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História Don't Look Back In Anger - Cherik - Capítulo 20


Escrita por: 3366B

Notas do Autor


Não sei nem o que dizer voltando 4 meses depois postando como se nada tivesse acontecido.
Só queria compartilhar que minha vida virou de cabeça pra baixo, passei momentos bem tristes nesses meses e foi muito difícil escrever pq eu não conseguia me conectar com a história considerando que eu queria que ela fosse acolhedora e eu não me sentia assim. Mas confesso que sempre que tinha um pouquinho desse sentimento eu voltava e escrevia mais um pouco.
Espero que alguém ainda leia lkkkkk
Bjo

Capítulo 20 - Cuidados


Cap 20 

Erik continuava dando duro nos treinos, e mesmo que ele não confessasse eu pude perceber que ele estava começando a nutrir expectativas sobre isso. E isso fazia dele ansioso, portanto quanto mais próximo da final o time se chegava mais taciturno ele se tornava. 

Isso me deixava apreensivo, e quanto mais silencioso e misterioso ele agia, mais medo de que uma merda acontecesse eu tinha. 

A mãe dele havia ido pra um retiro, o que acabou dando a ele um pouco de paz naqueles dias próximos ao jogo, eu não podia simplesmente passar os dias lá, porque a casa não era acessível, e eu sempre odiei perder minha liberdade, mas me dei ao luxo de dormir apenas uma noite na casa dele. 

Já fazia horas que eu assistia vídeos no YouTube enquanto ele estava na cozinha xingando baixo enquanto fazia algo pra comer. 

Eu continuei fingindo que não ouvia, mas meus estudos de perfilador já tinham sido largados tocando apenas em plano de fundo na minha mente. 

Ele voltou pra sala segurando um prato com lanches de uma forma muito esquisita. 

- Por que tá segurando o prato assim? 

- Porque cortei minha mão. Essa merda de faca escorregou. 

Coloquei o celular no sofá e avancei com a cadeira, tirei o prato da mão dele e apoiei na estante no lugar que a mãe dele costumava manter a foto do filho com a ex namorada. 

- Me deixa ver isso. 

Falei puxando sua mão. 

Ele estendeu a palma sem resistência, um longo e fino corte marcava uma linha esquisita entre o dedão e o pulso. Fiz uma cara preocupada, e ele respondeu tentando me tranquilizar.

- Não foi nada demais. 

- Tem um band aid? Esse tipo de corte fino são os mais doloridos, sinto muito por ter se ferido. 

Ele deu um beijo no topo da minha cabeça. 

- Tudo bem, amor, foi só um corte. Acho que estou bem. 

Encarei ele bem sério. 

- Erik, Você não sabe? Olha bem essa marca aqui! 

Apontei bem próximo do corte e continuei. 

- Aqui passa um músculo muito importante, e ele também eh bem superficial, você pode ficar com o braço paralisado até o cotovelo. Não sei não, já vi várias pessoas até terem que amputar o dedo por isso. Você deveria ir no hospital. 

Ele riu, então me encarou

- Sim, já ouvi dizer, tem outros que também são assim no corpo. Por exemplo, AQUI! 

Ele deu um grito na última palavra enquanto acertava um ponto entre as minhas costelas me fazendo gargalhar. Foi tão rápido que eu não consegui me defender. Ele continuou fazendo cócegas em mim, e eu comecei a perder o ar de tanto rir. 

- Chega, Erik, chega! 

Ele parou e me encarou 

- Diz que eu sou o namorado mais perfeito do mundo ou eu não paro. 

Revirei os olhos. Mas eu não queria mesmo que ele continuasse.

 - Você eh o namorado mais perfeito do mundo. 

Fui até o banheiro e achei um band aid numa caixa qualquer de remédios, peguei a mão e coloquei o curativo no corte, em seguida dei um beijo no dedo. 

Assim que me afastei pra pegar um sanduíche que ele tinha feito, percebi que ele ainda me encarava. 

