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História Efeito Borboleta - Capítulo 1


Escrita por: e slythrones


Notas do Autor


yahoo~
trouxe uma bokuaka fresquinha pra vocês
bokuaka que não teria saído se não fosse pela @Nemeesis que me ajudou mais do que deveria, criou até uma playlist para a fic que está nas notas finais, recomendo que ouça enquanto leia. a @Dundragon que betou esse monstro que eu escrevi de mais de 3000 palavras, fez um ótimo trabalho por sinal. e @Eternatus que editou essa beldade, uma das capas mais lindas que eu já vi. obrigada a todos vocês

agora sim, boa leitura.

Capítulo 1 - A Teoria do Caos


A vida é estranha. Adiantaria alguma coisa se te dissesse que ninguém no mundo pode amar tanto alguém como eu te amo? Acredito que seja tarde demais para isso. De todos os bateres de asas, aquele específico bater da maldita borboleta, seguiu o curso mais doloroso que você e eu poderíamos sentir.

Olhei pela quarta vez a câmera de vídeo depositada na estante branca e suspirei pesadamente. A única lembrança, dentre outras tantas, iria me saciar ou aperrear mais ainda minha vontade de te ver?

Desde o dia 10 de Novembro de 2018 eu me nego fervorosamente em pegar o objeto, mesmo sabendo que ela poderia ser a minha única fonte de êxito.

Muitos anos se passaram, muitos arrependimentos e sentimentos deixados para trás. Não é hora para deixar o orgulho submeter-se. Ou era? Argh! Como eu cheguei nesse estado? A resposta era óbvia.

Cansado de pensar incontrolavelmente, levantei-me, arrastando minha magreza até a estante. Estendi minhas mãos, sem querer raciocinar sobre a ação que eu sempre adiei e agarrei a câmera com tudo. Sentia falta. Verifiquei se ainda havia o cartão de memória dentro do objeto e voltei a me sentar na cadeira. Apertei o botão de ligar e… A saudade dói.

 

20 de Setembro de 2017

— Olha, Akaashi. Funciona!

— Bokuto-san, eu não compraria um presente quebrado para você.

— Então compraria para outra pessoa?

Soltei um riso baixo pela pergunta. Me lembrava desse dia. Era meu aniversário de 16 anos e fui presenteado por Akaashi com uma câmera para registrar tudo o que eu quisesse.

— Pare de me filmar. — Keiji levantou sua mão até a lente da câmera.

— Mas você fica lindo nas filmagens.

— B-Bokuto-san!

Koutarou, um garoto arteiro como de costume, virou a câmera para si mesmo e sussurrou um pequeno “hehe”.

 

01 de Janeiro de 2018

— Galera, terminamos o jantar. Akaashi realmente cozinha muito bem, olhem! — Filmou a mesa cheia de um gostoso banquete.

— Por que você está filmando?

— Preciso registrar esse momento, Agaashe.

— Precisa me filmar? Isso é direito de imagem, eu posso te processar.

— Shhh, conta aqui pra gente o que estamos fazendo.

Akaashi suspirou, rendido pela obsessividade de Bokuto em filmar tudo.

— Hoje é ano novo. Nossos pais nos deixaram passar a noite sozinhos, só pro Bokuto beber escondido da família dele.

— Ei, não conta isso.

— Você que pediu pra eu contar. Bokuto-san é horrível na cozinha e sujou tudo, sobrou pra eu limpar.

Bokuto do passado tinha razão, a comida de Keiji era realmente muito gostosa.

— Agaashe, o que você está fazendo? — Indagou um Koutarou bêbado, largado no sofá.

— Estou fazendo o que você pediu. — Deu zoom com a câmera bem no rosto do acinzentado. — Contando tudo dessa noite. Continua a sua história, Bokuto-san.

— Sabe, Agaashe? Nós dois somos os protagonistas do mundo.

— Ah, é? Por quê?

