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História Embaralhados - Capítulo 3


Escrita por: e sopedevil


Notas do Autor


e cá estamos com mais um capítulo de muito truco, menção a bebida e velhos! capítulo 2 de embaralhados pra vocês sem contexto: comida tailandesa, lírios e allstar de cano amarelo. :)

UM PS MUITO ESPECIAL: cami, @taespoon, o agradecimento do capítulo passado foi sim pra você, viu? mas quero deixar ele claro aqui e fica então o agradecimento DUPLO pela sua amizade & por me dar os melhores feedbacks do mundo.

por favooooor, se estiverem gostando da história deixem um fav, ou um comentário. de novo, obrigada a jai que betou tudinho e a hoperock que fez o design de capa e do banner. NÃO ESQUEÇAM DE VER AS OUTRAS OBRAS DO PROJETO, o goldenvantae tem plot pra tudo que é gosto!

ademais, lembrem-se de que a narração em primeira pessoa pertence ao Taehyung, clinicamente diagnosticado com transtorno de ansiedade. era isso, playlist da fanfic nas notas finais uwu

Capítulo 3 - Cartas na mesa


Fanfic / Fanfiction Embaralhados - Capítulo 3 - Cartas na mesa

Está silêncio fora dali. Então eu corro, corro para fora e pego um táxi, pelo menos para prolongar o silêncio por mais alguns segundos, até chegar em casa. No fim, pago com os últimos trocados que tenho na carteira e o som de algo só me atinge quando entro em casa, batendo a porta.

Vovô pergunta onde estive. Não sei o que responder e digo que preciso dormir, só isso; ele parece desapontado, vejo que está sem seu roupão pós-banho, o que significa que me esperou acordado e não quis nem mesmo ir ao banho para não perder o momento que eu chegasse em casa. Estou aqui agora, mas não posso, não consigo lidar com isso, tenho muita coisa na cabeça.

Nem vejo quando caio na cama, dormindo de repente. Talvez tenha chorado, talvez não, já não sei com precisão. De qualquer forma, não é como se meu sono fosse constante durante noite adentro; devo ter dormido de fato por umas três ou quatro horas, acordando ainda de madrugada, quando a lua preguiçosamente dava lugar ao sol, pouco a pouco, sem que isso embalasse meu sono. Só consigo pensar em Jeongguk chorando, nas palavras de Gerald e em Nayeon, a culpa esmagadora sob mim e me dou conta de que venho julgando o Jeon pelas impressões que tive dele, pelo que ele supostamente tinha me tirado, mais do que por ele em si.

Penso em seu desabafo no corredor do hospital e faço um chá, quem sabe assim toda essa reflexão desça com maior facilidade… Já estou na metade da xícara, e continuo com a garganta arranhando sem saber o que dizer sobre tudo isso. Resolvo ligar para Jimin, mas esqueço que é cedo, o que me dá tempo de dizer apenas: “Acho que descobri que Jeongguk tem um coração humano. Não sei se gosto disso. Acho que ferrei as coisas de vez entre a gente, e que ele me odeia ainda mais.”, e tudo que ele responde é:

— Taehyung, não são nem seis ainda. Se for alguma merda com o pitbull, se vira aí, não consigo mais pensar em nenhuma solução ‘pro caso de vocês que seja melhor do que a última. Vou dormir, faz o mesmo.

O que me deixa confuso, porque Jimin nunca resolveu coisa alguma entre eu e Jeongguk, até onde eu saiba. Dou de ombros, porque é realmente cedo, e imagino que Jimin só estava atordoado por ter sido contatado tão repentinamente, por isso tenha falado coisas sem sentido. No entanto, não consigo dormir, e tudo que faço é devorar alguns mangás novos, até que o dia amanheça propriamente e eu me vista para ir trabalhar na banca.

Perto das nove entregam um novo lote de revistas juvenis, e eu fico tentado a dar uma olhada e descobrir o que o meu horóscopo dizia, não porque acredito, mas apenas para jogar a responsabilidade do que vinha acontecendo para alguém além de mim, além desse plano. A conversa com Nayeon, de dias atrás, ainda machucava, porque era difícil me acostumar a ideia de que eu deveria mudar a visão que tinha de Jeongguk para que ele mudasse, porque era difícil fazer isso por si só.

Depois de ontem, da briga, do estrago que fizemos e do desespero que ele transpareceu enquanto chorava, talvez fosse mais fácil. Não menos doloroso, e não que eu tenha me apegado a imagem ruim dele, da ideia egocêntrica, metida, superior e idiota que ele me passava. Mas porque eu acreditava que não adiantaria, que o ódio dele por mim não mudaria; principalmente quando eu não entendia da onde provia aquele comportamente que se mostrava tão diferente quanto a mim, e me fazia responder de forma mais egocêntrica, mais metida, mais superior e idiota ainda.

O dia passou enquanto eu divagava sobre minhas próprias questões, sendo raramente interrompido, visto que era início do mês e as pessoas não estavam tão interessadas em revistas ou coisas do tipo, pelo menos não no meio da semana. Já não sabia mais o que fazer, estar dentro, mergulhado até, dos meus pensamentos era exaustivo, não chegar a conclusão nenhuma também. Me sentia disperso, distante; mas não tão distante para não perceber a bicicleta familiar do outro lado da rua, escorada na mureta de uma casa qualquer, enquanto o dono dela caminhava incerto, na minha direção.

Jeongguk. Vestido com uma camiseta de banda, não reconheço qual, jaqueta. Sem jeans, na verdade, hoje é só uma calça comum de linho; vans também. Parece bonito, porque a noite vem caindo e ele se aproximando, funciona bem, no conjunto geral. Começa a esfriar,  eu só me dou conta disso quando uma rajada de vento parece trazê-lo mais para perto, e logo eu crispo os lábios, percebendo que talvez ele não esteja indo em direção a praça, já que hoje não é dia de jogatina. Ele para diante do balcão e eu sinto meus pés vacilarem, me levantando meio sem base, pensando que poderia ter trazido um casaco; de qualquer forma, meu turno está por acabar, Jeongguk parece ser o último cliente da noite.

Espero que seja, porque não iria me concentrar em qualquer outra coisa que acontecesse ali depois que ele saísse. O problema, de fato, não era nem estar ciente disso, mas ver que, na verdade, ele continua ali: sem sair, sem pedir. Apoio todo meu peso em outra perna e não consigo mais sustentar meu olhar sob o dele, porém noto que está usando um boné e brincos prateados. Noto isso demais, e preciso prestar atenção em qualquer outra coisa, para que não sinta esse fato me empurrando, lentamente, à tentação de pensar que está bonito.

Falar parece melhor que pensar. Como é de se esperar, nós chegamos a essa conclusão juntos, o que torna incompreensível o que quer que dizemos, no mesmo momento. Risadas baixas, acho que nenhum de nós realmente achou aquilo engraçado, era só um meio de quebrar o gelo estranho, e agora não sabíamos quem deveria falar primeiro.

— Taehyung… — ele tenta, mas não deixo que continue, movendo minhas mãos em sinal negativo, mas só conseguindo parar ele quando meu dedo indicador se apoia em sua boca, insistindo em pedir silêncio de sua parte.

— Não, não, me deixa falar antes — peço, um pouco impressionado com meu desespero em falar o que eu nem mesmo tenho planejado. — Eu… Eu…

A minha fala morre, mas ele não faz questão de me interromper, como fiz com ele. Começo a perceber ali o primeiro erro de percepção que tive: Jeon Jeongguk nunca se achou superior, ou tentou falar por cima de mim, ditar suas regras, como eu fazia a ele. No fim, seu comportamento meio hostil era só uma resposta à altura para o meu. Culpa esmagadora, de novo, porque é como se estivessem colocando um grande peso nos meus ombros, e eu sei que ele só suportaria ser carregado quando o deixasse escapar pela boca, dizendo as palavrinhas mágicas para que tudo aquilo fosse minimamente arrumado.

— Quero pedir desculpas.

Ele parece surpreso, e tudo bem, nem eu esperava isso de mim. Mas muita coisa aconteceu, fora do meu controle, mas que não teria acontecido se eu não fosse teimoso e lutasse por tentar manter tudo no meu controle.

— Não acho que fui justo com você — digo, sincero, continuando a fala anterior, aproveitando que ele continua absorvendo. — Sobre nada em específico, mas sobre tudo no geral. Te ver aqui na praça, te ouvir alto; eu fui brigar primeiro, eu criei essa atmosfera. Era divertido para mim no início, mas não é agora. Estragamos tudo com Gerald. Eu estraguei tudo com Gerald.

— Não, Taehyung, escuta… — ele tenta, de novo, e eu repito o que fiz antes, tapando sua boca com meu dedo, voltando a falar.

— Só fica quieto, pelo amor de Deus, antes que eu perca a coragem. — Jeongguk sorri, ainda com a boca no meu dedo, e eu percebo que tudo aquilo tem chance de salvação. — Eu quero dizer que não foi justo controlar, ou tentar, o seu barulho. Nem te jogar água, tênis e o que mais que você me acuse de fazer.

