História Eclipse - SaTzu - Capítulo 2


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Categorias Bangtan Boys (BTS), Blackpink, TWICE
Personagens Chaeyoung, Dahyun, Jeon Jungkook (Jungkook), Jeon So-mi, Jeongyeon, Jihyo, Kim Taehyung (V), Lisa, Mina, Momo, Nayeon, Park Jimin (Jimin), Personagens Originais, Sana, Tzuyu
Tags 2yeon, Chou Tzuyu, Dahmo, Eclipse, Hirai Momo, Im Nayeon, Jeon Jungkook, Jeon Somi, Jikook, Kim Dahyun, Lalisa Manoban, Michaeng, Minatozaki Sana, Moonsun, Myoui Mina, Park Jihyo, Park Jimin, Satzu, Sohyo, Son Chaeyoung, Yoo Jeongyeon
Visualizações 54
Palavras 8.526
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, LGBT, Luta, Mistério, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Finalmente, aqui está o primeiro cap de Eclipse *palmas* eu acabei demorando pq a minha net tava MUITO lenta, e o cap estava LONGO d+, chega deu até preguiça olha ksksks mas tentarei o máximo que puder pra postar o 2 cap ainda hj, fiquem atentos!

Na primeira parte do cap, vai ter umas frases sublinhadas e em itálico, então imaginem que as frases foram riscadas ao meio, como se a pessoa tivesse errado e tals.

Bom, sem mais demora, boa leitura pra vcs, é noiz!

Capítulo 2 - 1. Ultimato


Fanfic / Fanfiction Eclipse - SaTzu - Capítulo 2 - 1. Ultimato

Sana,

Eu não sei por que você está fazendo Eric passar bilhetinhos pra Taehyung como se estivéssemos na 2ª série - se eu quisesse falar com você eu teria respondido o 

Foi você quem fez a escolha aqui, Ok? Você não pode ter as duas coisas quando 

Que parte de 'inimigo mortal' você não

Olha, eu sei que eu estou sendo uma idiota, mas não existe outra forma de 

Nós não podemos ser amigas enquanto você está passando o seu tempo com um bando de 

Pensar demais em você só deixa as coisas piores, então não escreva mais 

É, eu sinto a sua falta também. Muito. Mas isso não muda nada. 

Desculpe, 

Lisa. 

 

Eu passei os meus dedos pela página, sentindo as marcas onde ela havia pressionado a caneta no papel com tanta força que ela quase rasgou. Eu podia imaginá-la escrevendo isso - desenhando as letras raivosas com a sua escrita áspera, riscando linha após linha quando as palavras saíam erradas, talvez até fazendo a caneta quebrar em sua mão grande demais; isso explicaria as manchas de tinta.

Eu podia imaginar a frustração fazendo as sobrancelhas dela se apertarem e enrugando a sua testa. Se eu estivesse lá, eu teria sorrido. Não tenha uma hemorragia cerebral, Lisa, eu teria dito a ela. Bota tudo pra fora logo.

Rir era a última coisa que eu tinha vontade de fazer enquanto relia as palavras que eu quase já tinha memorizado. A resposta dela ao meu bilhete de alegações - passado de Eric pra Taehyung pra ela, exatamente como na segunda série, como ela apontou - não era surpresa. Eu já sabia a essência do que ela ia dizer antes de abri-lo.

O que mais me surpreendia era o quanto aquelas linhas rabiscadas haviam me machucado - como se a ponta das letras tivessem superfícies cortantes. Mais do que isso, por trás de cada palavra raivosa se escondia uma piscina de dor; a dor de Lisa me cortou mais profundamente do que a minha própria.

Enquanto eu estava pensando nisso, eu senti o cheiro inconfundível de alguma coisa queimando na cozinha.

Em outra casa, o fato de que alguém que não fosse eu estava cozinhando não causaria muito pânico.

Eu enfiei o papel amassado no meu bolso de trás e saí correndo. Eu cheguei ao fim das escadas quase sem tempo. O recipiente de molho de espaguete que Eric tinha enfiado no microondas estava apenas no início da revolução quando eu abri a porta e o tirei de lá.

- O que eu fiz de errado? - Eric quis saber.

- Você tinha que ter tirado a tampa antes, pai. Metal não é bom em microondas.

Eu rapidamente removi a tampa enquanto falava, derramei metade do molho em uma tigela, depois coloquei a tigela de volta no microondas e guardei o resto de volta no congelador; eu arrumei o tempo e apertei o botão start.

Eric observou os meus arranjos com os lábios torcidos.

- Eu fiz o macarrão direito?

Eu olhei para a panela no fogão, a fonte do cheiro que havia me alertado.

- Mexer ajuda - eu disse à meia voz. Eu encontrei uma colher e tentei desgrudar a massa que estava pegada no fundo.

Eric suspirou.

- Então, pra que é tudo isso? - eu perguntei a ele.

Ele cruzou os braços no peito e olhou, pela janela dos fundos, para a chuva caindo.

- Eu não sei do que você está falando - ele rosnou.

Eu estava confusa. Eric cozinhando? Qual era o motivo da sua atitude ranzinza?

Tzuyu ainda não estava aqui; geralmente Eric guardava esse tipo de atitude para a minha namorada, fazendo o melhor que podia para ilustrar o tema "mal vindo" com palavras e postura.

Os esforços de Eric eram desnecessários - Tzuyu já sabia exatamente o que o meu pai estava pensando sem esse show.

A palavra "namorada" me fez mordiscar a minha bochecha pelo lado interior com uma tensão familiar enquanto eu me movia. Não era a palavra certa, nem um pouco. Eu precisava de uma palavra mais expressiva pra comprometimento eterno... Mas palavras como destino e fado pareciam estranhas quando você as usava numa conversa convencional.

Tzuyu tinha outra palavra em mente, e essa palavra era a fonte da tensão que eu sentia.

Os meus dentes se apertavam só de pensar na palavra.

Noiva. Ugh. Eu me afastei do pensamento.

- Eu perdi alguma coisa? Desde quando você faz o jantar? - eu perguntei a Eric. A massa grudenta boiava na água borbulhante enquanto eu a cutucava. - Ou será que eu devo dizer 'tenta' fazer o jantar?

Eric levantou os ombros.

- Não há nenhuma lei que diga que eu não posso cozinhar em minha própria casa.

- É você quem sabe - eu respondi sorrindo, enquanto olhava para o distintivo no seu casaco de couro.

- Ha. Essa foi boa. - Ele tirou a jaqueta como se o meu olhar tivesse feito ele se lembrar que ainda estava usando o casaco e pendurou-o no gancho reservado para o seu cinto. Seu cinto de armas já estava pendurado no lugar - ele não tinha a necessidade de usá-lo para ir à delegacia por algumas semanas. Não houve mais desaparecimentos perturbadores pra atrapalhar a pequena cidade de Seul, na Coreia do Sul, nada de visões de lobos gigantescos, misteriosos, nas florestas chuvosas...

