História E se...? - Capítulo 1


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Categorias Detroit: Become Human
Tags Adoption!au, Human!au, Reed900, Simon X Markus
Visualizações 29
Palavras 4.733
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, LGBT, Policial, Romance e Novela, Slash, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi, meu nome é Lucas (adoro essa piada)
Em comemoração ao aniversário do Connor, eu resolvi tirar essa história da geladeira, é minha primeira fanfic de DBH, mas já convivo aqui no Spirit tem um tempo, vocês devem me conhecer dos meus trabalhos Originais, como: O Amanhã de Ontem ou Powerless.
Essa fanfic vai tratar de vários transtornos psicológicos, alguns deles vão ser meio novos pra vocês (como a Síndrome de Asperger, que vai ser trabalhada melhor no arco do Hank) e algumas bem conhecidas (Transtorno de Ansiedade e Síndrome da Depressão).
Eu tento colocar minha alma aqui e ficaria feliz se comentassem o que acham.
Isso vai ser mais uma introdução, então só vai ser citado os nomes dos outros personagens, mas o Nines, o Hank e o Gavin vão ter seus próprios arcos.
Um abraço e até as notas finais.

Capítulo 1 - Um velho alcoólatra, um irmão estranho e um cachorro


Fanfic / Fanfiction E se...? - Capítulo 1 - Um velho alcoólatra, um irmão estranho e um cachorro

Connor 

Aquilo tudo ainda soava como loucura mesmo depois de muito tempo, ainda me lembro daquela noite em que me encontrava sentado na parte de trás da ambulância ao lado de meu irmão mais velho, Nines, enquanto os policiais detinham as pessoas que estavam naquela casa, eu ainda era apenas uma criança quanto tudo aquilo aconteceu, era uma operação que investigava o tráfico de pessoas. E eu era uma dessas pessoas que estava sendo mantida em cativeiro pelo grupo, só me lembrava do meu nome e estava lá há tanto tempo que nem mesmo os policiais tinham certeza de quem eu era, foi quando um homem loiro e grande se aproximou de mim e tentou conversar, seu nome era Hank Anderson – que futuramente seria o Tenente Anderson que todos conheceriam e muitos odiariam. 

– Ei. - chamou ele se agachando na minha frente, escondi o rosto dentro da enorme jaqueta que colocaram em cima de mim naquela noite, logo depois de me tirarem da casa – Você tem nome, tampinha? - perguntou Hank, o que me fez apenas me esconder ainda mais naquela jaqueta. 

Nines me cobriu e praticamente rosnou para o policial. 

– Eles não querem falar com ninguém, estamos tentando, mas eles não falam nada já tem um tempo. - explicou o paramédico, eu não parava de mexer as pernas já que meus pés mal tocavam o chão, o homem tentou me desenrolar e eu me debati e gritei como um animal e Nines me puxou para perto. 

– Calma aí, deixa eu tentar falar com eles. - disse Hank apaziguador, o paramédico me colocou de volta sentado e ele estendeu uma moeda – Se prometer ficar quietinho, pode ficar, é minha moeda da sorte, meu filho sabia uns truques bem legais com ela. 

Fiquei receoso no começo, mas aos poucos estendi a mão para pegar a moeda e ficar brincando com ela entre os dedos, isso fez com que eu permanecesse distraído enquanto os paramédicos me examinavam, o Anderson se distanciou e começou a conversar com um homem e uma mulher, o homem era negro e muito alto e vestia uniforme da polícia, a mulher eu descobri anos mais tarde ser uma assistente social, eles conversavam enquanto eu estava na ambulância ainda. Eles fizeram todo tipo de teste comigo até que ouvi uma conversa ao longe entre Hank e o até então desconhecido Capitão Fowler. 

– E eles tem pra onde ir? - perguntou Hank ao Capitão, os dois me encaravam de vez em quando, perguntando-se o que teria acontecido comigo para estar lá. 

– Não, nenhum parente vivo ou família, nem na cidade nem fora. - Fowler respondeu cruzando os braços - Procuraram em todos os registros e nada, nem sinal de nenhuma criança com os nomes deles desaparecidas, acho que são órfãos. 

