História Em Dose Tripla - Capítulo 16


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Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix
Tags Saint Seiya, Yaoi
Visualizações 18
Palavras 4.555
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Lemon, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Fanfic atualizada em 3/12/19.

ATENÇÃO: ESTE CAPÍTULO SERÁ APRESENTADO DE FORMA DISTINTA DOS ANTERIORES. AQUI, SEGUIREMOS OS FATOS PELA PERSPECTIVA DO HYOGA.

BOA LEITURA!

Capítulo 16 - Hyoga


Acordo sobressaltado, sem saber que horas são. Isso é muito difícil de acontecer comigo. Meu relógio biológico funciona tão perfeitamente que eu nunca preciso colocar um despertador para me acordar. Até mesmo quando durmo tarde ou tenho uma péssima noite de sono, eu acordo cedo, sempre no mesmo horário...

Levanto de um pulo e percebo que estou no sofá. Não dormi na minha cama. Demoro alguns breves segundos para me localizar e entender por que eu estava ali...

E então me recordo.

Rikki.

Respiro fundo, porque a simples lembrança fez meu coração dar uma pequena acelerada.

Tento me concentrar, me recompor.

- Não, Hyoga. Agora não é hora para distrações. Recomponha-se! – tento falar para mim mesmo, em voz alta, a fim de ver se reencontro meu equilíbrio.

Entretanto, não tenho tempo para me restabelecer. Ouço meu celular tocando e vou correndo para meu quarto, para encontrar meu aparelho sobre a cômoda que fica ao lado da minha cama.

Vejo no visor do aparelho que a ligação é do meu tio Camus:

- Alô. – atendo, tentando esconder minha afobação.

- Hyoga? Como você está? – meu tio é sempre muito direto.

- Estou bem, tio.

- Está melhor? Passou bem a noite?

- Passei sim, tio.

- Tem certeza, Hyoga? Ou está falando isso apenas para evitar que eu vá até aí checar seu estado de saúde?

Meu tio é superprotetor comigo. Apesar da forma fria de falar e de agir, eu consigo reconhecer sua forma de demonstrar carinho e cuidado. Ele sempre cuidou muito bem de mim, desde quando eu era criança...

Porém, eu tenho plena consciência de que ele passou a ser superprotetor depois que minha mãe faleceu. Não sei como ele encara tudo o que aconteceu, mas acho que ele se julga responsável, muito mais do que deveria, por mim.

Eu sei que essa é a forma dele de cuidar de mim, de demonstrar preocupação, mas, às vezes... Eu me sinto sufocado.

Por isso eu saí de casa.

Depois que perdi minha mãe, fui morar com meu tio. Ele foi incrível comigo, me recebeu muito bem. Fez de tudo para que eu me sentisse à vontade e acolhido. E eu realmente me senti assim. Meu tio Camus sabe que ele é o pai que nunca tive.

Entretanto, sempre houve um excesso de cuidado, como se eu fosse feito de cristal e pudesse quebrar. Em relação à minha saúde, principalmente, ele sempre demonstrou grande preocupação. Acredito que seja por causa do que aconteceu com minha mãe...

Por isso, ele não me deixava sair muito com meus amigos. Tio Camus sempre achava que eles poderiam me levar a fazer algo perigoso, ou que colocasse minha saúde em risco...

Resultado: uma adolescência com praticamente nenhum amigo.

Lado positivo: criei um gosto enorme pela leitura. Como não podia sair muito de casa, eu ficava lendo e viajava nas minhas leituras...

Além disso, também criei um laço muito forte com meu tio. Eu não podia sair de casa sozinho, mas sempre que possível, tio Camus me levava para passear. Foi assim que conheci muitos dos lugares que adoro nesta cidade.

Contudo... há também o lado negativo...

À medida que crescemos... vamos desejando ganhar mais espaço e liberdade. E eu tinha chegado a esse ponto. Compreendia que jamais teria a liberdade de que necessitava morando com meu tio. Ele não deixaria de ser superprotetor de uma hora para outra.

Eu queria ter o meu lugar, mas não queria magoá-lo.

Foi aí que Milo apareceu em nossas vidas.