Sou sensato, mas não Jesus cristo, ‘né. Brincar com a situação é o mínimo que eu poderia fazer, apenas para não perder a identidade, ou apenas confirmar que não fui possuído por um espírito divino que fez boas ações no meu lugar. Jeongguk parece convencido de que sou eu mesmo, então prossigo:

— Desculpa. Eu te culpei, te julguei e realmente acertei um tênis na sua testa. Te vi chorar por levar toda a responsabilidade de algo que não, não era sua culpa; fodi tudo, Jeongguk, e ‘tô tentando consertar agora… — ele fica em silêncio, sua boca abre um pouco, mas ele não diz nada. — Olha, se serve de consolo pelo tênis, cara, a polícia me pegou. Agora ‘tô sendo explorado ‘num asilo com velhinhos muito malvados que zoam com a minha cara.

Isso faz a tensão sumir, eu mordo o lábio inferior quando ele gargalha de precisar jogar a cabeça para trás. É bom, eu me sinto melhor, está tudo melhor. O peso ainda está ali, eu realmente não sei se vou conseguir reconstituir aquela minha parte que lidava bem com moleques e aprendeu a ser sociável ainda na pré-escola, mas estou tentando, e Jeongguk sabe que estou tentando. Ainda não é o melhor que preciso fazer, o melhor que consigo fazer, mas é um grande passo; não espero pela surpresa boa repentinamente, agora sei que preciso fazer ela acontecer. Quando contar isso para Nayeon, amanhã, porque hoje é domingo e eu não tenho que ir ao asilo, imagino que dirá que estou no caminho certo, e isso me anima.

A risada de Jeongguk também, mas imagino que seja apenas pelo alívio geral da coisa. Espero que seja isso.

— Você tem razão, ouvi coisas péssimas sobre os velhos daquele asilo… Pobre Taehyung. — Jeongguk entra na brincadeira, e eu quase esqueço que preciso dar uma resposta a ele quando outra rajada de vento passa e brinca com seus fios, a franja onduladinha.

É realmente um charme dele, eu já não tenho mais motivos para negar. Partes mínimas minhas começam a entrar em ordem, e eu passo a perceber aquela série de coisas que fazem Jeongguk mais o meu tipo do que eu gostaria que fizessem. Não preciso dizer que não admitiria isso nem se obrigado, forçado, pressionado, porque vocês já sabem. Mas pelo jeito que os olhos dele dançam sob os meus, a lua caída entre o meio e final da distância entre a gente, apenas o suficiente para iluminar sua mão apoiada no balcão, eu imagino que ele saiba também.

— Eles são maldosos, você tem que ver. Eu sofro nas mãos cheias de rugas deles, pode crer — parece algo legal a se dizer, principalmente porque a conversa se dissipa e o silêncio que fica após não é constrangedor.

Não é ruim, e nem mensageiro de alguma troca de olhar estranha que vá acabar com um de nós encrencado. É só… Aquele momento que difere um dia comum de um dia extraordinário, ali estava a oportunidade de quebra de rotina que eu não esperava, a surpresa boa. Questão de sete segundos, talvez mais, que o universo levou para decidir se eu estava perdoado e se o meu arrependimento valia um novo ciclo de vida imprevisível. Valia. Soube disso quando Jeongguk tombou a cabeça para o lado e perguntou:

— Ei, Kim, já jantou?

Não, eu não havia jantado. E sim para sua próxima pergunta: eu gostava de comida tailandesa. Ele me convidou para um jantar rápido em seu restaurante favorito, e eu fechei a banca. Caminhei ao lado dele, que guiava a bicicleta às vezes em cima, às vezes caminhando também. O lugar era bonitinho, ainda que nada grande ou famoso, Jeongguk tinha esse gosto pela simplicidade, e intimidade com os donos — essa foi uma surpresa boa.

Pensando bem, o restante do jantar, da nossa conversa jogada fora, e até das provocações que deixávamos escapar, foi uma surpresa boa. Jeongguk se mostrava uma surpresa boa.

 

 

[...]

  O ritmo de vida passou a ser bom, confortável, depois da janta. Jeongguk e eu trocamos números, algumas provocações também. Os dias passaram, eu gostava de enviar a ele fotos fofas de pitbulls com roupinha de inverno; ele gostava de me responder com muitos emojis de dedo do meio, e depois um áudio rindo. Acontecia uma vez por dia, depois duas, quando atingiu três passamos a trocar receitas de doces, indicações de filmes (e animes, porque eu descobri que ele gostava, como eu) e mensagens curtas comentando sobre o último programa que passou no H&H.

Deixava, aos poucos, de importar seu barulho jogando truco. Na verdade, eu passei a perceber que ele chamava a atenção dos outros para que fossem mais silenciosos, ainda que, quando empolgado, falasse sobre patos, cachorros, sei lá eu que bicho serve de metáfora para os jogadores. No asilo era divertido também; Jeongguk continuava sendo o centro das atenções, mas nada que me ofuscasse: tínhamos uma dinâmica agora, simples, ele fazia, e eu debochava. Funcionava bem, como no dia em que todos fomos para a sala de recreação, e fizemos pinturas com tinta têmpera; os velhinhos descobriram um novo passatempo, enquanto Jeongguk descobriu que não agia bem quando eu chegava por cima de seu ombro e sujava suas bochechas com meus dedos sujos de tinta.

Era engraçado, porque ele parecia entrar em pane. Ficava parado, então a tinta do pincel pingava no papel e ele xingava alto; notava que xingou na frente dos idosos, e passava a pedir desculpas, gesticulando com as mãos. Derrubou um potinho de tinta em uma dessas, e tudo que eu sabia fazer era rir e debochar, com respeito, claro.

Gostava de ver os riscos de tinta que marcavam o papel, também gostava quando ele sorria para o papel. Parecia funcionar assim, estávamos em bons termos; dias longos, a rotina quebrada por um café (no meu caso, achocolatado) compartilhado, algumas piadas e conversas descontraídas sobre os velhos do asilo. Jeongguk tinha carinho por eles, seus olhos brilhavam quando falava sobre tudo que eles o ensinavam, e era bonito de ver, principalmente quando ele se empolgava — falando sem parar, as bochechas recebendo cor, o sorriso meio solto e juntando mais e mais informações, esquecendo-se das vírgulas —, e era como nós nos entendíamos.

Ainda divagava sobre a evolução, e pensei que talvez pudesse abrir meu Pinterest e baixar mais fotos de pitbull para mandar a ele; olho o relógio, e sei que estou atrasado, que vovô deve estar me esperando com a janta fria. Passado das nove, e eu tenho quarenta minutos para pegar o último ônibus da minha linha, então, é, vou ter que deixar as fotos dos pitbulls para mais tarde. Pego minhas coisas, atravessando a minha bolsa de pano (a bendita que leva meus mangás, meu carregador e meus cadernos) pelo peitoral, deixando apenas um ‘tchauzinho’ para Hyumi, a menina da recepção e um beijo apressado na bochecha de Nayeon, que me dá um tapinha nas costas e diz para que eu me apresse.

O faço; correndo para fora do asilo, o vento me atingindo e eu tomando na cara por perceber que faço vinte e dois no final do ano e ainda não aprendi a obedecer meu avô e levar um casaco antes de sair de casa; no fim, prefiro não pensar sobre o assunto, sobre vovô e como as coisas entre nós ficaram difíceis depois de o dia do hospital, que eu cheguei tarde e saí cedo, o deixando sem explicações desde então, mantendo segredo sobre o serviço comunitário. Esfrego minhas mãos nos braços, para tentar me aquecer, dou dois grandes passos, pensando que não é de todo ruim: se eu me apressar, vou pegar ônibus com o cobrador que eu gosto, desde que ando sem carro desde o evento do hospital, para não trazer mais preocupações ao senhor Kim.

— Ei, Taehyung! — Uma voz distante grita e eu paro meus passos, me virando para trás. — Espera!

Jeongguk. Ele segura uma mochila em um dos ombros, enfiando as mãos para dentro do bolso do moletom grande que usa no dia; é preto, como sempre, mas eu já começo a achar que o dia que ele descobrir outras cores vai chover pedra. As chances são mínimas, e antes que eu possa perguntar se por acaso ele já vestiu algo que não fosse preto e jeans, ele está do meu lado, a respiração meio ofegante, o que me faz pensar que correu atrás de mim. Sorrio, agarrando a alça da bolsa atravessada, de repente sentindo o frio de verdade, mas sem ligar.

— ‘Tá indo ‘pra casa? — Ele pergunta, coçando a garganta depois. Eu confirmo, digo que estou até meio atrasado para pegar meu ônibus e ele parece meio hesitante, encarando seus pés, que, eu notei, costumam ficar com as pontas viradas uma para outra, como pezinhos de anime. Penso nisso por mais tempo que deveria, eu acho, porque logo ele acrescenta e eu preciso de alguns segundos para absorver: — Se importa se eu for junto?

