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História E se fosse verdade? - Capítulo 1


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Notas do Autor


Depois de tanto tempo, estou iniciando uma fanfic nova. Desde que voltei a escrever, estava focada apenas em finalizar as fics pendentes (algo que pretendo continuar a fazer, por sinal). Entretanto, são fics antigas, que já têm um caminho traçado. Traçado há muitos anos. Não sei explicar direito, mas essas fics já postadas têm muito a ver com quem eu era 7, 8, 10 anos atrás. Esta é a primeira fic que estou realmente escrevendo com a cabeça de hoje, no sentido de ter um andamento, uma trama, um porquê mais relacionado realmente com a pessoa que sou hoje.
Tanto é que estou escrevendo com um pouco mais de pressa, pois o tempo está mais curto que nunca. Antigamente, eu caprichava bem mais, revisava mais, mexia aqui e ali... É claro que isso é importante, mas estou optando aqui por escrever para me divertir em primeiro lugar. Inclusive, senti muitas diferenças na forma como estou escrevendo aqui em comparação às outras fics Enfim, nem sei explicar. Mas é uma experiência interessante.

A ideia para essa história está rondando minha cabeça tem uma semana. Eu precisava colocar no papel.
Saiu. É mais ou menos isso aí. Se eu fosse revisar cuidadosamente, acho que mudaria algumas coisas.
Mas vou mudar não, tá? Fica assim, por agora.

Beijo grande. Desculpem essas divagações iniciais.
Espero que gostem!
Lua.

Capítulo 1 - Primeiros contatos


A Revista “Quadros” estava um caos. Entretanto, ela já havia passado por períodos tão graves quanto esse e sempre tinha conseguido se reerguer, se reinventar.  Quando foi necessário, a revista assumiu outras abordagens, aumentou a gama de assuntos que poderia trabalhar, diversificou seu conteúdo. Quando as edições impressas deixaram de ser tão lucrativas, a revista “Quadros” não teve medo de seguir novos caminhos, sendo muitas vezes pioneira ao testar novos aplicativos, descobrindo tantos outros meios de se fazer presente, tornando-se imprescindível na vida de tantas pessoas, em seus variados cotidianos.

Por sinal, o que começou como uma simples revista tinha já se tornado um império midiático, que se desdobrava em tantas outras direções. Contudo, por representar o início de tudo, a revista “Quadros” tinha um carinho especial da herdeira desse império. Saori Kido, neta do já falecido Mitsumasa Kido, dava continuidade ao legado deixado pelo seu avô, fundador de toda a fantástica cadeia midiática, que tinha um gigantesco alcance entre os muitos meios de comunicação.

Assim, havia agora todo um trabalho direcionado para não deixar que a revista “Quadros” encontrasse um fim precoce. Após vencer tantas batalhas, seria realmente muito triste que seu fim viesse em decorrência de uma concorrente que acabava de surgir no mercado de maneira bastante desleal.

Julian Solo, o antigo diretor-executivo da revista “Quadros”, havia recebido uma proposta que, segundo diziam as más línguas, era irrecusável para comandar uma revista que dividiria o segmento com a “Quadros”. A empresa Sato queria crescer nesse ramo de comunicações e pretendia lançar uma revista que bateria de frente com aquela que dominava o mercado até então.

A proposta feita a Julian, em segredo, permitiu que o então diretor conversasse com muitos de seus melhores funcionários, os quais ele sabia que não recusariam a proposta da nova revista.

Julian apenas não travou contato com algumas pessoas, por saber que ocupavam cargos de confiança e que não dariam às costas a Saori Kido.

Mesmo assim, o estrago estava feito. Quando sua demissão foi anunciada, Julian aproveitou para já noticiar que fazia parte de uma nova revista que estrearia em breve, chamada “Cenários” e que levaria consigo para a nova concorrente muitos dos seus colegas da “Quadros”.

Houve muitos rumores do porquê de Julian Solo, que por um tempo considerável foi uma figura de forte liderança dentro do império Kido, ter tomado uma atitude tão imprópria da pessoa que ele sempre se mostrou, especialmente para Saori, que parecia ter grande confiança nele.

Muitos disseram que o motivo era justamente essa aproximação entre os dois. Segundo alguns alegaram, Julian quis mais que amizade com Saori Kido, mas como esta não retribuiu o interesse, o então diretor executivo resolveu abandonar a revista que comandou por 7 anos.

Agora a revista “Quadros” passava por um momento turbulento. Havia perdido diversos de seus mais importantes editores, excelentes jornalistas e seu diretor. Junto a isso, surgia uma nova revista do ramo, com todo o frescor típico da novidade. O simples surgimento de um novo concorrente já era motivo para se estar alerta, mas quando isso acontece em um contexto de total desestabilização, tudo se torna ainda mais caótico.

Era nesse momento que Ikki Amamiya, fotógrafo freelancer da revista, vinha trazer algumas das fotos que normalmente vendia para o lugar:

- Shiryu. – o moreno deixou o elevador e logo se dirigiu ao editor-chefe do jornal, que estava em pé conversando com o editor da seção de esportes e o antigo secretário de Julian Solo – Eu trouxe as fotos que você me pediu... – ele falou, observando como, embora estivesse consideravelmente mais vazio, o local parecia mais agitado que nunca – Mas eu não sei se isso vai ajudar em algo.

O editor de esportes tomou as fotos em suas mãos e passou os olhos rapidamente por elas:

- Tem algumas aqui que eu vou poder aproveitar. Essas estão muito boas. – disse Seiya Ogawara, mostrando-as a Shiryu Suiyama.

- Realmente. Talvez precisemos usar mais fotos que o usual desta vez. Não sei se conseguiremos ter material suficiente para fechar a edição... – o editor-chefe ia passando as fotos cuidadosamente por seus olhos verdes.

- Shun. – Ikki falou, em tom mais baixo, chamando apenas a atenção do jovem secretário – Você está muito pálido. Está se cuidando direito?

O secretário do antigo diretor abriu um bonito, mas cansado sorriso:

- Irmão, você se preocupa demais. Eu não sou mais uma criancinha, sei me cuidar. – respondeu o rapaz – E estou me cuidando, dentro do possível. Mas você sabe que no momento atual, estresse faz parte da minha rotina. Ainda mais hoje, que vamos conhecer o novo diretor executivo do jornal.