Eles dois já se conheciam há algum tempo, mas a relação foi crescendo e ganhando espaço na vida do meu tio.

Achei isso ótimo, porque até então eu sei que quem ocupava a maior parte da vida do meu tio era eu e não achava isso justo com ele. Meu tio precisava viver a vida dele, e não ficar apenas cuidando de mim.

Milo conseguiu ajudá-lo nesse ponto. E, quando percebi que a relação deles era forte o bastante, criei coragem e conversei com tio Camus sobre meu desejo de sair de casa, arranjar meu lugar.

Nunca vou esquecer o olhar dele nesse dia. Tio Camus achou que eu quisesse me afastar dele. Meu tio, que parece uma pedra de gelo em relação a sentimentos, demonstrou vividamente tanta dor naquele olhar que eu quase mudei de ideia e disse que iria ficar com ele. Por sorte, Milo, que participava dessa conversa, pôde me ajudar. Ele criou um clima mais leve, me deu apoio, disse a meu tio que isso era natural da idade, que era uma boa experiência para mim... Enfim, ele soube usar as palavras certas para transformar um momento ruim em algo positivo.

Milo realmente sabe como falar com meu tio.

Foi assim que vim parar neste apartamento, no qual vivo já há cinco anos. Precisei trabalhar duro, principalmente no início, para conseguir pagar o aluguel e as contas, mas dei conta. E sozinho! Tio Camus insistia em me ajudar, ele sempre queria pagar algo para mim, ou pelo menos me emprestar algum dinheiro. Sempre recusei com veemência. Eu queria dar conta de tudo por mim mesmo. Milo, mais uma vez, me ajudou nesse ponto, explicando para o meu tio que precisava me dar esse espaço. E, no final, deu tudo certo. Consegui me estabelecer. Comecei pegando bicos, fazendo uns trabalhos aqui e ali de freelancer e hoje já estou trabalhando em um jornal de grande porte, ganhando um bom salário, capaz de pagar todas as minhas contas com tranquilidade. Se eu quisesse, conseguiria um cargo melhor naquele jornal, mas insisto ficar na posição onde estou, pelo menos até conseguir desvendar esse caso em que estou há anos. Sei que já se tornou uma espécie de obsessão, mas não conseguirei fazer mais nada até levar aquela empresa para a justiça.

Meu tio, no fundo, sabe que não é muito saudável eu ficar tão preso a esse jornalismo investigativo. E aposto que, se ele soubesse o que investigo, ficaria ainda mais preocupado. Por mais que eu tenha conquistado meu espaço, tio Camus ainda acha que precisa me proteger do mundo. É por isso que ele gostou da ideia de me envolver nessa série. Era uma forma de me tirar um pouco desse mundo de jornalismo investigativo, além do fato de que eu ficaria mais perto dele, e ele poderia ficar de olho em mim.

É sempre assim; quando me envolvo com algo que tio Camus acredita que vai me afastar de coisas perigosas, ele apoia fortemente. Mas só até o momento em que ele começa a achar que isso também se tornou perigoso, e aí passa a querer que eu me envolva com alguma outra coisa.

Quando comecei a mergulhar nesse jornalismo investigativo, tio Camus aprovou muito a ideia e eu não sou ingênuo; sei bem o motivo. Eu estava vivendo a plenitude da minha adolescência e sei que despertava alguns olhares, alguns interesses. Sei também que tio Camus me vê como uma criança de dez anos até hoje, então ele ficou horrorizado quando percebeu que eu estava crescendo. Eu, no entanto, nunca fiquei seriamente interessado em ninguém, porque minha busca por justiça, minhas investigações me tomavam praticamente todo o tempo que eu tinha. Foi por isso que tio Camus não se opôs quando me viu mergulhar de cabeça nesse mundo, pois isso me mantinha afastado de “predadores”.

No entanto, quando comecei a trabalhar para valer com isso, fazendo bicos e investigando nas ruas muita coisa por conta própria, tio Camus ficou muito preocupado. Sempre tentava me induzir a trabalhar com outra coisa, descobrir novas vocações...

