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História Double Trouble TAEJIN - Capítulo 3


Escrita por: reasontaejin

Notas do Autor


oie oie
como eu já estava postando a fic no wattpad e já estava bem adiantada lá, resolvi deixar tudo igual, então vou postar os outros capítulos aqui também hehe
boa leitura <3

Capítulo 3 - Say it again


Não falar com Taehyung, não deixar Taehyung chegar perto... de fato, parecia um aviso muito claro, principalmente pelo tom de voz de Taeyong. Eu havia anotado aquelas advertências mentalmente com muito cuidado e atenção. Se ele estava me afirmando tudo isso, verdade tinha em algum ponto dessa história.

Além do mais, eu conhecia Taeyong, ele não tinha motivos para mentir para mim. Confiava nele, ao contrário de seu gêmeo, que já vinha com ameaças para mim, me intimidando naquela situação.

Depois do meu encontro diurno com Taeyong, ele seguiu para casa e eu, enfim, fui para o alojamento. Estava pensativo sobre tudo isso, sobre as coisas que Hoseok havia falado, sobre como aqueles dois tentavam fazer a caveira um do outro constantemente e se odiavam. Quer dizer, eu entendia que relações fraternais podiam ser bem fracas às vezes e alguns irmãos não conseguiam conviver — por exemplo, minha irmã e eu —, mas odiar... era bem forte.

Minha irmã mais velha já não morava com nossos pais nem mesmo quando eu decidi sair de Gwacheon para estudar em Busan, mas mesmo assim, mesmo que nosso contato fosse bastante limitado só às visitas de feriados que ela fazia, eu jamais poderia odiá-la. Não imaginava um motivo tão absurdo para que isso acontecesse e, para ser sincero, aquilo me deixava bastante assustado. Eu já vinha estando às escuras sobre a vida de Taeyong há muito tempo, não saber mais sobre isso também era muito ruim e me deixava doido.

Quando, por fim, cheguei ao meu quarto, abri a porta extremamente cansado e me arrastei para o interior, apenas jogando minha mochila num canto e caindo na cama. Além de toda a rotina de estudante, ainda estava lidando com essas coisas malucas e minha mente estava até bem pesada, só precisava descansar.

Já era noite e graças à minha perspicácia, eu sempre tive uma política de nunca pegar aulas às sextas, Hoseok também. Então no dia seguinte eu podia dormir tranquilamente, sem me preocupar em acordar cedo ou ter que andar pelo campus — e correr o risco de encontrar o gêmeo malvado por aí. Além do mais, no sábado a festa de Park Jimin seria uma bela maneira de relaxamento para me desprender um pouco dessas coisas doidas que vinham acontecendo.

Me permiti tirar um cochilo de quase três horas, o que não era exatamente o planejado, uma vez que meu cesto de roupa estava lotado e eu ainda precisava descer até a lavanderia do alojamento para dar conta disso — ou do contrário eu iria para a aula pelado na semana seguinte. Acordei tão grogue de um misto de sono e cansaço que cambaleei por todo o meu quarto, que por acaso estava só a penumbra. Além de tudo eu ainda estava com fome, ou seja, meu estado de espírito não era dos melhores, mas eu daria jeito disso.

Antes de descer com as roupas sujas, tratei de pegar a metade de um sanduíche no frigobar que eu tinha no quarto, coloquei roupas confortáveis e com o cesto em uma das mãos e o sanduíche na outra, finalmente fui cumprir aquela tarefa horrenda e que eu odiava.

O relógio já marcava quase 23h, o alojamento estava vazio nos corredores e um silêncio quase pacífico se fazia por onde eu passava, só meus pés se arrastando preenchiam o ambiente. Aquela era a melhor hora para se usar a lavanderia, na verdade, pois ninguém em sã consciência vai lavar roupa tão tarde, o que significava um ambiente vazio e sem disputa das secadoras.

