1. Spirit Fanfics >
  2. E Penso A Te >
  3. Parole Incerte - Parte II

História E Penso A Te - Capítulo 7


Escrita por:


Capítulo 7 - Parole Incerte - Parte II


Por mais que o caminho até o estúdio da casa de Ana não fosse longo, aquele caminhar pareceu uma eternidade. A italiana desceu as escadas a passos rápidos enquanto agradecia mentalmente por nenhuma das pessoas ali presentes ter percebido o estado catastrófico que ela tentava conter e que, tampouco chegou ao estúdio e fechou a porta atrás de si, deixou que a consumisse. Ela odiava aquilo com todas as suas forças. Odiava o efeito que Ana ainda possuía sobre ela, odiava o fato de que qualquer coisa feita pela mineira era capaz de levá-la do céu ao inferno em uma fração de segundo. Chiara já não se preocupava mais em conter as lágrimas, deixando que elas fizessem seu trajeto até desfazerem-se no tecido leve do vestido que cobria seu corpo, deixando um rastro molhado que ela sabia que prejudicaria a sua maquiagem. Ah, o ódio mais uma vez! Chiara sequer teria coragem de se olhar em um espelho naquele momento, estando ciente de que o rímel borrado estaria escorrendo por suas bochechas moldando-se ao traçado das lágrimas. 

    Seus olhos ardiam tanto que mantê-los abertos tornou-se uma tarefa difícil, levando a italiana a fechá-los facilmente adaptando-se à escuridão avermelhada assumida por suas pálpebras em contato com a luz artificial do cômodo. No entanto, o preço a pagar pelo mínimo conforto naquele momento foi visualizar uma vez atrás da outra a lembrança de Ana lhe dizendo todas as coisas que ela queria ouvir e, antes mesmo que a italiana pudesse formular uma resposta, Letícia aproximando-se para jogar um balde de água fria naquele momento. A italiana rangeu os dentes, pressionando-os uns contra os outros com tanta força que, no segundo seguinte, percebeu-se ligeiramente admirada por não tê-los quebrado. Queria gritar. Queria sair dali o mais rápido possível. Queria voltar para seu apartamento e abraçar sua filha pelo resto da noite, sabendo que a companhia da pequena seria a única coisa capaz de lhe servir de acalento depois do que acontecera. No entanto, sair dali naquele estado iria levantar muitas perguntas. Sua bolsa e seu celular ainda estavam no andar de cima, onde todas as pessoas se divertiam ao som de alguma música que Chiara sequer conseguia ouvir devido ao isolamento acústico do estúdio. 

    — Chiara? — ouviu alguém chamar seu nome de forma insegura, quase inaudível. 

    Che odio! Será que seria impossível ficar sozinha naquele momento? Mesmo relutante, após alguns segundos a morena respirou fundo e levou as mãos até o rosto em uma tentativa de secar as lágrimas e corrigir um pouco do estrago em sua maquiagem. O barulho da porta sendo aberta e depois fechada a incomodou, mas assim que virou para encarar a pessoa que se aproximava, seu peito pareceu arder um pouco menos. 

    — Mestrinho — ela comentou, tentando sorrir. E falhando miseravelmente, claro. — Scusa, eu não deveria estar assim… 

    — O que houve? — o rapaz perguntou com as sobrancelhas ligeiramente franzidas.  Se aproximou um pouco e, instintivamente, Chiara deu alguns passos para trás, o que o fez parar onde estava. — Eu vi você descendo e não sabia se deveria vir, mas não quis te deixar sozinha. 

    — Tutto bene — a italiana assentiu em sincero agradecimento. — Está tudo bem. 

    — Mesmo? — Mestrinho insistiu, arqueando a sobrancelha direita de forma discreta. — Você não parece bem, Chiara. Eu só quero ajudar. 

