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História É Só O Vento Lá Fora - Capítulo 1


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Notas do Autor


É Só o Vento Lá Fora" é um conto de 11 capítulos, relativamente pequenos, que eu escrevi e realmente espero que você goste de ler tanto quanto eu gostei de escrever. Ele é inspirado no filme "Clube dos Cinco" e na música "Trouble" da banda "Cage The Elephant".

Capítulo 1 - Capítulo 1


Quando chega em frente à lanchonete iluminada pelas as luzes de neon do letreiro, Catarina sente-se como se houvesse acabado de correr uma maratona. Não era totalmente mentira. A casa de Nanda era relativamente longe do Olympus, e decidir correr de lá até o estabelecimento, sem nem mesmo ponderar a opção de pegar um táxi, não foi a melhor das ideias.

Catarina ofegava freneticamente e precisou se apoiar na parede da fachada do local para recuperar o fôlego. Ela levou a mão direita de encontro a sua testa, em uma tentativa falha de conter os milhares de pensamentos que a bombardeavam naquele exato momento. Ao fazer a ação, percebeu que suas mãos tremiam levemente.

Ela encostou as costas na parede, respirou fundo e fechou os olhos. A rua em frente à lanchonete estava bastante movimentada. Sabia disso, pois mesmo de olhos fechados, podia escutar a conversa animada das pessoas que passavam por ali.

A garota contou mentalmente até dez tentando relaxar e soltou um suspiro de alívio quando sentiu-se mais tranquila.

Abriu os olhos e encarou o lugar lotado de pessoas. Olympus era frequentado por todos na cidade, consagrando-se assim, como um dos melhores estabelecimentos da região. Catarina havia perdido as contas de quantas tardes havia passado no lugar, estudando com Nanda.

Tomando impulso e separando seu corpo da parede de mármore branca, ela empurrou a porta do lugar, fazendo com que o sino anunciasse sua chegada. Girls Just Want To Have Fun ecoava baixinho pelos os alto-falantes acoplados na parede.

Catarina adorava o ambiente do Olympus e a calmaria que o mesmo lhe proporcionava. Além de receber célebres visitas — um dos motivos que o fazia tão famoso — o estabelecimento tinha todo um ar dos anos oitenta e noventa, com mesas de quatro lugares e sofás revestidos com couro vermelho.

Não era segredo para ninguém que a garota era obcecada por essa época, já havia assistido praticamente todos os filmes relacionados a ela, possuindo inclusive, todos os dvd's.

Usando um short jeans claro de cintura alta colado ao seu corpo e uma blusa larga de mangas, ela tentava se desvencilhar da pequena multidão formada no centro do lugar.

Retirou seu casaco, o pendurando em seu braço, e começou a caminhar em direção ao balcão.

— Oi, seu Antônio — Cumprimentou o homem de cabelos grisalhos. Ele usava o tradicional uniforme azul do Olympus, com botões e detalhes brancos e amarelos bordados nele.

— Menina Catarina, que surpresa vê-la por aqui essa noite — Disse e lhe ofereceu um sorriso simpático. Catarina o conhecia há uns quatro anos, desde que o lugar havia sido inaugurado, para ser mais exata. Mantinha uma relação de amizade e cumplicidade com o senhorzinho. — Onde está a Nanda?

A garota gelou ao escutar o nome da melhor amiga. Sendo sincera, por um momento, havia esquecido toda a situação embaraçosa ocorrida na casa dela, mas ao escutar o nome da loira sua mente viajou para o momento onde tudo havia acontecido. Balançou a cabeça tentando expulsar as memórias recentes e deu um pequeno sorriso para o homem à sua frente.

— Ela tá ocupada, acredita? Parece que teve que ir pra uma reunião de família — Catarina odiava mentir, mas não via outra solução senão essa. Apesar de confiar em Antônio e o considerar um grande amigo, mesmo com a grande diferença de idade entre eles, não se sentia preparada para falar sobre isso com ninguém.

E bom, não era como se ela tivesse muitas opções de pessoas para compartilhar seu segredo.

— Que pena. Então veio sozinha?

— Sim — Respondeu varrendo o local com os olhos. — Mas parece que não tem nenhuma mesa disponível — Completou desanimada.

— Realmente, em dias como esse o lugar costuma lotar, mas olha, bem ali atrás tem três lugares vazios — Apontou para uma mesa que tinha vista para o estacionamento. Nela, havia um garoto sentado ao lado da janela lendo um livro.

Catarina logo o reconheceu como sendo Miguel Medeiros, o editor-chefe do jornal da escola. O garoto constantemente aparentava estar de mau humor, sua cara fechada e roupas comumente pretas assustavam a garota, que já havia levantado, inúmeras vezes, a hipótese de ele ser um vampiro disfarçado entre os alunos.

— Mas já tem gente — Constatou.

— Bom, é isso ou não se senta em lugar nenhum — Catarina sabia que Seu Antônio a estava testando. Ele tinha conhecimento da dificuldade da garota em fazer novas amizades.

