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História Don’t touch me - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oi meus amores, como estão? <br /><br />Desta vez eu vim lhes trazer uma fanfic com uma temática intensa: haphephobia (medo de tocar ou ser tocado). A mesma foi escrita em parceria com Isa Santos. <br /><br />Espero que gostem!

Capítulo 1 - Não me toque


O céu estava parcialmente acinzentado, mesmo para um fim de tarde. Não parecia que iria chover, mesmo com algumas nuvens pesadas estampando o pouco de azul que ainda restava no céu. O vento que entrava pela pequena fresta de sua janela mal coberta pela cortina, era gelado e fazia com que seu corpo se arrepiasse, mesmo embaixo do terno escuro e bem alinhado que estava trajado. 

 

Já era final de semana - porque parecia que ela havia passado tão rápido - não entendia como perdia a perspectiva de tempo quando estava focado em algo. 

 

A pequena sala estava perfeitamente limpa, uma das vantagens de se trabalhar sozinho - em especial naquele departamento - o que era um alívio indescritível. O ambiente era claro, com alguma decoração delicada, em cinza. Tudo milimetricamente planejado. O grande sofá que ocupava a maior parte de seu escritório, sempre estava acompanhado de três almofadas douradas.   

 

Sob sua base, o grandioso tapete felpudo branco, impecavelmente limpo. Nas paredes havia quadros: obras de arte e música. Uma mistura que muito o encantava. A iluminação era de led, o que o proporciona a escolha de tons, de acordo com seu humor diário. Tudo em seu devido lugar. 

 

Seus dedos longos pareciam machucados demais sobre aquela pilha de papéis organizados em cima da mesa de madeira maciça. Era - possivelmente - a trigésima vez que limpava as mãos com o álcool em gel. Quem visse de fora poderia dizer facilmente que era algum hábito fresco ou uma mania boba, mas na realidade ia muito além disso. 

 

Pouco depois, um barulho delicado ressoou da porta de madeira larga que o separava dos demais departamentos da empresa. 

 

– Senhor Yoongi, sua reunião foi adiada para a semana que vem, como foi solicitado. – A jovem de cabelos loiros comunicou assim que lhe foi concedida a permissão para entrar na sala. 

 

– Ótimo! – Respondeu brevemente ao olhar a mulher que ainda permanecia parada de pé ao lado da soleira da porta. Como tudo ali, ela também trajava o melhor uniforme, na cor pérola feito em seda. – Você pode ir agora. 

 

Sua relação com os demais funcionários era restrita: se precisavam se comunicar, isso era feito com o básico do básico. Não gostava de perder tempo e nem gastar vocabulário para assuntos sem futuro algum. Estava ali pra trabalhar e meramente para isso, amizades ou quaisquer outros relacionamentos pessoais estavam fora de questão no momento. Não trabalhava com amizades, era sempre tudo muito bem separado. 

 

Levar o título de um dos produtores musicais mais conhecidos, trazia consigo também o título de maior peso nos ombros. Era impossível não ser comparado ou cobrado por míseros deslizes, era praticamente inadmissível erros ou teorias falhas. Em qualquer situação que fosse. Mas isso também o trazia aos diversos títulos de nobreza sobre sua área. O que lhe garantia uma maior opção de interessados. 

 

Felizmente, após descartar toda a documentação de uma banda falha, poderia descansar. Durante todo o dia, descartava no mínimo 10 bandas. 

 

As pessoas tinham mania de se acharem cantores e/ou talentosos, quando nem sempre possuíam tal dom. Yoongi apenas expunha isso, de forma clara e direta. Rodeios eram desnecessários. 

 

Tudo parecia tranquilo, ao menos era assim que pensava, até ouvir seu aparelho celular tocar de forma estridente sobre a mesa. O objeto vibrava e tocava ansioso, movendo e bagunçando os papéis antes alinhados. Encarou a tela iluminada do aparelho, torcendo o nariz quando o nome estampado lhe veio à mente. 

 

– Droga! – Resmungou antes de pegar um lenço de papel de um dos bolsos do terno, para passar sobre o aparelho celular e só então finalmente atendê-lo. A desinfecção era sempre necessária. 

 

– Eu não vou te emprestar dinheiro, Namjoon! – Foi logo soltando para quebrar qualquer pequena possibilidade de ouvir o mais velho começar com mais uma de suas histórias mirabolantes e fajutas. Era sempre assim, além disso, nunca sequer recebia de volta. Era como uma doação por obrigação. 

