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História Draco Dormiens (1 e 2 Temporada - Adaptada para Now United) - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Draco Sinister (S02) - Capítulo 3 - Visível Escuridão


Fanfic / Fanfiction Draco Dormiens (1 e 2 Temporada - Adaptada para Now United) - Capítulo 15 - Draco Sinister (S02) - Capítulo 3 - Visível Escuridão

- Almofadinhas! - chamou Remus sutilmente olhando para os borralhos de fogo na lareira de seu escritório – Você está aí? Pode me escutar?

Ele estava sentado a sua mesa, no escuro, com um cálice de vinho na mão, vazio. Ele não estava bebendo, ele não bebia muito, muito menos quando estava sozinho, mas ele gostava de sentir o cálice em sua mão, gostava de observar a luz da lua que passava pela janela através do vidro do cálice como um dardo de fogo. Ele colocou a taça sobre a mesa, se espreguiçou e pegou um peso de papel de cima da mesa. Sirius o havia dado a ele no ano anterior. Era um globo de vidro transparente, dentro do qual, reclinava-se a figura de uma pequena e bela ninfa de cabelos ruivos, sobre uma pedra em miniatura brincando com um oboé. (Como era um globo mágico, a neve caia toda hora, sem ser preciso balançá-lo) Lupin sempre achou que a ninfa lembrasse um pouco Lílian, embora nunca fosse dizer isso a Sirius.

A ninfa largou seu oboé e olhou para ele.

- Vá dormir, Remo. Está tarde.

- Estou esperando pelo Almofadinhas. - ele disse suavemente – Nós temos que conversar. - ele colocou o globo na mesa, levantou-se de e foi até a lareira onde fogo estava quase no fim. Encostou-se ao tijolo da lareira, fechando seus olhos – Sirius Black, onde você está agora?

- Estou aqui! - disse uma voz vinda de perto de seu cotovelo.

Lupin abriu seus olhos, virou-se, viu os ombros e a cabeça de Sirius no fogo, e sorriu.

- Perdão. - desculpou-se Sirius – Eu demorei um pouco para achar alguma casa de bruxos com uma lareira. Não há muitas lareiras nessa parte da Grécia. É muito quente.

- A Grécia parece te fazer bem. - disse Lupin

Era verdade: Sirius estava saudável, moreno e sorridente, e o olhar assombrado e lúgubre de Azkaban parecia ter quase desaparecido de seus olhos. Quase desaparecido... Lupin duvidava que esse olhar fosse desaparecer algum dia.

- Verdade. - concordou Sirius, focalizando Lupin com seus olhos negros – Você disse que queria conversar comigo sobre o Josh. Ele está bem?

- Josh está bem. - disse Lupin – Bem, ele está bem na medida do possível. Afinal de contas, ele tem dezesseis anos, acabou de descobrir ter um monte de poderes, e ainda não sabe como lidar com eles. Ele ainda está longe de seus amigos, e claro, a todo ano da vida dele, desde dos onze anos, alguém tentou matar ele. Eu acho que ele está se sentindo um pouco deprimido e ressentido.

- Ele não está longe de todos os seus amigos. - disse Sirius – Ele tem Noah.

- O garoto Urrea? - perguntou Lupin, surpreso - A mim, pareceu que eles se odeiam. Essa tarde agora, eu tive que apartar uma briga dos dois. Josh quase transformou Noah em pasta. Muito estranho da parte de Josh. O garoto Urrea nem ligou, disse que Josh estava chateado por ter rompido com sua namorada.

- O que? Com Any?

- Ah, então você já sabia? - perguntou Lupin, interessado.

- Josh não chegou a me contar. - respondeu Sirius, sorrindo – Me parece que seria mais fácil ele aguentar o Feitiço Cruciatus a me falar sobre sua vida amorosa. Mas... - Sirius deu de ombros – Eu adivinhei.

- Como?

- Intuição canina. - disse Sirius – E também devido ao fato de que, sempre que ele via Any, parecia que alguém o havia atingido com um Balaço. Tiago costumava olhar para Lílian desse jeito. É uma prova inconfundível.

Lupin estava sorrindo novamente.

- Eu lembro que quando você tinha dezesseis anos, você...

- Ah, não! - interrompeu Sirius firmemente – Não estamos falando de mim. Estamos falando de  JOSH.

- Na verdade, era sobre o garoto Urrea que eu queria te falar. - disse Lupin – Noah Draco Thomas Urrea. Nome horroroso, a propósito. Pobre garoto.

- Ao passo que "Remo" está ganhando popularidade. - falou Sirius.

Lupin sorriu.

- Agora você está falando como o Almofadinhas novamente. Você deve gostar do jovem Urrea. Perdão, Noah.

- Verdade. - disse Sirius – Ele não é como o pai. Ele parece comigo quando eu tinha a idade dele.

- Em outras palavras, ele é uma bomba-relógio mal-ajustada, teimoso que odeia o mundo e todos que vive nele?

- Não a todos. - disse Sirius, soando divertido – Agora me diga, Aluado. Por que me chamou? Ele está metido em confusão?

- Não sei. - respondeu Lupin, pensativo – Ou ele não está metido em confusão alguma ou então, ele está na pior que possamos imaginar.

- Aluado... - Sirius soou exasperado.

- Está bem. - Lupin pegou um livro de cima de sua mesa, apoiando-o em seus joelhos. Era o mesmo livro que Josh e Noah haviam visto em sua mesa no dia anterior, mas não havia jeito dele saber disso – Eu fico me perguntando se é mesmo uma boa idéia deixar aquele menino ficar com a espada de Magids.

- Eu não deixei ele ficar com ela. Foi uma decisão de Fuller.

- Acredito que ele tinha seus motivos. - disse Lupin, suspeito – Mas aquela espada... se é a espada que eu acho que seja... é um objeto muito poderoso e maligno.

- É a espada que pertenceu a Slytherin, não é?

- Bem, há a possibilidade de ser uma cópia ou imitação. Posso ver porquê os Urrea, ou qualquer família de bruxos, reivindique a posse de alguma coisa assim. Diz a lenda que Salazar Slytherin vendeu sua alma a um poderoso demônio em troca de uma espada que faria seu portador invencível.

- E funcionou?

- Certamente. Slytherin venceu todas as batalhas das quais participou. E então, um dia, ele desapareceu. Simplesmente desapareceu. Nunca mais foi visto. E a espada também foi tida como perdida. Na verdade, diz a lenda que ele trapaceou em seu trato com os demônios; ele não devia ficar com a espada para sempre, mas se recusou a devolvê-la na data marcada, então... - Lupin deu de ombros – Ninguém sabe o que aconteceu a ele, mas geralmente dizem que não foi nada bom.

- Ele não devia ter lido seu Livro do Chefe Supremo do Mal. - sorriu Sirius – Regra 54: Eu não vou quebrar um pacto com um demônio, nem tentar trapacear simplesmente porque quero ser teimoso.

Lupin revirou seus olhos.

- Sirius...

- Me desculpe, eu só não consigo ver o que essa história toda tem a ver com o Noah.

- É uma espada demoníaca, Sirius! - disse Lupin, irritado – Ela tem muitos poderes e inteligência própria! Se essa inteligência é benigna ou maligna, eu não sei. É preciso vontade, força e habilidade para lidar com uma coisa dessas, e ele é só uma criança.

- Quando tínhamos dezesseis anos, não nos considerávamos crianças.

- Mas nós éramos. Pense como as coisas podiam ter sido diferentes se tivéssemos sido um pouco mais espertos, um pouco mais pacientes, um pouco menos confiantes. Pedro não teria ficado como ficou, e Tiago... Tiago poderia estar...

- Não. - interrompeu Sirius – Não diga isso.

Lupin suspirou.

- Tem mais uma coisa.

- Ah, não! - falou Sirius determinado.

- Que foi?

- Eu te conheço. Sempre que você diz "Tem só mais uma coisa", significa que você guardou as piores notícias possíveis para o final. "Está tudo muito bem, só mais uma coisa. Josh foi devorado por um basilisco." Esse tipo de coisa. - Sirius respirou fundo – Bem, continue. Conte-me.

- Há uma profecia sobre a espada.

- Claro que tem! - exclamou Sirius, de mau-humor – Bem, o que é?

Lendo o livro, Lupin falou:

- Quando, novamente, a espada é manejada numa batalha por um descendente de Slytherin, o próprio Slytherin voltará a vida, e ele e seu descendente vão se unir para trazer destruição e terror ao mundo mágico.

- Às vezes, eu me pergunto como você pode dizer esse tipo de coisa com a cara lisa, Remo. Perdão! - Sirius adicionou, ao ver a cara que Lupin fez – Bem, acho que ainda não temos com o que nos preocupar. Ao que eu saiba, Noah não usou a espada em batalha. Josh que a usou contra Marius.

Lupin respirou aliviado.

- Que bom! Era o que eu queria saber.

- É só mantê-lo longe da espada. - disse Sirius.

- Ah, claro! - replicou Lupin – Você se lembra quando nós tínhamos dezesseis anos e as pessoas nos diziam para se afastar de alguma coisa? Do quão obediente nós éramos?

Os olhos de Sirius faiscaram, e ele sorriu. Em sua vida toda, Lupin só havia visto Sirius sorrir desse jeito para pouquíssimas pessoas. Para Tiago. Para Lílian. Para ele, Lupin. E para Josh. Talvez, ele sorrisse assim para Wendy, Lupin não sabia. Mas esperava que sim.

- Nós éramos terríveis, não éramos? - falou Sirius.

- Não, - respondeu Lupin, retribuindo o sorriso – Nós não éramos terríveis. Nós éramos demais.
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Any berrou.
E se arrastou para trás, montada em seus cotovelos, o mais longe possível da coisa horrível que estava bloqueando a passagem da porta. Ela atingiu a parede e se empurrou contra ela, apertando os olhos para mantê-los fechados.

Acalme-se, ela disse a si mesma. Seja corajosa. Seja como o Josh. Josh já viu coisas piores do que isso. Seja como o Josh.

Ela abriu seus olhos.

E viu o que já havia visto antes. O bruxo que entrou no aposento ainda estava parado onde havia estado, imóvel, com o capuz puxado para trás, permitindo a visão de seu rosto. Era o rosto de um homem da idade de Sirius, tão branco quanto sal, com maçãs do rosto enormes e proeminentes e cabelos pretos foscos e desgrenhados. Esse homem tinha um nariz grande e adunco, sobrancelhas finas e a sua boca era uma inflexível linha. Ele era incrívelmente magro, mais ainda que Sirius ao deixar Azkaban. Tatuada em cada bochecha estava a nítida imagem de um crânio com uma serpente saindo de sua boca. A Marca Negra. Era horrível olhar para ela, mas esse não foi o motivo do grito de Any.