- Que foi, Erik? Tá doendo? 

Ele chacoalhou a cabeça, então beijou minha testa e se jogou no sofá enquanto também pegava um lanche. 

- Você eh absurdamente fofo, Charlie. Eu sou muito apaixonado por você. Puta merda! 

Sorri pra ele, e me joguei ao lado dele no sofá, então deixei meu corpo ir despencando até estar deitado no seu colo. 

- Erik, você tá bem? 

- Uhum 

Ele respondeu de boca cheia

- Você anda nervoso com a final, né? 

- E adianta tentar mentir pra você? 

Apesar das palavras, ele sorria, me senti aliviado por ele se sentir confortável com a ideia de ser sincero. 

- Quer conversar sobre isso? 

Nesse momento ele já estava no final do lanche, então deu uma última mordida, e começou a acariciar meu cabelo, virei meu corpo em direção a sua barriga, e o abracei enquanto aproveitava o carinho. 

- Não sei bem o que dizer sobre isso, amor. Eu nunca me senti parte de alguma coisa. Desde que eu comecei a participar dos jogos, o time começou a me receber diferente, e eu comecei a me sentir pressionado, eu me sentiria culpado se falhasse com eles, quando eles já tem tanta expectativas sobre mim. 

Apertei meu abraço e gemi manhoso com o carinho antes de responder 

- Erik, Amor, as expectativas dos outros sobre você, é problema deles. Você vai continuar sendo o melhor jogador mesmo que falhe em algum momento. Eu atropelo qualquer um deles que ousar te destratar por ter jogado uma bola errada que seja. 

Ele gargalhou e beijou minha cabeça, então continuou deixando os dedos dele dançaram entre meus fios, eu comecei a me sentir quase sonolento, eu me sentia seguro ali naquele mundo só nosso. 

- Charlie, você não pode atropelar todo mundo que me criticar na vida. 

- Quem disse que não? Eu posso sim, você já esqueceu? Eu sou o garoto da cadeira motorizada, posso passar com ela por cima de quem eu quiser. 

Eu falei isso, porque amava ouvir a risada dele, eu queria muito senti-lo mais tranquilo, quando senti sua barriga vibrando com o riso, sorri também. 

- Nossa, mas que namorado protetor eu arrumei, hein? 

Dei umas mordiscadas na sua barriga por cima da camiseta preta de banda que ele usava. 

- Eu sou quase um pitbull. Deixa esses manés mexerem com você, eu acabo com todos. 

Ele me encarou super sério. 

- Você é muito importante pra mim, Charlie, obrigada por estar aqui comigo

Esperei uns segundos como o psicólogo havia me ensinado eu precisava daquele espaço de tempo pra reaprender a respirar. O olhar de Erik e suas palavras, assim como as atitudes, eram sempre muito intensas, e eu as vezes me sentia sobrecarregado, não era ruim, mas me dar aqueles segundos sempre faziam minha mente caminhar do desespero pro amparo. 

Era muito assustador no começo me sentir tão responsável por Erik, eu queria que ele fosse feliz, queria tirar toda dor das experiências de sua vida, queria que ele se sentisse aceito, e respeitado. Aprender a confiar nele, e entender que meu papel era ampara-lo e acolhê-lo mas que ele ainda era o protagonista da própria história, tinha sido o primordial pra me fazer chegar até aquele momento, um momento em que eu podia sorrir e assentir suas palavras com genuíno amor. 

- Você também é muito importante pra mim. 

Ele abaixou o rosto e me beijou, um milhão de vezes eu beijaria Erik, e um milhão de vezes ainda seria capaz de sentir borboletas no estômago. 