Passei pela garagem do alojamento e finalmente cheguei até meu destino, empurrando a porta com o corpo. Como o esperado, lugar vazio. Terminei de comer meu sanduíche e então fui começar a tarefa mais irritante. Separei as roupas brancas das coloridas e então joguei as brancas primeiro na máquina. Eu tinha que esperar até tudo estar lavado e seco para voltar, então enquanto a máquina girava e fazia toda aquela orquestra de higienização, aproveitei para futricar as redes sociais no celular.

Como sempre, nada de interessante, a não ser Jimin divulgando sua festa a torto e a direito. O Park e eu éramos amigos, mas não como Hoseok, no entanto ele fazia parte do meu convívio quase sempre. De muitas coisas que eu sabia dele, a mais evidente era a que a família Park era podre de rica. Seus pais trabalhavam com algum ramo da moda ou algo assim, nunca fui muito a fundo e nem perguntei, mas o dinheiro era tanto que a humilde casa do Jimin era apenas uma puta mansão. Outra coisa sobre ele é que seu namorado, Jeon Jungkook — amigo meu também — era outro rico. Sinceramente, gente rica combina. O pai de Jungkook era CEO em alguma dessas empresas de entretenimento, então tinha uma boa conta de idols enchendo seu bolso o tempo todo.

Claro que a maioria dos alunos do campus estava disposta a ir se divertir no sábado, as festas de Jimin sempre rendiam muito e ainda se falava disso o mês inteiro. Hoseok e eu nunca faltávamos, era de lei — até porque se não fôssemos, Jimin nos buscava e nos arrastava. A única pessoa que eu nunca via nessas festas, por incrível que pareça, era Taeyong. Ele costumava ir nas que fazíamos no campus da universidade, mas as particulares, ele detestava. Sempre pensava que seria interessante se ele fosse, a casa de Jimin tinha tantos quartos disponíveis...

Fiquei divagando sobre isso com longos suspiros. Era verdade que Taeyong podia ser um pouco mais aberto comigo e que, talvez, tentar uma abordagem diferente para o que tínhamos também não podia ser descartada, mas a sua vontade era quase absoluta. Sigilo sempre. Ninguém além de Hoseok — e agora Taehyung — fazia ideia de que algum dia nós dois estivemos juntos. Não que devêssemos satisfações a ninguém, mas... bem, eu gostava dele, seria bom poder fazer coisas "normais" ao seu lado, como ir a um encontro, ou simplesmente encostar minha cabeça em seu ombro enquanto conversamos em qualquer banquinho do campus.

Mas eu respeitava a vontade dele, sabia que por trás de tanto mistério havia algum motivo forte e se ele nunca me dizia, era porque não estava pronto para dizer. Quem sabe um dia.

Eu estava de costas para a porta, debruçado sob uma das máquinas de lavar enquanto mexia no celular. Minhas pernas expostas pelo short — que por um acaso, estava levemente curto — estavam um pouco arrepiadas pelo frio e com o pé eu coçava a pele do meu calcanhar distraído com o som irritante de lavagem de roupa.

Mal me toquei quando alguém entrou na lavanderia. Só percebi quando ouvi sua voz. E ah... aquela voz.

— Eu disse que a gente ia se ver por aí, mas não esperava que fosse tão rápido.

Aquele tom grave, cheio de sugestão. Quanto mais eu rezava, mais a assombração se aproximava de mim.

Dei um pulo no lugar, me virando imediatamente em sua direção e dando de cara com o gêmeo malvado sorrindo de canto para mim, trajando roupas bem mais simples que as de cedo e um cesto de roupas debaixo do braço também.

— Você tá me seguindo?! — exclamei na defensiva, claramente irritado e um pouco assustado por ter sido pego de surpresa.

— Te seguindo? Eu te disse que eu moro aqui no alojamento. Quer dizer, eu moro no outro prédio, mas a lavanderia tava fechada e eu vim lavar minha roupa aqui. Só não esperava que você também morasse aqui — respondeu se aproximando e eu me esquivei para o mais longe possível.