Hahaha, muito engraçado, mas não vai conseguir fazer eu passar essa vergonha — Disse cruzando os braços. Sua cota de micos já havia atingido o limite máximo àquela noite.

— Não estou lhe obrigando a fazer nada — O senhor parou de conversar com ela para dar atenção a um garçom, mas a todo instante alternava o olhar entre ele e Catarina. A garota coçou a nuca, tentando decidir se, sentar-se com Miguel era a melhor opção. Nunca havia trocado mais do que duas palavras com o garoto enigmático.

— Tudo bem, vou me sentar com ele — Bufou recebendo um sorriso do senhor à sua frente. — Mas se eu estragar tudo, a culpa é sua.

Se afastou do balcão caminhando em direção a mesa, mas antes de completar seu trajeto, pegou o espelho que estava dentro do bolso do seu casaco.

Era algo obrigatório andar sempre com aquele objeto. Catarina o carregava para todo lugar, pois saber como seu rosto e cabelo estavam era importante para ela. Encarou seu reflexo no espelho e logo uma expressão de nojo se apoderou de seu rosto.

Estava sem maquiagem.

Para ela, era como estar sem sua máscara. Sem ela, as pessoas poderiam notar o quanto seus cílios eram pequenos, que seus olhos sem o lápis preto não possuíam nenhum destaque, e que seus lábios pareciam sem vida com a ausência do batom.

Catarina levou a mão aos seus cachos que faziam contraste com o tom de chocolate de sua pele. Seus cabelos, que não passavam da altura do pescoço, estavam mais para um ninho de passarinhos.

Respirando fundo e sem nenhuma alternativa, guardou o espelho e caminhou até parar em frente à mesa onde Miguel estava sentado. Pelo o que ela podia enxergar, o garoto usava uma camisa preta com o nome de alguma banda que ela desconhecia e também estava usando uma touca, que escondia quase todo seu cabelo loiro, com apenas alguns fios tentado aparecer.

Ao perceber a presença da garota de cachos, ele levantou o olhar, deixando-se formar uma expressão confusa em seu rosto.

— Posso ajudar? — Perguntou com o cenho franzido. Seu tom de voz era forte, o que deixou Catarina um pouco receosa.

Ela soltou um pigarro enraizado de tensão.

— Bom, eu, eu... queria saber se posso me sentar aqui. Com você — O garoto levantou uma das sobrancelhas, marcou a página que estava lendo e fechou o livro. A cacheada sentiu suas bochechas queimarem.

— Se sentar... comigo? — Questionou e Catarina acenou afirmativamente com a cabeça. — Você tá se sentindo bem? Bebeu alguma coisa?

— Não — Disse desconcertada. — Por quê?

— Quem em sã consciência quer se sentar comigo? — Por um momento Catarina pensou que ele estava brincando, mas quando viu seriedade em seu rosto, se adiantou a falar.

— Bom, eu quero — Respondeu um pouco insegura. — E também não tem mais nenhuma mesa vaga — Completou.

Miguel levou a mão ao peito teatralmente com uma expressão de ofensa no rosto.

— Nossa, obrigado. Bom saber que eu sou a última opção.

Catarina arregalou os olhos ao perceber o que acabara de falar. Maldita ideia do Seu Antônio de fazê-la conversar com Miguel, já havia feito m3rda.

— N-não, não. Não foi isso que eu quis dizer — Falou afobada. — É que, eu...você...

Miguel soltou um riso contido, fitando, com seus olhos azuis, a garota desesperada.

— Relaxa, eu tô brincando, pode se sentar, não tem nenhum problema — Apontou para os lugares vazios. Catarina se acalmou e se sentou de frente para o garoto, depositando seu casaco no lugar vazio ao seu lado.

Sobre a mesa havia um cardápio, guardanapos, ketchup, maionese e uma porção de batatas fritas, que logo a fizeram sentir água na boca. Não comia nada desde o almoço e podia jurar que sua barriga roncava silenciosamente. Notando o olhar da garota sobre sua comida, Miguel a empurrou em sua direção.

— Pode comer.

— Não, obrigada, tô sem fome — Uma coisa era querer comer, outra muito diferente era poder fazer isso. Catarina seguia religiosamente uma dieta equilibrada e comer coisas gordurosas não estava inclusa nela. De forma alguma podia engordar.

— Tudo bem então — Miguel puxou as fritas de volta, pegando uma e levando a sua boca. De perto, Catarina podia notar o quanto sua pele era pálida, mais um motivo para desconfiar que, de fato, ele era um vampiro.

O garoto não era muito notado no colégio. Tirando o fato de fazer parte do jornal, não tinha muito destaque na escola. Para falar a verdade, a maioria dos alunos o achavam bastante estranho.

Miguel era uma pessoa de poucas palavras e quando Catarina dizia poucas palavras, ela realmente queria dizer poucas palavras. Raramente escutava sua voz dentro da sala de aula e eram raros os momentos em que ele demonstrava uma expressão sem ser a de puro tédio. Por isso, o fato deles estarem tendo uma conversa aparentemente normal a surpreendeu.