Ele morde a boca, os olhos distraídos, e só então percebo que estava nervoso de falar comigo sobre. Sem muita força, soco seu ombro, sorrindo, e digo que não tem problema (por Deus, é claro que não tem!) e que sua companhia seria ótima, na verdade, porque eu preciso desabafar sobre o que os velhos vem fazendo comigo… Começamos a andar ao som da sua risada e eu posso ou não ter passado mais tempo do que deveria encarando o jeitinho que ele jogava a cabeça para trás no meio de uma gargalhada, como uma mania única. Pegamos ritmo só na próxima quadra, ainda conversando, e eu me percebo animado. Jeongguk me deixa animado.

— Mas sério, aquilo foi quase uma ofensa à versão do mangá! — comento, já falando sobre o anime que eu e ele achamos uma verdadeira bosta. — É tipo… Ai, não sei, como se comparassem Paramore à Evanescence.

Por alguns segundos, Jeongguk para de caminhar e me encara com a boca aberta. Parece chocado com algo que eu disse, e eu só reviro os olhos: sou um garoto de gosto musical eclético, música de emo-pop faz parte do meu ser. Ele ainda parece meio atordoado quando dou uma risada alta e o puxo pela barra do moletom, fazendo com que caminhasse atrás de mim. Ele grita um “ei!” e eu não perco o sorriso, começando a apertar o passo, ainda lhe puxando, sem virar para trás.

A noite está fria, pessoas estão em suas casas, decerto alguns até após a janta. Mas nós estamos ali: no meio da rua, e é deserto, então a enchemos com um pouco de piadas e risadas soltas, os postes iluminando enquanto andamos, e eu gosto de como a minha sombra se projeta com ele atrás quando passamos por um grande muro. É bom, tão bom quanto a brisa mais fria, mas eu não sinto mais frio; talvez nem lembro o que seja, algo me aquece, como o rum quando desce pela garganta, a sensação tão real, ainda que efêmera, quanto. Mas não quero pensar sobre, nem como eu pareço mais solto quando ele está por perto, porque é recente, é bom, e eu não gosto de pensar demais, de estragar boas coisas… Me dou o luxo só de sentir seu moletom, seu moletom em minha mão e seus passos atrás de mim, junto a um ou outro resmungo e como meu nome fica melhor quando sussurrado, e não gritado, por sua voz melódica.

— Vai com calma… — pede, manhoso, reclamando do nosso ritmo de caminhada; mas chegaríamos atrasados na parada se não fosse assim, então nem lhe respondo. Pretendo continuar, a caminhada mais rápida, ele atrás, mas perto de mim, acompanhando. — Eu pedi ‘pra ir com calma, apressadinho.

Quando diz, escorrega sua mão pela minha, que estava em seu moletom. Segura firme, me faz parar, e então meu corpo age sozinho: cesso a caminhada, encaro nossos dedos entrelaçados, ele ri no fundo. Não sinto que eu esteja acostumado com contatos desse tipo, não sinto que eu não possa me acostumar; mas é bom quando ele balança nossos braços, agora do meu lado, estamos próximos e isso facilita a caminhada. Nada muito importante é dito no restante do caminho, e eu me pego pensando que tudo bem, nossas mãos conversam — eu aperto seus dedos, ele aperta os meus, a manga gigantesca de seu moletom roça de leve na minha pele desnuda, balançamos as mãos juntas, enquanto começamos a saltitar pelos paralelepípedos, apenas pelo conceito. Pelo efeito. Porque parece certo.

Jeongguk é divertido, então o tempo passa rápido, passa leve. Gostamos de saltitar, depois correr, e então terminamos o trajeto até a parada nos empurrando e chutando pedrinhas no asfalto. Eu quero dizer que ele fica mais bonito quando sorri vitorioso ao ganhar nossa corrida até o poste de luz que fingimos ser a linha de chegada, do que quando ergue a sobrancelha e fala alto; não quero mais jogar tênis em sua testa, mas não evito passar a mão por ali quando seu cabelo cai, ele animado demais para perceber e tirar o fio.

Estamos protegidos pela parada laranja no meio da rua, que é coberta, quando começa a chuviscar. Seu cabelo ondulado combina com esse clima, e eu não sei porque exatamente meu cérebro chega a essa conclusão, mas é algo que quero guardar na memória: ele com as mãos dispostas do lado do corpo, em minha frente, de pé, olhando a chuva cair, enquanto seu cabelo acompanha e seus fios caem pelo rosto branquinho. Quero mais luz, quero poder enxergar tudo aquilo melhor, mas o que me prende a atenção é mesmo quando ele aponta para a rua e eu vejo meu ônibus.

— É o meu — ele diz. Eu devo ter feito uma expressão confusa, porque ele me encara como quem diz “o que foi?”. Quero rir com a coincidência.

— É o meu também. — Jeongguk entende, sorri e parece feliz com isso. Ou talvez eu esteja com adrenalina demais correndo pelo corpo e imagine isso, já não sei mais; existe muito dentro de mim, mas não importa, porque subo pela escada alta do ônibus, Jeongguk na frente e dou ‘oi’ para o cobrador.

Escolhemos um assento no fundo, antes da grande fileira, e eu preciso empurrar seus ombros e dizer que quero sentar no banco da janela, mas ele não deixa barato: devolve a ação, as mãos dele correndo pelo meu peito em um empurrão fraco, mais rimos do que de fato lutamos pelo banco. Jeongguk diz que é melhor que eu o deixe sentar na janela, ou ele vai chorar. Não é pela chantagem, tampouco porque sinto pena daquela farsa dele, mas são pelos seus olhos, talvez pelo jeito que fez biquinho com a boca, como um verdadeiro garoto manhoso. Dou risada, apertando suas bochechas ao dizer:

— Tudo bem, bebezão, o banco é seu — ele enruga o nariz ao ser chamado de bebezão, mas com certeza se parece com um quando se acomoda no estofado, observando para fora da janela, entretido, contente, as bochechas coloridas de rosa.

Não quero que fiquemos em silêncio, porque nosso silêncio não me trás boas memórias. Então me acomodo também, nossos joelhos se encostam e isso chama sua atenção, seus olhos curiosos, tão grandes, me olhando. Eu preciso morder o lábio inferior para evitar um sorriso, já que minhas bochechas doem, minha cabeça pesa e eu sei que sorrisos soltos assim são difíceis de aparecer; mas não consigo proibir de um novo vir quando ele bate as costas no banco, e suspira em alívio, como um bom folgado que é.

— Não te vejo pegar esse ônibus nos outros dias. O que rolou com sua bicicleta? — pergunto, realmente curioso, já que ele e a maldita parecem unha e carne. Quer dizer, não que a trate bem (às vezes chega na banca animado para a jogatina e literalmente a atira no asfalto), mas eu penso que deve importar, afinal, está sempre lá, pedalando e pedalando.

— Eu vi a previsão do tempo, dizia que ia chover — ele responde simples, e eu percebo que até Jeongguk consegue ser mais espero que eu, que nem mesmo trouxe um casaco. — A última vez que cheguei todo molhado em casa, meu pai quase me matou.

— Ficou preocupado que pegasse um resfriado?

Jeongguk riu alto da minha pergunta, riu muito. Eu fico confuso, porque era realmente só… Uma pergunta. Sim, sou mesmo um comediante nato, nasci com o dom de gerar sorrisos nas pessoas, mas essa é nova, quer dizer, eu só perguntei algo. Jeongguk deveria mesmo me achar um grande engraçado… Mas quem poderia culpá-lo por isso, afinal?

— Não, na verdade é tipo muito engraçado imaginar meu pai preocupado com algo assim. — O.k, então, ao que parecia isso era triste. A graça não era eu, e sim a desgraça dele, então? — Ele ficou puto porque eu tinha ido ‘pro asilo direto do cursinho, e com a chuva as apostilas e tal molharam, mesmo dentro da mochila.

Solto somente um “ah”, vendo ele crispar os lábios e parecer… Normal, ao dizer aquilo. Era meio triste, ou eu realmente estou desenvolvendo uma compaixão esquisita por Jeongguk, desde que começamos esse tratado de paz? Não que eu esteja julgando a educação que seu pai dá a ele, cursinho (decerto preparatório para vestibular) é realmente um investimento caro, mas, Jeongguk não fez chover magicamente, ou desejou que suas coisas molhassem. É difícil pensar que isso seja comum na vida dele, porque eu nunca tive esse tipo de relação com vovô; tudo entre nós sempre foi tranquilo, e ele queria minhas notas boas, mas não fazia questão de cobrar assiduamente isso. Só deixava por minha conta. Eu fazia. Ele dizia que estava orgulhoso, então íamos ao lago da cidade dar pão para os patos.

— Pelo menos nada vai molhar hoje — digo, e Jeongguk concorda, mas noto que a lembrança deve ter lhe perturbado, já disse  que sou bom com leituras, mas gostaria de não ser, não quando Jeongguk esfregava suas mangas, parecendo repentinamente tímido, sem conseguir sustentar o olhar no meu. Sem saber muito o que fazer, me escoro em seu ombro, e, com a bochecha amassada ali, digo, meio abafado: — Eu odiava fazer cursinho, sabia?

