1. Spirit Fanfics >
  2. EDEN Genesis >
  3. Para Onde Vai Um Pássaro Que Não Pode Voar?

História EDEN Genesis - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Há muito escrevi este capítulo, é como um modelo de narrativa que me dediquei a desenvolver e infelizmente caiu no esquecimento há cerca de uns 7 meses, espero que gostem...

Capítulo 1 - Para Onde Vai Um Pássaro Que Não Pode Voar?


É uma pergunta que eu sempre fiz e refiz para mim mesma, afinal era assim que eu sempre me senti; um pássaro que mesmo se estivesse livre não poderia conhecer o azul do céu.

Já fazia dias que eu fitava o reflexo do céu nas ondas do mar, me perdia tanto que às vezes confundia um com o outro. Tão calmo e monótono comparado ao que eu estava acostumada até então, apenas realçava o fato de que eu sempre estive sozinha naquele mundo enorme.

A vista que eu tinha do meu quarto no alojamento limitava-se, além do mar e do céu é claro, aos outros navios de guerra que escoltavam o qual eu estava a bordo. Não eram muitos, nem me dei ao trabalho de reparar muito neles, mas pelo o que eu sabia, se fossemos atacados, certamente seríamos aniquilados pela frota germânica.

    Não me importaria se algo turbulento acontecesse, eu estava entediada há dias, tanto que mal saia do meu quarto. Aquele lugar bem escuro, só com uma janela e uma cama nada confortável era a minha suíte exclusiva naquele barco. Ninguém se atrevia a me incomodar ou simplesmente ver se eu estava bem, eu sabia o motivo. Se fosse só pelos meus cabelos brancos não seria nada demais mas, na verdade, eu era muito e bem diferente de qualquer garota naquele mundo…

    Só deixei meus pensamentos para voltar ao mundo real quando escutei um som ensurdecedor vindo do horizonte. Era como um grito ou um berrante, vinha de um dos navios de escolta e aquele som era como um sinal, haviam inimigos se aproximando. Passos para lá e pra cá, pessoas desesperadas correndo por aí e muita gritaria.

    Pensei que as coisas fossem finalmente ficar interessantes e decidi ver o que estava acontecendo. Deixei a janela que há muito tinha memorizado meu reflexo e coloquei meu quepe branco na minha cabeça para cobrir aquilo que me diferenciava tanto das outras pessoas, era mais como um velho hábito, já não me importava mais em ser diferente. Antes de sair para o corredor, vesti a última parte do meu uniforme, não era muito fã, mas até que aquele grande casaco militar também branco me fazia parecer mais intimidadora que de costume.

    Quando me deparei com a situação tive a confirmação de que não era muito diferente do que tinha esperado, por mais que estivéssemos sendo atacados, eles ainda me olhavam com aquele olhar… caminhei por aqueles corredores até a cabine de comando, tinha de saber exatamente o que estava acontecendo antes de realizar a minha próxima atitude rebelde.

    Para chegar lá tive que passar pelo deque e nele percebi que mesmo estando prontos para abrir fogo, nenhum canhão tinha sido disparado até então. Eu olhava para o horizonte, mas não conseguia ver muita coisa, incrivelmente só navios e navios.

    No momento em que coloquei os pés na cabine de comando percebi que todos ali estavam como eu, observando o horizonte e mais nada. Poucos instantes de eu ter chegado os tripulantes se deram conta de que eu estava lá, o capitão e alguns nem se importaram, mas outros ficaram me encarando por algum tempo e novamente com aquele olhar desconfiado.

    — O que está acontecendo? - perguntei para qualquer um que respondesse.

    — Como o esperado, a frota inimiga veio nos ver. - respondeu o velhote que curiosamente parecia estar mais baixo a cada vez que o via.

O velho estava acompanhado daquela tal de Tânia. Alias, velho não era a melhor forma de descrevê-lo, talvez meio-velho fosse mais adequado por ser quase mais máquina do que velho, até mesmo seu rosto era metade mecânico.

