História Drunk in Love - Capítulo 7


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Categorias Demi Lovato, Selena Gomez
Personagens Demi Lovato, Selena Gomez
Tags Demi, Demi Lovato, Lesbian, Lesbian For Demi, Lesbian For Selena, Selena, Selena Gomez, Semi
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Palavras 11.432
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, FemmeSlash, Festa, Ficção, Hentai, Mistério, Musical (Songfic), Poesias, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Perdoem a demora de um mês e não desistam de mim JKSHDSAAEDSHUDDARH
Quase nunca falo por aqui, então resolvi falar qualquer besteira só pra não virar costume. Então, tenham uma boa leitura e muito obrigada pelos comentários lindões da última att. Vou continuar acompanhando e lendo por aqui. Críticas são muito bem-vindas.
Bem, é isso. <3

Capítulo 7 - Rock


                                                       

 

 

 

 

                                                             Capítulo 8 - Rock

                                                                    Selena Gomez

 

 

 

   Meu humor vai de acordo com quantas horas eu dormi na noite anterior.

   A minha paciência também.

   Eu havia dormido menos de duas horas.

   Duas.

   Por isso, parada ali, esperando uma resposta da mulher a minha frente, eu me via um poço de desespero. Queria gritar e chorar, mas não podia.

   Eu não podia fazer nada.

   Tudo permaneceu em silêncio. Como se alguém tivesse morrido ali mesmo.

    O clima de enterro de sempre.

    Eu pensei em dizer algo, mas depois dos últimos acontecimentos eu me permiti sentir o silêncio e aproveitá-lo.

    Sabia que se pensasse em todas as minhas atitudes nas últimas horas iria me arrepender profundamente. Exatamente o que está acontecendo agora.

    - Isso...

   Ergui a cabeça ao ouvir sua voz finalmente sair.

   - Isso...não é da sua conta. - falou baixo, a voz rouca - Não dei espaço para suas perguntas ridículas.

   Ouvi as palavras duras saindo por sua boca. Todas elas.

    E me vi respondê-las sem nem pensar.

   - Drunk in Love não pode ser qualquer coisa! Eles existem, eu sei que existem! - disse tudo de uma vez, perdendo o fôlego - Eles têm um anel...eu sint...eu sei que sua ex tem alg...

    - Calada. 

    Me calei imediatamente ao ouvir sua voz soar grosseiramente.

    Estava respirando baixo.

   - Pare de dizer bobagens. - cerrou os olhos - Não aguento mais ouvir sua voz.

   Se virou, dessa vez decidida a ir embora, apenas completando sua frase:

   - Vá para casa, depois para a empresa.

   - Eu fui demitida. - sussurrei.

   Eu iria me arrepender.

   Mas tinha que ser feito.

   - Não foi demitida. Vai voltar a empresa. E vai esquecer. - falou pausadamente, como uma ordem.

   Expirei fundo.

   Tentando falar devagar pra ser compreendida.

   - Não vou voltar.

   Ela sorriu da minha frase, mais confiante do que nunca.

   - Quer apostar? - ergueu uma sobrancelha e eu soube do que estava falando.

   Uma aposta.

   O tempo todo.

   É fácil deixá-la assim.

   Doeu.

   Me atingiu profundamente.

   E eu só pude assentir.

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                       **************************

 

 

 

 

   - Ele era uma pessoa educada, do tipo que agradece quando um carro para na faixa de pedestres e ele está atravessando - Pam continuou observando enquanto o cara de olhos azuis saía do elevador, cochichando baixinho para mim - Mas depois do incidente que ocorreu entre ele e a senhorita Lovato, ele mudou muito.

    - Que tipo de incidente? - quis saber.

    - Eu não sei, ninguém sabe na verdade. Mas foi graças a esse ocorrido que anda acontecendo coisas tão estranhas aqui dentro. Aquele incidente é a resposta para todos os problemas.

    Não pisquei enquanto ela se afastou.

    Me mantive ali, paralisada.

    Pensativa.

    E meu principal pensamento era se devia ou não desistir.

    Havia planejado uma coisa a essa manhã, depois de uma longa noite em claro. E principalmente, depois de ter repensado todo o dia anterior e ter me dado conta de que havia sido salva por ela.

    Eu nem sequer agradeci.

    Apenas lhe enchi de perguntas e acusações.

    Perguntas e acusações depois de seu ato heroico. Depois de me tirar daquele clima frio e misterioso.

    Me lembrava de seu rosto naquela noite.

    A luz da lua fraquinha iluminando parte de seu rosto.

    O brilho diferente no seu olhar.

    Sua voz mais rouca.

    Seu tom mais baixo.

    Sua pronuncia mais devagar.

    Sexy.

    Me perguntava como havia me alcançado. Como havia sequer me encontrado.

    E principalmente...Como sabia que eu estava em perigo?

    Por que aquele homem a conhecia? Por que a temia?

    Ainda me lembrava de seu olhar sério, quando caminhou lentamente com a mão tocando a cintura.

    Tocando a arma.

    Agora me via parada na cadeira, sentindo meu estômago congelar e se revirar.

    Minhas pernas tremiam e minha testa suava.

    Eu a vi parada naquela janela e observando lá fora. A janela onde sua ex antes ficava.

    Respirei fundo.

    Mais uma vez.

    E mais uma.

    Vai ter que ser agora, pensei.

     E fui.

    Sentia os olhares das pessoas bem nas minhas costas. sabia que seria observada, mas não sabia que seria tanto. Encarei minhas mãos, não sabendo lidar com aquela pressão.

    Era agora.

    Tossi baixinho, para chamar a sua atenção, mas não pareceu ser o suficiente, pois ela continuou observando algo lá fora.

    - S-S-Senhorita Lovato... - comecei hesitante - Eu queria...ahn...acho que devia te agradecer...pelo...

    Mas ela permanecia distante, me ignorando.

    Agiu como se eu não estivesse ali.

    Como se ainda estivesse sozinha.

    Não aguento mais ouvir sua voz.

    Engoli em seco, sentindo minha garganta latejar.

    Os olhares estavam focados em mim, eu sabia.

    E aquele momento só se mostrava mais e mais constrangedor.

    Desejei ter ficado na minha mesa.

    Ela estava fazendo exatamente o que fazia com todas as outras funcionárias: estava ignorando a minha existência.

    Seu olhar se mantinha fixo para a direção onde observava.

    Pela primeira vez eu vi sofrimento nela. Vi dor. Algo que eu nunca havia reparado daquela forma.

    Soube que estava sofrendo, que sentia falta da mulher que havia ido.

    Da sua ex.

    - Está pensando nela mais uma vez, não está?

    Parei e tremi quando notei o que havia saído da minha boca.

    O silêncio assustador me provou que os demais também havia ouvido.

    Agora todos observavam e eu tremia calada.

    Eu a vi piscar algumas vezes, quando finalmente se virou na minha direção.

    - O que disse? - cerrou os olhos devagar e eu soube o quanto o clima estava ficando delicado. Suspirou e mantendo toda a sua confiança e intensidade, continuou - O que sabe sobre ela?

    Dei um passo pra trás sentindo minhas forças me abandonarem com aquela reação inesperada.

    Esperava que ela fugisse do assunto.

    Que me tratasse mal.

    Que gritasse comigo.

    Mas jamais esperava que fizessem aquela pergunta.

    Por isso não tinha resposta. Por isso não conseguia me mexer.

    Sabia que tinha feito aquilo propositalmente: queria me ver daquela forma. Porque, por alguma razão, acreditava que aquele era o lugar que eu ou qualquer um de seus funcionários deveria ocupar. O lugar do medo e da submissão.

    Ninguém nunca a constrangia.

    Nunca riam dela.

    Nunca a colocavam pra baixo.

    Era sempre ela que o fazia, com todos a sua volta.

    Sentia um peso absurdo sobre meus ombros.

    Não podia contar quem realmente me contou sobre a ex, ou Pam perderia seu emprego.

    Seu olhar se direcionou á figura que estava logo atrás de mim e ao ver os olhos verdes, senti o clima pesar mais ainda. A situação só piorava a cada minuto.

    Ela achava que era Skye.

    Achava que Skye havia me contado tudo.

    Achava que Skye havia sido a responsável por aquela atitude.

    Achava que ela era a culpada.

    Mas quando voltou a me olhar, eu soube que aquilo não importava tanto. Já que quem ela precisava punir, estava bem diante de seus olhos.

    - Senhorita Verbena, a partir de hoje, trabalha em outro setor. Pegue suas coisas e procure pela senhorita Chloe, ela irá lhe dizer o que fazer.

    E ela se afastou.

    Como sempre fazia.

    Como fez da última vez.

    Me deixando completamente imóvel e horrorizada.

    Muda.

    E principalmente: me deixando sozinha.

    Ver os sorrisos de satisfação se formando no rosto dos funcionários ao redor fez meus olhos tremerem. O constrangimento daquela rejeição pública me fazendo sentir o arrependimento me dominar. Aquela sensação de angústia cresceu dentro do meu peito e eu soube que não suportaria passar por algo assim mais uma vez. Que não suportaria ser humilhada por aquelas pessoas mais uma vez.

    - Tem medo. - disse alto o suficiente pra que ela ouvisse e imediatamente parasse seus passos. Alto o suficiente para aquelas pessoas pararem os murmurinhos e arregalassem os olhos para a cena logo a frente. Me sentia prestes a chorar, sentia minha garganta apertar, meus olhos pesarem, meu coração ardendo. Não suportando mais. - É por isso que não consegue responder as minhas perguntas? Como fez a essa manhã, na sua casa?