E foi assim que chegamos aonde estamos hoje. Eu, trabalhando como ator nessa série, junto com meu tio:

- Tio Camus, eu estou bem. Juro.

- Eu não sei se posso confiar. Pelo que Shun falou ontem, você não estava nada bem.

- Sim, mas já melhorei.

- Eu não devia ter deixado Milo me convencer de deixar você em paz ontem. Eu devia ter ido aí para ver o seu estado com meus próprios olhos.

- Tio, por favor... Fui eu que pedi para ele não deixar você vir aqui... Seria uma perda de tempo desnecessária e você já tem coisa demais para fazer.

- Está bem. Eu quero acreditar em você, Hyoga. Mas só acredito vendo. Acha que vai conseguir vir ao estúdio para gravar hoje?

- Sim, consigo.

- Tem certeza?

- Tenho, tio... – suspiro discretamente.

- Está bem. Ainda quero conversar direito com você. Não é típico de você passar mal assim, tão subitamente, Hyoga. Aposto que não está cuidando direito da sua saúde. Vamos conversar direitinho sobre isso quando você chegar aqui, entendeu?

- Entendi.

- Ótimo. Venha logo. Shaka e Ikky estão terminando de gravar as cenas deles e logo será a sua vez e de Ikki. Não se atrase.

Engulo em seco só de ouvir o nome de Ikky. E percebo um certo incômodo em mim mesmo ao me dar conta de que ele está com Shaka agora, gravando provavelmente... alguma cena mais quente.

- ...Hyoga?

- Sim, tio Camus? – respondi, voltando do meu devaneio.

- Não se esqueça. Eu te amo, meu garoto.

Abro um grande sorriso, como sempre ocorre quando ele se despede assim de mim. Independente do que estivermos falando, até quando estamos discutindo... ele sempre se despede dessa forma de mim. Sempre. E eu sempre sorrio em retorno:

- Também amo você, tio.

************************************************

Chego ao estúdio já mais recomposto. Tomei uma ducha fria para acordar inteiramente e colocar as ideias no lugar antes de sair de casa. Isso me ajudou a esfriar a cabeça e sentir que eu voltava ao meu controle.

No caminho, passei na minha cafeteria preferida e pedi meu café duplo, para estar forte o bastante para enfrentar esse dia.

Afinal, eu consegui colocar as ideias em ordem... E o resultado não foi bonito.

Eu compreendi que ontem à noite, Rikki veio me visitar e... Bem, isso foi completamente inesperado. Ontem, passei o dia todo confuso, perdido, desencontrado de mim mesmo.

Bem feito para mim, que em vez de viver minha adolescência como um jovem normal, fiquei tão obcecado por minhas investigações, que não me permiti viver certos relacionamentos como outro adolescente qualquer.

Sim, eu tive um casinho aqui e outro ali...

Mas nunca me senti como agora.

Eu estou me sentindo atraído pelo Ikki.

E pelo Ikky.

E, depois de ontem... acho que pelo Rikki também.

Qual o meu problema? Será que, inconscientemente, estou querendo tirar o atraso de anos sem tantos envolvimentos amorosos?

Eu não sou essa pessoa. Eu nunca fui assim!

Se bem que... verdade seja dita, eu nunca me abri para algo assim antes. Nunca me permiti maior envolvimento ou aproximação com outra pessoa, porque não queria perder o foco das minhas investigações.

Além disso... nunca me apareceu alguém que fosse interessante o bastante para me tirar esse foco.

Com o Ikki foi diferente... Eu acho. Será? Será que eu realmente teria me interessado pelo Ikki se não estivéssemos gravando essa série? Será que meu encantamento por ele não apenas é fruto da história que estamos encenando? Será que eu teria sentido o mesmo se o tivesse conhecido na vida real, e não no meio de uma história fictícia?

Talvez essa série tenha apenas me deixado mais vulnerável para perceber o Ikki. Talvez, se não fosse por essa série, eu não tivesse dado essa abertura para o Ikki se aproximar...

Mas... mesmo assim... ainda assim... Eu não sei como, mas acho que notaria o Ikki de qualquer forma. Ele é tão... diferente de tantas pessoas que já conheci.