Eu cutucava o macarrão em silêncio, imaginando que Eric falaria sobre o que quer que estivesse incomodando-o quando ele achasse que estava na hora. Meu pai não era um homem de muitas palavras, e o esforço desastroso de orquestrar um jantar feito por ele deixou muito claro que ele estava com um número estranho de palavras em sua cabeça.

Eu olhei pra o relógio rotineiramente - uma coisa que eu fazia todos os dias nessa hora.

Agora faltava menos de meia hora. As tardes eram a parte mais difícil do meu dia. Desde que a minha ex melhor amiga (e lobisomem), Kim Lalisa, me dedurou sobre a moto que eu andava guiando - um castigo que ela havia arquitetado pra que eu não pudesse passar tempo com a minha namorada (e vampira), Jeon Tzuyu - Tzuyu só tem permissão de me ver até as nove e meia da noite, sempre nos confins da minha casa e sob a supervisão do olhar infalivelmente mal humorado do meu pai.

Essa era só uma pequena parcela do castigo anterior que eu recebi por ter desaparecido três dias sem explicar e pelo episódio do mergulho do penhasco.

É claro, eu ainda via Tzuyu na escola, porque ainda não havia nada que Eric pudesse fazer em relação a isso. E depois, Tzuyu passava quase todas as noites no meu quarto também, mas Eric não estava precisamente consciente disso. A habilidade de Tzuyu de escalar rápida e silenciosamente a minha janela no segundo andar era quase tão útil quanto a habilidade dela de ler a mente de Eric.

Apesar de as tardes serem a única hora que eu passava longe de Tzuyu, isso já era o suficiente pra me deixar impaciente, e as horas sempre se arrastavam. Mesmo assim, eu aguentava o meu castigo sem reclamar porque - pra começar - eu sabia que tinha merecido, e - pra terminar - porque eu sabia que não podia machucar o meu pai me mudando agora, quando uma separação muito mais permanente se aproximava, invisível pra Eric, perto no horizonte.

Meu pai se sentou na mesa com um jornal desdobrado e amassado que havia lá; dentro de segundos ele já estava estalando a língua de desaprovação.

- Eu não sei pra quê você lê o jornal, pai. Ele só te tira do sério.

Ele me ignorou, rosnando para o papel em suas mãos.

- É por isso que todo mundo quer viver em cidades pequenas. Ridículo!

- O que foi que as cidades grandes fizeram de errado agora?

- Daegu está entrando para a lista das cidades com mais crimes do país. Cinco homicídios sem solução nas últimas duas semanas. Você pode imaginar viver assim?

- Na verdade, eu acho que Osaka está mais no topo da lista, pai. Eu vivi assim.

Eu nunca havia chegado perto de ser uma vítima de assassinato antes de vir pra essa pequena cidade segura. Na verdade, eu ainda estava em muitas das listas de perigo... A colher balançou nas minhas mãos, fazendo a água tremer.

- Bem, você não me pagaria o suficiente - Eric disse.

Eu desisti de salvar o jantar e me sentei pra servi-lo; eu tive que usar uma faca de carne pra cortar uma porção do espaguete pra mim e pra Eric, enquanto ele observava com uma expressão tímida. Eric cobriu o seu com molho pra ajudar e começou a escavar. Eu disfarcei o meu com o molho da melhor forma que pude e segui o exemplo dele, sem muito entusiasmo. Nós comemos em silêncio por algum tempo. Eric ainda estava vasculhando as notícias, então eu peguei a minha cópia muito abusada de O Morro dos Ventos Uivantes de onde eu havia deixado-a no café da manhã e tentei me perder na Inglaterra da virada do século, enquanto eu esperava que ele começasse a falar.

Eu estava exatamente na parte do retorno de Heathcliff quando Eric limpou a garganta e jogou o jornal no chão.

- Você está certa - Eric disse. - Eu tenho uma razão pra ter feito isso. - Ele acenou com o garfo na direção da mistura grudenta. - Eu queria falar com você.

Eu coloquei o livro de lado; a encadernação estava tão destruída que ela ficou plana na mesa.

- Você podia ter só pedido.

Ele balançou a cabeça, as sobrancelhas juntas.

- É. Eu vou lembrar disso da próxima vez. Eu pensei que te livrar de fazer o jantar ia te amaciar.

Eu ri.

- Deu certo, seus talentos culinários me deixaram molinha feito marshmallow. Do que você precisa, pai?

- É sobre Lisa.

Eu senti meu rosto endurecer.

- O que tem ela? - eu perguntei através dos lábios rígidos.

- Calma, Sannie. Eu sei que você ainda está brava porque ela te dedurou, mas foi a coisa certa. Ela estava sendo responsável.

- Responsável - eu repeti agudamente, rolando os meus olhos. - Certo. Então, o que tem Lisa?

A pergunta sem importância repetida na minha cabeça não era nada além do trivial.

O que tem Lisa? O que eu ia fazer em relação a ela? Minha ex-melhor amiga que agora era... o que? Minha inimiga? Eu vacilei.

O rosto de Eric de repente estava cauteloso.

- Não fique brava comigo, ok?

- Brava?

- Bem, é sobre Tzuyu também.

Meus olhos se estreitaram.

A voz de Eric ficou mais áspera.

- Eu deixo ela entrar em casa, não deixo?

- Você deixa - eu admiti. - Por breves períodos de tempo. É claro, você também me deixa sair de casa por breves períodos de vez em quando - eu continuei, só de piada, eu sabia que ficaria presa enquanto durasse o período escolar. - Eu tenho sido muito boazinha ultimamente.

- Bem, é mais ou menos aí que eu queria chegar com isso... - E depois o rosto de Eric se arreganhou num sorriso inesperado; por um segundo ele pareceu ser vinte anos mais jovem. Eu vi o fraco brilho de uma possibilidade naquele sorriso, mas eu prossegui lentamente.

- Eu estou confusa, pai. Nós estamos falando sobre Lisa, Tzuyu ou sobre o meu castigo?

O sorriso dele brilhou de novo.

- Um pouco dos três.

- E como eles se relacionam? - eu perguntei, cuidadosa.

- Tudo bem - ele suspirou, erguendo as mãos como se estivesse se rendendo. - Então eu acho que talvez você mereça uma condicional por bom comportamento. Para uma adolescente, você é incrivelmente não-reclamona.

Minha voz e minhas sobrancelhas levantaram.

- Sério? Eu estou livre?

De onde foi que isso veio? Eu pensei que fosse ficar trancada em casa até me mudar de fato, e Tzuyu não havia registrado nenhuma mudança nos pensamentos de Eric...

