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História Em Meu Pequeno Mundo - Capítulo 4


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Notas do Autor


Então pessoal, as férias acabaram.
Mas a história não.
Ou seja, enquanto vocês não lerem "Terminada" nas características deste conto, eu vou continuar postando.
Capítulo longo que eu sei que vocês adoram.
Boa leitura :)

Capítulo 4 - Capítulo IV


Após o drama das chaves, o dia prosseguiu sem nenhuma novidade. Papai chegou no período da tarde e trocou poucas palavras entre seu irmão e eu.

Meu pai dividia comigo a mesma sensação de abandono, e não estávamos tão ansiosos para retornar ao "normal". Digo entre aspas pois é impossível que isto ocorra.

Sem minha mãe, nada seria normal.

Francisco e eu conversamos um pouco sobre como seria daqui em diante. Ele gostaria de saber como funcionaria a distribuição das funções domésticas, como  a limpeza dos cômodos, cuidados com os móveis e compras em geral. Eu pedi que guardássemos o assunto para um outro momento, afinal não estava disposto a pensar nisto.

Durante a noite, eu não tranquei a porta do meu quarto. Nesta ocasião, não foi incidental. Fiz de maneira premeditada. Esperei por meu pai. Não o procurei deste que mamãe se foi, e eu costumeiramente buscava o seu colo para chorar.

E bem como o esperado, ele compareceu. De modo semelhante à noite anterior. Abriu a porta devagar, quase sonolento, e depois se deitou ao meu lado. Senti o braço em minhas costas, pressupus que se posicionou com o abdômen apontado para o teto. Eu não me virei para olhá-lo. Somente me despedi. Porém, tal como outrora, minha resposta foi entregue num suspiro dorminhoco.

Isto se converteu em uma rotina noturna. Uma companhia serena, mas cheia de sentimentos.

Brevemente, o final de semana chegou trazendo junto a festa de Giovanni.

Maldição. Por que eu aceitei ir?

Nada me serviria arrependimentos, o combinado já estava selado.

Através de alguns recados, marquei de ir para a confraternização às 19 horas daquele dia. A casa de Giovanni ficava dez residências após a minha, sentido à quadra de esportes.

Contudo, eu não queria simplesmente sair sem deixar ao menos um bilhete.

Durante a manhã, não encontrei o Francisco.

Sorte... afinal, eu estava uma balbúrdia de sentimentos. Cada vez que o encontrava eu não sabia como reagir... ou que sentir.

Papai saíra logo cedo do meu quarto, porquanto não o avistei ao sair do sono. Além disto, tomei o café sozinho, então ambos os mais velhos estavam espalhados pela casa.

Com o mínimo de energia e também me esquivando a todo instante de um rio de lágrimas, adicionei um filme à minha televisão particular e passei o tempo assistindo e comendo chocolates.

                          [...]

Quando decidi me mover da seleção de filmes para almoçar, já se passavam das duas horas da tarde. No corredor, eu pensei em meu pai. Talvez ele estivesse recluso em seu quarto. Fui até lá para chamá-lo. Porém o local estava vazio.

Resolvi vasculhar o andar de cima, até que finalmente o encontrei na cozinha, conversando com o meu tio Francisco. Eles pareciam se entender muito eficazmente, mesmo com todos estes anos separados um do outro.

— Pai? — Chamei sua atenção.

— Boa tarde, Serafim. — Os dois falaram seguidamente, praticamente numa melodia conjunta.

— Pai, hoje é aniversário do Giovanni.

— Ah!... — Ele bebeu da xícara que eu desconhecia o conteúdo. — É aquele seu amigo formado em Engenharia?

— Não pai. Esse é o Cézar, irmão do Giovanni. O Giovanni é o estilista.

— Ah sim. Entendi. Mande saudações em meu nome. — Ele sorriu e se virou para Francisco.

— Em meu nome também! — O maior disse, levantando o copo de cerâmica na mão direita como um brinde.

— Hoje vai ter uma festa e eu fui convidado. Posso ir? — Questionei manso.

— Claro, filho! — Voltou atenção para mim. — Onde é? Quer que eu te leve?

— Não se faz necessário. É na casa dele. Fica aqui no condomínio mesmo. Até o carro é dispensável, posso ir e vir a pé. Eu só queria avisar vocês.

— Tudo bem, meu filho. Está vendo, grandão? Maior de idade e ainda se preocupa com o pai. Isso que é um garoto de ouro! — Meu pai me elogiou, deixando-me sem jeito.

— Verdade... — Francisco concordou, me fitando com um sorriso. Bendito sorriso.

— Bem, só não esqueça de me ligar se for dormir fora ou na casa de um estranho. Não quero que nada te acometa.

— Tudo bem, pai.

— Até mais tarde, filho.

— E não fique bêbado! — Advertiu Francisco rindo.

Revirei os olhos.

— Cuidado com isto também Serafim! — Papai concordou. Claro, dois contra um, muito justo.

Você me paga Francisco!

— Não vou cair de bêbado como certas pessoas estão imaginando. — Gargalhei junto a ambos ao passo em que os deixava a sós.

                         [...]

Uma hora e meia antes de marcar presença na festa, eu iniciei o processo de cuidados pessoais, para manter a aparência.

A princípio, cuidei de minha barba, que por sinal não tinha definição nenhuma. Com uma maquininha, diminuí sua densidade, tamanho e contornei o meu rosto por completo, resultando em um padrão mais belo de se ver.