É claro que me encantei com as letras das canções que ele escreve. Senti que podia ver dentro da alma dele lendo o que ele escrevia. E era tão profundo, tão intenso...

Minha atração por ele aconteceu de forma tão magnética, tão poderosa...

Não consigo nem dizer o quanto fiquei frustrado quando achei que, naquela noite, ele estava correspondendo aos meus sentimentos. Achei que fôssemos nos beijar, eu realmente achei, ansiei, desejei isso...

E aí ele se afastou, como quem pensa melhor e resolve que não é uma boa ideia. Fui ignorado e tudo bem que não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu, mas... Nunca doeu tanto.

Isso me afetou de uma forma inteiramente nova. Disso eu tenho certeza. Foi a primeira vez que algo me afastou inteiramente da minha pesquisa jornalística. Acho que sou bem mais sensível do que gostaria e nunca quis tanto ser uma pedra de gelo como meu tio Camus.

Eu não estava legal, não conseguia entender o que estava sentindo. Não era apenas mera frustração, eu realmente me senti... ferido com aquela rejeição. Eu nunca tinha me sentido realmente ferido em alguma relação. Nunca. E, de repente, eu senti numa intensidade que me parecia forte demais para suportar.

E aí, no meio do caos que estava a minha cabeça... Ikky veio ao meu camarim e, sem que eu entenda como ou por quê... Ele me beijou.

Céus, que beijo maravilhoso!... Aquela boca, aquele corpo, aquelas mãos...

Eu fico zonzo só de lembrar.

Aquele homem me envolveu de um jeito que me fez finalmente parar de pensar, como se, de repente, tudo fizesse sentido, tudo enfim se encaixasse...

Mas nada se encaixava.

Que balde de água fria foi perceber que eu beijava o Ikky pensando no irmão gêmeo dele! Que desgosto eu senti de mim mesmo ao perceber o que estava fazendo! Eu estava usando o Ikky? Que horror, eu nunca pensei que fosse capaz de fazer algo assim! Sempre me achei tão sensato!

Entretanto, lá estava eu, me entregando àquele beijo delicioso, desejando que ele nunca acabasse...

Porém, a consciência do que eu estava fazendo falou mais alto. E, mesmo tendo de fazer um esforço gigantesco, consegui me separar do Ikky.

Eu me sentia péssimo e agora por diversos motivos. Eu ficava pensando no que Ikki diria quando o irmão contasse que tínhamos nos beijado. Será que ele se zangaria? Mas o próprio Ikki me rejeitou! Ele não tinha o direito de se chatear se eu ficasse com o irmão dele! Por outro lado... eu queria que Ikki se chateasse...

Ah, droga!! Eu estava confuso, completamente confuso!

Eu também não queria causar problemas para eles. Ikki disse que se dava tão bem com os irmãos; eu não queria atrapalhar isso de forma alguma! Ao mesmo tempo, eu queria tanto que Ikki ficasse enciumado, quando Ikky lhe dissesse que havíamos nos beijado no meu camarim. Se Ikki ficasse com ciúmes, isso demonstraria que eu significava algo para ele... Ao menos, era nisso que eu queria acreditar.

E o pior é que, no meio de todos esses pensamentos confusos... Eu simplesmente não conseguia parar de pensar no beijo que Ikky e eu trocamos no meu camarim...

Eu nunca beijei e fui beijado daquele jeito... Foi um beijo tão forte, que eu senti que foi muito mais que apenas pele... Sim, claro, houve tesão naquele beijo... Muito tesão, até quase insuportável... Mas havia algo mais; era um beijo que trazia uma sintonia, como se nossos corpos se entendessem tão perfeitamente e fossem capazes de dialogar por conta própria...

Aliás, o que me pareceu essencial, já que eu não troquei muitas palavras com Ikky. No entanto, independente disso, pareceu haver uma química entre a gente inexplicável. Tão forte, mas tão forte, que, mesmo sem querer, uma parte de mim ficou cogitando se Ikki beijaria tão bem quanto o irmão.