- Erik, muita coisa mudou desde que a gente se conheceu. Eu me sinto seguro de arriscar, eu me sinto confortável com você, a gente ri, a gente briga, eu não sabia que seria capaz de me envolver com alguém como estou envolvido com você. Obrigado por isso. Você agradeceu porque estou com você agora, bem, eu pretendo continuar do seu lado por muito tempo. O tempo que você me quiser do seu lado pra ser mais exato. Então, Erik, nesse fim de semana, quando você entrar no campo pro jogo, eu quero que você tenha certeza que não importa o resultado, eu vou estar lá do seu lado.  

Depois de dormir aquele dia na casa dele, os demais dias antes do jogo passaram voando, tão rápido que quase não deu tempo de preparar minha supresa pra ele. 

Erik disse que eu podia torcer se fosse líder de torcida, bem eu consegui roupas e pompons. 

O Scott ficou um pouco indignado, mas Alex me ajudou a fazer uma participação especial com suas amigas líderes de torcida. Foi difícil ensaiar (não que minha parte fosse mais que atravessar o campo e fazer alguns movimentos com pompons, enquanto as garotas faziam algumas posições bem arriscadas apoiadas em mim ou na cadeira) sem que Erik percebesse, e ele estava tão ansioso que eu queria estar com ele em todos momentos possíveis, tentando aliviar seu estresse. 

Na noite do jogo, eu vomitei duas vezes. Eu tava muito nervoso, pela exposição, pela surpresa, pelo jogo, por Erik. Mas fiz tudo isso quando ele já tava longe, talvez se ele estivesse perto me sentiria culpado por preocupa-lo e talvez tivesse vomitado mais. 

Meu terapeuta disse que era algo que as vezes podia acontecer, que qualquer pessoa as vezes tem enjoos quando fica nervosa, mas que eu precisava entender os gatilhos e trabalhar pra evitar aquele estado de nervosismo, a terapia em si me ajudava muito, mas eu sabia que raramente isso ainda ia acontecer, então eu me esforcei pra me livrar da culpa, e do sentimento que acompanhavam aquele momento. 

Alguns minutos antes da partida começar, nós fomos liberados pro campo, eu respirei fundo e entrei, meu olhar foi direto pro banco dos jogadores, e procurei Erik ali em busca de apoio enquanto fazia os movimentos quase mecanicamente de tão ensaiados. 

Ouvi a voz de Alex de algum lugar próximo na arquibancada, gritando que eu arrasava. 

Mas me senti realmente invencível, quando finalmente enxerguei Erik me encarando. 

O queixo dele podia dizer a temperatura do chão, de tão despencado que estava, mas ele sorria pra mim orgulhoso, emocionado e divertido. Qualquer coisa valia a pena pra ver aquela expressão que não transitava no rosto lindo do meu namorado já alguns semanas. 

Obviamente dança não era pra mim, e eu errei alguns passos, ninguém se importou, as líderes sorriam genuinamente ao meu gesto de amor, acho que jogos de futebol americano deixam as pessoas mais românticas, não sei. Pelo menos até a partida começar e os jogadores se amassarem em campo. 

Quando a dança terminou, o jogo começou, e Erik não teve a oportunidade de se aproximar, as meninas ainda dançariam mas minha performance tinha terminado ali. Graças a Deus! 

Ainda vestido daquela forma, e com os pompons no colo, parti pra onde Scott estava sentado de braços cruzados olhando o jogo compenetrado. 

Sem olhar pra mim ele iniciou uma conversa 

- Tá feliz agora, Charlie? 

Fiz um cafuné nele bagunçando seu cabelo. 

- Scott, por que tá tão puto com isso? Alguém que não te conhece poderia até dizer que você eh homofóbico, ou talvez até capacitista, sabia? 

Era pra ser uma piada ácida, talvez quase um humor negro, eu provavelmente estava andando demais com Erik, e Scott infelizmente não compartilhou da graça ele me encarou genuinamente preocupado. 

- Charlie, eu só estava preocupado com você, eu não parei pra pensar que talvez pudesse estar sendo um idiota. Eu estou realmente sendo um, né? 

Baguncei seus cabelo e respondi 

- Não se apegue tanto, Scott, me deixa concentrar no jogo. 

