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História Don't Judge Me (Limantha) - Capítulo 2


Escrita por: TamyFanfiqueira

Capítulo 2 - Lica com L de Limonada



“O que a Samantha Conká está fazendo na nossa mesa?”


A mensagem de Tina chega em meu celular assim que ela me avista com Samantha. Estou me fazendo a mesma pergunta quando ela se senta na minha frente, exatamente do lado da Rainha Branca – vulgo Tina, mas chamamos ela assim por causa do seu cabelo platinado e a fama de rainha do colégio, e também convenhamos que é muito foda.

Minha amiga nos olha de esguelha, batendo sua sapatilha no chão com um ritmo irritante, esperando alguma de nós duas tomar atitude para explicar o que é que estava rolando. Levanto meu olhar e dou um sorriso forçado para Samantha, que ao invés de retribuir, me chuta por de baixo da mesa e faz uma careta feia para mim, me cobrando a iniciativa. Eu reviro os olhos e chuto ela de volta antes de me levantar e dizer:

– A Samantha tá me chantageando e agora nós vamos ser obrigadas a andar com um kit contra cobras, porque aparentemente a bonita quer estar no meio das “Famosas" e crescer nas nossas costas.

Samantha se levantou de supetão e apontou o dedo na minha cara.

Espera, quem ela acha que é para agir assim?

– Olha, isso é muito grave! – Ela arregala os olhos e por um momento eu até fico com medo. De repente, ela suaviza a expressão e balança as mãos como se tivesse feito um passe de mágica, sorrindo e levantando as sobrancelhas. Sinceramente, QUE PORRA É ESSA?! Sim, eu posso xingar a vontade desse lado. E não, não sou privilegiada. Se eu tenho, foi porquê eu MERECI! – Ninguém entendeu essa porr*?

Samantha coloca as mãos na cintura.

– O que é isso? – Tina pergunta, em confusão.

Uma desregulada, tenho vontade de dizer.

– Uma imitação da Lumena, gente! – Ela fica indignada. – Não estão se alienando com o BBB, não?

– Não é isso – Tina explica. – É essa palavra estranha que saiu da sua boca... pareceu que aquele bip de censura soou quando você falou “porra”.

– Ah, tá. É que eu sou da igreja de Hécate, mamãe põe a mão na boca pra não deixar com que eu caia na tentação das palavras sujas. – Ela dá de ombros. – Exceto quando eu xingo a Lica, olha... Vai à merda, Heloísa. Espero que você queime no inferno. – Ela faz um coração com a mão. 

Tina solta uma gargalhada.

Mas o que...?

Okay, eu pensava que nada poderia ser pior do que a Samantha na minha mesa, mas havia algo sim que superaria isso. As minhas amigas se apaixonando por ela e os seus amigos nerds se juntando a nós. Todos conversavam animados enquanto eu me mantinha emburrada e esperava o sinal tocar para que eu pudesse voltar para a aula e me livrar dessa garota. Bendita hora que eu fui me deixar levar pelo tesão. Se eu soubesse que eu teria me ferrado completamente por causa de um beijo, eu teria beijado alguém mais interessante.

O problema era que Samantha Lambertini não era apenas irritante. O ego dessa garota era capaz de assustar até mesmo o melhor dos psicanalistas. A alma de Freud mesmo deve estar em desespero para reencarnar, apenas para poder continuar os estudos, nesse caso, com o projeto inacabado de Narciso.

Ela estava gargalhando e empurrando Tina pelo ombro enquanto contava algo. As duas pareciam melhores amigas. A forma como o peito dela subia a cada gargalhada, os olhos quase sumiam e os lábios formavam um coração, aparecendo uma parte da sua gengiva de tão grande o sorriso, era a cena mais angustiante que já tinha presenciado. De repente, eu percebo que meus olhos nem piscavam ao observar seus detalhes, mas isso só ocorreu quando ela me encarou de volta com aquele olhar presunçoso e ergue uma sobrancelha. Pega no flagra. Eu dramatizo uma cena onde minha mão sobe lentamente de baixo da mesa e revela o dedo do meio para ela com um sorriso cínico no rosto.