    — Estão recuando, Doutor, mesmo estando em maior número. - relatou Tânia que diferente de mim, estava com um daqueles itens que permitiam enxergar mais longe, eu precisava ter um desses.

    — Que chato… - murmurei ao saber que aquilo tudo tinha ficado um tédio de novo. Me apoiei no batente da porta de braços cruzados e esperava que alguma coisa ainda pudesse acontecer.

    O capitão mencionou que estávamos em águas pertencentes a Kalmar e que aquele poderia ser o motivo para não terem nos atacados, portanto ordenou que todos voltassem aos seus postos originais. Bom, eu não fazia parte dos subordinados dele, nem de ninguém.

    — Estou entediada, quero me divertir. - mesmo que fosse algo que uma criança diria, era honesta demais para disfarçar até mesmo no tom cínico e autoritário. Tanto que percebi que alguns que estavam ali tinham receio de me contrariar.

    — Lá vai você de novo, tenta ter autocontrole. - o Doutor negou como se fosse um sermão, era até que engraçado por eu nem levar a sério o que ele me falava.

    — Kalmar… ei você aí, o que tem de legal em Kalmar? - lembrei-me da  existência de um semi-morto que estava logo ali e fiz questão de perguntar-lhe. Patético, mesmo sendo um soldado de elite, estava precisando de equipamentos para respirar depois de uma única vez. Todos eram assim…

    — Não enche o saco dele. A batalha deixou ele exausto. - o velho sempre fazia questão de ficar me podando e eu sempre ignorava - Que garotinha mais trabalhosa…    

    — Os embaixadores poderão descansar pelo resto da viagem. Soube que alguns tiveram que ir para a enfermaria por não se sentirem bem nesses últimos dias, acredita? - perguntou Tânia ao Doutor.

    — Esses garotos estão acostumados demais com os luxos do gabinete do Partido Vermelho, nunca conheceram a face da própria guerra na qual estão lutando. É um choque e tanto para eles estarem nessa viagem de negociação.

    — A maior parte da frota germânica deve estar combatendo os Aliados do outro lado do estreito, devem estar com receio de usar sua marinha contra uma pequena frota como a nossa quando existem ameaças muito maiores.

    Ameaças muito maiores do outro lado do estreito? Eu sempre tive curiosidade sobre o que haveria do outro lado daquele lugar, criava esperanças de que seria diferente da minha terra natal, mas uma coisa estava ocupando um pouco meus pensamentos desde que zarpamos nessa missão.

    Escutei rumores entre os marinheiros de que do outro lado do estreito, navegando sozinho no meio do oceano, havia um grande navio de guerra que podia afundar qualquer navio que encontrasse pela frente e ele seria o motivo para a poderosa frota germânica não estar em peso do nosso lado. É uma história de marinheiros, então claro que deve ser só boatos, mas seria interessante… quando paro para pensar, não era tão diferente de mim um navio que sempre lutou e sempre estivesse sozinho no meio de um grande oceano.

    Realmente a ideia de haver algo assim consumiu a minha mente naquele momento, tanto ao ponto de só voltar a prestar atenção no que estavam dizendo ali quando o Doutor mencionou a palavra praia, se existia uma coisa que eu nunca poderia ver de onde eu vim era uma praia quente.

    — Tem areia nas praias em Kalmar? - perguntei como se acabasse de sair do modo automático e até um pouco empolgada.

    — Areia? - perguntou Tânia, eu já imaginava que não fossem entender  o motivo da pergunta.

    — Queria sentir um pouco do que chamam de verão.

    — Não tem nada assim por aqui. Não serve um jardim?

    Ela só podia estar de sacanagem comigo, um jardim não chegava nem perto do que eu imaginava ser uma praia com areia quente e um mar salgado bem azul e lindo. Respondi que queria nadar num tom bem ameaçador, já estava voltando a ficar no tédio.