Quando voltou a lhe observar, ele havia voltado a ler seu livro. Era muito difícil não o ver lendo. Miguel parecia realmente fascinado pela a leitura, e Catarina suspeitava que ele já tivesse lido todos os livros da enorme biblioteca da escola.

— Então, o que a presidente do grêmio estudantil faz no Olympus em um sábado à noite? — Catarina saiu de seus pensamentos ao escutar a pergunta de Miguel. — Você não devia tá com os seus amigos?

De fato, ser representante dos alunos lhe rendeu um status na escola. Muitas pessoas se aproximaram dela depois que ela foi empossada como presidente, pessoas que ela achava que nem sabiam de sua existência. Pessoas como Rafael, o capitão e principal atacante do time de futebol, e Sabrina, a capitã da equipe de torcida.

No fundo, Catarina sabia que eles não estavam interessados de fato na sua amizade e sim, nos benefícios que ela poderia trazer. Se perguntava por que eles achavam que ela iria de alguma forma favorecê-los. Tinha seus princípios e não iria atropelá-los por causa de pessoas que nem se importavam com ela.

De qualquer forma, eles continuavam andando com ela pelo os corredores da escola, comendo na mesma mesa que ela durante o almoço e a chamando para festas, que ela insistia em não ir.

— Só passando o tempo, sabe? Eu não sou muito de sair pra festas ou algo parecido — Estava sendo sincera, abominava lugares cheios, trocaria todas as bebidas e músicas eletrônicas por uma tarde no cinema.

— É? Nem eu — Disse Miguel com um pequeno sorriso fechado no rosto. — Você não é nada parecida com o que eu achava.

— É mesmo? E como você achava que eu era? — Se ajeitou no assento atenta ao garoto de touca a sua frente, estava interessada na opinião dele a respeito dela.

Miguel fechou seu livro mais uma vez, desistindo da leitura e decidindo depositar toda a sua atenção em Catarina.

— Ah, sei lá — Deu de ombros. — Pensei que você era uma garota esnobe, claramente eu tava enganado. — Se adiantou em falar.

— Bom, eu confesso que também tinha uma opinião errada sobre você — Brincou com um de seus cachos. — Eu achava que você era um vampiro — Confidenciou e viu o garoto arregalar os olhos e se engasgar com sua própria saliva, tossindo fortemente. — Ah meu Deus, você tá bem? Não morre não.

Miguel se recuperou aos poucos, sendo vigiado por um olhar desesperado de Catarina.

— Um vampiro? — Ele soltou uma gargalhada, algo que Catarina nunca imaginou que pudesse vir dele. — Você realmente achou que eu fosse um vampiro? — A garota acenou envergonhada, mas logo começou a rir também.

— O que eu posso dizer? Fui bastante influenciada por Crepúsculo.

— Como assim Crepúsculo? Esqueça qualquer começo de amizade que poderíamos ter.

Catarina bufou.

— Os livros são bem legais, ok?

— Os livros eu não sei, mas os filmes são uma m3rda. Fui obrigado a assistir todos eles com a minha irmã. Era tão ruins que eu senti vontade de morrer.

— Que exagerado você é. Confesso que os filmes não são uma obra prima do cinema, mas os livros são bem interessantes. Nem sempre uma adaptação sai como esperado.

— Realmente.

— Mas me diz, senhor-odeio-crepúsculo, qual o seu livro favorito?

— Dom Casmurro — Levantou o livro, mostrando a capa com o título.

— Ah, nunca li.

— Como assim você nunca leu Dom Casmurro? — Miguel fitava incrédulo Catarina, que tinha uma expressão calma e serena no rosto.

— Não lendo.

— Mas eles te obrigam a ler o livro na escola — Constatou Miguel.

— Sim, eu sei, mas eu só fui na internet e pesquisei um resumo da história. Tcharan.

— Catarina França, eu realmente tô considerando se quero começar uma amizade com você depois disso.

— Nossa Miguel, isso me magoa profundamente — Respondeu a garota fazendo uma voz dramática. Os dois riram.

Depois de mais um tempo conversando com Miguel, Catarina se soltou, assim como o garoto, e agora era como se ambos se conhecessem desde de crianças.

Miguel não era nada estranho, na verdade ele era uma pessoa interessante, sempre conseguia fazer com a que a conversa entre os dois fluísse bem e não se tornasse chata ou monótona.

— Com licença — Uma voz rouca, aveludada e feminina pôde ser escutada próxima a eles. Miguel e Catarina levantaram o olhar, dando de cara com uma garota de cabelos longos e negros, e traços asiáticos, os encarando com um olhar indecifrável, ao seu lado um garoto alto e moreno os fitava com um sorriso convencido no rosto. Miguel e Catarina logo os reconheceram. — O gerente disse que essa era a única mesa disponível.



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