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História Drowning Lessons - Capítulo 14


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, gente ♡

Eu sei que eu demorei uma eternidade, mas como vocês sabem, não tenho uma boa desculpa. A coisa boa é que ando lendo um bocado sem detestar como eu escrevo por enquanto, o que é algo bom, né? Fora que esse ep tá grandinho, acho que compensa um pouco a espera.

Novamente, como cês sabem, gosto de escrever sobre gente chapada, então me diverti em algumas partes.

Alguém aí anda lendo qualquer coisa? Se sim, me contem.

Não tenho muito a dizer hoje, então só boa leitura ♡

Capítulo 14 - This ain't a party, get off the dance floor


Fanfic / Fanfiction Drowning Lessons - Capítulo 14 - This ain't a party, get off the dance floor

Bert e Jeph adentraram ao quarto abrindo bruscamente a porta, sem qualquer cerimônia. Frank se sentiu mesmo grato por eles terem-no salvo daquela intimidade excessiva com Gerard que estava se formando ali. Os meninos carregavam sacolas e vieram animados, colocando-as sobre a escrivaninha. Frank, como que desentendido sobre o alvoroço, perguntou:

_Mas que merda é essa? _e levantou-se, andando até os sacos para bisbilhotá-los, simulando tão bem estar surpreso que até orgulhou-se da sua atuação (Gerard podia ser bom em pregar peças, mas Frank era o bastardo mentiroso mais descarado que existia. Ele podia andar meio enferrujado, mas não havia nenhuma competição para ele nesse ponto).

_Só algumas coisas pra nossa festinha. _respondeu Jeph, sorrindo maliciosamente enquanto tirava as garrafas e as colocava sobre a mesa. Frank achou-o eufórico demais, algo nos seus trejeitos soando não natural, e olhou-o com ar de reprovação. Aquele cretino já havia usado parte da maconha que comprou, Frank apostaria uma nota nisso. Jeph, no entanto, entendeu que sua expressão era parte da atuação também e respondeu: _Não achou que iríamos realmente fazer esse trabalho estúpido, achou? _Frank serrou os olhos, incrédulo com como Jeph podia ser desligado às vezes, mas resolveu deixar pra lá, enquanto Bert apenas ria baixinho da situação. Então, virando-se novamente para Gerard, acenou com os ombros em um gesto de “O que eu posso fazer?”.

Gerard assistia a tudo, tentando se localizar naquela movimentação estranha e repentina. Não se sentia muito confortável perto dos outros garotos, pelo menos não da mesma forma como estivera se sentindo perto de Frank. Ele decidiu atribuir a culpa disso à falta de hábito e de convivência, mas ele não podia impedir um certo instinto que o punha alerta sempre que Jeph estava por lá, eletrizando todos os pelos do seu corpo e os deixando estáticos. Tudo na aparência de Jeph remetia aos caras que implicaram com Gerard por anos no orfanato e ele cheirava como Donald, apenas um pouco mais forte, duas referências que claramente conspiravam contra qualquer simpatia que Gerard pudesse tentar sentir por ele. Ademais, ele sempre parecia mais resistente à presença de Gerard, mesmo quando apenas se cruzavam nos corredores do internato, e a presença de Jeph no quarto fazia Gerard se sentir encurralado. Já Bert não despertava o mesmo medo, no máximo certa desconfiança. Seus olhos azuis em geral exalavam um brilho gentil e, em algumas ocasiões, meio psicótico, mas não de uma forma violenta, como os de Jeph, e sim de uma maneira um pouco infantil e delirante. Além disso, ele parecia mais razoável do que o amigo. Eles dois tinham uma relação que parecia tão desiquilibrada que Gerard não conseguia entender porque existia.

Jeph desempacotava as garrafas de cerveja e outra bebidas que havia trazido. Havia um engradado de cerveja e duas garrafas de Old Grand-Dad e ele distribuiu uma cerveja para cada pessoa no quarto, jogando a de Gerard para ele que por pouco não a deixou cair.