– Eles vão ter que ficar em algum lugar, vamos enviá-los a um abrigo se eles não tiverem nenhuma família, mas como eles não são mais crianças pequenas e o mais velho já tem mais idade, talvez não encontrem um lar. - disse a assistente social, o Tenente concorda com a cabeça e volta a me encarar antes de responder a ela. 

– Posso cuidar disso, eu tenho um quarto sobrando em casa e até que levo jeito com crianças, se ninguém aparecer procurando por eles eu posso... talvez pedir a guarda. - explicou ele e a assistente social continuou lhe dando recomendações antes de se afastar e começarem a dispersar. 

Hank suspira e então vem na minha direção depois de algumas palavras trocadas com os dois, ainda estava distraído com a moeda que ele tinha me dado naquela noite, ele se aproximou da ambulância e parou na minha frente, estalando os dedos na frente do meu rosto para tentar chamar minha atenção. 

– Ei, guri, vamos pra casa. - disse simplesmente, mas não obteve resposta de minha parte – Seu nome é Connor, não é? Connor... Connor... 

“Connor!” 

E então eu saí do mundinho em minha cabeça praticamente em um salto, Hank estava dirigindo e eu no banco do carona observando o movimento do lado de fora do carro enquanto nos deslocávamos de volta para o que agora era a minha “nova velha casa” como ele mesmo disse quando cheguei naquela noite, praticamente despencando na sua vida, anos mais tarde eu havia sido oficialmente adotado por Hank e recebido seu sobrenome. Parecia que tinha sido ontem que Nines e eu chegamos ainda crianças na vida de Hank e agora já faziam quase vinte anos que vivia com ele, e, seguindo seus passos, tinha me tornado policial e estava vivendo em Detroit. Nines por outro lado morava perto da delegacia, ele já não vivia conosco tinha algum tempo, fez faculdade e depois o teste para trabalhar como Detetive na polícia... acabou sendo quase um ambiente familiar apesar de todo o transtorno. 

– Caramba, que bicho te mordeu? Faz meia hora que estou falando com você e você está com esse olhar de peixe morto pra janela como se tivesse perdido alguma coisa lá fora. - disse ele parecendo bem irritado, mas logo suavizando a expressão - Eu te perguntei se você quer pizza pro jantar, pensei em pedir uma hoje. 

– Ah... eu não tinha ouvido. - digo voltando a encarar o nada – Por que pizza? Estamos comemorando alguma coisa ou algo assim? 

– Não, nada de especial, só pizza pro jantar e algumas cervejas, é nossa noite de folga e você trabalhou duro essa semana. - respondeu ele com um leve sorriso que não costumava aparecer muito – Acho que não foi uma boa ideia você voltar tão rápido pro serviço. 

– Por que não? Eu estou perfeitamente saudável e o próprio psicólogo do departamento disse que eu não apresentava nenhuma anomalia de comportamento. - perguntei ainda confuso e movendo meus dedos, brincando com minha moeda da sorte, a mesma que eu guardava desde o dia em que conheci o Tenente Anderson – Parece tudo normal pra mim. 

– Pare de falar como se fosse a porra de uma máquina Connor, sem contar que já não é a primeira vez que você fica empacado feito uma mula olhando pro nada como se tivesse reiniciado. - disse ele escorando a cabeça no volante enquanto parávamos no sinal fechado – Essas coisas mexeram com a sua cabeça toda e ninguém sabe o que pode ter acontecido aí dentro... e não vai ser eu quem vai descobrir isso. 

– Mas isso nunca aconteceu antes, tem que ter algum motivo. - digo e ele me encara pelo canto dos olhos, reviro os olhos – Tudo bem, uma vez, mas é como se meu corpo todo travasse na mesma posição e eu esquecesse o que estava fazendo... como se meu cérebro tivesse desligado por um segundo. 

– Você parecia até um zumbi encarando o nada, parecia que essa sua cabecinha maluca tinha fritado de vez, dado um curto, não sei. - riu ele dando de ombros e levantando a cabeça, acelerou e atravessou o sinal que acabara de abrir. 

– Não foi engraçado! - exclamo cruzando os braços, Hank me encara como se fosse incomum eu erguer o tom de voz. 

