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História Dos Corações Jovens - Capítulo 29


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Capítulo 29 - Tiririmmm


O sinal tocou, hora de Ir embora. 

(Este capítulo continua o anterior, separei-os porque o barulho me assustou e centralizei a onomatopeia sem querer, portanto, por acidente, tornaram-se diferentes.)  

Sexta-feira, as aulas acabavam às 13h, a tarde eu tinha livre. “Ora, vou comer no comércio", pensei. Tinha ouvido colegas falarem de uma churrascaria, que não era um destaque dentre churrascarias, mas certamente uma proeminência dentre restaurantes do comércio. Ao chegar, suado e ofegante, desanimei-me com a lotação. O lugar, apesar de extenso, com uma área recentemente adicionada aos fundos e com suas mesas de tal modo espremidas a ponto de impedir o tráfego, não se encontrava uma única vazia. Por sorte, um casal acabava de se levantar, deixando duas cadeiras livres, uma das quais joguei minha bolsa em cima. Mais relaxado, pus-me a montar meu prato, um pouco de arroz, um pouco de batata frita (apenas o bastante para que alguma sobrasse no prato após a refeição), um não-sei-ao-certo-o-que mais ou menos enrolado de queijo e presunto, pareceu-me bom, a alface eu puxei por cima, cobrindo o resto das besteiras. Das carnes, não me lembro, nunca sei ao certo sobre carnes, escolho os nomes que me parecerem mais interessantes (o que não me foi sempre uma benção, todavia me apresentou à fraldinha e ao lagarto). O molho vermelho formando um lindo mar ao redor do continente de carnes e a alface, apesar de seu solo pouco fértil, formava uma linda floresta, uma Amazônia inteira. Tinha o Brasil inteiro de almoço. Um verdadeiro nacionalista se encontra pelo prato. Pedi uma latinha de guaraná, um dourado que, junto da batata frita, representasse os ouros da nossa terra. 

Sentei-me, feliz da vida, satisfeito antes de comer, até que um estudante, certamente da minha idade, com o uniforme do Meta, me chamou a atenção. 

-Perdão. Esse assento à sua frente deve ser o único lugar vazio daqui. Se importaria se eu me sentasse? 

Não quero parecer xenofóbico, nem etnocêntrico, mas sim, importar-me-ia. Minha educação, entretanto, ficaria ainda mais incomodada em recusar. 

-Sente-se, por favor. – Respondi. 

Ajeitou sua mochila no chão ao lado de onde botei a minha e foi fazer seu prato. A comida, ainda por cima, estava ótima, nenhuma desculpa eu tinha para ir embora. Que inconveniente. 

O intruso voltou, pôs seu prato na mesa e quase o esmurrei. Fui deveras irritante até aqui, contudo deixem-me descrevê-lo: o arroz formava um retângulo quase oval no prato com um espaço vazio no meio, onde havia molho vermelho. Tangenciando-se ao arroz, uma fileira de pedaços de carne completava a refeição. Que bastardo teria o saco de montar uma bandeira em seu prato durante o almoço?  Estava me provocando? Se exibindo? De qualquer modo, caso tivesse interpretado meu prato e dado uma resposta logo a seguir, não era qualquer um. Na sua outra mão uma garrafa d’agua. Ora, o garoto saúde livre de açúcares. Parabéns, tentando se provar o maioral, mas nem incluiu a salada. Não me faça perder meu tempo com seu tipinho.  

-Estava representando o Japão? Há, há, que criativo. - Eu disse, como bom esportista. 

-Não achei que fosse mesmo perceber. É que o seu prato... seria o Brasil, não é?  

Então era mesmo uma resposta direta. 

-Sagaz. Mas por que o Japão? Você não é japonês - questionei. 

-Por estarmos no mesmo restaurante e na mesma mesa, mas de lados opostos e sermos de escolas diferentes. A mesa seria o próprio planeta terra, o restaurante, a galáxia, já o sol, o quê? Talvez o sol que nos puxa seria o próprio churrasco, não concorda?  

-Concordo, só gostaria que o tal sol mantivesse minha carne quente por mais tempo. Prazer, James - estendi-lhe a mão. 

