luhan. Conheceram-se por acaso durante o terceiro semestre da faculdade e imediatamente fundiram suas vidas uma na outra. Não que tivesse sido fácil, pois Luhan passava por um momento muito delicado onde tentava se esconder de Yifan a qualquer custo e lidava com a sensação de sujeira em si.

Kim Jongin apareceu bem no meio desse alvoroço e trouxe consigo uma determinação em ficar perto de Luhan mesmo quando ele queria se isolar. Levava-o para comer nas horas corretas, ajudava-o nos trabalhos acumulados, acalentava-o quando mesmo com o cansaço extremo Luhan não conseguia pregar os olhos, até mesmo o ajudou no banho algumas vezes quando bebia além da conta. E ele nunca perguntou o porquê de nada, nunca questionou a insônia, o andar corrido nos arredores da instituição, o choro fácil, as mudanças de humor, a falta de apetite, o silêncio contínuo. Apenas abraçou tudo que Luhan era naquela época e mesmo depois de anos o chinês ainda não conseguia entender como Jongin era tão sublime sem nunca pedir nada em troca.

Luhan conseguia compreender o ímpeto de ser malvado, de ter prazer no sofrimento de outras pessoas, em dominar e manipular, de ter uma educação tão torta de valores que tudo que você toca sangra, mas não conseguiu construir uma visão otimista o suficiente para entender a bondade sem recompensas.

Eles nunca tiveram a pretensão de separar seus caminhos, uma decisão mútua que nunca foi debatida de fato, mas foi aceita com muito gosto por ambos. Nunca encararam a amizade que tinham ou um ao outro como algo passageiro, uma fase a ser vivida. Quase uma década depois, algumas mudanças de endereço nas costas e eles ainda viviam juntos. Eles gostavam da bolha de carinho e aconchego que viviam, gostavam de não sentir a necessidade de mudar os termos, gostavam de se completar de uma maneira peculiar, gostavam da rotina, de se divertir juntos, de viajar, de deitar no sofá lado a lado. Uma família de dois.

E por todas essas razões, Jongin se juntou ao quarto de Luhan naquela noite. O mais velho estava encolhido envolto de si mesmo no lado direito da cama, uma expressão vazia e longe tomava conta do seu rosto. Ele sempre sabia quando algo estava doendo em Luhan. Ele não precisava saber o que era, apenas que estava lá.

Jongin engatinhou na cama até que seus braços envolvessem a circunferência fina do chinês. Não houve afastamento ou surpresa da parte de Luhan pelo contato, ele apenas suspirou fundo sem perceber que estava respirando porcamente pelos últimos minutos. Aconchegou-se mais no quentinho do corpo grudado ao seu, virando de frente para Jongin, abraçando seu tronco com força, apoiando a testa franzida no ombro largo, encaixando as pernas entre as dele e finalmente fechando os olhos pesados.

— Dorme comigo hoje? – A resposta para sua pergunta era óbvia, mas não pode deixar de colocar para fora.

— Sim, claro. Eu ia de qualquer forma, você sabe.

— Você sempre sabe Nini. — Luhan disse com carinho e até um tom de brincadeira na voz baixa.

— Eu não sei o que aconteceu com você hoje. Mas amanhã é um novo dia e vai ser bom para você. E se não for, eu estarei aqui. Essa casa vai estar aqui, esse quarto e outra virada de dia. Vamos continuar aqui até que todos os dias sejam bons para você. — Jongin se ocupava em acariciar com a ponta dos dedos o cabelo macio de Luhan enquanto falava. Carinho esse que se estendia até a testa e por vezes até a ponta do nariz de forma despretensiosa, natural e que de alguma maneira ninasse Luhan para o sono

Luhan não respondeu verbalmente, mas adormeceu acreditando nas palavras de Jongin.

 

 

Luhan não era fraco, apesar do que ele mesmo pensava diversas vezes. Era forte pelo excesso de dor, como todo lutador. E era esperto. Ele sabia que Yifan voltaria depois do que fez na noite passada, assim como voltou no dia seguinte anos atrás. Por isso naquela manhã hesitou fortemente sobre ir ou não a cafeteria e seguir sua rotina por mais que fosse carregar nas costas a ansiedade de uma bomba a explodir. Ele tinha e-mails para responder, uma entrevista de emprego para ir e uma situação a ser finalizada. Ele queria fazer o que fosse certo e para isso devia encarar Yifan apenas como uma etapa dentro de sua lista de tarefas.

Quando seu olhar se encontrou com o de Yifan novamente ele não desviou apesar do ritmo forte que seu coração começou a bater. Ele podia sentir a mente e o corpo reagindo à presença daquele homem e era desconcertante tentar não se focar nisso. Yifan parecia calmo demais enquanto fazia um pedido no balcão e logo em seguida vinha em direção à mesa de Luhan.

— Você está me perseguindo, por acaso?  — A ronpância em sua voz não fez Luhan se intimidar como esperado. Ele obviamente temia certas reações, mas de alguma forma aquilo era esperado.

— Eu não estou. Eu moro na vizinhança. Você não. — Luhan constatou e quis tocar justamente no ponto importante: O que Yifan fazia ali?  No fundo sabia, mas queria encurtar sua permanência naquele lugar se adiantando na frente das intenções do outro.

— Sério, qual é o seu problema? Está tentando acabar com meu relacionamento? — Ele se sentou ruidosamente na cadeira a frente de Luhan igualando as alturas e as trocas de olhares cheias de farpas, se inclinando propositalmente e invadindo parte do espaço pessoal de Luhan.

— Eu não estou tentando coisa alguma. Você me estuprou. — Luhan tinha uma expressão séria e fixa ao dizer tal coisa. Não se afastou apesar do desconforto da proximidade e de seu interior que deu um salto. Aparentemente ele estava firme.

— Shhhh! Mas que porra?! Eu não fiz isso. — Yifan olhou para os lados se certificando que nada tinha sido escutado por alheios.

— Sim, você fez. Eu não queria, eu disse "não" várias vezes e você escolheu ignorar. Você escolheu, eu não. — As palavras corridas e cheias de uma revolta indesejada que Luhan já tinha dito tantas vezes para um Yifan imaginário soaram feridas. Seguras de uma forma sofrida. Nem Yifan poderia ignorar isso. E não ignorou, pois um silêncio latejante se instalou do outro lado da mesa.

— O que você quer de mim? Dinheiro? É isso? Eu dou qualquer quantia para você sumir e contar suas mentiras em outro lugar.

— Eu não quero nada, apenas que você admi...

— Deus, Luhan! — Yifan cortou sua voz sem hesitar. Odiou seu nome na boca dele. — Nós estávamos bêbados e transamos. Isso acontece. Eu nem mesmo sou gay, aquilo... Eu estava na faculdade e queria experimentar um sexo diferente. Nós fizemos isso e fim.

— É muito conveniente que para você que essa seja a verdade, não é? —  A banalidade com que Yifan reduzia suas memórias lhe fazia ferver o sangue.

— Não é minha culpa que você tenha se arrependido de ter transado comigo. Esse peso não é meu.

Culpa. Peso. Arrependimento. Aquelas palavras não eram parte da vida de Yifan. Ele nem ao menos sabia o que era um peso a ser carregado. Não sabia o peso do próprio sangue nos dedos, de não conceber mais o próprio reflexo.  Luhan permitiu-se refletir sobre as palavras de Yifan e o quanto a borracha que elas carregavam pesava em seu espírito.

Luhan desejou por muitas vezes durante os anos apagar o que tinha acontecido. Apagar Yifan, apagar a lembrança da dor e os reflexos da violência da sua vida, mas naquele momento era difícil não admitir a si mesmo o quanto aquilo era parte de si. Não de uma forma boa ou ruim porque Luhan, mesmo depois de anos ainda estava no limbo de não saber o que fazer com a experiência e consigo mesmo. Ele não queria esquecer, ele não queria apagar tanto porque isso não era possível, quanto porque tal feito daria a Yifan exatamente o que ele queria.