– É, não foi engraçado na hora. - admitiu voltando a encarar a rua - Só estou dizendo que você não pode ficar tendo esses “apagões” e continuar dizendo que está tudo perfeitamente normal com você, e se algum dia você se machucar ou ter um desses apagões no meio de um tiroteio? Você pode se colocar em risco ou colocar os outros em risco, filho. 

Aquilo era verdade, eu não podia continuar tendo esses apagões, mas como eu poderia resolver esse problema quando eu nem ao menos sabia por que estava tendo um problema? E não, eu não estava mentindo sobre as avaliações psicológicas estarem normais depois do incidente com as máquinas, eu estava omitindo algumas coisas nas avaliações da polícia, e era óbvio que Hank não sabia disso. O Tenente estacionou o carro na garagem e desligou, mas não saiu do carro como esperava que ele fizesse, ele ficou lá, me encarando e esperando por algo que não fazia ideia do que era. 

– O que foi? - perguntei confuso. 

– Achei que tinha quebrado de novo, só estava verificando quanto tempo ia levar até você notar. - disse dando de ombros. 

– Eu não apaguei. - resmungo abrindo a porta e saindo do carro, Sumo já arranhava a porta ao sentir nosso cheiro e ouvir o nosso barulho saindo do carro, andei atrás de Hank enquanto ele abria a porta e o grande São Bernardo abanava a cauda apenas esperando por nós – Ei, Sumo, sentiu nossa falta amigão? - pergunto esfregando seu pescoço. 

O cão latiu e lambeu meu rosto como se a resposta fosse sim, Hank passou por nós indo direto até a sala com uma mão na gravata e a outra indo pegar o controle da televisão em cima do sofá, Sumo saiu atrás de uma bolinha que havia comprado para ele recentemente e voltou correndo com ela na boca, jogando aos meus pés. O homem mais velho praticamente se jogou no sofá para assistir o noticiário sem nem se preocupar com banho ou comida antes, apenas parando seu momento de descanso para acompanhar a saga do cachorro em busca da bolinha vermelha perdida e voltando ao que estava fazendo assim que Sumo a encontrou atrás do sofá.  

– Você quer brincar? - perguntei chacoalhando a bolinha na frente do São Bernardo, ele resmungou alegre e então joguei no corredor, deixando ele ir atrás. 

– Veja se ele tem ração, ele deve ter acabado com o pote e vai acabar com minhas almofadas se não repor a comida dele antes de irmos dormir. - pediu Hank se esticando no sofá, acenei com a cabeça e fui até os potes. 

– Ainda tem um pouco. - aviso ao Tenente – Acho que vou levar ele pra passear antes do jantar, se não se importa, assim ele não rói nada enquanto estivermos dormindo. - digo e Hank me encara prestando atenção. 

– É uma boa ideia, assim ele gasta energia e você areja a cabeça um pouco. - respondeu ele com um olhar diferente do normal – Só, pelo amor de Deus, tome cuidado e não vá ter um desses seus apagões na rua, me ligue se precisar. 

– Pode deixar. - digo tranquilizador, ele não parece muito convencido. 

Me viro para o lado e Sumo já esperava sua ração sentado ao lado da pia, servi o cachorro e fui para o andar de cima me trocar antes de sair, precisava de uma roupa com a que eu pudesse correr à noite pelo bairro como costumava fazer depois de chegar quando estava no turno do dia, então tinha que ser confortável e quente para eu não sentir frio. Peguei uma calça de moletom cinza e uma camisa preta, um tênis de corrida e um casaco de abrigo, me vesti e alonguei um pouco antes de sair do quarto e pegar a guia de Sumo no porta-chaves e os fones de ouvido ao lado da entrada de casa. Assoviei e logo o cão estava pronto ao meu lado esperando para passear. 

– Não demora, vou pedir a pizza daqui a pouco. - avisou o mais velho vendo nós dois na porta. 

– Tudo bem, não se preocupe. - digo prendendo a guia na coleira. 

– Leva o celular! - gritou antes que eu fechasse a porta, coloquei meu braço pela fresta para mostrar que estava comigo – Ótimo, vê se não atrasa... e me liga se acontecer alguma coisa! - disse o Tenente pela milésima vez como se eu já não tivesse ouvido quando ele disse a primeira vez. 

Acho que às vezes ele pensa que ainda sou uma criança. 

[...] 