Eric levantou um dedo.

- Condicionalmente.

O entusiasmo desapareceu.

- Fantástico - eu gemi.

- Sana, isso é mais um pedido do que uma ordem, ok? Você está livre. Mas eu espero que você use essa liberdade mais... judicialmente.

- O que isso significa?

Ele suspirou de novo.

- Eu sei que você fica satisfeita passando todo o seu tempo com Tzuyu...

- Eu passo tempo com Mina também - eu interferi. A irmã de Tzuyu não tinha horários para visita; ela ia e vinha quando bem entendia. Eric era como pudim nas mãos capazes dela.

- Isso é verdade - ele disse. - Mas você tem outros amigos além dos Jeon, Sana. Ou costumava ter.

Nós encaramos um ao outro por um momento.

- Quando foi a última vez que você falou com Hirai Momo? - ele jogou pra mim.

- Sexta no almoço - eu respondi imediatamente.

Antes da volta de Tzuyu, os meus amigos da escola haviam se polarizado em dois grupos.

Eu gostava de pensar neles como grupos de bem vs. mau. Nós e eles funcionava também. Os mocinhos eram Momo, sua namorada Kim Dahyun e Yoo Jeongyeon; essas três haviam muito generosamente me perdoado quando eu enlouqueci porque Tzuyu foi embora. Krystal Jung a líder do lado deles, e quase todo mundo, incluindo minha primeira amiga em Seul, Im Nayeon, parecia seguir a agenda Anti-Sana dela contentemente.

Com Tzuyu de volta a escola, a linha de divisão havia ficado ainda mais distinta. O retorno de Tzuyu havia cobrado um certo pedágio a Jeongyeon, mas Momo era inquestionavelmente leal, e Dahyun a seguia. A despeito da aversão natural que a maioria dos humanos sentia pelos Jeon, Momo sentava-se obrigatoriamente ao lado de Mina todos os dias no almoço. Depois de alguns dias, Momo até começou a parecer confortável lá. Era difícil não se encantar pelos Jeon - quando você dava a um deles a chance de ser encantador.

- Fora da escola? - Eric perguntou, chamando minha atenção de volta.

- Eu não tenho visto ninguém fora da escola, pai. De castigo, lembra? E Momo tem uma namorada também. Ela está sempre com Dahyun. Se eu realmente estou livre - eu adicionei, pegando pesado no ceticismo - talvez possamos sair em casais.

- Tudo bem, mas então... - ele hesitou. - Você e Liz costumavam fazer tudo juntas, e agora...

Eu cortei ele.

- Dá pra você chegar no ponto, pai? Qual é a sua condição, exatamente?

- Eu não acho que você deveria abandonar os seus amigos pela sua namorada, Bella - ele disse numa voz dura. - Não é legal, e eu acho que a sua vida estaria mais bem balanceada se houvessem mais algumas pessoas nela. O que aconteceu Setembro passado... - Eu vacilei. – Bem - ele disse defensivamente. - Se você tivesse uma vida além de Jeon Tzuyu, as coisas podiam não ter sido daquele jeito.

- Teria sido exatamente daquele jeito - eu murmurei.

- Talvez sim, talvez não.

- O ponto? - eu lembrei ele.

- Use a sua liberdade pra ver os seus outros amigos também. Equilibre as coisas.

Eu balancei a cabeça lentamente.

- Equilíbrio é bom. No entanto, eu tenho cotas de tempo pra seguir?

Ele fez uma cara, mas balançou a cabeça.

- Eu não quero complicar as coisas. Só não esqueça os seus amigos, particularmente Lisa.

Eu levei algum tempo pra encontrar as palavras certas.

- Lisa pode ser... difícil.

- Os Kim são praticamente da família, Sana - ele disse, dura e paternalmente de novo. - E Lisa foi uma amiga muito, muito boa pra você.

- Eu sei disso.

- Você não sente nem um pouco de saudades dela? - Eric perguntou, frustrado.

Minha garganta pareceu inchar de repente; eu tive que limpá-la duas vezes antes de responder.

- Sim, eu sinto saudades dela - eu admiti, ainda olhando pra baixo. - Eu sinto muita falta dela.

- Então por que é tão difícil?

Isso não era uma coisa que eu tinha liberdade de explicar. Era contra as regras para as pessoas normais - pessoas humanas como eu e Eric - saber sobre o mundo clandestino, cheio de mitos e monstros, que existia secretamente ao nosso redor. Eu sabia sobre esse mundo - e eu tinha uma pequena porção de problemas como resultado. Eu não ia envolver Eric nos mesmos problemas.

- Com Lisa existe um... conflito - eu disse solenemente. - Eu quero dizer, um conflito sobre a coisa da amizade. Amizade não parece ser o suficiente pra Liz.

Eu inventei a minha desculpa baseada em fatos que eram verdadeiros, mas insignificantes, dificilmente tão cruciais se comparados com o fato de que o bando de lobisomens de Liz odiava amargamente a família vampira de Tzuyu – e, portanto, eu também, já que eu estava inteiramente intencionada a me juntar a essa família. Não era uma coisa que eu podia resolver com ela através de um bilhete, e ela não atendia os meus telefonemas.

Mas o meu plano de ir lidar pessoalmente com o lobisomem definitivamente não havia calhado bem com os vampiros.

- Será que Tzuyu não está a fim de um pouco de competição saudável? - a voz de Eric estava sarcástica agora.

Eu olhei pra ele com um olhar obscuro.

- Não tem competição.

- Você está machucando os sentimentos de Lisa evitando-a desse jeito. Ela iria preferir ser sua amiga do que nada.

Oh, agora era eu que a estava evitando? pensei, tentando não ficar irritada.

- Eu tenho certeza absoluta que Liz não quer amizade de jeito nenhum. - As palavras queimaram na minha boca. - Afinal, de onde foi que você tirou essa idéia?

Agora Eric parecia envergonhado.

- O assunto pode ter aparecido hoje com Taehyung...

- Você e Taehyung fofocam como mulheres velhas - eu reclamei, espetando o meu garfo violentamente no espaguete congelado no meu prato.

- Taehyung está preocupado com Lisa - Eric disse. - Liz está passando por um momento difícil agora... Ela está deprimida.

Eu gemi, mas mantive os meus olhos na gororoba.

- E, além do mais, você ficava tão feliz depois de passar o dia com Liz - Eric suspirou. 

- Eu estou feliz agora - eu rosnei ferozmente por entre os dentes.

O contraste entre as minhas palavras e o tom que eu usei quebrou a tensão.

Eric começou a rir, e eu me juntei a ele.

- Ok, ok - eu concordei. - Equilíbrio.