— Quando eu estou com você, eu sinto como se os outros fossem só os figurantes da nossa história. Nada mais importa, Kaashi.

Ah, como poderia esquecer a expressão desgostosa do moreno sobre si. O garoto até mesmo parou de filmar, encerrando ali o vlog de ano novo.

 

05 de Fevereiro de 2018

— “...Se não houver recompensa após a vida, então o mundo é apenas uma brincadeira cruel.” — Citou Akaashi. — Bokuto-san? Está me ouvindo?

— Oi? O quê? Sim, estou. É claro que estou.

Na época, eu não entendia a magia que os olhos dele tinham. Simplesmente adorava me perder em suas profundezas e me desfocar de toda a realidade.

— Qual livro estou lendo, então?

— Qual livro? — Até tentou espiar a capa da obra, mas Keiji foi mais rápido em escondê-lo atrás de si.

— Está com a cabeça nas nuvens. Tudo bem?

— É claro que sim, Kaashi. É que prestei tanta atenção em você comentando sobre o livro, que acabei entrando em outra realidade.

 

13 de Abril de 2018

— Estão vendo? — Aproximou o zoom em Akaashi. — Ele brinca tão bonitinho com as crianças.

— Kou, venha! Elas querem você também. — Gritou Keiji.

— Estou indo! A situação é, — enquanto Bokuto andava, acrescentava: — eu e Keiji sempre viemos aqui no orfanato da cidade para doarmos brinquedos, roupas e para divertir as crianças. Elas amam ele, me amam também, mas o jeito que ele interage é tão…

— Olhem! — Disse uma garotinha se aproximando, colocando um desenho na frente da lente da câmera.

— Oh! É muito bonito. — Respondeu Bokuto. A garotinha se virou para Akaashi, mostrando um enorme sorriso enquanto levantava o papel.

— É o tio Bokuto e Akaashi, e a menina no meio sou eu, a gente 'tá se abraçando. — Era possível ver uma leve expressão de desgosto no rosto de Akaashi, mas rapidamente se suavizou, mostrando um sorriso terno.

— Está muito bonito seu desenho, mas por que estamos nos abraçando?

— Vocês são tão bonitos juntos, eu pensei em vocês como meus papais.

— Eu e Bokuto-san somos apenas amigos, não vamos ter um relacionamento.

Não podia parecer, mas por trás da lente da câmera tinha um Bokuto com os olhos úmidos.

 

11 de Maio de 2018

— Não dá para descrever, simplesmente me sinto nas alturas quando vejo ele chegando. — Esparramado no colchão, Koutarou tentava descrever seus sentimentos. — Será que é normal? Ele é meu melhor amigo, eu deveria pensar nele quando eu estou indo dormir? Ah, e quando eu acordo para ir a escola?

Após um longo suspiro refletivo, Bokuto se levantou em um pulo e se posicionou de frente para o espelho.

— Não me perguntem o porquê disso, mas esse garoto faz eu ter vontade de dançar na frente do espelho e é isso que farei.

Ao som de “Shower”, eu paguei um dos micos mais vergonhosos que eu poderia passar. Akaashi com certeza teria me largado se visse esse vídeo.

Então é assim que adolescentes apaixonados se comportam? Fazendo moonwalker na frente do espelho?

 

12 de Junho de 2018

— Akaashi, está com vergonha de mim?

— Não estou com vergonha de você, mas nós dois andando juntos na rua justo no dia dos namorados, é constrangedor.

Foi inevitável não ver Bokuto murchar seu sorriso, mas logo tratou de deixar isso pra lá, antes que Akaashi desconfiasse de algo.

— Já imaginou, todos que estão passando achando que somos um lindo casal? — Não resistiu em brincar com a cara do moreno.

— Bokuto-san! Não fale isso, nunca seríamos um casal. — Keiji respondeu com um tom desesperado, como se estivesse com medo de que alguém ouvisse as ladainhas do maior.

— Sim, nunca…

Amar dói, dói bastante. Descobri isso de maneiras dolorosas, sendo sempre alvo das frases cruéis dele.