"Seokjin, seu burro, ele disse mesmo que morava no alojamento" ralhei comigo mesmo em pensamento enquanto quase me fundia com a parede no intuito de ficar longe de Taehyung. No entanto, por mais que ele estivesse com aquela cara de quem não vale um centavo, não se aproximou. Taehyung, já com sua roupa devidamente separada no cesto — diferente de mim — apenas abriu uma das máquinas e começou a lavar suas roupas.

— Olha... você fica longe de mim. O Taeyong disse que você não é boa pessoa, além de não ligar pros sentimentos de ninguém — falei no meu cantinho, observando ele completamente calmo como se estivesse ouvindo alguém falar sobre o clima.

Taehyung soltou uma risadinha. Seus cabelos castanhos cobriam um pouco de seu rosto, deixando apenas o sorriso exposto e eu não sei o motivo, mas fiquei observando aquilo com atenção.

— Então você contou o que aconteceu?

— Claro que não! Eu só... só joguei verde e ele logo foi me dizendo. Se ele me alertou assim de cara é porque coisa boa você não deve ter feito!

Taehyung suspirou profundamente, colocou o sabão em pó no recipiente, fechou a máquina de lavar e se recostou cruzando os braços acima do peito. Devo confessar que, pelo fato dele ser exatamente idêntico a Taeyong, o desgraçado era bonito, mas não podia ficar olhando demais, afinal, ele era um e Taeyong outro.

— E o que mais ele disse? Chamou nossa mãe de insensível e egoísta também? Me chamou de ingrato? — indagou, mas não estava irritado, na verdade parecia achar graça de tudo aquilo.

Na verdade, Taeyong tinha falado exatamente aquelas coisas e isso me deixou assustado. Arregalei os olhos em meu lugar, não estava entendendo mais nada.

— Como você sabe que ele disse isso?

— Porque não é a primeira vez que ele tenta me sujar na vida, Seokjin. — Deu de ombros rindo — Ele fazia isso quando a gente era mais novo, ele faz isso quando eu venho passar férias na Coreia, faz sempre, nem tô surpreso. — Suspirou e aí sim começou a se aproximar em passos leves.

Eu já estava mais do que encolhido na parede, não tinha como me esquivar mais. Taehyung se aproximava com aquele rosto bonito exatamente igual do irmão, o sorriso ladino e retangular igual, os olhos da mesma cor, mas com alguma coisa muito diferente. Eu repito, confesso que ele era bonito por ser idêntico a Taeyong, mas dessa vez meu cérebro e meus olhos não entraram num acordo e eu não consegui não encará-lo fixamente.

Ele estava a centímetros de mim e eu já esperava que fosse tentar me agarrar ou algo do tipo, minha mente já vinha confabulando mil e uma formas diferentes de socar a cara dele, mas ele simplesmente estendeu seu braço — muito perto de mim, diga-se de passagem — e desviou o olhar de mim para algo que estava atrás.

— O que foi? Eu só tô pegando o amaciante na estante atrás de você — disse rindo do meu olhar quase desesperado. — Achou que eu fosse te agarrar, é?

"Sim, achei" pensei, mas só consegui fechar minha cara quando ele se afastou novamente para ir até sua máquina.

— Eu não acredito nesse seu papo furado. Taeyong é uma boa pessoa, se ele fala isso de você para as pessoas, deve ter motivo.

E mais uma vez a peste riu, mas balançou a cabeça negativamente.

— Me diz uma coisa, Seokjin... você e meu irmão... vocês ficam se encontrando nessas salas da faculdade o tempo todo ou vocês, sei lá, fazem coisas de gente normal? Tipo sair, ir na casa um do outro...