Por mais que Chiara tentasse controlar, a sensação de torpor em seu corpo aumentou e as lágrimas conseguiram sua libertação mais uma vez, levando a italiana a curvar o torso discretamente e apertar os olhos com força, meneando negativamente a cabeça. Não sabia lidar com pessoas que choravam na sua frente e nem mesmo gostava de ser a pessoa chorando, sentir-se exposta daquela forma em particular era uma das coisas que ela menos gostava. Perdida em seu próprio desconforto, a italiana sentiu quando os braços fortes do rapaz envolveram seu corpo para puxá-la até ele, apertando-a em um abraço que, definitivamente, foi o que a salvou naquele momento. Seu corpo inteiro tremia e o abraço de Mestrinho fez com que um pouco daquele tremor cessasse. Desde o Refavela40, Chiara manteve contato com ele para manter-se atualizada a respeito do trabalho do rapaz e, claro, por gostar de sua companhia mesmo em ambientes virtuais; eles nunca foram assim tão próximos, mas, naquele momento, o abraço do amigo foi exatamente o que a italiana precisava. 

Ela não soube precisar quanto tempo permaneceram ali, mas foi tempo o suficiente para que seu corpo parasse de tremer por completo e para que a sensação de ter algo preso em sua garganta diminuísse a ponto de permiti-la reencontrar sua própria voz. Ainda encontrava conforto nos braços de Mestrinho e, naquele momento, já tinha seus próprios braços envoltos com força na cintura do rapaz, como se precisasse daquele contato para se acalmar. No entanto, percebeu que talvez estivessem naquela situação já havia alguns minutos e começou a se sentir estranha. Afastou-se calmamente, mantendo o olhar fixo no chão ao desvencilhar-se do abraço. 

Io… — começou, mas perdeu-se nas próprias palavras. — Grazie. De verdade. 

— Não precisa me agradecer. Amigos servem pra isso, não? — ele sorriu e Chiara não conseguiu conter o sorriso de canto que se formou em seus lábios. Ainda olhando para o chão, a italiana sentiu Mestrinho se aproximar e, como quem pede licença, lentamente aproximar a mão direita de seu rosto. Chiara elevou o olhar para a face do rapaz, permitindo o toque do polegar dele secando suas lágrimas. — Eu não sei o que aconteceu, mas não preciso saber pra ter certeza de que você não deveria estar chorando assim, Chiara. Não combina contigo. 

O sorriso em seus lábios desapareceu, mas a expressão assumida por sua face não era triste. Na verdade, Chiara sentiu-se confusa ao perceber que o olhar estampado na face do rapaz assumiu um tom diferente; respeitoso, como sempre, mas diferente. Ela respirou fundo uma única vez antes de trancar a respiração, sem saber exatamente como agir frente ao que estava prestes a acontecer. Não soube, também, se agradecia ou não quando ouviu a porta ser aberta novamente. 

— Chiara, eu te procurei em tod… — Ana interrompeu suas palavras ao observar Chiara e Mestrinho se afastarem como se a proximidade subitamente lhes desse um choque. As irises castanhas passaram a exibir um misto de surpresa e decepção. — Nossa. Desculpa. Não quis atrapalhar. 

O tom de voz da morena era cortante, um misto de ironia e mágoa presente em sua fala. 

— Ana, spettare! — Chiara tentou chamá-la, mas a mineira fechou a porta tão rápido quanto a abriu. 

O silêncio que se estabeleceu entre os dois era quase ensurdecedor. A italiana fechou os olhos e respirou fundo, levando a destra até o rosto para que pudesse apoiar a cabeça ali. Sentiu Mestrinho se aproximar. 

— Me desculpa, Chiara, eu não queria que isso acontecesse — seu tom de voz denunciava a sinceridade presente em suas palavras. — Eu não imaginei que…

— Tudo bem, não foi culpa sua — ela tentou sorrir, mas não obteve sucesso. Abriu os olhos e encarou a porta fechada. 

Precisava ir embora. 

***

Mamma! Svegliati (acorda), mamma!

    Chiara sabia que era a voz de Júlia a lhe chamar, mas estava tão imersa em seu sono que não conseguia distinguir um sonho da realidade. A filha parecia lhe chamar ao longe, um grito estranhamente baixo ecoando em sua mente; no entanto, o grito tornou-se gradativamente mais alto até que a italiana percebeu que a filha tinha os lábios quase encostados em sua orelha. 

— Júlia, não grita… — Chiara pediu baixinho ao apertar os olhos antes de abri-los. Se arrependeu do ato no exato instante que o fez: a luz forte do sol adentrava o quarto através das cortinas completamente abertas, denunciando que o dia já amanhecera havia algum tempo. A italiana sentou-se na cama de supetão. — Que horas são?

