História Dunkelheit - Capítulo 1


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Categorias Lendas Urbanas, Slender (Slender Man)
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Anos 90, Creepypasta, Floresta, Found Footage, Horror, Mistério, Mortes, Slender, Slenderman, Sobrenatural, Suspense, Terror
Visualizações 10
Palavras 5.154
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir culturas, crenças, tradições ou costumes.

Notas do Autor


Slender poderia ser considerado uma das minhas creepypastas favoritas. E eu adiei assistir o filme que saiu ano passado. E quando eu fui ver esses dias, meu Deus, a galera falava que era ruim, mas eu não pensei que seria tão broxante assim shashs (um beijo se vc gostou, mas enfim, eu não sahsu)

De qualquer forma, depois de assistir o filme, eu fiquei com uma puta vontade de escrever algo sobre o Slender. Então, por que não?

Não sei se alguém vai ler isso, mas se ler, espero que goste ❤

Vai ter muita referência aqui, principalmente as obras de Stephen King.

Ah, essa história também está sendo postada no Wattpad, com o mesmo nome. O meu user lá também é o mesmo, caso tenham interesse.

É isso, aproveitem Dunkelheit, uma cidadezinha do barulho com altas confusões
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O link do teaser da história tá nas notas finais

Capítulo 1 - U m


Faltava cerca de dez dias, tanto para o halloween quanto para o aniversário da cidade. Apesar disso, os preparativos já estavam sendo feitos. Haviam abóboras de olhares assustadores espalhados pelos jardins, fantasmas e morcegos de papel-cartão pregados nas paredes e alguns esqueletos no armário.

Levy Young amava aquela época do ano, juntamente com o natal, onde a cidade se enfeitava completamente e ele conseguia muitas fotos boas para o grande livro que tinha como portfólio. Levy esperava ser um grande fotógrafo no futuro e deixar Dunkelheit — e talvez até mesmo toda a Flórida — para trás. Não que ele não gostasse da cidade. Na verdade, ele não sabia se gostava e nunca pensou realmente sobre isso. 

Uma criança que já nasceu cega não sabe que é cega até alguém dizer para ela. Levy não sabia se gostava daquela cidade ou não, porque durante toda a sua vida, nunca morou em outro lugar. Ele morava na mesma casa, na mesma rua, e estudava na mesma escola, com os mesmos professores e os mesmos alunos durante todos os seus dezessete anos de vida.

Naquele dia, porém, Levy teve um sentimento. Havia algo diferente na atmosfera do lugar. E a sua estranheza não era pelo diretor Carson ter comprado um carro novo, ou por Gwen Dawson estar usando pela primeira vez maquiagem. Havia algo além, torcendo seu estômago em um aviso silencioso.

Enquanto caminhava pelos corredores da escola que conhecia tão bem como a palma de sua mão, Levy ocupava seu olhar com as fotos que tirara antes de entrar na escola. Havia uma de Kurt Egan com sua turma de garotos, outra do grande gato preto que sua mãe havia comprado como enfeite, e mais uma, que Levy Young achava a melhor de todas: Zoe Baker distraída enquanto fumava um baseado.

Zoe tinha uma fotogenia simples, mas fascinante, que conseguia transmitir muitos sentimentos. Levy nunca diria algo como aquilo para ela e, muito menos, pediria para que a garota fosse algo como sua modelo. Nem em um milhão de anos ele ousaria fazer algo como isso, apesar de às vezes pensar muito do assunto. Contentava-se então, em apenas observá-la de longe e captar nos momentos certos sua beleza.

Enquanto distraidamente apertava os botões de sua velha Canon T50, de 1983, que fora do pai há alguns bons anos, Levy não percebeu o momento em que foi em direção a sua modelo secreta. 

O esbarrão foi duro, dolorido. Houve um baque que denunciava que o obstáculo em que acertara havia ido ao chão. Levy cambaleou por um momento, segurando fortemente a câmera em mãos para que ela não caísse, antes de perceber o que tinha feito.

No chão, sentada e com os livros derrubados, estava Zoe Baker, com seu visual gótico e uma expressão muito, muito brava.

— Você devia ver pra onde anda, seu merda — ela vociferou, catando seus livros e levantando-se antes que Levy pode-se soltar um “me desculpe” ou ajudá-la.