Ergui uma das sobrancelhas. A sua pergunta parecia ser muito mais do que uma mera curiosidade, mas sim a confirmação de alguma dúvida ou hipótese. E por que diabos ele queria saber disso?

— Não é da sua conta — respondi rápido.

— Hm, então vocês só se encontram escondidos — deduziu pela minha resposta. — É um tipo de relação bem estranha na verdade. Ele nunca mencionou um cara bonito igual você... se tivesse falado antes, talvez eu não tivesse ido na sua onda e nem te beijado, mas já que ele nunca falou pra ninguém da família...

Cerrei meus olhos enquanto o observava manter aquela maldita pose calma, fazendo as tarefas da lavanderia como quem batia papo com um vizinho. Não entendi onde ele queria chegar, o que ele queria falando aquelas coisas, mas meu sexto sentido — que geralmente nunca se manifestava para me mostrar quando eu era trouxa — me dizia que Taehyung sabia de muitas coisas.

— Nós escolhemos assim. É melhor sem ninguém dar pitaco na nossa vida — rebati.

— Vocês ou ele? — indagou rindo.

Mas que caralhos aquele garoto tanto sabia? Com certeza Tae nunca tinha falado nada a ele, se eles se odiavam, claro que não ia compartilhar nada sobre mim. Estranho, estranho demais.

— Isso não vem ao caso e eu não vou ficar mais te falando nada. Fica longe de mim.

Taehyung me fitou com a sobrancelha erguida. Tinha alguma coisa nos seus olhos, algo que eu não sei explicar direito, mas que me fazia encarar de volta com vontade. Também tinha alguma coisa naquele sorrisinho debochado que fazia meu cérebro dar três piruetas na cabeça, mas não de uma forma desagradável... enfim, tinha alguma coisa nele que me fazia ficar olhando demais e eu não estava gostando nada disso.

Outra vez ele se aproximou de mim e eu não movi um centímetro sequer, estava ocupado demais encarando ele — e eu esperava que não fosse com cara de bobo. Sua mão foi em direção aos meus lábios e com o polegar ele acariciou o local.

E por que diabos ao sentir aquele toque eu simplesmente fechei os olhos?

No instante que sentia sua pele em minha boca, passando devagar, meu corpo não quis reagir de forma agressiva e muito menos repelir Taehyung. Tudo o que aconteceu naquele momento foi a volta súbita das lembranças daquela manhã, onde eu o beijei enquanto achava que estava beijando Taeyong. Mas, com tudo aquilo, eu percebi que o beijo foi diferente, que havia coisas que os diferenciavam demais.

O beijo de Taehyung era bom, eu não seria hipócrita de dizer que não era. Mas eu estava e gostava de Taeyong, ponto final.

— Diz de novo pra eu ficar longe de você — sussurrou perto do meu rosto.

Eu deveria dizer. Taeyong me garantiu que ele era uma pessoa ruim e que não podia deixá-lo se aproximar. Precisava gritar para ele se afastar, para ele não me tocar. Mas quem disse que eu queria?

Não sei que tipo de conflito aconteceu na minha cabeça naquele momento, aquela sensação dormente percorrendo meu corpo, mas eu apenas não consegui dizer. E com isso, senti seu sorriso e seu hálito de hortelã em meu rosto, o que me causou um arrepio esquisito na espinha.

— O Taeyong quer que eu fique longe, mas nem você acredita nessas coisas que ele disse — sussurrou de novo. — Sinceramente, eu não tava afim de me meter com ninguém por enquanto, mas eu passei o dia inteiro pensando naquele beijo... Agora eu quero te mostrar quem presta e quem não presta. Com o tempo você vai decidir por si só.

Meu coração acelerou de um jeito estupidamente rápido enquanto a voz dele entrava pelos meus ouvidos igual veludo. Eu não sabia que tipo de magia tinha no seu toque ou em seus sussurros, mas eu estava mais mole que gelatina naquela hora.