- E Lisa - ele insistiu.

- Eu vou tentar.

- Bom. Encontre esse equilíbrio, Sana. E, oh, é, você tem correspondência - Eric disse, fechando o assunto sem muitas dificuldades. - Está no balcão.

Eu não me movi, meus pensamentos se moviam como espirais ao redor do nome de Lisa.

Provavelmente era só correspondência boba; eu havia acabado de receber um pacote da minha mãe e não estava esperando mais nada.

Eric empurrou a sua cadeira pra trás e se espreguiçou enquanto ficava de pé. Ele levou seu prato para a pia, mas antes de ligar a água pra lavá-lo, ele pausou e jogou um envelope grosso pra cima de mim. A carta escorregou pela mesa e deu um choque no meu cotovelo.

- Er, obrigada - eu murmurei, confusa pela insistência dele. Aí eu vi o endereço do remetente, a carta era da universidade do Sudeste do Alasca. - Isso foi rápido. Eu pensei que havia perdido o prazo de entrega dessa também.

Eric gargalhou.

Eu virei o envelope e olhei pra ele.

- Está aberto.

- Eu estava curioso.

- Eu estou chocada, xerife. Isso é um crime federal.

- Oh, leia logo.

Eu puxei a carta pra fora e encontrei uma agenda dobrada dos cursos.

- Parabéns - ele disse antes que eu pudesse ler alguma coisa. - Sua primeira aceitação.

- Obrigada, pai.

- Nós deveríamos falar sobre o custeamento. Eu tenho algum dinheiro economizado...

- Ei, ei, nada disso. Eu não vou tocar na sua aposentadoria, pai. Eu tenho os meus fundos para a faculdade. - O que restava dele, que já não era muito no começo.

Eric fez uma carranca.

- Alguns desses lugares são muito caros, Sana. Eu quero ajudar. Você não tem que ir para o Alasca só porque é mais barato.

Não era mais barato, nem um pouco. Mas era longe, e Juneau tinha um normal de trezentos e vinte e um dias nublados por ano. O primeiro era o meu pré-requisito, o segundo era o de Tzuyu.

- Eu já tenho tudo coberto. Além do mais, tem um monte de auxílios financeiros por aí. É fácil ganhar empréstimos. - Eu esperava que o meu blefe não fosse óbvio demais. Eu não tinha feito muitas pesquisas sobre o assunto.

- Então... - Eric começou, e então ele contorceu os lábios e desviou o olhar.

- Então o que?

- Nada. Eu só estava... - Ele fez uma carranca. - Só me perguntando quais... quais são os planos de Tzuyu para o ano que vem.

- Oh.

- Então?

As três batidas rápidas na porta me salvaram. Eric revirou os olhos enquanto eu pulava pra ficar de pé.

- Já vou! - eu gritei enquanto Eric murmurava alguma coisa parecida com - Vá embora. - Eu o ignorei e segui em frente pra deixar Tzuyu entrar.

Eu tirei a porta do caminho - ridiculamente ansiosa - e lá estava ela, o meu milagre pessoal.

O tempo não me fez imune à perfeição do rosto dela, e eu tinha certeza de que nunca iria me acostumar com nenhum dos aspectos dela. Meus olhos observaram suas feições pálidas: sua dura mandíbula quadrada, a curva mais suave dos seus lábios cheios - que agora estavam curvados pra cima num sorriso, a linha reta do nariz dela, o ângulo das maçãs do rosto dela, a enavergadura da sua testa macia de mármore - parcialmente obscurecida por uma mecha de cabelos cor de bronze escurecidos pela chuva...

Eu deixei seus olhos por último, sabendo que quando eu olhasse dentro deles haveria uma grande possibilidade de eu perder a linha de raciocínio. Eles estavam grandes, quentes com um dourado derretido, e moldados por uma linha de cílios grossos. Olhar dentro dos olhos dela sempre faziam eu me sentir extraordinária - como se os meus ossos estivessem como esponja. Eu também ficava com a cabeça meio leve, mas isso podia ser porque eu esquecia de respirar. De novo.

Era o rosto pelo qual qualquer modelo daria a sua alma pra ter. É claro, esse podia ser exatamente o preço pedido: uma alma.

Não. Eu não acreditava nisso. Eu me sentia culpada só de pensar nisso, e eu estava feliz - assim como estava frequentemente feliz - por ser a única pessoa cujos pensamentos eram um mistério pra Tzuyu.

Eu inclinei minha mão e suspirei quando os dedos frios dela encontraram os meus. O toque dela trouxe a sensação mais estranha de alívio - como se eu estivesse sentindo dor e essa dor houvesse cessado de repente.

- Oi - eu sorri um pouco com a minha saudação anti-climática.

Ela ergueu as nossas mãos entrelaçadas pra tocar a minha bochecha com as costas da mão dela.

- Como foi a sua tarde?

- Lenta.

- Pra mim também.

Ela puxou o meu pulso para o rosto dela, nossas mãos ainda entrelaçadas. Os olhos dela se fecharam enquanto o nariz dela alisava a pele de lá, e ela sorriu gentilmente sem abri-los.

Aproveitando o buquê enquanto resistia ao vinho, como ela havia colocado uma vez.

Eu sabia que o cheiro do meu sangue - muito mais doce pra ela do que o cheiro do sangue de qualquer outra pessoa, realmente como o vinho em vez de água para um alcoólatra – causava a ela verdadeira dor pela sede que acarretava. Eu podia apenas imaginar o esforço Herculano por trás desse simples gesto. Eu fiquei triste por ela ter que tentar tanto. Eu me confortei com o fato de que eu não causaria mais dor a ela por muito tempo.

Nessa hora eu ouvi Eric se aproximando, batendo os pés no caminho com o seu desprazer de costume com a nossa visita. Tzuyu abriu os olhos e deixou as nossas mãos caírem, mantendo-as entrelaçadas.

- Boa noite, Eric - Tzuyu era sempre impecavelmente educada, apesar de Eric não merecer isso. Eric grunhiu pra ela e ficou em pé onde estava, com os braços cruzados no peito.

Ele estava levando o conceito de supervisão paterna aos extremos ultimamente.

- Eu trouxe outras inscrições - Tzuyu me disse nessa hora, levantando um bolo de papéis envelopados. Ela estava usando um rolo de selos como se fosse um anel no seu dedo mindinho.

Eu gemi. Como é que podiam ainda haver faculdades às quais ela já não tivesse me obrigado a me inscrever? Como é que ela continuava encontrando essas vagas em aberto? O ano já estava muito atrasado.

Ela sorriu como se pudesse ler os meus pensamentos; eles deviam estar óbvios no meu rosto.

- Ainda haviam prazos de inscrição em aberto. E alguns lugares a fim de fazer exceções...

