História Dracula - Capítulo 10


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Categorias Seventeen
Personagens Personagens Originais, Wen Junhui "JUN", Xu Ming Hao "THE8"
Tags Época, Gay, Homossexual, Jun, Jun8, Junhao, Junhui, Lgbt, Medieval, Minghao, Sangue, Seventeen, The8, Vampiro, Wenjunhui, Xuminghao, Yaoi
Visualizações 174
Palavras 12.641
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishounen, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Ficção, Lemon, LGBT, Luta, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Romance e Novela, Seinen, Slash, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


eu sei que eu demorei mais do que deveria, mas juro que posso explicar: na semana em que devia ter atualizado, soube que iria viajar na sexta e só voltaria ao domingo, e já que não sou do tipo de autora que faz capítulos somente para avisos, pensei em atualizar na sexta, mas o capítulo ainda não estava pronto nesse dia, aí pensei "quando eu chegar de viagem, atualizo" mas acontece que o capítulo também não estava prontoKJJJJJK eu juro que me ocupei bastante, por isso não tive oportunidade de atualizar cedo, além dos meus constantes bloqueios criativos, mas o tamanho do capítulo compensa muito.
o capítulo está cheio de cenas de luta muito mal-feitas porque eu sou PÉSSIMA nisso, então tentem imaginar uma música foda ao fundo e uma cena bem jackie chan, eu prometo que tentei ssjsjdjs e o final também não está o que eu esperava
ENFIM, boa leitura! ♡

Capítulo 10 - X - We suck young blood


Elizabeta e Mathias tentavam sopitar os sentidos de Jenica, que permanecia aos prantos por pensar nas inúmeras fatalidades que podiam ter acontecido a Minghao. Enquanto isso, Junhui colocava a insigne capa escura sobre o corpo e velava o rosto, andando a passos impertinentes com o intuito de chegar ao castelo mais egrégio e faustoso de toda a Valáquia: o castelo de Vlad III. A neblina ocupava seu campo de visão, acabando por incomodá-lo, mas não havia nada que impedisse o chinês de granjear pelo que tanto queria. Próximo ao monumento de pedra, não titubeou antes de ganhar impulso e subir o castelo, parando em uma das janelas. Distante, Vlad anotava informações em um pergaminho, sendo coberto pelo insulamento da meia-noite.

— Dragãozinho. — Junhui implicou, entrando no cômodo de grande amplitude. — Espero que não esteja ocupado.

Por minutos, o silêncio zelou o local. O homem logo pronunciou-se:

— Junhui. — vociferou, tendo a voz rouca e arrastada enquanto cerrava uma das mãos num punho. — Quanto tempo.

— Tem um belo castelo. Eu também tinha um, porém, puseram fogo nele.

— Causando muitas intrigas com humanos?

— Seria fácil se fosse com humanos. — parou ao lado de Vlad. — É por isso que vim chamá-lo.

Devido à visão noturna, Junhui não carecia de qualquer iluminação para abranger a capacidade de observar a expressão que se espalhava pelo rosto do mais velho. O homem suspirou, largando o pergaminho para puxar sua cadeira e sentar-se a fim de ouvir o que Junhui tinha a dizer. O vampiro sorriu, pondo as mãos atrás das costas enquanto, aos poucos, a amabilidade desaparecia e oferecia zona à feição austera.

— É a Qian. — ao ouvir aquele nome, Vlad estremeceu.

— Qian não cansa de procurar problemas. — murmurou, massageando as têmporas. — Me diga o que ela fez.

— Um clã. — suspirou. — Um clã que quer acabar comigo. Se ela conseguir, não faço ideia de qual será a próxima vítima dela; talvez seja a humanidade ou, quem sabe, possa ser você, senhor. A Qian, ela... guarda uma quantidade de ódio fora do comum. A mulher é dona de uma personalidade delirante.

— Eu a conheço, Junhui. — levantou da cadeira. — Ela pegou algo seu, não foi?

— Pegou. — Junhui encarou o chão, tentando disfarçar as chamas de ódio que brilhavam em seu olhar. — Vim solicitá-lo para me ajudar a acabar com Qian e o clã dela.

Vlad III permaneceu de lábios juntos, ausente à produção de qualquer palavra ou ruído. Ele virou-se e diminuiu a distância que ocupava o espaço partilhado com Junhui. Suavemente, acariciou as madeixas longas do mais novo, permitindo que um suspiro desditoso fugisse de seus lábios. Junhui ergueu o olhar, já prevendo qual seria a futura resposta do monarca.

— Eu gostaria de ajudá-lo, Junhui, porém, você sabe que não faço mais parte desta vida. Pela primeira vez, posso agir normalmente. Consegue entender?


      — Eu entendo, senhor, e respeito seu direito de viver pacificamente, mas não é só a minha "vida" que está em jogo. Preciso que me ajude.


O homem, mais uma vez, suspirou, checando os traços do imortal. Soltou um murmúrio ininteligível e acendeu uma vela, colocando-a sobre a mesa e pegando um livro grosso dentre as prateleiras enormes e repletas de conhecimento. Passando o indicador por uma das diversas linhas, ainda a estar com os dedos trêmulos, pediu para que Junhui apanhasse uma estaca de madeira que repousava na gaveta. Assim o fez, encostando a ponta úmida do objeto no peito de Vlad para, em seguida, perfurar enquanto acertava uma mordida brusca no monarca. Não demorou muito para que o corpo do homem se chocasse contra o chão, fazendo Junhui sorrir e saber que Qian não sairia vencendo do conflito.


Vlad Tepes, conhecido como Vlad III, era um monarca que tinha conseguido apoderar-se do trono valaquiano por poucas vezes e que o faria novamente. Porém, poucos sabiam do segredo do homem de olheiras profundas; poucos sabiam que o moreno carregava uma outra vida consigo. Existindo desde a Era Mesopotâmica, Vlad sofreu uma mutação no sangue ao ser alvo de ataques misteriosos e animalescos. Da noite para o dia, empalideceu, seus dentes passaram por uma eclosão insólita, e o estômago só começou a ficar satisfeito depois de proveitosas doses de sangue. Durante os anos nos quais viveu, Vlad infectou outros cidadãos, embora poucos sobrevivessem e, dentre eles, os mais antigos se destacavam: Wen Junhui e Song Qian devido à idade alongada e o fato de terem suportado a caça humana. Há tempos, Junhui sempre possuiu mais habilidades que Qian, talvez pelos duzentos anos de superioridade quando o assunto era idade, trazendo toda a atenção de Vlad somente para si. Qian, odiando a rotina de morto-vivo e derretendo por conta da inveja, abandonou seu criador e jurou mostrar-lhe que podia ser melhor do que Junhui carregando um objetivo fora do comum: torturar e, em seguida, matar o colega.


Devido à conexão que nutria com seu mestre, tinha inúmeras dificuldades ao tentar cometer um afastamento sem falhas, contudo, certo dia, Vlad desistiu da monotonia vampiríca e, através de um processo alquimista, transformou-se em cinzas. Assim feito, as cinzas foram postas sobre o ventre de Cneajna da Moldávia enquanto ela dormia, o que resultou numa maldição jogada à mulher, que acabou dando a luz a um príncipe, ou seja, à reencarnação de Vlad. Por ter renascido como um humano, ele libertou todos os vampiros em atividade que ainda lhe serviam.


Junhui, apesar de ter sido largado, ainda prestou respeito ao mestre, o vendo assumir o trono da Valáquia e observando todas as desavenças pelas quais o monarca passava. Qian, ao contrário do mais velho, afastou-se completamente e começou a originar um clã, chamando qualquer vampiro que guardasse rancor de Junhui. Vinte e cinco anos depois, Vlad III faria uma coisa que nunca imaginaria: voltaria ao vampirismo.


Mesmo humano, o homem sempre continuou com os desejos sanguinários, por mais que tais pretensões não se baseassem, diretamente, na alimentação. Ele tinha costumr de manter cadáveres empalados dentro de seu castelo, não dando importância aos boatos que se espalhavam, afinal, servia para aterrorizar impérios rivais. Para acabar com a humanidade que existia dentro de si, era necessário que realizasse o seguinte procedimento: chamaria sua criação mais velha para mordê-lo e enfiar uma estaca recheada com freixo, esta que devia atingir suas costas de maneira certeira. Contudo, em compensação, Vlad não poderia mais voltar à vida humana, nem que repetisse o ritual de duas décadas atrás. Com vinte e cinco anos na idade humana, possuindo incontáveis milênios na idade vampírica, Vlad retornaria a comandar um dos exércitos de vampiros mais poderosos.


Vlad era o nome que seus pais lhe tinham concedido. O homem havia frequentado tantos acontecimentos, que nem lembrava da designação de quando fazia parte da vida humana pela primeira vez, há milênios e milênios atrás. Ele só era denominado por Vlad há vinte e cinco anos, porém, durante seu percurso como vampiro, ganhou inúmeros nomes diferentes. Assim, o monarca usaria o nome que lhe foi designado ao participar da Ordem do Dragão: Drácula.


Quando a luz do sol fez-se presente por determinados países da Europa Central, Qian sentiu que uma coisa estava caminhando para o pior.


— Senhorita Qian? — Xukun chamou o nome da mulher, apreensivo.


— Hum? — balançou-se sobre o trono onde sentava, parando com os devaneios.


— A senhorita está bem? Digo, começou a olhar para o nada de maneira tão repentina. Aconteceu algo?


— Fique tranquilo. — pôs uma mecha atrás da orelha, sorrindo enquanto mostrava os dentes pontudos. — É apenas um mau pressentimento.


Xukun assentiu com a cabeça e fez uma pequena reverência, logo indo ao encontro de Ziyi e Chengcheng, que tagarelavam a respeito do mortal situado na torre mais alta. Xukun perguntava-se o motivo de os amigos estarem tão vidrados no simples adolescente, principalmente Chengcheng, que sempre arreganhava os lábios para mostrar os caninos quando qualquer colega fazia uma brincadeira sobre "brincar" com o garoto.


— Eu estou faminta. — Meiqi comentou, aparecendo rente aos dois garotos. — Transilvânia é um local com pouca povoação.


— Temos comida aqui. — Ziyi afirmou, esticando o canto dos lábios


— Não podemos comer a isca. — Xukun intrometeu-se no diálogo, assustando o trio. — O mortal será usado apenas para atrair o Junhui. Depois, quando a senhorita Qian conseguir matá-lo, libertaremos o garoto.