— Eu sei lá! Mas a tia Lu já tá fazendo o pranzo, mamma — a pequena deu de ombros, ajoelhada na cama ao lado da mãe. 

Chiara arregalou os olhos e buscou o relógio digital sobre a mesinha de cabeceira, descobrindo que já passava do meio dia. Levantou-se da cama com a intenção de ir ao banheiro, mas voltou a passos largos e segurou Júlia nos braços, jogando-se sobre o colchão e levando-a consigo. O riso agudo da menina atingiu seus ouvidos com a força do maior amor do mundo, que era inteiramente dedicado àquele pequeno pedaço de gente, como a Vovó Cida gostava de chamá-la. Depois de um “buongiorno” acalorado e uma extensa sessão de beijos e cócegas, a italiana pediu para que a filha fosse até a cozinha conversar com Luciana dizendo que, após tomar um banho, Chiara se juntaria à elas. 

Sozinha no quarto, a italiana pegou algumas roupas e dirigiu-se ao banheiro. O chuveiro ligado era reconfortante, ainda que o som emitido pela resistência fosse um pouco incômodo naquela manhã. Chiara nunca teve fortes ressacas, ainda mais quando controlava o consumo de bebida por qualquer motivo que fosse, mas dores de cabeça lhe eram frequentes. Tirou as roupas que vestia - um pijama branco com detalhes em vermelho - antes de colocar-se por inteiro sob a água gelada, a única temperatura suportável no verão do Rio de Janeiro. Aos poucos seu raciocínio se tornou mais rápido e Chiara conseguiu acessar com mais clareza algumas lembranças da noite anterior: o luau estava perfeito, como sempre, mas sua mente rapidamente a levou até a conversa que teve com Ana e a chegada inconveniente de Letícia naquele momento. Ela respirou fundo, fechando os olhos ao colocar a cabeça debaixo d’água. Ana já estava com a atriz havia quase um ano e Chiara teve tempo o suficiente para ao menos se acostumar com sua presença em momentos que, antes, pertenciam apenas à Ana, Chiara e Júlia. Ainda assim, ouvir um “eu te amo” sair de seus lábios direcionado à mineira era absurdamente doloroso. 

E o quase beijo com Mestrinho foi um tanto… Inusitado. Ainda que ele fosse um homem maravilhoso, tanto em uma análise física quanto em relação à sua personalidade e demais atributos, ele era a última pessoa com quem Chiara imaginaria poder compartilhar um momento como aquele, ainda mais dentro do estúdio particular de Ana e contando com a presença inesperada da mineira. Ela conhecia Ana Carolina como a palma de sua própria mão e sabia que não haveria maneira de explicar o que realmente aconteceu, dado que a mineira acreditaria fielmente naquilo que seus olhos presenciaram. E que mal haveria naquilo, afinal? Se algo tivesse realmente acontecido entre ela e o músico, em nada Ana poderia interferir ou opinar; poderia reservar-se ao direito de ficar chateada, era claro, mas enquanto a mineira permanecia em um relacionamento com Letícia e não com a italiana, Chiara era uma mulher livre para fazer o que bem entendesse. Ainda assim, o simples pensamento de que Ana pudesse estar criando paranóias em sua mente - como Chiara sabia que ela inevitavelmente faria - fazia com que o coração da italiana parecesse se contrair em seu peito. 

Após um banho longo o suficiente para relaxar um pouco o seu corpo e sua mente, Chiara vestiu calças jeans claras e uma camiseta básica listrada com as cores do arco-íris, que ela adquiriu em uma de suas viagens para New York. Cruzou o corredor até a cozinha penteando os cabelos molhados com os dedos, completamente sem vontade de utilizar-se do pente para tal feito. O aroma do almoço atingiu suas narinas, fazendo-a apressar um pouco o passo na intenção de assustar as duas que a esperavam na cozinha. 

— Bú! — quase gritou, emitindo uma gargalhada alta ao ver que tanto Júlia quanto Luciana deram um pequeno pulo no lugar onde estavam. 