Cuspindo no chão ela saiu, deixando-o em silêncio com os lábios entreabertos, prendendo na garganta as palavras que queria dizer. Sentia o rosto quente. Foi o mais próximo que ele havia conseguido chegar de Zoe e agora ela o odiava.

Alguns alunos o encararam com risinhos enclausurados nos lábios. Por sempre estar vestindo roupas pretas, com correntes e batons fortes, além de na maior parte do tempo ser encontrada da biblioteca lendo um livro de Stephen King, costumavam dizer pelos cantos que Zoe era uma bruxa. “Uma bruxa bem gostosa”, de acordo com Kurt Egan e o resto da sua trupe de idiotas.

Com os saltos finos batendo contra o chão do corredor, Elyse Sharpe, Casey Garner e Gwen Dawson se aproximaram de Levy com os olhos faiscando em puro deboche. Elas eram o típico trio de garotas cruéis. Pelo menos Elyse e Casey. Gwen poderia ser apenas considerada uma “vai com as outras”. Ela era uma menina gentil e inteligente que fazia parte do time de vôlei da escola. Seu problema era andar com Elyse que a tratava como uma marionete.

— Você não devia ter derrubado ela — Elyse disse, de uma maneira melódica. — É bem capaz da Carrie te jogar uma maldição agora.

Com os gritos escandalosos de Casey e o silêncio de Gwen, Elyse saiu andando como uma verdadeira abelha rainha sendo seguida por suas operárias.

Além de bruxa, eles também costumavam chamar Zoe de Carrie, A Estranha. No ano passado, eles a sujaram com sangue de porco no baile da escola. Parece que Kurt descobriu que Zoe tinha uma quedinha por ele, e convidou ela para ir no baile com ele como seu acompanhante. Deu no que deu, e Zoe virou pelo resto de seus anos no ensino médio, “Carrie, A Estranha”.

Com um suspiro, os pensamentos de Levy foram arrancados de sua mente quando o sino para o início das aulas soou. Tinha aula de história no primeiro período, uma matéria que Levy estava indo mal, e que ainda por cima costumava fazer junto com Zoe.

Ele não sabia como a encararia quando passasse pela porta. E pensava que ela o encararia ainda muito brava. Preferiu, então, olhar para o chão durante todo o percurso e também quando passou pela porta, sentando-se em seu lugar em silêncio.

Guardou a câmera na bolsa e evitando olhar para o lado, para onde Zoe sentava, Levy esperou pela professora, movimentando ansiosamente a perna por debaixo da carteira.

A Sra. Fletcher entregaria as provas naquele dia. Uma prova em que Levy com toda a certeza havia ido muito mal. Não era como se ele não gostasse de história. Muito pelo contrário, ele gostava muito, mas simplesmente não conseguia se concentrar e guardar toda a matéria na cabeça, com todas as datas, lugares e detalhes que havia no assunto.

E quando a professora passou pela porta, segurando a grande pasta transparente com as avaliações corrigidas, e lhe lançou um olhar nada bom, qualquer resquício de dúvida de que fora extremamente mal na prova, simplesmente desapareceu.

A aula transcorreu de maneira inquieta para Levy. Ele odiava toda aquela tensão que existia antes de saber as suas notas. Era algo incontrolável. Era o último ano do colegial, e para dar adeus a Dunkelheit, ele precisava passar em todas as matérias. O que estava se tornando uma missão bem complicada.

Cerca de dez minutos antes do sinal do primeiro período tocar para as trocas de aula, a professora levantou-se com todas as folhas em mão, portando-se em frente ao quadro-negro como uma general do exército. As rugas precoces, os óculos fundos de garrafa, e a grande verruga com leves pelos saltitando da carne, não ajudavam nenhum pouco o desespero de Levy dissipar-se. Não era culpa da Sra. Fletcher ter uma feição cruel. A questão é que ela tinha essa feição cruel, e isso tornava tudo mais angustiante.

— Tava muito fácil, espero que eu tenha tirado nota máxima — Annabel Dottie disse de maneira estridente para Zoe que se sentava atrás de si, ganhando uma careta de asco da garota.