 

– Poxa, Yoongi, também senti sua falta, cara. – O mais velho deixou escapar ironicamente antes de continuar mais sério. – Até parece que eu te ligo só para pedir dinheiro. 

 

– E você liga para alguma coisa que não seja beneficiar a si próprio? – Deixou um risinho irônico escapar de seus lábios minimamente separados. Já conhecia a peça e dificilmente cairia em sua conversa fiada. – Mas então diga, porque ligou?

 

Namjoon era uma das poucas pessoas que conseguiria chamar de amigo. Aliás, ele era o único. Talvez tivesse mais alguns poucos, mas nenhum que se igualasse ao velho de “covinhas”. Engraçado como uma borracha pode aproximar as pessoas, ele só quis uma borracha no fundamental e agora era um estúpido que se importava consigo mais do que deveria. 

 

– Você precisa sair! Eu estou falando sério, Yoongi. Faz anos que você não sai da rotina. É sempre casa, trabalho e trabalho, casa. – O outro pareceu soltar um riso anasalado. – Hoje você pode se preparar para rebolar essa raba, que nós vamos sair para beber, ouvir um pouco de música ruim e conversar. Amigos conversam, sabia? 

 

Ele mencionou o quão forte apertou o telefone nesse momento? Foi preciso muita concentração para não arrancar um olho de Namjoon pela linha telefônica mesmo. 

 

– Você é idiota por acaso? Sabe que eu odeio lugares assim! – Relembrou o outro de maneira grosseira, ele estava cansado de saber de sua dificuldade com lugares lotados. Sua dificuldade com pessoas e ambientes. 

 

– Isso não é saudável, Yoongi, não pode parar sua vida por isso! Já pensou em terapia? Ouvi falar que ajuda muito. – Houve uma longa pausa do outro lado da linha, só conseguia ouvir a respiração pesada de seu amigo contra o telefone. Provavelmente preocupado.

 

– Odeio você! – Era a sua maneira de falar que estava tudo bem. Que finalmente havia se rendido. 

 

– Ah, valeu mesmo, Yoongi! Vai ser a noitada dos garotos, no bar de sempre. Consegue ir sozinho? – Às vezes, Namjoon se esquecia que não era mais aquela criança estúpida e dizia coisas realmente desnecessárias, tanto que não resistiu em revirar os olhos para sua imbecilidade ao que bufou contra o aparelho.

 

– Não. Eu sou um idiota que não sabe achar endereços. Não percebeu que eu babo a todo momento? – Bufou algumas vezes. – Se me deixar sozinho naquele maldito bar, eu juro que arranco isso que você chama de bolas! 

 

A gargalhada que obteve em resposta do outro, não lhe passava a mínima confiança. Ele era uma criança crescida, literalmente. 

 

– Você? Cortando minhas bolas? – Mais uma gargalhada exagerada foi ouvida do outro lado. – Ah tá que você iria encostar nelas! Você poderia se apaixonar. 

 

– Existe algo que se chama facão e que alcança longas distâncias, não se esqueça disso! – Fez questão de deixar clara sua pequena “ameaça”. Era óbvio que não faria algo do tipo, muito menos quando isso implicava em seu próprio estilo de vida e nas condições em que se encontrava. 

 

Nada como um dia após o outro para se sentir ainda pior. Guardou o aparelho celular no bolso e mais uma vez usou do álcool em gel nas mãos. Sua pele ardia avermelhada por esfregar tanto, mas isso já não o incomodava mais. 

 

O turno de trabalho daquele dia havia acabado e após aquele convite/obrigação seria impossível não ir ao maldito bar, não queria ter o outro gritando na porta de sua casa como da última vez. 

 

A velhinha do andar debaixo ainda o olhava com sangue nos olhos por terem acordado ela com um showzinho de puro escândalo. Uma visão do inferno se for analisar o look pijamas de bolinha, máscara facial preta, pepino nos olhos, bobs nos cabelos e pantufas, nada sexy, pensou convicto. 

 

[...]

 

– EU MANDEI SAIR DA MINHA FRENTE, SEU BABACA! – O grito estrondoso do guitarrista loiro quebrou o encanto da calorosa noite. – Você não é o único mauricinho que consegue cantar algumas notas. Não precisamos de você! – Sua voz continuava a cortar o ambiente. 