Luhan era única prova viva e cheia de oxigênio do que Yifan realmente era e ele jamais iria poder escapar disso.

— Você me largou sangrando naquela noite e no outro dia me procurou perguntando se eu lembrava algo. Eu lembrava e você nunca mais se aproximou de mim durante os anos naquela faculdade. Você fez isso.

— Ah... Então chegamos à verdade. — Ele riu. Riu baixo e cínico. — Isso tudo é você bravo porque eu não quis mais sair com você, ser seu namoradinho. — Ele continuou a rir, mas seus olhos não mais encaravam os de Luhan.

— Esse sou eu bravo porque você me estuprou.  — Luhan tomou um longo fôlego e se inclinou para frente. Seus olhos apreciadores das coisas belas encararam os detalhes do rosto de Yifan enquanto reconhecimento passava pelos traços frios. —  Aquela noite aconteceu não importa o que você diga. Aconteceu e eu sei disso e é suficiente para mim, mesmo que você negue de joelhos até a morte. Você tirou tudo que eu tinha, mas isso você não tirar.

— Se isso fosse verdade você teria feito algo sobre muitos anos atrás, mas você não fez. Nós transamos, eu dei o fora em você e agora você está tentando bancar a vítima de algo que nunca aconteceu. Esse papel não combina com você. É de dar pena.

Seus olhos marejavam, mas ele não desviava o olhar. Respirava fundo e acelerado. Ele não sabia definir com precisão o que sentia naquele momento e definir o que sentia era algo crucial para si. Uma mistura de alivio e tortura, talvez. Raiva, medo, amargura, frustração.

— Apenas admita o que você fez.

Yifan ainda não o olhava e Luhan queria muito acreditar que era porque no fundo ele sentia o que tinha feito e não porque simplesmente não era nada.

— Apenas cresça e siga em frente. E fique longe de nós. — Ele se levantou dando um fim a conversa.

Yifan foi embora da mesma forma que anos atrás; sujo, mentiroso, apressado e frio.

 

 

Luhan sentia dor. Uma dor de cabeça profunda e uma vontade de chorar igualmente forte lhe dominavam. A conversa com Yifan tinha sido muito cruel, apesar de saber o que lhe esperava. Ele via e sentia coisas que não conhecia. Ele não pensava que havia mais dor para explorar em cima daquela memória ou na figura de Yifan, mas aparentemente estava errado. Sentia uma ansiedade, uma agonia lhe rasgando o peito. Cada batia do coração enviava sangue e um pedido acanhado por calmaria.

Ele não tinha tempo, entretanto. Estava no metrô mais ou menos cheio a caminho de uma entrevista promissora de emprego enquanto olhava o perfil da principal rede social de Kim Sun, noiva de Yifan.

Luhan deixou de lado a dor de cabeça gritando com cada pontada que ele era masoquista, que não devia se expor mais e mandou uma mensagem reta e simples.

"Sou o cara da outra noite. Peço desculpas pelo susto ou qualquer transtorno causado a você unicamente. Se quiser conversar sobre o que aconteceu responda a esta mensagem assim que puder."

 

 

 

— Seu currículo é muito impressionante, devo dizer isso. — A mulher de meia idade e de aspecto elegante possuía um olhar interessado e sorriso sincero ao entrevistar Luhan. Algumas perguntas técnicas já tinham sido feitas e ela agora se deleitava ao tentar captar o caráter de Luhan. Ele gostava disso e ela aparentemente também.

Ele adorou a gentileza dela, a empresa de porte mediano e extremamente confortável e aberta nas suas intenções de trabalho. Torceu com todo seu coração para que conseguisse aquela vaga.

— Agradeço. Embora eu tente não me sentir muito seguro apenas com meus trabalhos passados eles certamente são importantes, refletem muito do que quero fazer.

— Sim, você tem um olhar muito aberto sobre sua área e sobre os tipos de condutas que regem ele. Pode falar um pouco sobre isso?

— Claro. Não tem nada de inovador em minha opinião, apenas honestidade. Eu acredito piamente em tudo que fui ensinado sobre a ética dentro de nossas profissões. Não me permito esquecer.  — Luhan se remexeu no sofá macio. Aquilo era bom, era normal e tinha feito sua mente agitada relaxar um pouco. — Eu acredito que como colunista é importante não se limitar nas palavras e não manipular as verdades. O que é bem difícil considerando que grande parte dos veículos de informação são agregados a patrocinadores que tem intenção em usar as habilidades de dominação das palavras. Eu não quero escrever a verdade deles ou falar por empresas. Quero fazer parte de um espaço como o seu para acrescentar minha visão do mundo junto a um time capacitado e... —

 Quando seu celular vibrou ao seu lado em cima da pasta fina que guardava seus documentos ele não pode deixar de escorrer seu olhar até lá fazendo em seguida suas palavras tropeçarem por alguns segundos quando seus olhos identificaram o conteúdo daquela interrupção.

"Podemos nos encontrar amanhã. Apenas para que eu saiba que Yifan estava certo ao seu respeito."

— Isso é muito impressionante, Luhan. É bom ver alguém não ser comum em suas intenções de trabalho, alguém que realmente queira trabalhar para si mesmo e não para o lucro.

— Eu gosto de lucro, mas quando ele vem da maneira correta é ainda melhor.

— E quanto ao futuro? O que você espera dele em conjunto com sua profissão?

Se fosse qualquer outro dia Luhan daria uma resposta boa de ouvir, talvez não tão sincera, mas certamente algo que lhe garantisse a vaga. Porém, naquele instante o futuro era amanhã e Kim Sun esperava por ele lá. Isso travou sua mente por longos segundos porque Luhan nunca pensava de fato no futuro por ter achado durante muito tempo que não teria um.

— E-eu... Eu espero me manter honesto aos meus valores. E não focar no lucro. Ele tem que vim da maneira correta, certo?

— Sim, você disse isso. Mas imagine um cenário para a resposta. Onde você se vê?

Depois de uma pausa longa demais, Luhan respondeu

— Eu não sei, Senhora.

A entrevista não durou mais que cinco minutos depois disso.

Luhan estava irritado consigo mesmo, não acreditou como não conseguiu se controlar até o final da entrevista por causa de uma mensagem. Separar as coisas. Você tem que separar. Essa é a sua vida.  Sua mente estava em um looping frenético e ingrato, girando obsessivamente nas coisas que mais estavam lhe apertando o calo naquele dia. Yifan, Kim Sun, emprego, enxaqueca, frio. Ele só queria estar em casa e focou em sair o mais rápido possível daquele prédio.

Sentia-se tão tensionado que não percebeu dois homens entrando no elevador junto consigo, mas Luhan jamais deixaria isso escapar por muito tempo. Logo sentiu um pequeno alerta soar na boca do seu estômago junto com o instinto de fazer garras com as chaves de casa. Os fones de ouvido logo caíram nos ombros e ele fixava o olhar na porta de metal. Ele se sentiu mal por aquilo, sempre se sentia. Tratar as pessoas como se elas fossem todas iguais a Yifan. Entretanto, não conseguia evitar por mais que uma parte de si gritasse que nada iria acontecer. Não podia ter certeza, nunca. Era um hábito, um instinto adquirido e uma forma de se sentir seguro. 

Quando saiu do elevador ele chorava pedindo desculpas silenciosas aos dois rapazes e também a si mesmo enquanto apressava cada vez mais o passo para bem longe dali.

 

 

 

Quando chegou a sua casa se decepcionou ao ver que ainda era cedo. Não extremamente cedo, mas o suficiente para que Jongin não estivesse ali. Ele amaldiçoou o emprego do amigo enquanto deixava sua bolsa de lado e deitava no sofá.

Estava se sentindo tão... Amargo.