Sinto seu peito vibrar, porque seus ombros sobem minimamente e essa é a confirmação que eu precisava para saber que, na verdade, talvez não seja só o pai, a educação dura, mas também a pressão. O jeito que ele reage me fala mais do que ele mesmo, que só diz que também não gosta muito; depois dali, existe uma linha que eu preciso escolher cruzar ou não, algo que pode definir se essa conversa terminaria de um jeito bom ou ruim. É arriscado, porque eu não sei da rotina de Jeongguk, também não sei se é o toque da roupa dele na minha bochecha, seu cheiro infiltrando na minha cabeça, derramando o que eu tinha guardado de sanidade em potinhos, se é como ele respira brando e eu gosto, mas perco a noção do impessoal. Foda-se a linha, e só acontece.

— Jeongguk — o chamo, não tem mais volta. Ele me encara de cima, e vejo que sorri, talvez achando graça de como minha bochecha fica achatada em seu moletom, e é bom, o sorriso dele fica mais tranquilo. — O que acha de eu te ajudar a estudar ‘pro vestibular?

Ele se surpreende, eu sei que sim, e no fim é fofo: o jeitinho que seus olhos abrem e ele precisa buscar saliva, porque a boca seca. Pisca, ainda sem me responder, e eu quero sorrir, porque ele se moveu de um jeito que meu nariz fica encaixado em seu pescoço e que preciso erguer um pouco a cabeça de seu ombro para lhe fitar. Mordo a parte interior da bochecha, pensando se fiz algo errado; foi uma proposta, não invadiu o espaço dele, certo? Só tive a impressão que existia muito mais na história do pai dele bravo com materiais molhados, talvez algo como a dificuldade de concentração, notas baixas, ou o medo de não passar em vestibular nenhum.

Sei porque já fui assim; nem sempre era sobre o lago e pão para os patos. Me desesperei na época de vestibular; era meu último ano, e eu passei a pensar que aquilo definiria minha vida, e então a insegurança, a ansiedade e metade de dias que se passavam sem que eu percebesse, porque estava enfiado nos livros, sem me alimentar direito. Quero dizer a Jeongguk que o entendo, que ofereço ajuda não por educação, mas porque entendo de pressão acadêmica, de tempos ruins na escola, mas me lembro vagamente de quando o chamei de burro, semanas atrás, em meio a uma briga. Ele pareceu mais que bravo, na situação, perturbado. Desvio o olhar do dele, agora tomado pela vergonha de ter contribuído para a insegurança dele, e o medo do pai, medo do futuro; fui babaca. No fim, espero que aceite a minha ajuda, também como um modo de eu recompensá-lo por isso, ainda que ele não tenha dito nada ainda; eu falo.

— Não precisa responder agora. A gente vê depois. Acabei de lembrar que tenho as melhores do Paramore baixadas… Quer ouvir?

Ele aceita. Dividimos meu fone e parece bom, não porque alivia minha culpa, mas porque não existe mais culpa; existe aquela específica música do Paramore com aquele específico Jeongguk e aquele específico trajeto até a parada dele. Quando desce, continua existindo, fora do meu controle ou da realidade, porque o banco dele esfria e eu preciso de mais três paradas para chegar até onde sempre desço, mas meu sorriso ainda está ali, porque a lembrança está. Não quero pensar sobre, então continuo de fones; ainda toca Paramore. Meu sorriso não vai embora.

 

 

[...]

  Não precisei tocar no assunto com Jeongguk. Quando cheguei em casa ainda naquele dia, o sinal do wi-fi pegando, meu celular tremeu em minhas mãos. Era o link de uma música do Evanescence, junto a uma pequena mensagem que dizia: “foi por isso que fiquei chocado. vc realmente prefere Born For This à isso????” e seus característicos emojis em choque. Antes que eu lhe respondesse, outra mensagem chegou: “e eu adoraria a sua ajuda com os estudos, seu parawhore”.

É por isso que estávamos na biblioteca do asilo, hoje, desde cedo — eu fechei a banca perto das onze, e ele disse que estava levando almoço para a gente. Quando cheguei, a bolsa atravessada, o allstar gasto desamarrado, o encontrei já na biblioteca, com dois potinhos de isopor na mesa, enquanto acenava empolgado na minha direção. Sentei, lhe dando oi, e perguntando o que ele havia feito para nós; Jeongguk riu da minha cara, como o bastardo que era, falando que não tinha tempo para cozinhar para mim (o que me fez dar um beicinho, encolher meus ombros, e receber um revirar de olhos com uma risadinha), mas que havia comprado alaminuta.

O que significava que teríamos arroz, feijão, ovo frito, batatas e um bife, uma combinação que eu nunca tinha experimentado. Ele contou que era diretamente do restaurante do primo dele, que tem umas receitas diferentes, e eu conecto os pontos, lembrando que Seokjin, seu primo, saiu por alguns anos para estudar fora. Jeongguk e eu conversamos sobre isso, entretidos, e é quase meio dia e meia quando eu questiono se ele conseguiu comer o bife inteiro, já que não via em seu prato. Ele parece descontraído quando conta:

— Sou vegetariano, Tae. Não como carne animal, faz um tempinho já — fico surpreso, e no fim aproveito para fazer todas as perguntas que tenho sobre essa dieta alimentar, ele me responde, empolgado também.

Não chega a ser uma e quinze quando eu empurro o potinho de isopor e pergunto se ele quer começar. De repente, Jeongguk parece nervoso, fechando o sorriso e arrumando a postura na cadeira, como se fosse algo realmente sério, talvez mais que isso; eu quero lhe dizer que não precisamos de tudo isso, que faríamos tudo aquilo em um ritmo tranquilo, que levaríamos na boa, mas acho que seria melhor simplesmente mostrar.

Abro um de suas apostilas, deixando o lugar que eu ocupava, que era de frente para ele, para me aproximar e ficar ao seu lado. Com o lápis, traço linhas aleatórias, enquanto ele assiste, parecendo nervoso e confuso. Termino minha lindíssima obra de arte e viro a apostila para ele, que ri descontrolado da minha tentativa de desenhar um pitbull de óculos, passa os dedos pelo papel, dizendo que nunca tinha visto algo tão feio em sua vida, eu me sinto ofendido. O clima fica mais leve, e é assim que eu quero continuar, porque Jeongguk precisa descobrir o que é uma aula de verdade, de um jeito que ele absorva o conteúdo sem se desesperar.

Vejo que ele ainda encara o desenho quando eu me aproximo, dessa vez sem desenhar nada, mas pedindo para ele ler o que estava escrito na orelha do pitbull, o título da matéria de física. Funcionamos assim, eu perguntando, ele lendo, então começo a dar exemplos do assunto com palavras mais fáceis; Jeongguk se solta, anotando coisas no caderno, as vezes brincando com traços dentro da própria página e inventando um novo desenho para servir de localização para o que estudamos — “ei, o que tem na cauda desse peixe vesgo?”, “consegue me dar um exemplo de um caso de origem química como o que tem no olho dessa foca estupidamente real que eu ainda me recuso a acreditar que você tenha desenhado em só cinco minutos?” —, o que faz com que o grafite do lápis contorne mais de dez páginas de duas diferentes apostilas (química e física).

Combinamos de deixá-lo fazer alguns exercícios de teste, para que pudéssemos avançar no conteúdo. Jeongguk diz que não se acha capaz de fazer isso sem ajuda e meu coração parte ao meio, não porque ele e eu estamos em bons termos, o que cria um clima amigável entre a gente, mas porque ele é tão inseguro quanto ao desempenho dele que me machuca. Quero abraçá-lo, tomar daquela aula uma sessão de terapia, mostrar que ele é muito mais do que se convenceu que é, que pode muito mais do que acha que pode; não o faço. Na verdade, apenas deito minha cabeça na mesa, encarando-o debaixo.

— O que você ‘tá fazendo, Tae? — pergunta, risonho, o que já é melhor. — Sério, ‘tá em cima da página dos exercícios que você separou, vai amassar.

Continuo onde estou, ainda observando seu rosto. Do ângulo, consigo ver seus brincos se mexendo com seu movimento, seus dedos segurando a caneta com força e seu cabelo caindo. Encontro mais pintinhas e descubro que ele usa uma camiseta por baixo do casaco fechado, preta, como sempre. Não parece desconfortável por eu estar o analisando, mas tentando entender o que faço. Resolvo dar a ele uma resposta então:

— ‘Tô só tentando entender o que você vê quando se enxerga como eu enxergo agora; debaixo, inferior — ele lida melhor com metáforas, com ações, do que com palavras diretas; sei disso e vejo com meus próprios olhos quando ele entende que eu me refiro ao seu complexo de inferioridade, sua insegurança, e ele pisca, absorvendo. Abre a boca, não tem respostas.

Volto a minha posição de antes, igualando nossas alturas, sem estar mais escorado na mesa. Busco seus olhos e preciso simplesmente pegar delicado em seu queixo, fazer com que me encare tão profundamente quanto faço com ele para saber que ele está prestando atenção quando digo:

— A visão daqui é mais bonita. Você deveria… Sabe… Experimentar e... — começo, não sei se consigo terminar.