– Ih, qual foi vocês duas? – Keyla observa. – Tão se pegando, é?

Eu começo a tossir.

Talvez esse seja o fatídico dia da minha morte. O momento em que o temido Gay Panic me atingiu com tanta força que a alma saiu diretamente pela garganta. Não, eu não estava pegando a Samantha. E também nunca vou querer pegar de novo. Heloísa Gutierrez jamais repete figurinhas.

– E eu lá achei minha boca no lixo? – eu respondo ainda com a voz afetada pela tosse.

O queixo de Samantha cai.

Ponto para Grifinória?

– Acho que não seria problemas pra você – Samantha responde encarando as próprias unhas, em descaso. – Já mora em um lixão mesmo...

Eu a chuto novamente por de baixo da mesa.

– Como assim, Lica? – Clara pergunta, sem entender.

Ah, me poupe. A Loira do banheiro querendo vir pagar de empática? Bom, ela que se lasque! Eu não devo satisfação pra ela, nem pra ninguém.

– Você quer que eu conte o nosso segredinho, amor? – Samantha sibila como uma cobra. – Era uma vez um porquinho, ele morava em um chiqueirinho...

Assim que eu me levantl pronta para tirar sua vida a força em um estrangulamento, meu celular vibra novamente. Eu o pego para ver quem era o miserável que salvou a vida da Peste Bubônica e percebo que na verdade quem foi salva, fui eu.

– Preciso ir – digo sem cerimônias e saio, deixando todos confusos na mesa. O que foi? Não devo satisfações a ninguém. Esse é meu jeitinho Lica de ser. 

Caminhei até o fundo do colégio e abri o espaço vazio entre os tijolos do muro, removi o saquinho com o pó mágico e o guardei no bolso. MB logo surgiu junto ao Felipe e Rafael, eu segurei meu olhar ameaçador no último como se estivesse prestes a comer sua bile na frente dele. Homofóbico desgraçado, tomara que se engasgue e morra de Gay Panic que nem eu há alguns minutos atrás.

Assim que me aproximo de MB, ele assovia e olha para o céu. Passo entre ele e Felipe, onde o toca aqui que dou com o loiro é para passar a droga, e o outro, com o bode, é para receber a grana. Continuo a andar como se nada tivesse acontecido, mas não perco a oportunidade única de olhar para trás e encarar o esterco fora da data de validade chamado Rafael. Ele semicerra os olhos para mim e eu levanto dois dedos até a boca em formato de “V”, simulando uma longa lambida para ele. Me viro rindo ao ver sua cara de tonto. Parece que nunca viu uma sapatão, eu, hein.

Notícia! Notícia!

Nessa manhã, às exatas 09h do horário de Brasília, sapatonas furiosas fugiram da prisão e começam atacar os pobres heteros cis... Escondam suas esposas e coloquem o escudo para defender sua pobre heterossexualidade frágil. Elas vão pegar você! 

Assim que retorno ao pátio, o sinal toca. Hoje o dia estava bem favorável, que milagre! Uma pena que eu ainda seria obrigada a vê-la...

Minha vida estava uma bagunça. Não apenas porquê eu sou uma bagunça, mas sim porque, não obstante o inferno que é ser lésbica e filha de um homofóbico, ainda precisaria aguentar mais uma penitência. A tortura psicológica se iniciou no exato momento em que me senti atraída por Samantha Lambertini no dia da festa dos calouros.

A garota desde o primeiro dia de aula sempre agiu como se eu não existisse. Eu particularmente nunca me incomodei com isso, apesar de tentar algumas brincadeiras para irritá-la. Bom, isso perdurou apenas até o dia em que a falta de importância revelou ser um excesso de ódio acumulado vindo dela.

Não sei explicar, mas vê-la tão brava comigo, me enfrentando e desafiando daquela forma, foi estranhamente sedutor. O jeito que a sua sobrancelha grossa se juntava deixando apenas um risquinho de espaço entre elas, e o seu olhar queimava em mim assim como Lúcifer encarava o próprio reino infernal, me deixava atraída como nunca.

Sim, eu adoro apanhar de mulher bonita. O que tem de mal nisso?!