— Nossa, dona Chiara! A senhora quase me matou do coração! — Luciana parou o que estava fazendo para olhar para a italiana com a mão direita posicionada contra o peito. 

Scusa, Luciana. “Senhora”? — Chiara arqueou a sobrancelha direita e sorriu ao ouvir a outra corrigir a palavra para “você”. A italiana se aproximou do fogão para espiar o que estava sendo preparado. — Eu dormi demais, Lu, desculpa. Já passou da sua hora de ir pra casa. 

 — Que isso, dona Chiara. É sábado e você tem show hoje, merecia dormir mais um pouquinho — a mulher, que tinha os cabelos loiros presos em um coque desajeitado, sorriu para a italiana antes de voltar seu olhar para a Júlia. — E eu adoro ficar cuidando da pequenina. Né, Jú?

— A tia Lu é a melhor! — Júlia vibrou como se fosse a fã número um de Luciana. E, de certa forma, ela era. 

Mesmo à contragosto de Luciana, Chiara tomou posse do fogão e disse que o mínimo que poderia fazer naquele momento era terminar o almoço. Inicialmente Luciana se recusou a ficar, mas não pôde negar por muito tempo em face da clara insistência da italiana e da pequena brasileira para que ela se juntasse às duas na refeição. O restante do tempo livre foi banhado em brincadeiras e risadas, Chiara sempre controlando o horário para evitar atrasos; combinou com Ana que levaria Júlia até sua casa no meio da tarde e a virginiana era pontual, Chiara sabia disso. Despediu-se de Luciana assim que terminaram um filme que Júlia insistiu em ver, desligando a televisão para levar o seu pequeno furacão até o banheiro. No auge de seus cinco anos, Júlia insistia que já era capaz de tomar banho sozinha e Chiara permitia, embora ficasse do lado de fora do chuveiro para supervisionar a filha em uma tarefa tão essencial. 

***

— Então eu vou ficar com a mamãe até amanhã? — a menina perguntou enquanto Chiara ajustava o cinto ao redor do assento de elevação no banco traseiro do carro. 

— Isso — Chiara respondeu ao afastar-se e fechar a porta antes de contornar o carro para assumir sua posição no banco do motorista. Fechou a porta e colocou o cinto de segurança antes de dar a partida. — Você quer que eu vá te buscar amanhã à tarde ou à noite?

Notte, notte! Quero mostrar meu carrinho novo pra vovó — através do espelho retrovisor, Chiara percebeu a animação da filha. No início daquela semana, no shopping, Ana comprou um carrinho de controle remoto que Júlia tanto queria e menina não largava o brinquedo, onde quer que fosse. 

Um “ok” sucedido por um riso suave e Júlia já iniciou um assunto completamente diferente, falando sobre como o céu estava azul naquela tarde e como ela queria sair para brincar no jardim da casa de Ana até anoitecer. Chiara apenas assentia e vez ou outra interrompia a filha com alguma colocação, mas normalmente era Júlia quem dominava o falatório em qualquer momento que elas estivessem juntas.  Chegaram à casa da mineira em alguns minutos e Marcos abriu o portão para Chiara mais uma vez, cumprimentando-a de forma simpática e brincando com Júlia através da janela aberta do carro; a italiana desceu do automóvel e levou Júlia no colo até o funicular, colocando-a no chão assim que o elevador começou a subir. 

    — E nada de… — Chiara começou, mas foi interrompida por Júlia. 

    — Desobedecer e sorvete antes do almoço. Lo so, mamma. Eu já “sô” grande, esqueceu?

    — Nossa, claro — Chiara meneou negativamente a cabeça de forma teatral. — Como eu poderia esquecer? 

    Júlia empinou o nariz e a italiana não conseguiu conter o riso divertido que escapou de seus lábios e morreu no exato momento no qual viu Ana abrindo a porta de vidro que permitiria sua entrada. A mais nova se prontificou a correr para os braços de Ana e envolvê-la em um abraço apertado antes de sair correndo novamente até a cozinha, onde Dona Cida estava sentada tomando o que Chiara imaginou ser o café da tarde. 