Cristais em decomposição e memórias de infância, o olhar de Jeongguk os grita, empurra contra mim, e já não consigo prestar atenção no que eu deveria dizer; meu peito infla, e tudo parece tão real, cru, vejo seu rosto, a janela da biblioteca reflete o sol em sua bochecha e meu dedo vai do queixo e passa a deslizar ali só pela sensação de tocar na pele beijada pelas estrelas. Sem consciência, sem pudor; Jeongguk sempre foi bonito assim? Com os fios morenos sob a testa, ondas do mar, ele parece meio surreal. Então me volto ao seu olhar, e é mais do que o astro sol, ele parece em órbita, rodando através de um eixo fora de contexto, absorvido como parece estar quando eu chego perto para provocá-lo, mas tem um efeito diferente agora.

Não é mais sobre xingamentos e ameaças infundadas. Tem um lampejo no meu peito, um apelo, para que eu desvie o olhar, algo que grita para que eu só continue o que tenho a dizer e nunca mais mergulhe nessa imensidão eterna que Jeongguk se mostra ser. Gosto de pensar que sou sensato, na maioria das vezes, mas é difícil quando eu encaro, e encaro, então lembro da sensação de tê-lo com a testa grudada a minha, me desafiando sem palavras, o ar tenso; e é o oposto agora, eu quero emoldurar a imagem que consigo dele, ao sol, esperando que eu continue, como alguém que se importa com o que eu preciso dizer, como alguém que precisa que eu diga algo. Jeongguk é uma bagunça, não mais de cores, raiva ou barulho, mas de uma beleza etérea que eu não consigo lidar muito bem, talvez por ter demorado demais a perceber, talvez por ter lutado muito contra a percepção.

— Tae… — ele sussurra, sai como um fio de voz, e eu ainda acaricio sua bochecha sem perceber, o movimento da fala fazendo meu dedo parar no lugar. O sol ainda aquece ali.

Sei que preciso seguir meu raciocínio, que preciso terminar. Mas Jeongguk está perto, e até mesmo como o seu cheiro amadeirado chega em mim é novo, como se eu estivesse conhecendo uma versão dele. Em algum momento, meus dedos apertam seu rosto, ele segura no tecido do meu casaco fino, a parte aperta dele, sem pressão, e eu me sinto mover. Fico mais próximo. Ele mais próximo. Deus, o sol agora toca meu cabelo, sua bochecha, meu nariz, sua boca — sua estúpida boca que consegue brilhar, algo como vermelho e amarelo, e eu não consigo deixar de encarar.

É falta de controle, um pouco sobre o ambiente, é a sensação daquilo parecer nos atrair, e de repente meu peito cola no dele. Minha camiseta se encontra com o casaco grosso. Quero sorrir, quero dizer que é legal ficar assim, eu, ele, o sol. Paradoxalmente, não quero dizer nada; silêncio nos rega e não existe mais memória ruim, antecedentes. Só o som da respiração dele batendo contra a minha boca e não há mais bom senso, linha imaginária para se ultrapassar: unicamente as batidas do coração dele reverberando contra o meu. Estamos acelerados, mas tudo se movimenta em câmera lenta, quase como uma tortura ao meu psicológico, Jeongguk baixa suas pálpebras.

Fecha os olhos, e agora não consigo mais lê-lo. Sua pele desliza sob meu toque, e ele ofega. A imagem dele, meus sensos a favor, e tão simples assim meu corpo passa a trabalhar pelo dele; tecido com tecido, nossos narizes se esbarram, e eu quase posso ouvir meu pulso ansioso. Fecho meus olhos também, assim ninguém consegue me ler; se pudessem, saberiam que eu já não ajo por mim, é meu corpo, entorpecido, sensações, o sol, e Jeongguk. Só Jeongguk.

— Rum-rum… — ou não. Respiro fundo, Jeongguk se assustando sob o tom que nós dois sabemos de quem é. Nos afastamos, e eu não sei o que fazer quando sinto meu interior ainda queimar em brasa quente; pelo canto do olho, assisto Jeongguk encarar os próprios pés, e só espero Nayeon dizer o que precisa. — Fiquei sabendo que vocês estavam aqui. Trouxe chá.

Coço minha testa, perto da sobrancelha, sabendo que não absorvi aquilo bem. Cada sensação ainda presente em minhas células, e o fato de Jeongguk estar tão perto não me faz bem; minha visão fica turva, meu corpo trabalhando automaticamente a receber a caneca que Nayeon me oferece. Dedos aquecidos me lembram de momentos antes, o calor da bebida não se compara ao do sol, ou do rosto de Jeongguk. Penso que estou enlouquecendo quando meus sentidos se atentam todos de uma única vez ao ouvi-lo agradecer a Lin, não consigo beber do chá, meu sistema não saiu do ritmo que traçamos antes.

Então eu saio. Deixo a caneca em cima da mesa, sussurro algo como “continuamos depois” e saio de cabeça baixa, deixando Nayeon e Jeongguk ali. A confusão me toma no instante que eu começo a andar, por alguns segundos existe a sensação de que eu não sei como se faz isso; andar, mexer, lidar com o fato de ter quase beijado o Jeon. Com o fato de querer ter beijado o Jeon. Com o fato de continuar querendo beijar o Jeon.

É só quando viro o corredor da biblioteca, saindo pela porta, e vou de encontro a um bolo de velhinhos (Sana, Jiyoong, Hwasa, Eunhyuk e Gerald, com sua cocota) que me dou conta de como estou estranho. Tenho a impressão que eles, todos, estavam com os ouvidos grudados à parede da biblioteca, mas a informação não me chama a atenção, estou concentrado demais tentando entender o meu tremor interno, a sensação entorpecente de ainda ter o toque de Jeongguk na memória.

Confuso, eu não sei como fazer parar; não sei se quero que pare. Caminho sem saber para onde e minha audição não funciona, simplesmente não escuto nada, como se estivesse em um solavanco e nem mesmo o ar tivesse efeito sob meus ouvidos: nem entupidos, nem normais, apenas como todos os outros meus sentidos, em alerta, mas sem motivo, ainda que sem funcionar. Como ficaram quando toquei o rosto de Jeongguk. E como ainda ficam com o fato de todo que é raciocínio que desenvolvo terminar sendo sobre ele, seu nome gritando na minha mente.

Quero pular de um morro com grande altura, testar meus limites, experimentar qualquer outro sentimento que faça esse, que grita, eclode, aquece e mexe, parecer menor. Se eu fecho os olhos, consigo sentir as memórias reais como se estivessem acontecendo na minha frente, então Jeongguk ofega e eu sei o que vem a seguir: aquele imã tão real que me empurra para ele, e eu vou de encontro, quero ficar mais perto, dividir o mesmo ar, encostar nossas peles, beijar sua boca. Deus, eu fugi, eu estou assustado, confuso, e minha mente nublada, mas ela continua lá: a vontade, que independe do momento, que grita no meu pensamento e reverbera por todo meu corpo, a vontade de beijar Jeongguk até o sol se pôr. E nascer de novo. Continuamente.

Porque ele é lindo. Porque consegue parecer imaginário sob o brilho do sol. Porque eu me descubro louco pelas ondas de seu cabelo, sua beleza que me tira do eixo; não existe mais eixo, minha cabeça está rodando, e eu sou feito de sensações e um desejo latente. Despertou talvez gradativamente, e foi escolha minha não perceber a atração, continuaria sendo, se eu não notasse a visão recíproca de tudo isso.

Era ódio ou desejo reprimido? Não é mais ódio agora. Nem sempre foi atração, mas não acho que alguma vez tenha sido ódio. Continuo aturdido, e é só quando me sento no meio-fio, na rua paralela ao asilo, que noto Jeongguk. Ele vem em minha direção. Não preciso de respostas, é o que penso, não preciso lidar com isso, decerto foi efeito do momento, do sol! Quero acreditar que tenha sido efêmero, algo sem continuidade, de validade marcada.

Aí ele chega perto, os coturnos sob o asfalto, me oferece a mão, diz que Nayeon precisa da nossa ajuda para cuidar dos velhos, que adorou nossa aula. Ele caminha, caminha ao meu lado, sorri, se move, ri, fala — é o mesmo Jeongguk. O mesmo que foi meu suposto inimigo. O mesmo que eu quase beijei. O mesmo que eu ainda quero beijar.

 

[...]

  Não percebo como o tempo passa quando estou lendo. É como se a partezinha do meu cérebro responsável por recolher informações exteriores (tempo, espaço, companhia), como quando você tira um “cochilo de 5 minutinhos” e acorda na manhã do outro dia, com o rosto amassado, sem saber exatamente onde está. E existe aquela confusão mental sempre que algo te acorda, mas a sensação de descanso, de simplesmente não sentir as células do seu corpo, porque elas ainda estão dormindo; é bom, e eu sinto que é nessa tentativa de me localizar, logo depois de baixar o mangá, que eu não penso em nada, então é bom.