— Kaashi, o que você acha do amor? — Koutarou levou a câmera, filmando o moreno comendo um pedaço da torta de maçã. Com muito incentivo de Bokuto, Akaashi concordou em fazerem um piquenique no parque.

— É um sentimento complexo, as pessoas tratam como se fosse algo simples.

— Complexo de qual maneira?

— Porque até mesmo um sentimento bom é capaz de nos ferir.

— Você entende bastante desse assunto. — Moveu um pedaço da torta até boca.

— Eu não leio apenas mistérios, eu sou um leitor nato de romances.

 

12 de Julho de 2018

Um toque na porta.

— Keiji chegou. Pode entrar!

— Olá, Bokut- — No mesmo momento que o menor havia aberto a porta, o garoto bruscamente parou, começando uma leve analisada pelo quarto do amigo.

— Akaashi? — Franziu o cenho.

— Por quê?

— Por que o quê?

— Por que você é tão desorganizado?

— Como assim?

— Olha isso! Olha essas meias espalhadas pelo chão, tem até cueca sua jogada em cima da cadeira. Bokuto, você tem 16 anos!

Suspirei assistindo esse vídeo específico. Nunca gostei dele, mas por algum motivo, não o apagava da câmera. Sempre ouvia de minha mãe: “Ser inteligente é usar o silêncio para não entrar em brigas desnecessárias.”, mas o sentimento de brigar com quem mais queremos do nosso lado, é detestável.

— Você veio até aqui para brigar comigo?

— E-eu não estou brigando, estou tentando fazer você entender o quão nojento é ser desorganizado a esse nível.

— Akaashi… — Cansado dessa discussão ridícula, Koutarou apoiou a câmera em cima da cama e passou as mãos pelo rosto, tentando manter a calma e raciocinar.

— Arruma esse quarto e quando estiver tudo limpo, eu volto.

— Mas Akaashi-

— Bokuto, só...seja outra pessoa.

— Como é?

— Desculpa, e-eu não quis dizer isso.

— Sim, você quis. Tudo isso por causa de uma bagunça que nem é sua, e sim minha.

— Me desculpe pelo o que eu disse agora.

— E o resto?

— Arruma o quarto, por favor.

— Akaashi, não imaginei que você poderia ser tão infantil a esse ponto.

— O que disse? Eu não estou sendo infantil, você sabe como eu tenho mania de organização e mesmo assim você continua sendo desorganizado.

— Isso é problema seu, não meu. Agora saia.

 

08 de Setembro de 2018

— Tenho quase certeza que não deveríamos estar aqui.

— Você se preocupa demais com as coisas. — Retrucou, ajudando Akaashi a pular a janela do quarto, segurando suas duas mãos.

— Isso se chama ética, Bokuto-san.

— Não está mais aqui quem falou, senhor certinho. Olha lá. — Apontou o dedo indicador até o céu noturno.

Assim como os seus olhos, Akaashi, o céu carrega constelações de estrelas misteriosas. Eu consigo enxergá-las tanto quando estou bem próximo de ti, como também em cima do meu telhado. Você julga como antiético, mas tenho certeza que ficou tão encantado como eu fiquei vendo-te maravilhado ao luar.

— Nunca imaginei ver a constelação de Pégaso tão de perto. Incrível.

— Hm? O que foi que disse?

— Incrível, Bokuto-san. Obrigado por confiar em mim para trazer no seu esconderijo secreto.

— Não precisa agradecer, Kaashi.

 

20 de Outubro de 2018

— Boa noite, aqui quem fala é Akaashi Keiji e o babão do meu lado é Bokuto Koutarou. Aqui na frente, — Vira a câmera — é o filme que Bokuto insistiu para assistir comigo e aqui está o nosso Kou totalmente entregue à televisão

Ok, em minha defesa, eu queria muito assistir algum romance com ele, mas eu não sabia, até ali, que eu poderia achar filmes de romances um tanto tediosos.