-O prazer é todo meu, chamo-me Conan. – Apertou minha mão. – Não me lembro de você na cidade, provavelmente lhe conheceria se morasse aqui por muito tempo. É novo? 

-Diria que sim, no entanto, diga-me, por que diz que já nos conheceríamos? 

-A cidade é pequena. 

-Ainda são cinquenta mil habitantes, é difícil que conheça todos por aqui, ou será que já estudou no Ângulo?  

-Não me leve a mal, é claro que eu não estudei no Anglo. O que quero dizer com a cidade ser pequena não é por haver poucas pessoas, mas por haver muitas, e são quase todas pessoas pequenas, as pessoas grandes eu conheço. 

-Não sou muito alto. No máximo uma estatura levemente acima da média, nada mais, o que não faz de mim alto. 

-Você sabe do que falo quando falo de altura. Vamos, os pequenos não têm paciência para os pratos que fazemos, os pequenos não têm tempo para sair da caixinha, muito menos o fogo para se tornarem grandes. 

-Está me dando créditos demais por um almoço, não se pode definir alguém por algo tão mundano. – Disse, percebendo minha própria hipocrisia. 

-É o melhor meio de julgar alguém. Como alguém traz do mundano a beleza. Aquele que faz do simplório o esplêndido apenas por ser inerentemente altivo  em demasia, é a elevação e o castigo de não ter nem a escolha de ser mera plebe. 

-Gosto de ser tão elogiado assim, ser colocado em um pedestal por nada é recompensador. Mas é por nada. Se fosse por pouco, ainda seria algo, porém nem por isso. Não vejo sentido algum. A proeminência que fala faz-me sentir como um rei absolutista devia se sentir, mas não sou rei, nem um mensageiro de deus. Por ora, sou só o que vê. 

-Que bom, pois vejo muito. 

-Não posso dizer o mesmo. 

-Sabe por que disse que jamais estudaria no Anglo? Veja a mesa novamente. – Sua comida nem havia sido tocada. – Quando nos pus como lados opostos do globo, era importante que outras diferenças fossem claras: você como Brasil e eu como Japão. O Japão, a disciplina e inegável superioridade minha e da minha escola em relação a você e a sua. Estamos na mesma moeda, apesar de mundos tão diferentes, é o mesmo mundo, apenas lhes falta muito. Da mesma forma tratei-lhe como igual, pois um acima da média dentre tão baixos é algo a se destacar. 

-Que honra a minha! 

-Entender-nos-emos um dia. 

-Pois bem, que seja! Prazer em conhecê-lo, Conan. Agora partirei. - Estendi-lhe a mão. 

-Vai cedo. – Apertou a minha. Nada se alterou em sua expressão. Seus olhos se firmavam nos meus.  

Saí, paguei e parti. Estava incomodado com a conversa, pensei que deveria estar, porém me sentia deleitado. Fui ofendido e elogiado, e concordei um tanto com ambos. A conversa desvirtuada amargara meu almoço, dando-lhe a característica mais importante do Brasil: um país belo de todo desperdiçado e amargurado. Conan corroborou politicamente à minha construção geográfica e poética. 

“Deleitado”. Se decidi ir é porque embora os debates fossem bons, eles também cansavam, estressavam, e juro que tinha boa vontade, o que me impedira fora a cabeça exausta de um jovem colegial. Nem me apeguei ao fato de que quando o toquei, nada mudou. Um estado psicológico incapaz de qualquer divisão, qualquer leitura de contos de fada e um total esquecimento do meu próprio nome inteiro. A cabeça de um terceiranista (e o corretor me recomendou terrorista, o que é quase sinônimo, considerando meu estado) perde suas funções básicas de se viver em sociedade. Ou estará estudando, ou estará vagando, ou estará triste, isso porque quase nunca estou estudando (que desperdício de trabalho seria). Quase me esqueço de comentar, mas não podem culpar meu cérebro aqui, a verdade é que nos momentos de maior exaustão, divagação e tristeza, sobrava-me um fator em comum. Esse fator era Paige. Era a única coisa a qual podia sempre me concentrar e me esforçava para não. 



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