Era porque ela sabia quem ele era. Como ela poderia não saber? Havia estátuas dele, fotos dele, por Hogwarts inteira. Ainda assim, isso era impossível.

Magia negra ela pensou. Teria que ser muita magia negra. Ele estava morto. Morto há mil anos. E para ressuscitar os mortos existia a necromancia o pior tipo de magia negra existente.

Ele deu uns passos em direção a ela, e ela olhou para os pés dele, revestidos em grossas botas negras, porque ela não conseguia olhar de novo para aquele rosto horroroso, tatuado e cheio de cicatrizes. À medida que ele chegava perto dela, ela sentiu um poderoso cheiro que vinha das vestes dele. Um cheiro parecido com conhaque abrasador.

Ouviu-se um barulho tipo tuque-tuque quando ele se ajoelhou perto dela.

- Olhe para mim. - ele falou. Sua voz zumbia como se sua garganta esquelética estivesse cheia de moscas ou de gafanhotos – Olhe para mim.

Any olhou para ele, embora não quisesse. Ela tentou limpar sua garganta, mas não conseguiu, e falou, numa vozinha que parecia ter sigo sugada de um canudo:

- Quem é você?

- Você não me conhece, Rowena? - perguntou a voz de zumbido – Eu sei minha aparência não é a mesma de antes. Mas você ainda devia reconhecer o seu Salazar.
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- Veritas!
Sampaio engasgou quando o Feitiço da Verdade tomou conta dele. Noah sabia exatamente como ele se sentia; conhecia a dor agonizante de tal feitiço, o sentimento de ser rasgado e exposto, mas não tinha nem tempo nem inclinação para sentir pena de Pedro Sampaio.

- Onde está Any? - ele perguntou.

- Eu... não... sei... – disse Sampaio rangendo os dentes.

- Urrea – chamou Bailey num sussurro sibilante – é ilegal usar o feitiço Veritas. Você pode ir pra Azkaban por isso.

- Não me importo. - respondeu Noah, sem olhar para Bailey, mas para Josh, que retribuiu o olhar com a mesma expressão que ele próprio tinha certeza de ter estampada em seu rosto: determinação inflexível.

Era a mesma expressão que Josh tinha quando jogava quadribol e estava terminantemente determinado a pegar o pomo. Quando eles jogavam um contra o outro, essa expressão facial de Josh deixava Noah nervoso. Agora, ele a achava estranhamente tranquilizante.

- Vá em frente, Urrea. - disse Josh.

- Por favor. - Pedro Sampaio interrompeu inesperadamente – Eu... eu também querro saber a verdade. Por favor, me pergunte o que for necessárrio.

 Noah encarou Sampaio, suspeito. Sampaio estava pálido e mordendo seu lábio com dor, mas parecia sincero.

- Certo. - concordou Noah, ainda segurando firmemente sua varinha – Conte-nos o que se lembra de ontem.

Sampaio falou, baixo e com esforço:

- Pela manhã, jogamos contrra a Romênia. – ele grunhiu - Perdemos, e estou muito zangado por causa disso. Também estou zangado porque eles não puserram segurrança nas tendas dos jogadorres. Quando volto parra a minha tenda, há um homem lá, e eu tenho que enxotá-lo.

- Que tipo de homem? - perguntou Josh numa voz tensa.

- Um homem bastante comum. - respondeu Pedro – Entenda, temos pessoas em nossas tendas a toda hora: fãs e similares, eles invadem. Esse carrinha querria me dar uma garrafa de vinho da Bulgárria. Então, eu bebi um pouco, e ele saiu. Eu voltei ao meu quarto, e... eu acho que adormeci. Não me lembrro de mais nada.

- Pedro - disse Noah firmemente – O que aconteceu quando você voltou ao seu quarto? Você não foi dormir. O que você fez?

Sampaio estava pálido e suando.

- Não me lembrro.

Noah estava segurando sua varinha tão forte, que as juntas de seus dedos ficaram brancas.

- O que você fez?

Sampaio balançou sua cabeça, apertando seu peito como se estivesse machucando-o, e respondeu:

- Eu não me lembro!

- Ele está mentindo! - exclamou Josh.

- Não dá pra mentir quando se está sob o efeito do feitiço Veritas. - disse Noah em tom baixo, virando sua cabeça para olhar para Josh – Tenho certeza disso.

- É um feitiço da memória, então. - murmurou Bailey – Ele está contando o que ele acha ser verdade.

- Você pode acabar com o efeito de um feitiço da Memória. - disse Josh, no mesmo tom de voz determinado – Urrea. Dê-me a sua mão.

- Por quê? - perguntou Noah, cautelosamente. Na última vez que Josh pediu que Noah lhe desse a mão, ele havia rasgado sua palma com um canivete.

- Porque... - respondeu Josh – Se nós dois segurarmos a varinha, e fizermos o feitiço, ele deve ser forte o suficiente para quebrar o feitiço da Memória.

- Deve mesmo. - concedeu Noah – Também deve ser forte o suficiente para reduzir o melhor jogador de quadribol da Bulgária a um louco tagarela com o poder mental de um bebê de quatro meses.

- Não acho. - disse Josh – Não se nos concentrarmos.

- Isso é o que eu quero dizer sobre deixar os grifinórios planejarem as coisas. - estourou Noah. Ele e Josh estavam tão perto agora, que ele podia ver seu reflexo nos óculos de Josh. Ele parecia aflito e híbrido – Que tipo de plano é "se concentrar"?

- Josh - interrompeu Bailey, aflito. Ele não escutava nada do que os dois estavam conversando de onde ele estava, mas a expressão de Josh o estava deixando nervoso – Josh, eu não acho que...

Ignorando-o, Josh agarrou a mão esquerda de Noah (alguma vez você duvidou que Noah fosse canhoto?), entrelaçando seus dedos em volta da varinha. Quando ele fez isso, a cicatriz de sua mão encostou na cicatriz da mão de Noah, e ele sentiu o solavanco de uma lança fria em sua pele. Ele viu os olhos de Noah virarem-se pra ele, nervosamente. Noah também havia sentido aquilo.

- Isso não é uma boa ideia. - disse Noah, pressagiando.

Com outro olhar soturno, Josh virou a varinha, agora segurada pelas mãos dos dois, em direção a Pedro, e murmurou:

- Veritas.

Noah sentiu sua mão dar um solavanco como se alguém a tivesse puxado. A varinha vibrou em suas mãos, e ele a segurou com mais força, quando um raio de luz preta saiu da ponta de sua varinha e atingiu Sampaio no tórax, quase derrubando-o de lado. Sampaio berrou de dor, agonizando, e caiu ajoelhado, com a mão no peito.

Bailey estava horrorizado.

- Josh, o que é que você fez?

Josh tinha soltado a varinha, e estava agora ajoelhado junto a Sampaio, com a mão sobre o ombro dele.

- Pedro, - ele chamou impacientemente – Eu quero tirar esse feitiço de você o mais rápido possível, mas você tem que nos contar o que te aconteceu ontem. Onde você estava na noite passada?

- Depois do jogo, eu volto ao meu quarto. - respondeu Sampaio, assustado ao som da própria voz. Noah sabia como ele se sentia; o feitiço Veritas não somente te forçava a dizer a verdade, mas te impelia a falar, a falar e a falar – Eu deito na cama. Estou me sentindo meio estranho e acho que é o vinho. Então, batem na minha porta. Eu me levanto para atender. É o homem que estava na minha tenda. Ele aponta sua mão para mim e diz Imperio.

Uma expressão de assombro toma conta do rosto de Pedro. Ele obviamente não tinha noção de nada disso.

- Então ele me dá um... um... kak shte kazhesh tova na Angliyski...

Bailey, Noah e Josh se entreolharam, visto que nenhum deles sabia nada de búlgaro para falar. Mas Pedro parecia ter voltado a história.

- Um copo, uma garrafa, de um líquido, ele me fez beber isso e me deu instruções. Eu visto minha capa e ando até o Caldeirão Furado. Eu fico lá esperando até vê-la, An-ny-Gah-brie-lly, entrar pela porta. - Pedro soava melancólico – Ela está muito feliz e bonita. Eu a convido para entrar e para falar comigo um pouco. Entramos no quarto dos fundos. Ela se vira pra me perguntar alguma coisa, e eu a agarro. Eu tapo a boca dela, para que ela não gritar, e a obrigo a beber a poção.

Os olhos de Sampaio estavam arregalados de horror. Noah, Bailey e Josh estavam olhando para ele, chocados, e com um medo crescente.

- Agora ela está quieta, está dócil. Ela faz o que eu digo a ela para fazer. Ela se livra da garota de olhos puxados. Ela volta ao quarto. Esperamos juntos e o homem entra. Ele aponta sua mão para ela e diz "Imperio..." - Sampaio parou – Ela está chorando. Ele tem que repetir o feitiço. Finalmente, saímos, An-ny-Gah-brie-lly e eu. Voamos para a Toca e eu espero ela pegar suas coisas e escrever uma carta pro Josh. Então, montamos em minha vassoura e voamos para a Estação King's Cross. - a voz de Pedro estava ficando rouca agora, não se sabe se era de dor física ou de choque. Josh não sabia dizer – O homem está esperando lá, vestido de trouxa. Ele toma Na-ny-Gah-brie-lly de mim. Então, eu saio, e volto para cá. Então, eu acordo... - ele balançou sua cabeça – E não me lembro de nada.

- Josh - sibilou Bailey, com urgência. Agora, ele estava em pé perto da porta, ainda mais aflito – Josh, alguém vai vir... alguém deve ter escutado o Samapio gritar...

Mas Josh ainda estava encarando Pedro Sampaio.

- Para onde ele a levou?

- Eu não sei! Eu não sei! Você tem que acreditar em mim. Josh, você sabe que eu nunca faria nada que trouxesse mal a An-ny-Gah-brie-lly!

Josh levantou-se, afastando-se de Pedro, que ainda estava meio sentado, e meio em pé, encostado no pé da cama, completamente perturbado. O próprio Josh estava quase tão mal... parecia que ele ia vomitar. Ele deu um passo em direção a Noah.

- Eu acho que devemos repetir o feitiço. – disse Josh, num sussurro - Talvez haja algo... talvez ele saiba...

- Não! - exclamou a voz de Bailey, inesperadamente.

Os dois viraram-se para ele, que estava encostado na porta, com uma expressão que misturava raiva e pânico.

- Por que quem quer que seja que capturou Any ia deixar Sampaio saber pra onde eles estavam indo? Obviamente só estavam usando-o. Se ele não fosse tão famoso, provavelmente o teriam matado. Se ele diz que não sabe, eu acredito nele. E Josh... você o está machucando! Isso não é você. Sinto muito, mas vocês dois ficam enlouquecidos por tudo em que Any está envolvida, então acho que eu devo tomar essa decisão. - Bailey ergueu sua varinha, apontando-a para Sampaio – Finite...