 

– Vocês precisam de mim, só não se tocaram ainda. – Cuspiu as palavras rudemente. – Vai ser tarde para vocês, babacas! 

 

Por muito pouco não teve o instrumento quebrado sobre sua cabeça. Ele estava enfurecido, o sangue chegava em sua veia e parava, deixando-a alta e visível sobre a testa clara. 

 

Trincou os dentes inconformado e deu de ombros. O silêncio muitas vezes era sua melhor resposta. Estava farto. Era sempre a mesma coisa. Um dia estava bem, sendo elogiado e bem apontado, quando no outro, simplesmente era um traste que não valia de nada. Por anos havia sendo assim. Desde que se recordava. Jogou a pequena mochila nas costas e uma vez mais, seguiu seu solitário caminho. 

 

Jimin não era a pessoa mais fácil de lidar. Apesar do rosto angelical, sua personalidade era atrevida, teimosa e irônica. A mesma personalidade que arrancava muitos do sério. 

 

Era inegável o quão boa era sua voz e o quão bem ele a utilizava, porém, ninguém o suportava por muito tempo. Ninguém.

 

Era como se vivesse com o rei na barriga. Todos eram ruins ao seu ver e ele, o senhor perfeito. O inestimável e inigualável rei do som. O maior e melhor deles. 

 

A carreira musical entrou em sua vida muito cedo. Desde pequeno acompanhou o pai, que tocava piano durante suas tardes sem colégio. Sua família sempre esteve no meio musical, era como um carma bom. 

 

Sua mãe também era musicista e por isso, desde o ventre, esteve sob bons sons. Isso refletiu diretamente em sua personalidade e carreira escolhida. Cantarolava músicas a todo momento. Era sua arte, sua essência. Era quem queria ser e quem era. Não existia algo que falasse melhor de si do que a canção, as suas letras eram sempre melódicas, sempre profundas. 

 

Porém, havia um problema. Já tinha passado por tantas bandas que havia perdido as contas. Sempre resultava em problema, divergência de opiniões e tretas, muitas. 

 

Não era como se ele fosse exatamente o problema, a questão principal era ser o centro das atenções e isso, com certeza ele era. Em qualquer lugar que fosse, chamava atenção, não só por sua voz estupenda ou sua magnitude perante os holofotes, mas também, por sua aparência estonteante. Jimin era um rapaz bonito, galanteador e galinha. A cada semana, um novo flerte, uma nova conquista. Talvez parte do alvoroço de sua presença fosse isso, inveja. 

 

Normalmente se zangaria pela dispensa, mas estava farto. Música poderia fazer parte de sua essência, mas não parecia ser seu destino. Os tropeços vinham sendo cada vez maiores, por mais que não pretendesse desistir. E não desistiria.

 

Soltou um longo suspiro ao que se jogou junto ao banco de madeira da pequena pracinha. A iluminação era singela, mas o lugar era bonito ainda assim. Haviam flores e árvores altas que eram moldadas por arbustos pequenos e bem podados, uma graça. Encarou os próprios pés que se balançavam inquietos sobre a grama e uma vez mais suspirou. 

 

– Merda! Achei que dessa vez fosse para frente. – Resmungou ao espalmar as mãos sobre as coxas fartas, cobertas pelo couro fake da calça justa. Não fazia sentido, tudo parecia fora de controle. Seus sonhos, planos, só se distanciaram. 

 

Bagunçou os cabelos ao que esfregou-os desengonçado e grunhiu. – Esqueça isso Jimin, você precisa espairecer. – Concordou consigo ao balançar a cabeça. – É isso, hora de encher a cara, pegar algumas gatinhas e quem sabe… se enfiar em outra banda sem futuro. 

 

O riso anasalado, era irônico. Tinha ciência da sua realidade, assim como, sobre suas fraquezas. Sem demora, ergueu-se dali até seu carro, estacionado a poucos metros de onde estava. 

 

O conversível usado era seu xodó, uma de suas conquistas mais recentes. Jogou a velha mochila no banco traseiro e arrancou dali, rumo a um dos bares mais badalados da cidade. Estava pronto para o bote. E desta vez, não sairia por baixo. 

 

[...]