— Vocês acham mesmo que conseguiremos matar o Wen? — Chengcheng jogou no ar. — Ele é um vampiro milenar, além de ser uma criação de outro vampiro ainda mais antigo.


— Senhorita Qian também é milenar e, também, é criação do mesmo mestre que o Junhui. Aliás, ela tem a nossa ajuda. Será uma quantidade imensa contra um único vampiro.


— Mas, Xukun, o criador da Qian possui diversas criações, lembra? E boa parte é bastante velha e experiente. Se nós lutarmos contra eles, é bem provável que a maioria de nós acabe morrendo. — Meiqi explanou suas incertezas, suspirando.


— Há vários vampiros dele por aí, então não será muito fácil encontrar todos. O chefinho pode chamá-los com a conexão, porém, a comunidade vampiríca inteira sabe que ele largou a vida de vampiro para exercer o papel de um dos governadores de Valáquia. Agora, ele possui uma esposa, que está grávida. Acham mesmo que ele largaria uma vida de notoriedade e poder para voltar às trevas?


— A alquimia é um processo muito poderoso. — Ziyi se manifestou. — Eu gosto de ser vampiro, mas, se tivesse oportunidade, experimentaria o gostinho de respirar e de se alimentar de comida comum.


— De qualquer forma, é melhor que fiquemos de boca fechada. — Xukun aconselhou. — A madame Song não gosta muito de quan-


— Do que eu não gosto, Xukun? — Song Qian apareceu perto do pequeno grupo, depositando olhares julgadores sobre cada um. — Estão desconfiando da força de nosso clã?


— Não, madame, estamos apenas discutindo a respeito de algumas probabilidades. — o garoto respondeu, tremendo.


— Probabilidades. — repetiu com desdém e se dirigiu ao altar, sentando-se na mesa. — Escutem-me, seus inúteis! É o seguinte: todos vocês possuem um potencial fora do comum, vocês lutarão contra um único vampiro insignificante e apenas me darão reforços, porque eu irei matá-lo sozinha e farei questão de lhes mostrar a maneira como vou torturá-lo. Se acham que não são capazes, podem sair por aquela porta, mas, lembrem-se que estarão perdendo uma oportunidade rara.


Chengcheng cerrou as mãos em punhos, sabendo que não sairia dali nem que lhe pagassem, afinal, sua vingança precisaria tomar início. Meiqi soltou um longo suspiro e saiu de perto dos três rapazes, sentando-se sobre o chão enquanto sentia o estômago revirar em sinal de fome; sabia que não continuaria sã por muito tempo caso não fosse servida logo. Xukun, assustado, desculpou-se pelo incidente e foi monitorar o lado externo, deixando Chengcheng e Ziyi atentos ao falatório estratégico de Qian.


Em Valáquia, Vlad abria os olhos e empurrava a tampa do caixão, se assemelhando a um verdadeiro clichê. Ele estava faminto, e Junhui rapidamente jogou um soldado aleatório contra o mais velho, observando a alimentação dele. O chinês pegou um traje propício para o europeu e entregou-lhe, o vendo vestir a roupa e fazer questão de pegar um caco de vidro para cortar os extensos cabelos. Junhui estranhou, mas nada disse, concentrando-se nos passos lentos de Drácula, este que debruçou-se sobre a janela e encarou a vastidão abaixo de si, apertando os dedos contra as pedras enquanto parecia perdido entre os próprios pensamentos.


— Eu consigo sentir. — murmurou, concentrado. — Ela não está longe.


— Não se esforce, senhor. — pediu, pondo a mão sobre o ombro de seu mestre.


— Qian... — fechou os olhos, tombando a cabeça para trás.


Drácula forçava a mente ao mesmo tempo que procurava telepaticamente a possível localização de Qian. Normalmente, vampiros tinham uma certa conexão com seus subordinados, porém nem sempre funcionava e era comum que não servisse no caso de Qian e Drácula, afinal, o laço dos dois havia sido rompido após o homem ter decidido prosseguir com uma vida humana e afastada de suas criações. Junhui estava quase mandando o superior parar, mas o próprio o interrompeu:


— O que a Qian pegou de você?


— Como?


— Você me disse que ela tinha pego algo seu. O que ela pegou?


Junhui hesitou, contudo respondeu:


— Alguém.


— Um ser humano? — Junhui assentiu. — Ótimo.


Wen ficou confuso devido às palavras de Vlad e ouviu uma movimentação, logo espremendo-se ali para enxergar do que se tratava. Diversos vampiros situavam-se no solo, alguns aparentavam estar perdidos, até que Junhui abriu os olhos e compreendeu quem eram.


— Eles sentiram. — o monarca falou por Junhui.


— Acha que a Qian também sentiu?


— Espero que não. — sorriu de canto. — Ela adora surpresas.


No bar de Jenica, a mulher ainda chorava em cima do balcão enquanto Elizabeta realizava autópsias nos cadáveres, e Mathias limpava o sangue com o auxílio de um esfregão. Era difícil defrontar, principalmente quando seu filho estava desaparecido. A mãe não parava de refletir, até que um movimento fora do casebre se fez presente. Elizabeta, receosa, deixou os cadáveres de lado e se aproximou da porta, entreabrindo enquanto encarava a região externa. A mulher deu alguns passos para trás ao ver um conjunto de soldados, tremendo por inteiro.


— O que foi? — Mathias perguntou, utilizando a tonalidade mais comum que lhe era capaz.


— Silêncio. — Elizabeta sussurrou a tremedeiras. — São soldados.


— Soldados? — agora, o homem também sibilava. — O que fazem aqui? É uma região afastada! Digo, estamos longe de Targoviste, então...


— E você acha que eu sei? — fechou a porta, encarando o marido. — O que faremos?


— Por que estão sussurrando? — Jenica inquiriu, descendo do balcão e secando as lágrimas.


— São membros do exército. — a cacheada afirmou, pedindo silêncio. — Por que estão aqui?


— Jenica Cronqvist? — um soldado falou alto, estando do lado de fora. Jenica revirou os olhos porque odiava quando lhe chamavam pelo nome de solteira. — A senhorita está em uma terra que, agora, é propriedade de um senhor, e ele tem reclamado por não receber os impostos necessários para que continue morando aqui. É preciso que a senhorita pague o tributo senão será despejada, afinal, é uma obrigação feudal visto que você é apenas uma camponesa.


Jenica, trêmula e indignada, rebateu:


— Mas eu trabalho neste bar.


— De qualquer maneira, o bar faz parte da propriedade, mesmo que a senhorita trabalhe aqui há muito tempo. Você faz parte de uma das classes mais baixas, Jenica, então não tem o direito de argumentar. Abra a porta ou arrombaremos.


Jenica titilou, perguntando a si mesma se os soldados eram do reino ou do tal senhor. Ela amaldiçoou-se devido à falta de sorte, afinal, por que tinham que pleiteá-la logo no dia em que havia flagrado a prova da morte da maioria de seus clientes? A viúva suspirou e apanhou uma quantidade de dinheiro da gaveta, chegando mais perto da porta e entreabrindo para entregar.


— Isto é tudo? — o soldado perguntou ao arrancar as moedas da mão da mulher.


— É o máximo que tenho. Sou miserável, lembra?


Uma risada grave pôde ser escutada e, no momento seguinte, o soldado chutou a porta de supetão, fazendo Jenica cair no chão e sujar-se quase que por inteiro. O homem, horrorizado, chamou o restante de seus companheiros para verem a cena, tais quais também assustaram-se.


— É uma cha-chacina? — gaguejou.


— Deve ser algum tipo de ritual satânico! — o outro complementou. — Vamos contatar o clero!


E, naquele momento, Jenica soube que se juntaria ao ex-marido.


Vlad e Junhui haviam descido do castelo e chegado ao solo, podendo ter contato maior com os outros vampiros. Por mais que não quisesse demonstrar, o vampiro mais velho dentre todos estava feliz por ver todas as suas criações unidas novamente, o que raramente acontecia.


Zhou Mi, que fora transformado quinhentos anos após Junhui, teve um caso com Qian e guardava habilidades extraordinárias quando a questão se baseava em reflexos devido aos ouvidos aguçados que lhe permitiam prever cada movimento do oponente; Yixing possuía quase mil anos e era um verdadeiro profissional em artes marciais; Levi, o que mais chegava perto da idade de Qian e carregava uma velocidade anormal até para vampiros; Lissa, uma ruiva que se escondia diariamente de religiosos, possuindo uma sede incontrolável de sangue e merecidas habilidades de caça; Luna, uma italiana que foi transformada em vampira durante uma guerra civil, o que a tornou cética e insensível, não tendo piedade ao matar suas vítimas, e, claro, Junhui, o vampiro mais velho dentre todas as criações de Vlad, que, apesar de parecer absorto e desinteressado, tinha algo em excesso: fúria. E essa fúria não era muito agradável de se presenciar.


Na idade mortal, Junhui era o mais novo porque tinha sido transformado aos vinte anos de idade, enquanto o restante ultrapassava tal faixa e já era da casa dos trinta ou dos quarenta, porém, a idade vampírica de Junhui contradizia essas informações. O grupo de vampiros não possuía muito tempo para diálogos, portanto Junhui foi rápido e tirou a capa das costas, pedindo que Lissa a cheirasse. A ruiva pegou a peça de roupa e aproximou o nariz do tecido, passando a língua por entre os lábios ao inalar a fragrância da capa escura.


ー Sangue humano. ー ela mordeu o lábio inferior. ー É a sua refeição, Junnie?


ー Ele é mais do que isso. ー foi claro, sem dar muita importância ao apelido. Talvez Junhui tivesse amolecido.


Lissa soprou uma risada maliciosa e entregou a capa aos companheiros, estes que também a cheiraram, inclusive o mestre do grupo. Em seguida, o mais velho solicitou que formassem duplas e fossem para todos os cantos de Valáquia, procurando em qual ponto cardial o cheiro ganhava mais destaque. Parecia um plano inútil, mas o superior tinha plena certeza de que Qian não havia ido longe. Lissa e Yixing se dirigiram a determinado local, e Luna e seu mestre foram a outro, fazendo com que Levi, Zhou Mi e Junhui precisassem agir como um trio. Os três caminharam em meio às árvores, atentos a qualquer odor semelhante.


ー O que você quer com o dono deste sangue, Jun? ー Levi indagou enquanto farejava todos os lados que o cercavam.