- Espere! - pediu Josh, apressado – Só mais uma pergunta. Só uma. - ele virou-se para Sampaio – Você disse que o homem apontou sua mão para Any quando executou a Maldição Imperius. Sua mão, não sua varinha. Ele não usou uma varinha?

Sampaio balançou sua cabeça.

- Não. Ele usou só sua mão. – disse ele áspero.

- Era um Magid, então. - concluiu Noah.

- Não era uma mão qualquer. - continuou Sampaio – Ele era um homenzinho bem comum. Pequeno e gordo. Mas sua mão era feita de prata.

Josh olhou para Bailey e para Noah, que estavam olhando para ele com idênticas expressões de terror. Mas foi Josh quem falou primeiro:

- Rabicho!

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- Rowena? - arfou Any, incrédula.

- Minha bela Rowena. - chamou o bruxo, que se auto-denominava Salazar.

Ele estendeu uma mão coberta por uma luva e tocou os cabelos de Any. Ela não se mexeu, apesar do cheiro de álcool abrasador fazer sua garganta doer.

- Esse não é o meu nome. - disse Any – Eu sou... você pegou a pessoa errada. A garota errada.

- Eu não discordaria dele se fosse você. - disse uma voz maliciosa e cortante. Any virou sua cabeça, e com pouca surpresa, viu a figura familiar de Rabicho, gorda e baixa, parada na porta. Ele estava usando vestes cinzas, sua mão metálica vinha da manga direita. Havia um sorriso malicioso em seu rosto – Você sabe com quem você está falando?

Any manteve seus olhos fixos em Rabicho quando replicou. Ele não era nenhum ganhador de concurso de beleza em carro alegórico, mas pelo menos, ele ainda tinha seu rosto todo.

- Como eu cheguei aqui? - ela perguntou, esforçando-se para manter a voz firme.

- Rabicho te trouxe para mim. - disse a voz de zumbido a sua esquerda – Ele é um servo muito leal.

- Não tanto. - disse Any para Rabicho numa voz trêmula – Considerando que há apenas duas semanas ele estava servindo ao Lord das Trevas!

- Agora, eu sirvo ao mestre do meu mestre. - disse Rabicho – O maior dos Quatro Grandes de Hogwarts, o mais temível bruxo que já tenha segurado uma varinha. - ele sorriu vaziamente para ela – Você sabe de quem eu estou falando? Hogwarts decaiu tristemente se eles sequer dão a seus alunos um aprendizado de história apropriado.

Any fechou seus olhos.

- Salazar Slytherin está morto. – disse ela. - E os mortos não podem voltar.

- Me machuca ouvi-la dizer isso, meu amor. - disse a voz de zumbido em seu ouvido. A voz de Salazar Slytherin. Sua mente não queria aceitar isso, não podia aceitar isso. Algo tão terrível não poderia estar acontecendo a ela. A mão de luva preta dele fechou-se sobre o ombro dela, e o choque do toque dele foi a sensação mais desagradável da vida de Any. Ele a levantou, sobre suas pernas trêmulas, e virou-a, de modo que ela pudesse vê-lo – Depois de tantos anos vagando no espaço cinzento. Você me trouxe de volta ao mundo.

- Eu fiz o quê? - arfou Any.

- Foi você quem criou o feitiço que quebrou o encantamento que me deixava cativo. - respondeu Slytherin – Certamente, fez isso de propósito?

Ela virou seus olhos desesperadamente de modo que não o visse, e acabou vendo Rabicho olhando-a.

- Seu Feitiço Furacão. - ele disse – Muito inteligente aquilo. Mas talvez, não completamente sensato. Poderiam ter havido... conseqüências involuntárias.

- Eu não entendo. - ela ofegou, olhando de um para o outro.

- Não se lembra? - perguntou Slytherin, olhando para ela pelos seus olhos vazios – De quando eu te disse que jamais morreria de verdade?

- Não! - exclamou Any cortante – Eu não me lembro porque eu não sou quem você pensa que eu sou. - ela olhou desesperada para o rosto esquelético que a encarava – Rowena Ravenclaw está morta. Ela está morta há mil anos.

Em resposta, uma das mãos enluvadas agarrou seu pescoço. Por um momento, ela pensou que ele fosse estrangulá-la. Então, ela se deu conta, horrorizada, de que, ele havia pego o Feitiço Essencial, e estava segurando-o com a mão fechada.

- Você tem a vida do meu descendente em volta de seu pescoço. - ele disse – Como uma vez, Rowena teve a minha. Quando acordei, a primeira coisa que vi foi seu rosto, pelos olhos dele. E vi que ele te amava, assim como uma vez eu a amei. A História se repete. Eu também vi o Godric, pelos olhos dele. - disse Slytherin, com um rosnado – Quando ela me deixou pelo Godric, ela destruiu tudo pelo que eu tinha batalhado, tudo que eu tinha quase concluído. Eu não vou deixar isso acontecer de novo, meu amor.

- Eu não sou o seu amor. - disse Any, numa fúria desesperada.

- Talvez ainda não. - disse Salazar Slytherin – Mas vai ser.

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Heyoon estava sentada na cozinha ouvindo o tique-taque do relógio, quando a porta se abriu, e Josh, Bailey e Noah entraram, carregando suas vassouras e parecendo completamente exaustos. Pelo menos, Noah e Bailey pareciam exaustos. Josh estava um grau pior que exausto, como se tivesse acabado de passar por uma terrível provação.
Bailey e Noah jogaram suas vassouras em um canto. Josh colocou a sua cuidadosamente na parede perto da porta. Heyoon o observou da cozinha. Seu coração palpitava com um reprimido desejo de correr e pôr seus braços em volta de Josh: ele parecia tão triste...

Bailey caminhou até ela, e colocou uma mão sobre seu ombro.

- Alguma coisa?

Heyoon balançou sua cabeça, em resposta.

- Nenhuma palavra dela.

Nenhum deles parecia surpreso.

- Obrigado por esperar, Heyoon. - agradeceu Josh numa voz fatalmente cansada.

- Vocês... descobriram alguma coisa? - perguntou Heyoon, ansiosa.

- Sim e não. - Josh deu de ombros.

- Ela está bem?

A resposta a essa pergunta foi um silêncio lúgubre. Josh disse:

- Eu vou tomar banho. Volto logo. – ele virou-se e subiu as escadas.

Heyoon olhou miseravelmente para Bailey.

- O que aconteceu?

Bailey suspirou. Ele olhou para Noah, que estava encostado na parede da cozinha.

- Falamos com o Sampaio. - ele disse, e contou a Heyoon exatamente tudo o que aconteceu – Acho que tivemos bastante sorte. - ele disse depois de ter terminado de contar a história – Ninguém nos pegou, e quando eu tirei o feitiço do Pedro, ele parecia bem. Ele não podia se lembrar de nada que nos contou sob o efeito do Feitiço Veritas. Não se lembrava nem de por que estávamos lá.

- Eu tive que pegar o autógrafo dele. - disse Noah, tentando soar leve – Foi muito embaraçoso.

- O Josh está bem? - perguntou Heyoon, olhando para seu irmão. Ela tentou ler seus olhos, como costumava poder fazer quando era mais nova. Nesse momento, eles diziam Josh não está bem e eu queria que você não se importasse com isso.

- Ele precisa dormir. - concluiu Heyoon – Vocês todos precisam dormir.

- Boa sorte ao tentar convencer Josh disso. - disse Bailey.

- Ele está muito chateado com por causa da Any, não é? - disse Heyoon.

- Ele está chateado por causa do Pedro. - disse Noah – Ele está chateado pelo que ele é capaz de fazer quando está pressionado.

Bailey olhou para Noah amargamente.

- O que você sabe? – ele disse.

- Mais do que você imagina. - respondeu Noah, com um toque de sua antiga fala desdenhosa.

Ele deu de ombros e passou pela porta, batendo-a forte bem atrás dele.

- Eu vou ver se o Josh está bem. - disse Heyoon, já subindo e ignorando a expressão de Bailey.

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Noah permaneceu no jardim dos May, deixando a luz prateada do luar escorrer por ele como chuva leitosa. Era uma noite fria e úmida, e o jardim cheirava a menta, lama e alecrim. Não tinha nada a ver com o jardim da Mansão Urrea, que sempre cheirava a metal, folhagem e sangue.
Ele virou-se para o sul, direção da sua casa, e ao pôr a mão dentro do bolso, percebeu, em repentina irritação, Eu não estou com a minha varinha. Logo depois, pensou: não importa. Magids de sua idade não deviam executar feitiços sem varinha; isso era verdade. Mas também, Magids de sua idade não deviam fugir da escola na calada da noite com o propósito de executar feitiços ilegais em atletas internacionalmente famosos. Magia sem varinha parecia ser menos pior. Pro diabo com essa regra idiota, ele pensou, e ergueu sua mão esquerda, pondo-a bem na frente de si próprio. A luz do luar iluminava a cicatriz em forma de raio da palma de sua mão, deixando-a meio que prateada, como se tivesse sido desenhada por mercúrio líquido.

É estranho que a mão que Josh decidiu cortar era justamente a que eu uso pra fazer magia. Ele também cortou a mão que ele usa para a magia. Será que ele fez isso consciente?

Ele deu de ombros, deixando para lá a pergunta, e concentrou-se firmemente, pensando no objeto que queria, imaginando onde ele estava da última vez que o viu. Para um feitiço de atração funcionar, não importa a distância do objeto atraído, mas sim, saber onde ele estava, e Noah sabia: na escrivaninha de seu pai. Ele imaginou o escritório de seu pai da última vez que o viu, construindo a imagem em sua cabeça, até mesmo o cheiro do lugar: livros, conhaque e magia negra. Ele fechou seus olhos e ergueu sua mão esquerda.

- Accio!

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Heyoon achou Josh no antigo quarto de Collin, sentado no canto da cama, que estava intocada desde a última vez que Collin tinha estado lá, com seus lençóis azuis sem estampa e bainhas de hospital. Ele havia tirado seus óculos, e estava sentado com suas pernas puxadas para cima, com a cabeça nos joelhos.

Heyoon sentou-se ao lado dele, sentindo a cama afundar com o seu peso.

- Josh, - ela disse – Você precisa dormir um pouco.

Ele ergueu sua cabeça vagarosamente e respondeu:

- Não estou cansado.

Ela sempre ficava espantada pelo quão diferente ele ficava sem seus óculos. Mais jovem, é claro, mas menos meigo de certo modo; mais frio, e mais capaz de atitudes duras. Havia, agora, uma linhazinha esboçada entre suas sobrancelhas, que se desfez quando ele olhou para ela, tentando sorrir. Ela se perguntou quantos anos demoraria para aquela linhazinha virar uma linha permanente entre seus olhos, que nunca desapareceria, estando ele sorrindo ou não. Ela se perguntou se estaria por perto para poder ver essa mudança.