Por favor, não me peçam para ir para a terapia. Não existe isso aqui, se existisse não haveria mais enredo e fim. Aqui é quase um mundo pós-apocalíptico onde todos os psicólogos foram extintos e as portas do manicômio se abriram. O nome do manicômio: colégio Grupo.

O colégio do respeitável Edgar – Insira uma risada sarcástica aqui – era literalmente pior que um internato para crianças sociopatas. Não é atoa que seja assim, o próprio diretor é um cara perverso que, literalmente, arrancou as páginas com o significado de empatia de todos os dicionários da escola.

Falando em falta de empatia...

Samantha grudou em mim nesse dia e nos seguintes, buscando a tão almejada fama. Coitada dela quando descobrir que na verdade de famosas não temos nada. No fundo somos todas canceladas, hahaha.

– E você vai fazer o que eu mando, se não... – Ela sorriu ironicamente mirando a minha boca. – Você está ferrada, amore mio.

Vamos ver, Samantha. Vamos ver...

Cheguei atrasada na aula, como de costume. O problema dessa vez era que eu não estava preparada para a consequência desse ato. Eu estou em uma fic ou o quê? Qual a chance do único lugar que sobrou ter sido exatamente na mesa da Samantha? E outra, o que uma mesa dupla faz em uma escola do Brasil? 

Nada faz sentido...

Entrei na sala enquanto o professor me encarava em silêncio e joguei a bolsa em cima da mesa, provocando um suspirar enraivecido de Samantha. Eu acabo sorrindo por isso e finjo que nada aconteceu. Assisto a aula, ou apenas olho o quadro enquanto penso em vários nadas. Nenhum professor tem coragem de me dar nota baixa, chamar a minha atenção ou mesmo exigir que eu preste atenção. 

Eu não sei diferenciar se desistiram de mim ou têm medo do meu pai. De qualquer forma, eu aproveito a mordomia.

Decido, pelo tédio, irritar Samantha. Se ela achou que teria tudo de mão beijada, ela estaria enganada. Eu cumpriria o seu plano e seguiria à risca o nosso acordo, mas não estava em nenhuma cláusula contratual a parte que diz que nossa relação deveria ter respeito mútuo. Eu sorrio diabolicamente e ancoro o meu rosto em uma mão para ficar encarando o seu perfil de forma invasiva até ela começar se sentir desconfortável e virar os olhos em minha direção, daquela forma impaciente.

Ó, Santa Protetora do Brioco, ajuda aqui que sua filha acabou de ter um treco.

Aquele olhar de raiva, como se ela fosse me matar e depois me jogar no rio Tietê, era a coisa mais sexy que eu já tinha visto na vida. Ela mantém o olhar até que eu não consiga mais segurar e o desvio.

Mas que droga...

Ela solta uma risadinha nasal que revira toda a comida no meu estômago e não demora muito tempo depois disso para que eu volte a odiá-la. Bom, pelo menos essa seria a última aula. Depois disso, precisaria fazer algumas entregas, algo que estranhamente me acalmava. Andar de bicicleta por São Paulo é uma coisa bem diferente do que de carro, metrô ou busão. O risco de morrer é triplicado, e isso torna tudo mais especial.

Ao longo desses dois anos muitas coisas aconteceram, por isso eu vim aqui narrar no lugar da outra doida. Notaram a diferença, certo? Isso sim é uma narração cheia de conceito, coesão e aclamação, monamour

Como já deu para perceber, eu e a Samantha não nos damos muito bem. Quando ela descobriu o meu segredo, o jogou contra mim, me obrigando a fingir que sou sua amiga para ajudá-la a conhecer as pessoas influentes. Em certo momento, eu até simpatizei com a causa. Ela só queria fazer amigos, coitada. Mas a simpatia morre assim que eu olho para aquela cara e eu vejo a própria Daenerys Targaryen repetindo “Se não me respeitar por amor, que seja então por medo", e queimando milhares de inocentes em seguida. Não que eu discorde dessa atitude, na verdade era assustadoramente atraente.

Okay, talvez eu queira estar pegando a Samantha.