    As pessoas do ambiente soltaram exclamações, sem conseguirem acreditar.

    Senti meu corpo se arrepiar instantaneamente.

    Era como se eu fosse o ser humano mais exposto de todo o mundo.

    A senhorita Lovato tinha o olhar incrédulo na minha direção.

    Mas as palavras continuavam escapando da minha boca.

    - É por isso que quer me mudar de setor? Por que não consegue lidar com a sua covardia?

    Vaias, assobios e gritos encheram o ambiente.

     A senhorita Lovato mantinha um olhar que ia além da incredulidade: havia raiva também.

     Raiva intensa.

     Raiva pela situação.

     Raiva de mim.

     Raiva das minhas palavras e das minhas atitudes.

     Raiva profunda.

     E foi por isso que eu não me assustei quando me vi sendo empurrada para a parede, presa entre a ela e seu corpo, seus dois braços impedindo a minha passagem, sua raiva a fazendo me pressionar forte.

    Gritos encheram o ambiente mais uma vez.

    Éramos o show favorito daquelas pessoas.

    Todas elas.

     - Vamos, senhorita. - o cara de olhos azuis interviu, surgindo logo atrás.

     - Não. - cerrou os olhos, ainda me encarando - Ainda temos muito a resolver.

    - Senhorita...

    - Não, Tompson. Eu disse não.

    Mas ele pigarreou, a fazendo olhar pra trás e notar que todos estavam observando.

    A senhorita Lovato podia ser a pessoa mais confiante e não dar a mínima importância para a opinião de ninguém ali. Mas acima de tudo era uma figura pública e não podia se expor. E era exatamente o que estava acontecendo ali.

Respirou fundo, com raiva por não poder destruir a minha vida naquele momento.

Foi quando sua boca chegou próxima a minha orelha e eu me vi suar frio. Estava claro: o que ela dissesse agora só eu ouviria.

   - Vai continuar a fazer o seu trabalho de merda em outro setor, nas próximas três horas. Na área sul do prédio. - a forma rude como pronunciou as palavras me fizeram perder o ar e o chão.

   Fechei os meus olhos, não me sentindo apta a fazer algo que não fosse tremer e chorar.

   Eu sabia qual era a área Sul e sabia pouco sobre ela - mas o suficiente pra saber que é um local isolado, congelante, sombrio e escuro. Minhas próximas três horas seriam aterrorizantes, principalmente por eu ter passado por um evento traumático há pouquíssimas horas.

   Sua boca se manteve na linha do meu pescoço e eu soube que tinha mais.

   Sempre tinha mais.

    Maldita.

   - Olhe bem para essas pessoas. - seu rosto se afastou do meu e observou todos aqueles funcionários curiosos e ansiosos por qualquer ação, eu segui o seu movimento olhando também, quando ela voltou a sussurrar só pra mim - Vão todas passar o horário de almoço zombando de seu pequeno momento de atenção. Serão venenosas como nunca foram, você sabe. Irão dizer as piores coisas sobre você, além de inventar outras, da qual você não poderá se defender. Te chamarão dos piores nomes possíveis.

   Engoli em seco.

   Eu sabia.

   Elas já faziam isso.

   Já falavam de mim por qualquer razão. Adoravam me colocar pra baixo.

   - Vai me colocar pra almoçar com eles? - sentia meu estômago revirar de nervoso só de imaginar aquela possibilidade: eu, sentada numa mesa, enquanto todas aquelas pessoas me julgavam com o olhar e faziam seus comentários venenosos bem na minha frente, sem a mínima piedade.

    - Almoçar com eles? - ela riu devagar no meu pescoço e eu tremi - Senhorita Eugênia, você vai servi-los. Vai cozinhar, vestir o uniforme e limpar o chão se for preciso. E vai agradecer.

   Ela havia se afastado.

   Mas eu ainda estava ali.

   Ainda estava tremendo.

   Ainda estava sentindo dor.

   Ainda me sentia prestes a morrer.

   Ainda sentia o frio na boca do estômago.

   Ainda sentia meu coração completamente destroçado.

   Mas agora tinha algo a mais: agora todos sabiam disso.

   Por isso estavam rindo.

   E por isso eu soube que as próximas horas seriam as mais torturantes da minha vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   - ESTÁ MALUCA? FICOU DOIDA? QUEIMAR AS BOLAS DO FUNCIONÁRIO DO CABEÇÃO AFETOU SEU CÉREBRO TAMBÉM? - Pam estava maluca, falava alto, balançando os braços pra mim - Ninguém fala assim com ela. nunca. Nenhum funcionário nunca nem sonhou...Selena? Você enlouqueceu completamente!

    - Pam...

    Mas ela já andava em círculos, repetindo seu "ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus" compulsivo.

    - INGERIU ALGUMA SUBSTÂNCIA ALCOÓLICA COM ENERGÉTICO?

    - NÃO, EU NÃO FIZ ISSO!

    - Mas eu fiz! Por isso não consigo ficar quieta! - andou pra todo lado, antes de parar na minha frente - Selena, você enlouqueceu completamente!

    Quis dizer alguma coisa, mas sabia que não devia. Estava errada.

    Absolutamente errada.

    Muito mais do que errada.

    Assim como tudo o que eu fazia ou qualquer decisão que eu já tenha tomado na minha vida.

    - Não acredito que fez essas perguntas a ela, o que estava pensando? Endoidou? - tomou meus ombros, me fazendo encarar seus olhos azuis, como sempre fazia naqueles momentos - Não pode fazer perguntas fora do profissional pra ela. Na verdade, não pode nem fazer perguntas. Muito menos perguntas sobre sua ex. - inspirou fundo, completamente eufórica - Ela não gosta de falar com funcionários. Na verdade, não gosta de falar com ninguém daqui. Dizem que a única pessoa na qual ela dirige a palavra com naturalidade é a esquisita de olhos cinzas - falar na moça de olhos cinza parecia lhe dar arrepios - Ela nos acha patéticas Selena. Energúmenos, como ela mesma disse. Não quer contato e nem proximidade. Por isso nos trata dessa forma. Não somos ninguém. - deu uma pausa, antes de finalizar - Aparentemente, ninguém aqui é bom o suficiente para dirigir uma palavra a ela, exceto a outra - Pam parecia não querer falar seu nome, tinha os mesmos medos que eu, apesar de ser uma das pessoas mais corajosas que eu já conheci.

    - Me desculpe...

    - Não diga "desculpe" quando deve dizer "obrigada". Sou sua amiga, não uma dessas pessoas que querem te pôr pra baixo.

    Respirei fundo, Dando um meio sorriso, mesmo quase entre lágrimas, antes de responder:

    - Obrigada.

    - Bem melhor.... agora vamos e nunca mais fale na outra por aqui. Você sabe da coisa toda: falar, pensar, cochichar ou fofocar sobre a ex é inadmissível. Ela fica diferente quando tocam nesse assunto. É capaz de demitir alguém por simplesmente aparentar estar falando sobre essa pessoa.

 

 

 

                                                 **********************

 

 

   Orgulho e admiração são sentimentos lindos.

   Os sentimentos mais lindos de todos.

   Os únicos que ninguém jamais sentiria por mim. Já que, até a minha mãe, substituiu estes por outros quais ela achou conveniente: repulsa e ódio.

   Depois me julgavam por me sentir um lixo, todas as horas do meu dia.

   Nada colaborava pra que eu me sentisse diferente, em algum momento.

   Meu uniforme pesava sobre o meu corpo, cheio de respingos das comidas.

   Eu havia cozinhado pra eles.

   Havia servido.

   Havia limpado o chão enquanto todos comiam e comentavam sobre mim, na minha frente.

   Agora, sozinha, eu só conseguia me sentir suja.

   Limpei meus olhos, enquanto enxugava o último prato.

   Além de tudo, eu havia ouvido sobre ela.

   Depois de ter passado as últimas três horas no pior e mais aterrorizante setor da empresa, era normal que eu não tivesse a mínima ideia do que estivesse acontecendo com ela. Não deveria querer ouvir, não deveria me interessar, mas eu não conseguia evitar.

    Eu só conseguia pensar nela.

    Só conseguia imaginá-la dizendo coisas bonitas, que nunca diria pra mim.

    Só conseguia imaginá-la sendo doce.

    Só conseguia me cobrir de expectativas e ilusões.

    Só conseguia ficar lembrando de todos os momentos que tive, desde que aceitei o cargo na empresa. Das coisas que a envolviam.

    Ouvi que ela estava diferente.

    Bem diferente que em qualquer dia que eu já tenha a visto.

    Estava sendo absurdamente horrível com todos.

    Não, bem pior que horrível.

    Cruel, como nunca havia sido antes.

    Que estava fazendo o maior reboliço na empresa, deixando as pessoas preocupadas.

    Que estava pondo todos em desespero.

    Que estava ameaçando demitir quem quer que entre em seu caminho.

    Que alguém tinha feito algo a ela, algo que ela não pode contar, mas que é a razão de todo esse comportamento obsessivo.

   Que já processou duas funcionárias, só por desconfiar de que foram as autoras da tal atrocidade.

   E eu só conseguia pensar o que fizeram dessa vez.

   Não fui eu, só quero deixar claro.

   Abaixei a cabeça, me livrando daquele uniforme horroroso, me preparando pra um dia muito mais difícil, no mesmo setor que aquelas pessoas horríveis. Por um momento, desejei voltar ao setor da área sul. Mas foram os murmurinhos na cozinha que me chamaram a atenção.

    - Um dia quero fazer algo grande assim! Quero todos aqueles mesquinhas olhando pra mim com aqueles olhares de incredulidade e inveja também! Por Lilly, isso deve ser maravilhoso!