ー Não vê que o garoto está apaixonado, Levi? ー Zhou Mi zombou, rindo no momento seguinte.


ー Por um mortal? Pensei que fosse mais inteligente, afinal, um vampiro da sua idade deveria ver mortais como uma ameaça quando o assunto é relacionamento amoroso.


ー Se relacionar com outros vampiros também não é boa ideia. ー suspirou o mais alto. ー Querem ficar com você pela eternidade e, caso você negue, tentam matá-lo.


ー Você nunca devia ter entrado num relacionamento com a Qian.


ー O que foi? Eu e ela éramos de épocas semelhantes, lugares iguais, então achei que seria uma bela oportunidade de fazer mais amizades dentro do grupo se ficássemos mais próximos.


ー Ela tentou matar você, no final das contas. ー Junhui, que até então estava calado em meio ao diálogo dos dois, argumentou.


Zhou Mi e Levi permaneceram calados por alguns segundos, ainda processando a fala do outro. O chinês mais alto suspirou por saber que era, sim, verdade, embora fosse trágico. Os três voltaram para o clima de silêncio, ficando mais atentos ao cheiro. Por mais que não quisesse mostrar, Junhui estava morrendo de ansiedade por dentro e não parava de pensar nas coisas horríveis que podiam ter feito com Minghao. E se já tivessem assassinado o garoto? Ou pior, se estivessem torturando ele?


O trio continuou a caminhar por todos os lados durante trinta longos minutos, até que escutaram o chamado do mestre. Em segundos, voltaram ao ponto de encontro, e Drácula permitiu que Yixing falasse:


ー Qian está mais perto do que imaginamos. ー sorriu largo e guiou o olhar a Drácula, que também sorriu.


ー Vamos à Transilvânia. ー o superior suplementou.


Junhui festejou internamente ao cogitar a possibilidade de encontrar Minghao, tendo de controlar os lábios para não separá-los em um gracejo ou sorriso de orelha à orelha. As criaturas, conhecedoras daquela região, caminharam a passos rápidos na direção da Transilvânia enquanto usavam o olfato apurado.


Dentro da catedral, Chengcheng observava Minghao com tamanha cautela, sorrindo a cada movimento do rapaz. Em pouco tempo, Ziyi entrou, desconfiando da maneira com a qual o vampiro encarava o mortal.


ー Pensei que a Meiqi estivesse encarregada de vigiá-lo.


ー Meiqi está morrendo de fome. ー Chengcheng retrucou. ー Se ela ficar aqui, provavelmente não refreará os instintos e sugará todo o sangue do Minghao.


ー Você o chama pelo nome, interessante.


ー Eu só reconheço que ele é um ser humano, como todos nós já fomos, e não um animal que pode ser leiloado.


ー Politicamente correto. ー Ziyi debicou, erguendo as mãos em função de rendição.


ー Afinal, por que veio?


ー Bom, alguns membros responsáveis pela escolta sentem que o Junhui está chegando.


Chengcheng gelou, logo descendo o olhar a Minghao.


ー E, para piorar, também acham que ele não está sozinho. ー continuou. ー Está amanhecendo, ou seja, os outros terão que voltar para dentro daqui a pouco.


ー Nós estaremos fodidos.


ー Cale a boca, Fan. ー revirou os olhos. ー Qualquer coisa, é só entregar o mortal a ele, assim sairemos em paz.


ー Entregá-lo. ー Chengcheng murmurou, ainda encarando Minghao. ー Não vou entregar o Minghao a ele.


ー O quê? Não me diga que está sentindo algo pelo humano.


ー Não! ー virou-se para o parceiro, engolindo em seco. ー Quis dizer que não vou entregar o Minghao porque lutarei com o Wen até a morte. Preciso ter minha vingança.


Ziyi encarou o colega por um período de tempo indeterminado, porém permaneceu de boca fechada e meneou a cabeça, saindo do quarto e chamando o outro vampiro para acompanhá-lo. Chengcheng suspirou e olhou mais uma vez na direção de Minghao para, em seguida, seguir Ziyi. Qian não parava de sentir tremores enquanto repousava acima de seu trono, apertando os braços da cadeira suntuosa enquanto sua mente bagunçava-se em milhões de paranóias supérfluas. De longe, Drácula e suas criações caminhavam até a catedral conforme o olfato de Junhui e a telepatia do mestre.


— É aqui. — Vlad afirmou, parando a metros da construção. — Lembrem-se que são vampiros, como nós, então podem rastrear cada movimento impreciso.


— São novatos. — Zhou Mi murmurou.


— Exatamente uma centena de novatos.


— Seis contra cem. — Luna utilizou seu sotaque carregado. — Creio que será uma tarefa complicada.


— O problema dela é comigo, não com vocês, por isso podem ir. De qualquer maneira, obrigado pela ajuda. — Junhui se pronunciou.


— Nós ficaremos com você. — Lissa abraçou o chinês por trás. — Eu odeio a Qian.


— Não comecem com sentimentalismo barato, por favor. — Yixing pediu. — Sem frivolidades.


— Concentrem-se. — Levi, com seu jeito calculista e profissional, avisou enquanto escondia-se atrás de uma árvore. — Temos planejamento?


— Precisamos que alguém distraia eles. — Luna sugeriu.


— Ou podemos esperar até o amanhecer para que eles saiam, assim fica mais fácil. — Zhou Mi acrescentou.


— Somos como eles, lembra? Também não podemos ficar expostos à luz do sol. — Lissa lembrou, revirando os olhos. — Ao menos que exista algum diurno aqui.


— Sem brincadeiras. — Levi repreendeu, recheado de fastio. — Senhor, o que sugere?


— Precisamos atacá-los, mas sem chamar muita atenção. Levi, você é o mais rápido, então se esconda numa árvore facilitadora da maneira mais discreta que conseguir. Quando enxergar uma oportunidade, ataque cada um de tal forma que não tenham tempo para conectar Qian ou outros do clã. Seja silencioso.


Coincidia a uma tarefa morosa para qualquer um, porém, para Levi, era apenas mais uma forma de diversão. O homem de cabelos negros saltou de árvore em árvore à procura de um esconderijo benéfico para a missão na qual tinha infiltrado-se. Drácula olhou para suas criações e tratou de ser direto:


— Quando Levi conseguir deter os vigilantes, vocês entrarão na catedral, porém, sejam cautelosos.


— Acha que o Levi consegue? São muitos para ele. — Lissa receou.


— É o Levi. — Junhui frisou. — É claro que ele consegue.


— Mas, senhor, não vamos entrar com você?— Yixing indagou, na dúvida, recebendo uma negação em retorno. — Por quê?


— Mesmo tendo cortado boa parte da ligação, ainda sou responsável por Qian. Ela pode usar sua intuição para deduzir que entrei.


Levi, que permanecia em silêncio por entre os galhos das árvores, esperou o momento certo para agir. Os vampiros suspeitavam bastante do que estava para acontecer, era evidente a desconfiança de cada um, portanto Levi tinha de ser o mais habilidoso que conseguia, pondo toda a sua aptidão naquela tarefa. O de olhos azuis apanhou sua balestra de madeira, tendo cuidado para não tocar as partes férreas, e pegou uma flecha para, em seguida, tirar um fósforo do bolso e o acender com a sola de seu sapato. Levi encaixou a flecha em chamas na balestra e mirou no alvo com sua visualização dilatada, atirando e trocando de árvore o mais rápido que lhe era capaz. A arma atingiu as costas de um dos vampiros, este que estava situado acima de uma gárgula, o fazendo cair. Os outros imortais que escoltavam a construção foram ao colega machucado, verificando o local de onde a flecha tinha surgido. Enquanto a maioria medicava o ferimento, o mais alto dentre eles sabia que era uma armadilha, por isso entrou na floresta e correu atrás dos sons que adentravam-se por seus ouvidos. Dentro da catedral, Qian ouviu o grito do subalterno, portanto mandou que o clã se dividisse em cômodos distintos pertencentes à arquitetura da igreja e se preparassem para o pior. Levi saltava de árvore em árvore, ouvindo os passos atrás de si e adorando o som do perigo. Com um pulo de larga distância, pousou os pés sobre o teto da igreja, causando um ruído razoável. O maior desejo do ocidental era que Qian não desse ouvidos a qualquer alerta da conexão que tinham. O homem caminhou a passos lentos e calmos, mas fora surpreendido com o soco que lhe fora desferido.


— Você é um capanga do Jun, não é? — o novato perguntou, aproveitando que Levi estava vulnerável para o esmurrar novamente. — Ele é tão covarde que não vem sozinho.


O vampiro mais velho não respondeu, apenas desviou do outro soco com sua rapidez, parando equilibrado numa torre. O rapaz admirou-se com a agilidade do de olhos azuis, querendo, de vez, dar um fim naquela feição de tédio que descansava na frente de seu rosto.


— Por que não lutamos como homens? — Levi sugeriu, surpreendendo o outro. — Ou será que você ainda não é um? Suponho que a puberdade não tenha chegado.


O mais novo rangeu os dentes, cerrando as mãos em punhos.


— Aceito.


Levi, pela primeira vez na noite, abriu um sorriso, pondo a besta sobre o piso do teto no momento seguinte. O vampiro, que também estava armado, colocou a adaga de dois gumes perto de seus pés, logo avançando contra o moreno. Levi nunca foi perito em luta, não era como Yixing, mas, em compensação, era rápido como um leopardo e, literalmente, quando alguém piscava, ele já estava em outra localidade.


— Como é o seu nome? — o mais novo perguntou enquanto desviava dos toques de Levi.


— Que tal me dizer o seu? — tentava desesperadamente socar o outro, por mais que a feição fosse calma.


— Linong. Agora, me diga o seu.


— Não gosto de revelar a minha identidade. — aproveitou o momento de distração para acertar um soco no nariz dele, o fazendo cambalear para trás e cair. Linong já ia levantar, mas Levi, rápido como era, aproximou-se dele e rodeou-lhe o pescoço com os dedos, sentando em seu quadril.


— Não vai conseguir matar a mim se utilizar uma técnica de enforcamento. — murmurou. — Não tenho a necessidade de respirar, lembra?


— É, eu sei. — dessa vez, usou apenas uma mão para fazer pressão no pescoço de Linong, erguendo a mão livre para permitir que garras crescessem e perfurassem os olhos do menor.