    Nossa pequena e até divertida intriguinha acabou bem quando tinha começado, um marinheiro gritou “terra à vista!” e logo as coisas começaram a tomar um rumo diferente. Por mais que eu quisesse, Tânia não estava disposta a continuar com aquilo e disse que continuaríamos nossa conversa depois. Podia ter certeza de que não continuaríamos aquela em si.

    Decidi então dar uma olhada na tal terra à vista que tinham gritado, ainda na esperança de que houvesse alguma coisa que poderia ascender a chama da diversão em mim. No momento em que fui até a proa para ter uma visão melhor, senti o gélido vento passar entre meus longos fios de cabelo, já tinha sentido a semelhança com o gélido ar de casa, ver as praias cheias de rochas e cinzas só confirmaram o que Tânia tinha dito quando zarpamos, Kalmar não era muito diferente de onde estávamos saindo.

    — Ai, eu tô achando esse clima horrível… - disse a mim mesma escorando-me na grade que lá havia, o último resquício de animação e energia que eu tinha acabava de ser soprado para longe junto com o vento.

    Sem demorar muito, ancoramos no porto de Kalmar. No momento em que desci daquele navio me deparei com vários soldados armados. Está certo que haviam pessoas importantes ali como os embaixadores e afins, mas era óbvio que aquele canhão sobre rodas que estava ali não era para atirar em humanos.

    Evitei olhar para qualquer um que estivesse ali, mas sabia desde já que estavam me olhando com aquele olhar de receio e medo. A cor do meu cabelo era como o branco da morte e a fama que eu tinha feito no extremo leste do continente só melhorava a situação…

    Fomos num comboio de alguns veículos, os embaixadores foram nos bancos de trás dos carros, já nós, os militares, fomos num caminhão de transporte de tropas. Nunca tinha andado de carro, eram até elegantes e tinha certa vontade de estar num, mas não tinha tido a chance ainda.

    Eu pude ver que realmente aquela cidade não era muito diferente da terra natal. Às vezes eu pensava se a guerra era mesmo a responsável por tirar a vida  de um país, afinal tanto no rigoroso inverno de casa quanto aqui em Kalmar, as pessoas compartilhavam do mesmo olhar e do mesmo estilo de vida. Era evidente que estavam apenas esperando que a morte as arrebatasse dali eventualmente.

    Pensamentos e pensamentos, eu me perdia neles novamente. A Tânia e o velho deveriam estar discutindo algo muito sério sobre as negociações e o atual estado da guerra entre os militares que estavam ali conosco, mas eu simplesmente não me importava, nunca me importei, apenas era a arma…

    Depois de alguns minutos chegamos a um lugar um tanto distante da cidade no alto de uma colina repleta de árvores e outras coisas. Passamos por um enorme portão vigiado por militares que dava acesso a um enorme terreno rodeado por enormes cercas negras. Logo estávamos parando em frente a um enorme e gigante casarão.

    Assim como tinham feito no desembarque, alguns soldados estavam lá pelos mesmos motivos. Não era muito diferente em casa, já não me importava mais com aquilo lá, por que me importaria com isso aqui então? Era assim que as coisas eram, simples…

    Não faziam nem dez minutos que estávamos lá dentro e eu já não aguentava mais. O lugar era tão chato, cheio de esculturas e artes ridículas pelos corredores. Eles pareciam estar se importando até demais com toda aquela bobagem, mas eu estava só esperando minha oportunidade.

    Pouco a pouco fui ficando para trás, deixando o velho, a Tânia, o semi-morto e os militares irem adiante, fingindo interesse nas coisas que iam ficando para trás, até avistar uma sacada no segundo andar dentro do casarão mesmo.

    Eles estavam bem distantes e se eu fosse rápida nem iriam perceber. Peguei impulso e corri pela parede para poder saltar e me agarrar na cerca que tinha na sacada para dar uma cambalhota e cair exatamente equilibrada sob a cerca. Sempre que eu fazia algo assim me abria um sorriso no rosto, era perfeito.