    — Ciao, Ana — a italiana a cumprimentou, um fio de insegurança notável em sua voz. Ana se limitou a cumprimentá-la com um aceno de cabeça, parada à porta sem de fato dar uma oportunidade para que Chiara entrasse. Entendendo que não conseguiria nada além daquilo, Chiara tirou das costas a mochila com as roupas de Júlia e entregou à Ana. — Aqui tem tudo o que ela vai precisar — fez uma pausa, preparando-se para voltar ao funicular quando lembrou-se de algo. — Ah, ela quer brincar no jardim hoje. Fica de olho, mas se precisar, os remédios estão aí também. 

    — Relaxa, Chiara, ela é minha filha também. Eu sei cuidar dela — a mineira respondeu em tom de grosseria e Chiara arqueou as sobrancelhas, soltando o ar discretamente por entre os lábios de forma desacreditada. 

    — Até amanhã — se limitou a dizer antes de voltar ao elevador, percebendo que Ana apenas fechou a porta atrás de si e caminhou em direção à cozinha. 

    Que merda era aquela? Por qual motivo Ana Carolina achava que tinha o direito de tratá-la daquela maneira?! Até onde sabia, Ana estava muito bem com a atriz que a amava e, segundo suas próprias palavras, sequer conseguia ficar longe dela. A mineira era - ou ao menos deveria ser - madura o suficiente para conversar e esclarecer as coisas ao invés de ficar agindo como uma das coleguinhas de escola de Júlia de quem a pequena sempre reclamava. Sua indignação era tão intensa que Chiara precisou optar por não pensar naquilo, tentando revisar mentalmente a setlist do show daquela noite. Seria o primeiro show que faria após sua viagem para Roma e, apesar de estar perfeitamente acostumada com a sensação de estar sobre um palco em frente à inúmeras pessoas, a italiana gostava de preservar a sensação de “frio na barriga” que a acometia sempre antes de um show. Acreditava que livrar-se completamente do nervosismo, mesmo que leve, poderia levá-la a não se dedicar o suficiente àquilo que fazia. 

    Assim que chegou à casa de shows e estacionou o carro no estacionamento privativo destinado aos artistas, a morena desceu do automóvel e caminhou até o interior da construção, seguindo pelo corredor entre as cadeiras vazias de estofado bordô e observando enquanto os outros membros da banda já estavam no palco afinando seus respectivos instrumentos. Ver a casa vazia daquela forma antes de um show sempre fazia com que ela conseguisse observar as coisas a partir de outra perspectiva: tudo parecia estar sob o seu completo controle, até mesmo o nervosismo estranhamente agradável que a acompanhava nos momentos anteriores a cada show que ela fazia. 

    — Ciao! Cheguei — a italiana chamou a atenção da banda que a cumprimentou de forma animada. Seu tom de voz era alto e se sobressaiu ao som dos instrumentos. 

    — Chegou exatamente a tempo, chefe — o tecladista comentou. Seus cabelos negros caíam em uma franja lateral sobre seu olho esquerdo e ele precisou fazer um movimento com a cabeça para poder afastar a franja dos olhos.  

    Chiara o encarou com reprovação. O rapaz sabia exatamente o quanto ela odiava que eles a chamassem daquela maneira e ele o fazia especialmente como uma forma de provocá-la.

    — Mais uma vez e você pode dar adeus ao seu emprego — brincou, ainda lançando a ele um olhar reprovador que arrancou risadas de todos os outros membros da banda. 

    A passagem de som ocorreu durante a próxima hora e os músicos foram direcionados aos seus respectivos camarins enquanto as portas da casa eram abertas. A italiana permaneceu em seu camarim até o momento de subir ao palco, aproveitando para revisar a setlist mais uma vez. Ainda que fosse exatamente a mesma, contando apenas com algumas alterações pontuais, ela sabia que cada show seria de certa forma diferente, fosse pela interação particular de cada grupo de fãs ou até mesmo por seu posicionamento no palco enquanto artista. Quando um dos rapazes da equipe veio lhe avisar que Chiara entraria em diz minutos, a italiana fez os últimos ajustes em seu cabelo e maquiagem e deixou o camarim para caminhar até o palco, subindo calmamente os poucos degraus que a levaram até o o piano de cauda posicionado em um dos extremos do palco. Ainda assim, a morena acenou para os fãs enquanto extinguia a distância entre ela e o microfone para que pudesse cumprimentá-los. 