Ele gargalhou 

- Charles, o que você sabe sobre futebol  americano? Você não sabe nada. 

- Posso te mostrar como os zagueiros atropelam quem invade a área deles, tá afim? 

Scott bufou consciente que a discussão tinha acabado, eu entendia pouco de futebol, mas entendia tudo sobre Erik e isso era o que importava. 

Erik correndo pra lá e pra completamente escondido entre ombreiras e capacete, me fazia perdê-lo de vista muito rápido, o jogo em si me fazia meio entediado, mas era impossível não vibrar com as conquistas dele. Por várias vezes ele marcou pontos e correu até ao lado que eu estava pra me mandar um beijo ou fazer um sinal de coração. Por sorte todo mundo achava que era pra torcida no geral, pelo menos boa parte do tempo. 

Eu podia fazer suspense e dizer que o jogo foi duro, e bastante acirrado, mas nosso time amassou o outro sem muita dificuldade, e no segundo tempo, ou em algum momento depois da metade do jogo, o time jogava tão relaxado que parecia como um treino qualquer e

Erik corria o campo já um tanto preguiçoso, esbarrando aqui e ali com calma. 

Mas foi assim, já no final do jogo que as coisas começaram a desandar. O time adversário ciente que já tinha perdido se tornou mais violento e agressivo, como Erik era o astro da partida, a maior parte desse comportado foi concentrado nele, cada vez que ele caia no chão com 5 ou 6 pessoas sobre ele, eu ficava apreensivo. 

A situação piorou tanto que Scott segurava minha mão com força, e eu tive certeza que Erik não sairia de lá sem uma maca ou um osso quebrado. 

Obviamente o treinador já com o jogo ganho tentou tirar Erik do campo várias vezes, eu não sei se mais preocupado que ele revidasse ou se machucasse seriamente, mas Erik se recusou a sair, e se recusou a ser violento gratuitamente, apesar das investidas ele não devolvia a violência. Não sei se sentia orgulho ou raiva. 

Faltando alguns poucos minutos pro término do jogo, ele tomou uma pancada tão forte, que caiu insconsciente no chão. 

Todo meu ar foi retirado dos pulmões, e eu desejei ser capaz de pular tudo e todos pra correr até lá. As pessoas se levantaram curiosas e meu campo de visão ficou completamente tomado. 

Scott levantou e foi saindo na frente abrindo caminho, mas eu estava paralisado. 

Todo o nervosismo do dia voltou de uma vez, e eu vomitei sobre os protestos de quem estava próximo quando respingou pra cá e pra lá. 

Por sorte meu estômago estava completamente vazio e não sujou ninguém.

Scott me encarou assustado mas o espaço que ele abriu pra que eu passasse começou a ser tomado de pessoas. 

Senti alguém tocando minha cadeira, virei pra trás meio assustado e meio irritado. 

- Eu sei que você odeia, saindo daqui eu prometo que limpo aonde toquei com álcool 

Com um sorriso que só um adolescente pentelho poderia ter, Alex empurrou minha cadeira, até que nós alcançássemos Scott já nos corredores largos que minha cadeira conseguia passar com tranquilidade. 

A primeira coisa que fiz foi olhar para o campo, e Erik estava sentado afastado com um médico que conversava com ele, enquanto o juiz encerrava a partida. 

A torcida ficou polvorosa, mas eu já estava novamente sendo empurrado por Alex ou puxado por Scott, eu não sei. Eu tava muito confuso. 

Quando finalmente saiamos de lá e eu consegui ficar um pouco mais consciente de mim, me voltei em direção a entrada dos vestiários, eu precisava ver Erik, ver que ele estava bem. 

Alex parou na minha frente impedindo meu caminho. 

- Tá lotado de gente ali, você vai acabar se machucando, Scott foi pegar água, e em seguida a gente te ajuda a chegar lá em segurança, ok? 

- Ele se machucou muito? 