Já fazia algum tempo desde que saímos de casa e eu corria no quarteirão, não tinha quase ninguém na rua e já estava escurecendo e esfriando, Hank ainda não tinha mandado nenhuma mensagem o que presumi que estava tudo bem até agora, dobramos uma esquina e subimos a rua um pouco íngreme quando de repente comecei a cansar e tudo ficou preto. Por mais que tentasse, não enxergava mais nada na minha frente e meu corpo parecia ter parado no lugar sem conseguir mover mais, como se tivesse desligado completamente, não ouvia mais nada nem via nada na minha frente além do infinito breu. Meu ar começou a faltar e levei às mãos até a garganta, forçando meus pulmões a trabalharem, mas eles não o faziam, eu puxava o ar e ele não chegava... então eu pisquei e tudo estava de volta no lugar outra vez: a rua, o asfalto, o muro da casa onde eu passava ao lado e o céu noturno e cheio de nuvens. Tudo menos a guia na minha mão. 

– Sumo! - gritei me desesperando – Sumo! - chamei olhando ao redor, ele não poderia ter ido longe, poderia? Não tinha nem noção de quanto tempo eu tinha apagado e aquele apagão tinha sido ainda pior que os outros – Sumo, cadê você? Aqui, Sumo! - chamei-o. 

Comecei a fazer todo o caminho de volta para tentar achar o cachorro, procuro no meu bolso do casaco o celular que sabia que estava comigo, praticamente arrancando os fones de ouvido e tentando conter minhas mãos trêmulas enquanto procurava o número de Hank nos contatos, o desespero era tanto que estava procurando na letra errada quando me dei conta que seu contato não estava salvo como “Hank” e sim como “Pai”. Encontrei seu número e finalmente fiz a chamada. 

– Connor, aconteceu alguma coisa? - perguntou ele apreensivo. 

– Pai, o Sumo fugiu... - disse desesperado – Eu não sei como, eu não vi, me desculpa, quando eu vi ele tinha escapado. 

– Espera, como assim “escapado”? - perguntou ele tentando se manter calmo – Ei, respira, você precisa se acalmar e me dizer exatamente o que aconteceu, o Sumo nunca fugiu assim antes, ele enxergou algum cachorro ou gato pra sair correndo de você? 

– Eu não sei! - grito desesperado e andando de um lado pro outro – Eu não sei... 

– Você teve um apagão, foi isso? - perguntou ele ao que respondi com um soluço e um aceno de cabeça que sabia que ele não iria enxergar – Ei, ei, tá tudo bem... tá tudo bem, não vou brigar com você por causa disso, só me diga exatamente onde você está e eu vou aí buscar você, entendeu? 

– Entendi. - respondo tentando respirar – Eu estou umas três quadras acima do cruzamento que você pega pra irmos pro trabalho. - explico e ele suspira aliviado. 

– Fica tranquilo, eu estou saindo daqui agora e vou buscar você, em cinco minutos eu chego. - me tranquilizou ele – Connor, você entendeu? Não saia daí. 

– Entendi. - respondo me sentando no chão de concreto e com as costas encostadas na cerca de madeira. 

Ele encerra a chamada e cubro a cabeça com o capuz, por que isso tinha que acontecer justo quando eu tinha acabado de sair de casa? Por que justo agora que eu não estava sozinho? Parecia que estava dentro de uma caixa invisível e ela estava se tornando cada vez menor e menor ao ponto de se tornar insuportavelmente sufocante, estava sentado no meio da calçada como um indigente e chorando como uma criança perdida, apertando o tecido do casaco firmemente entre os dedos como se minha vida fosse escapar caso eu deixasse uma mínima brecha por entre o casulo humano que eu era naquela calçada abraçado as próprias pernas. Todas as piores possibilidades passando pela minha cabeça a milhões de quilômetros por segundo enquanto esperava sentado meu “pai” chegar para me buscar, se fosse resumir a situação toda em uma palavra, seria “patético”. Foi então que ouvi um carro estacionar e ergui a cabeça para encontrar um Hank preocupado se aproximando de mim tentando não me assustar mais do que eu parecia assustado. 

– Filho... Co... - chama ele colocando as mãos sobre meus ombros – Vamos, vamos encontrá-lo e ir pra casa, não foi culpa sua. - diz me içando para cima e concordo com a cabeça, tirando o capuz e andando na direção onde o carro estava – Ele não deve ter ido longe, vamos encontrá-lo. 