- Claro que você está cansado! - exclamou Heyoon – Você está acordado há horas, voou vários quilômetros! Você precisa dormir. Você não vai servir de nada a Any se cair de sua vassoura de tanto sono, e se afogar no Canal.

- Eu não sirvo de nada a ela de qualquer jeito. - disse Josh amargamente – Foi tudo culpa minha.

- Não foi culpa sua! - revoltou-se Heyoon – Como poderia ser culpa sua? Foi mais culpa minha do que sua... eu jamais deveria tê-la deixado sozinha no Caldeirão Furado com o Pedro Samapio...

- Não. - interrompeu Josh, balançando a cabeça – Não há outra razão para que Rabicho queira raptá-la que não seja para chegar a mim. Ela só está em perigo pelo quê ela representa para mim. Assim como Sirius esteve, assim como Bailey, e todos com quem eu me preocupo.

- Bem, - disse Heyoon, tentando soar leve – pelo menos o Urrea está a salvo.

Josh forçou um riso.

- Acho que está. – ele disse, tirando uma mecha dos cabeços de cima de seus olhos - Mas, Heyoon...

- Por favor, Josh. Me prometa que você irá dormir. Nós podemos acomodar o Urrea no antigo quarto do Ryan e você pode ficar aqui. Amanhã de manhã faremos o que for preciso.

Josh hesitou por um momento, então, fez que sim com a cabeça.

- Você está certa. - ele disse – Eu sei que você está certa. - ele sorriu para Heyoon, e ela sentiu um frio na barriga – Só mais uma coisa, Heyoon, se você não se importar; eu não gostaria de ficar sozinho agora, então...

- Sim? - Heyoon olhou para ele, e perguntou numa voz baixa.

- Você poderia pedir ao Bailey que subisse? Eu não estou me sentindo muito bem para descer as escadas, mas eu queria muito falar com ele.

- Oh, - disse ela, levantando-se – Oh, claro! Eu vou... eu vou ir buscá-lo agora mesmo.

No início da escada, ela passou por Noah, que estava carregando um livro verde bem grosso em suas mãos. Ela sentiu um desejo repentino de chutar o tornozelo dele, mas sabia que isso seria injustificado, então, se conteve.

- Você está naquele quarto. - disse ela, apontando o quarto de Ryan, que era ao lado do dela, pelo corredor – Há cobertores no armário. E nem me peça para fazer sua cama, porque eu não vou!

Ele olhou para ela, curioso.

- O que está te incomodando? – perguntou ele. - Está com Josherites de novo?

Noah não havia mudado em nada sua expressão facial, mas Heyoon podia dizer, pelo sorriso estampado no rosto dele, que havia um sorriso desdenhoso dentro da cabeça dele, que estava só procurando um lugar para sair.

- Eu tenho uma violenta aversão a você. - ela disse – Eu achei que você deveria saber disso.

- E estou realmente não me importando. - retrucou Noah, andando elegantemente até o quarto de Ryan.

Heyoon ficou lá parada por um instante, observando-o. Por algum motivo, que ela não podia decifrar, ela se sentia pior agora do que antes.

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Ele estava em uma câmara que estava em algum lugar sob o solo – ele não sabia como sabia disso, mas sabia. Ele usava vestes pretas com verde e prata, e botas pretas de couro de dragão. Ele podia dizer, sem ao menos olhar para baixo, que alguns centímetros foram adicionados à sola de seus sapatos para dar-lhe altura extra. Mas ainda assim, ele podia sentir o calor que se espalhava do chão, queimando a sola de suas botas.
Ele não estava lá sozinho. Eles estavam em um semicírculo. Havia sete deles. E Noah os reconheceu imediatamente; reconheceu suas longas mãos de dois únicos dedos, suas cabeças calvas e sem orelhas. Demônios. Só eles vestiam longas vestes de preto e vermelho, e o mais alto deles, aquele que estava no centro do semicírculo, carregava algo em suas mãos estendidas.

Uma longa espada de prata em cujo cabo havia uma multidão de pedras preciosas da cor verde.

- Você veio aqui para fazer uma troca conosco. - disse o demônio mais alto.

E Noah ouviu a si mesmo dizer, numa voz que não parecia a sua própria, mas sim, a de um homem muito mais velho:

- Sim, eu vim.

- E você sabe no que essa troca acarreta?

- Eu te darei o que você deseja, - disse o Noah-que-não-era-Noah – E você me dará a espada.

- Com essa espada, um homem pode fazer milagres. - disse o demônio.

- Milagres não me interessam. - disse o Noah-que-não-era – Poder, sim, me interessa. Me disseram que essa espada me daria poder. É verdade?

- Tem uma coisa que chama muito poder. - disse o demônio.

E o Noah do sonho riu e falou:

- Não acredito nisso.

- Você deve ao menos acreditar que há um equilíbrio natural para todas as coisas. - disse o demônio – Para cada benefício em uma coisa, há pagamento em outra. Você terá um ganho estupendo usando essa espada, mas primeiro, precisa pagar.

E Noah sentiu suas mãos – que pareciam sólidas e reais, bem diferentes de mãos de sonhos – irem até seu pescoço, e tirarem o pingente de lá. Ele tirou a capa e a camisa que estavam sob tudo, e seu peito ficou nu.

- Tome seu pagamento. - disse ele.

O demônio pegou o objeto com suas mãos de espátula, e flexionou seus dedos longos. Então, como um boxeador socando uma parede de cartolina, o demônio enfiou sua mão no peito de Noah. A agonia foi imediata, intensa e terrível, mas durou só um segundo. Noah gritou, e o demônio tirou sua mão de lá. Ela estava apertando alguma coisa em seus dedos sangrentos, algo que brilhava e fulgurava de modo bruxuleante, como luz de vela através de uma tela.

O demônio sorriu, seus dentes eram longos, afiados e pontudos.

- A espada é sua. O inferno está satisfeito agora.

- Urrea! Urrea! Acorde!

Alguma coisa o segurava pelos ombros e o estava sacudindo. Ele se contorceu, pondo suas mãos sobre seu rosto. Ele estava vagamente ciente de alguém estar gritando. Havia mãos puxando seus braços, tentando tirá-los de cima de seu rosto.

- Acorde! - repetiu a voz, desesperadamente, e então – Urrea, por favor!

Ele abriu seus olhos. A gritaria acabou, e tudo ficou, repentinamente, muito silencioso. Era eu quem estava gritando, percebeu Noah, era eu.

Estava escuro no quarto. A única luz que havia era a luz prateada da Lua, que entrava pela janela, e que iluminava a garota em frente a ele, sua aflição, olhos escuros, e cabelos longos e encaracolados. Na quase-escuridão, ela parecia...

- Any? - ele sussurrou, meio acordado, meio dormindo.

- Não, é a Heyoon.

Ele tirou seus braços de seu rosto vagarosamente.

- Claro. - ele disse – Não dava para ser ela. Ela me chama pelo meu primeiro nome. - ele piscou e olhou para Heyoon – O que você está fazendo aqui?

- O que eu estou fazendo aqui? - repetiu Heyoon, irritada – Você estava berrando feito um lobisomem, por isso eu estou aqui! Eu achei que alguém estava te matando! Olhe onde você está, Urrea!

Noah sentou-se, e olhou em volta, surpreso. Ele não estava mais na cama, mas sim, deitado no chão, num emaranhando de lençóis. Ele não se lembrava de ter caído da cama, mas ele também não se lembrava de ter berrado. Ele só se lembrava de seu sonho. Ele puxou o ar pelos seus dentes, e ele lembrou-se da dor, da mão do demônio entrando em seu peito. Do calor. Da espada.

Quando Heyoon falou de novo, sua voz estava vacilante:

- Urrea...

- O quê?

- Você está sangrando...

Assustado, ele olhou para baixo, e viu, na parte da frente de sua camisa, exatamente onde se localiza o coração, uma mancha vermelha, do tamanho de um prato de jantar. Noah pôs sua mão sobre a mancha, e seus dedos voltaram vermelhos. Não era sangue velho, era novo.

Ele olhou para Heyoon.

- Chame o Josh. - disse, rouco.

Heyoon levantou-se rapidamente e andou até a porta.

Quando ela estava no meio do caminho, Noah a chamou:

- Espere!

Ela virou-se. Noah estava ajoelhado no meio dos cobertores. Ele havia tirado sua camisa e estava olhando para seu peito, que estava bem mais pálido que o resto dele, sob a luz da Lua. Seu peito também estava completamente sem marcas, não havia nenhum ferimento lá.

- Deixe pra lá. - ele falou – Parece que eu estou bem.

- Aquilo não era... seu sangue? - ela perguntou, aturdida.

Ele olhou para Heyoon, e a luz da Lua fazia com que faísca frias saltassem de seus olhos esverdeados.

- Eu não sei. Mas acho que estou começando a ter uma ideia. E não estou gostando nada, nada disso.

- Isso tem a ver com o seu pesadelo?

- Sim, - ele disse, para logo depois balançar sua cabeça – Quer dizer, não. Não tenho certeza se isso foi um pesadelo. Eu acho que foi um flashback. Ou, quem sabe, um delírio. Ou talvez, eu tive um flashback no meio de um delírio. Isso é possível?

Heyoon podia sentir seus olhos se arregalarem.

- Eu devo ir lá chamar o Josh. - ela sugeriu, mas Noah balançou sua cabeça.

- Não incomode o Beauchamp. - ele disse – Só sente-se aqui comigo por um minuto.

Heyoon hesitou. Era muito difícil ler os olhos de Noah. Na escuridão, os olhos dele refletiam a luz como olhos de gato. Lentamente, ela andou e sentou-se perto dele, sobre os lençóis. Mas ela não queria olhar para ele, pois ele estava sem camisa, e isso fazia-a sentir estranha. Então, ela fixou seu olhar na noite, e disse a primeira coisa que lhe ocorreu:

- Está doendo?

- Doía enquanto eu estava dormindo. - ele respondeu – Mas não dói mais.

Ele estava olhando para sua camisa agora, cuja parte da frente estava manchada de vermelho escuro. Também havia sangue em suas mãos. Heyoon olhou para elas curiosamente, percebendo algo esquisito. As mãos de Noah eram praticamente iguais às de Josh: o mesmo formato, as mesmas unhas roídas, os mesmos dedos longos, e as mesmas articulações agudas de ossos. Ela havia olhado vezes o bastante para as mãos de Josh, e com atenção o suficiente para tê-las memorizado; ela as reconheceria em qualquer lugar. As cicatrizes iguais só aumentavam a estranheza.

Heyoon estendeu suas mão e tocou a cicatriz da palma da mão esquerda de Noah.

- Como você e o Josh conseguiram isso?