O sinal tocou depois de incessantes minutos de auto martírio e eu já estava prestes a pular sobre a mesa com minha bolsa e vazar, quando o professor pede para continuarmos sentados. Ele avisa que teremos que fazer um trabalho com a pessoa que desejarmos. Olha só, parece que essa história não está tão clichê assim. Ri internamente, óbvio que eu não faria com a samANTHA Lambertini.

Apelido muito maldoso? Que pena, eu não ligo!

Me virei sorrindo para Tina e a vejo, já colada na Ellen – Maldita interesseira, pegou justo a Rainha Nerd. Olhei para Keyla e ela também já havia feito dupla com a Benêzinha. 

O problema de você estar em um grupo de cinco pessoas, é que essa porra é um número ímpar. E EU SEMPRE FICO DE FORA!

Para completar meu desespero, até mesmo Felipe e MB se juntaram. Tenho vontade de gritar que o Debi e Loide estão diferentes, mas eu não estou em uma posição legal pra zoar. Olho para o lado e a Samantha estava com cara de cachorrinho abandonado tentando encontrar uma dupla também. Assim que seu olhar pousa em mim, ela gruda em meu braço.

Ah, não...

– Lica, por favor! – ela suplica. – Se eu sobrar, todo mundo vai se lembrar disso. Ninguém que é popular sobra! – Sério que tinham lágrimas nos olhos dela?

Essa história realmente precisava de um terapeuta.

Eu nego com a cabeça e volto a minha busca por qualquer pessoa que seja. E lá estava, a única pessoa que havia restado era o Rafael. Samantha segue as minhas vistas e o encara também. Oh, não. Isso não poderia acontecer! Rafael era um pervertido, eu jamais deixaria a minha Samantha fazer dupla com aquele nojento.

Não. Mesmo!

Ela já tinha se levantado e estava partindo em sua direção quando eu puxo seu braço, fazendo-a quase cair de cara em mim, mas parando rente ao meu rosto, apoiando uma mão na cadeira e a outra na mesa ao meu redor. Me encara furiosa e eu já sinto os tremores subindo dos pés até a b...

– O quê você tá fazendo, estrupício? – ela pergunta.

– Te salvando, né? Olha para aquele cara... – Ele estava observando nossa interação com um sorriso nojento. Urgh, odeio homens. – Você quer mesmo fazer o trabalho com um cara daquele?

– Pelo menos ele me quer. – Ela dá de ombros.

O porquê de ainda estarmos conversando cara a cara ainda era um mistério para mim, mas o seu hálito de morango com hortelã fazia uma mistura interessante...

– Eu te quero – digo, sem pensar. Ela abre a boca, incrédula com o que tinha ouvido. – ... pra fazer dupla – até tento corrigir, mas suas sobrancelhas já estão unidas. Ela me encara como se eu fosse o Papa do Vaticano assumindo que na verdade era Lúcifer disfarçado e veio ao mundo para causar o apocalipse. Por um longo segundo, ela mantém os olhos em minha boca e eu propositalmente a molho com a língua e dou o meu melhor sorriso cafajeste, fazendo aquele joguinho com as sobrancelhas.

O charme Gutierrez nunca falha.

– Okay – ela diz. – Amanhã na minha casa, sem falta!

Me arrependi no mesmo instante. Maldito tesão, pare de controlar minhas atitudes!

(...)

Já tinha feito três das cinco entregas para aquele dia e estava andando de bicicleta pela paulista em busca de um restaurante para comprar aquela marmitinha gostosa e quentinha do jeito que o trabalhador gosta. Contudo, algo me chama a atenção. Samantha estava descendo de uma Lamborghini junto a um homem vestindo um terno rosa choque. Espera, esse é o pai dela?

O restaurante deles era muito bonito. A decoração italiana chamava a atenção propositalmente, e o cheiro de todos os tipos de massas exalavam para fora. Samantha estava com uma roupa diferente do que costumava usar no colégio e a minha curiosidade aumentou ainda mais. Vestia um shorts curto com umas correntes na lateral e uma camiseta preta com a estampa Iron Maiden. Samantha gostando de rock, que mundo estranho é esse? 