    Eu andei, andei e andei pelo segundo andar, mas assim como o primeiro, não tinha nada de interessante. As coisas só foram ficar interessantes quando escutei algumas vozes no andar de baixo, me aproximei furtivamente da escadaria que lá tinha e escutei um pouco. Estavam conversando algo sobre um carro e que voltariam depois para buscá-lo.

    Uns segundos depois ficou um silêncio e decidi ver o que era. Quando desci vi que era uma pequena garagem que dava acesso ao lado de fora, mas o que realmente me chamou a atenção era o carrão preto e conversível que estava bem ali. Era incrivelmente belo e a primeira coisa que fiz foi dar uma boa olhada nele.

    O que ele estava fazendo ali e sozinho? Eu não fazia ideia, então decidi saltar no banco do motorista para sentir como seria dirigir aquela coisa. Girei o volante de um lado para o outro e até fiz alguns sons para me sentir pilotando aquilo, mas não era muito divertido.

    Percebi que a chave do carro estava no contato e nem me perguntei o motivo, apenas ajustei o espelho para me ver e tive a certeza, o sorriso malicioso em meu rosto já me dizia tudo. Girei a chave e liguei o motor que num estrondo só até chegou a me assustar um pouco.

    — Esse é potente. Vamos ver o que pode fazer! - disse a mim mesma antes de queimar os pneus do carro numa feroz arrancada.

    O conversível era muito rápido e quase o tirei da estrada no primeiro momento, derrapei ao frear o mais rápido possível para que minha diversão não acabasse ali mesmo.

    — Deixa eu ver, deixa eu ver… - eu não estava tão familiarizada assim com carros nem nada do tipo, apenas tinha noção de como funcionavam.

    Senti uma energia estranha, mas engraçada, enquanto tentava entender algumas coisas daquele carro. Quando olhei para uma das janelas do casarão vi que era Tânia quase quebrando o vidro e estava extremamente chocada com o que eu estava fazendo.

    Senti aquele sorriso malicioso tomando meu rosto de novo, acenei para ela com meu quepe branco em mãos e acelerei o máximo que pude para não perder o clima. Ela não podia fazer nada e com certeza me daria uma bronca depois, mas era só ignorar como sempre fazia.

    Mortos e sem vida, aquele povo também era lerdo até demais. Passei pelo portão vigiado por guardas como um relâmpago, mal puderam ver o que tinha acontecido. Eu estava me divertindo com aquela adrenalina, iria para qualquer lugar, mas sem desacelerar.

    Um olhar espantado e surpreso tomou todos aqueles que estavam naquelas ruas. Mesmo não sabendo dirigir muito bem, era difícil não ficar convencida quando eu claramente era muito melhor do que aqueles civis no volante. Podia escutar alguns gritos e xingamentos ao longe principalmente quando quase causava um acidente, mas finalmente estava me divertindo um pouco ali.

    Quando me dei conta já estava bem longe da cidade ou daquele porto. Não haviam mais prédios ou casas, a estrada nem sequer era de asfalto, era como uma trilha cercada por árvores e mais árvores, era uma floresta considerável.

    Me perguntava até onde poderia ir antes que viessem atrás de mim, foi justamente quando escutei um estouro na parte da frente do carro. Fumaça começou a sair pelas lacunas do capô e ele foi parando aos poucos. Parei  o veículo logo ao lado de uma mureta de pedras, saltei para fora e abri o capô para ver o que tinha acontecido. Na hora que o fiz, uma coluna de fumaça subiu rapidamente e na hora eu soube, o motor realmente não iria voltar a funcionar como num passe de mágica.

    — Que droga! Agora entendi porque eles tinham te deixado lá! - gritei com o carro dando-lhe um chute, era muito frustrante que acabasse assim.