Eu podia imaginar as motivações pra essas exceções. E os montes de wones envolvidos.

Tzuyu riu da minha expressão.

- Vamos lá? - ela perguntou, me levando em direção à mesa da cozinha.

Eric ficou mal-humorado e seguiu atrás, apesar de ele não poder reclamar da agenda de atividades de hoje. Ele vivia me enchendo pra tomar uma decisão sobre a faculdade todos os dias. Eu limpei a mesa rapidamente enquanto Tzuyu organizava uma pilha intimidante de formulários. Quando eu movi O Morro dos Ventos Uivantes pra cima do balcão, Tzuyu ergueu uma sobrancelha.

Eu sabia o que ela estava pensando, mas Eric interrompeu antes que Tzuyu pudesse comentar.

- Falando em inscrições para a faculdade, Tzuyu - Eric disse, seu tom ainda mais solene, ele tentava evitar se dirigir pra Tzuyu diretamente, e, quando ele tinha que fazê-lo, isso exacerbava o seu humor. - Sana e eu estávamos falando sobre o ano que vem. Você já decidiu onde vai estudar?

Tzuyu sorriu pra Eric e a voz dela estava amigável.

- Ainda não. Eu recebi algumas cartas de aceitação, mas eu ainda estou pensando as minhas opções.

- Onde você foi aceita? - Eric pressionou.

- Syracuse... Harvard... Dartmouth... e eu acabei de ser aceito na faculdade do Sudeste do Alasca hoje.

Tzuyu virou levemente a sua cabeça pra o lado pra poder piscar pra mim. Eu prendi uma gargalhada.

- Harvard? Dartmouth? - Eric murmurou, incapaz de esconder a sua admiração. - Bem, isso é muito... isso é interessante. É, mas a Universidade do Alasca... você realmente está considerando isso quando pode ir para a Ivy League? Quer dizer, a sua mãe iria querer que...

- Somi sempre está de acordo com qualquer escolha que eu fizer - Tzuyu disse a ele serenamente.

- Hmph.

- Adivinhe, Tzuyu? - eu pedi com uma voz brilhante, entrando na brincadeira.

- O que, Sana?

Eu apontei para o grosso envelope no balcão.

- Eu acabei de receber a minha carta de aceitação da Universidade do Alasca!

- Parabéns - ela deu um sorriso largo. - Que coincidência. (N/A: Mas é muita falsidade olha ksksks)

Os olhos de Eric se estreitaram e ele olhou pra frente e pra trás entre nós. 

- Tá bom - ele murmurou depois de um minuto. - Eu vou assistir o jogo, Sana. Nove e meia.

- Er, pai? Lembra o que nós discutimos sobre a minha liberdade...?

Ele suspirou.

- Certo. Ok, dez e meia. Você ainda tem o toque de recolher nas noites de aula.

- Sana não está mais de castigo? - Tzuyu perguntou. Apesar de saber que ela não estava realmente surpresa, eu não consegui detectar nenhum sinal de falsa excitação na voz dela.

- Condicionalmente - Eric corrigiu através dos dentes. - O que você tem com isso? (N/A: Super gentil não é mesmo, Eric?)

Eu fiz uma carranca para o meu pai, mas ele não viu.

- Só é bom saber - Tzuyu disse. - Mina está louca pra arranjar uma parceira de compras, e eu tenho certeza de que Sana adoraria ver as luzes da cidade - ela sorriu pra mim.

Mas Eric rosnou.

- Não! - e o rosto dele ficou roxo.

- Pai! Qual é o problema?

Ele fez um esforço pra destrincar os dentes.

- Eu não quero que você vá a Daegu agora.

- Huh?

- Eu te disse sobre a história no jornal, tem alguma espécie de gangue fazendo uma matança em Daegu e eu quero que você mantenha a distância, ok?

Eu rolei os meus olhos.

- Pai, existe uma chance maior de eu ser atingida por um raio do que eu passar um dia em Daegu e...

 - Não, está tudo bem, Eric - Tzuyu disse, me interrompendo. - Eu não me referia a Daegu. Eu estava pensando em Jeju, na verdade. Eu também não levaria Sana a Daegu. É claro que não.

Eu olhei pra ela sem acreditar, mas ela estava com o jornal de Eric nas mãos e lia a primeira página atentamente.

Ela devia estar tentando aplacar o meu pai. A idéia de estar em perigo mesmo por causa do mais letal dos humanos estando na companhia de Mina ou Tzuyu era hilária.

Funcionou. Eric olhou pra Tzuyu por mais ou segundo, e depois levantou os ombros.

- Tudo bem. - Ele saiu na direção da sala de estar, agora com um pouco de pressa, talvez ele não quisesse perder o início do jogo.

Eu esperei até que a TV estivesse ligada, pra que Eric não pudesse me ouvir.

- O que - eu comecei a perguntar.

- Espere - Tzuyu disse sem tirar os olhos do jornal. Os olhos dela continuaram focados na primeira página enquanto ela empurrava a primeira inscrição na minha direção pela mesa. - Eu acho que você pode reutilizar os seus ensaios nessa. As mesmas perguntas.

Eric ainda devia estar ouvindo. Eu suspirei e comecei a responder as perguntas repetitivas: nome, endereço, social... Depois de alguns minutos, eu olhei pra cima, mas agora Tzuyu estava olhando perseverantemente pela janela.

Enquanto eu baixava a minha cabeça de volta para o meu trabalho, eu percebi pela primeira vez o nome da escola.

Eu bufei e coloquei os papeis de lado.

- Sana?

- Fala sério, Tzuyu. Dartmouth?

Tzuyu levantou as inscrições descartadas e as colocou gentilmente na minha frente novamente.

- Eu pensei que você gostaria de New Hampshire - ela disse. - Há muitas coisas pra eu fazer durante a noite, e as florestas estão convenientemente localizadas para os praticantes ávidos de caminhadas. Bastante vida selvagem. - Ela deu o riso torto ao qual ela sabia que eu não podiaresistir.

Eu respirei profundamente pelo nariz.

- Eu deixo você pagar, se isso te deixa feliz - ela prometeu. - Se você quiser, eu posso custear o seu interesse.

- Como se eu fosse conseguir entrar sem um enorme suborno. Ou isso foi parte do empréstimo? Uma nova ala dos Jeon para a biblioteca? Ugh! Por que é que estamos tendo essa discussão de novo?

- Será que dá pra você responder a inscrições, por favor, Sana? Se inscrever não vai te machucar.

Minha mandíbula flexionou-se.

- Quer saber? Eu não acho que vai.

Eu peguei os papéis, planejando colocá-los numa pilha que coubesse direitinho na lata de lixo, mas eles já tinham desaparecido. Eu olhei para a mesa vazia por um momento, e depois pra Tzuyu. Ela não parecia ter se movido, mas as inscrições provavelmente já estavam enfiadas embaixo do casaco dela.