_Mas o que vamos comemorar? _Frank perguntou, arqueando uma das sobrancelhas, desafiador. Bert parou sério e, após pensar um pouco e olhar ao redor, disse, sorrindo:

_Estamos comemorando ao nosso novo amigo. _e ergueu sua garrafa, sendo acompanhado por Jeph, que parecia estranhamente relutante, e Frank. Gerard permaneceu imóvel, sentando sobre a cama, confuso com toda aquela agitação estranha e cordialidade infundada. Tudo isso parecia quase um deboche, mas de uma forma mais amigável do que perversa. Frank, percebendo que ele não estava brindando, acenou-lhe para que participasse, e Gerard ergueu também sua garrafa.

_Tin tin. _Jeph disse, bebendo em seguida quase metade da cerveja em um único gole, o que deixou até mesmo Gerard um pouco surpreso.

_Acostume-se, ele é o que é. _disse Frank, se aproximando novamente e se sentando na beirada da cama. _Parece que não vai ser hoje que vamos fazer esse trabalho. _completou e bebeu um gole da cerveja, sentindo o amargo do lúpulo impregnar em suas mucosas e reprimindo fortemente qualquer careta que pudesse vir a fazer. Sentiu-se como imaginava que um demônio se sentiria matando a sede com água benta, era ridículo que alguém consumisse aquilo em sério. Gerard seguiu-o, provando também, parecendo tão habituado àquela merda que dava inveja. _Bem, pelo menos vamos poder acabar aquela nossa conversa da arquibancada que ficou pela metade. _sugeriu, tentando adiantar seus objetivos.

_Ah, eu não tenho muito o que falar, na verdade. _alegou Gerard, tentando fugir de conversas sobre ele.

_Certo, e meu nome é James. _retrucou, com certo tom de provocação em sua voz, bebendo outro gole da cerveja e puxando seu corpo mais para o centro da cama.

Gerard olhava-o enquanto ele tentava endireitar-se no colchão. Ele não se lembrava de tê-lo visto beber quando saíram. É certo que ele estava super chapado pra ter alguma certeza, mas Frank não parecia exatamente o tipo de gente que consome álcool rotineiramente. No máximo aqueles caras que tomam vinho branco nos jantares de família quando seus pais estão por perto, mas nunca o que fica de porre.

_Hm, _Frank resmungou enquanto engolia outro gole. _eu também gosto muito de filmes. É um tipo de arte, então acho que conta. _comentou, retomando a conversa sobre suas preferências que tinham tido mais cedo, já que não conseguiria voltar à conversa da arquibancada. _Você não?

_Na verdade, não costumo assistir muito. _contou Gerard. A bem da verdade, Gerard era um completo analfabeto cinematográfico quando se tratava de filmes da última década. Apenas às vezes ele ia a cinemas, mas quase sempre para assistir apenas à triagem da meia-noite e virar a madrugada com algum cara que conheceu.

_Isso é serio? _Frank perguntou, um pouco mais indignado do que seria o normal, ao que Gerard apenas meneou a cabeça positivamente. _Os Lumière estão se revirando em seus túmulos agora _Frank alegou, com falsa desaprovação, soando um tanto mais atrevido do que geralmente seria. O que alguma cerveja não faz pelo gênio de um cara, Gerard pensou. Mas, para a sorte de Gerard, álcool acentuava o seu sarcasmo também.

_Entrar de penetra em sessões de filmes adultos não conta como consumir cultura, Frank. _Gerard alfinetou, fazendo Frank se engasgar, engolindo o líquido com dificuldade enquanto fuzilava Gerard vermelho de raiva, vergonha e cerveja.