Devagar ele se afastou de mim, confesso que senti falta do calor de seu polegar no meu lábio inferior, mas eu abri os olhos completamente atormentado.

Minha cabeça estava mais confusa e desregulada que o normal, um misto de ter gostado muito daquele momento com ainda dar razão a Taeyong, tudo conflitando dentro de mim e me fazendo colapsar.

Eu havia beijado Taehyung naquela manhã, mas não havia parado para pensar que aquele beijo tinha sido diferente e que eu tinha gostado tanto. O que diferia ele do irmão gêmeo ainda era uma incógnita, mas eu precisava admitir que o gêmeo do mal tinha um carisma, uma presença tão grande que era impossível não parar e prestar atenção.

Ele era atraente, mas era cafajeste. Talvez aquele fosse um dos seus joguinhos contra os sentimentos alheios e, caso fosse, eu estava caindo feito um patinho.

Quando eu finalmente recuperei um pouco da minha sanidade e da minha vergonha na cara, arregalei os olhos. Ele ainda estava próximo, mas não muito. Me olhava sorrindo, me fitava com um interesse que não parecia ser sexual, só me analisava e esperava uma atitude.

Bom, e ela veio. Eu ignorei minhas roupas na máquina e as outras no cesto, me esgueirei para longe dele apenas murmurando que eu tinha que ir. Saí rápido pela porta e minhas pernas me guiaram alojamento adentro numa rapidez descomunal.

Eu estava pirando, não havia outra explicação plausível. Em que momento do dia eu bati a minha cabeça com força para poder ter cogitado gostar daquilo? Quer dizer, Taeyong me garantiu que Taehyung só se aproximaria para brincar com meus sentimentos, igual ele fazia com todo mundo. Por que eu tinha gostado daquilo?

Subi para o meu quarto tão rápido que senti meus pulmões queimando pelo cansaço, fechei a porta com tanta força que devo ter acordado meus vizinhos do lado. Não, eu já tinha feito muito mal em ter beijado Taehyung naquela manhã, já me sentia culpado o bastante, não queria decepcionar Taeyong ainda mais. Se ele soubesse dessas coisas... por deus, ele ficaria tão chateado, tão decepcionado comigo. Eu o perderia, com certeza o perderia. Precisava me forçar, dar um jeito de não cair nessas provocações baixas do gêmeo malvado.

Me joguei na cama ainda atordoado e fiquei olhando para o teto com os pensamentos completamente bagunçados. O que tinha naquele cara? O que tinha de tão diferente? Ele era idêntico a Taeyong, mas ao mesmo tempo extremamente diferente, uma aura muito diferente.

Mesmo com toda confusão mental e meu desespero conflituoso com aquelas coisas, eu acabei caindo no sono de roupa e tudo. Dormir me livrou de ficar remoendo tudo e me sentindo ainda mais traidor do que eu já me sentia. Definitivamente eu não ia mais chegar perto daquele maluco — porque eu estava sentindo que era extremamente perigoso.

✧ » ◇ « ✧ » ✦ « ✧ » ◇ « ✧

Acordei assustado naquela manhã, tinha me esquecido que eu não tinha aula e que não estava atrasado. Com certeza meu cérebro ainda estava em completa pane e eu não funcionava direito.

Levantei já suspirando pesado e indo direto para o banheiro tomar um banho, mas quando dei falta do meu cesto de roupas, levei minha mão até meus cabelos e puxei de frustração. O que o sono tinha me feito esquecer voltou rapidinho.

Tomei um banho quente depois de checar o celular e ver que havia mensagens de Hoseok dizendo que iria para o alojamento. Geralmente a gente ficava a sexta-feira inteira no meu quarto comendo besteiras, falando da vida alheia e assistindo filmes bobos. Aqueles pequenos e singelos momentos com meu melhor amigo de infância eram realmente de teor curativo para a minha mente conturbada, eu apreciava muito a companhia de Hobi. Mesmo com tantas coisas do seu curso, mesmo dando uma força na clínica veterinária da família, ele ainda fazia questão de passar um tempinho comigo. Por deus, eu amava demais aquele filho da mãe.