- Acho que não, claro que a pancada foi forte, pra ele desmaiar daquele jeito, e obviamente ele parecia uma massa sovada no campo…

- Alex, cala boca, você não tá ajudando. 

Scott entrava no meu campo de visão me entregando um copo com água e interrompendo o irmão. 

- Charlie, ele tava acordado quando saiamos, tenho certeza que tá bem, eu vi o time indo comemorar com ele quando o jogo acabou, então acho que tá tudo bem. 

Fiz um bochecho tirando o gosto do vômito na boca e cuspindo num lixo próximo, bebi o resto da água numa golada só, e amparado pelo irmãos Summers me dirigi para o vestiário. 

Quando cheguei na porta achei que haveria alguma comoção que talvez me impedissem de entrar, assim como um monte de gente que tava do lado de fora esperando os jogadores saírem, mas o segurança apenas permitiu minha entrada e eu segui sem comentar muito. 

Eu fui direto para a sala da enfermagem que tinha ali dentro, e abri a porta dupla num solavanco que fez com que o médico tomasse um susto. 

Ele se virou na minha direção deixando meu campo de visão aberto até o paciente que ele tratava sentado na maca, de frente pra mim. 

O olho esquerdo de Erik era uma massa pastosa de roxo e verde. Os lábios estavam cortados e inchados. O corpo não parecia melhor todo o lugar que estava exposto tinha roxos. 

- Isso foi um jogo ou uma surra? 

Foi o que escapou da minha boca. Erik sorriu, os dentes meio tingidos de sangue. 

- Deveria ter visto o outro cara. 

Suspirei e me aproximei. 

- Ele tá bem, doutor? 

O médico me encarou. 

- Ele tá bem, na medida do possível, aparentemente nada quebrado, só luxações e escoriações. Mas tudo isso foi muito arriscado, ele deveria ter parado quando se transformou em saco de pancada. 

Erik deu de ombros

- O treinador disse que vai processar a escola deles pela falta de moral no jogo, se eu saísse eles poderiam mirar outro jogador, estamos apertados, doutor, não podíamos correr o risco de perder alguém pras próximas temporadas. Eu tô no meu último ano aqui, então não faria diferença pra mim. 

Me aproximei e belisquei um espaço “em branco” do braço dele. 

- Tinham olheiros, Erik, você podia perder uma bolsa na faculdade ou algo assim. E você tem, óbvio, que priorizar seu bem estar, qual é? Você não eh o highlander. Isso poderia ter terminado muito mal. 

Erik revirou os olhos e encarou o médico. 

- Meu namorado é extremamente protetor, ele disse que ia sair atropelando todo mundo que se metesse comigo, eu não queria preocupa-lo, se eu saísse de campo ele poderia achar que eu tinha me machucado gravemente, e eu temi pela segurança daqueles que me feriram. Já imaginou se meu namorado sai atropelando todo mundo e o jogo é interrompido? Depois que já estava praticamente ganho? Eu não poderia deixar isso acontecer. 

Eu respondi alto 

- Você é um babaca, Erik. 

Apesar das palavras eu ria. O médico me encarou 

- Charlie, você pode leva-lo pra casa? Vocês tem carro? Tô pensando em acompanhar vocês pela saída de trás, se alguém vê-lo podem convencê-lo a sair pra comemorar e ele precisa ficar em observação, ele sofreu uma concussão forte, e apesar de parecer bem, se resguardar não fará mal. 

- Posso sim, vou leva-lo pra minha casa, e cuidar dele, pode ficar tranquilo. 

Erik suspirou 

- Tenho sorte, doutor, não tenho? 

O médico riu olhando entre nós dois. 

- Tem muita, Erik, mas não se coloque nessa situação de novo, sorte pode não ser o suficiente pra te manter a salvo

O médico foi apoiando Erik até o carro, mas ele parecia confiante, assim que ele entrou no carro, deitou o banco e virou pro lado do vidro ficando de costas pra mim. 