_Vai se foder. _Frank praguejou enquanto recuperava o fôlego, o que apenas fez Gerard sorrir triunfantemente, bebendo mais um gole de cerveja enquanto fingia ser um canalha grã-fino esnobe com seu vinho caro e sua superioridade. Gerard sabia aporrinhar pra valer quando lhe dava na telha. _Estou falando de filmes de verdade, seu babaca. _Frank corrigiu e Gerard soltou um “Oh!” de falsa surpresa, como se houvesse dado um passo em falso, tampando a boca com a palma. _Não me diga que você é um daqueles conspiracionistas chatos que odeiam televisão.

_Eu não odeio a televisão, só não ligo pra ela. _Gerard corrigiu.

_Ótimo, só faltava essa. Você não é um conspiracionista chato, é um cult chato. _Frank também se corrigiu, irônico, fazendo Gerard rir.

_Não, cara. Não é como se eu achasse filmes derretem o seu cérebro ou controlam sua mente, sabe? Foda-se isso, eu só, sei lá, não tenho costume. Não tinha TV onde eu morava antes. _Gerard explicou, tentando não dar detalhes demais sobre. As freiras costumavam acreditar que televisão corrompida os jovens.

_Isso parece coisa de seita. _Frank pontuou, meio aéreo, enquanto bebia outro gole de sua cerveja, e Gerard deu de ombros. Ele estava meio certo, se você fosse pensar. _Então você nunca assistiu, sei lá, _Frank bebeu outro gole, parando para vasculhar os arquivos em sua memória que pareciam mais desorganizados agora por causa da bebida. _O Massacre da Serra Elétrica? _Gerard acenou negativamente com a cabeça. _Caramba, sério? Você não sabe o que está perdendo.

_Acho que tenho uma noção, na real. O nome é bastante autoexplicativo. _Gerard argumentou, mas Frank continuou, indiferente.

_É tipo uma obra prima. Eu assisti ele no cinema quando eu tinha uns sete anos ou sei lá. Foi a coisa mais maravilhosa que eu vi em toda a minha vida, fora de brincadeira.

_Primeiro, como diabos você entrou nessa sessão? Você era uma criança, devia ter alguma classificação indicativa. Se passou por um anão ou o quê? _Gerard perguntou, franzindo as sobrancelhas. _Segundo que com sete anos eu só ia em cinema pra estragar os encontros dos caras do meu colégio. Definitivamente os lanterninhas eram uma preocupação maior pra mim do que a tela. _Gerard disse, rindo.

_Primeiro, _ele imitou Gerard, falando pausadamente em parte para acentuar o caráter dramático da sua voz, em parte porque o álcool estava subindo e ele estava com alguma dificuldade com a sua dicção. _ a menos que esses caras fossem assistir Goonies, suspeito que você, pra foder com as expectativas amorosas deles, também tenha precisado entrar de penetra como eu, então zero autoridade pra julgamentos, okay? _Frank determinou, arqueando debochadamente a sobrancelha. _Segundo que eu era uma criança alta demais para o nanismo. _assegurou, fazendo Gerard olhá-lo cético. _Terceiro, que criança filha da puta você, hein? Estragar o encontro dos outros é terrorismo, sério. Cê não tem empatia? O Conselho Tutelar devia ter falado com os seus pais, cara. _ao dizer isso, Gerard pareceu um pouco constrangido com a temática, ficando mais sério e engolindo a seco. Frank percebeu e pensou imediatamente que estava soando um pouco invasivo demais conversando sobre os pais de Gerard, com quem ele tinha tantos problemas. Ele estava se afundando. Precisava mudar os rumos dessa conversa se quisesse deixar Gerard confortável. _A quarta coisa é que, hm, eu sou muito bom em falar merda. Foi mal.

_Não se preocupe. _ Gerard respondeu, tentando disfarçar que havia ficado incomodado. Que tipo de imbecil foderia com toda uma boa conversa por causa de um assunto? Ninguém liga para família de merda dele, Gerard também não deveria ligar. _Nem sempre você fala merda, _emendou. _às vezes você não conversa muito. _Gerard disse, irônico, ganhando de Frank um empurrão no braço como resposta. _Eu era infernal mesmo, então acho que você tem razão. _confirmou, retomando o assunto e rindo um pouco, tentando prevenir qualquer constrangimento. _Derrubava refrigerante nas saias Fiorucci das meninas, que sempre saíam irritadas com os caras enquanto eu me escondida debaixo das cadeiras. Era tão desastroso que duvido que eles tenham conseguido levar qualquer uma delas pro banco de trás das suas latas velhas depois.