    O vento soprou num ar gélido e húmido me acalmando um pouco, pois de onde veio aquela brisa certamente era um lugar em que poderia finalmente descansar um pouco. Não era uma quente praia como as que eu sonhava, mas tinha que servir.

    — Ah ah, achei.

 

    É uma pergunta que eu sempre fiz e refiz para mim mesmo, afinal era assim que eu sempre me senti; um pássaro que mesmo se estivesse livre não poderia conhecer o azul do céu.

    Desde o final da campanha no sul eu me sinto morto, como se houvesse um grande vazio em minha alma. Não conseguia tirar meus olhos do horizonte daquele gélido e traiçoeiro oceano do qual tinha acabado de sair depois de tanto tempo, era apenas uma trégua para o inferno recomeçar… voltar para a guerra.

    Sentia o vento gelado adentrar a janela do meu quarto nos alojamentos, já havia tempo que não sentia cheiro algum além do mar e não sabia se eram as nuvens ou o clima, mas tudo estava tão acinzentado que era impossível esquecer por um segundo que estávamos em guerra.

    Queria tanto que algo diferente acontecesse… que algo ou alguém me mostrasse que o mundo não era só aquilo… que aqueles tempos de luz e esperança não fossem só sonhos… mas desde que me tornei quem sou, isso tudo parecia só falsas esperanças que seriam destruídas com o apogeu da realidade.

    Eu certamente continuaria perdido em meus pensamentos, apoiado naquela janela, sem sequer me lembrar do porquê de eu estar ali, mas algo me deixava ansioso naquele dia. Talvez finalmente dariamos o primeiro passo para o final desta maldita guerra.

    Talvez por sempre estar uniformizado ou estar distante daquele que já fui um dia, não me importava mais com as aparências, apenas o básico, estar decente e apresentável como um militar. Fazia questão apenas de uma coisa, ela estava apoiada próximo ao batente da porta.

    — Um presente, não é? - perguntei a mim mesmo antes de pendurar aquela espada em meu cinto, por mais que me trouxesse algumas lembranças, não conseguia me livrar dela.

    Ao sair do quarto estranhei um pouco, já não havia mais ninguém nos corredores. Tinha certeza de que não havia dormido até tarde, talvez todos estivessem explorando a cidade. Gostaria de ter algo para procurar por lá.

    Caminhei calmamente até o salão no primeiro andar. Por mais que fosse apenas um prédio para alocar os militares durante a visita, era bem receptivo, talvez por estarem neutros nisso tudo.

    Me perguntava várias coisas enquanto andava, fitava com qualquer coisa que houvesse para olhar naqueles corredores, qualquer decoração que fosse. De certa forma, eu estava tão entediado que nem percebi que no final daquele corredor havia alguém me esperando.

    — Está atrasado. Espero que tenha dormido bem pelo menos. - disse uma moça trajando um uniforme militar assim como eu.

    Eu não era mais de conversar com muitas pessoas, mas abria uma exceção para ela porque nos conhecemos desde antes da Guerra Mundial começar. Ainda era garoto quando a vi pela primeira vez, ela não tinha mudado nada… só cortou um pouco seus cachos, mas ainda continuava baixinha e com cara de criança.

    — Não precisava me esperar, Gabryella. Estava só pensando em algumas coisas antes de descer. - lhe disse com um leve sorriso no rosto.

    — Imagina! Você nem é tão desligado assim, se eu não tomasse conta de você, certamente não esqueceria até a cabeça. - irônica e brincalhona como sempre, eu admirava como ela conseguia ser assim no meio daquilo tudo.

    — É mesmo, não é? Talvez já a tenha perdido então. - comentei de maneira sarcástica antes de abrir a porta para o salão.

    Me surpreendi um pouco, alguns outros oficiais estavam lá também, além de mim, um dos capitães estavam lá. Não era muito próximo dos outros militares, mas os que estavam lá eu já compartilhava convivência a um bom tempo. Por um instante fitei um por um, alguns estavam almoçando, outros estavam jogando cartas ou apenas conversando.