Me despi e me entreguei a uma ducha rigorosa, esfregando cada região do meu corpo de maneira particular e sem pressa. Este sabonete de mel era realmente um presente dos Deuses.

Após eliminar as impurezas e estampar uma nova face, a etapa seguinte demandava uma organização detalhada. Quando se tratava de moda, Giovanni não detia a língua.

Camiseta vermelha, bermuda sarja preta e o mesmo tênis que utilizei no outro momento da semana. Para proteger meus pertences, a bolsa carteiro mini — de cor preta para harmonizar — me ajudaria. Chaves, carteira e o celular. Tudo guardado perfeitamente.

Eu possuía uma coleção de perfumes. Escolhi o melhor para a ocasião e respinguei alguns jatos entre o pescoço e a camiseta.

Para resistir à horas de bagunça, apliquei sobre meu rosto uma dose de hidratante, massageando de maneira sutil e assentando o creme até se tornar parte de mim.

Limpo, perfumado e bem arranjado, a saída estava propícia.

Passei pela sala e Francisco segurou o meu pulso, o que obviamente me fez calafriar.

Meu Deus Francisco! O que você tem? — Perguntei de nervoso.

— Eu queria te ver. — Ele esbanjou o mesmo sorriso de sempre (contido na linha de seus lábios e sem mostrar os dentes).

— Por quê? Aconteceu alguma coisa?

— Você... — Ele me observou atentamente de cima a baixo.

— Eu o quê? — Indaguei, confuso.

— Você está lindo. — Finalmente respondeu, soltando-me cautelosamente.

Por quê? Por que justo agora Francisco?...

— Podia ter me dito isto no meu retorno.

— Você vai festejar. Todo seu esforço para se embelezar vai de desvair em suor e álcool.

— Por que você disse aquilo na frente do meu pai? Por ventura ele levou na brincadeira.

— Eu só estava bobeando. Me perdoe. — Ele encurvou a expressão em melancolia.

Bendito jogo de sobrancelha.

— Está tudo bem. Mas nunca mais faça isso. Você vai deixar meu pai muito preocupado. — O repreendi.

— Está bem... garoto do papai.

O larguei sozinho imediatamente.

— Se cuide. — O ouvi gritar longínquo.

Caminhei à velocidade reduzida. Contemplando as luzes que surgiam de outras casas e os jardins. Algumas pessoas conversavam e bebiam sentadas em bancos de sol, desfrutando do calor de verão que perdurava mesmo em plena sombra noturna.

Também testemunhei alguns carros que passavam por mim e percorríam a mesma direção que eu seguia. Outros convidados de Giovanni.

Admirei o céu estrelado e sonhei em estar mais entusiasmado para adentrar o meu destino. Percebi naquele pensamento que mamãe realmente era a alma da festa. E já que ela se foi...

Como o espaço entre as casas era longo, vários minutos se passaram até eu passar da nona casa. Alguns metros posteriores era possível escutar as músicas que agradavam Giovanni e seus convidados.

Olhei para a entrada e vi o aniversariante conversando com três colegas. Duas mulheres e um homem que pareciam ter a nossa idade.

— Serafim! — Giovanni gritou ao me ver. Levantou as mãos rapida e dramaticamente, jogando uma bebida estranha para trás.

Ele correu e me abraçou, enquanto eu pensei que por conta daquele coquetel meu amigo já estava bêbado.

— Feliz aniversário! — Falei sorrindo à medida que os outros três nos assistiam.

— Pensei que não viria... — Balbuciou de forma melosa.

— Surpresa!... — Fingi ânimo súbito.

— Vem cá, deixa eu te apresentar... — Agarrou a minha mão e me levou para onde estava anteriormente. — Pessoal, esse aqui é um grande amigo meu, Serafim.

— Prazer, sou Lavínia. — Uma delas se pronunciou. Loira de cabelo longo e liso.

— Sou a Clara. — A outra acenou e bebericou seu copo, tenuemente ruborizada. Esta usava óculos e cabelo preto chanel.

— Me chamo Italo. — O homem me ofertou uma piscadela.

— São meus colegas de trabalho. São ótimos. Eu estou aguardando os outros convidados, pode entrar. A comida está na cozinha e pegue o que desejar na geladeira. Eu contratei um barman, ele está na sala, próximo à pista de dança. Tudo está perfeito! Vai lá! — Bruscamente encerrou o tema, me empurrando para o interior, que transbordava em animação.

Boquiaberto com a movimentação, adentrei o ambiente conturbado devagar. Três densas colunas de pessoas dançavam no ritmo da canção que tocava. Um pouco atrás, um homem chacoalhava uma coqueteleira, ao mesmo tempo em que alguns conversavam com drinks à mão.

Havia uma quantidade assustadora de gente naquele local. Não estava disposto a falar com nenhuma delas. Talvez alguns de nossos amigos de escola estivessem lá. Contudo, eu não me daria o trabalho de varrer todo aquele aglomerado.

Na cozinha, as pessoas atravessavam initerruptamente. Beliscavam os aperitivos tanto doces quanto salgados. Havia um balcão com seis caixas de salgados separados em duas pilhas, cada uma com três reservas de petiscos. Do outro lado, dez caixas de pizza separadas da mesma maneira.

Uma mesa de canto exibia uma caixa repleta de cupcakes coloridos e ao lado brownies que fizeram meus olhos brilharem.