 

Demorou horrores para encontrar uma vaga no estacionamento. A noite parecia ser proveitosa, o lugar estava lotado. Já do lado de fora, era possível ouvir o som, grave e abafado pelas paredes anti ruído. 

 

O ambiente era confortável, o fazia bem. Precisou apenas de um segundo para ajeitar os fios ao balançar a cabeça de um lado para o outro, estava pronto para a noitada. Entrar ali nunca o aliviou tanto. Seu humor já parecia outro, até havia se esquecido da antiga banda problemática. 

 

– Hey, Hoseok! Quanto tempo. – Cumprimentou o amigo que coincidentemente, esbarrou-se na entrada. Hoseok já havia participado de uma banda consigo e apesar dos desentendimentos, preferiu abandonar a carreira à perder sua amizade. Era um cara de ouro. 

 

– Baby - J, quanto tempo! – Ele murmurou ao avançar com um abraço camarada, com direito a tapinhas nas costas. – Achei que estaria tocando no Pub está noite, não me diga que… 

 

Negou rapidamente com a cabeça, enquanto levou à destra sobre os lábios do amigo. – Digamos que eu tenha… abandonado. – Ergueu uma das sobrancelhas, desconfiado da veracidade das próprias palavras. 

 

O garoto moreno por outro lado, encarou-o boquiaberto. O silêncio momentâneo durou apenas segundos. A gargalhada exagerada e nada discreta o fazendo estremecer até os pés. – Você é um cretino, Jimin. Vem, vamos beber alguma coisa. 

 

Deu de ombros. Hoseok o conhecia bem demais para saber de sua lábia farsa. Deixou-se guiar atrás do amigo, fazendo questão de analisar o ambiente que adentrava. As paredes escuras faziam um contraste escandaloso com o teto bem iluminado. As luzes davam vida ao ambiente agitado. Os bares, bem localizados nos cantos do lugar, facilitaram os seus consumidores. Até o piso espelhado lhe admirava. Realmente o seu lugar favorito. 

 

As pessoas ali conseguiam ser quem eram, dançavam, bebiam, riam, se pegavam e principalmente curtiam. Não havia julgamentos. Até mesmo o palco era aberto aos performáticos, sendo eles bons ou não. 

 

Foi atravessando até um dos bares que o viu pela primeira vez. Não era comum ter a atenção roubada com tamanha facilidade, ainda mais por um cara. Não era comum que ele vestisse um terno naquele lugar. 

 

O homem bem alinhado e de fios claros parecia assustado. Seu olhar não transmitia a sensação boa que deveria naquele lugar. Eles era profundos e arregalados, até mesmo seus lábios separados em um singelo “o”, denunciava sua situação. Ele parecia perdido, talvez. 

 

Inclinou o rosto discretamente, o suficiente para alcançar mais uma vez suas feições. Não era o tipo de rapaz que frequentava bares, com certeza. Talvez fosse um CEO, ou algo parecido. Talvez o dono da própria boate. Mas qual o motivo de sua feição horrorizada? 

 

Seus traços delicados não combinavam com o vazio de seus olhos. Àquela altura já havia perdido Hoseok de vista, graças à multidão. Foram necessários dois piscares para que atingisse o ápice de sua noite. 

 

Aquele mesmo rapaz, o de terno que havia chamado sua atenção, parecia dificultoso. Estaria sozinho? Ele olhava de um lado para o outro, como se procurasse alguém, desesperadamente. 

 

Dois segundos, esse foi o tempo exato que seus olhos se cruzaram para que eles finalmente se fechassem. A suavidade com que suas pálpebras se fecharam escondendo as orbes acastanhadas, era a mesma que fazia suas pernas cederem. Três passos e o peso de seu corpo foi por pouco acomodado junto ao seu. Segurou-o forte por baixo dos braços moles. Ele havia… desmaiado. 

 

Ninguém pareceu notar, ou fingiam não notar. Talvez esse homem só estivesse bêbado demais, cansado demais. 

 

– M-Merda. – Grunhiu ao que tomou controle dos próprios pensamentos. Os instantes iam passando e o loiro amolecido em seus braços não acordava. – Saia da frente, imbecil. – Retrucou a um cara qualquer. Precisava tirá-lo dali, rápido. Apoiou um de seus braços frágeis junto ao seu ombro enquanto o arrastava para fora. 