— Não ligo porra nenhuma.

No mesmo instante, Annabel torceu o nariz com a resposta e virou-se para frente, para conversar com qualquer outra garota que não fosse Zoe. Levy, que escutara o rápido diálogo, se perguntou silenciosamente o porquê, de afinal, Annabel ter desejado comentar aquilo com Zoe. Elas nunca se falaram. Talvez fosse apenas a empolgação para saber da nota e pensar que o fim do ano letivo já estava ali. De qualquer forma, ela com certeza nunca pensaria em falar de novo com Zoe.

Com a voz rouca, a Sra. Fletcher voltou a atenção de Levy para si. Ela havia começado a chamar os alunos para irem pegar a prova. Levy viu alguns A’s e C’s estampados de caneta vermelha nas folhas que eram entregues, com alunos frustrados ou bem alegres com suas notas, sentando-se de volta em seus lugares.

Ele quis muito saber quanto tirara. Infelizmente, a professora sequer chamou seu nome. E Levy soube que havia sido bem pior do que imaginara a princípio.

Espalmando a mão na mesa em um abafado baque, a Sra. Fletcher passeou o olhar carrancudo por toda a sala.

— Decepção — ela disse. A voz soava como a de uma gralha velha. — É o que eu sinto toda vez quando passo por essa porta. É o que eu sinto toda vez que eu corrijo suas provas. Terceiro ano do colegial, mas parecem mais burros do que alunos da quinta série.

Levy olhou para as mãos sobre a carteira. Temia e muito o que ela viria a falar. Zoe, por outro lado, revirava os olhos com os braços cruzados, demonstrando como não dava a mínima para o que era dito.

— Houve alguns alunos que foram bons, como Annabel — continuou. — Outros que foram ruins. E houve três, que foram que foram simplesmente péssimos.

Levy suspirou, de maneira cansada e nervosa, deitando-se contra a carteira.

— E adivinhem só quem foram os ganhadores dessa terceira horrenda posição — outra espalmada na mesa soou, dessa vez mais alta do que a anterior. A Sra. Fletcher parecia realmente muito brava naquela manhã. Talvez houvesse brigano com o marido de novo. — Levy Young, meus parabéns por ter pelo menos acertado seu nome. Eu esperava, sinceramente, bem mais vindo de você.

Se um gigantesco buraco negro aparecesse bem na sua frente naquele momento, Levy teria pulado nele emitir um único som. Ou talvez, um murmúrio de gratidão.

— Quanto aos outros dois. Eu nem vou falar nada. Zoe Baker, Antoine Corbett...Sempre me surpreendendo o mais negativamente possível. E ainda perguntam o porquê deste maldito país não ir pra frente. Olhem para as notas de seus alunos do colegial, o que eles fazem com suas avaliações, e a questão está respondida.

Mesmo que não tivesse olhando para Zoe, nem para nada que fosse a madeira de sua carteira, Levy sabia que a garota com certeza estava com um sorriso de escárnio pintado nos lábios.

Na maioria das provas, Zoe desenhava alguma coisa obscena, ou escrevia na caligrafia mais bonita que conseguia, um gigantesco texto de palavreados sujos e xingamento aos professores. Já Antoine, Levy não sabia muita coisa sobre. Apenas o que sabia era que Antoine era estranho e faltava da escola mais do que ia. Para cada uma semana de frequência, o garoto faltava pelo menos três. Levy não se admiraria de saber que ele talvez nem ao menos houvesse feito a prova.

— Infelizmente, o sistema me cobra para que eu faça algo para que esses alunos recuperem suas notas — com um suspiro, ela caminhou novamente em direção ao quadro negro. — Vocês três, juntos, têm até dia primeiro de novembro para me entregarem um trabalho. Quero que façam um documentária sobre a cidade de vocês. Com entrevista, narração, imagens...Tudo.

Levy ergueu o olhar da carteira no mesmo instante. Assim como a paixão pela fotografia, Levy também tinha um enorme fascínio por qualquer coisa cinematográfica, apesar de nunca ter tentado coisa alguma nesse campo. O que deveria ser uma um trabalho de punição, de repente estava se tornando seu paraíso.