- É verdade, você tinha comentado isso comigo. Conseguiram chamar aquele cara que a Saori fazia tanta questão de trazer para cá?

- Conseguiram sim. – intrometeu-se Seiya, que apesar de estar avaliando as fotos, não deixava de ouvir a conversa entre os dois irmãos – Devem ter feito uma proposta generosa. Até onde sei, esse cara não aceita qualquer trabalho...

- Dizem que ele é um bom gestor. Ele é conhecido por ser contratado por empresas que estão passando por alguma crise severa e consegue reestruturá-las. Então, se Saori aceitou pagar caro, é porque ela acredita que valha a pena. – complementou Shiryu.

- Shun me disse que esse cara não tem o costume de ficar muito tempo na empresa que o contrata. Ele vem, faz o trabalho dele e depois vai embora. Será que essa realmente é a melhor solução para vocês? Afinal, o problema geral aqui é por culpa de um diretor que resolveu abandonar o barco de repente... – Ikki pontuou.

- É diferente, irmão. Já te expliquei isso. O Julian agiu de forma muito desleal e deixou a revista em uma situação de caos. Já esse tal Hyoga Yukida só vai deixar a empresa depois de arrumar todo o estrago que os outros deixaram para ele resolver.

- Não sei. Não me parece uma solução confiável. Mas se vocês estão confortáveis com isso... – Ikki deu de ombros e já se preparava para deixar a redação da revista, quando Shiryu chamou sua atenção:

- Ikki, antes de você partir, não poderia nos dar uma ajuda? Como você sabe, Jabu foi com o Julian para a revista “Cenários”. Estamos sem editor de fotografia. Será que você não poderia dar uma olhada no que está sendo feito lá no núcleo de fotos...? – Shiryu, como editor-chefe, sabia muito bem reconhecer talentos e há tempos já tinha conhecimento do excelente trabalho de Ikki. Por vezes, tentou fazer propostas de contratação para o fotógrafo freelancer, mas o irmão de Shun parecia avesso a um trabalho fixo, prezando demais por sua liberdade. Todavia, neste momento, o editor-chefe não estava buscando formas de convencer o fotógrafo a trabalhar ali; ele estava realmente necessitado de ajuda – Você sabe que um bom trabalho de arte, nesse momento por que estamos passando, pode fazer muita diferença. E eu não conheço ninguém tão bom quanto você que possa fazer esse trabalho agora.

Ikki, sentindo seu ego leonino sendo devidamente massageado, abriu um leve sorriso de canto:

- Tudo bem. Eu vejo o que está sendo feito por lá.

Estavam prestes a seguir para o núcleo de fotos, quando uma movimentação geral fez com que olhassem para perto do elevador.

Rapidamente compreenderam do que se tratava. O novo diretor executivo havia acabado de chegar.

O rapaz, que vestia um elegante sobretudo branco, ia retirando o cachecol cinza que trazia envolto no pescoço. Os olhos azuis eram gélidos como o inverno frio lá fora. E eram também muito perspicazes, pois claramente observavam de forma bastante analítica a tudo a seu redor.

E não fazia a menor questão de esconder que, apesar de acabar de chegar, já julgava a tudo o que estava vendo, fazendo anotações mentais enquanto considerava a situação daquela redação.

Os funcionários que vieram lhe dar as boas-vindas logo se viram desanimados a prosseguir, pois o novo diretor parecia não estar minimamente interessado em conversas feitas de amenidades. Ele era objetivo e logo perguntou pelo editor-chefe da revista.

Assim que apontaram para Shiryu, Hyoga Yukida tratou de caminhar, de forma bastante altiva, até onde estava o editor-chefe.

Ikki, observando a tudo isso e sentindo o incômodo que parecia geral no ambiente, aproveitou para comentar brevemente com Shiryu, antes que o rapaz de olhos cristalinos se aproximasse mais:

- Esse é o tal diretor que vai salvar isso aqui? Ele não é novo demais?

- Não. – o próprio Hyoga foi quem respondeu – Não sou novo demais. E escuto muito bem. – respondeu com o semblante sério, que não havia demonstrado nenhuma inflexão desde que entrara naquela redação – Shiryu Suiyama, eu presumo? – ele perguntou, estendendo a mão para o editor.

- Sim, sou eu. – Shiryu apertou firme a mão de Hyoga – É um prazer conhecê-lo.

Hyoga então olhou para Ikki, que continuava ali, apenas observando o jovem diretor:

- E você? Quem é? – perguntou secamente.

- Ikki Amamiya. – o moreno respondeu, cruzando os braços sobre o peito.

- E faz o que aqui na revista? – Hyoga perguntava sem se preocupar em se mostrar simpático.

- Sou fotógrafo. Freelancer. – Ikki respondeu, também não demonstrando qualquer interesse em se prolongar em qualquer resposta.

- Freelancer? – Hyoga franziu o cenho e olhou de volta para Shiryu – Vocês têm muitas pessoas trabalhando nessas condições aqui?

- Não. Já tivemos mais, tempos atrás. Atualmente, só temos o Ikki como freelancer mesmo. – percebendo a forma como o diretor parecia analisar o moreno, Shiryu se adiantou para dizer: - Ele é excelente. Os trabalhos dele já nos salvaram em vários momentos aqui na revista.

- Entendo. – disse Hyoga, encarando firmemente o fotógrafo. Ikki, por sua vez, mantinha o olhar, tão azul como o mar profundo, igualmente firme. O moreno não era de se deixar acuar por qualquer um – Então, se ele faz um bom trabalho por aqui, trate de contratá-lo logo. – o diretor prendeu a franja loira atrás da orelha, sendo ele o primeiro a quebrar o contato visual que mantinha com Ikki até então, e checando as horas em seu relógio de pulso.

- Quem disse que eu quero ser contratado? – Ikki se manifestou, indignado pela forma como Hyoga falou de si sem ao menos perguntar se isso seria de seu interesse.

- E não quer? – pela primeira vez, desde que tinha chegado ali, uma leve mudança de expressão naquele rosto tão frio. Hyoga levantou uma sobrancelha em sinal de breve confusão com a resposta de Ikki.