Luhan apreciava se sentir doce. Mesmo confuso, com medo e tendo coisas horrendas enterradas em si ele gostava da vida doce. Odiava a sensação que lhe dominava, odiava o grude fedido que era o mau humor e o poder das coisas pesadas em orientar seus sensos. Odiava ainda mais não conseguir evitar.

Tirou alguns minutos para responder tardiamente à mensagem inoportuna, mas esperada de Kim Sun. Confirmou o encontro, passou seu endereço e um horário pela manhã. Desligou o celular e deixou-o para o esquecimento indo atrás de um banho gelado.

Luhan demorou mais do que necessário no chuveiro. Ele podia ver sua consciência se personificar ao seu lado enquanto saia do banheiro, desaprovando a forma de punição quase infantil, mas cruel com que se tratava no final do dia. Aquilo não deveria acontecer, afinal, Luhan não tinha feito algo errado. Mas também não tinha feito algo certo. Ou alguma coisa que fosse. Era o que dizia isso a si mesmo como uma forma de reafirmar a permanência e desejo de chegar à conclusão daquilo que tinha começado.

Jongin já estava em casa quando Luhan apareceu na sala e não escapou aos olhos do moreno novamente o estado de Luhan; abatido, irritado e pálido.

— Eu trouxe pizza para nós. A sua favorita, Lu. — Jongin falou da cozinha enquanto lavava as mãos. — Como foi na entrevista hoje?

— Não muito boa e acho que estou sem apetite. — Luhan voltou a se estirar no sofá de modo tortamente confortável e Jongin teria achado aquilo adorável se não fosse à óbvia tristeza na face do amigo amado.

­— Nós podemos assistir a um filme antes de comer. Talvez abra seu apetite. Que tal?

— Você deve estar com a fome de um leão, Jongin. Não precisa fazer isso por mim.

Essas palavras finais fizeram Jongin franzir a testa e se desencostar do balcão da cozinha rumando a sala até estar próximo o suficiente para encarar de cima um Luhan deitado, de olhos fechados e franzidos.

— Eu não preciso, mas eu gosto de fazer isso por você.

— Você é bonzinho demais comigo. — Luhan de olhos abertos encarava Jongin e gostava tanto do que via, mas naquele momento, de uma forma insana e contradizendo sua vontade anterior, ele desejou que Jongin não estivesse ali para que não o visse de tal forma. Não era a primeira das vezes que desejava tal coisa, mas sentia igualmente forte como se fosse. Mesmo depois de anos Luhan ainda sentia um constrangimento fomentador em parecer tão fraco na frente de Jongin.

— Você nunca viu um problema nisso e você é bom para mim também, sabe disso.

— Eu não sei. Eu sinto que não fiz nada por você, Jongin. Você segura às pontas sozinho. A sua ponta e a minha. Eu sempre vi um problema nisso. — Luhan riu com certo pesar e nervosismo por ter deixado escapar palavras tão afiadas.

— Do que você está falando? — Jongin suspirou forte. — Algo aconteceu, não é? Eu sei que aconteceu, você está assim desde ontem. Se for pelas entrevistas de emprego, Luhan, relaxe, certo? Não deixa isso fazer você se sentir inseguro. Nossa vida juntos é definida por muito mais do que um emprego que paga sua parte do aluguel.

— Eu não estou falando da entrevista de emprego, ok? Eu sei que isso preocupa você, mas eu não estou inseguro ou maluco por causa disso. —  Luhan se levantou bruscamente e mesmo dando as costas a Jongin ele parecia desconcertado, estressado e agoniado.

—  Eu não acho que você esteja maluco e minha preocupação definitivamente não é se você está empregado. Minha preocupação é você. Mas eu só sei aquilo que você me conta e quando eu saio de casa a única coisa que tenho conhecimento é que você vai atrás de um emprego. Você quer trabalhar mais do que qualquer coisa nos últimos meses e eu questiono sobre porque me interesso por isso.

—  Certo Jongin. Nós podemos fazer um acordo, que tal?  Eu vou apenas calar a boca e arranjar um emprego. Vou chegar todas as noites, vou comer as mesmas comidas e fingir que está tudo bem em relação ao que sou. Assim eu poupo você de se preocupar comigo e talvez dessa forma você seja um pouco mais egoísta, um pouco mais normal e me trate como a merda bagunçada e tediosa que eu sempre fui. Você pode fazer isso?

Jongin precisou de alguns minutos para respirar fundo e enterrar aquelas palavras em um lugar vazio de si. Ele poderia rebater, ele poderia ser cruel na mesma proporção e poderia deixar toda sua mágoa e irritação saírem, entretanto, era Luhan que estava a sua frente. Luhan dos olhos suavemente arredondados cheios de medo e coisas não ditas. Luhan do sorriso mais gentil com o queixo trêmulo. Luhan que amava abraços e a vida, mas que naquele momento parecia querer fugir.

—  Não, eu não posso fazer isso. Não posso porque não concordo com nada do que você disse e nem você mesmo. —  Seu tom de voz foi tão baixo que poderia estar dizendo um “eu te amo”.

Jongin tentava não levar em consideração aquilo que Luhan dizia em momentos de crise porque quase sempre era apenas a raiva, o acúmulo e a insegurança atirando palavras ácidas para todos os lados. Entretanto, mesmo tendo conhecimento disso, mesmo se mantendo calmo o coração de Jongin latejava de um modo pesado.

Ele passaria por isso e depois cuidaria de Luhan, mas ele ainda sentiria. Doía escutar inverdades tão delicadas e ver Luhan desse jeito. Ele não era capaz de distinguir qual doía mais.

—  Eu não vou pressionar você para me contar nada, eu nunca fiz isso. Mas eu gostaria muito que você o fizesse. É cansativo ficar no escuro, saber as coisas pela metade.  Somos amigos o tempo de uma vida. Eu quero que você confie em mim para contar seja lá o que for. Eu preciso saber para poder cuidar de você melhor. Você sabe que é tudo que eu quero, não é? Eu me esforço para isso do jeito que posso. Faço o meu melhor porque você é especial e querido, não porque é um peso. Porque eu o tomei como parte da minha família.  —  Jongin não queria desviar o olhar de Luhan, mas se obrigou a isso quando viu o maxilar do amigo travar de frustração. A sensação de impotência que lhe dominava era de certa forma torturante. Tudo que ele queria era se aproximar de Luhan e abraçar ele, mas sabia melhor do que ninguém que aquele tipo de situação levava seu próprio tempo para se resolver.

—  Eu não consigo lidar com isso agora. Você pode me deixar um pouco sozinho? —  Luhan sussurrou como uma criança que pedia para ser tirada do castigo.  

—  Luhan... —  Jongin tentou se aproximar, porém Luhan levantou uma mão em aviso para que não o fizesse. —  Não se isole. Nós sabemos onde isso vai dar. Deixa eu te fazer co...

—  Eu não sei aonde isso vai dar e nem você! —  Luhan gritou para Jongin, para as paredes e para si mesmo. Ele estava se referindo a mais coisas do que sequer podia imaginar. Questionar o afeto, a razão da permanência era geralmente o ponto mais problemático.  —  O que diabos você quer de mim, hein? Sendo assim, ficando do meu lado por tanto tempo, desperdiçando sua vida e sua jovialidade cuidando de mim? Vivendo uma vida chata e repetitiva comigo a troco de nada?  O que você está esperando para viver a sua vida?!

— Eu quero que você seja feliz! —  Jongin gritou de volta sem poder controlar o impulso o que desarmou o mais velho. — É isso que eu quero Luhan. E se eu faço essa jornada mais fácil para você que assim seja. Eu gosto da minha vida. Eu gosto de quem eu cresci para ser ao seu lado. Eu gosto de você, gosto de nós dois juntos. —  Seu tom de voz foi gradativamente descendo. — Eu não quero nada em troca, apenas que você queira o mesmo. Eu nunca obriguei você a ficar e você também nunca me obrigou. Nós apenas permanecemos. Eu não construí minha vida sem razão e definitivamente não sou infeliz, entretanto, você tem total liberdade para decidir não me querer mais por perto.