Sem poder evitar, deu uma leve olhada para Zoe que também o encarava. A garota mostrou-lhe o dedo do meio, sussurrando um “senta nisso, seu bosta”, antes de virar-se para a frente, claramente de mau humor.

Com um suspiro, virou-se para Antoine, apenas para ver se diferente de Zoe, o garoto lhe dirigiria um olhar mais amigável como um colega de trabalho. Antoine, porém, nem ao menos parecia ter escutado a professora queixar-se. Com seu longo casaco verde-militar que chegava até os joelhos, ele estava sentado com as pernas cruzadas sobre a cadeira, roendo as unhas e cuspindo-as no cabelo da garota que sentava em sua frente.

Com o cenho franzido, Levy virou-se frustrado. Ele sabia que não conseguiria fazer todo aquele documentário sozinho, em tão pouco tempo, e seus colegas de grupo não pareciam se importar com o trabalho. Levy, apesar disso, também sabia que eles seriam obrigados a fazer. Ninguém queria repetir o último ano da escola. 

Pelo menos era nessa crença em que Levy entregava toda sua esperança.

O som do sino, anunciando o final do primeiro período, se espalhou pelos corredores da escola, e os alunos já exaustos, se arrastaram para fora, em busca da próxima aula. Levy quis parar Zoe e Antoine para conversar sobre o trabalho e como o fariam, mas assim como os outros estudantes, os dois saíram apressados, sem darem qualquer chance de aproximação por parte de Levy.

Seria algo difícil, Levy Young previa. E ele nem sabia o quanto.

 

***

 

Durante todos os pequenos intervalos entre as trocas de aulas, Levy procurou por Antoine e Zoe. Sabia que Zoe Baker o odiava e que Antoine Corbett talvez nem mesmo soubesse quem ele era, mas Levy também sabia que precisavam fazer aquele documentário. Sequer os viu, porém. Era difícil procurá-los entre todos os excessos de alunos e professores que se misturavam nos corredores durante as trocas de aula.

Quando o sinal anunciando o intervalo soou, e os estudantes se direcionaram para o refeitório em uma sincronia arrastada de conversas e risos juvenis, Levy decidiu que aquela lhe parecia boa hora para achar e conversar com seus colegas de grupo.

Antoine e Zoe, porém, diferente da maioria dos estudantes, não estavam no refeitório. Por que eles tinham que ser tão difíceis? Com um suspiro, Levy saiu, começando uma exploração pelo perímetro escolar.

Talvez Zoe cuspisse em sua cara e Antoine... Bem ele não sabia o quão estranho Antoine poderia ser.

De qualquer forma, precisava tentar.

Percorreu pela quadra, pelos clubes e salas de aula que pareciam abertas, pela piscina e pela pista de corrida, além do campo de futebol. Não achou nada além de casais se pegando escondido.

Quando estava prestes a desistir de sua busca, porém, Levy caminhou até a parte de trás da escola, onde ficava o pequeno armazém em que o zelador costumava guardar os materiais de limpeza e outras bugigangas velhas e enferrujadas.

Antoine estava lá, com seu casaco verde-militar que ia até os joelhos, e um cigarro preso entre os dentes. Observava pela janela, na ponta dos pés para alcançá-la, o interior do armazém. A fumaça do cigarro parecia contorná-lo como um véu, e da onde estava (o que era apenas alguns passos), Levy sentiu o cheiro do câncer industrializado chegar até suas narinas como um soco. Para alguém com asma, como ele, era quase um suicídio aproximar-se de um fumante.

Dando dois passos para trás, Levy fez o som gutural mais alto que pôde. Antoine virou-se para si no mesmo instante, derrubando o cigarro no chão em um movimento atônito, como se tivesse acabado de ser pego no flagra, fazendo algo errado.

Levy franziu o cenho, com o olhar fixo no do outro garoto.

— Tá fazendo o quê? — perguntou, em um tom que revelava mais curiosidade do que repreensão.

Antoine encarou-o por alguns segundos em completo silêncio, antes de começar a caminhar para perto de si. Tinha um leve sorriso de canto, como se estivesse silenciosamente achando algo engraçado.

— Notícia do dia: o zelador Bowie esconde um corpo no armazém.