— Tem que perguntar se o Giovanni vai querer que coloquemos mais sanduíches de peito de peru. Acabaram. — Uma garota disse para outra ao lado com um caderninho nos braços.

— Há muita comida, é o bastante. — Respondeu dando de ombros.

Pensei que fossem as organizadoras da festa.

As pessoas se espalhavam por toda a casa, exceto no andar superior. Com alguns pedaços de brownie, explorei cuidadosamente a casa. A situação na área de lazer estava semelhante à sala de estar: pessoas dançando e bebendo. Entretanto, nesta outra, uma piscina aumentava o nível de diversão.

Fiquei um tanto preocupado. Álcool e água gelada não pareciam uma boa combinação. Torci para que houvessem amigos sóbrios.

Destraído com a movimentação intensa, pouco reparei quando uma figura passou pelas minhas costas. Me virei abruptamente e dei de cara com o homem que conheci na entrada da residência.

— Serafim, não é mesmo? — Ele estendeu um copo descartável com a mesma beberagem que Giovanni desperdiçara.

— Sim... — Não mantive a segurança de aceitar a bebida. — Obrigado, mas estou bem.

— Qual é? Tem medo? — Riu ele e bebericou ambas as porções alcoólicas para comprovar a segurança. — Viu? Sem "Boa Noite, Cinderela". — Insistiu.

Envergonhado, cedi.

— Você se chama Igor, não é? — Questionei. Tal como o aspecto, o sabor daquilo era estranho.

— Italo. É normal confundir, não se preocupe. — Exibiu um sorriso desdentado.

— Como aprendeu tão depressa o meu nome? Não é o menos complicado.

— Giovanni falou muito sobre você.

— O que ele disse? — Perguntei estreitando o olhar.

— O suficiente... — Me encurralou numa das pilastras, me deixando perplexo.

Italo era maior do que eu. Barba rala e cabelo degradê, com um topete galanteador. Sua camiseta estava colada, demarcando o abdômen definido. A bermuda jeans era bem estilosa.

Seu braço esquerdo bloqueou minha saída, no lado oposto, sua boca chegou perigosamente perto de meu pescoço.

— Que tal sairmos daqui? — Murmurou tão baixo que a música quase se sobressaiu sobre sua voz grave.

Há quanto tempo eu não recebia uma cantada tão poderosa? Eu terminei com meu último namorado logo após os médicos detectarem a doença de mamãe. Geralmente era o outro que se despedia. Mas eu não podia ser mais atencioso naquela situação e não queria aprisionar ninguém.

Meu novo tio, agia de modo peculiar. De certa forma, pude jurar que flertara comigo. Porém, eu preferia ignorar aquilo. Ainda que uma parte minha o desejasse...

Vi naquele desconhecido um modo de esquecer tudo isso. A festa se colocou como uma oportunidade para que eu me desmanchasse em outros pensamentos que não fossem os que me aflingiriam por toda a vida.

Não queria pensar em morte.

Muito menos no meu tio... pelado.

— Vamos... — Falei sentindo as primeiras ondas de excitação.

Ele pegou a minha mão e seguiu caminho por algumas salas até adentrar no que parecia um dos quartos de hóspedes.

Nos beijamos. Os copos foram abandonados em uma raque e os dedos se cruzaram. Ele me espremia na porta e eu o envolvia com um toque quente e úmido. Nossas línguas travaram uma briga para qual seria a dominante. A mais musculosa venceu. A dele. Minha boca foi experimentada em diferentes ângulos. Meus lábios ferviam e senti um gosto de álcool enquanto Italo exasperava a respiração.

Nos separamos por um tempo.

Uou. Achei que seria mais difícil. — Ele lambeu os beiços.

— Cala a boca. — Gargalhei.

Havia um sofá onde cabiam duas pessoas. Trocamos olhares e concordamos silenciosamente em usar o móvel como o apoio.

Italo sentou-se por baixo e eu me refugiei em seu colo. Ele segurou firme em minha cintura ao passo que eu brincava com seu lábio antes de me aprofundar num beijo molhado.

Apesar do tecido de sua bermuda ser duro, eu consegui sentir a ereção atrevida. Confesso que não poderia ocultar a minha.

O contato se prolongou por minutos preciosos. Eu parava e invadia a sua boca com mais fome. A saliva tornou o processo barulhento, todavia isto apenas deixava mais gostoso.

— Quer ir pra minha casa? — Perguntou ele, interrompendo nosso toque.

— Aqui está ótimo. — Eu respondi, tamborilando os dedos em sua barba fina.

— Eu queria fazer algo especial hoje... vou para a Europa amanhã.

— Sério?! 

— Conquistei uma vaga numa empresa renomada. E eu queria me despedir do Brasil de uma forma mais... quente. — Me encarou safado.

— Me deixou excitado... — Revelei, recebendo um beijo lento e baboso. — Mas não estou empolgado para transar.

— Não parece. — Ele me obrigou a fitar minha ereção.

— É que estou com alguns problemas... Giovanni não falou nada sobre isso?

— Não... acho que ele quis proteger a sua imagem. Problemas financeiros? Profissionais?...

Pessoais. Eu queria muito poder gozar horrores com você...

Gargalhamos.

— Entretanto, eu não estou nas melhores condições.

— Está tudo bem. — Confirmou com um beijo. — Isso foi ótimo. Quem sabe outro dia.