- O que você está fazendo? - eu quis saber.

- Eu sei assinar o seu nome melhor que você. Você já escreveu os ensaios.

- Você está indo longe demais com isso, sabe - eu sussurrei, pela chance improvável de que Eric não estivesse completamente compenetrado em seu jogo. - Eu não preciso me inscrever pra nada. Eu já fui aceita no Alasca. Eu quase já posso pagar pelo primeiro mês de estudos. Ele é um álibi tão bom quanto qualquer outro. Não há necessidade de jogar fora um bolo de dinheiro, não importa de quem ele seja.

Um olhar de dor espremeu o rosto dela.

- Sana... 

- Não comece. Eu concordo que eu tenha que passar por essas fases por Eric, mas nós duas sabemos que eu não estarei em condições de estudar no próximo outono. Ficar perto de pessoas.

Meu conhecimento desses primeiros anos como vampira eram incompletos. Tzuyu nunca entrava nos detalhes - esse não era o assunto favorito dela -, mas eu sabia que não era nada bonito. Auto-controle aparentemente era uma habilidade requerida. Qualquer coisa que não estivesse ligada a escola por correspondência estava fora de questão.

- Eu pensei que o timing ainda não estivesse decidido - Tzuyu me lembrou suavemente. - Você pode gostar de um semestre ou dois na faculdade. Ainda existem muitas experiências humanas que você nunca teve.

- Eu irei vivê-las depois.

- Depois elas não serão experiências humanas. Você não terá uma segunda chance para a humanidade, Sana.

Eu suspirei.

- Você precisa ser razoável com o tempo, Tzuyu. É muito perigoso brincar com ele.

- Não há perigo ainda - ela insistiu.

Eu a encarei. Sem perigo? Claro. Eu só tinha uma vampira sádica me perseguindo pra vingara morte do parceiro dela com a minha própria morte, preferivelmente utilizando usando algum método lento e torturante. Quem estava preocupado com Hyuna? E, oh, é, os Volturi - a família real de vampiros com o seu pequeno exército de guerreiros vampiros - que insistiam em fazer meu coração parar de bater de uma forma ou de outra num futuro próximo, porque nenhum humano tinha permissão de saber que eles existiam. Certo. Absolutamente nenhuma razão pra entrar em pânico.

Mesmo com Mina continuando a observar - Tzuyu estava se valendo das suas visões apuradas do futuro pra nos dar um aviso -, era uma insanidade contar com a sorte.

Além do mais, eu já tinha ganhado essa discussão. A data para a minha transformação estava tentadoramente marcada pra pouco depois da minha formatura no terceiro grau, em apenas algumas semanas.

Uma afiada pontada de enjôo perfurou meu estômago quando eu percebi o quão curto o tempo realmente era. Claro que esta mudança era necessária - é a chave para o que eu mais quero que tudo no mundo reunido - mas eu estava profundamente consciente de Eric, sentado no outro quarto desfrutando o jogo dele, só ao vivo a cada duas noites. E minha mãe, Solar, longe na Flórida ensolarada, que ainda suplica para eu passar o verão na praia com ela e a nova esposa dela.

E Lisa, que, diferente dos meus pais, saberia exatamente o que ia acontecer comigo quando eu desaparecesse para alguma escola distante. Se os meus pais não ficassem suspeitando depois de muito tempo, mesmo que eu pudesse evitar visitas com desculpas sobre custos da viagem, muito pra estudar ou doença, Lisa saberia da verdade.

Por um momento, a dor da repulsa de Lisa ultrapassou qualquer outra dor.

- Sana - Tzuyu murmurou, o rosto dela se contorcendo quando ela leu a angústia no meu. - Não tem pressa. Eu não vou deixar ninguém te machucar. Você pode usar de todo o tempo que precisar.

- Eu quero me apressar - eu sussurrei, sorrindo fracamente, tentando fazer piada do assunto. - Eu quero ser um monstro também.

Os dentes dela se trincaram; ela falou entre eles.

- Você não faz idéia do que está dizendo. - Abruptamente ela jogou o jornal amassado na mesa entre nós. Os dedos dela bateram na linha principal na primeira página:

CRESCE O ÍNDICE DE MORTE, POLÍCIA TEME ATIVIDADE DE GANGUE

- O que isso tem a ver com alguma coisa?

- Monstros não são uma piada, Sana.

Eu olhei para a manchete de novo, e depois para a sua expressão dura.

- Um... vampiro está fazendo isso? - eu sussurrei. Ela sorriu sem humor, sua voz estava baixa e fria.

- Você ficaria surpresa, Sana, por saber o quão frequentemente a minha espécie está envolvida nessas horrorosas manchetes humanas. É fácil reconhecer, quando você sabe o que procurar. A informação aqui indica que há um vampiro recém nascido em Daegu. Sedento por sangue, selvagem, fora de controle. Do jeito que todos nós somos.

Eu deixei os meus olhos caírem para o papel de novo, evitando os olhos dela.

- Nós estivemos monitorando a situação por algumas semanas. Todos os sinais estão aí, os desaparecimentos improváveis, os cadáveres mal dispostos, a falta de outras provas... Sim, alguém ainda novo. E ninguém parece estar se responsabilizando pelo neófito... - ela respirou fundo. - Bem, não é problema nosso. Nós nem prestaríamos atenção nessa situação se não fosse tão próximo de casa. Como eu disse, isso acontece o tempo inteiro. A existência de monstros resulta em conseqüências monstruosas.

Eu tentei não ver os nomes na página, mas eles se destacavam das outras palavras na folha como se estivessem em negrito. As cinco pessoas cujas vidas estavam acabadas, cujas famílias estavam de luto agora. Era diferente considerar a forma abstrata dos assassinatos lendo esses nomes agora. Pessoas que tinham pais e filhos e amigos e bichos de estimação e empregos e esperanças e planos e memórias e futuros...

- Não será o mesmo pra mim - eu cochichei, meio pra mim mesma. - Você não vai me deixar ser assim. Vamos morar na Antártida.

Tzuyu bufou, quebrando a tensão.

- Pinguins. Adorável.

Eu dei uma gargalhada tremendo e joguei o jornal pra fora da mesa pra que eu não pudesse mais ver aqueles nomes; ele bateu na madeira com um estrondo. É claro que Tzuyu iria considerar as opções de caça. Ela e a sua família "vegetariana" - todos compromissados a proteger vidas humanas - preferiam o sabor de grandes predadores pra satisfazer as necessidades de sua dieta.

- Alasca, então, como o planejado. Só que um lugar muito mais remoto que Juneau, algum lugar com ursos pardos.