Foi uma frase estranha, confusa e sem contexto. Mas que fez com que Levy arregalasse os olhos, mesmo que ele não estivesse entendendo muito bem do que se tratava.

O quê?

— O zelador Bowie esconde um corpo no armazém — repetiu, colocando uma das mãos no bolso e tirando de lá, uma bala de Halls de menta. — Quer uma?

Levy fez um sinal negativo com a cabeça, observando o garoto dar de ombros e desembrulhar a bala, colocando-a na boca logo em seguida.

— Como assim o zelador esconde um corpo do armazém? — o assunto sobre o documentário, de repente, lhe parecia distante. Naquele momento, sequer se lembrava dele, do propósito do porquê agora estava ali.

Antoine aproximou-se mais do outro garoto, de maneira séria, praticamente colando seus corpos. Levy sentia o cheiro de cigarro que exalava de Corbett, e seu hálito cálido com odor de Halls de menta bater-lhe contra o pescoço. Levy arrepiou-se, tremendo levemente ainda mais, quando os lábios entreabertos de Antoine se aproximaram de sua orelha e o garoto sussurrou em um tom macabro:

— Um corpo flácido, sem vida, de uma pobre jovem mulher. Está lá, escondido entre vassouras e rodos, entre materiais químicos de limpeza e ferramentas enferrujadas. 

Levy sentiu o coração parar de pulsar por um instante. Como diabos havia o corpo de uma mulher dentro do armazém? O zelador Bowie a havia matado e Antoine por sorte a havia visto?

— A pele dela é tão esticada, plástica. Seus lábios formam um perfeito “O” de amargura, como se segurassem um grito silencioso que nunca fora capaz de soltar.

Sentindo a boca seca, e o medo começar a criar-se dentro de si, Levy estava prestes a dizer algo que ainda não sabia direito o que era. Sua fala, porém, foi interrompida por um riso. Antoine distanciou-se, em alguns passos, curvando-se levemente pela risada histérica que soltava. Levy encarou-o com as sobrancelhas franzidas em confusão, desnorteado com o súbito riso.

— O corpo de uma...Boneca inflável — Antoine completou, recompondo-se depois de algum tempo, entre tosses ocasionadas por um engasgo, ao engolir a bala sem querer. — Você precisava ver sua cara.

Levy passou as mãos no rosto, nervosamente. 

— Mas que porra. Achei que realmente tivesse um corpo lá, seu idiota.

Antoine deu de ombros, ainda com um sorriso no rosto.

— E tem. O de uma boneca inflável. Infelizmente, isso não é mentira, o zelador Bowie realmente guarda a boneca inflável dele no armazém. Que cara estranho, né? Tem louco pra tudo nesse mundo.  

Como se você não fosse nenhum pouquinho estranho, Levy pensou, ainda irritado.

— Bem, tchau, quero ver se o diretor também guarda algo assim no gabinete dele.

Levy correu até Antoine, antes que o garoto pudesse sumir novamente de sua vista, e segurou-o pelo braço.

— Espera, espera aí.

— Que é? — Antoine desfez-se do aperto, parecendo um tanto quanto desconfortável com o toque súbito.

— Como fica o trabalho?

Antoine franziu a testa.

— Que trabalho?

— O documentário.

— Que documentário?

Antoine inclinou levemente a cabeça, como um cachorro confuso. Levy suspirou pesadamente, pensando com seriedade em desistir e ir embora.

— A Sra. Fletcher passou um trabalho pra você, Zoe Baker e eu, porque aparentemente fomos horríveis na prova dela.

— Talvez você e Zoe tenham ido mal na prova. Eu nem fiz ela, campeão — Eu imaginei, Levy disse para si mesmo. — Mas qual é o trabalho?

— Um documentário sobre a cidade. Temos até dia primeiro de novembro pra entregar.

Antoine fez uma careta.

— O que eu ganho com isso?

Levy encarou-o descrente.

— Nota. A chance de passar de ano e nunca mais ver a escola de novo.

— Ah, não. Não tô afim.

Era errado Levy querer matá-lo e esconder o corpo no armazém? 

— Um documentário é difícil de fazer. E eu quero fazer ele, porque quero passar e sair dessa cidade. Então você poderia ser agradável e ajudar? 

