História Elipse - Capítulo 14


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Categorias Naruto
Personagens Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Hinata Hyuuga, Hyuuga Hiashi, Ino Yamanaka, Itachi Uchiha, Kakashi Hatake, Karin, Madara Uchiha, Naruto Uzumaki, Neji Hyuuga, Obito Uchiha (Tobi), Orochimaru, Sai, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara, Shion, Temari, Tsunade Senju
Tags Akatsuki, Beijo, Chuva, Clichê, Colegial, Colégio, Drama, Escolar, Festa, Gaara, Hamlet, Hentai, Hinanaru, Hinata, Ino, Itachi, Lua, Luta, Madara, Mistério, Naruhina, Naruto, Neji, Nejiten, Obito, Saiino, Sakura, Sasuke, Sasusaku, Shakespeare, Shikamaru, Shikatema, Shion, Suspense, Temari, Tenten, Tobi
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Palavras 6.412
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Hentai, Luta, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Shounen, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 14 - XIV - Obliviate


Fanfic / Fanfiction Elipse - Capítulo 14 - XIV - Obliviate

Toc Toc Toc.

Foi o que Hinata ouviu enquanto, mesmo já desperta, pálpebras pálidas ainda se fechavam sobre olhos prateados. Temia que quando fitasse todo o seu redor, não visse o garoto loiro que adormecera ao lado dela na última madrugada e que percebesse, então, que o cheiro de relva que já aspirava desde que acordara, fosse mais uma das peças que sua imaginação lhe pregava.

Era realmente possível? Amar alguém tanto, tanto assim?

“Olá”, uma voz fez-se ouvida, interrompendo sua linha de pensamentos. “Vocês já estão vestidos, Hina?”, ela abriu os olhos, então, finalmente, arregalando-os assustada com a pergunta. “Posso entrar?”

Observou o ambiente em que se encontrava: o mesmo quarto bem iluminado de piso escuro que se lembrava de ter estado com Naruto na madrugada anterior. Checou à sua volta, sentindo o coração saltar dentro do peito. Ele estava mesmo ali: loiro, lindo, angelical. Não parecia ter ouvido a voz que gritava por eles. Ou melhor, por ela.

Sentiu as bochechas queimarem, a pessoa lhe perguntara se eles já estavam vestidos. O que estaria pensando dela?

“S-sim!”, piscou, acostumando os olhos à claridade do ambiente. Ia se beliscar por gaguejar, mas logo que falara, a porta fora aberta e ela já podia encarar quem lhe chamava.

Era Sakura. Teria assimilado a pessoa à voz, anteriormente, se não estivesse ocupada demais colocando em dúvida tudo o que vinha vivendo nos últimos dias, em especial na última noite.

“Nossa, vocês desmaiaram mesmo!”, Sakura brincou, olhando bem para ela. Hinata percebeu que ela estava vestida com roupas masculinas. Uma calça de moletom muito larga, semelhante a que Naruto usava, e uma camisa que também era maior do que ela; provavelmente mais pelo conforto que pelo frio, estava mais quente ali, parecia que finalmente haviam ligado o aquecedor. “Se divertiram bastante?”, ela perguntou.

E riu do constrangimento de Hinata.

“Calma, eu estou brincando!”, a Haruno se apressou a dizer. “Eu o conheço há mais tempo, Hina.”, ela sorriu. “E, acredite, se ele está sendo tão lento assim com você... Quero dizer, mais do que a lentidão costumeira dele, é porque ele gosta de você!”, ela piscou para Hinata.

A Hyuuga franziu o cenho.

“Agora... Naruto...”, ela começou, sapeca, e se aproximou. Somente naquele instante Hinata percebia que ela estava com um travesseiro em mãos. “Hora de acordar!”, ela gritou, acertando com o travesseiro em cheio em Naruto.

O garoto, com o susto, rolou da cama e acabou caindo no chão, próximo da Haruno.

Hinata se levantou da cama, rindo com a cena.

Sakura ria também.

Naruto se levantava do chão, com dificuldade, resmungando qualquer coisa, e tentando abrir os olhos com muito esforço.

Quando finalmente o fez...

Olhos azuis furiosos rolaram fitando, primeiro, os verdes que estavam mais à sua frente e, depois, os prateados, do outro lado da cama.

“Vocês me pagam!”, ele exclamou, pegando dois travesseiros na cama.

Corre, Hinata!”, Sakura gritou, rindo.

E saindo do quarto, feito uma criança travessa, sem esperar pela menina que a seguia ainda rindo.

Naruto jogou o primeiro travesseiro, com certa lentidão por causa da ressaca e do corpo que doía um pouco pelos socos que levara de Sasuke na última madrugada, e este acertara a porta que Hinata batera antes de sair.

Sentou-se na cama, segurando o travesseiro que lhe sobrara, e piscou ainda sonolento.

“Cômoda”, ele chamou, fitando o móvel branco à sua frente. “Por favor”, ele pediu, “para de girar!”.

E deitou novamente, apoiando a cabeça no travesseiro que há pouco segurava.

 

~

~

~

 

Estava sentado em sua cama, com a namorada ao lado, ambos almoçando. Se é que podia chamar de almoço o lamén que havia comprado há alguns minutos. Bem, ao menos Shion não estava reclamando disso.

“Naruto”, ele a ouviu chamar, de repente. Já estavam em completo silêncio pelo que parecia uma eternidade, mas que o relógio na parede à frente demonstrava ser apenas cinco minutos. Nem um dos dois parecia ter algo mais a dizer desde que o assunto término fora mencionado e os olhos prateados de Shion haviam se arregalado, sua cabeça pendera de um lado para o outro, e ela apenas continuara a comer. “Eu continuo te amando, você sabe disso, não sabe?”, ela questionou, sem fitá-lo.

