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História Ele. - Capítulo 19


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Capítulo 19 - Parte dezenove.


Retiro cuidadosamente os curativos do rosto contorcido de dor de Vincent. Ele cerra os dentes e fecha fortemente os olhos enquanto eu tiro a gaze do sangue seco em seus machucados. “Desculpe! Desculpe!” Imploro de dentro de minha cabeça, mesmo que por fora eu não exiba nenhum sinal de emoção. Estou me sentindo culpado pelo dia da sopa; “mas foi sua culpa mesmo, seu retardado!” As vozes gritam.

“Está doendo!” Ele geme de dor, então eu paro por alguns segundos e o encaro. “Desculpe…” ele sussurra quando percebe que parei, mas depois dá pequenos pulos de susto quando ouve os trovões que uma noite de chuva sempre traz. O pior de tudo é pensar que ele está se sentindo culpado. Ontem eu não consegui ficar excitado com ele, então o clima tem estado pesado desde de manhã. “Mas você sabe que ele está se sentindo um imprestável por isso, certo?” As vozes perguntam e eu concordo mentalmente.

Gostaria de abraçá-lo e falar que vai ficar tudo bem, mas não é bem assim… “Meu Deus! Você sequestrou ele e é você quem está com síndrome de estolcomo? Esse garoto vai acabar te matando, ouça o que digo!” As vozes continuam gritando dentro da minha mente. Além disso, ele está agindo mais estranho do que o normal; fazendo coisas que casais fazem, como hoje pela manhã, quando ele estava cozinhando o café da manhã apenas de avental.

Também agiu assim na hora do almoço, quando ele insistiu em me dar comida na boca. Ou até mesmo agora pouco, quando ele fez o maior escândalo no banheiro por que “tinha algo não humano crescendo dentro de seus ferimentos” e me fez tirar todos os curativos. O que quero dizer é que parece que ele quer que sejamos um casal ou algo parecido, mas isto nunca vai acontecer, por que ele é idêntico à minha mãe e também é uma criança, pelo amor de Deus!

Enfim, este foi o último curativo. Dou uma boa olhada nas queimaduras, apalpando-as sem fazer com que Vincent sinta dor, mas aparentemente não há nada, apenas um pouco do plasma que faz as partes avermelhadas, que estão queimadas, se tornarem um pouco nojentas. Limpo-as com uma tolha úmida, depois as seco; passo uma pomada para assaduras e as cubro novamente com os curativos. “Está tudo bem. Podemos tirar os curativos depois de alguns dias.” Digo e ele se alegra.

“Obriga…” ele está dizendo alegremente, até ser interrompido pelas batidas na porta. Faço um sinal com as mãos para que ele espere um pouco, me levanto da cama e ando até a entrada para atender a porta. Assim que abro a primeira frecha, vejo quem está lá. Tento fechá-la novamente, mas não consigo, pois, ele coloca o pé entre o batente e a porta em si. “Oi!” Ele diz com um sorriso no rosto enquanto entra forçadamente, molhado pela chuva. “Oi!” Sussurro.

É Cameron. É ele. É sua voz grossa que parece querer me xingar. É sua pele bronzeada e encharcada pelas águas pluviais. São seus cabelos negros que deixam gotas pingarem no chão e escondem seu olhar amedrontador. São suas mãos fortes que se fecham trêmulas. É sua boca que exibe o mais sádico dos sorrisos. Sãos suas covinhas que não mostram nenhuma sutileza em seu ser. É ele, e eu estou morrendo de medo. “Por que a surpresa?” Ele pergunta, cerrando os olhos. “Eu disse que viria.”

“É por que pensei que demoraria mais alguns dias até decidir vir.” Respondo forçando um sorriso. “Bem, Munique foi viajar com umas amigas e eu pensei que era uma ótima oportunidade para vir te ver!” Ele diz calmamente, mas com o mesmo sorriso sádico no rosto. Em uma fração de segundos, ele bate sua mão contra a parede atrás de mim e prensa seu corpo no meu. “Eu disse que não ia exitar em te fazer meu, não disse?” Ele diz com a voz calma, rouca e exageradamente sensual. Fico excitado.

Mordo meu lábio inferior, enquanto cerro meus olhos e sinto meu rosto queimar. Meu coração bate como um tambor e consigo sentir meus pés soando. Uma gota d'água pinga de seu cabelo, para minha bochecha; uma gota fria e singela, que descendo até meu pescoço, marca o início de um beijo lento. Ambos estamos de olhos ligeiramente abertos, como que apreciando o rosto de excitação um do outro, enquanto ele insere sua língua dentro de minha boca.

“Tudo tão exageradamente romantizado…” as vozes comentam enojadas, mas eu mal consigo ouvir quando tudo o que consigo pensar é em suas mãos descendo da parede para minha cintura. Uma memória invade minha mente como uma doença viral; uma memória de tempos mais fáceis e tranquilos. Minha avó cuidava de mim e planejava nossa viagem para os Estados Unidos, enquanto eu fazia meu ensino médio numa boa escola.