— Bokuto-san, se você estiver vendo isso, quero que saiba que você baba dormindo e meu ombro não gostou de descobrir isso. Na próxima, assistiremos terror, como eu sugeri.

 

10 de Novembro de 2018

Contei até 10, respirando fundo, já sabendo o que viria a seguir.

A angústia é tanta que até para respirar fica insuportável, acalmar o coração parece impossível. Nunca vai passar, mesmo assistindo todos esses vídeos, na tentativa de deixar fluir, seguir a vida, superar, eu sabia que não seria tão simples assim. Teria que passar por diversas crises ainda. Muitas doses de remédios.

— O que você está fazendo, Bokuto-san?

— Colocando a câmera dentro da capa à prova d'água. Prontinho.

— Por que isso?

— Akaashi, hoje nós tomaremos banho de chuva. — Comentou, com um grande sorriso.

— E que tal você fazer isso sozinho? Eu posso ficar dentro de casa te filmando enquanto isso.

— Pedido negado. O senhor irá comigo nessa aventura. Por favor, Agaashe, garanto que você vai gostar. — Bokuto implorou com as mãos juntas.

— Eu não acho uma boa ideia, Bokuto-san. E se seus pais chegarem? Vamos levar uma baita bronca por isso.

— Ei, confia em mim. Eles vão chegar só no final da tarde.

— E não está com medo de molhar? — Apontou o dedo indicador em direção a máquina fotográfica.

— A Jureba é forte, não vai molhar não. Tirando que está com a capa aprova d'água, estou confiante que dará tudo certo e vamos nos divertir muito.

— Jureba? Você deu nome pra câmera? — Sem se aguentar, Akaashi gargalhou. Bokuto sempre o surpreendia.

— Ela é da família e é muito especial, precisa de um nome. Agora vai, coloca uma roupa velha que eu estou te esperando lá fora.

Sempre gostei de um bom banho de chuva, acredito que isso purifica a alma, mas hoje em dia, o banho de chuva serve para carregar toda a minha tristeza e dor.

— Bokuto-san, está gelado! — Akaashi choramingou quando correu até o lado de fora da casa.

— É claro que está. Agora, abra os braços e olhe para cima.

Seu riso sempre foi uma prece.

— Agora você concorda comigo, a vida é melhor com banho de chuva, né?

— Sei não, você precisa me convencer mais, ainda.

Koutarou se sentiu desafiado, pegou nas mãos de Keiji e começaram a girar embaixo da chuva. Estavam rindo como se aquilo fosse o último momento. Pareciam duas crianças.

Tinha noção que se seus pais chegassem agora, receberia uma tremenda bronca e ameaças do tipo: "Se você ficar doente, ficará sem vôlei por um mês.", mas Bokuto não se preocupava em ficar doente, não existe doença pior que a angústia da alma.

No momento, não dava para pensar nisso. Não quando rodopiava com seu primeiro amor.

Sempre lhe quis dizer como no seu sorriso havia uma luz que fascina quem o vê e dá vida ao meu coração.

Os dois garotos deitaram lado a lado no chão. Se olharam, ainda sorrindo. O tempo parou e por um momento, Bokuto deixou de sorrir. Queria que aquilo durasse pra vida inteira.

Até que tudo decaiu.

O maior se levantou, sendo seguido por Akaashi.

Keiji gostou de sentir a adrenalina de fazer algo fora da rotina normal dele. Olhou para o céu, os pingos da chuva escorrendo por sua face era realmente uma sensação única. Bokuto tinha razão. Levou os olhos para frente novamente na intenção de encontrar o amigo e percebeu que o mesmo estava próximo demais de si. Achando ser uma brincadeira, Akaashi não se assustou quando Koutarou passou as mãos por sua cintura.

Aconteceu tudo muito rápido, mas quando compreendeu a situação, sentiu os lábios macios de Bokuto sobre os seus.

Eu queria ser o seu primeiro beijo, mas acabei sendo o seu último.