- Não. Não tenho interesse. Se eu quisesse, já teria aceitado as ofertas que o Shiryu fez para mim por várias vezes. – Ikki não tinha o costume de se gabar de coisa alguma, até por normalmente não precisar fazer isso. Sabia bem seu valor e não costumava sentir necessidade de provar isso a ninguém. Mas ali, naquele momento, sentiu algo como ego ferido, por parecer que o loiro lhe fazia um grande favor ao dizer que Shiryu o contratasse.

Foi a vez de Hyoga cruzar os braços, enquanto parecia analisar mais a fundo a imagem do Amamiya mais velho, que tinha diante de si.

- Muito bem. – o loiro disse, por fim – Então não tem interesse de trabalhar aqui. Sem problemas. Mas não vamos mais comprar suas fotos. Sinto muito. – Hyoga atestou e então voltou a seguir caminho, indicando com um gesto para Shiryu acompanhá-lo – Preciso que me apresente os outros editores. Quero conhecer o trabalho de cada um e...

- Ei! – Ikki, revoltado, falou em tom mais alto, obrigando Hyoga a parar e voltar o olhar gélido para trás, na sua direção – O que é isso? Algum tipo de revanchismo bobo? Vai deixar de comprar minhas fotos apenas porque eu não quero ser contratado pela revista?

- Irmão, por favor. Agora não é hora de você se exaltar... – Shun se aproximou rápido, falando em tom baixo, mas denotando todo o seu nervosismo em ver como Ikki tinha se tornado o centro das atenções, de forma negativa, naquele momento.

- Vocês são irmãos? – perguntou Hyoga, demonstrando que, de fato, ouvia realmente muito bem.

- Somos, mas ele trabalha aqui. – Ikki se apressou em falar. Não queria comprometer seu irmão – Shun não tem nada a ver com a minha situação nesse lugar.

- Shun Amamiya é seu secretário, senhor Yukida. – disse Shiryu, usando um tom ameno – E esse é Seiya Ogawara, o nosso editor de esportes. – apontou para o rapaz de cabelos castanhos, que tinha se aproximado junto de Shun. O editor-chefe tentava assim desviar a atenção para o que o próprio diretor havia pedido: conhecer os outros editores. Afinal, se deixasse que Ikki continuasse falando, Shiryu sabia que a situação ficaria pior. Conhecia bem o temperamento do fotógrafo...

- Revanchismo, você disse? – entretanto, pelo que o editor-chefe acabava de perceber, o novo diretor executivo da revista também tinha um temperamento mais forte e, claramente, não deixaria a provocação de Ikki passar batida.

- O que mais seria? – respondeu Ikki, parecendo satisfeito por ter atingido o diretor, de algum modo.

- Que tal... Precaução? – Hyoga colocou as mãos nos bolsos de suas calças, enquanto ia se aproximando com firmeza de Ikki – Eu fui chamado aqui para resolver uma série de problemas, senhor Amamiya. Problemas de que o senhor, provavelmente, sequer tem conhecimento. Diante do quadro que me foi exposto pela senhorita Kido, uma das primeiras medidas que vou tomar nesta revista é o de revisar os contratos de trabalho de todos os funcionários daqui. Vou querer acrescentar uma cláusula de exclusividade e também de confidencialidade a respeito de tudo o que for produzido nesta redação. Tenho consciência de que algumas pessoas trabalhem em outros lugares além daqui. E eu, infelizmente, não poderei permitir isso. Não enquanto estivermos nesse momento de readaptação e reestruturação. – o loiro falava com a mesma frieza que era estampada em seu olhar – Quem quiser continuar trabalhando aqui, terá de trabalhar somente aqui. Aumentos salariais necessários serão negociados tranquilamente. Obviamente, os salários serão devidamente reajustados para que ninguém saia no prejuízo. Mas esse tipo de mudança agora se faz crucial, quando um dos grandes problemas na crise por que estão passando tem justamente a ver com cópia, plágio e uma nova concorrente que surge fazendo uso de todo um know-how criado por esta revista. – Hyoga finalizou, após uma fala pausada e fria.

Ikki, parecendo mais afetado do que gostaria pela maneira tão impessoal como o loiro falava consigo, retrucou:

- Olha aqui... Hyoga, não é?...

- Senhor Yukida, para você. – respondeu o diretor, com um tom que tornava a frase proferida ainda mais arrogante.

- Senhor Yukida. – Ikki falou, fazendo questão de usar um tom irônico e debochado – Você chegou aqui não tem nem 10 minutos. O que o faz pensar que é tão bom assim para já sair tomando decisões dessa forma, sem nem conhecer direito as pessoas que trabalham aqui?

- O que me faz pensar assim? Que tal as dezenas de empresas que já ajudei a se reerguerem? Empresas que estavam condenadas à falência se não fosse pelo meu auxílio. Então, sim, senhor Amamiya, eu vou agir de acordo com o que sei. Porque isso é o que EU sei fazer. – o diretor frisou a palavra “eu” – Esse é o meu domínio. Sei o que estou fazendo. E sei fazer muito bem. E não vou admitir que um fotógrafo freelancer venha me criticar sobre o que não diz respeito a ele. Então, por que não vai embora cuidar dos seus negócios enquanto eu cuido dos meus?

Ikki bufou. Não era sempre que perdia a paciência tão rápido assim. Normalmente, as pessoas nem ousavam provocá-lo, pois sua cara de poucos-amigos já era um alerta suficiente para os desavisados. E aqueles mais incautos, que acabavam falando alguma besteira perto do Amamiya, logo se retratavam devido à expressão fulminante que Ikki sabia transmitir com um simples olhar. Desse modo, o moreno nunca precisava perder a paciência, de fato.

O diretor, entretanto, não se mostrava minimamente impactado pela incrível força de presença do fotógrafo.