Naruto assentiu, sem que ela visse.

Ele sabia e isso doía. Não era justo com ela, a relação que tinham. E também não era realmente uma relação aquilo que tinham. Eles haviam se beijado no aniversário de quinze anos dele e por mais que parecesse certo no dia, quando o efeito do álcool, de Sakura-chan e Sasuke juntos e da falta de controle que a raposa demônio lhe causava passara, ele se arrependera e a pedira desculpas pelo ocorrido.

Dissera a ela que não se repetiria, que sentia muito, mas que não seria justo com ela se continuassem juntos porque ele não podia retribuir o que ela sentia, todavia, ela o beijara. De novo. E todas às vezes que ele tentava afastá-la de si. Estava tudo bem, ela dizia, terem aquela relação estranha sem reciprocidade. Estava tudo bem, ela dizia, que ele continuasse enxergando outra pessoa sempre que a fitasse – e ele só entenderia o que ela queria dizer com isso bem depois –, mas, sobretudo, estava tudo bem... Que ela o amasse pelos dois.

E ele sabia que nada estava bem. E embora não fosse exatamente ruim estar com ela – era até bom, mas cada vez menos saudável para qualquer um dos dois –, ele não conseguia não estar. Não conseguia porque ela começava a chorar, porque ela invocava Deus – e não importava o quanto ele tivesse asco quando a ouvia falar Dele – e Ele, o tal Deus, entendera que fazer a cabeça dela doer a ponto de parecer que iria explodir, era uma boa forma de fazê-lo sofrer por rejeitá-Lo e facilitava que ela estivesse tão entregue ao seu Deus e que com isso Ele pudesse atingi-la como bem quisesse.

“Mas vai ficar tudo bem, Shion”, ele disse baixinho, tocando gentilmente o rosto dela, vendo-a fechar os olhos.

Suspirou, recolhendo os dedos e sentindo o olhar intrigado da garota sobre ele.

Continuou comendo, esperando um pouco mais, enquanto ela também comia.

Esperando até que o sonífero que colocara no alimento dela, fizesse efeito.

 

~

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“Cadê a Hina?”, foi o que Sakura ouviu de Naruto, ao entardecer.

Ela estreitou os olhos verdes na direção dele, vendo-o se aproximar meio tonto na direção dela.

“Foi embora, oras”, ela respondeu, dando de ombros. “Você não achou que ela fosse ficar aqui o dia todo, achou?”, ela arqueou a sobrancelha. “Ela não sabe sobre a proximidade que você e o Sr. Hyuuga tem, Naruto! Já estava achando que o pai a mataria por ter ficado tanto tempo fora!”, explicou, rindo.

Naruto sentava-se ao seu lado no sofá, mastigando uma torrada e bebendo café.

“E o que você disse a ela?”, perguntou com curiosidade, mas não estava olhando para ela, parecia tentar se concentrar na televisão ligada ou em qualquer coisa que não fosse a cabeça dele que provavelmente doía muito por todo o álcool da última noite. Bem feito, ela pensava, quem mandava o amigo ser cachaceiro? Parecia até a Porquinha!

Além disso, era um bom filme o que estava assistindo, ele fazia bem em prestar atenção. Poderia aprender um pouco com ele. Era “O Plano Imperfeito”, um filme original Netflix que via enquanto Sasuke não retornava do compromisso de última hora que tivera; já o vira umas quatro ou cinco vezes, mas continuava o achando um bom passatempo. De alguma forma, fazia com que ela pensasse no namorado e refletisse sobre as dificuldades que enfrentara na relação que tinham e entender que no final tudo tinha valido à pena. O filme dizia algo como “você gosta porque e ama apesar de”. Era como gostar da pessoa porque ela podia ser legal, fazer bem a você, fazer o seu tipo ou qualquer outro et cetera e amá-la apesar dos defeitos.

Ela gostava de Sasuke, por exemplo, porque ele era o garoto mais lindo que já conhecera e o amava apesar da frieza que ele ostentava, apesar do desejo de vingança dele tê-la feito presenciar horrores inimagináveis, apesar de muitas vezes o ódio que ele sentira ter sido capaz de superar o amor que ela sentia por ele. Apesar de Karin...

Apesar de todos os pesares.

Suspirou.

“Eu disse que era meio tarde para ela se preocupar com o pai”, sorriu. Já eram umas onze da manhã quando Hinata se lembrara de que o pai poderia estar bravo. Uns minutos a mais não lhe fariam tão mal, ela dissera à garota. E em seguida conversaram um pouco; Sakura pediu desculpas por ter aparecido na madrugada anterior bem quando Hinata e Naruto pareciam estar se acertando e lhe prometera que faria o que pudesse para recompensá-la. Quis saber o que ela realmente pensava sobre o amigo dela, explicara que podiam conversar com calma e despreocupadas, que embora ela houvesse acordado Naruto, ele muito provavelmente voltaria a dormir e só levantaria de fato bem mais tarde. Que tudo que ela queria com aquela cena toda, na verdade, era um tempo a sós com a Hyuuga, que não desgrudava do loiro ultimamente.

Hinata gostava de Naruto, pelo rumo que a conversa tomou, e embora ela não tenha dito exatamente com essas palavras, porque ele tinha um sorriso muito bonito (ou algo do tipo, já que ela dissera algo mais como “o sorriso dele me salvou” e Sakura não fazia a mínima ideia do que isso significava) e ela o amava – novamente ela não dissera, mas Sakura não era estúpida como Naruto a ponto de não perceber o óbvio – apesar da estupidez do garoto (mais uma vez algo do tipo, já que Hinata dissera que entendia que ele tinha certa dificuldade para compreender algumas coisas, mas que isso não a incomodava).