- Melhor - ela permitiu. - Lá tem ursos polares também. Muito furiosos. E os lobos ficam muito grandes.

Minha boca se abriu e a respiração saiu numa contração afiada.

- Qual é o problema? - ela perguntou. Antes que eu pudesse me recuperar, a confusão desapareceu do rosto dela e o corpo inteiro dela pareceu ficar duro. - Oh. Esqueça dos lobos então, se a idéia te ofende - a voz dela estava dura, formal, seus ombros estavam rígidos.

- Ela era a minha melhor amiga, Tzuyu - eu murmurei. Eu fiquei machucada por usar o tempo passado. - É claro que a idéia me ofende.

- Por favor, perdoe a minha falta de consideração - ela disse, ainda muito formal. - Eu não deveria ter sugerido isso.

- Não se preocupe com isso - eu olhei para as minhas mãos, fechadas nos meus pulsos encima da mesa.

Nós duas ficamos em silêncio por um momento, e depois seu dedo frio estava embaixo do meu queixo, levantando o meu rosto. A expressão dela estava muito mais suave agora.

- Desculpe. Mesmo.

- Eu sei. Eu sei que não é a mesma coisa. Eu não devia ter reagido daquele jeito. É só que...bem, eu já estava pensando em Lisa antes de você chegar. - Eu hesitei. Seus olhos pareciam sempre ficar um pouco mais escuros quando eu falava o nome de Lisa. Em resposta, a minha voz se tornou implorativa. - Eric disse que Liz está passando por dificuldades. Ela está machucada agora, e... é minha culpa.

- Você não fez nada de errado, Sana.

Eu respirei fundo. 

- Eu preciso melhorar as coisas, Tzuyu. Eu devo isso a ela. E, além do mais, é uma das condições de Eric...

O rosto dela mudou enquanto eu falava, ficando duro de novo, como estátua. 

- Você sabe que está fora de questão você ficar perto de um lobisomem desprotegida, Sana. E se algum de nós passasse as barreiras das terras deles, estaria quebrando o acordo. Você quer que nós comecemos uma guerra?

- É claro que não!

- Então não há nenhum sentido em levar essa discussão adiante. - Ela deixou a mão cair e desviou o olhar, procurando por uma mudança de assunto.

Os olhos dela pararam em alguma coisa atrás de mim, e ela sorriu, apesar dos olhos dela estarem cautelosos.

- Eu fico feliz que Eric tenha deixado você sair, você está precisando tristemente fazer uma visita a uma livraria. Eu não posso acreditar que você está lendo O Morro dos Ventos Uivantes de novo. Você já não sabe ele de cor?

- Nem todos nós temos memória fotográfica - eu disse curtamente.

- Com memória fotográfica ou não, eu não entendo por que você gosta disso. Os personagens são só pessoas que arruínam a vida uns dos outros. Eu não consigo entender como Heathcliff e Cathy acabaram sendo comparados a casais como Romeu e Julieta ou Elizabeth Bennett e Sr. Darcy. Essa não é uma história de amor, é uma história de ódio.

- Você tem sérios problemas com os clássicos - eu disparei.

- Talvez seja porque eu não fico impressionada com antiguidades.

Ela sorriu, evidentemente satisfeita por ter me distraído.

- No entanto, honestamente, por que é que você lê isso de novo e de novo? - Os olhos dela estavam vívidos com real interesse agora, tentando - de novo - desvendar os complicados trabalhos da minha mente. Ela se inclinou na mesa pra pegar o meu rosto nas mãos dela. - Porque isso é apelativo pra você?

A sincera curiosidade dela me desarmou.

- Eu não tenho certeza - eu disse, lutando pra ser coerente enquanto o olhar dela não intencionalmente confundia os meus pensamentos. - É alguma coisa relacionada a inevitabilidade. Como nada consegue mantê-los separados, nem o egoísmo dela, nem o mau dele, e no fim, nem mesmo a morte...

O rosto dela estava pensativo enquanto ela pensava nas minhas palavras. Depois de um momento, ela deu um sorriso de zombaria.

- Eu ainda preferiria se um deles tivesse uma qualidade que os redimisse.

- Eu acho que é disso que eu estou falando - eu discordei. - O amor deles é a única qualidade que os redime.

- Eu espero que você tenha mais senso que isso. se apaixonar por alguém tão... maligno.

- É um pouco tarde pra me preocupar com a pessoa pela qual eu vou me apaixonar - eu apontei. - Mas mesmo sem o aviso, eu pareço ter me saído muito bem.

Ela riu baixinho.

- Eu me alegro que você pense isso.

- Bem, eu espero que você seja esperta o suficiente pra ficar longe de alguém tão egoísta. A fonte de todo o problema na verdade é Catherine, não Heathcliff.

- Eu vou ficar de olho - ela prometeu.

Eu suspirei. Ela era muito bom com distrações.

Eu coloquei a minha mão em cima da dela pra segurá-la no meu rosto.

- Eu preciso ver Lisa

Ela fechou os olhos.

- Não.

- Não é assim tão perigoso - eu disse, implorando de novo. - Ei, eu costumava passar o tempo inteiro em La Push com eles e nada nunca aconteceu.

Mas eu cometi um deslize: minha voz falhou no final, porque eu me dei conta de que estava dizendo palavras que não eram verdade. Não era verdade que nada nunca aconteceu. Um breve flash de memória - um enorme lobo cinza se preparando pra saltar, mostrando seus dentes afiados como facas pra mim - fez as palmas das minhas mãos suarem com o eco do pânico relembrado.

Tzuyu ouviu o meu coração acelerar e balançou a cabeça como se eu tivesse desmentido tudo em voz alta.

- Lobisomens são instáveis. Às vezes as pessoas que estão por perto acabam se machucando. Às vezes, elas morrem.

Eu queria negar isso, mas outra imagem parou a minha resposta. Eu vi em minha cabeça o rosto da um dia linda Eunha Jung, agora marcada por um trio de cicatrizes escuras que por sorte, não a desfiguraram, mas que não deixam de ser lembranças dolorosas, principalmente pra Kim Sojung.

Ela esperou, presumidamente triunfante, que eu encontrasse a minha voz.

- Você não os conhece - eu sussurrei.

- Eu os conheço melhor do que você pensa, Sana. Eu estava lá da última vez.

- Da última vez?

- Nós começamos a cruzar caminhos com os lobisomens há cerca de setenta anos... Nós havíamos acabado de chegar em Jeju. Isso foi antes de Mina e Chaeyoung estarem conosco. Nós éramos um número maior que eles, mas isso não impediria que a coisa se tornasse uma briga se não fosse por Somi. Ela conseguiu convencer Kim SeokJin de que coexistir era possível, e eventualmente nós fizemos a trégua.