— Puta merda! — exclamou, sendo solto por Levi, que sorria. — Eu vou acabar contigo!


Levi apenas gargalhou e esperou que o vampiro, agora cego, caminhasse até ele e tentasse socá-lo. Embora estivesse sem a capacidade de ver, o olfato de Linong podia farejar os passos de Levi.


— Maldito! — Linong profanou, quase alcançando Levi, mas fora impedido assim que uma estaca de maneira perfurou seu peito repentinamente.


— Surpresa. — Zhou Mi murmurou.


— Por que fez isso? Eu estava achando divertido. — bufou, afastando-se do vampiro morto. — E como chegou aqui?


— Você demorou, então demos um jeito nos outros. Aliás, a Qian provavelmente já percebeu um movimento aqui, por isso deve ter planejado alguma coisa. Que parte de "seja silencioso" você não entendeu?


— Eu fui silencioso. Os novatos que gritam e exclamam por qualquer acontecido. — rebateu. — Aquele cheiro está próximo.


— O da capa do Junhui? — indagou, fungando. — Vem daquela torre.


Levi virou a cabeça para olhar e assentiu.


— Devemos ir?


— Não, não agora. — respondeu o chinês. — Vamos prosseguir com o plano do senhor. Podemos entrar por outra torre.


Levi assentiu e se aproximou de outra torre com Zhou Mi, quebrando o vitral com um único murro para poder entrar. Zhou Mi rolou os olhos para cima, odiando a personalidade exibida de Levi, e entrou com o parceiro. No solo, Junhui, Lissa, Luna e Yixing encaravam a porta dupla, pensando se era uma boa alternativa entrar de tal maneira.


— O Levi e o Zhou Mi foram por cima, é uma boa estratégia. — Yixing comentou. — Podíamos entrar por outra localidade. Digo, não acham óbvio demais entrar pela porta da frente?


— E por onde nós entraríamos, Yixing? — Lissa perguntou, tamanho era o seu desdém.


— Pela janela de uma nave colateral. — Junhui murmurou mais para si mesmo do que para os companheiros, fazendo uma ideia surgir. — Podíamos nos reunir em duplas. Cada uma entraria em uma nave colateral diferente. Eu e o Yixing vamos pela direita, as duas para a esquerda.


— E o que vamos encontrar em uma nave colateral? — Luna perguntou com a voz desalmada, como sempre.


— Nada. — Yixing disse. — Muito melhor do que ser surpreendido. Agora, como iremos entrar?


— Só é preciso ganhar impulso. — Lissa respondeu enquanto afastava-se consideravelmente da arquitetura, pondo o máximo de força em seus pés, e corria na direção da parte indicada. A ruiva conseguiu subir a maioria e, quando seus pés fraquejaram, ela escalou com o auxílio de suas adagas, sempre as segurando pelo cabo amadeirado.


Yixing sorriu e trocou um olhar cúmplice com Junhui, pedindo para que o Wen subisse em suas costas. De primeira, achou o pedido desconexo, mas o fez e conseguiu entrar na nave com o Zhang, quebrando o vidro em cacos e rolando pelo chão. Lissa e Luna haviam entrado de maneira mais sutil, o que não chamou a atenção, enquanto o feito de Junhui e Yixing devia ter cometido um estrondo e tanto. Os dois chineses caminharam pelo interior da nave, encarando a estátua da Virgem Maria, que era rodeada por velas conforme boa parte do ambiente permanecia na escuridão. Devido à visão noturna, aquilo não foi problema, portanto ultrapassaram as arcadas e dirigiram-se ao salão principal, buscando qualquer ameaça.


— Acha que tem alguém aqui? — Yixing murmurou a Junhui.


— Ah, tem, com certeza tem! — uma voz desconhecida destacou-se, assustando os dois rapazes. — Junhui, eu vou dar um fim na sua vidinha medíocre para você aprender a não brincar com a dos outros.


Junhui guiou o olhar na direção da voz alheia, encontrando uma dúzia de garotos. Rapidamente, Junhui e Yixing ficaram de costas um para o outro, quase se encostando enquanto entravam em posição de luta e tentavam não se separar, girando devagar para divisar todos os lados que os cingiam.


— Eu estou morto. — Junhui respondeu ao garoto. — Creio que você também esteja, mas, mesmo assim, vou adorar brincar com o que você chama de vida.


Ambos os garotos atacaram: seis contra Junhui e seis contra Yixing. A dupla teve que ficar mais distante para poder desviar dos golpes mais precisos, o que não era empecilho para nenhum dos dois. Enquanto um tentava introduzir uma estaca em Junhui, ele flexionou-se para trás e fez com que o responsável pelo golpe, consequentemente, acabasse atacando seu parceiro que também estava na tentativa de acabar com o veterano. Aproveitando o choque do rapaz, segurou os cabelos dele e chocou a cabeça do próprio contra a do parceiro morto pela estaca.


Yixing parecia estar em um parque de diversões, passando a perna por baixo das dos garotos e os fazendo cair enquanto impedia os golpes e aproveitava a distração alheia para poder mostrar suas habilidades de luta. Sinceramente, ele pensou que seria mais difícil. Lissa e Luna observavam, de longe, o que os dois rapazes praticavam, não hesitando ao se juntar a eles para dar fim no restante dos novatos.


Por outro lado, Zhou Mi e Levi desciam as escadas de uma torre, atentos a qualquer movimento. O chinês, com seus reflexos precisos e ágeis, e o eslavo, com sua velocidade fora do comum, formavam uma dupla invencível para aqueles menos poderosos. Eles estranharam a falta de som. O lugar era tão silencioso que, se ambos não fossem vampiros, ouviriam o coração bombeando sangue para o restante do corpo. Os dois tiveram uma grande surpresa assim que encontraram três vampiras aparentemente muito mais novas, tanto na idade vampírica, como na humana. Uma delas tremia, mas as outras duas se mostravam resistentes e confiantes.


— Podem-nos dar licença? — Levi perguntou, o tom de melancolia sempre evidente.


— Licença? Sério? — a líder do trio, que incrivelmente tinha cabelos loiros mesmo com traços asiáticos, indagou. — Não sabia que ratos eram tão cavalheiros.


— Nós não lutamos com crianças. — ele abriu um sorriso.


— Acho que vamos arriscar. — murmurou, chegando mais perto.


Quando a garota estava prestes a golpear o belo rosto de Levi, Zhou Mi segurou-lhe o pulso e fitou a profundidade castanha dos olhos dela, mantendo uma feição séria e maléfica em seu rosto. A menina pôde escutar o ruído dos ossos rachando por conta do aperto provindo do veterano, enquanto uma delas lutava bravamente com Levi, mesmo perdendo. A vampira que antes tremia, perecia no canto do local, encolhida e visivelmente amedrontada. Levi não desejava encostar um dedo na moça, porém, estava acostumado com os truques e artimanhas de seres pertencentes à sua raça, portanto não teria dó ao arrancar respostas da jovem.


— Solte-me. — a loira implorou a Zhou Mi, embora tentasse mostrar resistência e antipatia.


— Sua pele é fria como o inverno. — ele murmurou, fazendo a garota aproximar-se de si para fitar-lhe os olhos enquanto as íris abraçavam uma tonalidade avermelhada.


— Seus olhos... — sussurrou, hipnotizada.


Zhou Mi sorriu de canto ao tê-la entregue a seus braços, percorrendo a ponta dos dedos pela coluna da garota para, por fim, interceptar-se no pescoço dela e quebrá-lo de maneira brusca, rompendo as ligações que ali existiam até vê-la inconsciente e oficialmente morta. Levi, durante o espetáculo do parceiro, pegava sua besta e assassinava a outra vampira a flechadas, enquanto a terceira apenas gritava e chorava de medo. Zhou Mi e Levi entreolharam-se, retribuindo sorrisos maldosos para, já armados, guiarem-se à vampira dúbia.


Quando Yixing, Lissa, Junhui e Luna deram fim a todos os vampiros do salão, seguiram à frente, sem pestanejar ou correr atrás. Junhui, agora sujo de sangue e com a camisa rasgada ao meio, não segurava a vontade de encontrar Minghao e fugir dali. Seu principal intuito não se baseava em matar Qian, porém, se fosse para acabar com a mulher, ele não pensaria duas vezes ao fazê-lo. Lissa olhou para ambos os lados à procura de presenças suspeitas, mas nada achou, a fazendo continuar seu trajeto enquanto era acompanhada por três de seus parceiros. A surpresa não foi muito grande assim que mais um conjunto de vampiros deu as caras. E, mais uma vez, eles precisaram lidar com isso.


Voltando para Valáquia, Mathias berrava a plenos pulmões enquanto apertava os dedos nas grades enferrujadas, sendo ignorado e repreendido pelos soldados carrancudos e com expressões de poucos amigos. Elizabeta compreendeu a exasperação do marido, porém apenas o chamou para sentar-se ao lado dela e esperar que suas vidas cessassem na frente de um público sádico e religioso, como uma forma de entretenimento peculiar.


— Eu não posso morrer. — Mathias reclamou. — Nós nem tivemos filhos ainda, Elizabeta! Eu não aproveitei a vida da maneira correta.


— Eu também não quero morrer, Mathias. Há experimentos que ainda não concluí, e quem cuidará de nosso cãozinho? Não podemos ir agora, mas, infelizmente, a escolha é escassa para uma situação como essa.


— Não posso deixar o Minghao sozinho. — Jenica choramingava ao canto da cela, abraçando os joelhos. — Ele já perdeu o pai, então como reagirá ao choque de virar órfão por completo? Durante sua vida inteira, nunca o preparei para o mundo e, agora, ele ficará sozinho, sem um pai ou uma mãe. Meu filho só tem dezesseis anos! Ele irá morrer nas ruelas sujas de Targoviste enquanto ergue a mão em busca de um pedaço de pão...


Elizabeta e Mathias, atônitos, observavam a estadia emocional de Jenica. O casal entreolhou-se e chegou mais perto da pobre mulher, que derramava lágrimas em função de preocupação para com o jovem filho. Mathias pôs o braço ao redor dos ombros de Jenica, e Elizabeta segurou a mão titubeante da castanha.


— Talvez isto soe adolescente demais para a nossa idade, mas você é minha primeira amiga. Não nos conhecemos nem há um dia, mas existe coisa melhor que se conhecer pela mitologia? — a cacheada começou.