Claro que Naruto só precisaria ouvir até a parte que ela dissera que Hinata não precisava se preocupar com o pai. Óbvio. O tonto do amigo ainda precisava perceber algumas coisas por si mesmo ou estragaria tudo antes mesmo de começar algo.

Hum... Certo”, Naruto assentiu, bebendo mais café.

“Ei, Naruto”, Sakura virou-se para o loiro, chamando-o e esperando que ele a encarasse. Pensando bem... Um empurrãozinho não faria mal.“O que você acha da Hinata?”, ela perguntou, sorrindo. E, em seguida, bufando, notando que Naruto não entendera a pergunta, facilitava: “Ela é bem bonita, não é?”

Naruto quase engasgou com o café e a Haruno revirou os olhos.

“Vamos lá, Naruto... Você não precisa fazer suspense comigo!”, ela exclamou.

O Uzumaki pareceu pensar por alguns segundos e Sakura não deixou isso passar despercebido. Então agora Naruto era uma pessoa que lia e que pensava? Céus! Então era isso que Hinata fazia? Milagres?

“Ela é”, Naruto confirmou. Os olhinhos de Sakura começaram a brilhar. Apaixonada por comédias românticas como era, já pensava no filme que assistia e começava a raciocinar: Ele gosta dela porque ela é bonita... “Também é inteligente e uma ótima companhia”, ele sorriu. ...Porque ela é inteligente e ótima companhia.

“E por que você não fica com ela, Naruto?”

O garoto coçou os cabelos e fez menção de que ia colocar a caneca que segurava em cima da mesa de centro, mas desistiu, continuando a segurá-la, ao receber um olhar mortal de Sakura. Ele que não ousasse colocar qualquer coisa naquela mesa sem um porta copo! Celebraria ela mesma o velório dele se o fizesse!

“Ah, vamos, Naruto... Ela é bonita, é inteligente, ótima companhia e... Bem, você não é feio”, sem contar que ela é louca por você, seu tonto! Ela deu um sorrisinho amarelo, reparando no garoto. Ele não era feio, admitia. Mas estava longe de ser inteligente e dizer que ele era ótima companhia seria exagero. Dez minutos com ele numa mesma sala e ela já pensava em onze maneiras diferentes de matá-lo!

Ah, Sakura-chan”, Naruto começou. “Sasuke me perdoou por ter te beijado uma vez, mas acho que não vai ser tão compreensivo se você começar a dar em cima de mim!”

Ela jogou a almofada que estava atrás de si em Naruto, que quase derramou o café que segurava para apanhar o objeto lançado.

“Deixa de ser idiota e não desvia o assunto!”, ela gritou.

Ele riu.

“Porque ela é minha amiga”, falou, então, sem muita convicção.

“Eu também sou, mas isso não impediu você”, alfinetou.

Naruto suspirou.

“Porque eu não quero repetir o mesmo erro que cometi com Shion”, respondeu, por fim, baixo demais para alguém cuja voz era sempre alta.

Sakura respirou fundo.

Shion fora alguém que dizia amar Naruto enquanto Naruto dizia amar Sakura. Sakura, no entanto, sempre tivera dúvidas sobre esses amores. Sobre a estranha obsessão de Shion e sobre o gostar a mais que Naruto dedicava a ela própria. Quando o amigo a beijou, mesmo que rapidamente, a sensação fora a mesma que teria se houvesse beijado um irmão, tinha certeza mesmo sendo filha única!, e o próprio Naruto não tinha parecido tão animado assim.

Era diferente com Hinata, no entanto, ela percebia. Naruto gostava de falar da Hyuuga, gostava de estar com ela. Os olhos dele brilhavam conversando com ela e ele estava sempre sorrindo quando ela mandava mensagens ou quando se falavam mesmo que ao telefone...

“Você não vai, Naruto. Selene a protegerá. Nós também vamos protegê-la, não tem que se preocupar.

E, além disso, a Shion...

“Ela parece muito com a Shion, Sakura-chan.”, ela arqueou a sobrancelha, ele parecia ter muitos contras, na verdade, lia isso no olhar dele, mas, por fim, foi o que ele falou, bebendo o que ainda restava de café na caneca que segurava e se levantando do sofá.

Sakura deixou o pensamento anterior morrer e recomeçou outro, entendendo que o fantasma da ex-namorada ainda assombrava o amigo:

Ele gosta dela porque ela é bonita, inteligente, uma ótima companhia e a ama apesar de ela se parecer com Shion.

Sorriu.

Podia aceitar essa resposta.

Esse “apesar de” significava mais do que qualquer outro que poderia cogitar.

 

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Em AHS, a sensação era uma só:

Estavam todos olhando para ele.

Durante as aulas, durante as trocas de sala. Nos corredores, no vestiário... Ali, no refeitório.

Os alunos olhavam e cochichavam, riam, teorizavam. Comentavam sobre o espetáculo que ele dera na noite passada, expulsando a todos de sua festa de aniversário com uma voz macabra e os olhos vermelhos, dignos de um cenário de filme de terror. Diziam que não era a primeira vez que algo assim acontecia, que já ouviram outros relatos, que achavam que fossem lendas, mas que havia algo de muito satânico nele mesmo e que era de se esperar que as mudança de humor dele não fossem normais.

Ele estava se controlando muito para não aproveitar que acabara pegando uma bandeja de metal ao invés da costumeira bandeja de plástico que sempre pegava e dar com ela na cabeça de um idiota qualquer dos muitos que cochichavam, já que doeria muito mais e serviria de exemplo. Por que Sasuke e Sakura-chan estavam demorando tanto para chegar ao refeitório? Precisava de uma distração!