– Eu deixei-o fugir, não devia ter saído de casa hoje. - digo sentindo a culpa me consumindo, Hank me dá alguns tapinhas no ombro - Você tinha razão, eu não devia ter saído de casa hoje, é tudo culpa minha. 

– Ei, não é culpa sua, você não está bem e isso acontece. - disse quando entramos no carro – Me diz o caminho que você fez e talvez a gente o encontre em algum lugar que você tenha passado, ele não é um cachorro burro. - Hank ligou o carro e lhe entreguei o celular, tinha registrado todo o percurso da corrida em um aplicativo. 

– Isso ajuda? - perguntei enxugando as lágrimas. 

– Ajuda, Co. - disse olhando o trajeto todo – Ele deve estar por aqui, não faz muito que vocês passaram por essa rua, mas acho melhor passar em casa antes, é mais fácil procurar ele a pé do que de carro. 

Hank acelerou o carro e começou a dirigir de volta para casa, fiquei o caminho todo aflito pensando em onde Sumo poderia estar e se algo tinha acontecido com ele, eu sabia que ficar imaginando para onde ele foi não ia me ajudar em nada em me acalmar, mas era praticamente impossível de me manter calmo em uma situação daquelas. Fiquei o trajeto todo de volta à casa do Tenente Anderson em silêncio e com a cabeça baixa enquanto ele batucava distraidamente no volante, observando ao redor e procurando por algum sinal do São Bernardo, mas pelo jeito não havia encontrado nada ou teria dito alguma coisa. Já tinha imaginado milhares de finais diferentes para aquela situação, incluindo um Sumo morto ou ferido e um Hank zangado gritando que eu não conseguia tomar conta de um cachorro e que por isso que ele não confiava em mim. Foi só estacionar em casa que Hank deixou escapar um barulho estranho como se tivesse engasgado com as próprias palavras de surpresa. 

– Mas que malandrinho filho da puta. - disse ele rindo baixinho, ele me encara por um momento antes de falar – Eu disse que ele não era um cachorro burro. - afirma Hank apontando a varanda, ergo a cabeça e lá estava ele: Sumo, roendo alegremente sua guia azul como se nada tivesse acontecido. 

– Sumo! - grito aliviado saindo do carro e correndo para abraçar o enorme cão caramelo, preto e branco – Caramba, não faça mais isso... - pedi recebendo lambidas no meu rosto e latidos felizes. 

– Ele deve ter voltado logo depois que eu saí, provavelmente tentou me levar até você. - disse Hank também acariciando o pescoço do cachorro - Bom garoto, Sumo, quem é o bom garoto? É você, é você sim! - riu ele vendo o desespero tanto meu quanto do São Bernardo como se nunca mais fossemos nos ver de novo. 

[...] 

Depois do susto, de uma ducha quente e uma muda de roupa limpa, eu estava de volta a sala de estar do Anderson com o enorme e felpudo tapete de pelo ambulante deitado aos meus pés enquanto o acariciava na barriga com o pé, Hank apareceu ao lado do sofá vestindo uma calça de abrigo e uma camiseta cinza com uma cerveja e uma caneca com um saquinho de chá pendurado nela já trocado e também de banho tomado. A caixa de pizza permanecia intocada em cima da mesinha de centro enquanto eu tentava me esconder miseravelmente no moletom azul marinho do departamento de polícia que estava usando, Hank me alcança a xícara e se senta ao meu lado no sofá antes de abrir a cerveja, ele lança um olhar reprovador para mim e para a caixa de pizza. 

– Esse moletom é o meu moletom? - perguntou ele, me limitei a acenar afirmativamente com a cabeça sentindo minhas bochechas vermelhas – Você não tocou na pizza ainda, o que foi? Não gosta mais de pepperoni? - indagou ele, neguei com a cabeça bebendo um pouco do chá de camomila que ele tinha trazido. 

– Sem fome. - murmurei escondendo ainda mais minhas mãos e rosto com o moletom, ficava bem grande devido ao porte físico de Hank ser bem maior que o meu. 

– Sem fome porcaria nenhuma, come. - resmunga ele abrindo a caixa e pegando uma fatia - Você precisa comer, filho. 