— Mitologia que não é tão mitológica assim. — Mathias prosseguiu. — Foi uma aventura e tanto. Digo, sempre fui muito cético, então vi coisas que distorceram completamente o meu posicionamento em relação aos fatos.


— Nós amamos você, Jenica. — Elizabeta depositou um beijo na bochecha da acastanhada. — Desculpe por tê-la metido em tal circunstância.


— De qualquer forma, me achariam. — suspirou. — Só espero que o Minghao fique bem.


— Minghao é forte. — Elizabeta afirmou.


— Assim como a mãe dele. — disse Mathias.


— Calem a boca, hereges. — um membro da cavalaria resmungou. — Comentários muito felizes para pessoas que serão queimadas em praça pública ao amanhecer.


Minghao abriu os olhos, sentindo a roupa que grudava-se ao corpo por conta do suor. Olhando em volta, percebeu que havia passado pela experiência de um sonho não muito casto, o deixando envergonhado com a capacidade que sua mente possuía de produzir cenários utópicos e inteiramente dignos de constrangimento. O rapaz levantou-se e se dirigiu à porta, girando a maçaneta e lembrando que não adiantaria, afinal, estava trancada. Revirou os olhos castanhos e voltou à cama, pensando no que Meiqi e Chengcheng tramavam e, claro, pensando no possível estado de sua mãe e no susto que a mulher teria assim que não o encontrasse em meio aos bêbados tolos e desprezíveis. Minghao mal sabia do que estava a acontecer no restante da catedral.


Findo o conjunto de vampiros, o quarteto continuou a caminhar à procura de Qian a fim de colocar um ponto final no caos que a veterana havia começado. Dentro da torre em que instalou-se, Qian bufava e puxava os próprios cabelos ao poder sentir a maldade e o cheiro da violência aproximando-se. Embora estivesse sendo protegida por dezenas de vampiros, todos eram novatos e infrutíferos, então não serviam de muita coisa. Ziyi, Xukun e Chengcheng, os mais velho do clã de Qian, não guardavam bons pressentimentos quanto à chegada de Junhui e sabiam que as chances de sobrevivência eram esporádicas, mas Chengcheng teria sua vingança, nem que precisasse passar de um morto-vivo para um morto-morto.


— Madame, por que não para de se esconder feito uma prisioneira e não acaba com Junhui? — Xukun perguntou.


— Como tem coragem para perguntar, Xukun? Junhui não está sozinho! Ele, evidentemente, veio com vampiros tão poderosos quanto o próprio. Mesmo em pouca quantidade, é provável que já tenham matado a metade do clã!


— Nós podemos distrair o restante. Ziyi e Chengcheng estão de acordo comigo, certo?


— Eu não quero matar o grupinho inescrupuloso do Wen. — Fan resmungou. — Eu quero matá-lo com as minhas próprias mãos.


— Gosto de seu jeito vingativo. — Song sorriu de canto. — Se conseguir matar qualquer integrante do grupo dele, abrirei espaço para que o mate.


— Trato feito. — ele retribuiu o sorriso. — Podemos parar de nos esconder nesta torre e, enfim, acabar com eles?


Os quatro concordaram entre si e retiraram-se da torre, não muito atentos ao massacre que acontecia. Era cansativo matar a maioria dos vampiros, principalmente porque não consistia numa tarefa ímproba e árdua e chegava a ser uma atividade chata. Yixing havia tirado a camisa de tão suja que estava, justamente devido à morte dos jovens vampiros. Quando entraram numa sala enorme, uma multidão de vampiros fazia-se presente, provavelmente cerca de trinta a quarenta. Luna rolou os olhos, nada envolvida com o trabalho, e posicionou-se para começar a destruir cada um, mas o foco da mulher tornou-se outro assim que, descendo as escadas centrais, uma Song Qian apareceu, acompanhada por três entidades vampíricas. A morena não conseguiu conter a surpresa ao reconhecer os rostos que permaneciam rentes a Junhui.


— Lissa, Luna, Yixing. — recitou o nome de cada um. — Quanto tempo.


— Muito tempo. — Lissa concordou, afastando os fios alaranjados do rosto. — Diria que senti saudades, mas não é uma frase muito adequada para a ocasião na qual nos encontramos.


Qian riu com amargura, parando ao pôr os olhos na face de Junhui.


— Wen Junhui. — ela murmurou, desgostosa. — Vejo que cortou o cabelo.


— Vejo que continua a mesma vadia medíocre de sempre. — retrucou, rangendo os dentes. — Onde está o Minghao?


— O mortal? Sabia que viria por causa dele. Ah, Junhui, pensei que fosse o mais insensível dentre as criações de nosso mestre.


— Responda à minha pergunta.


— O humano está morto.


O chão de Junhui pareceu quebrar-se abaixo de seus pés enquanto o olhar transformou-se em chamas de puro ódio. Ele tentou avançar sobre Qian, mas fora impedido assim que Yixing apertou o punho do rapaz com força, alertando:


— É uma armadilha. Nenhum deles está fedendo explicitamente a sangue humano, exceto o garoto do canto à esquerda, mas creio que os dois só tenham possuído contato físico. Minghao está vivo, certo? Acalme-se.


Junhui parou o olhar em Chengcheng, acabando por reconhecer o rosto de traços evoluídos. Desprovido de vontade de desgastar a memória, voltou a atenção à Qian, que debochava de si.


— Tão entregue às emoções... O que um mero humano fez com você, Junhui?


— O que a maldita inveja fez com você, Qian? — soltou-se do aperto de Yixing, aproximando-se de Qian a passos lentos. — Nunca foi melhor do que eu e pensou que conseguiria ultrapassar-me formando um clã de vampiros novatos para dar um fim em mim. Por sua causa, mais de cinquenta jovens vampiros estão mortos. Entenda uma coisa: não importa a porra do seu esforço. Você sempre será aquela vadiazinha medíocre.


Qian, descontente com as verdades ditas, permitiu que os caninos crescessem mais dentro de sua cavidade bucal e ordenou que Ziyi, Chengcheng e Xukun atacassem Lissa, Luna e Yixing. Junhui continuava a se aproximar da mulher, para, em seguida, avançar sobre ela, que segurou as mãos do rapaz no intuito de defender-se e empurrá-lo sem muito sucesso, portanto precisaram adentrar-se em um ciclo onde fitavam os olhos um do outro e observavam quem era capaz de se distrair primeiro. A fúria dos olhos do moreno era evidente e chamativa, fazendo Qian mergulhar na escuridão daquelas orbes, como se estivesse sendo sugada para o fundo de um buraco negro ou poço sem fundo. O chinês teve de ser rápido e direcionou o punho em direção ao rosto de traços femininos, mas fora impedido quando ela desviou assim que curvou a coluna para trás e usou o pé para chutar o queixo do rapaz, este que, em consequência do golpe, foi jogado contra uma das paredes. Seus companheiros tentaram não mostrar preocupação, continuando o serviço. Apesar da intensidade do golpe, Junhui não entregou-se e correu até a chinesa minimamente mais nova, quase a tocando caso não fosse o sábio reflexo que a fez desviar numa distância milimétrica. Ambos quase se tocavam de raspão, desviando de ataques estratégicos.


Minghao encarava a porta, bocejando e rolando na cama. O tédio dominava o garoto, e nem mesmo o sono poderia livrá-lo das ondas de preguiça devido ao fato de ter acabado de acordar. Em um movimento repentino, dois homens entraram no quarto: um alto, de traços orientais e nariz exorbitante, e outro mais baixo, tendo cabelos negros e olhos profundamente azuis, como o céu ao decorrer da tarde. Minghao logo presumiu que fossem integrantes do clã, embora sua intuição dissesse o contrário.


— Nós encontramos a pessoa correta? — Levi soltou a pergunta após entrar numa estância incerta. — O aroma do sangue nos traz aqui, mas, não sei... Ele parece ser tão novo.


— É um pirralho, que nem o Junhui. — Zhou Mi complementou, e Minghao alarmou-se ao ouvir o nome do primeiro vampiro que conhecera.


— Onde o Junhui está? — Minghao levantou-se da cama, ignorando completamente a aura lôbrega da dupla de homens morenos. — Ele veio?


— Junhui está bem, isso é o que importa. — o outro chinês ressaltou. — Não há nada com o que se preocupar.


Junhui não sabia ao certo a quantidade exata de golpes que havia levado pela extensão do corpo, mas tinha plena sabedoria de que Qian também saía com muitas desvantagens em meio ao conflito. Doía, e poderia ser mortal para um humano comum, porém, felizmente, o Wen suportava contratempos demais, até mesmo para um vampiro. Embora Yixing não quisesse admitir, os três vampiros novatos tinham habilidades invejáveis, dando destaque a Chengcheng, que, pelo jeito, devia ter treinado durante anos para alcançar a altura de vampiros com uma idade tão alongada. Os fios alaranjados de Lissa caíam sobre o rosto cansado, os olhos verdes em contraste ao brilho incomum que ressaltava-se na frente dos caninos selvagens e sedentos por uma dose de sangue, embora precisasse ser de outra criatura da própria raça. Luna havia ficado encarregada de Xukun, o único que era uma vergonha total em atividades físicas, mas escondia o fato com o auxílio da inteligência e raciocínio acima da média. A mulher conseguia desviar dos golpes alheios com tamanha facilidade, acertando o rapaz em áreas consideradas vitais; entretanto, Xukun era um vampiro, então aguentava.


O restante dos vampiros igualmente tentava avançar sobre Lissa, Luna e Yixing, que, de forma ágil, se livravam da maioria. Yixing já tinha pego dois vampiros e os feito engolir um ao outro numa atitude grotesca e digna de nojo para quem tivesse o estômago fraco; Lissa rasgou o pescoço de uma novata, usando apenas as mãos aparentemente delicadas, e Luna não pensou duas vezes ao fraturar boa parte dos ossos de um jovem travesso que, além de tentar atacá-la, também a acariciou em locais indevidos, despertando uma raiva real na vampira.