Ela parte em direção ao restaurante acompanhando o homem em uma conversa animada e solta uma gargalhada alta. Antes que ela possa se virar e me ver observando-a de maneira bizarra – beirando o Stalker da música I'll be watching you –, eu saio disparada para a avenida novamente. Decido que perdi a fome depois de olhar para aquela cara arrogante dela e tento focar na entrega do penúltimo pacote.

Seria na Baixa Augusta e me renderia o total de trezentos reais por conta de uma festinha de gente rica. Coloquei a minha toca e entrei no beco onde tinha combinado de se encontrar com o cliente. Um homem estava fumando atrás de uma lixeira grande. Eu freio com a bicicleta ao chegar próximo dele e já me preparo para dar o fora, caso algo acontecesse. Desço meus óculos escuros para encarar o homem e algo nele me dá uma certa angústia. Esse olhar...

– Aqui. – Ele estende o bolo com quatro notas de cinquenta.

Hm, que direto. Gosto assim.

Eu jogo a minha bolsa para frente do corpo e retiro um estojo. Era uma tática que eu tinha para esconder as drogas. Quando não era dentro de estojos escolares, eu levava debaixo de um forro falso, no fundo da mochila. Eu nunca fui parada, mas se fosse, estaria preparada.

O que?! Tá me chamando de branca privilegiada?

Tá, isso eu preciso concordar.

Mas nada supera a você-sabe-quem, vulgo Voldemort. Vou chamar ela assim a partir de agora, este nome com certeza vai trazer menos males que o original daquela lá.

Ela era tão irritante e privilegiada que me dava asco só de lembrar daquele rosto. O jeito que ela parece menosprezar a todos, mesmo ela não sendo ninguém e ainda tem aquela síndrome da Regina George que ninguém entende... 

Ela está em que ano? 2009?!

Só fui perceber que eu ainda não tinha soltado o estojo quando o homem dá dois puxões e eu volto à órbita.

– Desculpa.

Ele assente e eu saio disparada novamente.

Normalmente eu não era tão desatenta assim. Minha mente não estava conseguindo focar em nada aquele dia e eu presumi que era por causa da fome. E se eu for comer no restaurante dos Lambertinis...?

Não, Lica! Pare de se auto-sabotar. O que diabos você vai fazer lá?! 

A voz da sabedoria me alertava e tentava me guiar para longe, mas é óbvio que eu não escutaria. Uma coisa sobre mim: eu nunca escolho o caminho certo. Dessa vez daria pra culpar a fome, pelo menos. Não tinha nada a ver com a Samantha, zero coisas, nenhum motivo, nadica de nada.

Cheguei e tranquei minha bike no poste. Não é possível que os ladrões dessa cidade levariam até o poste junto.

Adendo para quem não mora em SP: 

Levariam, sim. Eu só dei sorte mesmo.

Entrei no restaurante observando tudo ao redor. Não, eu não estava procurando por ela. Nada a ver! Eu só queria comer algo italiano em um restaurante italiano onde o pai italiano dela serviria uma massa italiana e talveeeeez eu tivesse a chance ter uma italianazinha específica de brinde...

Um homem alto e loiro me cumprimentou, sorrindo com seus dentes brilhantes. Ele vestia o que eu acredito ser o uniforme do restaurante, mas mais parecia um mordomo chique. Possuía um bigodinho fino e as costeletas aparadas. Até que tinha seu charme. 

– Bem vinda ao Bistrô. Deseja uma mesa? – ele pergunta, formalmente. Seu rosto simpático me analisava como se me conhecesse de algum lugar e estivesse tentando se lembrar.

– Na verdade, eu sou amiga da Samantha... – Sim, eu tentaria comer de graça às custas dela. – Ela está?

O homem ergueu as sobrancelhas e deu um sorriso orgulhoso. Como se houvesse algo para ele se orgulhar dela, hahaha. Quando ele souber...

– Vou chamá-la. Sente-se na mesa Um-Dois. – Eu franzo as sobrancelhas. Era na um ou na dois? – Doze – ele corrige ao ver minha confusão e sai em direção ao lugar que presumi ser a cozinha.