 

– Vamos lá, acorde. – Tentava inutilmente chamar sua atenção. Não poderia ser pior, de uma banda fracassada, agora estava em uma noite total fracassada e com um possível bêbado. 

 

Trincou os dentes enquanto tentava aguentar o seu peso. Ainda que fosse magro, ele não era tão leve. Não o suficiente para que fosse levado nos braços, até porque, sequer o conhecia. 

 

Enfurecido, seguiu o caminho até a porta de saída. O levaria a qualquer lugar que fosse, ou simplesmente o jogaria sobre a calçada. Qualquer coisa era melhor do que ser pisoteado dentro do bar. 

 

O ar fresco já tomava posse de seu corpo suado pelo esforço, o rapaz também pareceu notar. Seus resmungos inteligíveis, eram um sinal claro de sua consciência readquirida. 

 

– N-Namjoon… eu vou... matar você. – Falou tão baixo que a ameaça de nada lhe serviu. 

 

Riu incrédulo de sua situação. – Eu não sou esse tal Namjoon. Vou te sentar na calçada. – Tentou guiar o menor, que, rapidamente recobriu a consciência ao empurrá-lo para longe.

 

O baque que teve sobre os ombros o desequilibrou, jogando-o contra a parede do bar, deixando suas costas ardidas. Seus olhos se arregalaram ao que encarou o loiro à sua frente. Seus lábios se separaram para lhe xingar, mas a cena seguinte o fez estático. 

 

Não sabia o quão ruim era a situação daquele cara, mas com toda a certeza, não era comum. Ele tremia, intensamente ao abraçar o próprio tronco. Parecia sentir dor, uma intensa e torturante dor. Seu corpo curvado para frente o deixava vulnerável. Ele mordia o lábio inferior, com tamanha força que era visível quando o pequeno filete de sangue escorreu pelo canto dos lábios. Ergueu uma das mãos em rendição, talvez não tivesse idéia do que ele estaria passando. 

 

– Olha, está tudo bem? Vem eu te… – Realmente estava preocupado, ao ponto de pensar em chamar por ajuda. 

 

Várias coisas lhe passaram pela cabeça: talvez ele tivesse tomado um grande fora, talvez tivesse ficado perdido por tempo demais, talvez estivesse drogado, talvez fosse extremamente tímido, ou, talvez só fosse louco mesmo. 

 

Suspirou cansado ao que se ergueu, para mais uma vez avançar junto ao rapaz. Era triste ver alguém sofrer daquela maneira, ainda mais sozinho. Seu rosto miúdo e delicado não combinava com a expressão daquele momento.  

 

– Meu nome é Jimin, Park Jimin. Você está se machucando, talvez devêssemos… procurar um médico. – Era uma droga que sua noite tivesse acabado daquela forma, mas pior do que passar por aquilo, seria apenas fingir não ver. – Seu nome é? 

 

– YOONGI! HEY! – Um garoto alto e aparentemente eufórico, gritou em suas direções. Mal teve tempo de reagir à sua ação espontânea. Instantaneamente recolheu a mão junto ao próprio corpo, antes mesmo que pudesse alcançá-lo. 

 

Talvez o cara que se aproximava fosse o tal Namjoon, aquele que ele havia chamado antes. Quando o loiro escutou o chamado, seu rosto se ergueu, como se tivesse recoberto a esperança. Estava sobrando diante da situação, perdido. Completamente. Como se tivesse se metido onde não devia. Era estranho e o intrigava. 

 

– Não… não me toque. – O loiro murmurou com dificuldade para si ao que os braços longos do outro rapaz lhe alcançaram. – Não toque! Namjoon, idio...ta. – Eles se encararam, o tal Namjoon ignorando completamente seu pedido acabando por segurar o rosto do garoto loiro de forma preocupada. 

 

Seus dedos apalparam a pele clara e checavam sua circulação, no pescoço, próximo a curvatura bonita. Eles pareciam íntimos. Sem demora o maior o tomou nos braços, parecia acostumado. 

 

O corpo esguio cedendo à força daquele que o erguia, ao aconchego daquele que lhe parecia familiar. Engoliu em seco com a cena, a respiração dificultosa. 

 

– Eu tomo conta dele daqui. Desculpe… – O rapaz murmurou com dificuldade. Engraçado como aquela cena parecia errada. Eles agiam de forma íntima, mas o garoto Yoongi não parecia satisfeito com o tal Namjoon, afinal, ele o havia dito que o mataria, certo?!