Chengcheng olhou Qian e Junhui por cima do ombro, desejando ardentemente estar no lugar da encarregada para poder pegar o pedaço de vingança que merecia. Por conta da minúscula distração, Yixing usou os dois pés para golpear a região abdominal do mais novo, o empurrando para o chão. As costas de Chengcheng chocaram-se contra o piso empedrado de maneira árdua e impiedosa, certamente causando danos à parte traseira de algumas das costelas rígidas. O Fan cometeu a tentativa falha de levantar, mas fora impedido assim que Lissa posicionou o pé sobre seu peito, encaixando as mãos na cintura e sorrindo vitoriosa, por mais que a queda do garoto fosse da responsabilidade de Yixing. Porém, o que Lissa não sabia, era que uma bela armadilha a esperava; e isso foi perceptível quando Chengcheng quebrou-lhe a perna e arrancou uma estaca da bota encouraçada, a introduzindo no tórax da mulher de fios ruivos e sardas visíveis.


Yixing, de repente, pôs uma severa interrupção no que fazia, guiando o olhar a uma Lissa de lábios entreabertos e olhos arregalados. Luna socou Xukun por uma última vez e correu em direção à colega, agarrando os ombros dela e a persuadindo com os olhos fumegantes pela preocupação. Junhui observou a cena, viu como Yixing e Luna encaravam Lissa, sabia que Zhou Mi e Levi haviam sentido uma pontada de dor emocional, e, pela primeira vez após ter sido puxado bruscamente para a vida solitária e tenebrosa de vampiro, ele sentiu culpa. Se nunca tivesse arrastado os parceiros abnegados para o envolvimento com um problema de sua autoria, era provável que Lissa continuasse radiante e bela, como sempre. Os vampiros que restaram, ficaram estáticos com o cenário, principalmente pelo fato de vampiros milenares se sentirem tão ligados uns para com os outros. Qian, vendo que era a brecha perfeita para exterminar os membros daquele grupo pequeno e maldito, olhou rapidamente para cada um de seus subalternos, implorando que alguma atitude fosse realizada. Quando entenderam o sinal, assim que o plano reserva estava pronto para ganhar o merecido início, o fogo das velas cessou e a lua pareceu ficar mais cheia. Em meio à escuridão parcial, antes de qualquer movimento, os olhos juvenis e infelizes se viraram à figura que descansava no buraco elevado da parede onde devia estar um vitral. As íris avermelhadas como sangue vindo direto de uma veia viva e recém-aberta, os caninos crescidos até encostarem no inferior, as garras tão pontiagudas quanto os dentes e a feição tétrica o suficiente para arrancar gritos inconvenientes e assustados. Medonho até demais.


Ninguém reconhecia o homem, mas todos sentiam-se estranhamente ligados a ele, principalmente Qian. E, então, ela notou de quem se tratava, ficando com os músculos gelados e tensionados. Os olhos de Junhui brilharam quando pôde observar melhor o homem, chegando à conclusão de que Qian realmente se meteu com a pessoa errada.


— Você sempre foi inconsequente. — o homem ditou, a dicção assustadora para muitos. — Desde que a transformei, há séculos atrás, nunca recebi uma demonstração de respeito e precisava aturar sua rebeldia, a livrando de encrencas realmente comprometedoras. Agora, você passou dos limites, passou mesmo. Por causa de uma simples cobiça, reuniu um amontoado de novatos para acabar com um vampiro que, certamente, conseguiria dar fim em todos eles. Tantos vampiros morreram, e sua parceira está morta! Sinto repulsa de você, Qian.


A vampira de cabelos negros tentava segurar a amargura e acidez que corroíam seu orgulho internamente. Não era como se ela realmente desse importância ao fato de trazer uma onda de decepções trágicas ao homem que lhe tinha transformado, contudo, Qian sempre foi posta atrás de Junhui e, depois da declaração do mais velho dentre todos, o status que portava devia ter sido ainda mais rebaixado, indo ao nível inicial. Um bolo de palavras se formava na garganta de Qian, mas nada saía enquanto seus tremores permaneciam fortes e evidentes.


— Que falta de educação a minha, não é mesmo? — o homem, misterioso para a maioria, pôs os braços atrás do corpo e pousou no chão, sorrindo. — Enorme satisfação ao tê-los comigo, jovens. Por favor, permitam-me uma apresentação com a cordialidade certa para o ocorrido que nos circunda atualmente. Prazer, Vlad III, ou, como gosto e prefiro ser chamado... Drácula.


A última palavra se consolidou como o bastante para que murmúrios e sussurros invadissem o local. Xukun quase caiu para trás com a revelação recente, tendo que ser segurado pelos braços firmes de Ziyi, o qual também parecia entretido com a situação.


— Bom, não vamos prender o foco em uma simples introdução, certo? — ele sorriu de canto. — Junhui, acabe com ela, sim? Eu, Yixing e Luna daremos um jeito nos novatos.


De imediato, a maioria dos novatos recuou, afinal, quem teria tamanha bravura a ponto de enfrentar Drácula, um dos vampiros mais temidos? Qian rosnou para os covardes que vacilaram passos, prontamente mantendo o olhar em Junhui para acertar-lhe um soco na região central do rosto. O rapaz impediu ao segurar o punho da mulher, porém foi pego de surpresa quando ela utilizou a mão desocupada para estapeá-lo. Na torre principal, Minghao tentava digerir os acontecimentos citados.


— Então, quando um vampiro é responsável pela transformação de outro, a relação deles se torna um relacionamento de submissão? — o Xu indagava. — Vocês, juntamente ao Junhui, foram transformados pelo mesmo vampiro?


— Exato, e por esse motivo, possuímos laços... — Zhou Mi procurou a palavra correta.


— Fraternos. — Levi realizou um favor ao mais velho, rolando os olhos. — Estamos discutindo com uma criança enquanto nossos companheiros lutam ao lado do mestre. Quão inútil posso ser?


— O Junhui está aqui? Por favor, eu preciso vê-lo.


— A menos que queira ser morto, pode descer conosco.


— Não desceremos, Levi, temos que escoltá-lo. — o mais alto dali argumentou, agarrando o braço de Minghao ao que ele tentou sair. — Aquiete-se, rapaz. Não é todo dia que somos amigáveis com humanos.


Nenhum vampiro tinha uma valentia inexorável para bater de frente com Drácula, que encarava o local minimamente barulhento devido à briga de Qian e Junhui. Luna tinha Lissa nos braços, Yixing estava atento aos movimentos alheios, e Drácula quase dormia perante a multidão. Chengcheng conseguia sentir o ódio consumindo seus sentidos em resultado do medo imprudente dos colegas. Conforme seu pensamento, Drácula não lembrava das habilidades antigas devido ao tempo de inatividade como vampiro, então a ameaça que representava não era de grande escala.  Sem pensar duas vezes, correu em direção a Drácula, sendo atacado pelas garras engrandecidas do mais velho. Chengcheng desabou no chão, com o rosto deformado pelo golpe. Qian cravou as unhas no braço de Junhui ao ver o rapaz daquela maneira sobre o piso.


— Chengcheng!


Ao escutar a melodia desesperada no formato de uma voz angelical, Junhui virou a cabeça para olhar os degraus polidos e caros, encontrando Minghao no topo com Zhou Mi e Levi, ambos tendo feições descontentes como se quisessem ter segurado o menor. A dor latejante que Qian exercia em seu braço por estar com as unhas cravadas ali, automaticamente cessou; os olhos brilhando em meio à escuridão majoritária que devorava os pequenos seres, empalidecidos com o ataque direcionado ao rapaz valaquiano que repousava sobre o chão, tendo o rosto ensanguentado. Qian, notando o estado de instabilidade provindo de Junhui, olhou na mesma direção que o garoto e se viu obrigada a engolir em seco quando ergueu a cabeça e sentiu o olhar de Zhou Mi sobre o seu.


Diferente dos outros, Minghao era um ser humano e não portava uma visão ampla o suficiente para enxergar todos os detalhes dentro da escuridão; só conseguiu ver Chengcheng porque a luz do luar escapava do vitral quebrado e pairava sobre o garoto recém-ferido. Minghao não fazia ideia de que Junhui estava ali, o encarando, igualmente que não cogitava a possibilidade de uma briga ocorrer no local. Dessa vez, o silêncio realmente tomou conta de tudo, visto que nem Junhui e Qian brigavam mais. Zhou Mi, notando a gravidade da situação, segurou Minghao pelo cotovelo e tentou levá-lo para longe dali, ouvindo um rosnado de Junhui em resposta. Com o ruído estrondoso, Qian se deu conta do que estava fazendo e encarou o vampiro com o qual lutava anteriormente, aprofundando ainda mais as unhas na pele que jorrava sangue. Os rosnados de Junhui aumentaram, mostrando a dor sentida na carne morta, o que o fez tirar o braço de Qian do lugar, destacando a fúria que seus olhos derramavam. A chinesa tentou tirar o pulso do aperto, recebendo apenas um soco tão forte que acabou fazendo com que o piso quebrasse enquanto seu corpo arrastava-se devido à força depositada. Alguns vampiros de Qian visivelmente queriam ajudar a líder, mas Drácula avisou às criações, estas que ficaram em seus postos. Luna depositou um último beijo na testa de Lissa e levantou-se, sendo acompanhada por Yixing e suas habilidades impecáveis na luta.


Qian levantou-se quando encostou de leve na parede, não reagindo aos ferimentos evidentes que latejavam pela maioria de sua anatomia externa. Junhui deu passos para trás, como se quisesse ganhar impulso, e Qian compreendeu a respeito do que se tratava a ação exercida pelo "jovem". Ela fez o mesmo, recebendo impulso na região das pernas, até correr na velocidade mais rápida que lhe era permitida e avançar ao encontro de Junhui, que também tinha os pés fora do chão e se aproximava de Qian ao decorrer dos segundos. Em quesito de força, Qian se sobressaiu, quebrando um dos vitrais e parando nas arcadas com Junhui abaixo de si. Com uma mão, juntou as mãos de Junhui acima da cabeça dele e utilizou a outra para machucar-lhe o rosto a golpes fortes.


— O que aquele mortal fez contigo? — Qian gritou a plenos pulmões enquanto socava Junhui.


— Ele... — cuspiu sangue, não reagindo à violência gratuita de Qian.


— Sentimentos acabam com qualquer planejamento, Junhui. Lembra dessa frase? Você me disse!


Qian continuou a socá-lo, ferindo os traços juvenis do garoto, empolgando-se mais e mais. Enquanto proferia palavras fortes e de baixo calão, Junhui sentia como se a realidade estivesse batendo à sua porta e dizendo que ele nunca deveria ter iniciado um caso com Minghao, mas, sim, simplesmente tê-lo ignorado quando o mortal passou a visitá-lo. Era doloroso demais. O que doía não eram os socos de Qian, muito pelo contrário; as palavras dela feriam como lâminas recheadas em sal grosso.