Quando achou que não podia se controlar muito mais e já ia mesmo se levantar, ele fora surpreendido por Hinata, que se sentava ao seu lado, no costumeiro lugar de Sakura-chan, a qual, cada vez mais, parecia que não viria.

Ele arqueou a sobrancelha, intrigado. Não que a amiga não fosse bem vinda, ao contrário, mas era inusitado. Ela geralmente se sentava ao lado de Ino.

Ela sorriu, um sorriso singelo, sem dizer nada, e o entregou um dos fones de ouvido que estava usando, ficando apenas com um, na orelha direita, enquanto ele colocava o que lhe fora entregue na esquerda.

Nunca parara para pensar em que tipo de música Hinata escutava. Ele a acompanhou com os olhos por anos, naquele colégio, sempre a vendo caminhar pelos corredores com fones nos ouvidos, e nunca havia se questionado sobre o que ela ouvia. Até aquele momento.

E a surpresa fora grande quando percebera que...

Ela não ouvia nada.

Absolutamente nada.

Não havia qualquer som saindo do fone que ela lhe emprestara.

Ela mastigou um palito de cenoura, havia vários deles na bandeja que ela trouxera consigo. E não falou nada também.

“Er... Hina”, ele chamou. Ela o fitou, os olhos prateados curiosos com o que ele tinha para dizer. “Acho que seu fone está estragado. Não tem som nenhum”, ele riu baixo, meio sem graça, coçando os cabelos dourados.

Ela sorriu mais uma vez. O sorriso prateado que ostentava platinava todo o rosto dela, ela nem parecia de verdade.

E em seguida tirou o plugue do fone do bolso, mostrando-o que não era para sair som mesmo porque não estava conectado em nada.

“Não entendi, Hina”, Naruto estreitou o olhar.

“As pessoas estão falando de você a noite toda, Naruto”, ela começou, havia certa tristeza no tom de voz dela, e Naruto não pôde deixar de se sentir bem por ver que ela se importava. “Elas falam baixo, sussurram, não querendo que você saiba do que estão falando, mas querendo que saiba que estão falando de você”, ela explicou, parecia entender sobre o que dizia. “De fone de ouvido, você pode fingir que não se importa com o que dizem, que não está ouvindo ou prestando atenção, e sem música fica fácil de ouvir o quanto aos poucos as vozes vão desaparecendo e o assunto vai perdendo a graça”, ela falava bem baixo, guardando o plugue no bolso novamente.

E continuando a mastigar os palitos de cenoura.

Naruto bebeu seu suco, mordiscando seu sanduíche.

Ficou concentrado o suficiente no som que não ouvia, a ponto de se surpreender quando Hinata lhe entregara o fone que ela própria estava usando, junto ao item desplugado, levantando-se.

“Hinata”, ele ouviu Sakura chamar, percebendo finalmente que a amiga chegara. “Pode continuar aí”, autorizou; Sasuke já havia se sentado no lugar vago ao lado de Hinata.

Era uma dessas mesas para quatro pessoas, a que ele estava sentado, mas sempre apenas com três cadeiras, uma vez que somente os três se sentavam ali.

“Mas é seu lu-”

“Não, Hina”, Sakura interrompeu, sorrindo e sentando-se no colo de Sasuke, colocando a bandeja de qualquer jeito na mesa. “Este lugar aí está sobrando!”

Naruto franziu o cenho, Sakura-chan não costumava agir assim, embora não fosse incomum que algumas garotas se sentassem no colo dos namorados no refeitório, ninguém ligava mesmo para essas coisas por ali. Ninguém, exceto Hinata, que estava um pouco vermelha.

“Nem comenta nada, Naruto”, Sakura mandou, impedindo-o de dizer qualquer coisa sobre o que estava havendo ali.

Ele assentiu.

“Mas a Ino não vai gostar mesmo se eu continuar aqui, Sak-”.

“Sério?”, mais uma vez a Haruno interrompeu, olhando rapidamente para o lado em que Ino estava sentada, agarrando-se a Sai como geralmente fazia. “Acredite em mim: ela não se importa!”, riu. “Fica aí, Hina... Termina essa música que você e o Naruto estavam ouvindo, seja lá qual for... Além disso, eu te devo uma, lembra?”, ela piscou.

Hinata assentiu, um pouco acanhada, mas voltou a se sentar ao lado de Naruto. Ele a entregou um dos fones de ouvido novamente, o plugue agora no bolso dele, e sorriu maroto para ela.

Naruto percebeu que com o decorrer dos minutos, realmente as vozes ao redor dele diminuíam.

Ou talvez ele próprio fosse deixando de ouvir, de se importar.

Tanto faz.

 

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Após Shion ter dormido, Naruto a levou para AHS e deixou-a lá, na enfermaria do colégio.

Ele esperava que ali ela estivesse protegida, uma vez que Deus não tinha poder sobre aquele local, e achou que tinha funcionado quando ela não reclamou de dor de cabeça ao acordar.

Algumas pessoas ficaram para observá-la e foi muito breve o tempo que ele próprio se ausentara de perto dela – e ainda assim, somente o fizera quando realmente parecia que ela estivera estável –. No entanto, ele percebia agora, fora tempo suficiente.

Ao retornar ao quarto em que Shion estava, ele a viu deitada na cama, aparentemente dormindo, mas logo percebera que ela não apenas dormia. Os cabelos loiros dela haviam sido ocultados por uma peruca com fios de um azul escuro quase negro. Ela aparentava serenidade, mas não havia pulsação.