    — Ainda bem que chegou. Aquele homem veio te ver. - um dos oficiais veio até mim e cochichou sinalizando para um homem que estava conversando com o capitão e outros oficiais.

    Com aquele terno e sapatos chiques era impossível confundí-lo com os militares. Ao aproximar-me do homem, ao ver quem era aquele olhar morto voltou ao meu rosto em instantes, não esperava vê-lo logo tão cedo.

    — O que te traz neste alojamento ao invés de esbanjar a carteira com as moças vendidas deste país? - perguntei ao tal homem.

    — Você mesmo quem eu queria ver! Ora, apenas vim agradecer em nome do Império por ter nos escoltado em segurança até aqui. Desde que saímos de casa não tivemos a oportunidade de conversar. - dizia ele com aquele sorriso falso que todo ser como ele tinha.

    — Felizmente nenhum dos navios afundados pelos germânicos foi o seu, não é mesmo? - olhei-o bem no fundo dos olhos com aquele sorriso sarcástico.

    — Certamente, meu amigo. Precisamos de pessoas para construírem um futuro depois que esta guerra acabar, principalmente um que inclua vocês nele e não os deixe de lado quando não forem mais necessários.

    — Não estou interessado em qualquer proposta que venha de vocês, são todas iguais, só querem poder e mais poder. O que seria de carniceiros como vocês sem essas guerras, não é mesmo?

    — Você…! - toquei-lhe a ferida como era de costume, desde que nos reencontramos há alguns meses, tinha certeza de que aquele já não era mais o amigo que eu conhecia, talvez o poder o tivesse corrompido ou era ele quem estava corrompendo o poder.

    Já não queria mais ficar por lá, teria que dar explicações das coisas que tinha dito para os outros oficiais e o clima iria ficar mais pesado se continuássemos discutindo aquilo. Honestamente, não tinha mais paciência para aquele tipo de coisa, então fui direto para a saída do alojamento onde tinham alguns veículos que foram cedidos para nos movimentarmos pela cidade.

    Desci rapidamente as escadas da saída do prédio e procurei pelo pátio algo que eu pudesse usar. Uma moto era rápida e ligeira o bastante para me distrair, peguei a primeira que vi. Estava quase saindo, tinha colocado o capacete e só faltava girar a chave e acelerar quando Gabryella desceu as escadas correndo até mim.

    — Espera! Onde você está indo? O que aconteceu ali entre vocês dois? Ainda nem comeu nada e…  - por mais que eu gostasse de tê-la por perto, em alguns momentos o fato dela achar que cuidava de mim me irritava um pouco.

    — Gabryella, não me leve a mal, mas não se intrometa na minha vida. - encarei-a nos olhos e disse seriamente antes de ligar a moto e sair de lá o mais rápido possível.

    Não queria explicar meus motivos e nem o que estava se passando na minha cabeça… o porquê de eu odiar homens como aquele ou qualquer assunto que levasse a aquilo era algo que eu não queria nem me lembrar.

    Estava dirigindo sem segurança alguma, infrigia várias regras de trânsito sem me importar, talvez eu fosse punido mais tarde por isso, mas nem me passava pela cabeça. Dirigi por um bom tempo até perceber que já não estava mais na cidade, estava numa trilha cercada por árvores que me faziam até lembrar um pouco de casa.

    Parei a moto logo atrás de um carro que estava com um monte de fumaça na região do motor. Desci e fui ver se tinha alguém precisando de ajuda, mas estranhei. O carro era um conversível de luxo preto e não havia ninguém por perto, o que estaria acontecendo ali?

    — Tem alguém aqui? - perguntei, mas não obtive resposta alguma.