Pensar dá trabalho, e eu já não sei mais se quero ser um animal racional para sempre — tipo, claro, minha inteligência sobre-humana vai aparecer em qualquer forma que eu tome, afinal, atributos não morrem assim, mas vocês entendem o que eu quero dizer. Os últimos dois dias mexeram com a minha cabeça, e, quando eu disse isso a Jimin, ele me disse que “pior que ‘tá não fica não”, o que deveria me tranquilizar, mas, se entendi bem, ele quis dizer que eu sempre fui essa bagunça que me sinto?

O mangá ainda repousa no meu colo, e eu penso sobre o que Jimin falou, o que me faz questionar o que acendeu a minha consciência assim. Não preciso pensar muito; o que é uma boa notícia, mas não tão boa assim, porque significa que tudo está óbvio para minha mente, que nunca precisou existir um período irracional, inconsciente ou simplesmente algo que me tirasse essa certeza: é sobre Jeongguk. Não só como as coisas fluíram na biblioteca e como eu me esforcei para apagar isso da memória, mas como tudo depois daquilo me fazia pender para um lado… Não existe muita explicação, eu só tinha esse instinto de flerte quando ele chegava perto; não do tipo descarado, o tocando todo momento, rindo de qualquer coisa que ele fale, mas é quase como se eu não conseguisse controlar meus olhos, meus pensamentos e terminasse sempre sorrindo para como ele movimentava os pulsos ao falar sobre algo físico, mas que não estava perto.

Me deixa confortável saber que é o Jeongguk, ainda que confuso também, afinal, eu não acho que tenha conhecido dois Jeongguk’s, mas a primeira imagem que criei dele não era boa — aquele moleque mimado, arrogante e soberbo que gritava como uma gralha na minha pracinha. Não acho que, em alguma vez durante todo o tempo passado-presente, aquela linha entre quem eu achava que ele era e quem eu sei que ele é, eu tenha conseguido esconder a atração meio efêmera que eu tinha (tenho?) por ele.

O que me assusta, me racionaliza, me torna consciente, é, em paradoxo, como tudo consegue soar como um cochilo de cinco minutos quando estou com ele. Quando brincamos de tinta com os velhinhos, ou quando Jeongguk leva um dos jogos complicados dele e tenta ensinar a todos, como quando dividimos uma caneca de chá às rales da cozinha, durante nosso intervalo, e acabamos perdendo a noção do tempo. Como eu sempre perco a noção do tempo — lendo, estando com Jeongguk e, aparentemente, pensando sobre ele também. Já é quase uma da tarde, e eu ainda não fechei a banca e nem me apressei para pegar o ônibus, que já deve estar passando no meu ponto.

Agora é como se o meu cochilo de cinco minutos fosse aquele da manhã, entre o tempo que vovô me acordava para a escola, e eu resmungava “só mais um pouquinho” e me acomodasse nas cobertas; então, acordava quinze minutos depois, atrasado e tendo que implorar uma carona para vovô, que só me olhava feio e dizia para que eu não me esquecesse do lanche que ele separou para mim. Baixo o toldo de metal, seguro firme na alça da minha bolsa de tecido e estou passando o cadeado quando lembro que deixei meu celular dentro da banca; o que é uma pena, porque, aparentemente, ele vai passar o dia lá, já que não tenho tempo para voltar e buscar, só para xingar um palavrão e me virar para atravessar a rua.

Mas existe um erro na minha logística. Percebo somente quando meus passos cessam ainda de um lado da calçada, o meio-fio logo a minha frente, mas não o atravesso; na verdade, eu não faço nada, só fico ali, observando. Observando Jeongguk e sua bicicleta virem em minha direção, devagar, enquanto ele acena e tem um sorriso no rosto (que não o deixa nem quando ele olha para os dois lados antes de atravessar, ainda pedalando). Preciso de alguns segundos para me localizar — como a maldita inconsciência que desliga meu corpo por segundos, causada pela presença de Jeongguk, e apenas isso —, e encontro ele, saindo da bicicleta, segurando ela, enquanto me olha, sorrindo, passando os dedos pelo cabelo onduladinho, tentando ajeitar o efeito do vento sob eles, enquanto diz:

— Oi.

É só isso. Aquele seu tom de voz bobinho, que brinca com a tonicidade da voz de um moleque de dezoito, o fazendo parecer tão animado quanto um de dezesseis; então, quando ele fala de novo, o “tudo bem?” saindo certeiro, forte, e ele parece ter vinte e dois. É sobre essa dualidade estranha que me faz questionar qual das partes eu prefiro. Nenhuma, é o que percebo, porquê, no fim, elas não existem: não existe divisão. Tudo é Jeon Jeongguk, e eu não sei se, dada a confusão inconsciente da minha racionalidade duvidosa, me faria bem definir o que sinto; o que penso.

— ‘Tô atrasado, só — respondo, fazendo beicinho, enquanto o encaro de frente, e percebo sua sombra projetada no asfalto, aquela figura grande que não tem cinco porcento da personalidade que o meu Jeonggukie tem. Pane no sistema, o que eu acabei de pensar?! Meu o quê?!

— Tudo bem, bobinho, tinha ido mais cedo ‘pro asilo e no fim estranhei tua demora — ele diz, tão sorridente, leve, balançando sob a tarde que inicia, e aquelas duas palavras repetem e repetem na minha cabeça. Ele sobe na bicicleta, colocando um dos pés no chão, para apoiar o próprio peso, enquanto me encara e pisca antes de dizer: — Sobe, sua carona chegou.

Solto ar pelo nariz, impressionado. Jeongguk parece tão confiante e todo aquele brilho explorando seu cabelo, seus olhos meio fechadinhos, a jaqueta de couro pendurada no corpo como se fizesse parte dele. Não era mais sobre a minha pressa, meu medo de atraso; Deus, era sobre Jeongguk, sobre como ele conseguia ficar bem em cima de uma Caloi velha, me convidando para subir, tão estupidamente divertido que me fez pensar duas vezes, e então eu subi.

Fico de lado, sentado meio desconfortável no ferro da bicicleta, enquanto Jeongguk levanta do banco, um pouco pede para que eu deixe meus pés sempre longe das rodas (com perigo iminente de um dos meu cadarços longos enrolarem ali), vira para trás dizendo que era um bom condutor, mas que era melhor eu me segurar, porque a viagem seria “com emoção”. Quero parar de sorrir e dizer que tudo leva emoção quando ele está perto, mas isso parece brega; tudo parece brega, desde como meu peito aquece ao sorriso dele, à sensação totalitária de irracionalidade que me toma quando ele começa a pedalar, pegando ritmo, e, ao sair do meio-fio, passando a pedalar fora da calçada, meu primeiro instinto é me agarrar a sua cintura.

Ele não hesita sob meu toque, e eu o invejo, porque sinto minhas células em tremor completo, e é tudo um pouco mais real quando o vento bate, meus pés pendurados na bicicleta e ele conduzindo a gente entre os carros que trafegam em trânsito extremo, pelo horário. Não precisamos respeitar a sinalização, apenas conduzir e conduzir, não existe mais estação, porque todas existem simultaneamente dentro de mim. Penso em existir para sempre também, mas me parece melhor simplesmente não existir, transcender; a eternidade na bicicleta de Jeongguk, gritando animado quando uma lomba se aproxima, me aconchegando melhor ao redor dele, e o sussurro quase inaudível que ele solta, tomando velocidade:

— Não precisa ter medo — e eu não tenho. O agarro pelo efeito da coisa, porque trabalhar com o conceito é mais fácil do que coexistir na realidade, a jaqueta dele abriga minhas mãos bem, e eu preciso subir minha cabeça para encarar a descida.

Frio na barriga, um redemoinho no meu estômago. A adrenalina corre solta, Jeongguk ri alto e tudo se intensifica, ele pedala sem dificuldades, descemos em velocidade, meu coração batendo rápido e a liberdade agindo diferente, porque eu quero aproveitar dela com Jeongguk à conduzir. Sinto meus fios voarem, eletricidade por todo meu corpo, então fecho os olhos e deixo de ver; sinto, entretanto, Jeongguk e eu no final da grande lomba, ele levantando o quadril do banco para pedalar com maior facilidade, pegando ritmo, desviando de pedras, buracos e do que vier pela frente, vento, sol, estamos bem assim.

Quando ele para a bicicleta, como que freando rápido, me assusto. Sua barriga treme, eu sei que ele está rindo da minha reação, o que me faz apertá-lo, recebendo um olhar sob o ombro, ele se certificando de que eu estava bem. Sorrisos para todo lado, sinto falta do entardecer embalando a gente, e percebo que não estamos no asilo ainda; me pergunto onde estamos, então Jeongguk desce da bicicleta e me pede para fechar os olhos. Eu quero saber o que ele está planejando, mas é aquele sorriso contido, o jeito que suas bochechas coram, como ele precisa arregaçar as mangas da jaqueta para conter o calor, que me fazem obedecer sem questionar.