Noah olhou para ela.

- O Bailey não te contou?

Ela balançou sua cabeça.

Noah voltou a olhar sua camisa.

- Acidente com um baralho de cartas bem afiado. – ele disse. - Não gostamos de falar disso. É muito doloroso.

Heyoon fez uma careta.

- Você sabe o que eu odeio em você, Urrea?

Ele olhou para ela e sorriu.

- Estou chocado. – ele disse - Chocado por só haver uma coisa que você odeia em mim. Eu imaginava que você tinha uma lista de queixas, talvez até numeradas.

Heyoon subitamente sentiu seu rosto se contorcer num sorriso, e ficou horrorizada. Por que ela estava sorrindo para Noah Urrea? Isso não era nada bom. Repentinamente, ocorreu a ela o que pareceria a Bailey essa cena se ele aparecesse de súbito: ela estava sentada no chão com Noah Urrea sem camisa, no meio de um bando de lençóis e cobertores embolados, e eles estavam sorrindo um para o outro como velhos amigos.

- Eu vou chamar o Josh. - ela disse apressadamente, levantando-se.

- Não faça isso. - disse Noah – Não é muito importante.

- Você está sangrando sangue fantasma. - disse Heyoon – E eu acho que vale a pena acordar o Josh por isso.

- Esqueça isso. - disse Noah, cujo tom de voz revelava que não haveria discussão – Só me traga uma outra camisa, ok?

- Uma camisa? - repetiu Heyoon, incrédula.

- Sim, uma camisa. Você tem um bando de irmãos, deve haver um monte de roupa nessa casa.

Heyoon apertou seus lábios, que se transformaram numa linha estreita, e saiu do quarto. Ela voltou com algo que ela jogou no colo de Noah. Era um dos famosos suéteres da senhora Weasley.

- Rosa! - ele exclamou, mal-humorado – Eu não fico bem de rosa!

- Boa noite, Urrea. - disse Heyoon, fechando a porta.

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Heyoon e Bailey já estavam acordados quando Josh desceu para o café na manhã seguinte. Ele estava vestindo um dos suéteres verdes que a Sra. May lhe dera anos atrás. O agasalho estava muito pequeno nele, agora, e as mangas não chegavam nem até seus magros punhos. Ele sentou-se numa cadeira ao lado de Heyoon, pegou uma colher, e pegou um pouco, indiferentemente, do mingau de aveia que ela passou para ele. Bailey olhou para eles seriamente, e mexeu a cabeça; ele estava ocupado lendo o Profeta Diário.
- Alguma notícia? - perguntou Josh.

- Os dementadores ainda estão sumidos - respondeu Bailey, com a boca cheia de torrada – Há alguns relatos deles terem sido vistos perto de uma cidade de bruxos em direção ao sul, mas não foi dado crédito a isso... - ele bufou – pelo Collin. É sempre o Collin, não é?

Heyoon deu de ombros, e falou:

- Imagine ver dementadores em sua própria cidade. Em seu próprio jardim...

Todos eles olharam, aflitos, pela janela.

- Heyoon, não. - disse Bailey, irritado.

Mas Heyoon já havia pensado em outra coisa sobre a qual ela queria falar:

- Josh, tem algo errado com o Urrea.

Bailey e Josh olharam para ela, curiosos. Ela estava passando manteiga em uma torrada, e parecia determinada.

- Algo além do que está normalmente errado com ele? - perguntou Josh.

- Sim. - respondeu Heyoon, em tom firme – Ontem à noite, ele estava berrando tão alto enquanto dormia, que me acordou. Eu nunca havia ouvido alguém berrar desse modo, antes. Então, quando eu entrei no quarto dele, ele estava caído no chão, e havia sangue pela camisa dele toda.

- Ele estava sangrando? - perguntou Josh.

- Você entrou no quarto dele? - perguntou Bailey, subitamente alarmado.

- Sim e sim. - respondeu Heyoon – Mas a parte de ter ido ao quarto dele não é a parte importante da história. A gritaria e o sangue, sim. - ela deu de ombros – Eu sei como Magia Negra é. - ela disse, em tom mais baixo – E estava por ele todo.

- Você ficou no quarto com ele? - perguntou Bailey.

- Rony você está ouvindo o que eu estou falando? - perguntou Heyoon rispidamente.

- Você ficou, não ficou? - perguntou Bailey novamente, horrorizado – Heyoon! O Urrea?

- Eu meio que gosto da sonoridade disso. - disse sua irmã, com um sorriso sarcástico – Heyoon Urrea.

- Heyoon! - crepitou Bailey – Eu quero que você me diga nesse exato momento, me prometa, que você não irá... não iria... não com o Urrea!

Heyoon deu uma mordida em sua torrada, deu de ombros, e disse:

- Nosso amor é proibido.

- Heyoon, pare de irritar o Bailey. - disse Josh, que na verdade estava contendo um riso – Bailey, pare de ser um chato. Tenho certeza de que a Heyoon não ficou sozinha no quarto com o Urrea mais do que o necessário. Heyoon, o que você quis dizer quando falou que havia Magia Negra por ele todo?

Heyoon franziu as sobrancelhas, e respondeu:

- É só uma sensação. Desde que estivemos na Câmara Secreta, eu sinto essa sensação fria quando estou perto de Magia Negra. Eu senti isso na Any no Beco Diagonal, logo depois que ela viu o Pedro. E eu sinto isso com o Urrea, também.

- Bem, isso não é tão surpreendente. - disse Bailey – Quer dizer, ele esteve rodeado de Magia Negra a vida inteira. Ele é uma Travessa do Tranco ambulante!

- Talvez... - disse Josh, que estava mordendo a junta de um de seus dedos, algo que ele fazia quando estava pensativo.

- Você acha que ele é perigoso? - perguntou Bailey, soando esperançoso.

Um tanto de má-vontade, Josh pensou na espada, o Talismã do Mais Puro Mal, e na onda de frio que veio da mão de Noah quando ele fez o feitiço Veritas no Sampaio.

- Eu acho que não. - respondeu Josh.

- Ainda assim, - falou Bailey, pegando o prato de torradas – há a definitiva possibilidade dele ser um perverso e sangue-frio...- Heyoon chiou, Bailey olhou para cima e viu Noah na porta, vestindo uma das suéteres felpudas rosa, e segurando um livro verde bem grosso – Oh. Hã... torrada? - disse Bailey, pouco convincente, oferecendo o prato a Noah.

- Eu já fui chamado por uma porção de nomes, na minha vida. - disse Noah olhando para o prato – Mas nunca fui chamado de torrada perversa e sangue-frio.

Bailey teve a graça de ficar envergonhado.

- Me desculpe, Urrea. – disse ele. - Mas, a Heyoon...

- Te contou sobre ontem à noite. - completou Noah, olhando para Heyoon com uma certa frieza.

Heyoon retribuiu o olhar. Ele estava certo sobre o rosa, pensou Heyoon. Não era cor apropriada para ele. Não combinava com sua pele clara e cabelos castanhos quase louros, fazendo-o parecer nada mais que um bolo de aniversário rosa congelado.

- Eu tive um pesadelo. - ele continuou – E daí?

- Eu tenho pesadelos o tempo todo. - disse Josh – Mas eu geralmente não acordo coberto por sangue.

- Coberto é um pouco forte. - falou Noah, sentando-se à mesa – O mais apropriado seria... manchado.

- Certo. - disse Bailey, com forte sarcasmo – Deixe pra lá então, não é estranho de modo algum.

- Exatamente. - disse Noah, ignorando a expressão de imensa irritação por parte de Bailey – Beauchamp, eu tive uma ideia. - ele fez um gesto para Bailey, que parecia estar prestes a falar alguma coisa – E sem comentários irônicos, por favor.

- Certo. - concordou Josh – O que é?

- O Feitiço Essencial. - disse Noah – O meu Feitiço Essencial. Nunca foi testado, mas teoricamente, onde quer que eu esteja no mundo, Any pode me achar usando isso. Eu sei que ela podia me achar em qualquer lugar que eu estivesse, lá em Hogwarts, ela fez isso várias vezes.

- Mas isso só funciona quando é ela quem quer te achar. - disse Josh – E não o contrário.

- Quando só há um Feitiço Essencial, é verdade. - disse Noah. Ele ergueu o livro verde que estava segurando, o objeto que atraíra para si na noite anterior. Era a cópia de Elaborações Essenciais de Bruxaria de seu pai - Mas se fizermos um outro feitiço, os dois podem se achar.

Josh, Bailey e Heyoon olharam para ele.

- Outro Feitiço Essencial? - perguntou Josh fracamente – Mas ele não é extremamente complicado e perigoso?

- Não tanto. - respondeu Noah – Eu estou um pouco velho demais para que o Feitiço tenha tanto efeito, mas terá efeito o bastante para isso. E eu vou dar um pedaço de mim de boa vontade, e isso irá ajudar.

- Isso significa que teremos que arrancar um dente seu? - perguntou Bailey, interessado.

- Eu estava pensando em uma mecha de cabelo. - retrucou Noah – E eu queria ver você tentar arrancar um dente meu, May.

- Hem-hem! - exclamou Josh – Temos o que precisamos para o feitiço?

- Não tudo. - respondeu Noah – Ainda não. Nós precisamos de um pouco de erva de bagunceiro, um pouco de veneno de lobo, e de um Orbe de Thessala.

- Um o que de quê? - perguntou Heyoon.

- Um Orbe de Thessala. - repetiu Noah – É usado em magias de Transfiguração e Transformação. Tem a ver com transferência de alma. Não é difícil de usar, e sim, difícil de passar. Eu acho que meu pai deva ter um, mas eu não tenho a menor ideia de onde ele o guardou.

- Então onde vamos achar um? - perguntou Josh – É o tipo da coisa que se pode simplesmente comprar no Beco Diagonal?

- Na verdade, não. - respondeu Noah – Mas é o tipo da coisa que o nosso professor de Transformações deve ter em sua sala.

- Lupin. - disse Josh – Ele jamais nos emprestaria algo assim.

- Verdade. - concordou Noah – E é por isso que teremos que invadir e pegar escondido. Teremos que voltar pra escola de qualquer jeito, e enquanto estivermos lá...

Josh piscou.

- Temos que voltar?

- Claro que temos! - disse Noah, como se isso fosse óbvio – Precisamos pegar a minha espada!

Josh empurrou sua cadeira de perto da mesa com um barulho.

- De jeito nenhum! - ele disse terminantemente – Nós não vamos trazer aquela coisa conosco!

Os olhos esverdeados de Noah deixaram escapar faíscas raivosas.

- Por que não?

- Porque - disse Josh, como se isso fosse óbvio – ela é maligna. É uma coisa maligna e eu não a quero perto de mim.

- É uma arma muito poderosa. - disse Noah – Ela tem poderes que sequer podemos imaginar.