Deixei as roupas sujas num cantinho do banheiro, coloquei outras limpas e decidi que antes de Hoseok chegar, eu voltaria na lavanderia para pegar meu cesto e as peças que deixei lá, provavelmente já mofadas dentro da máquina. Só que, para minha infeliz surpresa, quando cheguei ao local, além de minhas roupas terem sumido de dentro da máquina, meu cesto também virou fumaça. Beleza, além de fodido em todos os sentidos, alguém ainda tinha roubado as minhas roupas. Muito bem, Seokjin.

Voltei para meu quarto num misto de querer chorar, socar a parede e chutar um idoso, mas não fiz nada disso, apenas marchei frustrado e entrei, indo direto no frigobar pegar alguma coisa para comer. Não tinha cozinha no quarto do alojamento, os alunos residentes ali comiam no restaurante universitário da Pukyong, mas eu realmente não estava afim de ver gente, não com a cabeça tão cheia e desorganizada daquele jeito. Além do mais, Taehyung morava no alojamento também. Sair assim era um risco de encontrar com ele de novo e endoidar ainda mais.

Quando meu melhor amigo finalmente chegou, abri a porta e já fui recebido com um sorriso brilhante do Jung. Ele ainda não sabia de nada, mas alguma coisa o fez levar tudo o que eu precisava naquele momento: uma lasanha de frango congelada e Coca-Cola. Geralmente eu descontava todas as minhas frustrações em comidas gostosas — e funcionava.

— Ih, que cara de derrota é essa? — ele indagou assim que viu que, provavelmente, eu já tinha passado por mil perrengues de ontem para hoje.

— Quer a história completa ou a versão resumida dos fatos? — falei enquanto fechava a porta e ele, já bastante acomodado com meu quarto, foi guardando a comida no frigobar.

— Versão resumida, por favor. Você enrola muito com os detalhes e se perde no personagem às vezes.

Lhe fulminei com o olhar enquanto ele tirava os sapatos e se jogava na minha cama. Suspirei mais uma vez e me sentei em sua frente, observei bem aquele filho da mãe — e os cabelos platinados dele estavam um luxo de hidratados. Fechei os olhos brevemente e então joguei de uma vez.

— Bom, Taeyong abriu o jogo sobre o irmão gêmeo do mal e me disse pra não deixar ele chegar perto porque ele não presta, eu estava decidido a fazer isso, mas ontem fui lavar roupa de noite e ele também foi lavar a roupa dele na mesma hora. Ah, inclusive ele também mora no alojamento, mas no outro prédio. Eu falei pra ele ficar longe de mim, ele me disse que Taeyong sempre diz isso dele pras pessoas, mas óbvio que eu não acreditei, só que ele chegou perto de mim e eu entrei em pane porque gostei do jeito que ele me tocou, falou pra eu repetir que queria ele longe de mim, mas eu não consegui, depois eu saí correndo feito um doido deixando minhas coisas lá, me senti culpado por ter gostado daquela merda e pra finalizar, hoje fui buscar minhas coisas na lavanderia e alguém roubou minhas roupas. É isso. — Disparei feito uma metralhadora, falando rápido enquanto meu tom de voz estava completamente desesperado.

E como sempre, Hobi precisou de uns segundos para entender e digerir tudo. Mas também, como sempre, ele sorriu.

— Eu já disse que nem conheço esse gêmeo e já gosto demais dele?

— Hoseok! O cara não presta!

Ele riu alto e balançou a cabeça.

— Se o Taeyong está de um lado, eu automaticamente estou do outro, Jin. Se ele diz uma coisa, eu discordo completamente. Eu aposto que o irmão dele é uma pessoa maravilhosa e ele tá com medinho de você preferir o "gêmeo malvado" do que ele, porque aí ele perde o trouxa que ele enrola, né?