Embaixo das mãos dela, havia um bilhete que ele reconhecia ter sido escrito por ela mesma, ele conhecia a caligrafia dela.

“Naruto,

Eu queria que quem estivesse morto fosse você. Não porque eu te odeio, eu te amo, não me entenda mal. Mas é que você ia me deixar, e morto você não me deixaria nunca. Morto você estaria sempre comigo. Nunca iria envelhecer, nunca iria me trair, seria sempre meu e sempre perfeito. Porém... Deus ficava me dizendo que você não era fácil de matar e Ele tinha razão. Eu tentei muitas vezes, nunca funcionou. “Por que o Naruto não morre?” Eu perguntei a Deus e Ele me disse que é porque você tem um demônio dentro de você e que ele o protege. Faz sentido você ter um demônio dentro de você. É por isso que você não aceita o meu Deus, não é? Porque você acha que não é digno Dele já que tem um demônio com hospedagem fixa em você...

O que eu não entendo é: você gosta da Selene... Você fica falando Nela e crendo Nela e é estúpido se acha que Ela não o julga por você ter dentro de si o demônio que Ela morreu para aprisionar! Percebe o quanto isso é estranho? Você venera uma Lua que nem olha de volta para você!

De qualquer forma... Eu estou parecida com ela agora... Pode me venerar. Eu continuo não me importando que você seja incapaz de me amar porque é para ela que você olha sempre que me vê.

 

Beijo,

Sua Shion”.

E havia alguns comprimidos dos muitos que ela tomara espalhados pelo chão.

O grito de Naruto fora ensurdecedor naquele dia.

Ensurdecedor.

 

~

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Então era assim, Naruto refletia, fitando rapidamente o local, era assim o lugar onde os jornais que ele não lia eram feitos no colégio:

Uma sala de tamanho mediano, cujas paredes claras eram lotadas de colagens, listas de afazeres, relógios – sim, no plural, uns quatro até onde chegou a contar –, concentração e um silêncio estranho que parecia perdurar por alguns minutos, ser quebrado para discussões polêmicas, e então retornar ao momento em que só o barulho dos vários dedos das pessoas indo e voltando das teclas enquanto digitavam o artigo a ser publicado era ouvido.

Devia ter uns cinco alunos naquela sala, além do editor-chefe. Cada um tinha uma mesa com um computador, canetas e blocos para anotações. E atrás de cada mesa havia armários e arquivos.

Não era surpresa que era seu primeiro dia ali, mesmo depois de tanto tempo perambulando por cada canto de AHS. Ele não fazia mesmo parte daquilo.

“Acha que essa sua ideia vai dar certo mesmo, Sakura-chan?”, Naruto perguntou um pouco duvidoso com relação ao que a amiga de cabelos róseos sugerira.

“Na verdade a ideia foi do Sasuke-kun”, ela confessou, risonha. “Mas vai, sim. Basta que um ou outro acredite e comece a espalhar o boato por aí. É melhor que haja duas teorias rondando o colégio do que uma certeza”, ela ponderou.

“Tem razão”, Naruto disse, refletindo bem. “Além disso, a matéria ficou muito boa!”, ele comentou, rolando rapidamente os olhos pelo artigo que Sakura-chan havia sugerido para o Jornal de AHS e que prontamente havia sido aceito e redigido. Falava sobre uma peça pregada no aniversário de Naruto e sobre o mistério que os olhos vermelhos e a força do mesmo bem como de Sasuke causara. Lentes de contato, alunos que não aguentavam um empurrãozinho e o estardalhaço que isso fizera. Sakura-chan havia tomado o cuidado de acompanhar a confecção do artigo para que tudo fosse escrito com um tom bem zombeteiro, o que passava bem a mensagem de uma pegadinha.

Era Naruto, afinal de contas. Pregar peças era bem algo que ele faria. O título era muito bem bolado, o Uzumaki observava. “Naruto Uzumaki antecipa o Halloween”, com “Só Travessuras, nada de doces” como subtítulo. Tudo fora redigido para parecer uma brincadeira de dia das bruxas muito adiantado e, ainda, um jogo que fora jogado com o colégio todo de uma única vez. A pegadinha do ano com os alunos de Akatsuki High School.

Naruto abraçou Sakura.

“Você é incrível, Sakura-chan!”

A Haruno sorriu.

“A Hinata me ajudou, sabia?”, ela confessou. “Ela é realmente muito boa com essas coisas... Graças a ela, entregamos a ideia para os editores daqui já escrita, eles só aprovaram e fizeram poucas alterações! Deviam chamá-la para trabalhar no jornal!”, falou alto para que os redatores do jornal do colégio ouvissem.

Era muito melhor ler esse tipo de notícia bem escrita e engraçada do que fofocas sobre Karin e Uchihaliciosos que não pertenciam a nenhuma das fanáticas que estavam ali. Bufou, só o pensamento daqueles dois ocupando o mesmo metro quadrado a deixava louca!

“Hina-chan é incrível também”, Naruto sorriu. Sakura reparou no sufixo que ele utilizara para se referir à Hyuuga e arqueou a sobrancelha, não comentou nada sobre porque Naruto, parecendo refletir um pouco sobre algo, continuou: “Ela é muito parecida com a Shion, mas não tem nada a ver com a Shion, Sakura-chan!”

Sakura deu pulinhos e bateu palminhas de alegria, traçando uma nova teoria mental: Ele gosta dela porque ela não tem nada a ver com a Shion e a ama apesar de ela ser muito parecida com a Shion.

“Ficou louca, Sakura-chan?”, Naruto perguntou, despertando-a de suas epifanias.

Ela não estava louca, estava pesando as informações que tinha!

Personalidade e aparência.