- Exatamente. - concordou Josh – Porque são muito, muito terríveis.

- Você não sabe se são mesmo. - disse Noah, firme – Nem o Lupin sabe. Ele disse que precisava terminar de testá-la. É uma lâmina de Magid, e eu sou um Magid e essa espada pertenceu aos meus ancestrais, está na minha família há gerações, e, portanto, eu a quero!

Josh subitamente ouviu a voz de Any na sua cabeça, lembrando-se de algo que ela lhe disse há duas semanas... fazia só duas semanas? Fuller não te contou que as pessoas querem o que é pior para elas?

Sim, Josh havia respondido. Mas não todas as pessoas.

- Urrea, - ele começou a falar, mas Noah havia levantado-se de sua mesa e estava olhando para todos, enfurecido.

– Olhe, - ele disse. - eu não sei com o quê exatamente estamos lidando, e nem você sabe disso. Mas se o que já vimos até agora serve como indicação, estamos lidando com Magia Negra muito, muito poderosa. Essa espada é um presente, Beauchamp. Ela pode matar qualquer coisa. O próprio Lord das Trevas poderia ser destruído por ela. O Lupin nos disse isso.

Agora Josh estava bravo.

- Você não se lembra do livro? – ele disse rispidamente – Você pode usá-la, mas há um preço a ser pago!

- Eu sou um Urrea,- ele disse - Nós não perguntamos preços. - ele sorriu pouco alegre – Eu posso pagar.

- Eu não acho que você possa. – disse Josh.

Heyoon olhou de um para o outro. Noah e Josh estavam se encarando; Noah com o rosto avermelhado nas bochechas, e Josh muito pálido.

- E se não for você quem vai pagar o preço, Urrea? – perguntou Josh num tom fatal – E se acaba sendo que outra pessoa tem que pagar por isso? E se essa pessoa acaba sendo... – ele quase disse "Any", mas ele não queria ser como Noah, ele não queria usar Any como uma vantagem contra o seu oponente - ...eu?

Os olhos de Noah brilhavam.

- Vou arriscar a chance. – disse ele.

Dessa vez, foi o Bailey quem falou:

- Você é um patife, Urrea.

Noah não olhou para ele; ainda estava olhando para Josh.

- E se ela estiver em perigo e a espada for nossa única chance de salvá-la? – ele perguntou – Você está disposto a correr o risco de deixar algo acontecer a ela sendo que você poderia ter evitado isso se não fosse tão nojentinho?

As mãos de Josh estavam apertando a mesa com força, e quando ele falou, foi com esforço:

- Nojentinho? – Josh repetiu gélido - Espero que você se lembre de me dizer isso quando você acabar por deixar um de nós morrer.

Por um momento, ninguém falou nada. Por fim, Noah falou, sem no entanto olhar para Josh:

- Se você não confia em mim, talvez prefira continuar com isso sem mim.

E o tom que ele disse isso tinha ao mesmo tempo uma nota de melancolia, e outra de raiva. Heyoon duvidava que ele soubesse que soou sequer um pouquinho melancólico; se ele soubesse, provavelmente teria permanecido calado.

- Eu não confio em você, Urrea. – disse Josh num tom baixo – Mas eu também não quero ir sem você.

Os ombros de Noah caíram um pouco em alívio.

Josh olhou para sua mão com a cicatriz, depois voltou para Noah

- Se o que fizemos ao Sampaio é algum indicador, os poderes que temos juntos são muito maiores que os poderes que temos sozinhos. Talvez você esteja certo sobre ter todas os recursos à mão.

- Eu estou certo. – disse Noah, embora também parecesse aliviado. A atmosfera de tensão estava desaparecendo tão rápido quanto aparecera – Você vai ver. – ele disse a Josh – Nós vamos para a escola pegar a espada e então, iremos em busca da Any.

Ele se levantou e falou com uma determinação um tanto fria:

- Eu não me importo com o que eu precisar fazer; não ligo se for o próprio Lord das Trevas quem estiver com ela... se ele fez qualquer coisa para machucá-la, vou transforma-lo em pó, tão fino que vai servir para fazer sopa instantânea.

Noah parou. Josh, Heyoon e Bailey estavam olhando para ele com expressões peculiares.

- OK, - ele continuou – Isso soou muito nojento, não foi?

Josh fez que sim com a cabeça.

- Sopa não é exatamente assustador, Urrea.

- Fora isso, você foi bastante convincente – afirmou Heyoon, encorajadora.

- Eu ainda acho que estou certo. – disse Noah, embora boa parte da força tivesse saído de sua expressão.

- E eu ainda acho que você está maluco. – disse Josh – E talvez até maligno, mas você está obviamente muito determinado, e eu meio que admiro isso. – ele sorriu pela primeira vez no dia – Isso combina com você, Urrea.

- Combina, mesmo. – concordou Heyoon inesperadamente – Mas definitivamente o suéter não combina.

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- Olha, Bailey! – exclamou Heyoon, sorrindo – Essência de Urrea. É magenta. 


Ela cutucou a poção que estava fervendo no caldeirão com sua varinha e olhou para Bailey. Ele estava sentado no canto da cama de Josh amassando casca de besouro, não-muito-industrialmente, com um pilão e buscando forças para não bocejar. Eles tinham ido direto do café da manhã para suas vassouras, e haviam chegado à escola de Magids muito cedo. Todas as quatro vassouras estavam agora apoiadas contra a parede perto da cama de Josh.

Os próprios Josh e Noah, usando a capa de invisibilidade do pai de Josh, já haviam descido para a sala do Lupin. Heyoon pensou em perguntar o que eles fariam se o Lupin estivesse na sua sala, mas mudou de ideia. Isso, ela imaginou, era problema deles. Fazer a poção, por outro lado, era problema dela. Ela sempre foi boa nessa matéria na escola, e essa poção era surpreendentemente simples.

A parte difícil viria mais tarde, dado que o processo do Feitiço Essencial era uma combinação complexa de uma Poção, um Feitiço e uma Transfiguração. No momento, a poção, que era o primeiro passo, ainda precisava de vários ingredientes importantes, embora já tivesse um pouco do sangue de Noah nela, e o feitiço seria feito com o cabelo dele (ele havia dado a ela um cacho, tão belo e castanho claro que pouco parecia cabelo humano).

- Isso não é magenta – afirmou Bailey, olhando para a poção e bocejando novamente – isso é fúcsia. E muito feio.

- Bailey, você tem que amassar os besouros, não só matá-los.

- Não me chateie! – reclamou Bailey – Eu não posso deixar de pensar que isso tudo é pro bem do Urrea, e, não importa o que o Josh diga, eu não vou com ao cara desse cara.

Heyoon respirou fundo e disse:

- É pelo bem da Any, Bailey. Por que você não me deixa amassar os besouros um pouco e você fica mexendo a poção no meu lugar? Você parece estar exausto.

Bailey concordou amigavelmente, e eles trocaram de lugar assim que a porta do quarto se abriu, e Josh e Noah entraram, irritadíssimos.

- Ele está lá! – exclamou Josh, jogando os braços para o ar, chateado – Por que ele está lá? Ele não deveria estar dando aula?

- Patife! – xingou Bailey – O que ele pensa que está fazendo dentro da própria sala?

Josh estava pensativo, mordiscando a dobra de seu dedo.

- Nós precisamos fazê-lo sair de lá. – disse ele – Mas como? Se um de nós fizer isso, ele vai achar que só queremos entrar lá escondidos para pegar a espada! E vai estar certo.

Noah parou de andar compassadamente e falou:

- Estou tendo uma ideia! – ele disse. - Ah, agora estou tendo mais outra!

Bailey virou-se para encará-lo curioso, e acabou por cutucar um canto do caldeirão, deixando cair um pouco do conteúdo no chão.

- Agora estou simplesmente aborrecido! – reclamou Noah – May, tire suas mãos retardadas dessa poção! Essa é a minha alma que você está bagunçando! É a essência da minha vida, é a minha existência, é...

- Um fabuloso novo produto de limpeza! – anunciou Bailey, olhando para baixo. Onde a poção havia caído, havia agora um buraco no tapete e mais um pouco além, no piso de pedra – Eu nunca vi nada assim, é completamente tóxico.

Todos olharam curiosos.

- Eu me recuso a considerar isso um reflexo da minha personalidade! – exclamou Noah, olhando para o tapete carbonizado.

- Esse é seu privilégio. – disse Josh – E qual é a sua ideia?

Noah olhou para ele, demasiado divertido, e falou:

- Você vai descobrir, Beauchamp. – ele andou até a porta – Espere aí, já volto.

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Tiara tinha um quarto só para ela na escola, e que no momento estava cheio de pequeníssimas e delicadíssimas borboletas que ela havia conjurado para se divertir. Logo que Noah entrou, quinze borboletinhas azuis pousaram em seu cabelo, e outras várias cor-de-rosa, em seu ombro.
- Oh! – exclamou Tiara, olhando para ele – Adorável!

Com esforço, Noah impediu a si mesmo de dizer Tire essas malditas borboletas de cima de mim!

- Eu preciso que você me faça um favor. – ele disse, por fim, olhando com seriedade para Tiara, que estava agora sentada em sua cama, com as pernas esticadas na frente de si, tocando cada uma de suas unhas do pé com sua varinha, colorindo-as com vários tons de rosa – Eu preciso que você faça o Professor Lupin sair da sala dele. Só por uns minutos. – ele completou, ao ver a expressão duvidosa que estava estampada no rosto dela – Vamos lá, eu achei que você gostasse dele!

- Eu gostava. – disse Tiara, deixando sua unha do dedão do pé esquerdo violeta – Mas eu mudei de ideia. Ele é bem bonitão, mas é um pouco... enfadonho demais pro meu gosto.

Noah mordeu o lábio, em frustração.

- Tiara, o cara é um lobisomem. Como ele pode ser enfadonho?

- Ele é chato – disse ela firmemente - Ele é chato e desinteressado e inglês. Diferente de você. – ela completou rapidamente – Você é um garoto inglês com instintos franceses. – ela sorriu – e tem sangue veela. Você não é chato. Mas o Lupin me enche de tédio.

- Esse é só o lado professor dele. - disse Noah, torcendo para parecer saber sobre o que estava dizendo – Enfadonho de dia, talvez, mas de noite ele é só bebidas, prostitutas e confusão.

Tiara torceu seu narizinho.

- Eu não acredito em você. – ela disse.

- Qual é, Tiara! Faça isso por mim! – ele pediu, tremendo por dentro. Só Deus sabe o que ela ia querer em troca – Por favor!

Ela o examinou dos pés a cabeça, levantou-se, sacudindo seus longos cabelos platinados.