Saí do colo dele e pronto nos levantamos.

— Se mudar de ideia ainda esta noite...

— Te procuro. Prometo! — Falei risonho.

— Foi bom?

— Sim, amei.

— Podemos ficar aqui um tempinho, o que você acha?

Minha opinião foi explícita quando colei outro beijo e o levei de volta para o pequeno sofá.

Ficamos por quase meia hora no quarto e posteriormente nos despedimos. A julgar pelo tamanho da festa, provavelmente não nos esbarraríamos uma segunda vez.

Na sala, encontrei Ernesto.

— Serafim! Você veio! — Ele me abraçou.

— Oi... — Correspondi animado. — Quanto tempo não nos vemos... Tem alguém mais da escola por aqui?

— Não faço ideia. Pensei que a festa seria menor. — Ele mirou ao nosso redor para acompanhar a fila de dançarinos amadores. — Eu pensei em chamar a Jaqueline.

— Por que não chamou, seria ótimo pra vocês! — Todos sabiam que minha fala tinha fundamentos.

Jaqueline e Ernesto sempre tiveram uma quedinha (ainda que "tombo" seria mais apropriado) um pelo outro. Desde que os apresentei. Mas nenhum dos dois conseguiam tomar a iniciativa. Isso gerava frustração para todos.

— Eu não sei... quem sabe numa outra ocasião. Com tudo o que anda ocorrendo eu nem pude te dar meus pêsames.

— Obrigado Ernesto. Eu vim para esquecer os problemas.

— Estou com uns amigos da faculdade, quer ficar conosco?

— Não, agradeço. Vou aproveitar os salgados da cozinha.

— Está bem. Estou na piscina. Tchau tchau. — Saiu acenando. Parecia estar se divertindo.

Acho que minha parcela de entretimento estava finalizada. A partir daquele ponto, minha única preocupação seria comer.

A playlist de Giovanni só comportava músicas do auge de nossa adolescência. Os maiores sucessos de Rihanna, Katy Perry, David Guetta, Nick Minaj e Britney Spears. Eu também apreciava muito a memória desta época.

— Bons tempos Giovanni... — Falei sozinho ao ouvir uma das canções em seu refrão animado.

A pizza, mesmo à temperatura ambiente, estava deliciosa. Frango com queijo com toda certeza é o melhor sabor.

Um pedaço foi o suficiente para acalmar o meu estômago. Um bolinho colorido seria minha estrela dourada. O que eu peguei era de chocolate com recheio de creme de avelã.

Degustei simultaneamente ao encarar a multidão da sala. Alguém se destacou, descendo a escadaria. Me fitou diretamente e sorriu como estivesse revelado um tesouro. Um garoto topou em seu peitoral, sujando uma das pontas de sua camiseta com bebida. O maior o fuzilou com olhar, obrigando o outro a recuar.

Ri com a cena.

— Vai obrigá-lo a lavar a sua roupa? — Sugeri gargalhando.

— Vou. — Cézar correu e me elevou no ar. Para diminuir o risco de queda, me segurei atrás de sua garganta.

Cézar... — Sussurrei com ternura por cima de sua cabeça.

Que saudade! — Me acolheu mais entre seus braços.

Me auxiliou a voltar para o chão e continuou a me admirar com alegria. Também senti saudade.

— Não pensei que viria.

— Giovanni usou você como desculpa. 

De novo! — Falamos em uníssono.

— Por que ele faz isso? — Ele questionou reflexivo.

— Porque sempre funciona. — Ofertei um sorriso.

Ah Serafim... — Tornou a me colocar entre seus braços. — Sinto muito, muito mesmo...

— Eu sei. Eu também.

— Vamos sair daqui pelo amor de Deus. Esse barulho está me dando nos nervos! — Me disse num nível explosivo.

— Sim.

— Vem comigo.

Eu conheci Cézar quando eu tinha 12 anos. Numa determinada época desse período, havia um assunto de Matemática que acabou comigo. Mentalmente, eu ficava exausto somente de imaginar fazer mais um exercício. Meus pais estavam extremamente ocupados, por este motivo não os procurei.

As provas se adiantavam, e minhas expectativas eram tão deprimentes quanto uma semana inteira de recuperação nas férias.

Em uma ocasião atípica, meu tutor pediu para que passássemos a aula em dupla com o intuito de revisar os conteúdos abordados. Escolhi Giovanni como par. Foi o momento que descobri que Cézar, seu irmão mais velho, conhecia Matemática de modo esplêndido.

Com as autorizações de ambos responsáveis (tanto os meus quanto os de Giovanni) fomos para a casa dele e tentamos conversar com o maior.

A tarefa foi um tanto dificultosa, pois Cézar era (e ainda é) rabugento para tratar desconhecidos.

Graças à imensa chatice de Giovanni, Cézar dedicou um tempo conosco. Porém, necessitei de mais atenção. E por um milagre, como disse Giovanni noutro dia, ele cedeu e colaborou para que eu fixasse a matéria.

Nossa relação teve um sucesso inacreditável. Cézar começou a conversar comigo e rapidamente nos tornamos amigos. Obviamente as diferenças eram gritantes, contudo este fator aparentemente realçou nosso laço.

Porventura, nossas datas de aniversário se emparelhavam. 24 de Junho para mim. 24 de Dezembro para ele.

De maneira singular, nos reconhecemos. Às vezes ele ia na minha casa para colocar o papo em dia, mesmo que fosse por somente meia hora.