Achei que eu estivesse pirando, misturando as coisas... Era óbvio que eu estava interessado em Ikki, apenas no Ikki. Porém, como fui rejeitado por ele, acabei transferindo sentimentos para o irmão gêmeo dele, devido à semelhança.

Mas aí... no domingo, quando reencontrei Ikky perto da praia...

Quando o levei para o meu apartamento...

Quando comecei a sentir de novo aquele desejo... Eu não consegui me refrear. Era como se Ikky tivesse despertado algo em mim e, na presença dele, o que ele despertou regressasse com força.

O novo beijo que trocamos no meu apartamento... Eu não estava confuso; sabia que estava beijando o Ikky. Sabia perfeitamente disso.

E o desejo continuava queimando, crescendo.

Eu desejei tanto aquele homem, eu queria tanto sentir a pele dele, o beijo dele, o gosto dele... Eu estava louco de desejo e tudo isso sem conhecê-lo direito!!

O fato de Shun ter nos interrompido foi bom e ruim ao mesmo tempo.

Foi bom porque... Aquilo era uma loucura. Eu não podia ir até o fim com aquilo.

Porém... eu desejava loucamente ir até o fim com Ikky.

Por isso não consegui me levantar da cama ontem. Eu estava vivendo uma verdadeira ressaca moral. Eu estava desgostoso de mim mesmo. Eu sabia que minha atração pelo Ikki não tinha diminuído. Eu ainda me arrepiava só de me lembrar do olhar dele enquanto ele cantava suas canções. Eu ainda queria conhecer mais dele, desbravar sua alma, ser parte, de alguma forma, da vida dele...

Mas, simultaneamente... Eu desejava o Ikky. Eu desejava o Ikky de uma maneira como nunca desejei ninguém antes. Fisicamente falando. Nem sabia que era possível sentir tanto tesão por uma pessoa. Eu nunca havia experimentado algo assim antes.

E eu me sentia péssimo. Era como se eu desejasse o Ikky ardentemente, com todas as minhas forças... Mas me sentisse poderosamente atraído pelo espírito inquietante e misterioso do Ikki...

E, se isso já não fosse confuso o suficiente... me aparece o Rikki ontem à noite.

Eu não menti para o Shun. Eu não estava interessado no Rikki, não mesmo. Quando conversávamos, eu normalmente me aproximava dele na intenção de conhecer algo mais do Ikki. Por algum motivo, o Rikki me pareceu mais acessível, apesar de ele não ter gostado muito de mim logo de cara.

Com o Rikki, a conversa fluía de uma forma diferente. Apesar de também ser reservado como os irmãos, ele me parecia um pouco mais aberto... o que faz ele aparentar ser mais maduro mesmo.

Eu gostei de conversar com o Rikki desde o início, não nego. Mas não era nada de mais, eu acho. O papo dele é muito legal...

São duas formas diferentes de conversar.

Com o Ikki, eu sinto quase como se fosse um diálogo de almas... Ao menos, era o que eu sentia... Parecia haver uma interação tão profunda entre a gente; parecia que no silêncio trocávamos ideias mais significativas do que quando falávamos...

Mas, com o Rikki... é um bate-papo cabeça mesmo. Ele realmente já leu muitos livros. Enquanto assistíamos aos filmes, ele ia discorrendo sobre outros livros, sobre o que achava deles, fazendo comparações, tecendo análises geniais... Eu fiquei boquiaberto com o quanto aquele homem já tinha lido, com o quanto ele conhecia a respeito de tantas coisas... Simplesmente, me deu vontade de ficar ali ouvindo ele falar. E Rikki poderia falar por horas que eu continuaria encantado com a bagagem cultural daquele homem.

Shun tem razão, Rikki também é incrível. É uma companhia agradável, é protetor, cuidadoso... inteligente, culto, já leu tantos livros... É realmente uma companhia fascinante.

E eu... Ah, eu sou um idiota que não tem a menor ideia do que estou fazendo. Estúpido, é o que sou! Veja muito bem o que está fazendo, Hyoga! Está se envolvendo com os três irmãos, como se tivesse esse direito! Está se interessando pelo cara por quem o seu melhor amigo está apaixonado! Pois é, Hyoga! É isso que você é! Você é um crápula! Um imbecil! Um egoísta! Um...