    Parei, tentando ouvir atentamente e descobrir sobre o que estavam falando.

    - Você viu o que ela disse...meu Deus, eu não conseguiria! Que garota de coragem! Conhece ela?

    - Acho que em todo esse tempo de empresa, ninguém nunca dirigiu uma palavra á senhorita Lovato. Estou tremendo até agora. Estou tão admirada!

    Elas...elas...estavam falando de mim?

    - Sim! Ela é a minha heroína!

    Heroína?

    Heroína.

    - É sempre assim. Eles sempre quiseram nos humilhar.  Se acham superiores e donos de tudo. É a primeira vez que gente como nós faz algo grande daquele jeito. Todo mundo ficou espantado...estou tão...orgulhosa!

    Pessoas estavam falando sobre mim de forma positiva.

    Estavam dizendo que ninguém nunca havia feito aquilo na vida, como se eu tivesse feito algo revolucionário.

   Pessoas estavam admiradas. Estavam orgulhosas.

   Não me importava com o que a senhorita Lovato pensava.

   Não me importava com o que qualquer um daqueles ricos empresários pensavam.

   Não me importava com o que todos aqueles funcionários ricos e de cargos altíssimos pensavam.

   A única opinião válida naquele momento, pra mim, era a daquelas moças da cozinha.

   Era a única que importava para o meu coração.

   Era a mais valiosa de todas.

   A mais linda.

    E então, vestindo aquele uniforme horrível cheio de comida, depois de ter ouvido as piores humilhações da minha vida e de ter que limpar o chão pra aquela gente, eu soube que valeu a pena. Que mesmo passando por tudo aquilo, eu sabia que alguém, em algum lugar, sentia orgulho de mim e admiração.

    Eu estava chorando, mas era de felicidade.

    Os sentimentos mais lindos de todos.

    




                                     **********************************

 

 

   Estava prestes a terminar o último documento do dia.

   Meus dedos, já doloridos, imploravam pra tocar qualquer coisa que não fossem as teclas do moderno computador.

   Ergui o meu olhar para me esticar por uns cinco minutos, aliviando as minhas costas.

   Mas em meio ao movimento, eu parei de respirar, ao observar logo a minha frente.

   Skye estava me observando.

   Os olhos verdes estavam focados em mim.

   Me lembrei da noite anterior, quando me observaram exatamente daquele ângulo.

   Senti arrepios subindo meu corpo e passei a respirar rápido demais.

   Ela não desviou o olhar por nenhum segundo, mantendo sua atenção toda sobre mim. O olhar quente.

   Nãoolhenãoolhenãoolhenãoolhenãoolhe.

   Encarei alguns dos documentos que havia digitado nas últimas horas. Sempre fazia uma pequena revisão deles no fim do expediente.

   Mas lê-los, naquele momento, sendo observada por aquela pessoa, estava se mostrando uma tarefa impossível.

   Abri uma das folhas e vi que algo estava errado.

   Abri a outra e soube que algo estava muito muito errado.

   Olhei para os lados, com os olhos arregalados, pensando em chamar Brian.

   Os olhos verdes ainda brilhavam na minha direção, inexpressivos.

   Todos os documentos que eu havia gastado todas as minhas horas digitando...estavam destruídos.

    Um erro. Um erro terrível.

   Tão terrível que nem mesmo eu o cometeria.

   Olhei pra pasta e vi marcas de mãos. Alguém havia tocado ali.

   Alguém havia me sabotado.

 

 

 

 

 

   Eu havia sido chamada para sua sala.

   E pela primeira vez, sabia exatamente o que iria acontecer.

   Ela estava de péssimo humor. Estava sendo horrível como todos.

   Iria ser horrível comigo também. Mais uma vez.

   Sei que estou prestes a viver a pior humilhação possível. Só não sei dizer se estou pronta.

   O elevador abriu bem a minha frente. Sua sala logo a minha frente.

   Tinha que ser agora.

    Parei frente a porta, a vendo abrir bem diante dos meus olhos.

    Ela estava localizada bem no sofá que ficava logo no canto. Olhou na minha direção e eu, em silêncio, me sentei na cadeira á sua frente.

    - Não quer se sentar aqui? - apontou para o espaço no sofá ao seu lado.

    - Não, obrigada, estou bem. - respondi baixo.

    - Certo. - sorriu.

    Sorriu?

    Um sorriso doce?

    - Deve estar se perguntando o p... - sua fala fora interrompida por uma funcionária que havia parado á porta, que se abrira automaticamente.

   - Senhorita Lovato, eu vim avisar qu...

   - Quem te disse que eu estava aqui? - seca.

   - A estagiária.

   - Demita a estagiária.

   A moça pareceu ter ficado sem ar.

   - O que veio fazer aqui? - a senhorita Lovato tornou a perguntar.

   - Ah, eu vim...

   - Não veio mais, está demitida também.

   - Mas...

   - Saia daqui antes que eu diminua seus direitos trabalhistas.

   - Vou não pod...

   - Vai querer discutir isso comigo? Tem certeza?

   A moça, em um completo choque, saiu tremendo.

   Te entendo, colega.

   A senhorita Lovato sorriu com a minha expressão de espanto e eu tratei de mudá-la, envergonhada.

   - Ás vezes é preciso ser assim, ás vez...

   - Eu sei como é. - dei um pequeno sorriso sem graça, por ter a interrompido - Se não for uma mão de ferro, eles se aproveitam de tudo. - disse, mesmo não concordando com nada daquilo.

   Mas quando ergui o meu olhar de volta, eu vi.

   Ela estava olhando pra mim.

   E pela primeira vez, eu vi um brilho de reconhecimento no seu olhar, Era como se pela primeira vez alguém reconhecesse o seu trabalho duro.

   Não pude evitar de desviar o olhar, intimidada.

   Balancei a cabeça.

   - A senhorita me chamou pra...? - perguntei, a cada minuto mais nervosa e desconcertada.

   - Conversar.

   - C-C-Conversar?

   - Conversar. - estava sorrindo mais uma vez.

   Aquele sorriso branco e encantador. Que nunca aparecia, em momento algum.

   Pisquei várias vezes, estava tão confusa.

   Minhas reações pareciam estar sendo agradáveis aos seus olhos. Pois ela via e sorria, como se fossem...adoráveis?

   O que estava acontecendo ali? Ela achava que eu ia mesmo esquecer o que aconteceu logo mais cedo?

    Não, obrigada.

    - Entendo que deve estar chateada com o que aconteceu logo cedo.

    - Se não for uma mão de ferro, eles se aproveitam de tudo. - sorri, triste.

    - Não. - ela interviu - Não é assim.

    - Eu prometo nunca mais falar sobre ela, sei que incomoda... - disse, me referindo a ex.

    - Senhorita... - tornou a falar - Não é isso o que eu quero dizer...na verdade...olha, me desculpe.

    Eu estava completamente imóvel quando ela disse.

    E foi exatamente assim que me mantive nos próximos cinco minutos.

   Tomei uma lufada de ar.

   - Quero que saiba que não precisa ficar com raiva pelo o que tem acontecido. Que está tudo bem. - ela continuava dizendo, me deixando a cada palavra mais confusa - Que não precisa fazer nada pra se vingar.

    - Não sei o que está falando...

    - Sabe. - sorriu, um sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira - Você sabe.

    Me mantive calada, tentando entender.

    - Sabe muita coisa. Eu andei te observando.

   Tudo bem...

   Pera, QUE?

   Viu o meu trabalho na área sul? Pelo amor de Lilly, que não tenha visto.

   Tenho uma habilidade surreal em me meter em situações cômicas e constrangedoras.

   Se fosse um animal, seria uma hiena.

   Eu engoli em seco.

   - O-Observando?

   - Observando.

   Soltei todo o ar de meus pulmões.

   - É uma conta simples de entender, senhorita. - andou pela sala, chegando á sua mesa. - Minha sala estará aberta. Se quiser voltar...pode voltar. A qualquer momento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   Seu sorriso.

   Eu me sentia leve.

   Seu sorriso doce.

   Me sentia nas nuvens.

   Não quer se sentar aqui?

   Flutuando.

   Não pude evitar o meu sorriso crescendo.

   Ela queria conversar.

   Queria se desculpar.

   Queria que eu entendesse que estava tudo bem.

   Não queria brigar, como tem feito com todos os outros funcionários.

   Eu andei te observando.

   Eu estava sorrindo mais uma vez.

   Ela. Me observando.

   Minha sala estará aberta. Se quiser voltar...pode voltar. A qualquer momento.

   Era...um convite?

   Certo, eu estava rindo mais uma vez.

   Olhei para trás, pensando em fazer o caminho contrário e voltar á sua sala.

   Pensei e vi que não era uma boa ideia.

   Mas quem disse que eu ouviria meus pensamentos?

 

 

 

 

 

 

 

    Estava quase diante da porta, mas reduzi meus passos quando ouvi vozes falando baixo.

    Eram duas vozes conhecidas aos meus ouvidos e quando reconheci a da senhorita Lovato e a do cara de olhos azuis, eu parei.

    Entrei numa dúvida entre voltar e permanecer ali.

    - Mas, e aí? O que conseguiu descobrir? - a voz grave do cara de olhos azuis encheu o ambiente. Ele respirou fundo e eu senti o cheiro da fumaça. Estava fumando ali dentro?

    - O que acha? - foi grossa - Acha que ela iria dizer o que fez tão facilmente?

    - Demi... - ele começou - Eu sei que o que aconteceu foi horrível. Mas você devia começar a tentar esquecer isso um pouquinho...