- Está bem. – ela concordou, um pouco aborrecida – Vou fazer isso por você. Mas você... – ela deu um tapinha no ombro dele, e talvez acabou deixando sua mão lá mais tempo do que o necessário – Você fica me devendo essa, Noah Urrea!

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- Você tem certeza de que acha isso uma boa ideia? – perguntou Josh, suspeito.
Noah se mexeu inconfortavelmente sob a capa de invisibilidade. Com a largura que ela tinha, foi bem difícil manter os quatro cobertos durante a espera no corredor.

- Por que não seria uma boa ideia? – replicou Noah.

- Bem, - disse Josh – ou não dá certo, o que no caso teremos problemas, ou dá certo e nesse caso...

- E nesse caso Lupin ganha um pouco de ação na vida dele. – disse Noah. – Nós estamos fazendo um favor a ele, na verdade. Está tudo bem.

- Não está NADA certo! – disse Bailey num tom desengonçado.

- Por que não?

- Porque ele é velho pra cacete e isso é vulgar! – respondeu Bailey, firmemente.

- Ele não é tão velho. – replicou Heyoon.

A capa se mexeu quando Josh, Bailey e Noah tentaram se virar para olhar para Heyoon, antes de se darem conta de que isso era impossível. Josh tinha quase certeza, de todo modo, pelo tom de voz dela, que ela estava sorrindo.

- Ele não é tão velho. – ela insistiu.

- Heyoon! – advertiu Bailey.

- Pra dizer a verdade, ele é até bem atraente. – disse ela.

- Será que poderíamos voltar a falar sobre dementadores no nosso quintal? – sugeriu Bailey – Porque esse papo está me enchendo.

Nesse exato momento, Tiara apareceu num canto do corredor. Ela havia vestido vestes justas e prateadas, e deu uma piscadela na direção geral deles quando parou em frente à porta da sala de Lupin e bateu. Eles a observavam quando ela abriu a porta meteu a cabeça para dentro do aposento. O que quer que ela tenha dito, não foi escutado por eles, mas em pouco tempo, Lupin foi até a porta, tão distraído quanto levemente surpreso.

- Por que não podemos falar do seu dever de casa no meu escritório? – ele perguntou, pondo os pés para fora da sala e fechando a porta logo atrás de si.

- É que é muito mais agradável conversarmos durante uma caminhada. – respondeu Tiara, segurando o braço dele.

- Se você está dizendo... – concordou Lupin, embora sua voz indicasse extrema desconfiança.

- Ninguém nunca te disse que você é um excelente professor? – perguntou Tiara, puxando Lupin pelo braço que agarrava até o final do corredor.

- Sim, sim, me dizem isso sempre. – respondeu ele ao passar por Bailey, Noah, Josh e Heyoon sem tomar ciência disso.

- E também já te disseram que além de excelente professor, você também é MUITO atraente?

- Bem, Fuller me disse uma vez, mas foi depois de uma festa de ano novo e ele estava levemente embriagado com cerveja amanteigada.

E eles desapareceram.

Embora não pudesse ver os rostos em volta dele, Josh podia sentir os outros três balançando de rir. Até Bailey estava rindo. Era como ser surpreendido por um mini-terremoto.

- Shhh! – ele sibilou, tentando segurar o próprio riso – Shhh... esperem até entrarmos na sala...

Logo que entrou na sala, Josh tirou a capa de invisibilidade de cima de todos, permitindo que Noah, que estava praticamente chorando de tanto rir, desabasse na mesa.

- Eu quase amo a Tiara! – ele disse por fim, recompondo-se – E também já te disseram que além de excelente professor, você também é MUITO atraente?

Heyoon estava balançando sua cabeça.

- O pobre coitado não merecia esse tipo de abuso.

- Foi por uma boa causa, Heyoon. – disse Bailey, rindo. Qualquer vestígio de ciúmes por Tiara parecia ter desaparecido – Ei, Urrea! – ele continuou – O que você está fazendo?

- Pegando os nossos ingredientes. – respondeu Noah, que estava agora agachado no chão perto da estante de livros de Lupin – Está aqui... peguei! - ele pegou um pequeno frasco azul, tirou a tampa, cheirou o líquido e fez uma careta – Veneno de Lobo. – ele entregou o objeto para Josh, que o olhou de esguelha e passou para Heyoon – Erva de Bagunceiro, nós temos lá em cima... e aqui está... o Orbe de Thessala.

- Isso é só um globo de vidro, daqueles que cai neve de mentira, Urrea. – disse Josh – Boa tentativa.

A ninfa do globo piscou para Noah quando ele a pôs no chão.

- Ops, desculpa. – disse ele, e continuou a procurar – Muito bem – ele disse, por fim – Achei.

E ele entregou algo a Josh, algo que parecia uma bola de tênis feita de vidro escuro.

- Tem certeza? – perguntou Josh, olhando para Noah com severidade.

- Se isso não for um Orbe de Thessala, sou eu quem vai explodir. – respondeu Noah – Sim, eu tenho certeza.

- Explodir? – repetiu Heyoon, que estava muito pálida quando Josh lhe entregou o Orbe.

Noah fez um aceno.

- Quase nunca acontece. – disse ele – Termine logo e faça o feitiço direito e todos nós estaremos bem.

Heyoon olhou para Bailey, que estava igualmente nervoso.

- Eu não sei...

- Faça! – pediu Noah, que estava procurando algo embaixo da mesa de Lupin – E faça logo, precisamos sair daqui o mais rápido possível. Por que vocês não voltam para o nosso quarto e nos encontramos lá em alguns minutos? Levem a capa da invisibilidade. – ele olhou por cima da mesa; viu os três outros se preparando para sair, e adicionou apressadamente – Beauchamp, você fica aqui comigo.

- Está bem. – disse Josh, parando de andar e voltando à sala.

Bailey e Heyoon viraram-se para olhar para ele; ele deu de ombros, e eles puseram a capa sobre si próprios, desaparecendo de vista.

A porta da sala abriu-se e fechou logo atrás deles. Josh virou-se para Noah, que estava levantando-se de debaixo da mesa de Lupin, com a caixa de Adamantina que continha a espada de Slytherin. Havia um brilho em seus olhos, e Josh sentiu uma pontada de apreensão.

- Vamos lá, Beauchamp. – disse Noah – Me ajude a abrir essa coisa.

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- Eu achei que a Marca Negra fosse um símbolo do Voldemort. – disse Any, olhando para Rabicho.
Ela achou que não havia motivo para não dizer o nome de Voldemort, visto que ela havia sido sequestrada pelo único bruxo na historia que tinha conseguido ser ainda pior que o Lord das Trevas.

Slytherin, que parecia não estar com nenhuma varinha (claro que não, ela pensou, ele é um Magid, assim como o Josh), havia ligado a mão dela à de Rabicho, e ordenou que ambos fossem atrás dele para fora do quarto. Estavam todos andando por um corredor de pedra, cujo destino Hermione podia somente imaginar. Slytherin seguia na frente e ela e Rabicho atrás dele.

- Voldemort não inventou a Marca Negra. – disse Rabicho, presunçoso – Ela pertenceu primeiramente a Slytherin. Quase tudo que o Lord das Trevas fez ele copiou de Slytherin.

- Você é tremendamente presunçoso. – disse Any – Você não está preocupado que Voldemort fique bravo com você por tê-lo traído?

- Não. – respondeu Rabicho. Seu sorriso havia se estendido a um olhar medonho e nada atraente – Slytherin é duas vezes mais poderoso que Voldemort era, até na sua juventude. – disse ele, e riu. - A história se repete, se você ainda não reparou. Não há motivos para lutar contra isso, já estava previsto. Fuller sabe disso. Por que outro motivo você acha que ele...

Ele parou de falar quando Salazar Slytherin parou de andar e virou-se para eles. Seu rosto esquelético não tinha nenhuma expressão. Eles estavam no final do corredor, que dava numa sala circular cheia de tapeçarias.

- Rabicho – disse Slytherin, cuja voz de zumbido ecoava pelas paredes de pedra – Por favor, nos espere longe do Saguão de Entrada. Eu quero mostrar algo à minha convidada. – ele acenou para Any, e as cordas que a uniam a Rabicho desapareceram – Venha cá. – ele disse a ela, sendo prontamente obedecido por ela, que mal estava ciente de Rabicho saindo de perto.

- Eu queria que você visse isso. – disse Slytherin apontando para a mais larga das tapeçarias, que estava pendurada na parede mais distante – Talvez isso te ajude a entender.

A tapeçaria mostrava quatro figuras juntas sob uma passagem em arco. Eles eram jovens; tinham lá pelos seus vinte anos, no máximo, e encaravam Any, sorridentes, como se estivessem posando para uma foto. Ela reconheceu o homem da esquerda imediatamente; havia um quadro dele no Salão Comunal da Grifinória: alto e belo, com cabelos e barba douradas, vestido em vermelho e dourado. Godric Gryffindor, parecendo muito com Josh.

Depois, havia uma mulher rechonchuda e morena, que parecia amigável e bondosa e estava vestida de amarelo. Ela a lembrava da Sra May. Era obviamente Helga Hufflepuff.

Depois, havia outro homem: ele não era tão alto quanto Godric, e parecia estar bastante ciente disso. Ele também tinha cabelos negros, e um olhar carrancudo estava estampado em seu rosto. Se ele não estivesse franzindo a testa, ele também pareceria bonito. Ele vestia verde e prateado, e serpentes esculpidas em prata envolviam seus braços. Seus olhos eram prateados também. Ele era aquele que Rabicho havia chamado de o melhor dos Quatro Grandes de Hogwarts, mas não parecia estar ciente da própria grandeza, posto que parecia estar desesperadamente infeliz.

Mas era a quarta pessoa na tapeçaria que havia chamado a atenção de Any. Ela estava entre Slytherin e Gryffindor, e vestia vestes azuis escuras. Havia vários livros em suas mãos, e seus cabelos extremamente encaracolados estavam arrumados em tranças. Havia uma mancha de tinta em sua bochecha, mas isso não parecia um erro na tapeçaria. Ela era bonita, embora não extraordinariamente, então, de certo modo, parecia bastante... viva. Ela se parece comigo? Any perguntou-se mentalmente. Um pouquinho, ela concedeu. Certamente, não havia grandes semelhanças entre as duas. Os olhos de Rowena Ravenclaw eram azuis. Mas tinha alguma coisa. Definitivamente, havia alguma coisa.

Obviamente, isso não deixou Salazar Slytherin – ou o que restava dele – nem um pouco menos louco.

Ele virou-se para ela, e ela viu as tatuagens da Marca Negra – lívidas e terríveis – sobre seu rosto descarnado. Ela quis estremecer, mas não era o mesmo estremecimento que Voldemort havia causado nela. Salazar Slytherin era completamente horrendo, e por vários motivos, tinha sido mau além do acreditável, e não havia dúvidas de que ele a aterrorizava. Ainda assim, Any percebeu que sentia, de certo modo... pena dele.