Antoine suspirou, parecendo pensar por um momento.

— Tá, tá, eu faço parte desse seu grupo. Mas eu ainda quero algo em troca.

— Nota não já está bom?

— Não quero algo em troca vindo da professora, quero vindo de você.

Levy encarou-o atônito. Tinha mais essa agora?

— E o que é que você quer? — questionou, de maneira hesitante.

Antoine sorriu, como uma criança adorável, mas desnecessária por perto. Levy se sentia receoso, passando e repassando na mente dezenas de ideias sobre o que Corbett queria. E nenhuma delas lhe parecia boa ou dentro da lei. O que saiu da boca de Antoine, porém, não fora nada do que imaginara.

— Me ensina a fazer o ioiô dormir.

Levy encarou-o como se tivesse escutado errado.

O quê?

Antoine tirou de um dos bolsos do casaco verde-militar um ioiô vermelho de cordão amarelado, estendendo-o para Levy que o pegou com certa hesitação.

— É uma habilidade que eu desejo dominar, mas até agora, nada — deu de ombros. — O porrinha nunca faz o que eu quero. Ou ele desce e volta em seguida, ou desce e fica parado na ponta do barbante.

Levy sorriu levemente. Antoine Corbett parecia o tipo de cara maluco capaz de te enlouquecer, mas que ainda era legal de se ter por perto. Seria difícil trabalhar com ele, mas talvez fosse interessante.

Sentiu o peso do ioiô antes de colocar o dedo no aro do barbante, sob o olhar atento de Antoine. Levy não via um ioiô desde quando era criança. Mas ele se lembrava de ser muito bom fazendo os truques. Ele devia ter uns onze anos quando foi em um daqueles circos meia-boca, que tem palhaços tristes e cachorros de estimação magros. Tinham dois homens que faziam algumas coisas legais com ioiô. Levy lembrava-se de ter achado aquilo muito fascinante na época, e encheu o saco do pai até que ele comprasse um ioiô para ele.  Levy aprendeu todos os truques em menos de três semanas, e ele realmente gostava daquilo. Mas uma hora as coisas simplesmente acabam.

— Preciso ver se me lembro de como fazer isso — disse, e virou a mão com a palma para o céu e o ioiô preso no vale de carne formado pela mão encurvada. Rolou o ioiô pelo dedo indicador. Ele caiu até a ponta do barbante e dormiu. Quando Levy mexeu os dedos em um gesto de quem está chamando para vir até aqui, ele imediatamente despertou e subiu pelo barbante até a palma da mão dele.

Antoine tinha os olhos brilhantes, como Levy achava que teve quando viu os homens do circo.

— Acho que você se lembra muito bem — Antoine disse.

Levy sorriu, soltando de novo o ioiô. Deixou-o dormir por um momento e depois o fez passear como cachorro, com uma série de puxões do cordão. O ioiô novamente terminou na palma da mão dele, com o barbante bem enrolado.

— Acho que talvez você só não esteja movendo com a força que precisa — disse. — Vou te ensinar.

Durante os dez minutos seguintes, Levy mostrou para Antoine como fazer o ioiô dormir. Perto do final, Antoine realmente começou a entender, embora só conseguisse chegar à metade do barbante depois de acordar. 

— Você já pegou — Levy disse. — Só precisa praticar agora.

Antoine guardou o ioiô no bolso. Levy realmente não esperava ter que ensinar alguém a fazer o ioiô dormir naquele dia — ou em qualquer outro —, mas tinha que admitir que até que fora divertido. Quando olhou no relógio de pulso, porém, deu um pulo. Faltava poucos minutos para o sinal que encerraria o intervalo, e se Levy não encontrasse Zoe Baker naquele momento, não há encontraria mais.

— Merda — resmungou.

— O que foi?

— Preciso saber se Zoe vai fazer o trabalho.

— Ela eu não sei, mas como prometido, eu vou.

— Você não a viu por aí?

Antoine pensou por um momento, com a testa franzida e o pé direito batendo-se impacientemente contra o chão, até parecer ter um lampejo.

— Acho que era ela indo pro estacionamento, não sei.

— No estacionamento? — Levy encarou-o. — O que ela ia fazer no estacionamento?