Em completo silêncio e com o olhar petrificado em cada palavra magoada e carregada de significado Luhan abaixou o olhar enquanto Jongin, com o rosto teso de sentimentos pesados demais para que carregasse sozinho, se aproximou.

—  Se você precisa de espaço, de um tempo sozinho eu entendo. Mas acho que tenho o direito de me certificar que você ficará bem e seguro. Ter certeza se é isso que você realmente quer. Por mim eu nunca sairia do seu lado, então não me faça ir a menos que tenha certeza de que é isso que deseja, pois, se for o caso eu terei que acatar para que você fique bem. Eu farei isso por mais que me mate por dentro. Então, Luhan, o que você quer de mim?

Luhan tinha arrependimento em seu olhar e nenhuma resposta. Tinha dor. E tanta coisa bagunçada que não cabia em si. Perceber o estado em que estava junto o acúmulo de tranqueira emocional que possuía em si, encarar a preocupação viva de Jongin e visualizar o carinho em sua compreensão cheia de revolta fora tão forte que seu corpo tremulou por um frio que ele não sabia dizer se vinha de dentro ou de fora juntamente de um choro que ele não identificava como seu de fato.

Entretanto, ele identificou a temperatura morna dos dedos de Jongin contra seu rosto. Identificou o peso daquela proximidade, a beleza da pele banhada pelo sol e a expectativa do outro por uma resposta. Sentia-se extremamente cansado, vazio, como se fosse um balão sem ar usado repetidas vezes.

—  Fique. —  Foi o que saiu dos lábios do moreno antes de os mesmos encostarem-se aos de Luhan e terminar algo iniciando outra coisa.

 Não foi um beijo romântico, com urgência ou cheio de alegria. Tinha carinho, amor, calma, tristeza. Jongin bebeu toda a tristeza que pôde dos lábios de Luhan, sentindo o gosto de lágrimas em meio à correspondência necessitada. Seus braços abraçaram o corpo do outro, aninhando-o com zelo. Luhan apertava a camisa social de Jongin entre os dedos e projetava seu corpo para que pudesse receber mais daquilo, para que pudesse esquecer por um momento o que não queria dentro de si e para que pudesse se lembrar o quanto ele apreciava as coisas doces da vida.

O beijo se findou por parte de Luhan que apoiou o rosto no ombro de Jongin por apenas alguns segundos antes de se afastar o suficiente para que as mãos do moreno não pudessem mais tocá-lo. Pegou o moletom pendurado atrás da porta e antes de sair do cômodo olhou para Jongin que nada disse quando ele saiu da casa, mas que tinha estampado em cada milímetro de seu rosto uma melancolia que terminou de partir seu coração.

 

 

 

Luhan não foi muito longe em sua tentativa de fuga interna. Andou algumas quadras meio sem rumo, mas no fundo não querendo se afastar muito de seu lar. Sentia um peso no peito, nos pulmões. A respiração estava forte e com gosto de beijo doce, porém, sua mente não estava no mesmo nível de doçura.

Pensava sobre Jongin, sobre as palavras que proferiu a ele. Uma parte em especial do seu discurso descontrolado girava compulsivamente por sua cabeça e revirava toda sua perspectiva de futuro: seu lamento para que Jongin fosse mais egoísta.

Egoísmo era o ato de tomar para si. Tomar para si por prazer de experimentar, de satisfazer a própria curiosidade e expectativas distorcidas. Sugar a vitalidade de alguém apenas por poder. Brincar de Deus com a vida de alguém. Amargar o coração.

Sentiu a língua arder com tamanha mentira. Luhan nunca desejou menos algo na vida e nunca algo pareceu tão improvável aos seus olhos. Jongin e egoísmo eram como água e óleo. Não porque Jongin se forçasse a isso ou porque era alguém perfeito, mas porque simplesmente fazia parte de quem ele era com aqueles que amava. E Jongin amava Luhan. Ele sabia disso, mas sempre se perguntava se de fato merecia.

Por muitas vezes achava que sim, nos bons dias onde seus monstros desorganizados ficavam bem enjaulados. Nos maus dias ele gritava com Jongin e descaracterizava o cuidado que lhe era dado e a si mesmo. Até mesmo desejava que Jongin nunca mais aparecesse na sua frente e isso especificamente era sempre o pior chute em sua costela quando voltava aos seus sentidos.

Luhan perguntava ao nada como tinha chegado ao ponto de querer se privar daquilo que tinha de mais especial. E não era nenhum eufemismo de sua parte quando dizia que Jongin era a coisa mais preciosa que tinha. Não era uma forma de endeusar ou amaciar o ego do amigo, mas uma forma de reafirmar a si mesmo o quanto de gratidão e amor continha por Jongin. Ele era um pouco de tudo que Luhan tinha perdido há anos. Um pouco de tudo encapsulado em muita paciência e respeito. Um pouco de irmão, um pouco de amigo, um pouco de mãe, um pouco de amor. E de pouco em pouco era tudo para Luhan.

E ainda; o chinês era duro demais consigo mesmo. Não gostava do ímpeto de sempre se maltratar nas horas que mais precisava do próprio apoio, da própria mão amiga. Porque era tão cruel com suas feridas? Porque se denegria tanto a ponto de jorrar desprezo pela vida que tanto amava e renegar tudo aquilo que possuía?

Com tantos pensamentos delicados e acelerados Luhan se sentia empacado no meio da noite fria, mas botou suas pernas para obedecerem a seus comandos. Seu rosto úmido parecia absorver ainda mais a temperatura baixa e o vento lento trazia uma sensação de morte para os pontos altos de seu rosto, coisa que tentou ignorar mantendo o rosto abaixado o máximo que pôde durante o percurso de volta.

Jongin deixara a porta da entrada encostada para quando Luhan voltasse, detalhe que não passou despercebido pelo mais velho.

Uma parte do mais velho esperou que Jongin ainda estivesse no meio da sala exatamente no mesmo lugar de quando saiu, mas ele não estava. A sala semi iluminada o saudou e uma pressão silenciosa em seus ouvidos o fez suspirar tropeçado e instável antes de seguir até o quarto de Jongin. Essa porta não estava aberta. Também não estava trancada, mas Luhan hesitou alguns minutos encarando a madeira escura antes de finalmente adentrar aonde queria estar.

Jongin estava dormindo ou assim parecia. Luhan foi minando a distância aos poucos para confirmar a inércia e não pôde evitar franzir a testa ao captar o semblante preocupado que o moreno exibia mesmo adormecido. Ainda lhe transmitia serenidade, entretanto. E com a vontade de absorver um pouco disso Luhan deitou ao lado de Jongin calmamente, não querendo acordá-lo de súbito. Apoiou o rosto no peito do moreno, sentindo uma sensação boa na troca de temperaturas e em seu coração. O contorno do maxilar de Jongin foi acariciado pelo rosto de Luhan, a ponta do nariz gelado sentindo o cheiro reconfortante da pele do outro, um dos braços tocando os cabelos castanhos bagunçados de modo leve como uma criança a experimentar.

Foi impossível para Luhan segurar algumas lágrimas com tanta ternura e tristeza dentro de si. Ele tentava controlar os solavancos do próprio corpo e seus resmungos, apertava os olhos não querendo que as lágrimas escorressem e se encolhia mais para o corpo de Jongin quase como se quisesse fundir os dois corpos.

Quando sentiu um aperto ao redor do próprio corpo agradeceu ao Deus que nem acreditava e desculpas sem freio rondavam sua mente, mas não saíram de sua boca.

—  Está tudo bem, ok? —  A voz de Jongin soava rouca pelo sono e um tanto mexida. Ele jamais conseguiria ver Luhan em tal estado e não sentir uma parte de si sucumbir. —  Eu estou aqui, você também. Qualquer coisa que lhe faça mal não pode lhe tocar.