Acariciei seus cabelos. 

- Você tá bem? 

Então ele virou na minha direção, e esfregou a cabeça na minha mão pedindo mais carinho. 

- Tô exausto, mas tô bem. Agora vamos falar de você? Meu Deus você tá muito gato nessa roupa. Eu não sei como, porque eu tô detonado, mas eu espero muito que me sobre um pouco de energia pra gente dar uns pegas. Porque eu simplesmente não posso perder a oportunidade enquanto todo sua apresentação ainda tá fresca na minha memória. 

Eu corei, porque simplesmente já tinha esquecido tudo aquilo, então fui pego totalmente despreparado. 

- Eu posso usar de novo, eu comprei o uniforme. 

Eu não sei porque disse aquilo. Eu tava nervoso e fui pego de surpresa, eu não quis dizer que tava ansioso por dar uns pegas naquela roupa. 

Erik sorriu pra mim enquanto seus olhos fechavam e ele respondia já bem sonolento. 

- Bom, muito bom, não vejo a hora de ter uma dança só pra mim…

Deixei ele dormir enquanto voltávamos pra casa, o silêncio no carro me incomodou um pouco, eu tava ansioso e não preencher o silêncio me fazia sentir num filme de terror momentos antes de um jumpscare. 

Eu odiava aquilo mas me mantive firme e não fiz nenhum barulho, eu queria que pelo menos Erik se sentisse seguro naquele momento. 

Aqueles poucos minutos do trajeto já tinham feito seu trabalho e deixado as marcas e ferimentos de Erik ainda mais inchados e roxos.

Deixei ele dormir mais um pouco dentro do carro enquanto fui até meu banheiro e enchi a banheira, deixei um clima bem tranquilo, então voltei pra buscá-lo. 

Abri a porta do passageiro e toquei levemente seu braço. 

- Amor, chegamos. 

Ele abriu os olhos inchados, então virou pro outro lado como uma criança que se recusa levantar pra aula. 

- Não, quero mais 5 minutos. 

Dei de ombros sorrindo. 

- A escolha eh sua, 5 minutos sozinho, deitado no banco duro do carro, ou o tempo que você quiser recebendo uma massagem nas costas enquanto você relaxa e ate cochila numa banheira com agua quentinha e um monte de sais de banho. 

Aquilo era mais efetivo do que seu eu tivesse socado a mão na buzina. 

Apesar da vontade e de tentar não deixar isso tão claro, Erik devia estar sentindo muita dor, ele andava puxando a perna, e parecia bem zonzo. 

- O médico disse que tudo bem você dormir, depois das concussões? 

- Não lembro dele ter dito nada sobre isso. 

Ele entrou no banheiro e eu estava logo atrás, não sei se ele percebeu, mas começou a tirar a roupa com dificuldade, pensei em sair e dar privacidade, mas ele desmoronou sentando no vaso, seu rosto estava levemente vermelho pelo esforço e ele parecia exausto demais pra sequer tirar a camiseta. 

Me aproximei com calma ficando de frente pra ele. 

- Eu te ajudo. 

Obviamente eu poderia me sentir desconfortável, mas eu já tinha visto e tocado praticamente tudo nele, além disso não tinha um clima diferente de compaixão e preocupação. Erik era meu namorado, o cara que eu amava, com quem me sentia confortável, quem me fazia rir, que me ouvia nas madrugadas de insônia, ou segurava minha mão nas crises de pânico. Era o cara me apoiava quando eu vomitava de nervoso. 

Erik me amava e era amado por mim, e me partia o coração vê-lo todo arrebentado como um saco de batata caído do caminhão e chutado estrada abaixo. 

Suspirei enquanto alcançava a barra da sua camiseta. 

- Charlie, parece pior do que realmente é. Eu vou ficar bem em alguns dias. 

Bom, nessa altura da história, todos já sabem que eu, senhor Xavier, sou totalmente dramático. Então, não haveria outra reação que não abraçá-lo enquanto começava a chorar. 