O Amamiya mais velho, visivelmente nervoso, devolveu em tom ácido:

- Sabe o que não consigo engolir? Você é um cara que nem está vindo para ficar de verdade. Pelo que sei, você vem, faz o seu trabalho e depois vai embora. Você vai mexer com a vida profissional de todos aqui e depois irá embora, sem saber o que será deles depois de todas as mudanças que você está causando por aqui. E se algum de seus funcionários trabalhar em outro lugar não pelo dinheiro, mas porque goste desse outro lugar também? Você vai obrigá-lo a sair? Você vai obrigar todo mundo a tomar decisões assim tão definitivas em um espaço de tempo tão curto? E o pior; sem que você se comprometa em contrapartida, já que você não tem qualquer obrigação em ficar. Não acha isso muito errado, “senhor Yukida”? – Ikki parou um pouco para respirar, pois tinha falado tudo isso em um fôlego só – Eu acho injusto. Confiar em uma pessoa que não se compromete com a permanência.

- E quem é você para falar qualquer coisa, senhor Amamiya? – o tom de voz de loiro vinha razoavelmente alterado – Você é um fotógrafo freelancer. Freelancer! Se há alguém aqui que não entende de permanência, esse alguém é você! E já chega; eu não vou continuar dando mais atenção a você. Tenho um trabalho muito sério a executar aqui. – Hyoga deu as costas a Ikki e chamou Shiryu – Suiyama, vamos. Vou precisar de alguns dados estatísticos a respeito das últimas edições. Aliás... – olhando para o outro lado – Onde está meu secretário?

- Estou aqui! – Shun, que estava em estado de choque, vendo como o irmão havia conseguido se indispor com o novo diretor em tão pouco tempo, voltou a si e correu para acompanhar Hyoga e Shiryu.

- Shun... Amamiya, é isso? – perguntou o diretor, analisando o rapaz a sua frente.

- Sim. Muito prazer em conhecê-lo.

- O prazer é meu. – Hyoga respondeu, voltando ao seu estado de frieza desconcertante – Senhor Amamiya, você já tem minha agenda para hoje? Se não me engano, vou precisar me encontrar com alguns patrocinadores da revista, não é isso?

- Sim. Está tudo organizado aqui... – Shun ia falando, enquanto mexia em uma agenda que tinha em mãos. O rapaz não olhava para trás. Depois conversaria melhor com o irmão, para entender o que tinha acontecido ali. Porém, agora, o momento era de foco. Havia realmente muito trabalho a se fazer.

- Você vai embora mesmo? – Seiya, que tinha ficado para trás, perguntou preocupado para Ikki.

- Vou. – o moreno respondeu, olhando na direção em que seguiam Shiryu, Shun e... Hyoga – Não tenho mais nada a fazer aqui. – falou, demonstrando-se ainda zangado e saindo a passadas pesadas dali.

 

*****************************************

Ikki estava cheio de trabalhos para terminar. Ainda não tinha nem começado a tratar as últimas fotos que havia tirado em um casamento. Respirou cansado. Realmente tinha se deixado afetar por aquele diretor executivo...

Balançou a cabeça negativamente.

Não queria admitir que tinha se deixado afetar tanto. Então buscava não pensar nisso. Contudo, não tinha ainda conseguido se livrar de todas as tantas impressões que lhe ficaram daquele encontro.

Resolveu ir até a cozinha preparar um café forte. Já sabia que teria de trabalhar madrugada adentro, se quisesse finalizar todos os seus trabalhos.

Assim, com uma caneca de café fumegante em mãos, sentou-se diante de sua mesa, pronto para uma noite em claro...

 

***************************************

Acordou de supetão.

- Droga! Acabei cochilando!

Ikki estava sentado em sua cadeira e sentia as costas um pouco doloridas por ter dormido em péssima posição, com a cabeça sobre a sua mesa de trabalho.

Resolveu levantar-se e espreguiçar o corpo, a fim de se sentir melhor e menos dolorido.

Entretanto, foi só o moreno se levantar, para quase dar um pulo de susto para trás:

- Mas que diabos?? – o fotógrafo gritou, completamente surpreso – Que droga é essa?? O que você está fazendo aqui??

- Olá, Ikki. Estava admirando suas fotografias.

Ikki esfregou os olhos. Só podia ser um sonho. Ou então estava enlouquecendo. Piscou os olhos mais algumas vezes, mas o novo diretor executivo da revista “Quadros” continuava ali.

- Eu... você... – Ikki gaguejava, sentindo-se completamente perdido – Senhor... Yukida...? O que está fazendo aqui?

- Senhor Yukida? Por favor, Ikki. Pode me chamar de Hyoga. – o loiro falava com a voz tranquila, com uma expressão serena. Apreciava algumas fotografias emolduradas e penduradas na parede da sala daquele apartamento – São muito bonitas. Foi você que tirou essas fotos?

Ikki tinha uma expressão de completa confusão no rosto. Nada do que aquele loiro dizia parecia fazer sentido.

- Foi você que me pediu para te chamar de “senhor Yukida”.

- Foi? – o loiro perguntou com a leveza de quem sequer dava alguma importância para o que Ikki acabara de dizer, apesar do tom grave usado por ele – Mas então? Essas fotos são suas? – o loiro então voltou os seus olhos para o moreno.

E Ikki enxergou naqueles olhos uma expressão bastante diferente da que vira no loiro naquele encontro que tiveram na redação da revista.

Os olhos de Hyoga eram ainda de um azul cristalino... Mas era um azul que lembrava um céu de primavera. Acolhedor, como uma brisa suave pela manhã.

- São minhas sim. Eu tirei um tempo atrás.

- É mesmo? Nossa, então você está de parabéns. São mesmo muito bonitas. – o loiro deslizou os dedos delicadamente pelas imagens que ficavam por trás do vidro – Você tem uma visão bem artística da cidade. Esse ângulo que você escolheu... faz a ponte parecer não só uma parte da cidade. Traz uma sensação de movimento para a imagem. Não é uma cena estática. Há dinamismo, há vida nela... Gostei muito.

Ikki, ainda tentando organizar as ideias em sua cabeça, aproximou-se do loiro e disse, em um tom menos nervoso:

- Escuta, como foi que você entrou aqui? Não me leve a mal; agradeço os elogios, mas... Eu estou sem entender o que está acontecendo aqui.

O loiro pareceu ficar pensativo. Levou a mão aos cabelos loiro, desalinhando-os ainda mais.

Aliás, Hyoga estava significativamente diferente do modo como se apresentara naquela tarde, quando Ikki e o diretor travaram seu primeiro contato.