 Luhan não acreditava naquilo, não conseguia de fato. Porém abraçou Jongin com toda força que tinha nos braços cansados, entrelaçando as pernas nas dele querendo toda a intimidade que pudesse ter e colando os olhares.

Ele podia ver a mágoa de Jongin se dissipando a cada segundo conforme sua presença se firmava cada vez mais. Não parecia correto e muito menos justo com Jongin que ao ser ferido com tanta facilidade ele não fizesse questão de cuidar de si mesmo. Ou talvez aquele fosse o cuidado que ele precisava da parte de Luhan.

Luhan não sabia dizer, nem Jongin, mas o coração do moreno estava calmo enquanto recebia carinhos chorosos do mais velho enquanto o mesmo estava se esvaziava de toda lama interna e sendo aquilo que mais apreciava: algo doce.

Não soube em qual segundo dos toques mimosos acabou colando seus lábios com o de Jongin, mas suspirou alto quando seu corpo friento afundou no colchão morno e se permitiu entender o que significava calma.  Foi beijado com glorificação e aninhado para um sono pesado sendo tocado por dedos amorosos e pela primeira vez sem duvidar que era alvo a anos do tipo de afeto que sempre almejou, mas nunca de fato acreditara ter.

 

 

 

Luhan estava cozinhando. Ou tentava. Usava apenas uma calça puída de algum pijama velho e cabelos úmidos indicando que tomou banho cedo demais na manhã. Jongin assistia a cena encostado á parede e sorrindo tão largamente que tentou se reprimir colocando os dedos em frente à própria boca. Luhan parecia bem. Mais que bem. Tinha um pequeno vinco entre as sobrancelhas enquanto cortava morangos cuidadosamente, mas o resto de seu rosto parecia descansado e quase sorridente.

— Eu sei que sou uma visão pela manhã, mas se você me secar mais um pouco é provável que eu desidrate. — Luhan, que tinha percebido a presença do moreno, falou alto suficiente e em um tom tão bem humorado que ele mesmo estranhou. Não que esse não fosse um traço seu, mas os acontecimentos dos últimos dias tinham dado a sensação de distanciamento de anos desde que se sentiu divertido pela última vez.

Jongin riu com a tirada e se aproximou espiando o que Luhan preparava.

— Você realmente é uma visão pela manhã. Especialmente quando está cozinhando... Uma visão milagrosa. Quase um delírio. Prometa que não está envenenando o meu café.

— Engraçadinho. Vá sentar, já vou servir. — Luhan fez uma carranca falsa e afastou o moreno que estava próximo demais de sua costa despida.

Luhan era tudo menos um mestre na cozinha, evitava sempre tarefas que envolvessem suas mãos pilotando um fogão, dando-as de bom grado para Jongin que cozinhava feito uma mãe. Então, Jongin realmente estava encantado e tocado que Luhan estivesse ali cedo da manhã preparando um café da manhã. Sabia que não era algo aleatório, era a maneira do chinês de dizer que sentia muito e de mimar um pouco Jongin que tinha o coração mole demais.

Foi colocado á mesa quatro torradas com pasta de chocolate e morangos vermelhinhos no topo, duas canecas com leite morno junto com um sorriso pequeno que fez Jongin suspirar satisfeito.

Não resistiu em interromper o caminho de Luhan para o assento do outro lado da mesa o puxando para seu colo e simplesmente tendo um momento de contemplação. Aquilo era bom. O cheiro de Luhan misturado com o aroma de leite era bom.

Seus olhos foram puxados pelos de Luhan que por impulso em um primeiro momento quis falar “o que está fazendo?” para a ação de Jongin, mas desistiu da idéia quando sentiu o conforto das coxas do outro e sentiu um sorriso envergonhado abrir em seu próprio rosto.

Tomaram sem necessidade alguma o desjejum bem grudados. Jongin por vezes oferecendo algumas mordidas da própria torrada na boca de Luhan e Luhan limpando o canto da boca de Jongin charmosamente com a ponta dos dedos, experimentando a sensação de flertar pela primeira vez em muito tempo.

Em algum instante daquele momento envolvente eles selaram um acordo silencioso entre si onde com muitas trocas de olhares serenos, mas sequiosos suas bocas se uniram e se conheceram sem nenhum traço de tristeza ou conflito. Sem pesos e sem fugas. Sem medo. Apenas gosto de leite e morangos com uma pitada grande de desejo e muitas saudações para o que sentiram ser uma nova perspectiva entre eles.

Entretanto, aquilo não durou tanto quanto gostariam. Logo o relógio na parede pareceu gritar para ambos, que se lembraram que a realidade não tinha paciência para os bons momentos. Vinte minutos depois Jongin não estava mais presente, mas saíra para trabalhar com a promessa sorridente de que a noite eles iriam sair para jantar.

 Luhan estava sentado no sofá mais do que imerso em como iria encarar Kim Sun. Tentou imaginar o tipo de atitude que ela teria consigo, se seria agressiva ou debochada e concluiu que não importava muito. Ela queria escutá-lo e Luhan queria falar, do contrário ela não responderia ao contato feito. O que ela fosse decidir fazer após escutar o que certamente seria desagradável estava fora dos poderes de Luhan. Ele tentava internalizar isso enquanto arrumava a sala já organizada por puro nervosismo. Limpou mais uma vez a mesa, organizou os sapatos perto da porta e decidiu colocar uma camisa de Jongin tendo fé que o cheiro do outro o acalmaria quando precisasse. Até mesmo penteou os cabelos que tinham secado naturalmente desde que tomara banho.

Enquanto ponderava ou não se deveria passar algum tipo de colônia a campainha tocou e ele sentiu a própria reação de maneira meio cômica.

Não houve hesitação da sua parte ao abrir a porta e dar de cara com Kim Sun que parecia mais elegante do que a primeira vez que a viu de longe. Ostentava junto de si uma expressão rígida que não passou despercebida por Luhan que resolveu ignorar.

Muito depois do que pode ser considerado normal pelas regras de educação implícitas um “bom dia” foi dito por parte de Luhan que abriu mais a porta em um convite silencioso para que ela entrasse.

Kim Sun era observadora. Luhan conseguiu se identificar com isso e se sentir grato por ter arrumado seu lugar. Deixou que ela explorasse como bem entendesse sua casa, que se sentisse confortável suficiente para que aquela conversa seguisse sem conflitos.

— Seu namorado? — Ela não respondeu o cumprimento anterior de Luhan, mas a pergunta curiosa deslizou como manteiga de seus lábios ao se referir a um porta retrato de Luhan e Jongin.

        — Não. Ele é meu melhor amigo. — Aquilo era verdade apesar dos acontecimentos recentes e Luhan não se sentiu que estava dando nenhuma informação incompleta.

— Suponho que vocês morem juntos.

— Sim, moramos. Ele está no trabalho agora.

         — Ele é muito bonito. — Kim Sun sorriu suavemente ao elogiar e colocar o objeto em seu devido lugar.

— Ele é lindo mesmo. É a melhor pessoa do mundo.

— Você diria que a pior pessoa é Kris? — Luhan endureceu um pouco a referencia de Yifan tendo certeza que isso não escaparia dos olhos atentos da mulher.

“Sim, com toda a minha certeza” ele quis dizer, mas mordeu a própria língua.

— Depende do referencial, eu creio.

— Quero o seu referencial. É por isso que estou aqui. — Kim Sun respirou fundo como se estivesse tomando uma dose extra forte de coragem. — O que você disse sobre Kris aquele dia... Ele disse que era mentira. Negou tudo. Disse que você era um ex caso cheio de mágoa que por acaso esbarrou nele.

—E você acredita nele?

— Eu não sei se acredito nele. Ou em você. — Ela se aproximou de Luhan com incerteza. — Mas preciso escutar o supostamente aconteceu ou vou me perguntar para o resto da vida. E eu não quero casar com isso em minha cabeça.