    Inclinei-me sob o motor e comecei a me questionar sobre qual seria a causa, era um velho hábito de quando estava na campanha do sul, era até engraçado quando essas coisas aconteciam.

    Senti aquela brisa gélida e húmida novamente e voltei ao foco, para onde havia ido o motorista daquele carro? Quando olhei para onde vinha os ventos, percebi que tinham pegadas indo em direção a floresta. Estava curioso para saber onde elas iam dar e as segui.

    A cada passo que eu dava mais e mais neblina iam me envolvendo, mas era estranhamente calmo aquele lugar. Fiquei tão envolvido em observar aquela floresta que quase não percebi que tinha pisado em algo. Era um casaco preto, quando o peguei nas mãos vi que era um uniforme militar, mas não era nem um pouco parecido com os que eu já tinha visto.

    Voltei ao foco e continuei seguindo a trilha carregando aquele casaco, as coisas ainda não faziam sentido. Por que alguém deixaria aquele carro e esse casaco para trás?

    Como se não fosse estranho o bastante, logo vi uma calça preta no chão e um par de botas brancas. Percebi que a distância entre cada uma das peças estava diminuindo de uma para outra, logo eu encontraria mais uma e aquilo era bem intrigante, era muito incomum o que estava acontecendo.

    Continuei caminhando até chegar no topo de uma grande cachoeira, não fazia ideia de que podia existir um lugar como aquele por lá. A vista era incrível, mas o que realmente me chamou atenção eram as roupas que estavam nas pedras bem na beirada para a queda d’água.

    — É uma motorista afinal… - como se parte do mistério tivesse sido resolvido com aquelas roupas íntimas femininas, me abaixei próximo a elas e comecei a pensar - brancas, é… Espere… Não pode ser!

    Será que a motorista tinha feito alguma coisa estúpida? Deixei o casaco preto ali mesmo e corri para a beirada da rocha para ver se tinha alguém lá embaixo, mas não tinha ninguém. Não sabia o que pensar, a queda era grande demais e não sabia se era fundo o bastante para pular.

    — Mas que droga! - tirei meus sapatos e antes que pudesse pensar o bastante para não fazer nenhuma besteira também, saltei naquelas águas perigosas.

    Felizmente era fundo o bastante para saltar e assim que pude comecei a procurar pela mulher que teria pulado antes. Mesmo estando acostumado com a águas geladas como aquela, não conseguia enxergar quase nada debaixo d’água.

    Senti uma agitação e alguma coisa passando muito rápido perto de mim, não consegui enxergar muito bem, mas era rápido demais e só pensei o pior, era um tubarão! Nadei o mais rápido que pude para pôr minha cabeça fora d’água, a única coisa que poderia usar para me defender era minha espada, mas era inútil ali.

Fui o mais rápido que podia para a praia, só no momento em que senti meus pés tocarem o chão que me senti seguro o bastante para olhar para trás e me surpreendi mais ainda. O tubarão estava nadando ferozmente até mim, não sabia se conseguiria desembainhar minha espada a tempo, mas o que eu vi quando o tal tubarão se aproximou me deixou sem palavras.

Ao invés de um feroz tubarão quem saltou daquele mar bem na minha frente foi uma garota, mas não era uma garota como as que eu já tinha visto antes. Eu fiquei paralisado, parecia que tinha lançado um feitiço em mim. Aqueles dois chifres vermelhos e um cabelo branco como a neve eram tão atraentes. A visão de seu esbelto corpo nu me deixou hipnotizado, ao ver seus belos olhos cianos lembrei-me da paz que há muito eu já tinha me esquecido...


Notas Finais


É um fragmento de uma história bem mais séria a qual eu pretendia contar em um livro original, mesmo que este capítulo não seja lá tão autentico quanto eu gostaria, foi mais como um teste para servir de base. Talvez eu discorra aqui neste site mais sobre este projeto, mas estou aberto a críticas e a sugestões, pois este projeto envolveria não só guerras ou política, mas também religião.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...