— Sei lá. Dá pra se fazer muita coisa em um estacionamento. Invadir um carro. Roubar um carro. Transar dentro de um carro. Ou só estacionar mesmo.

— Acho que é melhor a gente conferir, de qualquer forma.

Antoine bateu uma continência britânica com a mão virada, juntando os calcanhares, e seguiu Levy que caminhava com pressa em direção ao estacionamento da escola. As vagas apenas deviam ser usadas por funcionários, mas a maioria dos professores tinham medo de estacionar ali, desde que Kurt Egan, no primeiro ano do colegial, pichou um pênis no carro do professor de Literatura.

Quando chegaram, havia um total de quatro carros. O Toyota MR2 azul do diretor Carson, o Chevy Sprint preto da professora de artes, o Geo Metro XFI branco da Sra. Fletcher, e o Honda Civic prata do professor de educação física, Brandon Davis. E entre todas aquelas carrocerias, discutindo com o próprio Brandon, estava Zoe Baker, de braços cruzados e uma expressão nenhum pouco boa.

Levy e Antoine pararam para acompanhar a cena. Não dava para ouvir o que falavam, mas Zoe gesticulava muito com as mãos e o professor parecia quase que um animal acuado. Aquele era o poder da bruxinha de Dunkelheit.

— Acho que ela tentou roubar o carro dele — Antoine disse.

Antes que Levy pudesse responder qualquer coisa, o sinal anunciando o fim do intervalo soou e Zoe, em passos furiosos, saiu de perto do homem, deixando Brandon irritado e chutando as rodas do próprio Honda.

Zoe, assim que percebeu os dois garotos, foi em direção a eles. Levy sentiu o estômago afundar-se. 

— Mas que porra vocês tão fazendo aqui, hein? — ela perguntou, educada como sempre era.

Levy ficou em silêncio, sem saber como responder.

— Vim ver se você tava roubando um carro — Antoine respondeu, com as mãos no bolso do casaco. — Eu, pelo menos. O Levy aqui queria saber se você vai fazer o trabalho com a gente.

— Ah, com certeza. Adoraria fazer o documentário com um garoto mudo e um garoto estranho — Zoe revirou os olhos, pingando ironia pelos lábios.

— Eu não sou estranho, sou excêntrico — Antoine disse, em um dar de ombros, antes de apontar para Levy. — E ele não é mudo. Fala algumas coisas, como uma daquelas bonecas que você tem que apertar. Você deveria tentar. Dá um apertão nele aí pra ver se ele não fala alguma coisa.

Levy encarou-o no mesmo instante com as feições enraivecidas, e Zoe fez uma careta, antes de empurrar os dois garotos para o lado e começar a andar para bem longe deles.

— Vão se foder vocês dois — disse, sem nem olhar para trás.

Antoine deu de ombros, encarando por alguns segundos o olhar indignado que Levy o dirigia. Deu-lhe dois tapinhas no ombro, dizendo um “A gente se vê por aí. A física me espera”, e saiu, deixando para trás, Young levemente perplexo.

Com um suspiro, Levy pensou que se fosse depender dos dois para não reprovar em história, ele estaria fodido.

 

***

 

Durante todo o resto do período escolar, Levy não viu mais Zoe Baker nem Antoine Corbett. Sequer na hora de ir embora. Apenas quem viu, durante seu trajeto para casa, foi Kurt Egan em seu conversível, junto com Elyse Sharpe.

Kurt e Elyse namoravam há algum tempo. Eram como o casal de ouro do ensino médio. Ela era bonita e cruel, e ele…Bom, ele era bonito e cruel também. O casal perfeito, vivendo suas vidas perfeitas.

Levy levava a câmera na mão, seguindo na estrada que transcorria ao lado de um campo. Young não costumava seguir por aquela caminho, mas naquele dia, ele precisava de fotos calmas para se acalmar. E o campo lhe parecia uma boa opção para aquilo. Além de Zoe, o que mais Levy gostava de fotografar, eram pássaros. E por ali, havia um monte deles.

Enfiando-se entre o mato que chegava na altura de seus joelhos, Levy agachou-se para capturar com a câmera, uma iraúna-dos-paúis. Mantinha-se distante para não assustar a ave, mas perto o suficiente para uma boa foto. 