- Desculpa, Erik, eu deveria estar te consolando, é só que… eu odeio te ver com dor. 

Ele afagou minhas costas com dificuldade, correspondendo prontamente meu abraço. 

- Meu bem, nós ganhamos, eu tô bem. Amassado como se um rolo compressor tivesse passado em mim, mas feliz. Me sinto pleno, Charlie. Meu namorado entrou dançando como cheerleader, eu joguei um jogo inteiro, sem ser expulso, sem brigar, mesmo quando eles me usaram de saco de pancada no final. Nós ainda vencemos a partida, foi tudo perfeito, não trocaria nenhuma parte dolorida do meu corpo pra mudar qualquer coisa sobre o dia de hoje. 

Me afastei dele e voltei a ajudá-lo tirar a camiseta. Passamos alguns segundos em silêncio enquanto eu ia tirando os tênis e as calças, então ele voltou a falar baixinho, cansado. 

- Eu tô muito feliz, eu nunca imaginei que pudesse ter alguém pra cuidar de mim, numa hora como essa. 

Puxei ele na minha direção e beijei sua testa. 

- Vou cuidar de você em todas as horas. 

Então apoiado na minha cadeira ele levantou e caminhou até a banheira, entrando nela. 

- Charlie, quer entrar comigo? 

Chacoalhei a cabeça negativamente. 

- Hoje é seu dia, quero que você fique totalmente confortável aí dentro. 

Ele me encarou por muito segundos, falou um tanto balbuciante 

- Eu to me sentindo estranho, é que… 

Então ele começou a chorar, sem terminar a frase, fiquei confuso, me forcei ao máximo e consegui abraçá-lo rodeando seus ombros. Ele continuou falando enquanto chorava. 

- Eu…só tô… feliz, eu não sei! E cansado…definitivamente. 

Peguei um pouco de água e joguei no seu rosto delicadamente pra limpar as lágrimas, elas não combinavam com ele, mesmo que o rosto já tivesse inúmeras marcas que eu não quisesse ali. 

- Qual é, Erik? Que susto! 

Mas eu ri em seguida pra aliviar o clima, e continuei tentando acolhê-lo. 

- Erik, apesar da preocupação, eu tô tão orgulhoso de você! Quer dizer, você foi incrível, você jogou tão bem, e você tava muito, muito gato, eu queria entrar lá e te dar um beijão. 

- Um beijão cairia bem agora! Muito bem, aliás. 

Sorri pra ele, e deixei nossas bocas se encostarem, eu tinha um sentimento tão intenso, que me sentia afobado, mas me freei porque não queria que ele sentisse qualquer dor, era só tudo muito calmo e turbulento, um sentimento contraditório. 

Parecia uma paz assustadoramente silenciosa. 

Eu pensei sobre aquilo, eu e Erik estávamos muito fechados em nosso mundinho, Erik parecia ter muitos amigos mas no final eram apenas colegas, eu tinha Scott e mais alguns poucos amigos, eu não tinha contato próximo  com meus tios, e Erik se sentia muito isolado de sua família, mesmo que sua mãe falasse com ele horas a fio todo dia. 

Então aquela semana e toda aquela preparação tinha sido exaustiva mentalmente pra gente.

Então quando senti o salgado das lágrimas se misturarem ao beijo, eu não fazia ideia de quem eram, mas entendi que aquilo fazia sentido e que tava tudo bem. Nós iríamos compartilhar todo tipo de beijo, mesmo os mais doloridos ou cansados, mas aquilo também significava que estávamos dispostos a dividir mais que beijos, também estávamos dispostos a dividir lágrimas, cansaço ou o que quer que enfrentássemos. 

Eu perdi o ritmo do beijo porque comecei a rir, mesmo sob o olhar julgador de Erik. 

- Qual eh, Erik, pelo menos não vomitei, né? 


Notas Finais


Continuam fofos, nenês


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