Minha vida era luxuosa; morava na mansão de minha avó e era mimado pelos mordomos e empregados, pois, era a criança mais bonita do bairro. Também era, como ainda sou, muito inteligente; tinha notas perfeitas e era um queridinho dos professores, além de ser popular entre as garotas e ter vários amigos. Admito que me distanciei da maioria das pessoas que conheci lá com o passar do tempo. Inclusive, os únicos que restaram foram Alan e Cameron.

Acho que a primeira vez em que reparei em Cameron foi num verão infernal, incomum para a Inglaterra. Estávamos todos na aula de educação física; eu com um grupo de garotos sentados na arquibancada e ele jogando basquete na quadra. “Vocês viram a nova revista da Playboy?” Um dos meninos perguntou e todos os outros afirmavam animados sobre “como os peitos daquela loira eram fodidamente enormes”.

Eu tinha lido também, e como um adolescente normal, gostei; mas, naquela época, principalmente naquele momento, comecei a notar outras coisas. Tinha aquele garoto, “Came” alguma coisa, que era um ano mais velho do que eu, e que estava no time de basquete. Ele era alto, com a pele meio morena e os cabelos negros, por isso chamava a atenção das meninas, que se sentavam no último degrau da arquibancada para vê-lo jogando.

“Esse garoto estrangeiro, Cameron, fica com todas as meninas, e nem temos chances!” Um garoto comentou, quando as meninas fizeram um estardalhaço por que ele fez uma cesta. Admito que fiquei curioso; queria saber o que esse garoto tinha que atraía tanto as pessoas, por isso, certo dia, me sentei com as meninas para assisti-lo jogar. Quase não vi, por que todas elas eram tão escandalosas, mas, no momento em que olhei para ele, adicionei elementos em sua descrição que me levaram a me apaixonar por ele.

Comecei a observá-lo; vi suas mãos fortes que ajudavam os professores a carregarem seus materiais; seus olhos ferozes quando se envolveu em uma briga com outro garoto; ouvi sua voz poderosa quando ele se tornou presidente de classe e dava os anúncios da manhã; e assim tudo passava e eu perdia lentamente minha popularidade para ele, até que o inverno se instaurou novamente.

Foi naquele ponto do colegial que comecei a ter inimigos. Minha popularidade abaixou e algumas pessoas passaram a me odiar; em especial um grupo de três meninos que diziam que eu tinha uma “aura gay” que, mesmo que não haja nada de mais, se tornou motivo de bullyng. Estava sofrendo e tinha apenas poucos amigos que sempre me apoiaram; ao menos até decidirem se distanciar no final do ensino médio.

Neste inverno, no qual nevascas eram recorrentes, resolvi por me desapaixonar de Cameron, pois, isso estava me levando a ruínas. Bem, mal eu sabia que não seria tão fácil! Lutei para parar de observá-lo quando ele estava perto de mim e parei de conversar com ele; inclusive, as professoras perceberam, e sempre davam trabalhos para fazermos juntos, pois, estavam com medo de nos distanciarmos.

Enfim, num dia em especial, nos reunimos em sua casa para fazer um trabalho de história. Estava nevando fracamente, então não pensei que poderia haver uma nevasca. Estava tentando meu máximo para ficar distante dele, mas estávamos em sua cama, perto demais um do outro. Como neste momento de agora, naquela hora meu coração se desesperou. Nossos rostos estavam perto demais e sua boca se abria conforme fechava seus olhos, assim como eu; quando sua mãe entrou, anunciando que o jornal avisou que uma grande nevasca estava para começar naquela noite, e que seria melhor se eu passasse a noite ali. Concordei.

Estávamos dividindo a mesma cama e o espaço estava acabando mais e mais. Suas mãos estavam na minha bunda e eu escolhi por reter minhas mãos envoltas em seu pescoço. Todo aquele ato se concretizou lenta e apaixonadamente, enquanto os flocos de neve caíam acima de nós, numa noite que foi a única testemunha de nosso pecado. Como se pode imaginar, tudo estava perfeito afinal, mas, quando fui lhe perguntar se ele gostava de mim, tudo o que ele disse foi que “não podia decepcionar a família e que tinha que manter sua posição social”. Meu coração estava partido, mas nunca consegui esquece-lo por completo.

Mas agora, no presente, ele posiciona suas mãos por dentro das minhas calças, na minha bunda, e continua o beijo, enquanto eu tento distancia-lo sem tentar realmente, pois, se dependesse de mim, continuaríamos desse jeito, mas Vincent está em casa. Enfim ele distancia nossos corpos e arfa pela falta de ar. “Você é incrível, incrível!” Ele diz ainda sem ar e eu dou uma risadinha. “Mas não o suficiente para ele segurar sua mão em público, uh?” As vozes dizem.

Uma aura cor-de-rosa se instaura entre nós, eu assumo, mas se decepa instantaneamente quando percebemos que Vincent está presente, de cabeça baixa. “Senhor Edgar, estou indo dormir. Boa noite.” Ele diz friamente e parte para o quarto de hóspedes.



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