    - Horrível? - ela gritou, perdendo o controle - Foi desastroso! A pior coisa que poderia ter acontecido. A pior das piores. Deus! Eu nem consigo raciocinar.

    - Você poderia tentar superar isso...

    - Superar? - um baque alto foi ouvido - É isso o que está dizendo? Que devo esquecer toda a história e aceitar o que o destino está fazendo?

   - Pensei que fosse cética. Que não acreditasse no destino. - a fumaça preencheu o ambiente mais uma vez - Assim como não acredita no amor.

    - Sei o que está fazendo. Sei que quer que eu admita a minha contradição. Não vou o fazê-lo.

    - Quero que esqueça o que aconteceu e veja esse sumiço como algo divino enviando por Lilly...mesmo que você não creia na deusa Lilly ou em qualquer outro Deus existente. - tossiu - Sei de um lugar que pode te fazer esquecer tudo isso bem rápido.

    - Não vou. Não adianta pedir.

    - Não vai querer vê-la rebolar aquele bumbum a essa noite?

    - Você é sujo, Tompson.

    - Só estou dizendo que a mulher que te causou isso não está mais aqui.

    - Você nunca irá entender.

    - Então me faça entender.

    - Aquela droga...era tudo o que restava. Sem isso...ela...ela...ela está....

    - Morta?

    Ela não respondeu nada. Me perguntei o que estava acontecendo.

    Não estava entendendo mais nada.

   - Vai me julgar por ainda ser apaixonava por ela?

   Meu corpo estremeceu.

   Ela estava falando da ex.

   Mais uma vez.

   Da ex.

    - Vai deixar que eles saibam? Vai deixar que seus funcionários descubram a razão de você estar tão atordoada a essa manhã? Por ter demitido tanta gente? Pelas humilhações? Vai explicar os processos?

    Ele esperou que ela respondesse, mas ela apenas respirou fundo e o que disse a seguir foi capaz de me fazer perder todas as forças:

    - Como vou explicar a eles que meu livro preto foi roubado?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    Correndo.

    Bem rápido.

    Pra não ser vista.

    O elevador se abriu e eu entrei.  Meu corpo simplesmente escorregou pelo espelho devagar, enquanto eu chorava. Sempre achei que me sairia muito bem em um teste pra algum filme de drama, caso fizesse.

    Ela estava sendo horrível com todos, o dia todo.

    Agora tudo fazia sentido. Tudo encaixava.

    Era pelo livro.

    Só pelo livro.

    Tudo se justifica.

    Tudo.

    Minha voz não sairia. Tamanha dor que estava sentindo.

    Seu sorriso.

    Era de mentira. Não estava sorrindo pra mim.

    Estava sorrindo porque queria saber se eu havia pegado seu precioso livro.

    Sentia as lágrimas.

    Estava soluçando.

    Não queria que vissem. Não queria que achassem que era drama.

    Mas, e aí? O que conseguiu descobrir? 

    Acha que ela iria dizer o que fez tão facilmente?

    Estavam falando de mim. Era isso.

    Ela achou que eu havia feito algo por estar com raiva pelo o que aconteceu logo pela manhã.

    Achou que eu havia pegado o livro.

    Sentia o cansaço.

    A culpa.

    O esgotamento.

    Sentia um vazio encher meu peito. Incomodando.

    Quero que saiba que não precisa ficar com raiva pelo o que tem acontecido. Que está tudo bem.

    Meu Deus...como eu não desconfiei?

    Que não precisa fazer nada pra se vingar.

    Como pude ser tão idiota?

    Ela não estava sendo doce.

    Não estava demonstrando afeto.

    Era uma enganação, mais uma vez.

    As lágrimas sujaram a minha roupa de um jeito horrível.

    Queria descobrir aonde estava seu livro. Por ela.

    Até quando aquilo iria acontecer?

    Eu ia vomitar.

    Ia vomitar ali mesmo.

    Não.

    Não. Não.

    Mais uma vez não, por favor.

    Queria o livro porque ainda era apaixonada.

    Porque era a ultima esperança para encontrar aquela mulher.

    Porque era o que movia o seu coração.

    Porque ainda estava sofrendo.

    Porque sem ele...era como se a ex estivesse morta.

    Porque ainda a amava.

    Como nunca me amaria.

    Como nunca amaria ninguém.

    Enfiei as mãos entre os fios dos meus cabelos, tudo se encaixando tão bem, me fazendo querer morrer. Estava ali, no chão do elevador, entre um choro e uma tremedeira.

    A ex.

    Sempre ela.

    Era o nome dela que estava em sua mente, nunca o meu.

    Deveria ter ouvido Pam.

    Deveria ter ouvido quando pediu pra que eu não entrasse nesse meio.

    Ela me disse que eu ficaria destruída...exatamente como estou agora.

    Me sentindo um lixo.

    Eu estava respirando pela boca, o suor frio escorrendo pela minha testa.

    Não quer se sentar aqui?

    Eu estava chorando.

     Seu sorriso doce.

    Havia me iludido.

    Eu andei te observando.

    Havia ficado radiante.

    Mas era uma mentira.

    Mais uma vez.

    Minha sala estará aberta. Se quiser voltar...pode voltar. A qualquer momento.

    Achei que era pra mim. Mas era pra ela.

    Havia criado expectativas.

    Senti as lágrimas descendo quentes pelas minhas bochechas e odiei aquele momento.

    Apertei meus olhos.

    Meu coração se contraiu.

    E contraiu.

    Achei que quisesse que eu voltasse a sala.

    Mas só queria me dizer que eu poderia esquecer a minha raiva e devolver o livro, já que a sala estava aberta.

    Só isso.

    Eu não podia me sentir amada...porque nunca seria.

    Era e ex que fazia falta. Era nela que ela pensava.

    Todas as suas atitudes ruins. Agora tudo fazia sentido!

    Só a outra seria capaz de causar reações assim nela.

    Nada doía mais que o rombo no meu coração.

    Tudo o que fez foi por uma única razão: o livro preto.

    Meu corpo tremia inteiro.

    Senti as lágrimas amargas me acompanharem.

    Senti o choque subir por todo o meu corpo.

    Ainda estava acontecendo.

    Ainda estava sendo horrível.

    Ainda não sabia reagir.

    Eu iria para casa.

    Iria assistir as minhas séries. Enrolada no meu cobertor.

    Iria me encher de comida, enquanto choro.

    Mas foi quando o elevador se abriu e o ar frio chegou ao meu rosto , que eu decidi que não queria mais fazer isso.

    Não queria mais chorar miseravelmente por alguém que não se importa comigo.

    Que não queria mais me sentir culpada por algo que não era minha culpa.

    Que não queria mais me sentir um lixo por causa de alguém.

    Que queria me sentir bem.

    Que queria me olhar no espelho e me sentir linda. Que queria ser confiante.

    Me levantei devagar e com cuidado. Limpei meus olhos no espelho e sorri, decidida a vestir minha melhor roupa, passar minha melhor maquiagem e ir algum lugar incrível e sentir as sensações que só as noites de Joutech Blue são capazes de me fazer sentir.

    Porque quem disse que a dor precisa ser sentida, não tem a mínima noção do que é levar um pé na bunda.

 

 

 

 

                                      ********************************

 

 

 

 

 

 

   Era um local adulto. Com bebidas, cartazes sexuais bem sugestivos, drogas legalizadas na cidade disponíveis nas mesas...

   - MINHA VEZ DE SER O UNICÓRNIO! - Sam tentou tirar o canudo do topo da cabeça de Dallas, que o segurou com mais força o tomando pra si, lhe mostrando a língua - SELENA!

   ...Mas eu me sentia acompanhada por duas crianças.

   - Calem já, as duas! - olhei feio para ambas - Não quero que todos nos olhem dessa vez. - cerrei os olhos pra Dallas e ela tirou o canudo da cabeça.

    Abaixou a cabeça, pronta para tomar um gole de seu drink, mas eu o tirei de sua mão.

    - Ei!

    - Você. - apontei, falando pausadamente -  Bêbada. Não.

    Fechei os olhos e cruzei os braços, como se estivesse falando com uma criança.

    - O que deu nessa maluca, Samantha? 

    - Fechei os olhos, não os ouvidos - avisei.

    Bateu na mesa com força. Tentando chamar a atenção com sua birra.

    - Não estou nem aí pra você. - continuei com minha expressão calma e pacífica.

    - Eu te od... - não conseguiu continuar a frase, pois uma garçonete muito bonita e delicada colocou mais drink's sobre a mesa.

    Dallas a olhou encantada, quando ela lhe olhou de volta sorrindo e colocando um drink na sua frente. Drink que eu não a deixaria beber.

    - J'ai soif, mademoiselle. - disse e saiu.

    Dallas ficou olhando pro nada por uns cinco minutos, confusa, quando abriu o bocão.

    - CHAMOU MINHA MÃE DE QUÊ? FILHA DA PU...

    - DALLAS! - chamei sua atenção.

    - Quer dizer "estou com sede" em francês. - Samantha ajudou.

    - Mas ela disse Made-alguma-coisa. Falou da minha mãe, a piranha!

    - Mademoiselle, amor. Significa "senhorita". - Sam estava rindo.

    Mas Dallas permaneceu com seus braços cruzados e seu bico bem decidido.

    - Não sei o que tenho a ver com os rins dela. - fechou os olhos, birrenta.

    - Ninguém sabe. Mas o que há de normal nessa cidade? - Sam piscou.

    Dallas parou, como se estivesse pensativa e abriu os olhos de repente.