_Então você teria me infernizado se tivéssemos nos conhecido. _ afirmou.

_Por quê? Você gostava de dar uns amassos vendo filmes? _Gerard perguntou, caçoando de Frank.

_Não, porque eu era um freak. _falou, arqueando as sobrancelhas e tomando mais um gole da sua cerveja. Depois de algum tempo o gosto começava a parecer um pouco menos forte. _Eu era a porra de um matematleta. Os caras do time roubavam minha mochila só para hasteá-la no mastro da bandeira, saca? Era uma piada.

_Então é isso o que você pensa de mim, que eu encurralava nerds nos corredores pra derrubar seus livros e puxar suas cuecas? _Gerard questionou, compreendendo o que Frank estava pensando (ele provavelmente achava que Gerard atormentava os outros meninos da sua idade porque era um idiota quando, na verdade, só estava tentando se vingar dos meninos mais velhos que o cercavam depois do colégio). _Hm, engraçado...  _resmungou reflexivo, mais para si do que para Frank, pensando seriamente sobre como ele teria conseguido passar de um esquisito para um babaca que começava brigas e sobre o por quê de ele ter essa imagem de Gerard. Parecia haver zero consciência de classe naquela inferência de Frank, pra dizer o mínimo, porque ele estava invertendo totalmente os papéis. _Posso estar te decepcionando e estragando minha reputação, mas acho mais provável que eu apanhasse com você do que fosse um dos que te batia. Uma bichinha gorda encurralando em um nerd magrelo? Até parece. _disse e os dois riram.

Foi quando Frank desviou deliberadamente seu olhar para baixo, para o colo de Gerard, onde suas mãos estavam pousadas. Ele usava uma jaqueta de cotelê ébano forrada com pelo sintético marfim por dentro que agora estava com as mangas franzidas para cima em seus braços, expondo-os. E, novamente, Frank percebeu as cicatrizes em seus pulsos. Na verdade, eram nodosas e marmorizadas demais para passarem despercebidas por qualquer pessoa. Era apenas a segunda vez que ele as via pessoalmente (ao invés de estar mais uma vez sendo assombrado por elas) e a ausência da tensão da briga o permitia percebê-las melhor. Eram protuberantes como que se erguendo acima da pele na tentativa de abandoná-lo e estriadas como suturas mal feitas. Olhá-las fazia Frank sentir como se a cerveja voltasse em sua garganta.

_E aí, garotas? _cumprimentou Jeph, visivelmente alterado, aparecendo da porra do nada e despertando Frank de seus devaneios. Frank olhou para Gerard torcendo para que ele não houvesse notado nada da sua inspeção e, felizmente, foi o que pareceu.

_Somos seus amigos, não suas garotas. _Frank argumentou, voltando sua atenção ao amigo, ofendido mais pela entonação de superioridade e desdém de Jeph do que propriamente pela designação.

_Não seja tão machista. _Jeph replicou, ainda se portando de maneira arrogante, arqueando uma das sobrancelhas. Frank suspirou. Jeph bêbado era uma guerra perdida.

_O que é que você quer, hein? _ perguntou Frank, com certa impaciência, bebendo mais um gole de sua cerveja.

_Ajudar com essa merda de papo ruim de vocês, então seja um pouco mais agradecido. _alegou, entregando-lhes dois baseados de maconha. Gerard riu, mas Frank engoliu à seco. Nem sabia a procedência daquela merda – e, conhecendo Jeph, aquilo podia ser só orégano enrolando em papel de seda ou qualquer outra bosta barata aleatória. Não ia funcionar.