Acreditei que ele estivesse apaixonado por mim. Mas graças a Deus era só impressão. Apesar de ser um garoto muito atraente, me sentia constrangido de pensar em tocá-lo, ou dele me tocando. Não consigo explicar bem o porquê.

Sendo quatro anos mais velho do que eu, Cézar detinha talento surpreendente para exatas além de ser apelidado como " O Cereja" entre as garotas, porque todas o achavam azedo por fora, embora uma delícia de se... enfim.

Algumas vezes quando ele estava triste ou se sentindo só, me chamava para ir em sua casa. Ou combinava de vir na minha. Ele não se limitava a demonstrar afeto por mim em nossas vidas particulares. Sempre que alguém tentava tirar vantagem de mim, Cézar surgia das sombras e me defendia. Eu não costumava a adentrar batalhas escolares idiotas, todavia se eu optasse por enfrentar, não estaria sozinho.

Todos os meus colegas comentavam quando Cézar ameaçava um infeliz que se meteu comigo. Eu ficava preocupado e acabava por dar uma bronca nele, e recebia de volta um cafuné.

Pode-se dizer que eu exercia poder sobre ele. Ainda assim, nunca tirei vantagem disso.

— Aqui está pefeito. — Falou enquanto sentávamos no sofá diante da sacada.

— Você não suporta isso não é? Essa gente toda... esse barulho estridente... — Questionei sabendo a resposta.

— Eu odeio ser babá do meu irmão. — Revirou os olhos.

Cézar é o tipo de gente que faz careta quando cantam "Parabéns pra você". Eu me recordo dos outros anos. Ele ficou até cortarem o bolo, depois fugiu. Na festa de 20 anos dele, o próprio me pediu ajuda pra se esconder. De maneira furtiva, andamos sem fazer ruídos e nos ocultamos em um quartinho qualquer. Jogamos xadrez. Eu perdi.

— Giovanni não podia obrigar você a vir pra essa bagunça. Te conheço. Sei que está mal.

— Eu escolhi vir. Eu tive opção. Sinceramente, eu quis comparecer pois eu não aguento mais sabe?...

Minhas lágrimas desabaram.

— Eu sei. — Me agarrou para um abraço.

O choro molhou a sua camiseta. Entretanto, eu sabia que não o incomodava.

— Não quero fazer nada... não consigo pensar em nada...

Eu sei! — Ele me espremeu mais um pouco. — Eu estou aqui. Nós estamos. Sei que seu pai também reforçará o seu coração. Vocês são tão próximos, vão passar por isto juntos.

— Ocorreu um amontoado de coisas de modo que não sou capaz nem de te contar muito detalhadamente. Nem mesmo com minha melhor amiga pude falar direito...

— Não se preocupe com isso. Se quiser espaço, vamos te dar.

— Eu não quero falar sobre isso. — Me lavantei de sei peitoral. — Como vai você? Há quanto tempo não nos reunimos... — Parte disso foi devido ao caos na minha família. Droga Serafim.

— Estou com um projeto. Dois, pra falar a verdade. Um é da empresa que estou empregado e o segundo é mais uma surpresa pra alguém que admiro muito.

Cézar se formou em Engenharia Mecatrônica. Com quase 28 anos de idade, podia ser considerado um homem feito. Eu me orgulhava por isso. Investiu todo o seu dom e obteve sucesso pleno. Só uma porção da atenção que eu recebia fora-me arrancada, porém valeu completamente o esforço.

— E por onde andam os seus pais?

— Eles estão morando da Suiça atualmente. Deixaram a casa em meu nome e mandaram eu ficar de olho no meu irmão. Eu já te disse que odeio ser babá?

— Sim, falou duas vezes hoje. — Sorri, esfregando o nariz.

— Agora a casa é oficialmente nossa. Estou feliz, ainda que eu não consiga aproveitar a todo instante por causa do meu trabalho, por vezes relaxo nesta sacada na companhia de um café, ou mesmo tomo um banho de piscina.

— Estou feliz por vocês. Somente à força para cuidar dos outros, não é? — Gargalhei dando batidas em seu ombro.

— Isso não é justo! — Me acompanhou no surto de risos. — Agora toda vez que tem um evento desses, eu que sou destinado a ser guarda-costa do organizador.

— Vem cá... aquela tal pessoa que você "admira"...

— Não é minha namorada. Estou solteiro.

— Difícil acreditar.

— Quer saber o que é custoso acreditar? Você com toda essa graça não estar com ninguém.

— Para a sua informação, eu fiquei com um carinha do trabalho do seu irmão, há minutos atrás, sabia? — Me enalteci. Como tivesse viajado para a lua.

— E pelo que vejo, se apaixonou, assim como nas outras vezes! — Tentou segurar o riso.

— Cala a boca!

Confesso que aquilo possuía uma dose de realidade. Por ser um poço de sentimentos, acaba por me apegar facilmente aos outros.

— Eu não estou gostando de ninguém. Nenhum marmanjo está tentando roubar meu coração. — Mentira. Claro que estava. Um homem que parecia perfeito. Mas impossível de ser conquistado, afinal era o meu próprio tio. Cala a boca, Serafim, que droga!

— Se por um acaso surgir um, me avise e eu resolverei pessoalmente. — Ele acariciou o meu rosto.

— Eu te amo. — Falei envolvendo as costas de sua mão.