    Estar sobre o palco sempre lhe proporcionava uma sensação única. Chiara era tão apaixonada pela música que sequer conseguia definir quão intensa era a relação que possuía com aquilo que fazia, tendo perfeita consciência de que poderia deixar-se embalar pelas notas musicais pelo resto de seus dias - desde seus três anos de idade, quando sua avó a colocou sobre o banquinho do piano pela primeira vez, o talento nato da italiana demonstrava que ela realmente nascera para seguir aquele caminho. A energia que seus fãs lhe enviavam através dos aplausos arrítmicos e dos gritos animados ao longo do show era algo do qual a italiana jamais estaria disposta a abrir mão. Era quase impossível, sob a luz azul que lhe atingia as retinas, deixar de pensar no que a pequena Chiara que temia as teclas pretas do piano pensaria ao vê-la ali, alvo de tantos olhares calorosos e tantas expectativas cheias de carinho e admiração. Uma breve conversa com os fãs iniciou o show e, como sempre, todas as músicas fluíram perfeitamente noite adentro. 

***

    Ao abrir a porta do camarim, Chiara não pôde conter o sorriso ao olhar-se no espelho e observar os fios de cabelo antes rebeldes e que, naquele momento, colavam-se à seu rosto devido ao suor que escorria por sua pele. Era em momentos como aquele que sua vontade de fumar retornava, mas ela mantinha-se longe de cigarros desde a adoção de Júlia devido aos problemas que a pequena tinha com a asma. A italiana precisava de um banho, mas ainda receberia alguns fãs em seu camarim e, após um show, ver seus fãs normalmente era sua prioridade, então aproveitaria o pouco tempo que tinha para se arrumar o máximo que poderia. Estava morrendo de sede. Caminhou até a mesinha de centro e pegou uma garrafa d’água, sentindo o líquido escorrer por sua garganta proporcionando-lhe tanto prazer que, quando percebeu, bebera quase todo o conteúdo da garrafa. 

    — Parole, parole, parole… — cantarolou baixinho uma das últimas músicas da setlist daquela noite enquanto procurava a bolsa, encontrando-a em um dos sofás do camarim. 

    Caminhou até o objeto para pegar seu celular, remexendo os quadris discretamente ao som da música que ainda ressoava em sua mente; subitamente, os movimentos de seu corpo foram interrompidos e as sobrancelhas franzidas. Oito chamadas de Ana e uma mensagem pedindo para que Chiara entrasse em contato com ela o mais rápido possível. O pensamento da italiana foi automaticamente direcionado à Júlia, pensando em coisas que sequer gostava de imaginar. 

    — Oi, Chiara — quando atendeu, a voz de Ana soava tensa do outro lado da linha. 

    — Quello che è successo? Júlia sta bene? — tamanha era sua preocupação que Chiara sequer percebeu estar falando em italiano ao perguntar o que houve e se Júlia estava bem. Quase cuspiu as palavras e iria falar mais se Ana não lhe interrompesse. 

    — Chiara, calma, respira — a mineira comentou e Chiara sentiu vontade de matá-la naquele momento. — A Jú teve uma crise grave de asma e eu trouxe ela ‘pro hospital. Ela tá bem, mas… 

    — Qual hospital? — Chiara perguntou rapidamente, pegando a bolsa e caminhando para fora do camarim. 

   Ana tentou pedir calma mais uma vez, mas foi em vão: Chiara insistiu até que a mineira lhe dissesse o nome do hospital e deixou a casa de shows com tanta rapidez que sequer olhou para trás. Sabia que não seria responsável usar o celular durante o trajeto, mas atendeu quando o aparelho começou a vibrar sobre o banco do carona apenas para avisar o motivo pelo qual não encontraria seus fãs naquela noite. Pediria desculpas publicamente pela manhã, sabendo que eles entenderiam sua situação, mas a única coisas que povoava sua mente naquele momento era o possível estado de sua filha. Chegou ao hospital em tempo recorde, encontrando com certa dificuldade uma vaga para que pudesse estacionar o carro. Desceu do veículo quase correndo e seus passos a levaram até a recepção, onde informou o nome da filha e perguntou onde poderia encontrá-la. Seu coração parecia bater em sua garganta. Ana lhe disse que Júlia estava bem, mas a italiana não ficaria calma o suficiente até que visse a pequena com seus próprios olhos. 