Supostamente. Luhan odiava essa palavra. Essa atribuição á falsidade e invalidação por conseqüência lhe incomodava ao máximo. Porém, indicou que fosse seguido preparando a própria garganta para o que viria.

Quando se sentaram à mesa da cozinha simples um silêncio cheio de amargura cresceu pelo cômodo e não foi fácil para Luhan se ver naquela posição. Era quase humilhante o disfarçado olhar de dúvida na face de Kim Sun.

— Você quer saber tudo? Mesmo? — O chinês teve a cautela em se assegurar.

— Tudo que você tiver.

E Luhan tinha muita coisa.

— Eu conheci Kris no terceiro período da faculdade. Ele era muito popular, muito simpático e envolvido nos projetos da instituição. Era tão interessado e envolvente. Todos queriam ser amigo dele, as meninas amavam ele. Ele era muito idealizado romanticamente, inclusive por mim. Nos conhecemos por conta de um trabalho em conjunto entre as nossas turmas e nossa cumplicidade foi instantânea. Não vou mentir que fiz certo esforço para que ele gostasse de ficar perto de mim. Ele era galanteador e isso me fazia bem. Quem não gosta de ser cortejado, certo? — Luhan deu um pequeno sorriso pausando curtamente para que Kim Sun falasse algo caso desejasse, mas a mulher apenas permaneceu calada e impassível.

— Depois de umas boas semanas moldando e fortalecendo essa nova amizade ao mesmo tempo em que trabalhávamos no trabalho das turmas ele finalmente me beijou. Me beijou na frente de todos os amigos, eu me senti tão... Bem. Ele não teve vergonha de mim, nem de si mesmo. Lembro da surpresa que senti em relação a isso. Minha primeira reação foi me afastar um pouco, pois sempre fui o mais discreto possível em relação a minha sexualidade. O preconceito das pessoas aqui pode ser corrosivo demais e eu não queria lidar com isso estando sozinho. Mas, Yifan não se importava com discrição. Ele me disse que eu não estava mais sozinho. Ele sempre gostou demais de atenção de qualquer tipo que fosse. E eu tentei seguir esse ritmo porque ele realmente parecia ter afeto por mim. Muita gente pensava que estávamos namorando embora ele nunca tivesse proposto nada e muito menos eu. Penso que eu esperava isso, mas as coisas não saíram como esperado. Muita gente também se afastou dele por isso, mas ele não se importava com isso, ele se divertia com as falácias e boatos. Ele gostava de ser assistido, gostava de ser o cara que teve coragem para segurar a mão de outro.

“Uma noite nós fomos para uma festa na casa de um de seus amigos. Todo mundo estava convidado, basicamente. Você sabe como são festas de universitários. E estava tudo ótimo, estávamos rindo muito, conversando, bebendo bastante e dando uns beijos vira e mexe. No meio de um desses beijos Yifan me chamou para ir ao banheiro e eu aceitei. Eu achei que ele só queria dar uns amassos, sabe? E no inicio realmente pareceu isso, mas quando as coisas foram esquentando mais eu tentei afastá-lo. Pedi para que parasse e que voltássemos para a festa. Até mesmo falei a ele que podíamos fazer aquilo depois. Eu era virgem e eu não queria que minha primeira vez fosse em um banheiro qualquer. Nossa primeira vez juntos, aliás. Yifan não parecia me escutar, entretanto. Parecia que de repente ele tinha desligado e estava simplesmente agindo. Quanto mais eu tentava me afastar mais força ele colocava para me manter colado a ele.”

Foi quase impossível para Luhan não se engasgar a partir dali. Ele abaixou o olhar que antes encarava Kim Sun com determinação e tomou um longo fôlego antes de continuar.

— Em um momento ele me virou de costas, ligou o chuveiro e me pressionou contra a pia baixa. Eu usava uma calça apertada, mas ele não encontrou dificuldade em abaixar ela. Doeu tanto, eu nem sei descrever a sensação. O corpo dele era tão pesado contra o meu, o osso do meu quadril batia na cerâmica da pia de acordo com o ritmo e força dele.  Yifan não se preocupou com a força que usava e ele tinha muita. Tinha um pequeno espelho acima da pia e eu me encarava, sabe? Meu rosto não tinha expressão, não tinha reação aquilo. Apenas minha respiração era instável, embaçava o vidro em segundos desconexos e eu tentei me distrair com aquilo. Procurei qualquer coisa que me tirasse dali até que terminasse. Não sei dizer se funcionou, mas eu sei que tentei muito e essa é uma das partes que eu mais me recordo. Quando ele saiu de mim foi como se eu tivesse acordado, sabe? Ele acariciou meu queixo e eu nunca senti tanto medo na minha vida. Eu urinei de medo e nem ao menos senti. Ele disse que ia me esperar do lado de fora e eu simplesmente não saí por o que pareceu muito tempo. E nesse tempo eu tentei pensar e me avaliar, mas só me fazia entrar mais em pânico e sentir nojo. Eu sangrava e fedia a urina. Tudo ardia em mim. Quando finalmente saí Yifan não estava mais na festa e eu saí dali o mais rápido que minha dor permitiu. Eu não conseguia andar propriamente então levou um tempo até que eu chegasse ao meu quarto. Cada passo era uma agulhada no meu interior.  No dia seguinte ele me procurou, mas nessa noite basicamente eu tive o último contato com Yifan até dias atrás.

Luhan ia continuar o fluxo de palavras se Kim Sun não estivesse pálida encarando seu rosto. Ela parecia dura e desconfortável e com lágrimas penduradas como se aquela história tivesse um cheiro podre que a fizesse ter vontade de vomitar. Luhan quis se desculpar, mas se poupou. Kim Sun queria saber tudo, então Luhan não pouparia detalhes para que seu ponto fosse entendido. Ele não tinha que sentir muito por nada.

— Você está bem? Quer um pouco de água? — Embora sua boca parecesse exteriormente seca ela negou com um aceno de cabeça.

—Quem mais sabe disso?

— Eu nunca falei sobre isso com alguém que estivesse fora de uma sala de terapia.

Ela levou alguns segundos para dar um retorno verbal.

— Eu apenas não consigo imaginar Kris fazendo nada disso. Não parece o Kris que eu estou noiva.

— Eu entendo. Não faz ele parecer um príncipe. Mas, depois de tanto tempo a única coisa que eu posso fazer em relação ao que aconteceu é isso. Sinto que seria injusto da minha parte não falar a você, até mesmo cruel. Você merece saber que tipo de pessoa ele é. Eu não acredito que ele tenha mudado. Eu não acredito que esse tipo de coisa possa mudar. Isso aqui não sou eu tentando arruinar seu romance. Estou tentando evitar que ele tenha a possibilidade de fazer com você o que fez comigo. E eu sei que ele vai. Pode não ser agora, mas uma hora ele vai machucar. Confesso que eu fiquei furioso quando o vi e meu primeiro impulso foi encontrar algo para atingi-lo, mas a coisa toda pegou um rumo maior para mim.  Eu pensei muito durante esses dias sobre o que aconteceu comigo e foi tortuoso reviver essa memória enquanto me perguntava se ele já tinha encostado em você ou em outras pessoas.— Luhan estava quase exaltado demais, mas não se importava. A sinceridade no seu pânico ao pensar em Yifan estragando a mente e corpo de outras pessoas era tão genuína quanto o poder de suas memórias.

Kim Sun se manteve silenciosa e com um olhar que Luhan já tinha visto muitas vezes durante os anos.

— Ele nunca lhe tocou dessa forma, certo? — O coração de Luhan apertou e ele se sentiu tão pequeno.

— Não, claro que não. — Kim Sun deu um riso fraco. — Ele não seria capaz. Ele me ama.