    - Hoje completam três meses desde que o ano começou! - disse sussurrando, como se compartilhássemos um segredo.

    - O que acontece? - Sam agora tinha a testa franzida.

    - Não conhece a lenda? Os Drunkers acontecem! - tentou dizer o fim da frase com voz de filme de terror, mas seu tom se assemelhou mais ao de uma gaivota.

    - Aaaah, quanta bobagem! - Sam virou os olhos.

    - Nunca pararam pra ouvir o que as pessoas da cidade falam? Nós nos mudamos pra cá no início do ano! Não sabemos de nada! Temos que dar atenção quando disserem que algo ruim ou incrível irá acontecer!

   Observava o diálogo todo acontecer na minha frente, completamente muda. Não queria interferir.

    - Certo. E o que tem? Eles vão entrar na igreja dos Luvesher e quebrar tudo? Vão falar mal da Deusa Lilly? - Sam estava rindo - Já notou que só os religiosos os temem?

    - Na verdade é mais uma repulsa. - Dallas levantou o dedo, explicando - E todos sabem que eles irão jogar. - cruzou os braços, os olhos fechados, como se soubesse de alguma coisa da vida.

    - Jogar? - perguntei.

    - Jogar. - abriu os olhos pra mim - Eles fazem algo a cada três meses. Eu não sei o que é, já que não conheço muitas pessoas por aqui pra saber. Mas sei que eles atacam.

    - Pensei que jogassem. - Sam desafiou.

    - Eles escolhem a vítima.

    - Como em um jogo? - achei legal perguntar.

    - Como em um jogo. - confirmou com seus grandes olhos azuis.

    - Que a Deusa Lilly nos abençoe. - Sam disse, mesmo que não acreditasse naquela bobagem.

    - Deusa Lilly está morta. - intervi.

    - Você está virando uma pagã. - reclamou.

    - Certo. - ri - Eu irei para o inferno.

 

 

 

 

 

 

 

 

    A música havia mudado. O velho rock n' roll ambiente havia sido substituído por uma música mais sensual. Ao que parecia, algumas apresentações se iniciariam a partir de agora. Dallas, depois do seu terceiro copo, havia compartilhado seu sonho com a gente, totalmente encantada. Nos observou quase emocionada, esperando nossa reação.

    - Que sonho bosta.

    - Samantha! - a recriminei com o olhar - Foi bom, Dallas. Muito proveitoso. - ri sem graça, sabendo que não havia ouvido nada, já que minha cabeça estava ocupada com outra pessoa - Muito altruísta. - acrescentei.

    Dallas sorriu pra mim, as bochechas ficando avermelhadas.

    - Selena?! - Sam indignou-se - Ela sonhou com a doida do jornal! Sonhou que ela estava viva! - levantou os braços, como se só ela visse aquela insanidade.

    - Não é doida. É a Elizabeth. - Dallas levantou o dedo.

    - Beleza, ela é uma merda.

    - Parem já com isso! - meu olhar passou por Sam, depois por Dallas - É muito bom que tenha sonhado com isso...quer dizer...

    - Coraline pode estar viva! - disse, feliz, por fim.

    Era ali que queria chegar.

    Eu sabia.

    Ela sempre enrolava quando queria nos dizer algo.

    - Ah, não... - Sam estava olhando pra mim.

    Trocamos um olhar longo, enquanto vários "nãos" rondavam a minha cabeça.

    Dallas ainda tinha esperança que ela voltasse.

    Coraline, a sua melhor amiga. A mesma que morreu no acidente de carro.

    Respirei baixo, achando que se respirasse um pouco mais alto, poderia de alguma forma machucar seus sentimentos.

    - Quer dizer...eu vi uma pessoa idêntica a ela na cafeteria, lembram? - seus olhos brilharam e eu achei que seria a hora de contar sobre Skye - Podia ser ela!

    Sam continuou me olhando, sabendo que eu fui a causadora daquilo, por estar alimentando suas expectativas. Cruzou os braços e ficou numa pose que dizia "resolve aí".

    - Não está criando expectativas, está...? - minha garganta estava apertada. Falei baixinho.

    - Não muito. - respirei fundo aliviada - Mas, sabe. Eu sonhei que a Elizabeth estava viva! A mesma pessoa que passou por um desaparecimento horrível, que sofreu horrores, que foi assassinada e até teve seu corpo encontrado! O que é isso perto de um acidente de carro?

   Balancei a cabeça diversas vezes, engolindo todo o líquido do meu copo de uma vez.

   Era a pior lógica possível. Mas ela tinha esperança.

   A ciência não podia competir com a esperança.

   A música do ambiente havia mudado e agora as cortinas estavam abertas. As apresentações começariam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     O show era maravilhoso.

     Incrível.

     Surreal.

     Nunca havia visto algo igual. Nunca havia estado em local igual.

     Passei os dedos pelos meus cabelos, ajeitando-os enquanto me via completamente ofegante.

     Meus olhos voltaram a se focar na cena que se desenrolara logo a minha frente. O corpo da jovem modelo era o foco da noite.

   Seu corpo bronzeado.

   Seus cabelos escuros.

   Seu olhar desafiador.

   Seu batom vermelho.

   Sua audácia e ousadia.

   Sua cinta-liga aparecendo por debaixo do vestido curto...

   Dallas observou tudo atenciosamente, batendo palminhas.

   A jovem rebolou, mas parou ao ver algo. Sua atenção havia sido desviada, juntamente com a do público. Tentou manter sua expressão ousada, mas agora estava séria.

   Havia outra pessoa do outro lado do palco.

   Uma pessoa de expressão serena, confiante. Que não estava nem aí pra atenção que estava sendo a ela direcionada.

   Meu sangue ferveu.

   O ambiente estava mais quente.

   A jovem mordeu o lábio e pareceu considerar suas ações por alguns segundos. Quando optou pela ousadia mais uma vez, arrancando o vestido do próprio corpo, deixando o público boquiaberto.

   Abaixou-se vagarosamente, tocando o seu pé, pra logo em seguida se erguer novamente. Bem devagar, passando pela panturrilha, joelhos, coxas e bumbum. Tudo no ritmo da música.

    A moça lhe olhou desafiadora, aceitando o desafio.

    Se desencostou do poste atrás de si, rebolando vagarosamente, logo enroscando sua perna nele e mordendo o lábio. O que fez a seguir, foi completamente alucinante.

    Sentia minhas pernas tremerem em excitação.

    Nunca havia assistido algo assim. Nunca havia experimentado esse tipo de experiência.

    E estava adorando.

   A jovem não deixou barato, quando se sentou sobre a cadeira ao seu lado e rebolou devagar.

   A linda garçonete estava subindo pelas bordas do palco.

   Ninguém havia a visto.

   Mas eu a vi.

   Vi e me lembrei de sua expressão engraçada quando disse "J'ai soif, mademoiselle".

   Mas minha atenção se voltou quase que de imediato a jovem, quando ela fora jogada contra a cadeira e a moça sedutora se sentara em seu colo, rebolando devagar e tortuosamente.

   Minha boca estava seca.

   Eu não conseguia respirar.

   Queria ficar.    Mas eu precisei sair.

   Precisei beber água.

   Em qualquer lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    A sala com o bebedouro era pequena.

    Minúscula de um jeito que não podia ser considerada uma sala.

    Um espaço menor que o de uma cabine de banheiro.

    O bebedouro ocupava mais espaço que eu ali.

    Aquilo era uma vergonha.

    E era a razão do meu acidente.

    Deixe-me explicar: aquele espaço de passarinho não me permitia abaixar para beber água. O que fez com que a água errasse o caminho até a minha boca e fosse direto para a minha blusa.

    Agora eu jazia encostada contra a parede, com a blusa secando em cima do bebedouro (na parte seca), enquanto apreciava a desgraça da minha vida.

    Depois de longos dois minutos esperando que aquele milagre acontecesse, decidi que deveria finalmente desistir e aceitar que a física e a química não me estavam sendo favoráveis nessa situação. Toquei a blusa na intenção de pegá-la, mas minha brutalidade fez a coitadinha voar como uma gaivota com asma até o chão do espaço. Me agachei odiosa, catando a roupa como cataria um saco de lixo e me forcei a levantar.

   Eu teria me levantado.

   Eu teria sido capaz.

   Teria me levantado e me vestido bem rápido, pra sair dali logo.

   Mas a porta se abriu...

   E meus pulmões se fecharam.

   Quis gritar um "tem gente" escandaloso, mas me lembrei que não estava em um banheiro. A pessoa fechou a porta atrás de si e eu me virei imediatamente pra entender que porra era aqu...

    Eu já havia tossido muitas vezes na vida.

    Não sabia a razão, mas era só uma situação constrangedora acontecer e lá estava eu – liberando o espírito de porco asmático que morava dentro de mim. Era sempre assim.

   E não seria diferente agora.

   Mantive meu corpo encolhido bem preso ao chão da cabine, enquanto tossia como um cachorro filhote latindo. Fazendo a modelo que havia acabado de sair do palco olhar na minha direção.

    Ela tinha lindos olhos azuis.

    Tinha um tipo de glitter dourado em uma parte de sua testa e próxima aos seus olhos. Assim como em todo o seu corpo bronzeado.

    E estava nua.

    Honestamente.

    Verdadeiramente.

    Completamente.

    Ou qualquer outra palavra que falariam em Simplesmente Acontece.

    Tinha as mãos em seus cabelos loiros quando me viu e diferente do que eu esperei, não se constrangeu com a situação, voltando a mexer neles como se nada tivesse acontecido.

   Mas não foi isso que tirou a minha calma.