— Sentimentos podem destruir planejamentos, mas ajudam a construir outros. — Junhui esbravejou, o sangue jorrando de todos os cantos do rosto. — A minha vida era a definição exata de monotonia, mas, quando ele chegou, eu descobri o que é acordar pronto para enfrentar mais um dia. Ele me mostrou o que é viver, Qian, coisa que você não sabe, afinal, passa o tempo inteiro a fim de acabar com pessoas que não se importam com o que você faz ou deixa de fazer.


As palavras de Junhui ficavam mais firmes a cada letra que saía de suas cordas vocais, chocando Qian. A mulher fora surpreendida assim que Junhui soltou as mãos do aperto e levantou-se, mostrando a fúria evidente dentro de seus olhos. Qian tentou derrubar Junhui da grande catedral, mas o rapaz desviou, pendurando-se em uma tribuna.


— Qian. — a mulher parou de perseguir o garoto ao ouvir uma voz reconhecida.


— Zhou Mi. — ela se virou, acalmando-se. — O que faz aqui? Se me der licença, estou ocupada.


— Qian. — repetiu, segurando o braço dela para que não se virasse. — Me ouça.


Qian paralisou-se, congelando com o toque de Zhou Mi, toque esse que tanto fazia falta.


Zhou Mi parou de envolver a pele com os dedos frios e os levou ao rosto de Qian, dedilhando a tez alva enquanto aproximava os lábios da boca alheia. Seus lábios tocaram-se como um raio a cortar o céu, puxando Qian para golfar-se numa maré de delírio. As chamas de seu coração acenderam-se, os lábios se separando devagar. Pela primeira vez em décadas, Qian abriu um sorriso sincero, mostrando a felicidade que se espalhava. Porém, a expressão da mulher tornou-se neutra. A boca recém-beijada abriu-se, dando espaço para o sangue negro sair.


— Espero que me perdoe por isso. — disse, enfiando ainda mais a estaca no coração dela.


Junhui, que observava tudo, desceu da construção e pediu espaço para Zhou Mi, sorrindo a Qian ao puxar-lhe os cabelos para trás e encarar os olhos que lutavam para que permanecessem abertos.


— Sentimentos estragam planejamentos, lembra? — debochou, jogando o corpo agora morto no chão. — Ei, você está bem?


— Estou. — o mais alto respondeu, suspirando. — Vamos colocar fogo no corpo dela para evitar um ressurgimento.


— Sim, por precaução. — concordou e entrou pela abertura do antigo vitral, surpreso ao pousar no chão.


— Matamos todos. — Lissa afirmou, pondo uma madeixa ruiva atrás da orelha.


— Você...


— O garoto acertou a estaca no lado direito, não no coração. Só fingi ter morrido para poder fazer um espetáculo.


— Nunca mais faça uma coisa dessas. — Luna esbravejou, limpando as mãos. — Realmente fiquei preocupada, sabia?


— O Zhou Mi está bem? — Yixing indagou, mantendo o olhar em um dos vitrais quebrados.


— Ele acabou de matar a amada. — respondeu, dando de ombros. — Suponho que seja difícil.


Junhui saiu com os companheiros, cada um levando um conjunto de cadáveres para colocar fogo. Quando os mortos já estavam reunidos, Zhou Mi apareceu com Qian nos braços e a colocou no topo, fazendo as honras e incendiando o aglomerado de falecidos até virarem pó. Enquanto analisavam o espetáculo, Levi saiu da catedral ao lado de Minghao, que felizmente permanecia intacto.


— Onde estava? — Luna perguntou.


— Onde vocês estavam? — fez outra pergunta. — Não acredito que se esqueceram de me chamar para observar o evento.


Minghao suspirou e se aproximou das chamas, sem muita vontade de perguntar a respeito de Chengcheng. O adolescente saltou ao sentir uma mão sobre seu ombro, guiando o olhar ao dono dela para, em seguida, ter uma surpresa. Junhui abriu um sorriso para si, recebendo um abraço apertado. De início, ficou desnorteado, mas não demorou muito para envolver o garoto com seus braços.


— Pensei que tivesse morrido. — Minghao suspirou, acariciando as costas de Junhui. — Não sabia que tinha rivais.


— Preferia não contar. Se eu dissesse, seria mais um risco à sua segurança. — o apertou mais. — Está bem? O que fizeram contigo?


— Eles foram amigáveis, principalmente o Chengcheng e a Meiqi. Os dois estão mortos, não estão? — entristeceu.


— Sinto muito, mas, sim, estão.


— Já era de se esperar. — beijou o ombro de Junhui e se soltou do abraço, sendo puxado novamente.


— Me desculpe. — sussurrou contra o pescoço dele. — Não devia ter matado o seu pai.


— Já conversamos sobre. Passou.


— O Junhui possui laços afetivos com um humano? — Lissa perguntou, confusa. — Eu não sei se estou mais surpresa pelo fato de o garoto ser um homem ou um mortal.


— Eu estou surpreso porque o Junhui parece muito apaixonado. — Yixing se intrometeu. — Vi de tudo nesta vida, sinceramente.


— Eu vou deixá-lo em casa. — Junhui declarou, afastando-se do abraço e inclinando-se. Entendendo o recado, Minghao subiu nas costas dele. — Se segure.


— Hora de ir. — Drácula avisou ao restante. — Não sei como será minha vida de agora em diante.


— Revele os segredos à sua esposa, senhor. — Levi recomendou, pronto para correr. — A base de um relacionamento é a confiança, não concorda comigo?


Correram em alta velocidade de volta à Valáquia, Minghao agarrado com bastante firmeza ao corpo magro de Junhui. Em pouco tempo, chegaram ao ávido destino, o sol ameaçando sair de trás das montanhas. Cada um voltou ao seu respectivo lugar, e Junhui fez questão de levar Minghao para o pequeno bar.


— Quer que sua mãe me conheça? Ficou maluco? — Jun perguntava, andando ao lado de Minghao. — Ela ficará assustada.


— É a única maneira de entender o meu ponto de vista. — o mais novo deu de ombros, estranhando a porta entreaberta do estabelecimento. — Há algo errado.


— Sangue. — lembrou.


— Perdão?


Junhui foi na frente de Minghao e chutou a porta, a fazendo ficar aberta por inteiro. Minghao apartou a distância dentre ele e o bar, se surpreendendo quando seus olhos presenciaram a quantidade desmoderada de sangue e mortos.


— Minha mãe, ela...


— Sua mãe está sã e salva. Horas antes, ela chegou aqui com duas outras pessoas.


— Qual foi a reação dela? Por que não está mais aqui?


— Ela assustou-se, e uma loira notou que os assassinatos foram cometidos por vampiros. Creio que tenham voltado a Targoviste. Posso levá-lo até lá.


— Volte para seu castelo. Daqui a pouco, amanhecerá.


— Meu castelo foi alvo de incêndios. Culpa dos servos de Qian.


— Se esconda na minha casa, então.


— Ah, Minghao... — sorriu de canto, começando a andar. — Eu não sou do tipo que se esconde.


Em Targoviste, amarravam Elizabeta, Mathias e Jenica enquanto um pequeno aglomerado de pessoas preenchia o pouco espaço da praça. Em breve, o local logo teria uma superlotação, ainda mais pelo fato de Mathias ser um professor renomado de aritmética. Cada um estava preso a um pedaço de madeira, todos sendo alvos de sussurros indiferentes e gritos para vaiar o trio. Um padre ficou próximo a eles e leu alguns versículos da bíblia, escutando os cidadãos loucos para que o espetáculo apenas começasse.


— A mulher loira fornece remédios a mim. — uma idosa sussurrou para outra, tremendo. — E se estiverem envenenados?


— Aposto que foram alvos dos rituais dela. Só Deus sabe o que estava dentro daqueles pequenos frascos de vidro.


O carrasco pegou a tocha acesa, escutando gritos ansiosos e palmas. O homem lançou um último olhar de desdém a Mathias e despejou o fogo ali, notando os gritos aumentando. Elizabeta desesperou-se, se debatendo em meio às cordas grossas e justas enquanto o fogo queimava parcialmente o marido. E não demorou muito para que ela fosse a próxima a ser ferida. Jenica encarava tudo com os olhos afogados em lágrimas, desejando profundamente que Minghao estivesse bem e soubesse como seguir em frente após o futuro comunicado de sua morte. Quando o carrasco estava prestes a depositar o fogo em seu "aposento", a população observou outra atração: dois rapazes que estripavam um guarda da corte.


Um deles era irreconhecível, porém, Jenica reconheceu o outro de longe:


— Minghao! — a mulher gritou, os olhos brilhando.


Assim que os soldados voltaram-se à cena estapafúrdia de dois adolescentes desfrutando das vísceras de um homem real, correram a passos pesados à direção do duo, prontos para um ataque nada amigável. Junhui sorriu da maneira mais inclemente possível, segurando a espada da autoridade quando a arma branca foi direcionada a seu pescoço. Como vampiro, prata era nociva para si, mas, apesar da dor, ele aguentava. E ele aguentou quando arrancou a espada do guarda e a jogou para Minghao. Os sussurros da população aumentaram, afinal, quem diabos era o jovem misterioso e como tinha uma força tão bruta?


O vampiro despistou os guardas, os distraindo ao arrancar as armas e quebrar uma por uma, partindo para o combate corpo-a-corpo e, óbvio, saindo em pura vantagem. Minghao aproveitou a alienação dos guardas para correr na direção da mãe, mas alguns cidadãos entraram em sua frente. Aquilo não fora problema para o acastanhado, que encaixou a espada no cinto e usou apenas a sabedoria com artes marciais para jogar todos no chão, sem dar importância à faixa etária ou classe social. Haoran havia ensinado o filho muito bem.


O carrasco ainda estava ali, e àquela altura Elizabeta e Mathias sentiam o fogo tomar conta de outros membros além das pernas. O carrasco apressou os passos a Minghao e tentou apanhá-lo, mas perdeu a oportunidade quando Minghao passou por baixo de suas pernas e acertou-lhe as costas com a espada. Rapidamente, subiu a bancada onde os três estavam e cortou as cordas da maneira mais rápida que lhe era capaz. Mathias e Elizabeta não encontravam-se em situações favoráveis, contudo, dariam um jeito nas queimaduras de grau avançado, e Jenica chorou quando conseguiu abraçar o filho e ter a certeza de que nenhum arranhão alastrava-se por sua pele.