— Eu também amo você. — Diminuiu espaço para mais um abraço de urso. Pude escutar as batidas de seu coração ao repousar minha orelha por cima de seu tórax. — Quer ficar escondido até o fim da festa?

— Não! — Gritei rindo. — Não vou fazer o mesmo que você. Vou descer e ver se reconheço alguém.

— Sabendo das loucuras de Giovanni, creio que você trombou com todos da sua antiga sala.

— Mais ou menos. Vi de relance alguns conhecidos. Não da forma como está imaginando.

— Quer que eu fique com você lá em baixo? Podemos ficar numa salinha...

— Acaba de me dizer que detesta ser tutor.

— Do meu irmão sim... de você não.

— Eu não vou passar do bolo. Mandarei uma mensagem para o meu pai explicando que estou ótimo, comerei um pedaço e depois vou me retirar.

— Não vai nem beber um pouco?

— Cara, se eu for colocar a mão em um coquetel, eu só vou parar quando desmaiar.

— Tome cuidado, Serafim.

— Por isso voltarei pra casa cedo.

— Então, está bem. Não vou com você, a não ser que você queira.

— Perfeito. — Andei em direção ao corredor. — Te vejo na hora do bolo.

— Eu vou ter que transportar junto com mais alguém. Está enorme.

— A cara do Giovanni. — Conclui.

— Até mais tarde, Serafim.

— Te vejo depois.

Saí da escadaria e olhei por um tempo o barman servindo as bebidas. Apertei a minha bolsa carteiro e pensei o que fazer.

A música estava um tom mais baxo. Talvez por influência do horário.

Se eu pedir uma caipirinha vai ser o suficiente... Pensei. Abri a bolsa e ao lado da carteira, o celular.

Pare com isso Serafim! Como vai voltar pra casa tropeçando de bêbado? Não seja tolo!

Trêmulo por nervosismo, me sentei em um banco.

— O que vai querer? — O profissional de bebidas me abordou limpando a bancada.

— Oh... nada por enquanto. — Respondi simpático.

— Pode acenar quando se decidir. — Sorriu de volta. 

Com rapidez, agarrei meu celular e coloquei na conversa com o meu pai. Estava digitando que em breve estaria em casa quando o aparelho descarregou.

— Droga! — gritei sem ser ouvido.

— Serafim! Te encontrei de novo! — Giovanni sentou ao meu lado, naquele momento estava isento de companhia.

— Oi Giovanni.

— Está se divertindo?

— Sim, a festa está muito boa. — Tentei entonar com mais ânimo, mas falhei.

— Será que podia me fazer um favorzinho? — Sorriu forçadamente.

— Claro, é o aniversariante.

E bem como eu imaginei, foi atribuído a mim ir convocar o ajudante irritadiço para preparar a mesa do bolo.

Cézar e mais três homens trouxeram à sala de estar a mesa e seguidamente o bolo, retangular e de dois andares.

Se o exagero da festa não fora o bastante, o bolo materializava as mais complexas experiências oníricas de Giovanni. Com um trabalho exacerbado de pasta americana e natas batidas, a cobertura refletia as luzes do ambiente entre tons, de azul à violeta. No topo, a vela em formado de homem engravatado.

— Imagina se ele fosse pintor. — Cézar cochichou em meu ouvido, ofegante depois do serviço.

Rimos da suposição.

— Bem. — Giovanni falou com emoção em seu timbre. Foi necessário um microfone para todos ouvirem. — Eu estou muito feliz da presença de todos. Gostaria de agradecer ao pessoal que me ajudou, meu irmão Cézar...

— Tomara que nenhuma garota da escola esteja por aqui. — Sussurrou o próprio para mim.

— Silêncio, Cézar! — Dei a bronca que foi recebida com um riso abafado.

— Sei que eu deveria ter aplicado essa festa em algum salão porque gente... olhem a bagunça...

Todos riram.

—... mas sei que muitos de vocês não tem muito tempo de comparecer a eventos logo no início do ano. Por isso tive que dar um jeitinho.

Owww. — Todos ecoaram.

— Sem mais delongas! Vamos cantar! — Acendeu a vela e a tradição continuou.

Não houve ordem para distribuir o bolo. O motivo era evidente: a quantidade de pessoas.

A sobremesa estava divina. Massa de morango, com direito a pedaços de fruta e até mesmo essência de amêndoas (consegui sentir após uma análise minuciosa). Recheio de mousse de chocolate amargo. Os confeitos estavam bem postos, sendo assim, nada de camada grossa de pasta americana ou chantilly em excesso.

— Está realmente maravilhoso!

— Concordo. — Cézar falou ainda do meu lado.

As pessoas se dispersaram em busca de um canto para se sentar. Vi que a maioria se concentrou na área de lazer. Cézar e eu repousávamos em um dos degrais da escada.

— Vai ficar mais um pouco?

— Não. Entretanto, um desejo subto de tomar uma caipirinha me atacou de repente.

— Eu tenho meu mini bar. — Cézar se exibiu. — E sei fazer drinks deliciosos, sabia?

— Está me convidando pra beber? — Ironizei sua postura.

— Talvez...

— Eu só vou beber um pouco e depois saio.

— Você veio com o seu carro?

— Não. A pé.

— Quer que eu te levo pra casa? Algo pode te suceder com níveis altos de álcool no teu sangue.

— Como eu já expliquei anteriormente, não vou me empanturrar de bebida. — Dei de ombros.