Não muita. Só um pouquinho.

- Agora – disse ele – Quero lhe contar uma história.

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Noah tirou seu cabelo suado da frente de seus olhos e praguejou sob sua respiração. A caixa de Adamantina não havia se rendido a nenhum de seus feitiços. Noah havia tentado Feitiços de Arrombamento, Feitiços de Amassamento, e chegou até mesmo a tentar executar um Feitiço de Quebramento com ele e Josh segurando a varinha ao mesmo tempo. E nada. Noah quis até tentar um Feitiço Furacão, mas Josh disse que esse tipo de feitiço não podia ser controlado muito bem, e que acabaria por atirar os dois para fora da janela.
Noah acabou desistindo de tentar abrir a caixa com mágica, e havia começado a tentar quebrá-la pela metade, jogando-a contra a parede de pedra. Isso não fez nada além de lhe dar uma dorzinha aguda nos punhos. Furioso, ele jogou a caixa no chão e começou a pular sobre ela, com os dois pés e praguejando.

Quando ele olhou, por fim, para Josh, este estava sorrindo para ele.

- O que foi? – perguntou Noah, irritado.

- Você está ridículo. – disse Josh, balançando a cabeça.

Noah parou, pensativo.

- Estou?

- Não tem problema. – garantiu Josh – Poucas coisas me fazem rir nos últimos dias.

Noah parou de pular e olhou para Josh com uma expressão peculiar.

- Eu te faço rir?

Josh deu de ombros.

- Não é para ficar todo animadinho com isso, não, Urrea.

- Eu só... – Noah suspirou – me sinto culpado.

- Culpado? – indagou Josh – Por quê?

Noah saiu de cima da caixa, abaixou-se para pegá-la, e aproximou-se de Josh, parecendo estar bastante aflito.

- Beauchamp – disse ele – eu tenho que te contar uma coisa.

Josh olhou para ele, surpreso. Noah estava segurando a caixa junto ao peito como se ela fosse um bebê, e seus olhos estavam arregalados e aflitos. Josh jamais havia visto, em toda a sua vida, uma expressão como essa estampada no rosto de Noah. Ele parecia ter engolido uma unha.

- O...o quê é que você tem pra me contar, Urrea? – ele gaguejou – Você está bem? Está morrendo? O quê?

- É sobre Any. – respondeu Noah – É que... você tem sido tão... bem, confiante a respeito de Any e eu sermos só amigos, e eu comecei a me sentir culpado. Quer dizer, não foi nada muito importante, foi só uma vez...

Josh arregalou os olhos e quase gritou:

- Uma vez só O QUÊ?

Noah parecia estar fortemente envergonhado.

- Por favor, Beauchamp, não me faça dizer com todas as palavras.

- Não. – disse Josh friamente – Diga com todas as palavras! Desembuche, Urrea! Eu não estou entendendo.

- Olha, – disse Noah – foi só uma vez, eu acho que ela se sentiu muito mal depois. Você sabe, isso não significa que ela não te ame.

- Se você está querendo dizer o que estou pensando. – disse Josh rapidamente – Eu não acredito em você. – ele deu de ombros. – Não mesmo.

- Não? – perguntou Noah, sorrindo felinamente – Então por que o seu pequeno detector de mentiras não está apitando? O seu... Bisbilhoscópio?

Josh olhou para o próprio corpo violentamente. Era verdade. O Bisbilhoscópio estava completamente silencioso.

- Eu sinto muito, Beauchamp. – disse Noah – Essas coisas acontecem.

- Você sente muito? – perguntou Josh numa voz reprimida – Sente muito? Isso é tudo que você tem pra dizer? Por que... por que nenhum de vocês me contou antes?

Noah deu de ombros.

- Nós não sabíamos como te contar isso. – ele disse. - Any acabou decidindo que era melhor que você nunca soubesse de nada. Talvez ela estivesse certa. – ele disse, olhando para Josh, desconfiado – Você não parece estar aceitando isso nada bem...

Manchas negras estavam dançando na vista de Josh. Ele se lembrava de ter estado com tanta raiva poucas vezes em toda a sua vida, geralmente com Voldemort. Noah está mentindo, disse Josh a si mesmo, mas então, por que o Bisbilhoscópio não apitou? – Eu sempre achei que fosse ser o primeiro – o único – isso explica porque ela está escrevendo para ele durante esse tempo todo, uma carta por dia, eu sabia que isso não era normal...

- Ei! – chamou Noah, cuja voz parecia vir de muito longe – Lembre-se, Beauchamp! Controle, controle, controle...

BANG!

O globo de vidro na mesa explodiu como uma bomba, espalhando água e neve artificial pelos papéis de Lupin. A ninfa do globo gritou. Noah sorriu quando a janela se partiu, e quando a taça de cima da mesa virou caco. Fique bem bravo, ele rezou, Fique bravo o suficiente...

CRACK!

E Noah esquivou sua cabeça quando a caixa de Adamantina que estava em suas mãos se partiu ao meio fazendo um barulho que parecia de ossos se rompendo. Deu certo! Ele soltou a caixa e a espada que havia nela, deixando os fragmentos de Adamantina caírem no chão como uma chuva de pedras, e agarrou a parte frontal da camisa de Josh.

- Eu estava mentindo! – ele berrou, em meio ao som de vidros se quebrando e ventos uivantes – Eu estava mentindo!

Josh olhou para ele selvagemente.

- Você estava o quê?

- Eu estava mentindo! Claro que eu estava mentindo! Agora, pare!

- Você está só com medo. – disse Josh, apertando os olhos quando um peso de papel voou pela sala e bateu numa parede perto da cabeça de Noah.

Noah teve a leve impressão de que Josh estava gostando de certo modo do estrago que estava causando.

- Não seja idiota! – gritou Noah – Você não acha que se eu tivesse dormido com a Any, eu estaria contando vantagem há muito tempo? E quando nós tivemos tempo para isso? Vocês dois estão sempre grudados! Ponha a cabeça no lugar, Beauchamp!

- E o meu Bisbilhoscópio? – gritou Josh teimosamente – Por que ele não apitou, então?

- Por que ele está na sua jaqueta, lá em cima! – berrou Noah – Mongol!

Houve um breve silêncio, quebrado somente pelo leve tinido dos últimos cacos de vidro caindo no chão, e pela furiosa vozinha da ninfa do globo de vidro, que estava xingando os dois. Josh não escutou nada; ele estava olhando para Noah, chocado.

- Mas por quê...?

Ele seguiu o olhar de Noah até o chão da sala de Lupin, agora coberto por água, pedaços de papel e restos da caixa quebrada. A espada estava no pé de Noah; brilhante e prateada como na noite em que a acharam. Noah agachou-se e a pegou com sua mão esquerda, dobrando seus dedos em volta do cabo. Ele a ergueu, mostrando-a a Josh, que a fitou.

- Oh! – exclamou Josh, assim que lhe caiu a ficha – Oh! – ele olhou para Noah, aborrecido – Seu babaca infeliz! – ele exclamou, mas sem muita energia em seu tom de voz – Você não podia ter arranjado outro jeito?

- Me desculpe. – disse Noah, num tom que sugeria que ele não estava nada, nada arrependido – Você disse antes que devíamos usar qualquer recurso que estivesse à mão.

Josh balançou a cabeça.

- Detesto facilitar as coisas para você, Urrea. Detesto mesmo!

- Fácil como tirar doce de criança! – exclamou Noah, sorrindo, e que, em seguida, olhou para suas mãos, que estavam sangrando, pois foram atingidas por cacos de Adamantina – Bem, - ele corrigiu-se – Tão fácil como tirar doce de uma criança muito grande e muito brava.

- Eu estou muito cansado para bater em você, Urrea. – disse Josh calmamente – Mas de resto, esteja certo de que você vai se ver comigo.

Noah não sabia se ele estava brincando ou não.

- Pode deixar! – ele replicou – Agora, vamos embora, vamos sair daqui antes que o Lupin consiga se livrar da Tiara e volte. – ele deu de ombros – Ou pior, antes que eles voltem juntos.

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Quando eles voltaram para o quarto que dividiam, eles acharam Bailey e Heyoon ajoelhados no chão perto do caldeirão. Heyoon estava cuidadosamente tirando alguma coisa lá de dentro. Ela virou-se ao ouvi-los entrar, e fez um gesto para que se aproximassem.
O Feitiço Essencial que ela havia feito não era nem de longe tão bonito ou tão mortal quanto o que havia sido feito por Marius Urrea. Este era um pouco assimétrico, não era um círculo perfeito, parecia ter sido alongado em um dos cantos. Noah olhou para o objeto, desconfiado.

- Ainda não está pronto. – disse Heyoon – Toma! – ela entregou-o a Noah – Segure isso. Eu preciso fazer o resto do Feitiço.

Ele segurou o Feitiço Essencial em sua mão, enquanto ela apontava sua varinha para aquilo. Uma longa mecha de cabelos castanhos caiu sobre o rosto dela quando ela começou a falar, e ela a colocou atrás da orelha impacientemente.

- Ullus res muta. Anima irreti. Sanguinum ad vitrum transmuta!

(tradução do latim para o português: Transforme o objeto. Apanhe a alma. Transmute sangue em vidro!)

Houve um lampejo de luz, e o Feitiço sacudiu na mão de Noah.

- Está pronto. – anunciou Heyoon.

Noah levantou-se, olhando para o Feitiço Essencial, que, como o anterior, era transparente, sendo que este tinha um cacho de cabelos ao invés de um dente. Agora há dois objetos no mundo que podem me matar instantaneamente, ele pensou amargamente, Any tem o primeiro. Em quem mais eu confio tanto a ponto de dar esse aqui?

Ele podia sentir os olhos das outras três pessoas observando-o quando ele andou até a janela, segurando o Feitiço na sua frente, e parou lá, olhando para o que havia do lado de fora. Então, ele fechou seus olhos, deixando tudo passar, assim como ele havia aprendido quando criança, trancado no armário do seu quarto. Ele podia sentir o Feitiço palpitando em sua mão como um pequeno coração, e, embora soubesse que aquilo não era nada além da própria pulsação, ele concentrou-se nisso, segurando o Feitiço Essencial bem apertado... apertado.

Uma torre circular, circundada por árvores. Os muros são de pedra antiga, e negros em algumas partes, como se já tivessem sido queimados. Não haviam pássaros. Imagens passadas rápido: uma saleta sem nada além de um pouco de palha no chão, um homem cuja mão era feita de prata, um corredor cheio de tapeçarias, e Any, seus olhos castanhos cheios de angústia, olhando para ele.

Onde você está? Onde você está?

Ele abriu seus olhos, virou-se, e encontrou o olhar de Josh.

- Sul – disse Noah – Seguiremos ao sul.



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