– Pode pegar, não tô com fome. - digo agradecido de sua gentileza em ter me trazido o chá. 

– Saco vazio não para em pé, Connor, não me obrigue fazer igual quando você era criança e faça aviãozinho, vamos, abra a boca. - disse ele praticamente me empurrando a fatia de pizza, suspiro derrotado. 

– Não é necessário. - resmungo me controlando para não rir, pego a fatia de pizza e dou a primeira mordida – Tá muito boa. - digo baixinho fazendo Hank sorrir vitorioso. 

– Eu sei que gosta dessa. - disse bebendo um gole de sua garrafa de cerveja – Melhor agora que está confortável e de estômago cheio? - concordo com a cabeça – Bom, porque vamos precisar conversar sobre esses seus apagões, já é o segundo e eu estou preocupado com você, Connor. Você é meu filho ainda, sabia? 

– Eu sei, pai... - digo envergonhado. 

– Quando isso começou? - perguntou ele acariciando minhas costas, respirei fundo antes de tomar coragem de responder – Foi depois do que houve com os divergentes? - interrogou ele o mais gentilmente que pôde, me limitei a concordar com a cabeça – Isso já aconteceu outras vezes além de hoje e daquele dia na delegacia? 

– Eu menti nos meus testes... - admito mexendo na barra do moletom – Aconteceram várias vezes, principalmente quando eu estou no meio de alguma coisa comum e simplesmente tudo apaga, como se minha cabeça tivesse uma chave de liga e desliga, mas... como hoje é a primeira vez que acontece. - confesso vendo o olhar de Hank mudando de pena para preocupação genuína. 

Ele se lembrava do dia na delegacia até mesmo melhor do que eu, eu simplesmente tinha “apagado” com a jarra de café na mão e comecei a encher minha caneca sem parar, sem perceber que ela estava cheia e completando de café até que transbordasse e entornasse pela mesa e pelo chão todo, até que sem que eu percebesse o que estava acontecendo, Gavin gritou para chamar minha atenção e eu me assustei e derrubei a jarra no chão. Quando voltei a mim, o chão estava repleto de café e cacos de vidro por toda a parte, Hank apareceu na porta e tentou justificar que eu estava apenas cansado demais e que iria me levar de volta para casa, minha cabeça ficava repetindo o dia do tiroteio o tempo todo e isso tirava totalmente minha atenção e até mesmo meu sono. 

– Você vai voltar lá e dizer a verdade para o psicólogo, entendeu? - disse Hank cutucando meu peito com o indicador da mão que segurava a garrafa, deixando-a em cima da mesa de centro antes de pegar um pedaço de pizza para si – E eu não estou falando isso nem como seu parceiro, nem como seu superior ou como seu amigo, estou falando isso como seu pai e responsável legal por você até o dia da minha morte. - diz ele mordendo a fatia em sua mão com raiva, mastigando muito pouco antes de engolir – O que você tem é TSPT, e se esse imprestável desse doutor do departamento fosse um pouquinho menos incompetente, teria percebido. - rosnou ele. 

– TS-o-quê? - perguntei confuso, Hank revirou os olhos e engoliu a nova mordida que ele tinha dado na fatia de pizza. 

– Significa “Transtorno de Stress Pós-Traumático”, muita gente desenvolve depois de ser vítima de assaltos, abusos, no seu caso o tiroteio te deixou bem abalado, eu sei que deixou. - disse ele e cruzei as pernas em cima do sofá, abraçando-as de novo e apoiando o queixo nelas. 

– Você quase morreu... - murmurei e ele concordou com a cabeça. 

– E você também, isso mexeu contigo. - afirmou ele puxando meus ombros para encostar a cabeça no seu – E se você não confiar na sua família pra contar sobre isso, sobre o que está sentindo, em quem você vai confiar? Você tem uma família agora, Co. 

– Mesmo que ela seja um velho alcoólatra, um irmão maluco e um cachorro? - perguntei com as lágrimas começando a brotar nos meus olhos, Hank riu. 

– Mesmo que seja um velho alcoólatra, um irmão maluco e um cachorro. - concordou ele acariciando minha bochecha com o polegar – Tem molho de tomate aí, só estou limpando antes que manche meu casaco. 