Hyoga agora tinha os cabelos loiros aparentando alguma displicência, o que dava um charme a mais para o jovem diretor. Além disso, ele vestia calças jeans e uma camisa branca, simples, mas com um caimento que valorizava o corpo masculino do loiro.

- Como foi que eu entrei aqui...? – Hyoga olhou na direção da porta do apartamento, parecendo também confuso – Sabe que eu não sei? – e abriu um sorriso verdadeiramente encantador.

Ikki precisou engolir em seco. Essa nova imagem que tinha de Hyoga agora, diante de si, estava mexendo muito consigo. Respirou fundo, tentando se concentar no que acabava de ouvir:

- Como você pode não saber...? Está bem, está bem. – o moreno, nervoso, passou a mão pela nuca – Por que você veio até aqui? O que fez você sair da sua casa e vir aqui no meio da noite?

- Eu vim falar com você.

- Está bem. Isso eu já entendi. Mas falar sobre o quê? E por quê?

- Isso eu não sei ao certo. – Hyoga respondeu, voltando a olhar para os quadros. Em seguida, continuou passeando pelo apartamento. Parou diante de um porta-retrato, no qual havia uma foto de Ikki junto de Shun.

- Tem algo a ver com as reuniões que você fez hoje? – Ikki continuou perguntando, ainda tentando se situar.

- Reuniões?... – Hyoga perguntou, enquanto olhava mais detidamente para o porta-retrato.

- Sim, as reuniões que você tinha hoje. Lembra? Aquelas reuniões que você tinha para hoje. Meu irmão deve ter te passado isso, não? – Ikki falou, apontando para o porta-retrato.

- Ah! Esse é seu irmão?

- O quê? – Ikki agora franzia o cenho, incrédulo do que ouvia – Sim, a gente se apresentou para você, já esqueceu?

- Me desculpa, Ikki, As coisas também estão um pouco confusas na minha cabeça. – o loiro disse, com a voz suave, deixando o porta-retrato em seu lugar e se dirigindo ao sofá – O que você está fazendo de interessante, Ikki? – o loiro se sentou, buscando se colocar em uma posição mais confortável.

Ikki, observando a tudo isso, apenas era capaz de notar como Hyoga estava realmente ainda mais atraente do que quando o conhecera mais cedo.

E foi então que o fotógrafo se deu conta de algo:

- Que droga. É claro. Isso é um sonho. A droga de um sonho. Realista, mas um sonho.

- Sonho? – perguntou Hyoga, com um tom de ingenuidade.

- Óbvio. Que ódio do meu inconsciente. Eu sei que achei você atraente. Mas meu inconsciente está praticamente transformando você em outra pessoa para eu ter o quê? Algum sonho erótico com você? – Ikki falava mais para si mesmo, rindo sarcástico de si próprio.

- Ei. Calma lá. Sonho erótico? Do que está falando?

- Meu inconsciente está criando tudo isso. Lógico. Eu me senti atraído por você, claro. Você é muito bonito e eu nem estava negando isso. Mas não fiquei pensando a respeito porque você é chato pra caramba!

- Eu sou chato? – Hyoga agora fazia uma expressão de ofendido.

- Chato. Muito. Insuportável até. – Ikki ia falando enquanto se dirigia à sua cozinha – E agora meu inconsciente me apronta essa. Coloca você assim, ainda mais charmoso, bem o meu tipo, todo entregue no meu sofá. – o moreno finalizou, servindo-se de uma caneca de café.

- Olha só. – Hyoga se levantou de uma vez do sofá – Ninguém aqui está se oferecendo. Tem de ser muito estúpido para achar que só porque alguém sentou no seu sofá, essa pessoa está se oferecendo para você. Estava formando uma boa imagem a seu respeito, mas agora mudei completamente de opinião. Você parece ser apenas mais um babaca que acha que todo mundo ao seu redor está te desejando. – o loiro falou com mais frieza.

E, nesse momento, Ikki sentiu que estava mais uma vez diante do Hyoga com quem tivera um primeiro contato.

Confuso, o fotógrafo começou a ponderar que, talvez, não fosse um sonho. E se sentiu completamente envergonhado do que dissera:

- Eu... me desculpe. Eu nunca falaria algo assim, é só que... Eu achei que era um sonho. E não quer dizer que eu fique sonhando com isso, com caras se oferecendo para mim no meu sofá. Quero dizer... meu inconsciente deve ter feito isso. Então, em algum grau, talvez eu pense assim... mas... quero dizer... Acho que... Não é bem isso... eu...

Hyoga, vendo como Ikki estava gaguejando, acabou sorrindo.

- Está bem, Ikki. Vamos começar de novo?

- Vamos... – respondeu o moreno, sentindo-se bastante constrangido.

- Olá, Ikki. Tudo bem? Meu nome é Hyoga e eu estou bem admirado com suas fotos. Você parece talentoso. Tem uma visão artística de tirar o fôlego!

- Olá... Hyoga. – Ikki ainda sentia que essa situação era surreal – Eu fico feliz que tenha gostado. Você bem que poderia ter me pedido para ver algumas fotos lá na revista antes de me mandar embora.

- Na revista...? – Hyoga fez uma expressão de não compreender bem o que o outro dizia.

- É, a revista “Quadros”. – percebendo que Hyoga continuava com a expressão confusa, o moreno continuou – Hoje, quando nos conhecemos? Lembra? Que você foi estúpido comigo e disse que a revista não vai mais comprar as minhas fotos?...

- Eu disse isso?

- Que droga, cara! Tá vendo? Se eu não estiver sonhando, então estou pirando! Que conversa de loucos...

- Me conte mais o que eu fiz. Eu mandei você embora? Eu demiti você, é isso?

- O que importa? Você nem é real. É produto da minha imaginação. Aliás, meu inconsciente nem fez um bom trabalho. Afinal, se você é produto da minha mente, então pelo menos você já deveria saber das coisas que aconteceram hoje, né? – e tentando ver se conseguia despertar, Ikki deu um beliscão no próprio braço – Ai! Que droga! Não deveria ter doído, se estamos em um sonho... Não é?

- Eu não sei. Só sei que estou bem chateado. Não foi legal eu ter mandado você embora. Suas fotos são muito boas. Eu vim aqui por elas, sabe? Pelas fotos. Agora eu sei disso.