Fiz cara feia para Hoseok, ele ainda insistia em odiar Taeyong em todos os sentidos, dando sempre a justificativa de que ele me enrolava.

— Eu não sou trouxa e ele não me enrola, tá? Já cansei de dizer que ele tem os motivos dele pra gente ser assim.

— Aham, nem você acredita mais nisso.

Bufei e chutei Hoseok de leve, ganhando um chute de volta. Eu não era trouxa.

— Mas então quer dizer que você gostou do jeito que ele te tocou? Como foi? — indagou extremamente interessado.

Eu não queria lembrar, não queria pensar nisso nem por um minuto, mas já estava lembrando e aquela coisa esquisita já voltava ao meu corpo.

— Ele... tocou no meu lábio, isso me lembrou o beijo que eu dei nele — confessei baixinho, os olhos perdidos na lembrança. — O jeito dele é diferente, apesar da cara ser a mesma do Taeyong, tem alguma coisa no Taehyung que eu ainda não sei descrever exatamente. Talvez seja o jeito de se portar, a falta de vergonha na cara, o tom de voz ou o sorriso... não sei. Mas isso não vai acontecer de novo e eu não vou deixar esse diabo brincar comigo.

Hobi ouviu as palavras e analisou a situação por um momento. Ele sempre tentava buscar uma dedução para as coisas que eu dizia — e na maioria das vezes acertava, esse era o pior.

— Jin... o Taeyong é o maior inimigo da felicidade que existe, já o irmão dele parece se divertir, sorrir mais, pelo que você diz. A diferença entre os dois é que um te beija, te fode e te cozinha e o outro tá tentando conquistar você. Ele deve ter curtido muito esse beijão que você deu nele, hein?

— Hoseok! Ele tá tentando me fazer de otário, isso sim! Com certeza ele tá fazendo isso só pra irritar o Taeyong, mas não vai conseguir, eu não vou ceder. Ele pode ser bonito igual ao irmão, ter a mesma cara, mas ele não presta.

Hobi só se colocou a rir da minha cara, o que me deixou ainda mais bravo. Eu realmente precisava colocar na minha cabeça que eu só achava Taehyung atraente porque ele era exatamente idêntico a Taeyong e nada mais. Não tinha motivos para eu simplesmente cair nessa tentação quando os motivos eram tão simples e claros assim.

Depois de um longo lenga lenga sobre isso, eu comecei a sentir mais fome ainda e coloquei a lasanha no micro-ondas para descongelar. Hoseok ligou a TV em algum sitcom e nós ficamos assistindo enquanto ele me contava sobre os dois caras com quem iria se encontrar na festa de sábado. Min Yoongi era um estudante de psicologia que às vezes trombava com a gente no campus e já vinha demonstrando um certo interesse em Hobi, já Kim Namjoon era aluno do meu curso e meu colega de classe, gente boa também, e tinha me pedido o número de Hobi outro dia — e claro que eu dei sem hesitar. Pelo que eu conhecia do meu melhor amigo, no fim daquela festa ele acabaria num quarto com os dois, num senso comum entre os três de que "quanto mais, melhor".

Quando a comida ficou pronta, me levantei para ir pegar os pratos. Foi só eu dar as costas que meu celular vibrou em tom de mensagem, mas Hoseok pegou o aparelho imediatamente.

— Quem é? — perguntei de costas para si.

— Jimin, confirmando nossa presença amanhã — respondeu simplório.

— Diz pra ele que a gente vai.

Coloquei uma porção de lasanha para mim e outra para meu melhor amigo, lhe entreguei a comida e esqueci completamente do celular. Por deus, aquela lasanha estava divina e eu amava afundar meus problemas em comida.