Ela, particularmente, preferia Hinata nos dois quesitos listados.

Além disso, Shion...

O pensamento voltava-lhe à mente.

“Er... Naruto...”, Sakura começou, puxando o amigo pelo braço, saindo da sala em que estavam. Encostou-o próximo do armário de um aluno qualquer, olhou para os dois lados, não tinha ninguém por perto. Respirou fundo, parte dela não queria dar aquela notícia. Outra parte sabia que o amigo nunca a perdoaria se não desse. Além de que também não perdoaria Sasuke-kun por também não ter dito nada a ele – mesmo que ela própria houvesse dito ao namorado que queria contar ela mesma. “Shion está viva”, ela sussurrou.

Os olhos azuis de Naruto arregalaram-se.

“Do que está falando, Sakura-chan?”, ele gritou.

“Fala baixo, seu idiota!”, ela mandou, com um sussurro. “A Karin entregou um bilhete ao Sasuke-kun esses dias... O Olhos da Lua já confirmou. É verdade.”

Naruto respirou fundo.

Estava agindo até muito bem, ela pensava. Não quebrara nada ainda.

Por que não me contou antes?

A voz dele começava a se arrastar, ela suspirou.

“Porque você iria atrás dela logo que eu contasse”, respondeu. “E eu não acho que-”

Ele não a esperou completar a frase. Seguiu para o elevador... Ultimo andar de AHS, pediu impaciente que lhe dessem a localização dela.

E eles sabiam quem era a tal “ela” e onde ela estava, lógico que sabiam.

Todos sabiam, menos ele.

Menos a única pessoa que precisava saber!

 

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Toc. Toc. Toc. Toc. Toc.

Ele bateu cinco vezes.

Bateu alto, forte. Eram batidas que mais pareciam estrondos e que ficavam mais barulhentas à medida que ele precisava continuar batendo.

Ao contrário daquele entardecer que nunca lhe saía da memória, não estava chovendo, estava nevando.

Porque a neve era a coisa mais comum que havia naquele mundo onde as pessoas adoravam brincar de Deus.

De seguir a Deus, de serem deuses. De tomar vidas, devolver vidas.

Abre essa porta ou eu vou arrombar!”, ele gritou.

A voz lhe saía do fundo da garganta e era arrastada porque não era o melhor momento do mundo para lhe exigirem autocontrole.

“Olá, Naruto”, a voz veio suave, quando a porta lhe foi aberta.

Ele não respirou, prendeu a respiração e passou as mãos pelos cabelos e reprimiu outro grito que queria lhe escapar da garganta.

Foi por impulso, mas ele a abraçou.

E ela era de verdade, era carne e osso.

“Como você... Como?”, ele tentava perguntar, mas ela correspondeu o abraço. E ela era mesmo carne, osso e, quem sabe, alma.

“Deus”, ela sussurrou, um brilho irreconhecível nos olhos não tão prateados como os de Hinata – e ele não pensou que era estranho pensar assim, porque quando estavam juntos ele sempre pensava que eram olhos não prateados quanto os de Selene provavelmente seriam.

Afastou-se.

“Você... não... Porra, Shion!”

Naruto deu um murro na parede próxima da porta e sentiu a ardência que isso lhe causou.

“Eu não quero falar sobre isso, Naruto!”, Shion foi firme, os não tão prateados olhos estavam sérios. Os cabelos loiros esvoaçavam e ele frisava a si mesmo que eram loiros os cabelos dela e tentava muito apagar aquela peruca escura e aquele maldito bilhete de sua mente.

Há quanto tempo você está viva?

“Vai embora, Naruto”, ela pediu, sem responder.

Naruto esfregou o rosto com a mão. Os olhos ardiam, mas não eram lágrimas. Ele não sabia se sentia raiva, dor, medo, alívio, angústia ou descrença ou tudo. Mas achava que não era tudo. Porque sentir tudo sufocava e ele ainda estava respirando – e não sabia quando voltara a fazê-lo – e se não estava se sufocando com o oxigênio, havia algo que não estava sentindo.

E ele não fazia ideia do quê.

“Por favor, vai embora”, ela suplicou. “Nós terminamos, foi ideia sua. Vai embora!”, ela implorava.

Naruto assentiu.

Não sabia o que pensar, não sabia como agir.

Ele queria muito gritar, mas não sabia o quê.

“Shion”, ele falou baixo. Os olhos meio vermelhos brilhavam. Arrependimento, dor, angústia, medo, raiva... Um mesclado estranho de várias agonias diferentes na voz dele. “Me descul-”.

“Não se atreva, Naruto!”, Shion gritou, desferindo um tapa em seu rosto. O tapa dela era real, ele percebia. Ele queimava, ele doía, ardia. “Não ouse se desculpar por ter namorado comigo! Não foi um namoro tão horrível assim!

Ela falou sério, ele mais uma vez assentiu.

Girou as chaves do carro de Sasuke em seus dedos e seguiu até ele, mal registrando os passos que o levaram ao veículo que o amigo emprestara.

 

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O próprio Naruto havia cavado a cova de Shion naquele entardecer.

Ele recusara ajuda, não fizera velório, não informara a ninguém sobre o enterro. Depois de muita conversa, lágrimas e gritos, até que ele finalmente cedesse, ele aceitara que ninguém além de quem precisava saber, saberia a respeito da morte da ex-namorada dele.

Ele achava irônico que estivesse chovendo, que o Deus – e vinha uma ânsia de vômito só de pensar Nele – de Shion após levá-la para fazê-lo sofrer – por que não havia outro maldito motivo, havia? – fazia com que chovesse como se o céu estivesse chorando.