— Qualquer coisa eu te levo pra casa enquanto você dorme. — Ele fez a posição de mãos no travesseiro, deixando seu pedaço de bolo no colo.

— Pare de me importunar! — Exclamei meloso. Por que todo mundo duvidava de minhas capacidades? Não era legal...

— Como quiser. Vou subir. Um beijo. — Puxou minha cabeça e beijou minha bochecha para se despedir. — Vamos combinar de eu ir em sua casa.

— Claro. Tchau. Se cuida... e cuide de seu irmão também! — Acenei.

De certa maneira, eu tinha razões para ficar animado: a festa estava verdadeiramente estupenda; as músicas em sua maioria eram de meu agrado; um cara super bonito me cantou e me presenteou com beijos, que por sinal me deixaram no céu; meu reencontro com o Cézar foi ótimo; a comida estava agradável e cheguei no ponto de repetir o bolo.

Para finalizar tão bem quanto comecei, tirei um trocado da carteira e pedi ao barman que me servisse.

— Olha quem eu pensei que não encontraria de novo. — O homem de barba rala se aproximou.

— Italo!

— Sentiu saudades?

— Um pouco. E você?

— Senti. Bastante. — Flertou descarada e decadentemente.

— O que vai querer? — O barman se dirigiu a Italo.

— O mesmo que o rapaz aqui.

E assim foi atendido.

— Quer voltar para aquele quartinho? — Me questionou lambendo os dentes.

— Não. Estou de saída. — Respondi com ar de desaponto.

— Está bem. — Ele se levantou e encarou o nosso redor para conferir se ninguém estava por perto e cravou um beijo com trocas de língua rápidas. — Até a próxima.

Gargalhei e terminei minha dose.

— Ai que saco! — Uma garota conversava alto com a amiga. — Eu não suporto esse tipo de coisa. A minha mãe está surtando.

Mãe.

— Ela fica me comparando. — Continuou ela. — Minha irmã está no Japão fazendo sucesso? Sim, mas quem se importa? Aposto que quando mamãe morrer ela pouco se importará.

Mamãe.

Saí daquele local rapidamente. Peguei meu celular desesperado para mandar uma mensagem para o meu pai. Porém relembrei que o aparelho estava desligado.

De forma inacreditável, alguém passou correndo e derrubou meu celular no chão. Um outro desastrado chutou o mesmo para longe, sentido à cozinha.

Uma movimentação repentina atrapalhou totalmente a minha procura, fiquei por uns 30 segundos tentando abrir espaço. Por fim, encontrei meu celular defronte para a geladeira. Chequei com o objetivo de avaliar os danos, mas não detectei nenhum.

Me peguei encarando a geladeira. Algo me intrigou. Uma necessidade cresceu em minhas veias sorrateiramente. Um desejo incontrolável e incompreensível.

Uma mulher a abriu e puxou uma garrafa de vinho, se serviu de uma porção e guardou novamente.

Ela mal reparou minha presença, porém eu a acompanhei com o olhar até onde pude. Ela desapereceu entre a multidão, tão misteriosa quanto um enigma.

Meu raciocínio estava confuso, não sabia como reagir.

— Ai cara, fala sério! — Um homem falava com outros dois. — Minha mãe é muito controladora!

Mãe.

Agarrei o vinho e comecei a beber direto do gargalo. Andei meio cambaleante para a área de lazer e vi as pessoas se divertindo na piscina.

Os sentimentos negativos retornaram ao meu cérebro como a água regressa ao estado líquido conforme o calor entorna um cubo de gelo. 

Bebi muito velozmente ao ponto de enxergar traçinhos brilhantes.

Um jovem colidiu comigo, derrubando um pouco do líquido que carregava no copo descartável.

— Cuidado, parceiro! — Ele me disse.

Não me concentrei muito em sua aparência, somente escorreguei um tanto trôpego e me afastei do fluxo de pessoas do lugar.

— Mamãe me obrigou a comprar um presente. Eu comprei um terno. Aposto que ele vai odiar. — Uma voz feminina chegou aos meus ouvidos.

O álcool não obliterara as minhas capacidades físicas. Ainda.

Mãe.

Soltei a garrafa vazia em um canto a esmo e procurei por mais bebida. Giovanni trombou comigo.

— Serafim? Você ainda está aqui?! — Ele sorriu.

— Giovanni... — De um jeito contundente, minha voz foi perfurada por melancolia. O choro se acumulou e eu não pude terminar a frase sem variar o tom. — Giovanni eu to muito feliz por estar aqui.

— Serafim? — Aparentemente, meu desânimo estava óbvio. — Está tudo bem? Vem cá...

Giovanni havia consumido certa quantidade de álcool, todavia esta dosagem não o prejudicava. Ele me auxiliou para me distanciar de possíveis acidentes (envolvendo pessoas muito mais ébrias que nós).

— Eu quero voltar pra cozinha! — Estendi os braços ao máximo para simbolizar minha direção.

— Não! — Giovanni me prendeu. — Você tem que parar de beber. Além disso, vai dormir aqui.

— Por favor, não seja dramático. Eu só bebi um pouco. — Argumentei meio zonzo.

— De forma alguma vou permitir você sair daqui neste estado. Sozinho? Sem chances.

— Giovanni, alguém vomitou em um dos bancos da área de lazer. — Alguém que não mirei falou.

— Droga! — Protestou o aniversariante. — Você pode me ajudar a limpar?