   Eu poderia muito bem passar alguns minutos suando e tremendo naquele chão, bem quietinha.

   Mas a situação piorou quando seus cabelos deixaram de ser interessantes e ela se abaixou, em direção ao meu rosto e abriu os olhos azuis pra mim:

    - Quer levantar?

    Não.

    Não.

    Não!

    Eu adoro o chão, ele é o meu melhor amigo.

    Devo ter passado tempo demais soltando sons incompreensíveis a qualquer ser vivente. Pois ela acabou tocando minhas mãos e me levantando, entendo meus sons como um "sim".

    Agora eu me via completamente escorada á parede atrás de mim. Observava a blusa aos meus pés como um urubu observaria a carne morta de um coelho. A modelo tinha os olhos confusos na minha direção e eu esperei que perguntasse logo, com sua meiga voz, que caralhos eu fazia ali.

    Mas o que veio foi diferente:

    - Por quê está sem blusa? - ah, é só que eu adoro tirá-la enquanto bebo água, é meu maior vício.

    Vejamos...Por que está nua?

    - É-Érrr...a água...ela...

    - Está molhada?

    O quê?

    Arregalei meus olhos pra ela, tentando responder sua pergunta audivelmente, não conseguindo soltar mais do que alguns "o-o-o-o quês".

    - A blusa. - disse se abaixando para pegá-la - Está molhada. - confirmou, ao tocar o tecido.

    O espaço era pequeno.

    O espaço era minúsculo.

    Por isso quando foi se levantar, seu corpo acabou se aproximando um pouquinho mais do meu. E com "pouquinho" eu quero dizer que seus seios roçaram desde o meu abdômen, até ficarem na mesma altura dos meus. Minha cara estava vermelha.

    Seu corpo agora estava no mesmo nível do meu.

    Senti sua respiração bateu contra a minha bochecha e meu corpo esquentou.

    Saia daí agora, sua maluca!

    Tentei dar um passo atrás, mas a parede me impediu.

    - Meu glitter está no seu rosto! - riu sozinha, a risada meiga preenchendo o ambiente.

    Seus dedos tocaram o meu rosto, enquanto ela o avaliava e tirava o pózinho dourado da minha pele. Senti algo entre as minhas coxas estremecer e o desespero dominou o meu corpo.

    - N-N-Não pre-precisa... - tentei dizer.

    Mas era em vão.

    Eu falava baixo e ela não ouvia.

    Se aproximou mais para conferir o meu nariz de perto e seus seios me pressionaram mais contra a parede. Eu não estava respirando.

    - Não deveria ficar nua aqui! - gritei, balançando os braços. O espaço pequeno quase me fazendo tocar seu corpo no movimento.

   - Em um show de strip-tease? - continuou concentrada em sua grandíssima tarefa de acabar com a minha vida, enquanto seus dedos limpavam o meu rosto.

   - Não deveria ficar nua aqui! - apontei para o local que estávamos e depois pra todo lado.

   - No meu camarim? - ela estava confusa.

   - Seu...s-s-seu camarim... - minha testa estava suando - Desculpe...

   Mas desculpas não foram suficientes.

   Desculpas nunca seriam o suficiente.

   Porque eu sabia que nenhum pedido de desculpas mudaria o momento em que a porta fora aberta e a mulher ruiva visualizou a cena de imediato, levando um choque.

    A senhorita Lovato se mantinha estática, quando a jovem loira se virou em sua direção e pareceu surpresa.

    - Senhorita Lovato! A grande empresária! - olhou para o espaço em seu camarim - Por aqui...que honra!

    Se manteve calada por um tempo incalculável.

    Seus olhos passaram entre eu e a moça mais de cinco vezes, quando finalmente voltou a atenção para a moça.

    - Vim ver uma pessoa. - respondeu rudemente, ignorando todo o agradecimento da moça - Mas ela não está aqui.

    - Ah, normal! - balançou os braços com entusiasmo - Troquei de camarim com a S...

    - Certo. Agora sai. - cortou.

    - O quê? - a moça lhe observou confusa.

    - Quero que saia daqui. Agora. - cerrou os olhos para ela, cheia de ressentimento - Falei grego?

    A moça deu um passo atrás com aquela grosseria. Mas vendo que não poderia confrontar uma mulher daquelas, saiu pela porta, em completo silêncio.

    Agora estávamos sozinhas.

    Agora eu estava tremendo.

    Agora eu ouvia o meu coração.

    Agora eu sentia dor medo.

    Mas acima de tudo, agora eu estava confusa. Afinal...o que diabos ela estava fazendo aqui?

    Tentei puxar da minha memória algum detalhe que eu estava ignorando.

    Talvez fosse excesso de nervosismo ou perspicácia minha, mas quando eu tentei me lembrar dos eventos anteriores uma frase voltou a minha memória. Uma frase que explicava tudo.

    Não vai querer vê-la rebolar aquele bumbum a essa noite?

    Aonde mais ela iria, criatura? Esse era o único lugar possível!

    Joutech Blue só possuía uma casa de dança noturna. Se ela fosse ver alguém rebolar, seria aqui.

    Ela veio por alguém.

    Uma mulher.

    Veio para vê-la.

    E veio em seu camarim. Que agora havia mudado de endereço.

    - Conta as boas novas. - seu tom baixo e rouca me fez erguer o olhar assustada, observando-a instantaneamente - Eu quero ouvir você dizendo.

    Mas eu me mantive imóvel.

    Me mantive calada.

    Não por orgulho. Mas porque eu não conseguiria dizer nada naquele momento.

    Não nesse estado. Não tremendo dessa forma.

    O espírito do porco-asmático parecia ter sido substituído pelo porco-com-Parkinson.

    Mas ela estava analisando o ambiente e ao ver o tecido branco no chão, se abaixou, recolhendo-o.

    - Isso não deveria estar no seu corpo? - tinha a sobrancelha erguida. O tom sombrio.

   Calada.

   Muda.

   Inaudível.

   Silenciosa.

   Era exatamente assim que eu me mantinha, dessa vez por birra.

   Mas seu tom calmo não iria durar pra sempre...

   - Vai, fala! - agora sua distância havia sido completamente diminuída. Seu rosto estava no mesmo nível que o meu e sua mão estava apoiada contra a parede ao meu lado. Parou seu movimento por cinco segundos, continuando a falar - Você é virgem?

   Eu sabia como iria funcionar.

   Já havia ficado presa naquele jogo vezes o suficiente pra saber.

   Ela iria dizer aquelas coisas. Iria me deixar vermelha e trêmula.

   E assim iria ganhar.

   Eu iria responder suas perguntas instantaneamente e ela conseguiria de mim exatamente o que queria.

   Não dessa vez...

   A lembrança do momento em que eu estava ajoelhada contra o chão do refeitório com todas aquelas pessoas rindo e fazendo comentários venenosos deu impulso o suficiente para a minha mão para tocar a dela, que estava apoiada contra a parede ao meu lado. Ela me olhou confusa, quando eu, lentamente, a retirei. Conseguindo cerrar levemente o olhar, quando saí da parede, indo em direção á porta, me livrando completamente de seu contato.

    Minha mão já estava na maçaneta.

    - Por que fica assim quando eu falo sobre sexo? - seu tom foi intenso, lento, restrito, sensual. Minha boca estava seca, minha vagina molhada. Mas ela se manteve exatamente aonde estava, virada para a parede que antes eu estava, sem se virar - O assunto te constrange?

   Mantive o meu silêncio sagrado, quando sua voz se fez ouvir mais uma vez.

   Não saberia até quando meu corpo suportaria fingir sanidade com aquela voz rouca tão baixa.

   - Ou...tem medo de que eu lhe toque? - se virou em minha direção.

   Meu estômago se afundava a cada vez que ela abria a boca.

   O frio na minha barriga ia crescendo, juntamente com o calor do ambiente. Que já estava fervendo.

   Senti o suor quente descer por minha testa e soube que meu estava era crítico.

   Olhei para cima, pedindo socorro ao além.

   Deusa Lilly, você é linda...

   - Lembra da última vez? - disse baixinho, se aproximando da minha orelha com cautela - Não faz nem 24 horas...

    - Não deveria. - respirei fundo, sentindo como se o calor do sol estivesse entre nós - N-N-Não deveria dizer essas coisas.

    - Posso te dizer muitas coisas que não deveria fazer. - riu baixo, um pequeno riso baixo que fez com que até o última pelo do meu corpo se arrepiar. Seus lábios chegaram á linha da minha orelha e eu me vi tremer inteira, enquanto sua mão me entregava a minha blusa - Como isso...

   Senti sua mão escorregando por entre minhas coxas.

   Seu olhar sobre mim me trazia uma enxurrada de calor e eu me vi apertando as coxas e tentando disfarçar o calor entre as minhas pernas. Agarrei a maçaneta apertando-a, fechando meus olhos com força. Forçando meu corpo a manter o controle e se afastar.

    O toque foi lento e demorado.

    Prensei minhas coxas uma contra a outra, mas sua mão possessivamente me impediu de fechá-las.

    Minhas pernas tremeram com violência.

    Minha mão tentou afastá-la em uma última tentativa, quando sua mão a tirou dali, trazendo meu corpo pra si. Agora eu tinha o meu bumbum contra sua virilha e sua mão me tocava devagar. Chegou ao meu clitóris e girou-o devagar entre os dedos.

    O calor ficando insuportável.

    Forçou os movimentos naquele ponto mais delicado de meu corpo.

    A tensão percorreu meu corpo.

    Todos os músculos de meu corpo estavam contraídos.

    E eu já me sentia desesperada. No seu tom de voz...eu senti...havia desafio.