- Hyoga! Até que enfim você chegou! Como está? – tio Camus aparece, interrompendo meus pensamentos. Ele vem direto até mim, já colocando a mão sobre minha testa – Você está um pouco quente.

- Não é nada, tio. – tento desconversar, afastando sua mão da minha face. Eu estava quente, estava nervoso...

- Não? – tio Camus me olha com aquele olhar perscrutador – Não parece ser nada.

- E aí, garoto! Que bom ver você! – Milo aparece e eu sorrio levemente. Com ele presente, será mais fácil despistar meu tio – Ficamos preocupados ontem. Tudo bem com você?

- Tudo sim, Milo. É muito trabalho, só isso. Já estou bem melhor. – respondo e tomo um gole do meu café. Aproveito para dar uma olhada ao redor – O... Ikki já está aí? – pergunto tentando me demonstrar indiferente para a resposta.

- Ainda não. Você sabe que um só aparece quando o outro sai de cena... Essas brigas entre eles. – Milo dá de ombros – E Ikky ainda está terminando de gravar sua cena com o Shaka. – ele finalizando, apontando com os olhos para onde a gravação acontecia.

Sem dizer mais nada, simplesmente começo a caminhar na direção sinalizada por Milo. A cada passo, sinto o coração bater mais forte, impaciente e ansioso. Preciso ver essa cena que estão gravando. E tenho receio do que vou ver.

Quando me aproximo o suficiente, consigo ver o final da cena.

Ikky e Shaka estava discutindo sobre algo.

Shaka, como sempre, tentando se valer de sua posição para subjugar Ikky.

E Ikky... Céus, esse ar rebelde, esse jeito de quem não vai se render, de quem vai provocar até o fim...

Ikky é absurdamente atraente. Eu não posso negar.

Balanço a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Busco me concentrar na cena que estão gravando. Shaka está olhando de modo cínico para Ikky, que parece enfurecido e sem capacidade de controlar a raiva que sente quando o empresário o desafia desse jeito, com os olhos.

Ikky avança para Shaka...

- O que vai fazer, Ikky...? – Shaka diz, com a voz levemente estremecida devido à súbita proximidade entre eles, sem deixar de encarar Ikky nos olhos – Vai me beijar para tentar mostrar quem é que manda? – o loiro pergunta, com deboche.

- Você bem que gostaria... Não é? – os olhos de Ikky são avassaladores – Mas não vai ser assim, Shaka... Se quiser que eu te beije de novo... Você vai ter que me pedir.

- CORTA!!! Excelente, pessoal!! – grita Aioros.

As luzes se acendem, o barulho usual do estúdio volta a se fazer ouvir plenamente. Eu não consigo deixar de olhar para Ikky. Uma sensação ruim, um aperto no peito...

- Boa cena, Ikky. – vejo Shaka estendendo a mão para o Ikky – É bom ver que agora está levando essas gravações mais a sério.

Ikky aceita o cumprimento e sorri. E eu, me sentindo um completo idiota, por não saber o que estou fazendo ali, sentindo que estou sobrando, finalmente ganho forças suficientes para sair daquele lugar.

Vou tomando meu café em grandes goles, me afastando de lá o mais rápido que consigo. Em passadas rápidas eu me afastei o bastante para sair do estúdio. Eu precisava de ar fresco.

- Ei! – volto-me para trás e me deparo com Ikky – Você não me ouviu chamando você?

Eu pisco os olhos algumas vezes, sem saber o que responder. Finalmente, consigo murmurar alguma coisa:

- Eu... não ouvi.

- Você saiu tão rápido que precisei correr para te alcançar. – ele abre um sorriso jovial maravilhoso.

- É, eu... estava tomando café. – eu respondo e logo percebo que o que disse não faz o menor sentido.

Eu estava com vontade de desaparecer de tanta vergonha.

- Ah... certo. – Ikky olha para o copo na minha mão e faz uma expressão confusa de quem acha alguma graça no que acabei de dizer – Olha, eu... soube que você não passou muito bem o dia de ontem... Queria saber como está.