Ele queria que fosse para o inferno esse Deus. E queria também que quando ele, Naruto, finalmente morresse, pudesse encontrá-Lo lá para acertarem as malditas contas.

Sentou-se na terra recém-cavada, observando o trabalho que havia feito. O cheiro de terra molhada lhe embrulhava o estômago.

As lágrimas que ele não deixaria mais cair, ardiam-lhe os olhos.

A pá estava caída ao lado dele.

Não tinha o costume de ir a cemitérios, mas agora que estava em um, ele notava:

Havia algo de incrível em todo aquele cenário fúnebre, todas aquelas sepulturas uma ao lado da outra. Havia algo de muito incrível porque, ele refletia, logo ali, no lugar mais inimaginável do mundo, ele se sentia vivo.

Finalmente vivo.

Sasuke tinha razão.

Sentir ódio fazia as pessoas viverem.

E, em seguida, ele sentia, não eram as lágrimas contidas que fazia os olhos dele arderem, era a raposa assumindo o controle. E tudo bem, ela podia brincar um pouco. Era um bom momento para isso.

 

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Naruto estava horrível quando entrou por aquela porta, Hinata percebeu. Estava abatido, com flocos de neve derretendo em seus cabelos e roupas. Com os olhos azuis, porém exalando uma ardência que era como se estivessem queimando de tão vermelhos há pouco.

E, ainda, com o semblante tão machucado – não com ferimentos, mas com dores internas e profundas o suficiente para transparecerem pelo exterior dele –, que fazia seu coração doer.

Ele se aproximou dela, após descer as escadas do porão rápido demais, e ela já ia se levantar para encontrá-lo no meio do caminho e abraçá-lo e, quem sabe, absorver um pouco daquela dor para si, quando ele balançou a cabeça, pedindo para que ela não se levantasse.

Ela assentiu.

E ele se sentou do lado dela.

Primeiro ele soluçou.

Depois, ela perdeu umas batidas de seu coração, vendo-o, pela primeira vez na vida, chorar.

“Naruto”, ela chamou baixinho, “o que houve?”.

Ele não respondeu.

E não parou de chorar.

As lágrimas continuavam caindo de seus olhos, banhando seu rosto, e ele não falava nada.

Até que...

Finalmente...

Ela o ouviu:

“Hina”, ele sussurrou, bem do lado dela, e ela o ouvia naquele tom de voz por isso, porque estava tão perto que respirava a pele dele. “Posso deitar no seu colo?”

Hinata não corou, não sentiu o coração acelerar – aquelas batidas perdidas ainda eram sentidas, no entanto –, não pensou sobre o pedido dele. Apenas respondeu:

“Sim”.

E ele deitou, parecia uma criança com a cabeça pesando em seu colo totalmente alheia ao mundo do lado de fora e pouco se importando se, de repente, tudo acabasse naquele instante, porque ele estaria protegido.

“Eu sabia que ia te encontrar aqui”, ele sussurrou, a voz ainda chorosa. “Eu acabei de ver a Shion, Hina”, ele começou, com os olhos fechados, e as lágrimas ainda lhe banhando o rosto. “E o único pensamento claro que eu conseguia ter, daquilo tudo, é que os olhos dela não eram tão prateados como os seus”, ele confessou.

Hinata ouvia, os próprios olhos arregalando. Ela acariciava os cabelos de Naruto, querendo decorar onde cada fio dos mesmos se localizava e marcá-los em suas digitais.

“Mas a Shion não está no Japão?”, ela questionou. Lembrava-se do assunto ter corrido o colégio quando a informação de que ele estava finalmente solteiro começara a correr.

“Não, Hina, nunca esteve”, ele falou, os olhos dele ainda fechados, e Hinata achou que não iriam realmente se abrir, ele nem parecia estar realmente ali. “Nós mentimos”, ele explicou. “Shion morreu há dois anos”, ele fez uma pausa. “Eu mesmo a enterrei”.

Hinata suspendeu a respiração com a revelação, mas ele continuou:

“Eu desenterrei um caixão vazio hoje”, ele parecia que ia entrar em colapso a qualquer instante. “E eu fui vê-la em seguida. Ela está viva, mas eu mesmo a enterrei, Hina”, ele começou a respirar muito rápido, ela sentia, voltando a respirar também.

“Calma, Naruto”, ela pediu. Embora ela própria não estivesse calma. Não sabia o que pensar daquela loucura toda. Tudo em sua vida ultimamente era louco demais e às vezes, ela pensava, que a única coisa normal nos seus últimos dias fossem as loucuras de Ino que nunca lhe eram normais, na verdade. Ela confiava em Selene, ela fazia preces à Lua, acreditava na existência de um demônio que morava dentro do rapaz que amava, ela lidava com três cores diferentes nos olhos dele e se perdia no brilho das três. Ela conversava com ele sem gaguejar, dormia com ele e o pai não exigia explicações por ela não ter dormido em casa, tinha-o deitado em seu colo confidenciando coisas a ela como se fossem os melhores amigos do mundo desde sempre.

E agora... A ex-namorada dele voltava dos mortos!

“Ela tinha cometido suicídio usando uma peruca que a deixava idêntica à Selene”, ele contou. “Tudo começou porque eu amava a Sakura-chan e ela me amava. E depois eu acreditava em Selene e odiava o Deus que ela venerava. E, por fim, porque eu era um péssimo namorado que deixei tudo ir longe demais... Se eu não me afastar de você, Hina... Você vai acabar sofrendo tamb-”

“Naruto, não foi culpa sua. E nada do que acontecer daqui pra frente vai ser também, tudo bem?”, ela interrompeu, séria, entendendo onde ele queria chegar com toda aquela conversa sem pausas e não podia deixá-lo continuar porque não podia permitir que ele se afastasse. Não podia sequer conceber tal alternativa, sequer deixar que houvesse a possibilidade de escolha dessa opção.