 

Ficou perdido em meio à sua própria confusão. Só teve tempo de visualizar as costas largas do garoto alto ao que colocou o loiro dentro de um carro, com cuidado. Mesmo desacordado, ele parecia lhe cuidar com carinho. Ele correu até o outro lado e acelerou, assim que fechou as portas do veículo escuro. 

 

– Mas que diabos foi isso?! – Questionou-se frustrado, os braços erguidos para o alto como quem suplica por uma explicação. – Você nem devia ter saído de casa Jimin. 

 

[...]

 

Estava perdido, com certeza Yoongi o mataria após o showzinho no bar. Quem iria imaginar que ele entraria sozinho naquele lugar. Das últimas vezes, ele o esperou do lado de fora, sempre o esperou. 

 

– Porque tão cheio? – Questionou-se ao apertar os dedos compridos junto ao couro do volante. Haviam vários motivos para que o amigo brigasse consigo naquela noite, com certeza teria de ouvir cada um deles jogado em sua cara. 

 

O pior não era nem lidar com o mau humor de Yoongi, o pior seria vê-lo lidar sozinho com a própria dor. Trincou os dentes ao se lembrar do rapaz que parecia tê-lo ajudado, sequer fazia idéia de onde estava se metendo. Quem sabe quantos mais… ou o que… Bufou, estava tão irritado consigo mesmo que, dificilmente se perdoaria. 

 

Encarou o loiro desacordado ao seu lado, o coração apertado. Da última vez que ele havia desmaiado daquela forma, precisou ficar em observação. Não o queria mais uma vez naquele lugar. Não mais. Yoongi odiaria acordar em uma cama de hospital. 

 

Por sorte o caminho havia sido rápido. O trânsito menos agitado pelo horário, favoreceu sua chegada até a casa do amigo desmaiado. Para ser amigo de Yoongi, Namjoon precisava conhecer e entender os seus dois lados. 

 

O lado irritado que parecia forte, mas que na verdade era seu lado gentil e mais amigável. Mas tinha também o seu outro lado, o vulnerável e completamente instável. 

 

Assim que estacionou o carro na garagem, desceu logo para ir atrás do amigo. Abriu com cuidado a porta do carro e desafivelar o cinto de segurança que o prendia junto ao banco. 

 

– Desculpe, Yoongi. – Murmurou antes de pegá-lo nos braços. Não poderia simplesmente deixá-lo ali. Por motivos de segurança, Namjoon possuía uma cópia da chave de sua casa, o que facilitou sua entrada. Atravessou a sala perfeitamente arrumada, rumo às escadas. – Você não era mais leve? – Resmungou ao ajeitá-lo nos braços. Devagar, foi subindo os degraus que o levariam até o quarto do rapaz. Abriu a porta - que estava destrancada - com os pés e seguiu até a cama. Colocou-o com cuidado sobre os lençóis e ajeitou o travesseiro sob sua cabeça. Ele parecia tão sereno, ao menos até que acordasse. 

 

– Talvez eu deva esperar até você acordar. – Olhou o quarto, fazia tempos que não adentrava aquele lugar. Yoongi ao invés de melhorar, sempre deixava sua situação ainda mais crítica. Afastando até mesmo seus amigos. Não ousaria fazer mais do que já havia feito. Poderia lhe tirar os sapatos, mas ele não o veria com bons olhos. 

 

Sentou no tapete felpudo, encostado na cama. Poderia cochilar até seu despertar e, assim o fez. Seus olhos em pouco tempo, foram perdendo o foco das coisas até se encherem de escuridão. Estava cansado, físico e mentalmente. 

 

[...] 

 

Não demorou para que Yoongi acordasse. Seus minutos de sono tranquilo haviam finalmente acabado. Não estava pronto para a enxurrada de esculacho que viria logo. Encolheu-se ao abraçar as próprias pernas, mas do contrário, Yoongi não brigou. 