— Serafim? — A figura masculina insistiu.

— Ah, vocês se conhecem? — Giovanni questionou inocente.

— Você nos apresentou quando ele chegou na festa. Não se lembra? E por que você está segurando ele? Está tudo bem?

Italo? — Gaguejei.

— Ele bebeu além da conta.

— Quer que eu o vigie enquanto você procura alguém para limpar... o pequeno desastre?

— Pode ser. Cuidado para não ferir esse cara. Se ele sofrer com um arranhado qualquer, meu irmão vai me punir. E depois vai atrás de você. — Notei que Giovanni apontava o indicador ao passo em que o alertava.

— Relaxe. Serafim me conhece.

— Ele não vai me machucar! — Falei desengonçado.

— Depois eu volto. — Giovanni saiu em disparada.

— Parece que essa noite vai ser longa tanto pra mim quanto pra você. — Italo se acercou para me acolher, caso o álcool afetasse meu equilíbrio.

— Eu não sei o que deu em mim. — Desabafei. — Apenas quis beber. Até dormir! — Gargalhei.

— Tem a ver com aqueles problemas pessoais que comentou mais cedo?

— Sim.

— Não vai te ajudar em nada fazer isso.

— Eu não quero mesmo receber ajuda! Só queria me satisfazer de algum jeito... — Ele me fitou. — ... sem ser através do sexo.

— Uma transa seria muito mais saudável do que ficar bêbado.

— Eu sei.

— Não vou ser chato em persistir , pois eu estaria abusando de suas condições.

Que audácia! Eu não estava fora de mim no momento.

— E por que o irmão antipático do Giovanni me mataria se eu encostasse em você? Por acaso ele é seu dono?

Ri de maneira suspeita.

— Claro que não! — Respondi dando pouco valor às palavras de Italo. — Essa proteção toda é porque somos amigos desde que eu tinha 12 anos.

— Incrível! O Cézar cinzento tem amigos!

— Gostei do apelido... Mesmo sendo tão grosso, ele tem suas qualidades.

— Na cama definitivamente. Deve ser uma magnificiência tê-lo desta forma.

— Você só pensa em sexo? — Indaguei revirando os olhos.

— Não. Também penso em fazer sexo.

— Entendi. — Falei dando de ombros. — Eu preciso ir ao banheiro.

— Oh... eu vou com você.

— Não precisa.

— Vou mesmo assim. Ouviu o Giovanni?

Andamos devagar para ir ao sanitário. Algumas pessoas se retiravam da casa dando risadas e comemorando o sucesso da festa. Em contrapartida, outros eram arrastados desacordados com ajuda de amigos para carros e encaminhados para outro local (provavelmente um hospital).

O vinho estava se acostumando com o meu estômago, então eu ainda sentia um pouco de dor local. Os efeitos do álcool não sobrecarregaram meu corpo naquele horário. Eu até conseguia reparar no que ocorria ao meu redor. Isso me deixava tranquilo.

Contudo, meus pensamentos ainda não se encaixavam no devido lugar. Por isso, os meus receios em beber perdiam o sentido a cada copo em que eu via em mãos de terceiros.

Aproveitei um instante do qual Italo aumentara a distância ao passo em que um pequeno tumulto se formara diante de nossos olhos. Tudo por causa de uma garrafa de cerveja quebrada e algumas roupas recém-compradas molhadas.

— Serafim? — Italo tentou me buscar com a mão, porém eu fui mais rápido e desapareci entre as pessoas que se aproximavam.

Corri para a cozinha, e sem que ninguém percebesse, abri uma sacola e enfiei mais duas garrafas de vinho. As últimas do freezer!

Me ocultando entre as dezenas de rostos conhecidos por Giovanni, andei para onde havia o quarto, local que outrora abrigara dois beijoqueiros anônimos.

Finalmente, isolado, pude me desmanchar. Suguei aquele líquido fervilhante até não sobrar uma gota como testemunha.

Aproveitei a solidão para chorar. Chorar plenamente e expulsar as milhões de lágrimas que se acumularam desde que Francisco chegou na minha casa.

Ah Francisco! O homem mais bonito que eu já vi. Não podia contestar esse fato.

Adentrou a minha vida de modo tão avulso. Justo numa época tão caótica. No meu momento de maior vulnerabilidade.

E ainda assim, me fez sorrir. Me fez me sentir bem. Atraído e atraente. Exatamente com esse pensamento que despejei mais um punhado de lágrimas.

Ele é meu tio! Não posso sentir isso por ele. Nem ele por mim. Essa forma de relação não é natural como a que eu poderia construir com o charmoso Italo.

Não pude tentar fazer tanto com este outro. Porque algo sussurrara em minha mente que isso faria alguém se sentir mal.

Francisco não iria gostar.

Por quê? Qual o meu problema? Será que meu sentimento é algo patológico? Devo me preocupar tanto?

E mais choro se acumulava com cada pergunta.

Bebia e lacrimejava. Não precisamente nesta ordem. Meu controle se esvaíra no terceiro gole.

Cansado do pesar que fazia minha cabeça latejar, me restringi a somente beber enquanto eu era capaz.

Isso foi absolutamente tudo o que guardei em minhas memórias. Pois após as repetidas doses de vinho, um borrão preto se prolongou até a manhã seguinte. 


Notas Finais


Que noite não é mesmo? Rs
Até o próximo♡


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