– Sei... - digo sorrindo e me deixando relaxar ao lado do mais velho e aproveitar a noite de folga vendo séries antigas de polícia. 

[...] 

Os barulhos de tiro ecoavam por toda a rua como se fosse chuva em telhado de zinco, meu coração estava tão acelerado que conseguia sentir a força de cada batida e as ouvir ecoarem nos meus ouvidos, eu estava no chão, gritando e vendo meu próprio sangue manchando minha barriga... a dor me mantinha acordado e ao mesmo tempo me faziam querer desmaiar, o gosto de ferro na boca, as mãos encharcando de vermelho, os gritos e os tiros. Se o inferno parecia com alguma coisa, parecia com aquilo: o tiroteio contra a facção que estávamos investigando há meses; eu gritava e tentava atirar, mas não tinha mira e minha visão começava a embaçar, e então eu ouvi um grito estrondoso logo mais ao lado e me virei para ver quem era. 

– Tenente! - gritei vendo o ombro de Hank se manchando aos poucos de vermelho – Não! 

– Connor! - gritou ele finalmente me enxergando, ele estava com os olhos vidrados no meu ferimento e tentou chegar até onde eu estava e passou agachado pela chuva de balas, cobrindo o ombro e pressionando com força – Connor, por favor fique acordado! 

– Hank... - rosnei rilhando os dentes, a dor era insuportável, Hank me ergueu do chão e me colocou apoiado sobre seu ombro bom, usando o machucado para atirar, mesmo que com a mira prejudicada – Não... Não, pai... 

– Eu não vou deixar meu filho pra trás! - berrou ele tentando atravessar outra vez a chuva de balas quando algo nos pegou de surpresa. 

De um ponto cego no tiroteio, um dos seguidores da facção surgiu ao nosso lado e apontou a arma contra Hank e eu consegui vê-lo quando já estava com o dedo no gatilho para atirar, eu estava com minha arma destravada e quando o vi pronto para disparar eu gritei e puxei o gatilho primeiro, disparando a arma com um estrondoso: 

– Não! - gritei acordando assustado e com arma em punho, estava no meu quarto e deitado na cama, ofegando e com o coração estourando no peito, suando como se tivesse acabado de sair de uma maratona. 

Larguei minha arma de volta na gaveta de onde não deveria ter saído e tentei me recompor, minha respiração e pulsação eram uma bagunça descompassada e então a luz ascendeu, revelando um Hank assustado na porta do quarto me observando sabe-se lá há quanto tempo, não precisavam de palavras entre nós para deduzir o que tinha acontecido e então Hank se aproximou e sentou-se de frente para mim na cama. Ele levou a mão até minha gaveta e fechou sem olhar dentro, o mais velho sabia o que tinha lá e não queria olhar para ter certeza nem ao menos se ela estava ali ou não, o Tenente Anderson então pegou o cobertor que me cobria e o puxou totalmente da cama, enrolando meus ombros e cobrindo minha cabeça com ele, deixando bem apertado. 

– Não vou contar pra ninguém que te vi chorando. - disse estendendo os braços e me deixando aproximar de si – Pode confiar no seu velho rabugento aqui, já vi muito marmanjo chorar na vida. - incentivou ele me chamando com as mãos. 

Me aproximei devagar, como um animal desconfiado e encostei a testa em seu ombro, Hank envolveu seus braços ao meu redor e deixou leves tapinhas em minhas costas, me consolando como podia e como meu tamanho não tão pequeno permitia, às vezes não parecia que eu já era um homem adulto e Hank não era meu pai biológico. Deixei os soluços saírem e as lágrimas rolarem em uma enxurrada sobre o ombro do Tenente, que me apertava como se eu fosse me desfazer em lágrimas e ele estivesse tentando – em vão – juntar meus pedaços de volta no lugar antes que eu explodisse. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado e espero que continuem acompanhando, pra eu saber o que acham e se vocês querem ver mais dela aqui.
Um abraço em especial para minha irmã de coração, @lolitainred e pra um autor incrível, o @Baby_connor, leiam as fanfics deles também, deem essa forcinha lá pra eles - façam chegar no céu, porque eles escreve bem pra caralho, os dois!
Enfim, é isso, até sábado que é quando pretendo postar os capítulos.
Abracinhos <3


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