Ajustou a câmera, focando na iraúna que parecia alheia ao seus movimentos cautelosos. Lentamente, apertou o botão em um click, e tirou a foto. Levy sempre tirava pelo menos três de cada coisa, era seu número da sorte.

Posicionando-se novamente, de um ângulo diferente dessa vez, Young deu alguns míseros passos sorrateiros, para aproximar-se um pouco mais da ave. Quando estava prestes a bater a foto, porém, um som chamou sua atenção. 

Não era o vento gélido que cortava o ar, balançando a grama alta do campo, e muito menos os sons dos pássaros. O som era duro, agressivo, confuso.

Levy levantou-se no mesmo instante, procurando com o olhar, o lugar de onde vinha o som. A iraúna, com suas curtas asas amarronzadas, saiu pelo céu em um bater desengonçado, como se fugisse de algo que não era Levy.

Forçando a vista, para além de onde estava, entre a vegetação alta, havia uma garotinha. Tinha os cabelos loiros e desgrenhados, e usava um vestido laranja de bolinhas brancas. A garota em si, porém, não foi o que assustou Levy, mas sim o que ela fazia.

A menina, que devia ter por volta de sete anos, estava sobre uma boneca um pouco menor do que ela. Sem cabeça, a boneca era esfaqueada diversas vezes pela garota, que tinha em mãos, o que Levy reconheceu sendo um canivete. 

Era uma visão estranha, e de certa forma, assustadora. Havia algo desconcertante nos movimentos da garota, assim como também havia um sentimento aterrador no ar, ao encarar a cabeça solta da boneca. Seus olhos de vidro, pareciam encarar Levy como se vissem por baixo de sua pele, além de sua carne e de sua alma. Era como se ela soubesse de tudo, e como se pudesse ver tudo. Como se pudesse devorá-lo de dentro para fora.

Era incômodo, e Levy não sabia porquê.

O som das facadas na boneca de plástico, parecia aumentar gradativamente, ficando cada vez mais, e mais, e mais alto. Era ensurdecedor, sufocante, como em um pesadelo escuro e embaçado que você não se lembra de nada ao acordar, mas que se recorda do medo que sentiu.

O olhar de vidro da boneca, agora continha dor. Era como se as facadas estivessem doendo nela.

O canivete afundava-se no plástico quebrado repetidas vezes. O vento balançava a grama do campo. Levy Young sentia um nó na gargante e o pulmão fechado. O ar saía com dificuldade pelos lábios entreabertos, enquanto os olhos vidrados e perdidos, ainda assistiam a cena. Levy simplesmente não conseguia parar de olhar.

Instantes, segundos, minutos. Levy não saberia dizer quanto tempo estava ali, paralisado. O som das facadas apenas cessou quando a garota, com o olhar ímpio e vazio, encarou Levy por sobre o ombro.

O som parou, as facadas pararam. Mas Levy sentiu todo o seu ar desaparecer. Ele de repente não conseguia respirar. Ele não conseguia respirar.

Desespero correu pelas veias, quando contraiu-se arfando, em busca de ar para encher os pulmões. As mãos abriam-se e fechavam-se como armadilhas, a respiração apitava na garganta. Era uma crise de asma. Uma maldita crise de asma. Uma crise que ele não tinha há um bom tempo.

Deus, aquela sensação era horrível. E ele mal se lembrava dela, até que de repente a vagabunda decidiu bater na porta.

Levy colocou a câmera no chão, de uma maneira não muito carinhosa que o preocupou. Tirou rapidamente a mochila das costas e tateou dentro do pequeno bolso que havia na frente, a bombinha. Ele a enfiou na boca e a apertou, ofegando convulsivamente logo em seguida.

A respiração pesada aos poucos cedeu. O gosto do desespero, porém, ainda continuava na boca.

Levy pegou a câmera do chão, e em um lampejo, olhou para onde avistara a garota. A menininha já não se encontrava mais lá. Nem em nenhum lugar por perto.

A boneca com sua cabeça arrancada, porém, continuava da mesma forma. Seus olhos de vidro, entretanto, não mostravam mais dor.

Mostravam a mais profunda e aterradora escuridão.


Notas Finais




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