- Quer saber? Eu vou tentar dormir de novo. Aí, quem sabe, quando eu acordar, você terá ido embora. – disse Ikki, encaminhando-se para seu quarto.

- Ikki, me escuta. – Hyoga caminhava atrás dele – Eu não sou produto da sua imaginação. Não sou mero fruto do seu inconsciente.

- Ah, não? – Ikki entrou em seu quarto e começou a tirar a roupa, ficando apenas com sua cueca boxer preta – Então você é o quê?

Hyoga, que tinha parado e olhava para Ikki um pouco sem reação, acordou do breve transe em que se viu diante de um Ikki seminu, e respondeu:

- Eu não sei o que sou. Não sei de onde vim, não sei como vim parar aqui. Mas sei que vim por causa das suas fotos. Olha só, você disse que eu mandei você embora. E nem quis ver suas fotos. Claramente, eu não sabia o que estava fazendo. Será que você não pode voltar lá e me mostrar as fotos? Para eu poder mudar de ideia?

- Esse sonho já não está mais fazendo o menor sentido. – Ikki ria, mas era de nervoso – Essa projeção do meu inconsciente agora quer dizer o que eu devo fazer. – falava enquanto se deitava na cama, buscando ao máximo ignorar a presença do loiro ali.

- Eu já falei que não sou projeção do seu inconsciente. E preciso que me diga que vai fazer o que falei. Você vai fazer, Ikki?

Ikki tinha um travesseiro sobre o rosto. Não respondia nada. Esperava acordar desse sonho o quanto antes.

Quando retirou devagar o travesseiro do rosto, viu Hyoga com o rosto bem próximo ao seu. O loiro tinha um sorriso maroto e os olhos brilhavam de uma forma cativante:

- Eu não vou sair daqui enquanto você não prometer que vai atrás de mim amanhã para me mostrar suas fotos e me fazer mudar de ideia.

- Você está maluco! Eu tenho meu orgulho, sabia? – respondeu Ikki, voltando a cobrir o rosto com o travesseiro e virando de costas para o loiro – Caso você não saiba, você foi extremamente rude comigo. Eu não volto lá por nada nesse mundo, senhor Yukida.

- Já disse para não me chamar assim, Ikki...

- Está vendo só? – Ikki tirou o travesseiro do rosto de uma vez – Foi você quem me falou para tratá-lo dessa forma? Tá vendo o tipo de pessoa que você é? Eu devo chamar você de senhor Yukida e você me chama de senhor Amamiya! Mais frio que você, só uma pedra de gelo! Mas parece que meu inconsciente ignora isso... – o fotógrafo bufou e cobriu o rosto novamente com o travesseiro.

- Nossa. Que absurdo. Realmente, não é nada legal. – o loiro falou, parecendo ponderar sobre o que ouvia – Mas mesmo assim... preciso que você vá atrás de mim amanhã. E leva os quadros que estão na parede para me mostrar. Especialmente o que tem a ponte. Eu vou gostar, tenho certeza. É uma fotografia incrível, Ikki...

Ikki ficou um pouco em silêncio. Parecia haver tanta verdade nas palavras de Hyoga... Mas aquele não era Hyoga, Ikki se repetia mais uma vez. Quando muito, é meu próprio inconsciente elogiando o meu próprio trabalho.

Que ridículo.

Porém, mesmo assim... Como se quisesse ter a certeza daquilo... Acabou perguntando:

- Achou mesmo incrível...?

E não ouviu resposta.

Então abriu os olhos.

Estava sentado em sua cadeira e tinha dormindo sobre sua mesa de trabalho.

O corpo estava dolorido.

E o sonho fresco em sua mente. Como se houvesse acabado de acontecer.

Tão real.

Tão absurdamente real.

Ikki despertou sentindo-se mais revigorado. Ao menos, conseguiria dar continuidade aos seus trabalhos.

Porém, não conseguia deixar de olhar para os quadros em sua parede...

Especialmente a fotografia da ponte...

 

*********************************

- Você só pode estar enlouquecendo, Ikki. Só pode ser isso. Não tem explicação.

Ikki falava consigo, em tom de repreensão. Ainda não acreditava que estava ali.

Via os andares passarem enquanto ele segurava um portfólio com seus melhores trabalhos.

Por que estava fazendo aquilo? Era ridículo, estava sendo ridículo.

Finalmente, as portas do elevador se abriram, significando que havia chegado ao andar desejado. Ainda hesitante, Ikki caminhou para fora dali. Em pensamento, não deixava de se repreender por um segundo. Mesmo assim, continuava caminhando sem parar, na direção do escritório do diretor executivo.

O escritório de Hyoga tinha uma grande janela de vidro, da qual ele tinha ampla visão de tudo o que acontecia naquele andar. Quando se tornasse necessário um pouco de privacidade, havia uma persiana que ele poderia fechar para ficar a sós.

A persiana não estava fechada agora e Hyoga, que falava ao telefone, logo se deu conta da presença de Ikki, parado do lado de fora do escritório, parecendo bastante desconfortável.

O loiro, demonstrando surpresa em seu semblante sempre tão frio, terminou a ligação e saiu de sua grande sala.

Nesse momento, Shun retornava trazendo alguns documentos e se espantou ao ver o irmão ali:

- Ikki! O que... O que veio fazer aqui? – perguntou o Amamiya mais jovem, com um acento de preocupação em sua voz – Quer conversar comigo? Eu ia te ligar ontem, irmão, mas o dia foi longo e puxado... Podemos conversar hoje à noite, se você quiser...

- Não, Shun. Tudo bem. Eu vim falar com ele. – Ikki apontou com os olhos para Hyoga, que tinha saído do escritório e encarava o moreno com alguma desconfiança.

- Com... o senhor Yukida? – Shun arregalou os olhos – Ahn... Bom... Na verdade, ele tem uma reunião daqui a pouco, Ikki...

- Não, está tudo bem, senhor Amamiya. Eu converso com seu irmão. Dá para fazer um encaixe. – Hyoga falou, parecendo um pouco curioso com a súbita aparição do fotógrafo ali. E, fazendo um gesto, convidou Ikki para entrar em sua sala.