 

Seu choro desesperado foi ouvido, era alto e intenso, ao ponto de fazê-lo soluçar. Entrou em pânico, tropeçou nos próprios pés ao se levantar às pressas, chegando a bater o braço na lateral da cama. – Merda. – Forçou seu corpo a se erguer. Levou os braços para frente e sacudiu as mãos euforicamente. – Yoongi! É… está tudo bem. Olha… calm… 

 

– CALMA? VOCÊ ESTÁ ME PEDINDO CALMA? NAMJOON SEU IDIOTA!!! EU TE ODEIO, SAIA DAQUI!  – Os gritos de Yoongi finalmente tomaram a vez. Ele estava assustado demais para racionalizar algo. 

 

Esfregava as mãos de maneira eufórica e seguiu fazendo o mesmo com os braços, tronco e rosto. – VOCÊ DISSE QUE ESTARIA LÁ. VOCÊ ME DEIXOU SOZINHO! 

 

Realmente era culpado disso, havia demorado mais que o esperado no trânsito. Deveria ter saído instantes antes, do que tê-lo deixado sozinho. – Eu errei. Eu sinto muito. De verdade… eu. – Ergueu as mãos para os próprios cabelos antes de avançar para o loiro. 

 

– NÃO SE ATREVA A ME TOCAR DE NOVO! NÃO TOQUE! NINGUÉM! EU… preciso… – Os olhos arregalados pareciam procurar por algo, algo que nem ele mesmo tinha conhecimento de onde estaria. 

 

– Eu não podia simplesmente deixá-lo lá com aquele garoto. – Anunciou lamentavelmente. Só após lhe dizer, foi que tomou consciência da própria burrada. Os ombros do loiro se encolheram e ele imediatamente estremeceu ao gritar mais algo. 

 

– VOCÊ JÁ HAVIA DEIXADO! ESPERA, O QUE??? GAROTO? EU COM CERTEZA VOU MATAR VOCÊ! – Havia sido tocado e não só por Namjoon. A idéia o fazia se sentir ainda mais sujo, ainda mais contaminado. Sua cabeça entrava em um parafuso torturante. Sua pele ardia, se coçava. Deveria se lembrar. 

 

Naquele momento em que sua mente girou, ele lembrou. O moreno de olhar penetrante, o mesmo que viu o sorriso desaparecer conforme sua mente se desligava em um apagão silencioso. 

 

Conseguia se lembrar do cheiro do seu perfume, um amadeirado másculo. Realmente bom. Balançou a cabeça de um lado para o outro, eufórico. Pegou a primeira coisa que viu na frente, seu travesseiro e o arremessou no amigo. – Você! Seu estúpido! Você é o que? Uma cabaça, só pode! 

 

Precisava de um banho, um longo e demorado banho. Era como se a sugeria tivesse se espalhado por todo seu corpo, aquela grande mancha negra parecia cobrir-lhe por inteiro. 

 

Enfiou a mão dentro da gaveta da sua mesa de cabeceira e retirou de lá seu álcool em gel. Antes que conseguisse abrir o pequeno potinho, ouviu seu telefone tocar. Não se lembrava de ter agendado algo, ou dado seu número para alguém. 

 

Seu momento de fúria e pânico, passou por breves segundos. Retirou seu lenço do bolso e pegou o aparelho, limpando-o antes de atender. Na tela, um número desconhecido. Viu que Namjoon só ergueu os ombros como quem também justificava não saber de nada. Respirou bem fundo, ainda tremia. A pele ardia. – Alô. 

 

A respiração do outro lado pareceu aliviada. – Yoongi, não é? – O tom imediatamente fluiu em sua cabeça, trazendo de volta lembranças de sua noite. Com certeza se lembraria do tom que lhe falava tão preocupado. Não conseguiu dizer nada. 

 

– Você deixou cair um cartão. Eu só queria saber se está bem, foi realmente uma noite confusa e… – O garoto do outro lado da linha parecia realmente sincero, mas diferente do que esperava, seu coração acelerou ao que não encontrou as próprias palavras. Ele não deveria saber seu número. 

 

Namjoon fez menção de atender, porém, não conseguia desgrudar os dedos do aparelho. Engoliu com dificuldade antes de se forçar a lhe responder. – Apenas finja que nada aconteceu. – Murmurou breve. 

 

O moreno do outro lado riu irônico. Com certeza seria uma cena difícil de se esquecer. Um cara estranho que desmaiava na baladinha, bem aleatório. Ninguém espera se encontrar com um cara tão problemático daquela forma, ainda mais um que fingia normalidade após tudo. – É isso, só esqueça. 

 

– E você acha que sou mesmo capaz de esquecer você? 




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