Ainda estou sob o ferro, os pés largados, e o ar é leve nos meus pulmões. Pouca sombra, mas eu gosto de como o sol age na minha pele, então ponho a cabeça para trás, meu rosto em direção ao céu; não sinto a presença de Jeongguk, mas escuto sua voz. Então estico a mão em minha frente, o dedos abertos, para ajustar minha visão e voltar a encará-lo. Na minha frente, ele segura flores amarelas, não girassóis, são pequenas e estão com as pétalas maltratadas, o que me faz acreditar que ele pegou-as do chão. Estou sorrindo antes mesmo que ele fale algo. Ansioso. Nervoso. Feliz.

— Cortesia ‘pro meu passageiro — e estende as três flores, delicadamente, certamente nem percebendo quando eu crispo os lábios, estico meus dedos e sinto meu interior em um êxtase diferente. — Combinam com seu tênis.

E é verdade. Meu allstar amarelo ganha um significado diferente agora — não mais sobre ser o tênis de cano alto que acertou sua testa e nos fez parar na delegacia. Agora é só… O tênis amarelo que combina com as flores que Jeongguk colheu do chão para mim. É melhor assim, eu gosto. Virou nosso lance re-significar as coisas, e tudo aquilo parece com uma cena ruim dos mangás velhos que eu gosto de ler, o efeito é o mesmo: perco a noção do tempo. Inconsciência, não quero acordar. Tudo por mais dos segundos em que eu vou pegar as flores, tão bem resguardadas sob sua mão, e nossos dedos se tocam; corrente elétrica, a ansiedade, e de repente eu sorrio, em resposta. Jeongguk morde o lábio inferior, e é só quando eu tiro as flores de sua mão que ele me olha, parecendo se lembrar de algo, e as pega de volta, sem dizer nada. Não faço força por elas, ainda meio perdido entre o momento em que sua mão tocou a minha e o que ele se aproximou, rápido, parecendo precisar disso.

Estamos cara a cara. Ele parece menor enquanto o vejo, ainda sentado sob a bicicleta, que só para no asfalto porque Jeongguk a escorou ali. Sua respiração toca meu pescoço, e é quente, quente como quando ele passa os dedos pelo meu cabelo, tirando alguns fios que caem sob meu rosto, tão delicado, a sensação se prolongando pela minha memória, parecendo agir ainda, mesmo que ele já esteja concentrado em tirar uma das flores e, tombando a cabeça para o lado, ficando mais próximo. Ele encaixa o caule dela atrás da minha orelha, seus dedos quase não existem ali, ainda que ele os passe pela cartilagem, que desviem meu cabelo para o lado oposto. Mais uma flor, posta junto com a outra, estão unidas, o amarelo reflete em seu olhar, e ele sorri; as covinhas aparecendo, a postura meio torta, os lábios abertos e mostrando seus dentinhos de coelho.

Jeongguk continua perto, seu perfume nublando meus pensamentos, seu nariz está na linha do meu queixo e ele não me toca mais. Mas eu quero que o faça, ainda que pareça eterno enquanto é iluminado pela tarde que sobe ao céu, o alaranjado brincando com a pele, e ele parece uma tela: desenhos se fazem, seus olhos enrugam, o sol queima suas bochechas e tão rápido quanto eu sinto ele querer se afastar, um dos pés indo para trás, resmungo, pegando uma das suas mãos. Ele arregala os olhos, e é muito sobre como consegue sentir a surpresa em si, enquanto puxo sem força ele para perto, mais perto que antes; sua mão toca minha camiseta branca, e eu continuo a segurá-la, torço para não tremer — mas é instinto, reflexo de tudo que acontece dentro de mim, desde a festa interna com os dedos dele em mim, quanto o nervosismo que percorre o caminho até a minha boca. A fala não sai, mas o gosto amargo da ansiedade sim.

Não nos movemos. Tenho medo da bicicleta ceder, de Jeongguk sair correndo, medo de alguém passar e nos atrapalhar, medo de uma catástrofe acontecer. Não quero perder esse momento, não quero perder essa memória; mas não faço nada senão encarar Jeongguk na minha frente, minhas pupilas conseguem gravar o momento exato em que ele inclina a cabeça para cima, na ponta dos pés, e sua testa toca a minha.

Fico com a sensação de estar febril no momento seguinte, o toque desencadeando a bagunça mais verdadeiramente minha, meu pulso fica rápido, a respiração ofegante e meus pensamentos tão altos que quase não consigo ouvir os carros ao fundo. Penso que vou desmaiar, que meu corpo vai cair para trás, que eu vou acordar e tudo isso não vai ter passado de um sono muito maior que o de um cochilo de cinco minutos. Teorias rodando minha mente, mas Jeongguk continua sendo o foco de tudo; Jeongguk e seus coturnos no asfalto, Jeongguk e sua mão na minha camiseta, Jeongguk e sua testa na minha, Jeongguk dividindo a respiração comigo. O exterior fica mudo, a inconsciência me atinge, mas eu continuo racional, e é pela racionalidade que sei que devo fazer companhia ao sol e envolver a nuca do Jeon com a minha mão livre. O faço, deslizando meus dedos pela pele que se arrepia ao meu toque, e arfo com a resposta tão óbvia do seu corpo ao meu. Ele puxa minha camiseta, nos deixa mais próximos e eu sei que as flores atrás da minha orelha toca seu cabelo, então estamos unidos pelo mesmo amarelo.

Tenho meus olhos fechados, Jeongguk também. Não existe nada além da unidade básica de vida entre a gente, e eu juro que acabaria com ela também, apenas para tê-lo mais perto; um, dois… Não chego ao três, a coragem chega antes, e eu apenas empurro sua nuca a favor do imã que une a gente. Minha boca roça na sua, e é como sentir o vento bater contra meu rosto enquanto descemos a lomba em alta velocidade: a cidade fica muda aos nossos gritos internos, a adrenalina, eu me arrepio; e a liberdade. É como pensar em uma das flores que enfeita a minha imagem caindo em queda livre; beijar Jeongguk.

Doce, sua boca é doce. Nuvens na minha mente, e não existe mais o entardecer, ou o amanhecer. Quero todo o tempo do mundo, e percebo que ele se concentra ali: enquanto nossas bocas se mexem, em sincronia, ele amolecendo sob meus dedos, levando a outra mão também ao tecido da minha roupa e puxando, puxando, até que dois corpos possam ocupar um mesmo espaço. Suspiro alto, meu pulmão saciado como se uma rajada de oxigênio percorresse ao seu redor, borboletas fazendo isso por mim; elas estão em todo meu corpo, até nas pontas do pé, mas se concentram no meu estômago quando Jeongguk pede passagem com a língua.

O sol beija nossas peles, e eu beijo Jeongguk — Jeongguk me beija de volta — e nunca existiu tamanha satisfação em mim. Não brigamos por controle, tudo funciona lentamente, como se estivéssemos aprendendo a fazer isso; e funciona, funciona como tudo que fazemos juntos. Sinto o ímpeto de simplesmente chupar sua língua e transformar aquilo em algo a mais, mas não o faço, beijo, beijo e beijo com tudo que tenho, cada uma das minhas forças colaborando para ficarmos assim, nos movendo para lados contrários, a língua dele na minha, e a exploração enquanto nossas bocas não emitem som senão o estalar de um beijo protegido pela segurança de toques mutuais.

Sinto Jeongguk soltar uma risada, sai abafado, me faz procurar seus fios de cabelo e enfiar meus dedos ali, aproveitando da maciez (tanto do cabelo, quanto da boca). É fácil beijar Jeongguk, ele tem gosto de algodão doce e dividimos uma página inteira de um dos livros que eu me sinto sugado por — e os cinco minutos de sono se tornam dez de beijo. Lento, calmo e recíproco, toques deslizando por sua nuca, minha camiseta. Quero isso para sempre. Penso que ele também, mas findamos o contato. Jeongguk me encara tímido, e eu quero dizer que isso só me faz querer beijá-lo de novo. E de novo.

Termino com selinhos consentidos, um atrás do outro, toda vez que ele tenta rir, falar, ou simplesmente voltar a conduzir a bicicleta. Finjo que vou deixá-lo e ir e desfaço do aperto em sua mão… Ele tenta, e eu puxo de novo. Mais um selinho. Ele diz que vamos nos atrasar. Eu digo que não me importo. O vento faz suas ondinhas castanhas voarem livres, e eu quero me afogar ali, beijar sua boca enquanto temos o resto do dia, o resto da vida. É viciante, nunca suficiente. Mas tenho que me contentar com apenas mais sete beijinhos castos e sua cintura que parece ser perfeita para os meus braços; seguimos caminho, e eu sinto, dessa vez, a companhia de todas as borboletas do mundo. No meu inconsciente, continuo descendo a lombada, agora com Jeongguk me beijando. Não é mais um cochilo, e eu nunca estive tão feliz em acordar para a vida.