    O desejo febril em minhas entranhas. Latente.

    Seus dedos não me tocavam nem a um minuto...e eu já me via completamente em chamas. Rebolando devagar e involuntariamente. Girei os quadris, mas ela não permitiu que eu mudasse a posição ou saísse dali.

    Apertou meu clitóris, me torturando. Prensei minhas coxas com força, buscando a maravilhosa fricção enquanto rebolava. Qualquer alívio seria bem-vindo.

    - Quer ajuda?

    - Han? - abri os meus olhos imediatamente, sentindo o calor me dominar por inteiro.

    - Gosto de ter ver rebolando assim, é delicioso.

    Algo em mim tremeu.

    Entre as minhas coxas.

    Bem ali.

    Me apertou mais contra seu corpo. Senti a fricção.

    Mais forte.

    Mais ágil.

    Mais intenso.

    Prensei minhas coxas ao redor de minha sensibilidade. Eu queria gritar.

    Eu iria gritar.

    - Me deixa com água na boca quando faz isso. É tão deliciosa senhorita Gomez. - me analisou devagar e com atenção - Posso fazer tantos movimentos com a língua que você vai esquecer seu nome pelas próximas duas semanas.

    Assim como você sempre esquece o meu?

    Querida, calada. Não se mete.

    - S-S-S-Senhorita...L-Lovat...não deveríamos...

    Seus dedos se pondo entre os lábios da minha vulva, parados. Meu coração explodiu em batidas, o calor daquela área tão delicada se multiplicando e a ansiedade se manifestando sobre o meu corpo. Seus dedos deslizaram, acariciando minha vagina devagar, como um carinho, não como uma masturbação. Fazia de um jeito que me causava essa impressão.

    E eu me via tremer inteira.

    Qualquer músculo de meu corpo respondia ao seu contato. E de forma positiva, como prova de uma traição executada por mim mesma.

   Me corpo teimoso se contorceu. Suplicando por mais.

   Seus dedos deslizaram por minha vagina em busca do outro orifício. Meus pulmões automaticamente trancaram a respiração quando seus dedos chegaram ao meu bumbum, se aproveitando dele.

    Quando ela me soltou.

    Quando seus dedos me abandonaram.

    Quando seu contato acabou.

    Como em todas as outras vezes.

    Eu poderia pensar no abandono, poderia pensar em todas as vezes em que esse momento se repetiu, poderia pensar em todas as noites de frustração...

    Mas eu só conseguia pensar em uma coisa.

   Uma coisa que havia surgido na minha cabeça desde a frase de Dallas. Uma pequena pulga bem atrás da minha orelha.

    Deveria estar pensando em como a mulher á minha frente era uma tremenda filha da puta.

    Mas estava pensando no horrível "Caso Elizabeth".

    Demi me virou em sua direção, me fazendo encará-la.

    Estava irresistível.

    Usando aquela maldita blusa azul que marcava tão bem os seus seios, á mostra pelo decote. E que ao mesmo tempo contrastavam tão bem com a sua pele alva. Usava uma saia preta que se apegava sensualmente á suas curvas, deixando claro que por baixo estavam suas coxas torneadas e seu bumbum desenhadamente perfeito.

    Se afastou devagar de mim, mantendo seu olhar, enquanto encostava o corpo na parede.

    Havia algo extremamente semelhante com outra coisa nisso tudo, mas eu não conseguia me lembrar o quê. Algo que estava na minha cabeça, mas sempre fugia quando eu tentava me concentrar.

    Quer dizer...o que Dallas falava sobre esse caso?

    Era só uma mulher.

    Uma mulher que havia sido assassinada de forma cruel.

    Haviam detalhes podres. Detalhes que não deviam ser contados.

    Ou não queriam contar.

    Você sabe em quantos detalhes se pode moer a carne humana?

    Argh.

    Detalhes que eu não queria ouvir, obrigada.

    Suas mãos tocaram as laterais de sua saia e eu me vi perder qualquer foco.

    Perdi o chão, da forma mais deliciosa possível.

    Minha boca salivando.

    Seus dedos tocaram as extremidades da saia e eu não acreditei quando começaram a deslizar, se livrando do tecido devagar. Quando sua saia chegou aos seus pés, eu pude ter uma visão completa da cinta-liga preta com rendas, que lhe caía tão bem.

   Engoli em seco, sentindo todo o meu corpo se arrepiar.

   Eu não tinha mais controle algum.

   Não podia ter controle algum.

   - Agora você vai se ajoelhar. - disse devagar, como uma ordem. Seus olhos intensos na minha direção - E vai me chupar.

    Senti todas as sensações possíveis. Todas de uma vez.

    Algo quente subiu o meu corpo intensamente e eu me vi derreter por dentro.

    O calor chegou ao meu pescoço, enquanto cada pelo em minha nuca se arrepiava ao seu momento.

    Apertei a maçaneta. O caso Elizabeth voltando a minha cabeça.

    Haviam três suspeitos, eu me lembrava.

    A ex, o pai e uma mulher que supostamente tinha uma rixa com ela.

    Podiam ter várias pessoas com essas características em um crime.

    Um bom exemplo seria a ex da Demi.

    E foi naquele momento. Ali,

    A maçaneta abandonou a minha mão, quando eu a larguei imediatamente.

    Abri os meus olhos. Meu rosto envolvido pelo suor.

        Tinha certeza que meu coração havia se perdido em algum lugar da última frase.

    Estava boquiaberta. Pálida.

    Não gostamos de falar o nome dela por aqui.

    Não gostam ou não podem?

    Um nome que está em todos os jornais... seria arriscado, não seria?

    Eu me lembrava perfeitamente de como lhe chamavam dentro daquela sala do café.

    Aquela pessoa.

    Respirei nervosa, mudando o lado do meu cabelo.

    Eu me lembrava das pessoas tentando disfarçar.

    Me lembrava do tom de mistério.

    Me lembrava dos segredos.

    Me lembrava de tudo.

    Ela.

    Era como se quisessem reduzir sua existência a apenas "ela".

    Era como se aquela mulher nunca tivesse existido pra valer.

    Era como se a temessem com tanta força, que evitavam seu nome a qualquer custo.

    Aquela pessoa com E.

    Eu havia parado de respirar.

    Não tinha controle nenhum sobre meus pulmões.

    Estava grudada na cadeira. Sentindo meu corpo pesar.

    Seria E de Elizabeth?

    Era dolorido.

    Sentia vontade de vomitar.

    Surreal. Completamente surreal.

     Queria pensar em qualquer outra coisa...mas pensava nela.

    A mulher á minha frente.

    Ela e seu tom misterioso.

    Ela e seu sofrimento.

    Ela e sua recusa a responder a minha pergunta.

    Ela que era falada em cada canto da empresa, que tinha sua tristeza comentada e assistida.

    Ela que nunca havia superado aquela morte.

    Ela sofrendo em sua sala, sozinha.

    Ela observando a janela, exatamente no mesmo lugar que sua ex ficava.

    Ela.

    A pergunta que ela não quis responder...

    Já havia uma resposta.

    Não há nada pra se fazer.

    Porque Elizabeth está morta.

    E a criança também.

    Meu corpo foi para trás e eu girei a maçaneta no automático.

    Mas sua voz me parou.

    Sua voz sempre me parava.

    Mesmo em meio a todo aquele mar de desespero.

    Ela falava e eu ouvia.

    - Não vá. - ordenou, se aproximando devagar, sua voz rouca - Você me deixa louca. Estou molhada. Fiquei assim o dia todo, por você. Não vou deixá-la sair por essa porta e me abandonar nesse estado.

    Ouvi. Como eu sempre fazia com ela.

    Mas assim como ela sempre fazia comigo...

    Eu saí e a deixei daquela maneira.

 

 

 

 

 

  

   












    Minhas pernas tremendo.

    Meu caminhar torto e indeciso.

    As palavras se repetindo em minha cabeça.

    Fiquei assim a noite toda, por você.

    Deixei o ar sair por meus pulmões devagar.

    Elizabeth Fox.

    Pisquei para o vazio.

    Elizabeth era a ex.

    Ou a ex era Elizabeth.

    A mulher estava morta. E havia sido da forma mais cruel possível.

    E mais nada podia ser feito.

     Aquele show era a única coisa que afastava meus pensamentos daquela descoberta tão surreal.

   Pisquei para o vazio e decidi parar de pensar naquilo por um minuto, já que a desordem de todos aqueles pensamentos estavam chegando á mim e me fazendo querer explodir. Senti que ficaria louca se não parasse de pensar imediatamente. Talvez a minha palidez e aspecto de pessoa-prestes-a-desmaiar tenha chamado a atenção, pois quando olhei para o lado, Sam e Dallas estavam de pé, em dúvida se cuidavam de mim ou apreciavam o show.

   Segunda opção.

   Decidi que deveria fazer como elas. Deveria fingir que minha vida era normal, como a delas, ao menos uma vez na vida.

   Queria evitar a culpa e o nervosismo, mas estava sendo impossível.

    Ainda me sentia tremendo. Tentando esquecer dos últimos acontecimentos.

   Tentando esquecer Demi.

   Tentando esquecer Elizabeth.

    Quando voltei minha atenção ao show.

    E foi naquele momento que soube que seria impossível.

    Soube que minha vida não era normal e nunca seria.

    Que essas coisas continuariam acontecendo pra me enlouquecer, quer eu pense nelas ou não.

   Senti meu corpo se arrepiar instantaneamente quando observei o impecável rosto da moça que rebolava sobre a jovem. Seu sorriso encantador chegou ao ouvido da outra ao mesmo tempo que uma lembrança, de um exato momento muito semelhante a esse, me invadiu.