Ele não soube como reagir a essa declaração tão falsa. Seria indelicado demais falar a ela que Yifan não sabe o que é amor? Luhan se questionou enquanto assistia os olhos de Kim Sun se perderem na parede de sua casa. A expressão reflexiva, o vinco no queixo, os dedos inquietos, Luhan conhecia tudo aquilo bem demais. Ele sabia que Kim Sun tinha algo a dizer.

 — Provavelmente não é nada, mas em uma noite dois anos atrás eu me senti muito... Desconfortável com algo que ele fez. Não foi nada como o seu caso, entretanto. — Ela pausou por um segundo, hesitando e voltando a olhar Luhan como se não soubesse o que estava fazendo.

— Você gostaria de me contar? — Ele tentou ser delicado para que Kim Sun não se sentisse pressionada, embora pudesse dizer que ela sentia pressão por outras razões das quais Luhan não tinha controle algum embora desejasse que sim.

— Não há nada para realmente ser contado. Foi apenas uma... Situação. — Ele assentiu. Não acreditava. — Nós estávamos no meu antigo apartamento apenas deitados na cama. Eu estava lendo ou algo assim e eu não prestei muita atenção no que Kris fazia. Mas ele começou a me abraçar e tentar chamar minha atenção, você sabe como essas coisas são. Ele queria atenção. Ele me queria. Eu falei para ele que não estava no clima e ele falou que me colocaria nele. Ele tirou o livro das minhas mãos e começou a me acariciar. Eu falava que era para deixar para depois e ele perguntava sempre qual era o problema. Se eu estava de TPM, se era porque eu não estava depilada ou se era mau humor. Não havia nenhum problema, eu realmente só queria terminar o meu livro e dormir, mas ele insistiu tanto que eu acho que cedi. Não me lembro exatamente como chegou naquele ponto, entretanto aconteceu. Nós transamos, mas foi esquisito. Eu me senti tão vazia e desconfortável, sabe?  Não foi bom.  Eu me lembro dele levantar da cama quando acabou e simplesmente sair do quarto, não me olhou. Ele nunca tinha agido assim até aquele momento. Eu fiquei uns dias sem conseguir falar com ele direito por alguma razão. — Kim Sun sorriu duro, rápido e magoado como se aquilo fosse o ponto final da história. — Eu falei que não foi nada demais.

Luhan tentou, mas não conseguiu evitar sentir pesar pela mulher a sua frente. Sentia-se pálido, remexido, bagunçado e pisado e pelo visto Kim Sun se sentia da mesma forma sem nem ter consciência de que passou por um abuso. Luhan não sabia se ela apenas negava para si mesma ou se sua concepção de violência era tão deturpada a ponto de que ela desconsiderasse o que lhe ocorreu. De uma forma ou de outra, Luhan se sentiu muito mal por ela ter continuado a conviver com Yifan. Por ela ter sequer conhecido ele.

— Foi algo, não acha? Pense sobre. — Seu tom de voz foi baixo, mas seus olhos encararam os dela o mais profundamente que pôde e sua mão tocou o antebraço próximo.

Kim Sun não respondeu.  Ela não falou muito após isso. Fez mais algumas perguntas sobre Yifan e sobre os anos de vida de Luhan depois do que aconteceu. Até mesmo questionou se Luhan realmente nunca tinha compartilhado aquilo com ninguém e dando um olhar de pesar ao receber a resposta. Depois disso ela não usou mais a palavra supostamente e isso dizia para o chinês que tinha feito a escolha certa. Quando foi hora de ir embora ela retirou a aliança discreta em seu dedo antes de sair do apartamento e a colocou na bolsa.

— Eu sinto muito por essa bagunça. — Luhan achou adequado dizer embora não fosse verdade. Perguntava-se se Kim Sun fazia aquilo por si mesma ou em respeito a tudo que tinha escutado.

— Você não sente e eu acho que eu também não deveria sentir. Vou manter contato. — Luhan duvidava que fosse verdade. Talvez ambos pudessem ter sido amigos em outras circunstâncias, mas sentia que uma relação cujo laço inicial seria Yifan não faria bem a nenhum dos dois.

—Seja cuidadosa, ok? — Ele se referia ao futuro próximo da relação dela com Yifan. Ela garantiu que estaria com quem a pudesse proteger quando fosse dar um ponto final no contanto com Yifan.

— Não se preocupe comigo. Até.

 

 

Luhan sentia-se quase aliviado. Quase. Porém algo em sua mente o fazia ficar inquieto embora estivesse sentado na cama de seu quarto há quase uma hora. Revivia com uma riqueza de detalhes absurda sua conversa com Kim Sun, tudo aquilo que contou e escutou. Nem sabia se o que sentia podia ser considerado um incomodo, pois em sua opinião incômodos eram sempre possíveis de corrigir, mas aquilo em seu interior se rastejava de modo peçonhento, se entrelaçando e contaminando o que devia sentir de bom em relação à atitude que teve.

Ele ainda tinha medo. Não de Yifan, não precisamente de Kim Sun e não de todas as outras coisas que mexiam com seus nervos e cabeça. Aqueles medos eram algo que Luhan aprendera a controlar e encarar por mais afiados que eles ainda fossem. Naquele estágio da sua vida eles cresciam a partir do quanto ele permitia baseado em seus dias bons ou ruins. Entretanto, um medo em especifico era tão velado dentro de si, tão implícito que às vezes se permitia esquecer que ele existia e isso estava estritamente ligado com o fato de que ninguém ao redor de Luhan sabia sobre o que lhe mais machucou.

Ele nunca se permitiu considerar contar para seus pais, para sua irmã, compartilhar aquilo como pedido de apoio ou apenas incluir eles na jornada árdua que foi superar. Não conseguia nem mesmo se imaginar sentando com seus pais que eram pessoas tão amantes das pequenas felicidades da vida e contar algo que para si parecia tão envolto de mazelas. Temeu á oito anos que fosse quebrar eles e ainda temia o mesmo nos dias em que se encontrava. Arrastou Jongin dentro de seu trauma e em seu coração aquilo era mais que suficiente para carregar.

Entretanto, onde Jongin se encontrava nessa equação era mais delicado. Jongin, ao contrario de sua família, assistiu de camarote toda sua jornada pós Yifan. Observou de perto as crises, as noites de pesadelo, a vergonha em andar pelos corredores da faculdade, a luta para concluir seu curso e muitas vezes para convencer Luhan a não desistir. Ele dizia ao chinês que sofrimento nenhum era maior que sua existência e ele realmente não deixou ser.

Luhan estendeu os medos que sentia em relação a contar para sua família á Jongin, mas de forma bem mais urgente e com alguns acréscimos. Ele não conseguia e permaneceu não conseguindo aguentar o pensamento de Jongin sentindo nojo de si. Tinha conhecimento de que esses pensamentos eram alimentados por sua insegurança que tratava de transformar tudo em um grande monstro, mas a possibilidade existia, não? Jongin não tinha nenhum laço de verdade que o fizesse permanecer caso tudo viesse à tona. Imaginar a vida e cumplicidade que construíram juntos acabarem por causa de algo tão imutável com certeza era sua maior dor precipitada. E ao mesmo tempo começara a se sentir que contar á ele era a coisa certa. Não que achasse que fosse mudar algo em si, mas em respeito à história que compartilhavam.

Luhan se perguntava se era finalmente a hora de acabar com tal segredo, afinal, Jongin merecia saber a verdade. Ele devia isso, simples assim.

Não era uma decisão tão fácil de digerir e ele certamente tentou pelo resto do dia que se arrastou de maneira solitária demais. Ficou em conflito em desistir da idéia, perseverar ou simplesmente não pensar em nada que rondasse aquele assunto até que chegasse à hora correta. E foi só quando Jongin finalmente chegou que o chinês conseguiu por fim acalmar sua mente. Era o poder que a presença boa do moreno tinha sobre si e mesmo sob aquela circunstancia conseguiu sentir gratidão por ter aquilo.