Ikki seguiu, ainda se perguntando o que estava fazendo ali. Se esperava rever o Hyoga do seu sonho ali, essa esperança já tinha ido por água abaixo. O Hyoga que se sentava agora diante da grande mesa de mogno tinha os cabelos loiros penteados impecavelmente. Vestia roupas elegantes e tinha a mesma expressão fria que apresentava no primeiro contato que tiveram, no dia anterior.

- Pois não... O que deseja, senhor Amamiya? – Hyoga perguntou, olhando de forma muito analítica para Ikki. Esse olhar em nada lembrava o olhar de encantamento que o loiro de seu sonho demonstrara quando conversaram.

Por outro lado, a forma impessoal com que Hyoga se dirigia a ele até ajudava Ikki a não se sentir tão mal por estar ali. De alguma forma, esse modo neutro como o loiro lhe falava fazia com que seu ego não ficasse tão dolorido naquele momento.

- Eu... Vim mostrar meu trabalho para você. – disse Ikki, sem saber exatamente por onde começar.

- Seu... trabalho? – Hyoga não entendia o que Ikki estava querendo dizer e deixava isso explítico em sua sutil expressão de confusão.

- É. – como não sabia o que dizer, resolveu abrir logo seu portfólio e deixar que seu trabalho falasse por si – Aqui. São fotos que eu tirei.

O moreno ia dispondo as fotos diante do diretor, que permanecia estático, como se ainda não compreendesse o porquê daquilo tudo.

Entretanto, finalmente Ikki colocou a foto da ponte diante do loiro.

Nesse momento, Hyoga enfim teve uma reação.

Estendeu o braço para alcançar a foto.

O semblante era ainda frio, mas os olhos demonstraram alguma vivacidade diante da imagem que apreciava.

- Muito bonito. Seu trabalho é muito bonito. – o diretor enfim falou – Quando o senhor Suiyama me disse que você era excelente, ele não estava exagerando. É realmente um excelente fotógrafo, senhor Amamiya. – Hyoga falava, sem tirar os olhos cristalinos do quadro que tinha em mãos.

Ikki sorriu largamente. O moreno obviamente sabia que era bom, não tinha falsa modéstia para reconhecer assim. No entanto, era bastante agradável ouvir esse reconhecimento de Hyoga.

- Não pensa mesmo em mudar de ideia quanto à minha proposta? – Hyoga falou, em tom menos duro – Parece que estamos sem um editor de fotografia. Acredito que você saberia bem o que fazer se ocupasse esse lugar. – o diretor disse, com a voz calma e pausada, enquanto examinhava mais uma vez as fotografias sobre sua mesa.

Ikki ficou pensativo. Era isso que tinha ido fazer lá? Queria aceitar essa proposta? Bem, era o que o Hyoga do seu sonho tinha lhe dito. Mas não sabia ao certo se era isso o que queria.

Hyoga, como se compreendesse bem esses pensamentos em Ikki, acrescentou:

- Podemos fazer um acordo. Você trabalha exclusivamente conosco enquanto estivermos nesse período de reestruturação. Depois, quando tudo estiver devidamente organizado, você pode voltar a trabalhar como freelancer. Aqui, ou onde você quiser. O que me diz? – o diretor finalizou, com um sorriso bastante discreto, mas suficiente para perceber a trégua por trás dessas palavras.

Ikki achou uma boa proposta. Sorriu de leve também, em um gesto que representava a aceitação do acordo.

 

*********************************

Desligou o celular, depois de conversar por quase meia hora com Shun. O irmão insistia em saber o que tinha acontecido. Afinal, Shun não conseguia acreditar na história de que Ikki simplesmente havia acordado e decidido ir falar com Hyoga. Não depois do embate que tiveram no primeiro dia em que se conheceram.

O mais novo tentou de todas as formas fazer Ikki contar o que tinha ocorrido, mas não conseguiu tirar nada do irmão. Ikki desconversou, falou de outros assuntos e o Amamiya mais jovem acabou sendo vencido pelo cansaço. Despediu-se animado, apesar de não ter alcançado seu objetivo com aquela ligação. Afinal, seu irmão agora trabalharia mais próximo dele.

Ikki, por sua vez, não via a hora de finalizar aquela ligação.

Shun insistia em saber o que tinha havido.

Ikki não mentiu, disse que acordou e resolveu fazer o que fez.

E era verdade. Ele só não contou que sonhou com Hyoga e que o loiro, em seu sonho, tinha dito que fizesse isso. Ikki não contaria isso para Shun. Para quê? Não fazia o menor sentido.

Entretanto, o irmão o havia cansado. Ao término da ligação, Ikki estava deitado sobre o sofá, respondendo a Shun com monossílabos.

Quando desligou enfim o celular, o moreno ainda lançou um breve olhar para sua mesa de trabalho. As fotos de casamento ainda estavam lá, à espera de serem tratadas...

Mas Ikki resolveu que um breve cochilo não faria mal...

 

*********************************

Acordou sobressaltado.

Tanto, que quase caiu do sofá.

Assim que se levantou, tratou de olhar ao redor.

Estava, era óbvio, procurando por Hyoga.

Mas nem sinal do loiro.

- Parabéns, Ikki. Você está realmente pirando.

Foi até a cozinha, sentindo um pouco de fome. Estava sem vontade de fazer qualquer coisa mais elaborada, então jogou um pacote de pipoca dentro de seu microondas e apertou o botão de preparo. Depois, foi até a geladeira para pegar uma garrafa de água.

Sentia muita sede. Abriu a garrafa e bebeu um grande gole.

Assim que fechou a porta da geladeira, quase derramou toda a água sobre si.

Hyoga estava ali, recostado ao balcão, com os braços cruzados e uma expressão animada:

- E aí? Como foi lá?

- Droga... – Ikki falou, limpando um pouco da água que escorria por seu queixo – Você bem que poderia avisar quando vai aparecer. Não gosto de ficar levando sustos assim.

- Me desculpe. Agora me conta. Como foi? Mostrou as fotos??

- Mostrei. – Ikki olhou ao redor – Espera... Se estou te vendo... Então eu não acordei. Ainda estou dormindo. Isso é um sonho de novo.

Nesse momento, o microondas apitou e Hyoga tratou de tirar a pipoca dali, já abrindo e começando a comer do conteúdo:

- Vamos, conte! Estou curioso! Eu gostei das fotos? Gostei, não gostei?