 

É durante a tarde no asilo que eu me vejo como um adolescente de novo: desde o momento que chegar de bicicleta com Jeongguk gera burburinho entre os velhotes fofoqueiros que eu cuido, até a troca de olhares e sorrisos singelos que eu e Jeongguk fazemos, constantemente. Estamos lendo, alguns residentes jogados sob o tapete, outros em cadeiras e puffs. Eu tenho minhas pernas cruzadas e um livro no colo, Pride and Prejudice, o sucesso de Jane Austen, que gera discussões, mas que, principalmente, é bastante aclamado por quem fica no asilo; alguns só escutam a minha voz, concentrados, acenando, ou apenas de olhos fechados, outros, como Jinho e Myukin, que foram, gradativamente, perdendo a audição e que raramente participavam de nossas dinâmicas pela dificuldade social que a surdez causa, estão recebendo auxílio de Jeongguk — ele narra, em língua de sinais, de forma que foi ganhando ritmo apenas na vigésima sétima página do livro, o que eu falo.

Minha dicção tende a ser clara, mas eu sei que preciso fazer um esforço maior para falar calmo e alto, já que alguns estão próximos a mim, e outros não. Jeongguk disse que estava enferrujado na língua de sinais; é mentira. Seus gestos são limpos, e ele não precisa raciocinar muito antes da minha fala chegar até ele e ser transmitida a Jinho e Myukin. Não existe muita dificuldade com toda a dinâmica, pelo menos não por essa diferença, que implica em Jeongguk do meu lado, mas totalmente focado nos dois residentes que precisam da sua “tradução”; no fim, quem acaba levemente prejudicado sou eu… Não por como preciso ler, não pelo fato de levar mais tempo do que levaria se eu lesse com entonação, como é o meu normal. É pela proximidade de Jeongguk, é por como o corpo dele se move e ele faz tudo parecer fácil, e como está contente fazendo isso, ajudando os outros.

Se torna sobre a maneira dele de gesticular, o jeitinho que ele me encara pelo canto do olho, me dando permissão para continuar, assim que termina a narração em língua de sinais. Sobre o perfume que parece uma mistura do meu também; sobre como nos beijamos escorados na bicicleta e a imagem que ainda roda na minha mente, sem cessar. Me perco na fala, os personagens deixando de existir, porque, por mais que eu goste de não depender do tempo, já não sei se ele é um fator que importa na vida depois de Jeongguk — dos sorrisos dele, de como nos encaramos, escondendo um segredo, mantendo para nós e para a rua tudo que o beijo proporcionou.

Ainda me surpreende que a boca de Jeongguk seja tão doce quanto ele; sei disso, e afirmações vêm de todos os cantos, como hoje cedo, quando puxei um mangá para ler e Nayeon deu a ideia da roda de leitura, enfiou Pride e Prejudice em minhas mãos, e perguntou quem gostaria de ouvir a história que eu tinha para contar (ou apenas transmitir, já que não é originalmente minha). Então Jeongguk se levantou, pediu para esperarmos uns minutinhos, porque traria, de acordo com ele, dois grandes fãs da obra; voltou com Myukin e Jinho no encalço, já antecipando seu perdão para o caso de transmitir algo de forma errada, tudo em língua de sinais, sendo respondido da mesma forma. Depois dali, tudo fluiu tranquilamente: a minha narração com a sua tradução, como todos pareciam atentos e, Nayeon, com seu chá em mãos (o que já fazia parte do seu corpo, praticamente), satisfeita.

Funcionamos assim, como acontece em tantas outras situações. Apesar da minha fascinação óbvia em seus detalhes, Jeongguk gosta de ser observado, e o nosso ritmo agrada a todos. Terminamos quando já é perto das nove, e eu digo que preciso ir para casa; Nayeon agradece minha participação, e todos se levantam, me dando beijos e abraços, um ‘até amanhã, Tae’ e ‘obrigada por isso, querido’ ali e outro aqui, em vinte minutos estou pronto para ir… Bem, quase pronto.

Espero que todos já estejam distraídos de novo, alguns indo para a cama, preparando seus pijamas, enquanto outros pegam um prato com a janta recentemente preparada. Espero na recepção, escorado na parede contrária a que a porta para a sala de recreação abre, e é nove e quinze quando Jeongguk sai, distraído, olhando para os lados, como se procurasse algo — ou alguém. Puxo-o pelo braço, o fazendo abafar um grito, quando vê que sou só eu, e seguro uma risada alta, pelo jeito que seus olhos se arregalaram e ele apertou forte meu ombro. Ele brinca, me dando um tapa, me chamando de idiota, e tudo que eu eu faço é deixar nossos corpos mais e mais perto, agradecido pela menina da recepção já ter ido embora e só restar a gente no cômodo. Jeongguk começa a dizer que tinha realmente se assustado, que eu era um grande filho da puta, que quase morreu do coração, e eu peço desculpas baixinho antes de levar minha boca a sua.

Nos beijamos pela segunda vez. E parece não fazemos isso a anos; existe o conforto familiar, como da primeira vez, mais cedo, mas agora tem desejo. Vontade. Ele engole minha boca, chupa meus lábios, e eu deixo que o faça, que segure nos meus cabelos e me prenda entre ele e a parede. Jeongguk está no comando, e eu gosto de ficar a sua mercê, mas não dura muito — ele mesmo se desmancha em questão de segundos quando agarro sua cintura, as duas mãos firmando ali, enquanto chupo a sua língua. Meus olhos estão fechados, e isso parece intensificar meus outros sentidos, o que me faz ouvir quando Jeongguk geme, abafado pela minha boca, e eu arfo. É uma sinfonia, não desesperada; não como se reagíssemos instantaneamente a cada toque, mas sim como vamos descobrindo pontos erógenos, onde tocar e onde beijar.

Ele deixa um beijo no meu queixo. Outro na minha orelha. Desce para meu pescoço e eu sinto que estamos prestes a levar aquilo a outro patamar, quando lembro do ônibus: é o único que passa na nossa linha naquele dia. Digo isso para ele. O ouço resmungar algo como “não ligo, Tae”, e pede mais beijo, mais toque. Deus, eu o daria tudo isso e mais, se pudesse, mas nós estamos realmente sob o risco de, além de sermos pegos no flagra, perder o ônibus.

— Podemos beijar no ônibus; vem logo, seu beijoqueiro.

Jeongguk ri do apelido, ainda com a boca na minha pele, e a sensação de seus lábios nos meus se prolonga, mesmo quando estamos do lado de fora do asilo, apenas o calor da noite nos embalando. O olho pelo canto do olho, e Jeongguk está uma bagunça: os fios desgrenhados, ainda que as semi-ondas mantenham seu charme, a boca inchada e a camiseta larga de mangas longas está meio amassada na parte do pescoço, onde eu o rodeei mais cedo. Está vermelho. Fica bonito embaixo do poste de luz. Fica bonito de todo jeito.

Quero lhe dizer isso, quero lhe dedicar todos os beijos, quero puxar seu corpo contra o meu, e quero beijar ele à luz da lua, apenas pelo conceito de criarmos o eclipse em momentos diferentes em que beijamos na rua. No fim, essa ansiedade continua correndo no meu sangue, o impulso de simplesmente tomar Jeongguk para mim, ser tomado por ele; a minha garganta seca e meus passos que parecem ser automáticos, mas meus olhos que continuam em si, enquanto ele tagarela sobre as aulinhas do curso e como parecem mais fáceis desde que começamos, paralelamente, as nossas. Diz que está confiante. Eu digo que estou orgulhoso. Nos encaramos, e eu realmente penso que sou melhor agindo do que falando: deixo de passar vontade, Jeongguk está ao meu lado, rendido com seus olhinhos fechados pelo sorriso largo, as pintinhas deles dispostas ao meu toque, assim como ele por completo.

Existe muito dentro de mim, coisas que eu estou descobrindo ainda, coisas que eu nunca imaginei sentir — e coisas que eu nem sei se realmente sinto —, e muitas coisas que eu não quero rotular no momento. Só importa que é ele, ele que causa, ele que, quando mexe no cabelo, sem notar, tem toda a minha atenção, que, quando caminha, parece ser o dono do mundo, que, quando fala, tem a voz mais doce do mundo, que quando beija, tem o gosto mais doce do universo. Então, quaisquer que sejam essas coisas, atração, fascinação, apenas um jeito de superar a nossa rivalidade, não faço questão de saber. Apenas agarro a sua mão, e, pelo jeito que meu coração bate acelerado, eu percebo que ainda existem muitas coisas a serem sentidas.

E eu sinto coisas por Jeongguk durante todo o caminho. Quando esperamos pouco tempo na parada e eu aperto seus dedos nos meus, as coisas se intensificam. Entramos, e ele pede para deitar a cabeça no meu colo quando tomamos o conjunto de seis bancos no final do transporte; mexo nos seus fios, brincando com seu mar de cabelo ondulado, e de repente a enxurrada de coisas é tão forte quanto a maresia. Me deixo mergulhar, sem previsão para subir a margem de novo.

Talvez existam coisas dentro de Jeongguk que eu também esteja por descobrir.


Notas Finais


a playlist: https://open.spotify.com/playlist/1l1PANFvWHy6svVQmd4lGN?si=LBDGVdLeSn-r35o8jHEE3A

se quiserem papear, só chamar no twitter. esse capítulo foi um divisor de águas, mas não se animem muito, eu sou meio traiçoeira na escrita assim mesmo... no mais, até o próximo, hehe


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