Gerard não pensou muito sobre o assunto, colocando o baseado em sua boca, sacando em seguida um isqueiro no bolso de sua jaqueta e acendendo o beque com uma destreza que Frank não sentia ser capaz de imitar. Frank ficou perplexo por alguns segundos, segurando o cigarro frouxamente entre seus dedos. Gerard tragou profundamente, prendendo um pouco a fumaça em seus pulmões, e exalou-a em direção a Frank, relaxando suas costelas como que aliviado. Em seguida, apoiando o peso de seu tronco sobre as palmas de suas mãos no colchão, curvou-se um pouco para trás, fechando seus olhos porque aquilo parecia o céu. A cena soou quase erótica, Gerard com sua boca entreaberta e olhos fechados, e Frank sentiu um calor imprudente descendo de seu ventre às calças, cobrindo-as instintivamente com o antebraço em um ato de auto preservação e repreensão. Álcool devia broxar, não fazer Frank virar um fresco. Porra. Gerard suspirou, totalmente alheio à confusão sexual de Frank, sentindo o calor remanescente da fumaça reavivá-lo por dentro.

Então, sentando-se novamente ereto na cama, notou que Frank não havia sequer acendido o seu. É claro, Frank era de uma família legal. Gerard sabia que ele estava se forçando um pouco para participar daquelas coisas. Pensou em fazer algum piadinha, mas, ao invés disso, como Frank parecia já super deslocado, Gerard decidiu poupá-lo, olhando-o ternamente, rindo-se um pouquinho (não pôde evitar, ele parecia perdido de uma maneira quase infantil) e inclinando-se para frente. Acenou para que ele colocasse o baseado na boca e estendeu sua mão ainda com o isqueiro, ascendendo o cigarro. Frank não sabia dizer exatamente se o calor que sentia emanava de sob suas bochechas, ainda desconfortáveis com o começo de uma ereção em suas calças, ou se vinha da pequena e fugaz chama do Zippo. E o que fazer agora? Ele não sabia tragar, por isso permaneceu quase imóvel. Gerard entendeu e inspirou devagar, guiando Frank para que fizesse o mesmo, e depois expirou também lentamente, com uma paciência professoral.

Depois de alguns minutos (Frank não sabia dizer ao certo quantos), ele sentia seu corpo mais aéreo, como se fosse um enorme Zeppelin com costelas metálicas e pele de algodão, inflado por ar. Estava deitado na cama com Gerard, com seus corpos perpendiculares ao sentido dela, suas cabeças pendendo para fora e seus pés na parede. Não encostava em Gerard, mas sabia que ele podia sentir o toque das correntes de ar que emanavam de seus poros, eriçando seus pelos como que querendo alcançá-lo. Frank olhou-o, suas pálpebras azuladas cobrindo seus olhos e seus lábios finos e rosados fechados. Calmo, totalmente diferente agora.

Eles haviam conversado por muito tempo antes, as palavras escapando por entre seus dentes, suaves e suculentas e urgentes ao longo do tempo de – bom, difícil precisar porque o tecido temporal parecia agora muito mais sólido do que maleável e fluido e não escorria como deveria, cristalizado e intranscorrível, mas, bem, vejamos, se mudássemos a unidade de mensura de minutos para baseados, estavam conversando pelo tempo de aproximadamente dois baseados, em uma velocidade de milhares de sílabas por beque. Frank nunca antes havia sentido essa necessidade por verbalizar todo pensamento, em absoluto, e nunca antes os fonemas pareceram tão engraçados. Na verdade, engraçado definitivamente não era a expressão porque cada palavra parecia carregar cargas iguais de humor e compenetração, de forma que a tonalidade dos assuntos variasse entre temáticas realmente sérias – apocaliticismo e puberdade – e conjecturas infantis sobre a existência agora tão extremamente sentida em cada extensão celular.