E em seguida colocou um fone em um dos ouvidos dele e o outro no seu.

“Tem música dessa vez”, ele constatou, sem retomar o assunto anterior; tinha um meio sorriso em seus lábios.

“Tem”, ela sorriu. “Não é pra ignorar as pessoas dessa vez, é pra ignorar seus próprios pensamentos, Naruto”, ela explicou. “É preciso som”.

You're the closest to heaven that I'll ever be / And I don't want to go home right now”, ele cantou um pouco desafinado, repetindo a letra que ouvia na música. Você é a mais próxima do paraíso que sempre estarei / E eu não quero ir para casa agora. “É bonita, a música”, ele elogiou.

“É a minha favorita”, Hinata confessou.

And all I can taste is this moment...

(E tudo que posso sentir é este momento...)

“Talvez vire a minha também”, ele disse. “Você me acorda daqui a meia hora?”, ele pediu, a voz ainda chorosa.

And all I can breathe is your life...

(E tudo que posso respirar é a sua vida...)

Hinata assentiu, só iria embora dali a exatos trinta minutos mesmo; quando acabassem as aulas extracurriculares de Neji.

And sooner or later it's over...

(E mais cedo ou mais tarde se acaba...)

Observou-o ficar em silêncio e sentia a respiração dele normalizando enquanto a música ainda tocava. O cheiro de relva vindo da pele dele era inebriante. Ela fitou bem o rosto dele, parecia um anjo como estava. Uma criança vulnerável que se sentia protegida em seu colo.

Não sabia se era a luz prateada da Lua que os atingia, ali, sentados próximos da janela aberta, ou se eram os olhos dela que refletiam prateados diretamente na face dele, mas era absolutamente lindo vê-lo assim, platinado sob àquela luz. Cintilando. Ela quase tocou aquela rosto angelical que brilhava, quase secou aquelas lágrimas que banhavam o rosto que amava e que agora se tornavam prateadas mesmo que os cabelos dele tentassem tingir tudo com ouro. Mas ela se conteve...

Obliviate”, ela sussurrou, pensando, com um sorriso, que seria lindo se fosse como em Harry Potter mesmo, se com um feitiço ela pudesse apagar toda a dor que ele armazenava na memória.

... Parecia que interromperia um ritual divino se o fizesse. Um instante sagrado.


Notas Finais


¹: Um Feitiço da série dos livros/filmes de Harry Potter. É também conhecido como Feitiço do Esquecimento, e pode ser usado para apagar memórias da mente de um indivíduo.

As letras em inglês, do final do capítulo, são de “Iris – Goo Goo Dolls.”; a tradução está em itálico praticamente do lado da frase mesmo ou entre parênteses. Eu sempre digo a todos que já tenham me perguntado ou quando a questão surja, de alguma forma, que essa não é só minha música favorita no mundo todo como também é a música mais linda do mundo, independente de quais outras músicas existam no mundo. Não seria a fanfic do meu OTP escrita por mim com tudo que eu sempre sonhei numa fanfic NH se em algum momento não a citasse. Definitivamente não seria. <3

Bem... No mais... Mais explicações e ao mesmo tempo mais mistérios... Mais rodeios, mais história! Aos poucos vamos entrar mais nessa questão de Deus e Selene, e não será somente sobre fé; não se esqueçam que essa é uma fanfic que fala sobre olhos endemoniados, auras demoníacas, uma Lua que um dia fora uma pessoa... HAHAHA é louco, eu sei. Mas tudo um dia se ajeita! Uma observação: eu tô usando as iniciais, dos pronomes referentes à Selene e a Deus, maiúsculas pra enfatizar mesmo, pensem nisso como licença poética e à medida que eu for postando os capítulos a respeito disso, vamos trabalhando mais esses conceitos do ódio/crença do Naru e cia. Até o final da fanfic, tudo vai fazer sentido. Absolutamente tudo. De verdade!

Sobre o Olhos da Lua... No caso, é sobre o sistema que eu comecei a falar sobre no capítulo 9, mas que vou desenvolvendo mais com o tempo também. Só aguardem.

Ely é uma história fofa, porém rodeada de mistérios e com umas cenas um pouco sinistras também, vamos tendo paciência com o desenrolar da trama bem como com o desenrolar do OTP porque né, até a lentidão deles é fofa, SOCORRO! <3.

Mias três coisinhas rápidas agora:

1) Na parte que a Sakura pergunta ao Naruto por que ele não fica com a Hina, eu me segurei muito pra não dizer “Porque a autora não quer” HAHAHA.

2) Queria agradecer e deixar um beijão para todos vocês! O público de Ely está aumentando bastante – e eu estou amando isso, muito mesmo, tenho adorado cada comentário grandão que vocês têm deixado <3 <3, especialmente quando citam a Selene (GENTE, citar Selene é muito coisa de leitor de Ely mesmo, AMO MUITO, cês são incríveis! <3!) – obrigada mesmo, vocês são maravilhosos!

3) Pra quem eu prometi que ia rolar SasuSaku neste capítulo... Eu pensei sobre, mas achei que era mais importante desenvolver um pouquinho mais a Sakura primeiro e aí deixei pra fazer umas cenas dela e do Sasuke depois. Mas vai rolar, gente. E vão ser cenas bem bonitinhas, aguardem! <3

Próximo capítulo: Elas
(Provável que seja na próxima segunda também, porque estou escrevendo aos sábados, relendo nos domingos e postando nas segundas).

Sem esquecer: Tia Jac ama vocês. <3


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