Ikki ficou olhando para o loiro, que estava novamente vestido daquele jeito mais casual e absurdamente ainda mais charmoso do que se lembrava. Acabou dando de ombros:

- Bem, se estou dormindo, não há muito o que fazer... – o fotógrafo disse e pegou um pouco da pipoca para si – Sim, eu mostrei as fotos.

- E então? Qual foi a minha reação? – o loiro indagava animado, num misto de ansiedade e curiosidade, enquanto comia a pipoca, sem tirar os olhos claros do moreno.

- Você gostou. Muito. – Ikki respondeu, sorrindo e pegando mais pipoca – Especialmente da foto da ponte.

- Eu sabia! Eu sabia. Posso ter sido estúpido quando mandei você embora na primeira vez, mas no fundo, eu sei reconhecer o que é bom! – o loiro falou, parecendo muito satisfeito, e comendo mais um bocado da pipoca.

- Você me ofereceu novamente um emprego fixo lá na revista. Mas dessa vez eu aceitei...

- É mesmo? – Hyoga perguntou, sem tom de reprovação – O que fez você mudar de ideia?

- Acho que... a forma como você falou comigo dessa vez. Não sei. – pegou mais um pouco da pipoca e ficou pensativo – Se bem que eu não sei se houve alguma mudança de fato. Você continuou sendo tão frio quanto antes. Bem diferente de você no meu sonho. – Ikki riu, sem se preocupar mais com as loucuras que acreditava serem criadas pelo seu inconsciente.

- É... – Hyoga falou, com um olhar pensativo – Eu não sei por que estou tão frio. Eu não sou assim.

- Bom... você, que é a projeção do meu inconsciente, não é. Mas a versão verdadeira de você é sim. – Ikki brincou, enquanto enchia a boca com mais pipoca.

- Já falei que não sou projeção do seu inconsciente, Ikki. – o loiro disse, muito sério.

- Está bem. Tudo bem. – o moreno resolveu aceder e então se dirigiu a sua mesa de trabalho – De todo modo, eu aceitei a proposta e você me perguntou se eu ainda tinha algum trabalho pendente. Afinal, vou ser exclusivo da revista por um período... Então você disse que eu finalizasse essas pendências antes de assinar o contrato por lá.

- Seu trabalho pendente são essas fotos? – Hyoga veio atrás, com o saco de pipoca nas mãos.

- Sim. Preciso finalizar isso aqui. Devo terminar no fim de semana. Acredito que segunda-feira eu já poderei fechar o contrato lá na revista.

- Legal. – Hyoga se sentou diante do moreno, que já voltava a avaliar as fotos em sua mesa – Você quer ajuda?

Ikki apenas levantou os olhos para ver como Hyoga lhe sorria prestativo.

- Você entende algo disso aqui?

- Não. – Hyoga sorriu divertido – Mas posso ajudar com algo simples, se quiser.

- Bom... pode ser. Você parece ter sensibilidade. Quer separar para mim algumas fotos? Escolha as que você achar mais bonitas, interessantes, com ângulos diferentes... Enquanto isso, eu vou tratando algumas fotos aqui no photoshop.

- Pode deixar. Isso eu consigo fazer. – Hyoga se animou.

Ikki riu e ficou pensando que era um absurdo tentar trabalhar em sonho. Quando acordasse, teria de fazer tudo de novo. Mesmo assim, parecia algo tão natural a se fazer naquele momento. E, ao menos, podia deixar Hyoga ali, ocupado a seu lado. Era bem possível também que Hyoga não escolhesse as melhores fotos, mas aquilo era um sonho! Qual o problema se o trabalho não ficasse bem feito ali?

Porém, as fotos que Hyoga foi lhe mostrando ter selecionado eram realmente boas. O loiro justificava cada escolha explicando um ângulo que achou mais interessante, a luz diferenciada em outro... Ele falava de forma leiga, mas sua percepção era realmente aguçada.

Ikki estava até mesmo se divertindo, quando, de repente, ouviu o celular tocando.

- Mas quem está me ligando de madrugada? – resmungou o moreno.

- Não sei. É melhor atender, Ikki. Pode ser importante. – disse Hyoga.

Ikki então começou a procurar o seu celular. Não conseguia encontrá-lo. Onde o havia deixado pela última vez?

Recordou-se então que dormiu com ele em mãos no sofá. Encaminhou-se até lá e, ao se sentar ali para enfim atender o aparelho, teve uma breve vertigem, fechou os olhos e, quando novamente os abriu, estava deitado no sofá.

Sentou-se abruptamente e olhou na direção de sua mesa de trabalho.

Não havia ninguém ali.

Havia acordado.

O sonho, mais uma vez... era apenas um sonho.

Apenas...?

Atendeu enfim o celular. Era Shun, com a voz animada:

- Oi, irmão! Você ainda estava dormindo? – perguntou o mais novo – Já são quase 10 da manhã; você nunca acorda tarde...

- Não estava dormindo, Shun. Estava concentrado aqui trabalhando, só isso.

- Certo. Bom, liguei para saber se você está bem. Ontem eu senti que acabei cansando você...

- Estou ótimo, Shun. Não se preocupe.

- Está bem. Quer sair para jantar fora hoje?

- Pode ser.

- Ótimo! Depois eu te mando mensagem para marcarmos um lugar, ok?

Ikki desligou o telefone com um sorriso. Era bom ver o irmão. Era sempre reconfortante saber que não estava tão sozinho, como às vezes se enxergava. Sabia que a solidão era uma opção, mas isso não queria dizer que não doesse um pouco às vezes.

Entretanto, dessa vez... Ikki acordava com uma sensação diferente. 

Abriu um sorriso maior. Sentia que havia realmente descansado bem.

Foi até sua mesa de trabalho. Começou a separar as fotos, executando a tarefa que designara para Hyoga em sonho...

E, curiosamente... passou a selecionar as fotos que o loiro tinha escolhido.

Afinal, tinham sido mesmo uma boa seleção.

 

Continua...

 

 

 


Notas Finais


Percebi que estou me inspirando também em outro filme, chamado "De repente 30", com o Mark Ruffalo e a Jennifer Garner.
Acho que deu para perceber que adoro o Mark Ruffalo...
Espero que tenham curtido!
Beijo!


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