   Assisti seus dentes morderem seus lábios devagar, completamente em choque.

   O mais chocante não era a cena em si e sim a pessoa que a fazia. Devo ter piscado meus olhos umas trinta vezes até ter certeza de que era ela.

   Skye.

   Skye no palco.

   Skye o tempo todo.

   Os olhos verdes brilharam e ela se levantou.

   A luz havia se apagado. As pessoas bateram palmas animadas quando concluíram que o show havia terminado daquela forma tão espetacular e cheia de suspense. Mas eu não o fiz.

   Eu estava paralisada.

   Não vai querer vê-la rebolar aquele bumbum a essa noite?

   Vi Skye.

   E então soube de toda a verdade.

   No momento em que se virou e olhou para Demi antes de continuar a sua rebolada, eu soube que tinham um caso. Soube que em todas as vezes em que achei que Demi estava com ciúmes de mim, na verdade estava com ciúmes dela.

   Soube que mais uma vez, eu era a intrusa.

   Sentia algo no meu peito incomodar.

   Me sentia a cada minuto menor.

   Meus olhos estavam molhados, mas eu me recusava a chorar.

   A luz havia se apagado.

   E todos concluíram que o show havia chegado ao fim.

   Mas quando a luz acendeu mais uma vez, soubemos que a luz havia sido apagada por puro acidente e que o show duraria por muito tempo ainda.

   Meu estômago gelou de ansiedade.

   - Selena... - ignorei a voz de Dallas, enquanto procurava pela jovem pelo palco.

   Procurei pelas beiradas.

   Procurei pelos lados.

   Procurei no centro.

   Mas só a encontrei sobre a cadeira.

   - Selena. - Dallas era chata e insistente.

   E a jovem estava séria.

   Não dava pra saber se estava tensa ou não, pois estava inexpressiva.

   Não piscou e não se moveu sobre a cadeira.

   Dallas sacudiu meu braço.

   - Selena!

   Não estou ouvindo, lá-lá-lá-lá-lá-lá.

   A moça se mantinha parada. E eu me perguntei o que havia acontecido.

   Estava parada demais.

   Não se movia.

   Não piscava.

   Não fazia expressão alguma.

   Não respirav...

   Toda a realidade chegou a mim como um forte tapa. Agora meu coração batia contra os meus ouvidos. Dallas puxou o meu braço, me forçando a olhá-la e ouvi-la:

   - SELENA!

   Me virei para ela, estática.

   - O que aconteceu? - eu só sabia tremer.

   - Drunk in Love, aconteceu. - eu via minha amiga chorar em pânico na minha frente e não sabia o que fazer - Ela tá morta!

   Morta?

   Meus olhos voltaram ao encontro do rosto da moça que a alguns minutos atrás estava avermelhado, mas agora se mantinha pálido. A ausência de expressão, os olhos que não piscavam, o corpo imóvel...

   Morta.

   Estava difícil respirar.

   Algo havia acontecido.

   Tive vontade de chorar de medo.

   Aconteceu em diante dos meus olhos.

   Algo dentro de mim doeu profundamente.

   Quando as luzes se apagaram...

   Olhei para os lados, prestes a entrar em colapso. Eu podia sentir meu coração batendo com força no meu peito, a ansiedade fritando embaixo da minha pele.

   Sentia meu corpo fraquejar e recuar.

   Finalmente olhei aos meus arredores, vendo as pessoas correrem desesperadamente do local e soube que era verdade. Eu havia sido puxada por Sam e Dallas, correndo também, enquanto apenas uma coisa martelava a minha cabeça:

   Skye havia desaparecido.











                                            **************************








 

    Cheguei em casa haviam uns cinco minutos.

    Dallas exausta foi para o seu quarto e eu fui direto para o meu. Ambas em choque. Ambas em silêncio. Ambas sem a mínima saúde pra pensar no assunto. Ambas tentando evitar e fingir que não aconteceu. Subi as escadas devagar e pensativa.

    Queria me esquecer das cenas que se passaram diante dos meus olhos essa noite, mas seria impossível.

    Ficaria pensando.

    Ficaria na minha cabeça.

    Ficaria marcando.

    Ficaria.

    Não vá sonhar com isso, imbecil.

    Não vou sonhar com isso, imbecil.

    Não vou, não vou, não v...

    - AI, CARALHO! - tapei minha própria boca, quando meus dedos foram de encontro ao meu dedinho, que havia encontrado sua nova alma gêmea, que seria o pé da minha mesinha. Meus dedos fizeram o meu dedinho queimar em ardência e eu achei válido largá-lo imediatamente.

    Até me desequilibrar e cair de bunda.

    Ligue a porra dessa luz, sua maluca.

    Ok.

    Vai ter que ser do jeito difícil e chato.

    Liguei a porra da luz e passei a andar pelo quarto, olhando bem para o chão pra não correr o risco do meu dedinho se apaixonar por outra parte da mobília. Me preparei pra dar um mergulho digno de Phelps, quando me vi obrigada a me jogar pra trás, fazendo meu bumbum apreciar a dureza do chão mais uma vez.

    Em cima da minha cama.

    Uma caixa roxa.

    Dallas estava me presenteando?

    Por quê?

    Nem era meu aniversário.

    Estava longe, aliás.

    Ué.

    Me lembrei das coisas que aconteceram a essa noite. Seria por isso?

    Eu havia preocupado a minha amiga com a minha palidez e a minha incapacidade de reagir a esse nível?

    Nem sabia pelo quê me sentir culpada primeiro.

    Abri a caixa.

    Havia um cartão antes do embrulho reluzente e brilhante.

    Mas que porr...

    Abri o cartão.

    Eu nunca me esqueceria daquele momento.

    A letra bem feita.

    Caprichada.

    Bonita.

    De um jeito que eu nunca conseguiria reproduzir.

    Perfeita e impecável.

    Não era a letra de Dallas. Nunca seria a letra de Dallas.

    Porque estava escrito "Drunk in Love".

    E eu me lembrei.

    Eles escolhem a vítima.

    Me matinha petrificada de horror.

    A cada três meses alguém vai morrer.

    Sentia a dor percorrendo cada centímetro do meu corpo.

    Eles vão jogar. Eles querem jogar.

    Meu estômago embrulhou. A dor contínua me fazendo querer tocá-lo.

    Eu queria estar morta. 

    Pra não precisar presenciar algo assim.

    Me afastei a caixa, pensativa.

    E se tivesse uma arma? E SE TIVESSE UMA BOMBA?

    Ok, querida. Anda lendo livros de ficção demais, pare.

    Tive medo de me aproximar. Tive medo de abrir e ser uma emboscada mais uma vez.

    Mas segui em frente.

    Abri o embrulho.

    Se a curiosidade matou o gato, esse é o meu destino.

    Parecia uma...caixa pequena?

    Uma caixa minúscula, talvez.

    Observei com atenção, reconhecendo os pequenos detalhes daquele objeto, notando que não era bem uma caixa.

    Era algo maravilhoso.

    E por isso minha vontade era jogá-lo pela janela e atear fogo quando chegasse lá embaixo. Por que sei de todos os perigos que aquela pipa que tinha "Drunk in Love" me causou.

    Enquanto observava aquele objeto, eu sentia minhas pernas e mãos tremerem de raiva. Quem estava fazendo aquilo? Quem sentia tanto prazer de me ver daquela maneira? Como descobriram a minha casa?

    Aquilo me deixava bem puta e não no sentido delicioso.

    Aquilo me deixava arrepiada e não do jeito bom.

    Aquilo estava acabando comigo e com qualquer saúde que eu ainda tivesse.

    Eu ficaria doente.

    Meus dentes rangeram.

    Eu estava em pânico.

    Eu quis fazer muitas coisas terríveis e um tanto quanto criativas para destruir aquele objeto: mas não o fiz.

    Talvez seja por que estou curiosa pra saber o que querem tão insistentemente comigo. Ou porque não acho que seja adequado fazer qualquer perversão a um objeto como aquele, não importa o quão ruim seja.

    Ou, só talvez, seja porque assim que o observei direito o reconheci quase que imediatamente.

    Era o livro preto de Demi.

    As palavras da dedicatória se repetindo em minhas cabeça.

      Me pegaram. E pegaram ela também.

      E...ela era só uma criança.

      Uma criança.

      Era tudo o que você tinha.

      Quando pegaram ela de você, não é? E você?

      O que fizeram com você?

     Tão cruel como não devia ser. Eu sinto que eu vou morrer.

     Você morreu.

     Você se foi, Elizabeth.

     Como permitiu que isso acontecesse? Teve alguma opção?

     Você precisa me encontrar! Minha localização está entre as palavras do livro. Atenção!

     É a minha última esperança, amor.

     Fechei imediatamente.

     Estava chorando.

     Chorando como nunca.

     Copiosamente.

     Soluçando.

     Droga!

     Eu estava deixando aquilo me afetar, não estava? Estava permitindo.

     Estava chorando mais uma vez.

     Revirei a caixa, voltando ao cartão que mal dei atenção, pelo peso que as três palavrinhas haviam me causado bem no coração. E então eu li o verso.

    Sempre havia um verso.

    Esperei que dessa vez não tivesse.

    Mas teve.

    Eu li.

    Não era sobre uma arma.

    Não era sobre uma bomba.

    Havia sido bem pior.

    Sempre piorava, não é?

    Eu estava destruída pra sempre depois daquilo.

    J'ai soif, mademoiselle. - E.

    Seria E de Elizabeth?

 

 

 

 


Notas Finais




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