O nome do bisavô de Lisa me surpreendeu.

- Nós pensamos que a linhagem havia morrido com SeokJin - Tzuyu murmurou; agora parecia que ela estava falando pra si mesma. - Pensamos que a genética que permite a mutação estava perdida... - Ela parou e olhou pra mim acusadoramente. - A sua má sorte parece ficar mais forte a cada dia. Será que você se dá conta de que sua tendência insaciável a todas as coisas letais foi forte o suficiente pra recuperar um bando de caninos mutantes em extinção? Se nós pudéssemos colocar a sua má sorte em uma garrafa, nós teríamos uma arma de destruição em massa em nossas mãos.

Eu ignorei a piada, minha atenção ficou presa na suposição dela - ela estava falando sério?

- Mas não fui eu quem os trouxe de volta. Você não sabe?

- Sabe do que?

- A minha má sorte não tem nada a ver com isso. Os lobisomens voltaram porque os vampiros voltaram.

Tzuyu me encarou, seu corpo ficou imóvel com a surpresa.

- Lisa me disse que a sua família estar aqui fez as coisas se movimentarem. Eu pensei que você já sabia...

Os olhos dela se estreitaram.

- É isso que eles pensam?

- Tzuyu, olhe para os fatos. Há setenta anos atrás você veio pra cá e os lobisomens apareceram também. Você voltou agora e os lobisomens apareceram de novo. Você acha que é coincidência?

Ela piscou e o seu olhar relaxou.

- Somi ficará interessada nessa teoria.

- Teoria - eu zombei.

Ela ficou em silêncio por um momento, olhando pela janela para a chuva; eu imaginei que ela estava contemplando a idéia de que a presença dela e de sua família estava transformando os moradores locais em cachorros gigantes.

- Interessante, mas não exatamente relevante - ela murmurou de repente. - A situação continua a mesma.

Eu podia traduzir isso facilmente: nada de amigos lobisomens.

Eu sabia que tinha de ser paciente com Tzuyu. Não era que ela não estava sendo razoável, é só que ela não conseguia entender. Ela não fazia idéia do quanto eu devia a Kim Lalisa - minha vida muitas vezes acabada, e possivelmente a minha sanidade também. Eu não queria mais falar desses tempos estéreis, e Tzuyu especialmente também não. Ela estava apenas tentando me salvar quando foi embora, tentando salvar minha alma.

Eu não a responsabilizava por todas as coisas estúpidas que havia feito na ausência dela, ou pela dor que eu sofri. Ela se responsabilizava.

Então eu teria que colocar a minha explicação em palavras muito cuidadosamente. Eu me levantei e rodeei a mesa, ela abriu os braços e eu me sentei no colo dela, me aconchegando no seu abraço frio como pedra. Eu olhei para as mãos dela enquanto falava.

- Por favor, me ouça por um minuto. Isso é muito mais do que um gesto de caridade com um amigo antigo. Lisa está sofrendo. - Minha voz se contorceu na palavra. - Eu não posso não tentar ajudá-la, eu não posso desistir dela agora, quando ela precisa de mim. Só porque ela não é humana o tempo inteiro... Bem, ela estava lá por mim quando eu estava... - Eu hesitei. Os braços de Tzuyu estavam rígidos ao meu redor; as mãos dela estavam nos punhos agora, os tendões dela se destacam. - Se Lisa não tivesse me ajudado... Eu não tenho certeza do que você encontraria ao voltar pra casa. Eu tenho que tentar melhorar as coisas. Eu devo-lhe mais que isso, Tzuyu.

Eu olhei para o rosto dela cautelosamente. Os olhos dela estavam fechados e a mandíbula dela estava trincada.

- Eu nunca vou me perdoar por ter te deixado - ela murmurou - Nem se eu viver cem mil anos.

Eu coloquei a minha mão no seu rosto frio e esperei até que ela suspirou e abriu os olhos.

- Você só estava tentando fazer a coisa certa, e eu tenho certeza de que teria funcionado com alguém menos louco que eu. Além do mais, você está aqui agora. Essa é a parte que importa.

- Se eu não tivesse ido embora, você não estaria tendo que arriscar sua vida pra confortar um cachorro.

Eu vacilei. Eu estava acostumada a Lisa e os seus apelidos pejorativos - sugador de sangue, sanguessuga, parasita... De alguma forma, eles pareciam mais ofensivos na voz aveludada de Tzuyu.

- Eu não sei como frasear isso apropriadamente - Tzuyu disse, e o tom dela ficou vazio. - Vai soar cruel, eu acho. Mas eu já cheguei perto de te perder no passado. Eu sei como me sinto só de pensar nisso. Eu não vou tolerar nada perigoso.

- Você precisa confiar em mim nisso. Eu vou ficar bem.

O rosto dela demonstrou dor de novo.

- Por favor, Sana - ela sussurrou.

Eu olhei dentro dos seus olhos dourados, repentinamente flamejantes.

- Por favor o que?

- Por favor, por mim. Faça um esforço consciente pra se manter em segurança. Eu farei tudo o que puder, mas eu apreciaria um pouco de ajuda.

- Eu vou trabalhar nisso - eu murmurei.

- Você realmente tem alguma idéia do quanto é importante pra mim? Algum conceito do quanto eu te amo? - Ela me segurou com mais força contra o peito, colocando a minha cabeça embaixo do queixo dela.

Eu pressionei meus lábios no pescoço frio como neve dela.

- Eu sei o quanto eu amo você - eu respondi.

- Você está comparando uma pequena árvore a uma floresta inteira.

Eu revirei meus olhos, mas ela não podia ver.

- Impossível.

Ela beijou o topo da minha cabeça e suspirou.

- Nada de lobisomens.

- Eu não vou seguir isso. Eu tenho que ver Lisa.

- Então eu vou ter que te impedir.

Ela parecia extremamente confiante de que isso não seria um problema.

Eu tinha certeza de que ela estava certa. 

- Nós veremos isso - eu blefei do mesmo jeito. - Ela ainda é minha amiga.

Eu podia sentir o bilhete de Lisa no meu bolso, como se de repente ele pesasse dez quilos.

Eu podia ouvir as palavras na voz dela, e ela parecia concordar com Tzuyu - coisa que jamais aconteceria na realidade.

Isso não muda nada. Desculpe.

 


Notas Finais


Booooom gente, esse foi o cap, e man, esperem muita, mas MUITA treta, entre a Tzuyu e a Lisa, pq vai ter, e é beeeem frequente, se preparem skskkss

Aliás, eu fiquei bastante surpresa por ter 15 favoritos só com o prólogo, sério, não imaginei que ia ser isso tudo, mas obrigado ksks

Até o próximo cap da noite e One Kiss For Yours Personas <3


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