  A recepcionista indicou o quarto no qual Júlia estava e Chiara seguiu até ele um pouco mais calma ao saber que em pouco tempo estaria ao lado da filha. Já estivera naquele hospital antes, então conhecia o edifício o suficiente para não se perder entre os corredores que pareciam ser todos iguais: as paredes em uma tonalidade clara com uma faixa marrom claro no centro da parede, na horizontal, e luzes brancas fortes o suficiente para se tornarem um tanto incômodas após muito tempo ali dentro. Ao virar o último cruzamento de dois corredores, os olhos da italiana alcançaram Ana Carolina parada em pé do lado de fora da porta de um dos quartos, recostada à parede enquanto Letícia estava sentada em um dos bancos estofados ao lado de Ana. Chiara respirou fundo. Sequer conseguia pensar sobre a presença da atriz ali naquele momento. 

 — Ana — a italiana chamou a atenção da outra que rapidamente ajeitou a postura, parando à sua frente. Em um ímpeto, Chiara aproximou-se o suficiente para envolver seu corpo em um abraço que foi retribuído com extremo carinho, a destra da mineira afagando ternamente suas costas. No entanto, assim que encontrou o olhar de Letícia que estava fixo nas duas, Chiara pigarreou discretamente e se afastou. — Com’è lei (como ela está)?

 — Ela ‘tá bem e você ‘tava certa, mamma — Ana brincou e seu sorriso fez com que Chiara ficasse um pouco mais calma. Chamar uma a outra de “mãe” ou “mamma” era quase uma piada interna que usavam quando falavam de Júlia. — Ela brincou a tarde toda no jardim, eu dei os cuidados necessários e quanto ela ‘tava quase dormindo, ela teve uma crise. Segundo a Lê, eu ‘tava nervosa demais pra dirigir, então ela trouxe a gente pra cá a tempo. 

Ouvir Ana chamando a outra daquela forma era doloroso, mas a italiana apenas respirou fundo e desviou de Ana na intenção de conseguir olhar para Letícia. 

Grazie — a sinceridade daquele agradecimento aparentemente não era esperada pela atriz que demorou um pouco a responder e, quando o fez, limitou-se a sorrir e a assentir de forma simpática. Chiara voltou sua atenção à mineira. — O que o médico disse? 

— Ela precisa ficar em observação essa noite e, se estiver tudo certo, vai ser liberada pela manhã — Ana respondeu. — Você deve estar exausta, Chi. Vai pra casa e descansa, eu levo ela pra lá logo cedo. 

Devi essere pazzo pensando che lascerò mia figlia passare la notte in ospedale senza di me — “você deve estar louca achando que eu vou deixar a minha filha passar a noite no hospital sem mim”. Ana virou os olhos e Chiara não pôde deixar de rir baixinho, percebendo que fez aquilo mais uma vez. — Eu vou ficar. Você e a Letícia podem ir pra casa. 

— Você só pode estar louca achando que eu vou deixar a minha filha passar a noite no hospital sem mim — a mineira repetiu exatamente o que Chiara dissera há alguns segundos antes de voltar-se à atriz que já estava em pé ao seu lado. — Tudo bem, Lê?

— Claro que sim, Ana. É a sua filha — a morena disse, como se fosse óbvio. E era. 

As duas se despediram com um selinho rápido, ao qual Chiara virou o rosto discretamente para que não precisasse ver. Assim que Letícia se despediu das duas e se afastou, Ana abriu a porta do quarto e deu um passo ao lado para que Chiara pudesse entrar, fechando a porta atrás de si enquanto a italiana caminhava até a cama onde a filha dormia e, para seu alívio, respirava tranquilamente. Chiara colocou a bolsa sobre uma poltrona e sentou-se na beirada da cama, levando a destra até os cabelos castanhos da menina para acariciá-los com ternura. 

Perdonami, piccola. A mamãe está aqui agora — sussurrou, curvando o torso para depositar um beijo suave na testa da filha. 

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...