— O que você está fazendo?! — Akaashi o empurrou com toda força, fazendo o garoto cair para trás. — Bokuto, não podemos fazer isso. Eu não posso retribuir. Me desculpa.

Sem pensar duas vezes, Akaashi correu para dentro da casa e após alguns minutos, saiu de lá com sua mochila e roupas na mão.

— Akaashi! Espere, não vá nessa chuva. Me perdoe.

Keiji nada respondeu, apenas sumiu de sua vista.

A visão do garoto correndo pelas ruas, nessa tempestade, foi de deslumbrante para comoção.

— Bokuto, como se sente?

— Sinceramente? Eu nunca imaginei que poderia suportar tanta angústia e tristeza. Sabe quando você fica triste relembrando algo bom? Me sinto assim. Tristeza, saudade, agonia, nostalgia, é o que estou sentindo agora. Mas eu nunca sinto alegria quando eu lembro das memórias felizes com ele.

— Por que você não consegue ficar feliz? — A psicóloga perguntou. Observei a caneta preta deslizando nas anotações que fazia em sua caderneta a cada vez que eu falava.

— Porque me lembro que ele não está mais aqui. A culpa pesa.

— Por que você sente essa culpa?

— Se eu não tivesse feito nada daquilo, ele ainda estaria aqui. Vivo.

— Bokuto, você fez algo que nunca imaginou as consequências. Você está se culpando por algo impulsivo, feito em um momento de pura adrenalina, feito por amor e carinho. Por que se culpar por algo que você não teve controle?

— Se o amor é apenas uma palavra, então por que dói tanto quando você percebe que não pode encontrá-lo em lugar nenhum?

— Sabe, Bokuto, as pessoas idealizam muito o sentimento de alegria, sempre tendo ela como ambição de vida. Mas para sermos felizes, precisamos sentir todas as emoções, para darmos valor ao sentimento da felicidade. Não estou falando para você ver um lado bom nessa angústia, mas estou falando para amadurecer com isso.

Era muita coisa para absorver, isso fez com que eu não dissesse nada, além de olhar para a mulher loira. Ela me analisava, quieta.

— O que você pretende fazer com a câmera?

— Destruí-la. Acho que assim posso me livrar desses sentimentos.

— Você quer dizer fugir?

— Eu não estou fugindo.

— Bokuto Koutarou, você quer se livrar de todas as memórias que acabou de recordar. Você sempre me relatou que essa câmera tem somente lembranças felizes com Akaashi e agora você quer apagá-las, achando que vai conseguir se livrar desses sentimentos destruindo-as?

— Mas como eu faço essas lembranças não serem tão tristes?

— Aprenda a lidar com elas. O que o seu coração pede pra fazer?

— Meu coração pede para visitá-lo.

— Visitá-lo? — Perguntou com seus olhos levemente arregalados.

— Não! Não nesse sentido.

— Pois bem, faça o que achar melhor.

O clima não estava muito bom, mas não queria adiar esse encontro. As nuvens, cada vez mais cinzas, instalavam-se no céu, cobrindo a cidade. 

Subi as escadas até chegar em um portão de ferro e foi inevitável não sentir o ar pesado. Talvez por ser um local onde muitas histórias foram dadas como concluídas.

A trilha foi seguida ao lado de diversos túmulos e lápides, cada um com um nome, anos e frases. Não queria dar tanta atenção a essas coisas, então segui com pressa até meu destino.

Nunca gostei de ir nesses locais, minha mente pesa, igual meu corpo. Ainda não me acostumei com a morte, mesmo sabendo que sempre poderia ser o próximo.

Seguindo o caminho não tão conhecido, avistei o nome de quem procuro. Parei frente à lápide, respirei fundo, despachando todos os pensamentos que poderiam estar presentes agora e me agachei sobre as pernas.

Primeiro, troquei as flores. Haviam flores murchas, troquei-as pelas suas favoritas: flores de ameixa.