Eu dou de ombros e jogo minha mochila para debaixo na mesa que ele me indicou, sentando em uma cadeira e apoiando os pés na outra da frente. Começo a balançar minhas pernas em ansiedade. O que diabos eu estava fazendo aqui? Eu passei literalmente a manhã inteira tentando fugir dessa garota e agora eu estava aqui, ansiosa pra ver ela?

O prêmio de palhaça vai para...

– LICAPETA? – ela grita, ao me ver. O homem de terno rosa que tinha saído do carro com ela soltou uma gargalha logo atrás e levou um chute na canela do outro, sendo repreendido. – O que você tá fazendo aqui?! – ela sussurrou a última parte como se a fala anterior não tivesse sido alta o suficiente para o estado vizinho ouvir.

– Eu... – Vai, burra, pensa em algo! – Precisava pegar o seu número.

O homem loiro coloca a mão no peito e encara o outro, boquiaberto, revezando o olhar no de terno rosa e em nós duas. Samantha me olha confusa, com as mãos na cintura e uma expressão de nojo.

Ouch!

– E pra quê? – ela pergunta e olha para os lados como se conferisse quem estava ao redor. Se aproxima, apoiando as duas mãos espalmadas por cima da mesa, e me encara para sussurrar: – Você sabe que não precisa continuar o teatrinho fora da escola, né?

– E-eu sei. – Perco minha pose de bandida má. O que essa menina tem para me desarmar desse jeito? Isso me irritava. – É que eu precisava te perguntar o endereço... para fazer o trabalho... e talz...

O rosto dela suaviza.

– Que susto – ela admite, sorrindo. – Por um momento achei que você estava a fim de mim.

Eu rio nervosamente. 

Eu a fim dessa garota? Que piada engraçada, haha... 

QUE DROGA, PORRA, EU FUI PEGA! ABORTAR MISSÃO! ABORTAR MISSÃO!

– Por favor. – Eu reviro os olhos. – Eu querer você? Nunca...

Ela semicerra os olhos para mim, empurra meus pés de cima da cadeira e se senta na minha frente.

– Sabe que eu tenho namorado, né?

Meu queixo cai. O que...? Ela tinha traído na festa?

– E VOCÊ FICOU COMIGO COMPROMETIDA?! – eu berrei.

Ela arregala os olhos e começa a negar, freneticamente.

– CARALH*, LICA. CALA A BOCA – ela berra de volta. E lá se vai toda a freguesia desse restaurante. Motivo: duas surtadas. – Eu estava solteira naquele dia. Tinha terminado por algumas motivos beeem sérios, mas acabei perdoando ele.

– Ele, com E? – pergunto, incrédula. Eu jurava de pé junto que essa daí tinha mais ranço de homem do que eu. E aquele beijo que ela me deu...

Ô, mas que inferno. Pare de pensar, imediatamente, gay! Bloqueia essa memória. Exclói, exclói. Délet plis. 

– Sim, o que é que tem? – Me encara como se eu fosse um bicho do mato. – Não sabe o que B significa não?

– Biscoito?

Ela gargalha alto.

– É por aí. – Ela estende a mão como uma donzela e eu pego meio desconfiada. – Prazer, Biscoito.

Eu acabo sorrindo também.

– O prazer é meu. Pode me chamar de Limonada. – Deixo um beijo nos nós de seus dedos encarando-a, e ela puxa a mão de volta com o rosto indecifrável. Balança a cabeça e pega o celular, desbloqueia e parece pensar antes de me estender. – O que é isso?

– Meu celular, sua burra. – Ela revira os olhos e o balança na minha frente. – Salva o seu número.

Eu pego e começo a digitar, sem paciência. Como ela tinha essa habilidade de ser legal em um momento e mudar a personalidade para essa insuportável em menos de um segundo? 

Assim que salvei o meu número como “Amante Gutierrez" uma mensagem brilha no topo da tela. O celular estava no silencioso, então Samantha não percebe quando eu puxo a barra de notificações para ver quem era. Franzi a sobrancelha. 

O que diabos era “Mosquinha S2”?

Ao ver minha expressão, ela puxa o celular da minha mão com cara de poucos amigos e olha o que é que eu tanto bisbilhotava ali.

– Por que você salvou seu nome como “Amante... – ela começa, mas é interrompida por uma mão tampando seus olhos por detrás dela.