Jongin estava sorridente como sempre e um tanto falante. Luhan apenas acenava de volta e se aninhou no abraço que foi oferecido com sua proximidade.

— Então, pronto para ir? Estou faminto e quero pegar uma boa mesa para nós. — Além do jantar Jongin parecia ter grandes planos para o resto da noite. Estava desejando levar Luhan para o cinema após a refeição e talvez depois até mesmo sair para beber uns drink’s em algum pub cheio de adolescentes barulhentos, quem sabe até dançar um pouco. Achou que seria bom para ambos saírem da rotina um pouco, especialmente se isso envolvia relaxar depois das ultimas tensões.

— Nós podemos conversar antes? Tem algo que eu gostaria de contar.

A tensão mal disfarçada no tom do chinês não escapou Jongin, mas o mesmo assentiu os guiando para o sofá.

Luhan não falou nada de primeira. Nem de segunda. Na verdade, passou alguns bons cinco minutos parecendo rodar em sua escolha de palavras. Jongin sabia ter paciência e sabia que para aquele tipo de reação devia ser algo importante, entretanto, se pegou apreensivo demais. Luhan não era de enrolar.

— Antes de qualquer coisa quero que você saiba que eu estou bem. — O mais velho começou com um pequeno suspiro no final da sua sentença curta. — E que eu preciso que você me escute até o final.

— Certo Lu. Você está pálido... O que aconteceu?

— Eu fui abusado sexualmente quando estava na faculdade. — Deixou as palavras saírem de forma sussurrada quase como uma confissão. Obviamente não era aquilo que o homem a sua frente esperava escutar.

Foi a vez de Jongin de empalidecer. Ele manteve a promessa de escutar, mas sentiu um impacto tão grande sobre seu peito que pensou finalmente conhecer o significado da expressão coração partido.

— Foi logo antes de nos conhecermos. Literalmente algumas semanas antes. O que você conheceu de mim naquela época foi uma grande bagunça por causa do que aconteceu e eu nunca pensei que chegaria ao ponto de contar para você. Ou para qualquer pessoa sequer.

— Quem fez isso com você? — Luhan nunca tinha escutado a voz do moreno daquela forma tão... Inexpressiva e ao mesmo tempo cheia de coisas das quais nenhum deles era acostumado a encarar quando se tratava sobre um ao outro.

— Foi um cara que eu estava saindo na época, ele estudava na nossa faculdade. E eu o encontrei alguns dias atrás. Foi muito caótico. Eu fiquei tão bravo, tão assustado, mas também pensei que poderia ser a oportunidade para fazer algo. A essa altura eu não poderia mais tomar nenhuma providencia para mim, mas eu descobri que ele tinha uma noiva e isso me deixou preocupado. Eu sei do fundo do meu coração que é impossível alguém tão frio como ele estar um relacionamento de forma correta. Então, eu conversei com ela hoje. — Ele se aproximou mais de Jongin tomando sua mão que agora se encontrava fechada em punho sobre seu colo. — Eu estou encurtando todos os detalhes porque meu foco não é narrar todas as minhas memórias e escolhas. Meu objetivo é ser honesto com você mesmo que pareça tarde demais. O que você quiser saber ou não depois vai ser sua escolha.

— Porque você não me contou antes? Naquela época? — Jongin parecia quase bravo, mas não necessariamente com Luhan. Talvez apenas uma parte de si. — Eu poderia ter feito algo de verdade, poderíamos ter ido à justiça, Luhan. Esse cara saiu ileso.

— Eu não pude contar ok? Para a policia, a você ou a mim mesmo. — O chinês fez de tudo para que soasse calmo, mas se sentia tremulo por dentro. — Estupro nem estava no meu vocabulário naquela época como uma coisa que poderia acontecer comigo. Eu não pude denominar desse jeito por anos, precisei de muito tempo e terapeutas para perceber que aquilo foi um estupro. Eu me culpei e tentei encontrar lacunas para que aquilo não fosse o que era. Eu fiquei em conflito por tanto tempo e ainda tenho a sensação que estou mesmo depois de quase uma década. Eu mal consigo encarar você agora, nem imagino como teria sido antes. Mas eu pensei em contar muitas vezes desde o inicio, ok?  Só que tudo que eu conseguia pensar era que você ia embora. E mesmo depois que o tempo foi passando eu não consegui reunir a coragem e largar essa sensação. Especialmente porque nós construímos uma vida juntos. E se de repente você sentisse nojo de mim? Ou não soubesse mais lidar? Se sentisse que eu não era mais o mesmo ou se nossa relação pesasse tanto que você quisesse ir? Se deixasse de me amar? Eu não sei o que faria sem você nessa casa. Sei que isso soa dependente, mas eu me acostumei a viver com você. A gostar de viver nossa vida. — Ele não conseguia encarar Jongin sabendo que tudo aquilo estava sendo despejado. Tendo conhecimento da fragilidade daquele momento só conseguia desejar que nada mudasse. — Agora mesmo tudo que consigo pensar são nessas coisas, mas eu estou arriscando porque você merece saber. Você deveria ter sido a primeira pessoa a saber, mas eu estou tentando fazer o certo agora e seguir em frente sem precisar guardar mais nada.

Jongin e Luhan eram almas gêmeas e tinham plena consciência disso. Talvez não no sentido que fosse considerado normal, mas definitivamente dentro de todas as denominações de clichês e não clichês envoltos do que uma relação poderia se basear. E o refúgio deles mesmos era o prazer em compartilhar uma vida, assistir os dias e um ao outro tal como assistiam um filme piegas e melancólico cheio de cenas confortantes em meio a questões profundas demais que às vezes escapavam seus olhos apaixonados, mas que sempre eram percebidas. E perceber era difícil. Especialmente quando a vida real confronta todas nossas noções e desejos de amor, conforto e simplicidade. Mas, especialmente para Jongin nunca foi uma opção não fazer parte daquilo. Ele nunca pôde dizer quais eram as sombras que rondaram Luhan por anos a fio, mas fez questão de ser um caloroso raio de luz para mantê-las tão longe quanto possível. Severas vezes nos momentos de mais dificuldade duvidou da própria capacidade em permanecer, mas o amor que sentia por Luhan era muito mais especial e fixo que seus medos. E amar Luhan era fácil demais, sempre fora desde a primeira vez que foi visto pelos olhos do moreno.

— Você não está arriscando nada, Luhan, porque eu não vou a lugar algum. Isso não muda nada em relação a nós. Em relação a nossa vida e como eu vejo você. O que aconteceu não foi sua culpa em absolutamente sentido nenhum, então porque eu me afastaria? — Jongin parecia emocionado ao segurar a curva da nuca de Luhan e se aproximar no sofá. — Você ainda é meu Luhan, ainda é minha família e nada vai mudar isso tão cedo... Eu só queria poder ter dito isso bem antes. A parte mais assustadora disso para mim é que você tenha pensado todos esses anos que eu daria as costas para você. Nem consigo imaginar o quão agonizante viver com essa sensação deve ter sido. — Ele riu meio embargado e seus olhos pareciam dobrar de tamanho por conta de algumas lágrimas presas. — Se eu fizesse isso me arrependeria para sempre porque você é única pessoa com quem eu quero estar, isso não é nenhuma novidade. Luhan, você é especial e gentil. Você me ensinou a ver a vida de modo doce ao seu lado, como eu deixaria isso para trás?

Luhan se pegou abraçado e chorando de forma tão serena sobre o ombro de Jongin que não desejou nem que o fluxo de lagrimas cessasse.

Sentia paz na forma de uma pluma acariciar seus olhos enquanto nos braços de Jongin escutava o timbre baixo de sua voz falar coisas amorosas que realmente eram parte de si.

Naquele momento Luhan sentiu pela primeira vez que não era tarde demais para olhar com bravura e desejo para o futuro.

— Luhan, você é amado.


Notas Finais


Comentem se sentiram algo ao ler.

<3


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