- Estou bem. – respondo rápido – Estou ótimo. – finjo olhar no relógio – E estou atrasado, está na minha hora de gravar agora. Com licença.

- Hyoga, eu fiz alguma coisa? – Ikky pergunta depressa, antes que eu pudesse me retirar.

Suspiro profundamente antes de olhar para aqueles olhos que me transmitem uma tentadora rebeldia:

- Não, Ikky. Você não fez nada.

- Não é o que parece. Está fugindo de mim. Pensei que não estivesse arrependido... – e então me lembrei que ele me perguntou exatamente isso antes de ir embora do meu apartamento.

E eu havia respondido que não me arrependia de nada.

- Eu não estou arrependido, Ikky... É só que...

Nesse momento, os olhos dele encontraram os meus.

E era como se eu simplesmente não pudesse ocultar a verdade deles.

- Eu... Não gostei de ver você gravando com o Shaka. – falei de uma vez e com uma firmeza que me surpreendeu.

Ikky pareceu ficar igualmente surpreso. Acho que ele não esperava que eu dissesse isso.

- Era... só uma cena, Hyoga.

- Mesmo assim. Eu... – eu não acreditava no que estava prestes a falar – Eu quero que você me beije, Ikky.

Como se eu pudesse tomar o lugar do Shaka naquela cena, eu fiz o pedido. O pedido que Ikky, em cena, disse que Shaka teria de fazer se quisesse sentir o beijo dele novamente.

E isso era tudo o que eu queria naquele momento.

Mais uma vez, eu não conseguia pensar na presença do Ikky.

E ele, mais uma vez, não hesitava em fazer o que eu tanto desejava.

Ikky segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou com tanta vontade que eu senti meu corpo inteiro fraquejar. Felizmente, ele me pressionou contra uma parede, trazendo-me algum amparo assim, ao mesmo tempo que esta servia de apoio para que aquele beijo logo se transformasse em uma dança sinuosa e sensual entre os nossos corpos...

- Hyoga.

E de repente, mais uma vez, nosso beijo de desfaz subitamente.

- Milo! – eu vejo o companheiro do meu tio e fico pálido de susto.

- Seu tio está chamando você lá dentro. – Milo olha para mim e para Ikky com um olhar devastador – Vá logo falar com ele. Você sabe que ele está preocupado.

- Está bem, eu já vou. Só quero antes...

- Agora, Hyoga. Ou seu tio acabará vindo aqui fora. – Milo fala com a voz tranquila, mas com um olhar que demonstra que ele não está tão calmo assim – E eu acho melhor ele não vir aqui agora... Então entre logo.

- Está bem. – resolvo aceder – E... você não vem comigo, Milo? – pergunto, ao perceber que Milo continua parado, de braços cruzados, encarando Ikky.

- Já vou. Tenho uma coisa para resolver aqui primeiro.

- Milo, por favor. Deixa disso... – eu começo a falar, mas Ikky me interrompe.

- Está tudo bem, Hyoga. – ele fala num tom sereno – Daqui a pouco eu entro também. – Ikky diz, para então encarar Milo de volta.

Compreendo que não vai adiantar ficar ali. Esses dois parecem igualmente teimosos e dispostos a ignorar qualquer tentativa minha de intromissão. Depois eu converso melhor com Milo. E, realmente, se meu tio Camus aparecer e perceber o clima estranho que está ali fora, a situação pode ficar muito pior. Não digo mais nada e volto para dentro do estúdio.

Lá dentro, sou logo interceptado por Aioros:

- Hyoga, vá logo se arrumar. Temos cenas importantes para você gravar com o Ikki hoje. Afrodite já está a postos para dar alguns retoques em você! Vamos logo, que não podemos perder tempo! – diz o diretor que, apressado, termina o que tem para me dizer e já vai resolver algum outro problema.

E com a fala de Aioros, eu regressei à minha realidade.

Foi então que eu me dei conta de que seria a primeira vez que eu veria Ikki novamente... Desde que meus sentimentos começaram a se confundir.

E eu não tinha ideia de como começar a falar com ele.

 

Continua...



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