– Advinha quem é – o garoto feio falava. Ele olhou pra mim e fez um "Shh" com os lábios.

– É um menino feio do cabelo enroladinho. Parece que veio direto do lixão da tia Lucinda de Avenida Brasil – eu digo, para acabar com essa brincadeira besta.

– MOSCA?! – Ela se vira animada para abraçar o garoto. Ele a levanta em seus braçoa e começa a rodopiar ela no ar, até que, sem querer, acaba fazendo com que a canela dela bata com tudo na cadeira, derrubando-a em um baque. Ela grita de dor e começa a bater nele antes mesmo de ser colocada de volta no chão. – Mas que inferno, garoto!

Eu dou risada, e ele me olha meio perdido. 

– Quem é essa X9? – ele aponta para mim.

– Como é?!!! – Eu me levanto e o encaro ameaçadoramente. Porra, eu podia ser tudo, menos X9.

Ele se refreia e pede desculpas antes de engatar uma conversa privada com Samantha. Eu pego meu celular e até penso em mandar uma mensagem para irritá-la, mas lembrei que era ela quem estava com o meu numero. Eu teria de esperar, que inferno! Odeio esperar. 

Quando eu pensei que estava prestes a morrer de desgosto com os dois na minha frente, o homem loiro surge para me salvar, nos entregando os cardápios.

– Podem escolher, hoje é por conta da casa. – Ele sorri para mim. Nossa, o plano funcionou mesmo! – Menos pra você. – Ele mirou o tal besouro. Era esse o nome dele? – Você eu não conheço.

Ele saiu deixando o menino incrédulo.

Eu já amava esse homem.

(...)

Mosca era sim conhecido naquele lugar. Ele era literalmente o rapaz que fazia as entregas pelo delivery do restaurante. O porquê do homem loiro ter fingindo que não o conhecia, eu só descobriria anos mais tarde. No entanto, que ele era o motoboy, foi em apenas alguns minutos.

– Está pronto! – O pai loiro de Samantha chega. Sim, eu descobri que o homem se chamava Rich e era casado com o tal Leor, dono do terno rosa. – Aqui pra convidada especial. – Ele coloca o prato na minha frente. – Pra filha mais incrível do mundo. – Dá um beijo no topo da cabeça dela. – E pra você... – Ele entrega um pote para o garoto, que sorri animado. – É pra você entregar. Anda rápido que o cliente espera!

Eu dou uma risada alta e olho Samantha para ver que ela suspirava, revirando aquele castanho lindo de uma nóz... Espera! Que mané castanho lindo. Estava mais para o castanho do feijão que eu tentei fazer e acabei deixando apodrecer no fundo do freezer. Ela se levanta e deixa um beijinho no rosto do rapaz, fazendo com que fosse minha vez de revirar os olhos.

Como ela conseguia me beijar daquele jeito na sexta-feira e hoje, na segunda, ficar de boiolagem com um macho bizarro desses. Cara... o nome dele era Mosca. Já começa errado por aí.

Mas ah, tanto faz também, né? Eu já tinha conseguido comer de graça. Era só esse o meu objetivo mesmo.

Assim que eu dei a minha última garfada, empurro o prato para frente e me abaixo para pegar a bolsa. Samantha me observa encostada em sua cadeira. Ela estava segurando o celular com uma mão e, com a outra, rolando o que eu julguei ser o feed do Instagram. Suas unha longas batiam na tela e me irritaram durante todo o almoço. Eu espero ela dizer algo, mas não solta nenhuma palavra. Ao invés disso, me mede com seus olhos marcados por um longo delineado e solta um risinho nasal. Eu franzo meu nariz e mostro a língua para ela, antes de jogar a mochila no ombro e sair do restaurante.

No momento que eu destranco a bike e subo, pronta para fazer a minha última entrega, sua mensagem chega no meu celular.

“Tchau, Limonada ;)" 

Eu sorrio boba olhando para o celular, começo a pedalar ainda relendo a mensagem. Contudo, assim que eu aperto o botão de áudio e estou prestes a falar, uma buzina irrompe e um clarão me atinge.


Mas que porra...



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