Em determinado momento, o assunto foi a futura profissão de cada um. Frank foi bastante arrogante (e ambicioso, Gerard pensou) em suas opções, optando por medicina. Ou direito, quem sabe, como o seu pai. Ou contabilista, na pior das possibilidades. Não teve coragem de explicar que detestava jalecos e estetoscópios porque se sentia como um legista e que não gostava de gravatas e escritórios porque se sentia como uma abelha assalariada em uma colmeia corporativa – por Deus, essa metáfora já está indo longe demais. Foi a maconha que o deixou tão prolixo e poético? –, mas que sentia que precisaria de alguma estabilidade na vida adulta e isso perpassava um emprego fixo com um salário legal. Pensou que Gerard iria achá-lo um idiota medroso. Não queria ser um covarde enquanto Gerard parecia tão desapegado e livre, por isso não se aprofundou nos porquês da coisa, mas a conversa toda estava regada de um certo ar de cumplicidade que fazia com que confessar, pelo menos em parte, algumas coisas sobre ele fosse totalmente natural.

A dura realidade de Gerard, no entanto, estava longe do que Frank achava. Não era desapego. Desapego é uma palavra para quem tem opção e ele nem tinha. Apenas havia menos perspectiva para Gerard. Ele não era um aluno muito bom, nenhuma faculdade o disputaria, fora que muito provavelmente ele nem sequer conseguiria pagar por uma. Mas logicamente não foi o que ele alegou para Frank. Não, não mesmo. Não queria que ele o achasse um idiota liso, ele tinha seu orgulho, então o que ele disse foi que as leis anti-fumantes em espaços públicos é que fodiam tudo e que isso já excluía uma série de possibilidades de empregos para ele. De certa maneira, ele até via isso sendo realmente um problema, então talvez não estivesse mentindo pra valer. Não queria ter que trabalhar em um emprego medíocre em um escritório qualquer e passar o intervalo do almoço em um corredor cheio de datilógrafas de meia idade para se aliviar.

_Quem sabe eu possa ser bombeiro, eles sempre têm fogo. _Gerard brincou.

Mas para isso ele precisaria se submeter a um teste físico, Frank o alertou, o que seria uma merda porque seus pulmões eram resistentes como saquinhos plásticos e provavelmente colabariam no primeiro esforço.

_Eu poderia ser escritor então. _Gerard constatou, após alguns segundos. _Eles trabalham sentados e fumam o tempo todo. Trabalho em domicílio com carga horária ajustável. São muitos benefícios.

_Você mesmo disse que não sabia arte nenhuma, como iria escrever um livro? _Frank pontuou, factual demais e muito pouco otimista, o que irritou Gerard.

_Quem disse que precisa saber escrever pra ser escritor? Nunca ouviu falar dos pós-modernos? _Gerard argumentou, irritado, tragando mais uma vez enquanto organizava uma frase em sua cabeça. _Tudo o que eu preciso está bem aqui nas minhas mãos: meus dedos e _ele ergueu a mão na altura do rosto, olhando para o canudo preso estre seus dedos. _um bom baseado. _alegou, encarando meio sério seus dedos com unhas gastas ainda por mais alguns segundos, enquanto Frank ria do seu lado.

_Você é louco, já é mesmo metade do caminho. Mas também precisa de um máquina de escrever -- ou pretende vender livros de anotações em guardanapos? _ele lembrou e, em seguida, estalando a língua, assegurou: _Quer saber? Eu vou te dar uma máquina.

_Se fizer isso, eu prometo que escrevo algo sobre você. _Gerard disse, soltando a fumaça. Parecia mesmo uma ideia melhor do que a que ele tivera antes, sobre elegias em sua própria homenagem, textos póstumos de um adolescente vivo, medroso e medíocre. Era masturbação demais do ego, até para ele.

_E eu sobre você então. Aí ficamos quites. Eu te faço uma serenata e você me faz... _Frank parou, tentando pensar sobre um nome específico para um texto dedicado a alguém.