— Eu fiquei tão preocupada com você. — a voz soava embargada em meio às lágrimas.


— Eu também fiquei com você, mãe. — a abraçou de volta. — Não sabe o susto que tomei ao vê-la aqui.


— O importante é que estamos bem. — fungou. — E você me deve explicações.


— Contarei tudo, mas preciso que compreenda. — suspirou, apertando mais a mulher.


De longe, pôde ver Junhui ali, dando fim em todos os guardas. Ele não sabia o que seria de si e do vampiro.




— Arrumei carruagens e embarcações para vocês. — Vlad III dizia aos cinco, rápido e claro. — Para onde pretendem ir?


— Ásia. De preferência, a Pequim. — Junhui respondeu, apreensivo.


— Iremos a Catai? — Mathias indagou sobre as costas de Junhui, quase impossibilitado de andar. Elizabeta descansava nos braços de Minghao, estando em uma situação semelhante.


— É uma ótima ideia. — Jenica sorriu fraco, ansiosa.


Subiram nas carruagens de Vlad III, agradecendo ao homem. Quando chegaram na costa, onde um barco razoável repousava, o cocheiro deu o comunicado ao capitão, que permitiu a entrada dos três adultos e dos dois jovens. Minghao, cansado, sentou-se sobre a madeira da embarcação, relaxado enquanto via que Valáquia, aos poucos, sumia de seu ponto de vista.


— Sinto muito por transformar você e sua mãe em viajantes clandestinos.


— Tudo bem. — respondeu a Junhui. — Vou morar no meu país de origem, pelo menos.


— Não sentirá falta de Valáquia?


— Talvez um pouco, mas a saudade irá cessar.


Os dois ficaram em silêncio, até Minghao introduzir outro assunto:


— E quanto a nós?


— É complicado, Minghao. — suspirou, massageando as têmporas. — Você não aguentará ser transformado, mas quero, sim, ficar contigo. O problema é que somos diferentes demais. Podiam ser apenas traços de personalidades, porém, você é um mortal, e eu... sou uma aberração.


— E não há como você se tornar alguém como eu?


— Existem possibilidades, mas são difíceis. Apenas pessoas específicas podem fazê-las.


— Nós procuraremos essas pessoas. — ditou, determinado. — Devem existir muitos em Catai, eu presumo.


— Eu não sei se é uma boa ideia, Minghao.


— Vamos tentar, por favor. Se nada der certo, prometo que não insistiremos mais, assim você poderá ficar longe de mim.


Junhui demorou para assimilar as palavras de Minghao, porém, depois de hesitar, aceitou. O que podia fazer, afinal?


Chegaram à China em segurança. Mathias e Elizabeta foram atentidos por profissionais assim que chegaram, entrando em estado de repouso. Junhui vendeu as roupas caras que trajava, não dando importância ao fato de ficar nu, o importante era render dinheiro aos Xu. Com a recompensa adquirida, conseguiram construir uma casa, onde moraram. Jenica trabalhou fazendo seda e, juntamente aos outros, adaptou-se aos costumes chineses. Junhui não precisava se acostumar, pois havia nascido e morado no país, e era gostoso poder estar com os pés em seu berço novamente. Embora não pudesse sair ao dia ou se alimentar de comida comum, ninguém desconfiava da real natureza de Junhui, o que era uma dádiva ao vampiro.


Porém, diariamente, a dúvida de como ficaria com Minghao, ainda existia.


Minghao havia crescido, se tornado um homem de quase vinte e tantos anos, praticamente. E Junhui, por mais que odiasse admitir, sentia inveja, afinal, enquanto Minghao se desenvolvia, tinha níveis de testosterona maiores e ainda ficava mais másculo, Junhui continuava com a aparência de um rapaz jovem demais. Wen não saberia o que fazer quando Minghao atingisse os cinquenta, e ele continuasse da mesma maneira.


— O meu aniversário é amanhã. — Minghao murmurou, tendo os olhos centrados no céu estrelado.


— Sim. — a resposta monossilábica de Junhui fez presença, este que estava deitado ao lado do mais novo. — Nem conto mais a minha idade.


— Não lembra da sua data de nascimento?


— Não lembro e não faço questão disso.


Minghao suspirou, dedilhando a grama abaixo de si enquanto lançava alguns olhares a Junhui.


— Por que é tão descontente? Compreendo que tenha motivos, porém, estamos fazendo de tudo para que sinta como é ter uma vida normal. Veja bem, você possui uma família, amigos, pode sair ao dia com o auxílio de um guarda-chuva... tem a mim!


— Não importa o quanto tentem, sempre serei o que sou. Minghao, precisamos dar fim no que temos o mais rápido possível. A cada dia que passa, você cresce mais e mais... Nossa relação não terá futuro quando você estiver com, não sei, cinquenta anos.


— Eu conheci um xamã que parece bom!


— Um xamã não irá resolver o nosso problema. Precisamos de um alquimista.


Minghao suspirou, impaciente com o ceticismo do maior. Sentou-se sobre a grama, brincando com as mangas da roupa de seda, e voltou a fitar o vasto céu.


— Então, quer que acabemos com nosso relacionamento?


— É o melhor a se fazer.


— Como quiser.


— Espero que se coloque no meu lugar.


— Lembre-se de que também faço parte do relacionamento. Não acha que não sofro com suas crises inconsequentes? Junhui, por favor, se o problema é me ver envelhecer, então apenas me transforme em um vampiro.


— Conversamos sobre isso há quase quatro anos atrás.


— Acha que não aguentarei? Por Deus, eu suportei a morte do meu pai, fui sequestrado por um clã de vampiros e consegui livrar a minha mãe de uma execução. Quando vai parar de me ver como a mesma criança indefesa de sempre? Junhui, anos se passaram. Sei que sua percepção do tempo é totalmente distorcida, mas eu amadureci.


Junhui suspirou, fechando os olhos. Ele não transformaria Minghao; não por achá-lo fraco, mas, sim, por saber que, sendo forte ou não, o vampirismo nunca foi um mar de rosas.


— Vá dormir. — Wen pediu.


— Venha comigo.


— Eu não durmo.


— Se quiser, pode dormir. Ah, Junnie, por favor.


Junhui riu soprado e levantou-se, segurando a mão de Minghao enquanto cambaleava até a singela casa. Os dois entraram no quarto que dividiam, deitando na cama estirada ao chão. Minghao puxou a amarra da roupa e permitiu que a peça caísse e deslizasse por seus ombros, mostrando os músculos visíveis que haviam nascido com o tempo.


— Pensei que quisesse dormir.


— E eu quero dormir. — o menor se defendeu, deitando ao lado de Junhui. — A roupa coça.


O mais velho riu, afastando a franja de Minghao para beijar-lhe a testa. Ambos acomodaram-se no conforto que a cama proporcionava, fechando os olhos devagar, sem notar a presença da estrela cadente que passava sobre o teto.


Junhui não era humano, mas Minghao o fazia sentir-se como um.


E, sinceramente? Era o maior prazer que ele já tinha experimentado na vida.


Ele e Minghao continuariam à procura de um alquimista ou qualquer outra solução, mas, durante a busca, nunca se esqueceriam de aproveitar a presença um do outro antes que fosse tarde. E isso já bastava.


Won't let the creeping ivy.

Não vou deixar a hera assustadora.

Won't let the nervous bury me.

Ou o nervosismo me enterrar.

Our veins are thin.

Nossas veias são finas.

Our rivers poisoned.

Nossos rios, envenenados.

We want the sweet meats.

Nós queremos carne doce.

We want the young blood.

Nós queremos o sangue jovem.


We Suck Young Blood — Radiohead.



Notas Finais


SIM, EU SEI QUE O FINAL PARECE DESFECHO DE FILME ROMÂNTICO BARRA DRAMÁTICO, TIPO AQUELE LÁ DO "A FERA"
E EU TÔ USANDO CAPS PORQUE CARALHO EU TÔ MUITO TRISTE

ai, gente, me perdoem MESMO pelo final ruim. eu estava numa dúvida enorme, não sabia se fazia o minghao virar vampiro (algo que eu realmente não desejava a ele e acharia muito egoísta por parte do jun), igual que também não encontrava um método convincente para fazer o jun virar humano. pra mim, essa forma que o vlad utilizou pra virar humano já foi brisada demais, então não queria aplicar ao junhui e não sabia como criar outra que não fosse muito fantasiosa.

a propósito, vocês sabiam que vlad iii realmente existiu? ele empalava suas vítimas e deu origem ao personagem drácula, e realmente chamavam o vlad de drácula antes mesmo do personagem ter sido criado por causa de sua respectiva posição na ordem do dragão. ele morreu vinte anos depois da época da fic, aos 45 anos de idade.

a música para fechar com chave de ouro foi we suck young blood, de uma das minhas bandas pre-fe-ri-das. sei que não combinou muito com o final, mas fazer o quê, né.

AH, E EXISTE UM FINAL ALTERNATIVO. como eu falei em uma das notas de algum capítulo anterior, meu planejamento era terminar a fanfic depois da declaração do minghao para o jun, mas, quando vi que boa parte não esperava que a morte do pai do minghao tivesse sido responsabilidade do wen, eu dei um improviso. se tivesse acabado ali, depois da declaração isso aconteceria: https://drive.google.com/file/d/1f1KbCRgtipCY5jtX1te5NcYM3uqkcTV_/view?usp=drivesdk

e me desculpem por não ter respondido os comentários anteriores. não sei se tem gente que se importa com o fato de eu responder ou não, mas, para quem liga, é porque eu realmente esqueço.

eu gostaria de agradecer a cada pessoa que leu, favoritou, comentou e me acompanhou na trajetória desta fanfic. vocês não sabem o quão feliz eu ficava ao ler um comentário, ver um novo favorito ou simplesmente encarar a quantidade de visualizações. dracula foi a primeira fic de vampiro que escrevi, e a recepção foi melhor do que esperava. obrigada a todos que leram até aqui, de verdade, fico super feliz por saber que pessoas veem o que eu faço e gostam disso. 💕

a fanfic acabou e até agora a capa não tá pronta, risosss.

eu pretendo postar outras fics relacionadas a vampiro porque amo esse ramo da mitologia, mas talvez isso demore porque estou mega atarefada. bom, mais uma vez obrigada a quem leu. até algum dia. 💘


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