Confesso que eu comeria mais se tivesse, mas no fim já estava com a barriga quase estufada de tanto comer. Deitei na cama ao lado de Hoseok e apreciei aquela sensação maravilhosa de satisfação pós almoço e suspirei. Se um dia tive problemas, não lembro.

— Eu amo comer, sério — murmurei preguiçoso olhando para o teto. — Valeu por ter trazido o almoço.

— Meu sexto sentido de melhor amigo me disse que você tava precisando — respondeu tão preguiçoso quanto eu, também satisfeito.

Eu poderia tirar um cochilo naquele momento, seria ótimo, no entanto, antes mesmo que eu fechasse meus olhos e pensasse nisso, escutei batidas leves na porta.

Geralmente eu não recebia visitas inesperadas no alojamento, só de Hoseok e às vezes Jimin e Jungkook, que deixavam suas mansões luxuosas para me visitar na minha humilde residência de universitário. Franzi o cenho, mas me levantei com dificuldade por conta do peso do corpo pós almoço e fui até a porta. Hoseok não moveu um músculo, mas quando o fitei de relance, ele estava rindo de algo.

Girei a maçaneta e abri a porta. Do outro lado, de pé, me olhando daquele maldito jeito e com um cesto de roupas — completamente limpas — estava o motivo de todos os meus surtos da noite anterior e da manhã. Sinceramente, eu não esperava nem por um segundo vê-lo ali com aquele sorriso cafajeste, mas lá estava.

— Você deixou suas roupas na lavanderia ontem. Eu terminei de lavar e trouxe pra você — a voz barítona soou, entrou em meu ouvido e imediatamente eu fiquei sem reação.

E naquele momento eu entendi do que Hobi estava rindo. Mensagem de Jimin coisa nenhuma, era Taehyung, provavelmente perguntando onde eu morava. E o maldito respondeu!

— M-mas... — Minha voz falhou pateticamente, meu cérebro voltou a dar pane e girar em 360º na minha cabeça. — Me dá isso aqui! — Ralhei pegando o cesto de suas mãos e tentando manter aquela pose de que não estava completamente biruta.

Ele riu da minha expressão e depois recostou-se no batente da minha porta. Estava com aquela jaqueta de couro preta, uma camiseta estampada por baixo e calças justas. Os cabelos castanhos estavam bagunçados e cobrindo uma parte de seus olhos. Foi naquele momento em que eu, sem querer, olhei demais e acabei reparando um detalhe que existia em Taehyung, mas não em Taeyong: uma pintinha singela no nariz.

— Se você não se importar, usei o mesmo amaciante que uso nas minhas. Quem sabe assim você se lembra do meu cheiro quando vestir suas roupas. — Deu de ombros.

— Você definitivamente tá me seguindo — foi tudo que eu consegui dizer ainda tentando manter aquela postura de bravo. — Não é pra vir no meu quarto mais, entendeu? E obrigado pelas roupas, apesar da culpa ter sido sua.

Ele sorriu para mim, que tinha um bico enorme nos lábios, ajeitou o cabelo do rosto e me fitou com interesse. Novamente, não parecia nada um olhar predatório ou algo do tipo, eu não sabia dizer ao certo o que tinha naqueles olhos, mas não parecia em nada com o olhar de quem simplesmente quer comer alguém e depois vazar.

— Não fiz nada de mais, você só saiu desesperado e largou tudo lá. Mas já tá entregue. Ah, e eu só vou vir aqui de novo se você me pedir... e eu sei que você vai.

Ele deu uma piscadela completamente desestabilizadora, sorriu uma última vez e deu as costas. Abri e fechei minha boca uma série de vezes sem conseguir nem rebater o que ele disse, apenas fiquei parado igual um tonto na porta, segurando minhas roupas e vendo a silhueta dele desaparecer pelo corredor. Sério, que tipo de mágica aquele gêmeo do mal fazia?

— Então... eu já disse que eu mal conheço o Taehyung e adoro ele?

"Eu vou matar o Hoseok."



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