_Um favor. _Gerard brincou, apesar de saber que dificilmente escreveria algo bom sobre qualquer coisa que fosse. Ele só gostava de ler, não significava nem de longe que era inteligente ou habilidoso com as palavras. Provavelmente tudo o que escreveria soaria como uma cópia piorada de todas as outras coisas que já existem e ele gosta e, no fim, ele acabaria como frasista de cartões comemorativos.

Logo após, de uma forma que soou com certeza mais natural quando aconteceu do que quando se narra, eles chegaram na temática religiosa. Estavam discutindo o que aconteceria com os dois no fim, já que Gerard obviamente não subiria porque o Paraíso não é para os desacreditados.

_Eu te carrego comigo. _Frank disse solenemente.

_Não, Frank. Você tá louco? _Gerard o olhou com gravidade, o que pareceria até um pouco assustador se aquela conversa não fosse completamente absurda. _E se eu fizer peso pra baixo e Deus não conseguir te arrebatar? _Gerard questionou e Frank o olhou descrente.

_Deus tem uma força sobrenatural, Gerard. _Frank argumentou.

_E eu um peso sobrenatural, Frank. _Gerard redarguiu, o vocativo apenas aumentando a seriedade em sua voz, mas a forma como ele flexionou as sobrancelhas (como se o que falasse fosse óbvio) tornando a situação ainda mais estranhamente engraçada. Ele sustentou seu olhar no Frank surpreso por mais alguns segundos até dar de ombros e completar: _Fora que eu acho que pecado pesa. De repente já desço direto depois sete palmos abaixo da terra.

Toda a noite seguiu assim. Não havia uma linha de raciocínio, também não era uma estrada sinuosa. Era mais como uma conversa cheia de arestas e quebras bruscas de linearidade, com assuntos em planos diferentes e mudanças abruptas de tom. Nunca na vida qualquer um dos dois havia falado tanto com outra pessoa, em tão pouco tempo e sobre coisas tão, muitas vezes, pessoais, o que explicava bem o fato de agora estarem deitados na cama em absoluto silêncio. Precisavam recarregar. Fora que haviam bebido como esponjas e absorvido assuntos como esponjas e precisavam desinflar, filtrar, assimilar o que tinha rolado ali porque tinha sido coisa demais.

Frank então curvou sua cabeça para trás, procurando enxergar seus amigos no quarto. Imaginava que eles estariam conversando ou sei lá, mas foi quase como fazer uma contagem dos cadáveres. Jeph estava dormindo sobre uma almofada, seu corpo curvado como uma lagarta, apoiado sobre seus joelhos e sua bochecha. Ao seu redor, inúmeras garrafas de cerveja. E Bert estava em sua cama, dormindo encostado na cabeceira com o cabelo pendendo sobre todo o seu rosto. Não bebia tanto quando Jeph, por isso com certeza tentar acompanhá-lo foi demais pra ele. Frank buscou a janela em seguida, para tentar se localizar temporalmente. A noite parecia infinitamente mais escura do que ele jamais a vira, o que pareceu meio deprimente para falar a verdade. Deviam ser por volta das quatro da manhã ou algo assim, já que não havia qualquer sinal de sol lá fora, o que significava que ele podia aproveitar que estava chumbado por todos os químicos daquela noite e por essa maldita e súbita tristeza e dormir por algumas horas até metabolizar tudo.

Gerard, parecendo pressentir que Frank estava começando a dissociar, decidiu arruinar seu momento sagrado de desligamento e abriu os olhos, como que subitamente desperto por algo. Sorrindo, virou seu corpo de forma abrupta para a esquerda e, apoiado sobre seus antebraços, ficou a alguns centímetros de Frank, que se assustou um pouco com essa proximidade. Os olhos dele brilhavam alucinados e eufóricos e ele parecia provavelmente mais feliz do que Frank jamais havia o visto (um tipo estranho de felicidade, no entanto, do tipo que parecia quebradiça e pouco durável).

_Essa música, Frank! Vamos dançar!



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