— Quando recebi a notícia que você estava morto, senti meu mundo desabar sob meus pés. Você falou para mim que eu era sua estrela, mas eu tinha me apagado naquele dia. — Contei com a voz fraca, tendo certeza que ninguém ouviria, além dele. — Naquele dia, liguei a televisão para tirar o clima angustiante daquela casa. Péssima escolha, eu diria. Estava passando um documentário de quando tinham encontrado seu corpo. 'Kaashi, eu senti um aperto tão forte, uma dor tão grande que eu não sei como colocar em palavras. Eu só queria gritar e desejava com todas as minhas forças que fosse uma pegadinha da minha cabeça depressiva. Meu mundo tinha acabado, eu ‘tava em um vazio dentro de mim. Meu brilho tinha se apagado Keiji. — Suspirei, relembrando desse dia. Segurando as lágrimas, continuei. — Sei que nunca superarei sua perda e que todas as manhãs vou acordar com a esperança que a sua partida tenha sido apenas um pesadelo. Você foi meu primeiro amor, meu grande companheiro de tantas jornadas, de tantas alegrias e emoções. Gostaria de poder voltar àquele dia, ponderar mais a situação e meus sentimentos. Sim, eu era um adolescente inconveniente que não pensava antes de agir, isso me custou caro.

“A cada ação, tem uma consequência e tudo muda, isso é o efeito borboleta, pensar antes de fazer algo. E se eu tivesse pegado aquele ônibus? Teria chegado no horário certo? Teria tirado uma boa nota? Se eu não tivesse te beijado tudo estaria bem? E se tivesse segurado seu braço? Mesmo que a doutora diga que não foi minha culpa, eu não consigo acreditar nisso. Fiz aquilo sem pensar e por causa dessa ação, eu te perdi.”

 Solucei, limpando com as mãos as lágrimas que insistiam em cair. 

— Ele foi preso, Keiji. Prisão perpétua. Você conseguiu sua justiça e espero muito que esteja em paz, finalmente. Espero que esteja em um lugar mais feliz e mais bonito. E quero pedir desculpas, mesmo sabendo que nenhum arrependimento trará você de volta, quero me desculpar por ter estragado a sua vida dessa forma. Me doeu demais saber que a razão do seu sumiço não foi por eu ter te beijado, e sim porque um desgraçado que te sequestrou quando você correu de mim.

Respirei fundo, com os lábios trêmulos, encarando bem a lápide com os olhos encharcados. A frase ali era: “viverá para sempre em nossos corações”. Logo pensei que Akaashi gostaria de uma frase do tipo: “Agora eu sei algo que você não sabe”. Sorri com o pensamento, percebendo que a essência maravilhosa de meu amigo ainda estava intacta. Contudo, não podia mais viver assim, teria que deixá-lo ir se quisesse seguir com minha vida.

— Kaashi, você sempre disse que eu era sua estrela, mas agora você é a minha. Tchau, Keiji. — Murmurei, olhando em seguida para o céu. Um pingo de gota d'água caiu em seu rosto, logo seguido de outro e mais um.

A chuva não era mais tão boa como aparentava ser.

Olhei uma última vez para a lápide, observei tudo antes de fechar os olhos e caminhar para longe dali. Na chuva, enchendo meus pés de lama, a roupa ficando encharcada. Agora, já não é parte das minhas lembranças, mas simplesmente uma lembrança.

Talvez seja um efeito borboleta. Talvez tenhamos que ser infelizes. Portanto, pare, pense e escolha fazer o que acha certo.


Notas Finais


link da playlist: https://open.spotify.com/playlist/4mxWWrDCb6k0SjqT4UiWVl?si=lmchQd3PQ8icE4SScVzdtQ

devo dizer que eu chorei duas vezes escrevendo? não me surpreende, essa fanfic foi inspirada em life is strange
eu tentei fazer um suspense, não sei se deu certo, o que acharam?
espero que tenham gostado e até a próxima


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