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História Embrasa - Capítulo 2


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Notas do Autor


Sinceramente, eu não planejava publicar esse capítulo hoje, mas como é um dia especial, dei uma apressadinha e aqui estamos. Então galera, hoje é o aniversário de quem?! Isso aê, do nosso #leadernim TY Track, logo é um ótimo dia para introduzi-lo na história.
˚₊· Alerta de #spoiler de The Vampire Diaries (para quem ainda não viu/está vendo a série)
˚₊· No capítulo anterior, a @aestuantic comentou que a história lembra a música Dollhouse, da Melanie Martinez, e depois de pesquisar eu percebi que, puts, não é que parece mesmo?? Então, se você assim como eu não conhecia essa música, indico ela demais, pois ela tem mesmo muito a ver com a família do Jae (e ainda por cima é maravilhosa)
˚₊· Capítulo não betado, pois estava com pressa de publicar ainda hoje. Qualquer errinho, por favor, relevem ♡

Boa leitura rapaziada ♡

Capítulo 2 - Capítulo Dois



[EMBRASA]
Capítulo Dois:

 

Eu era um péssimo bebedor.

Na escola, os garotos do time de futebol costumavam se reunir na casa de um ou de outro para beberem escondidos dos pais, mas eu nunca aceitava seus convites, mesmo sabendo o que eles falavam de mim pelas costas, como me julgavam um esnobe por não agir como eles agiam.  A verdade é que, durante a adolescência, eu testemunhei de perto o quão deplorável uma pessoa pode se tornar quando sua mente e atitudes são induzidas pelo álcool, e para mim parecia patético que alguém tivesse tão pouco controle sobre si mesmo que não soubesse a hora de parar.

Pessoas bêbadas não tinham orgulho, não tinham vergonha e tampouco bom senso, por isso passei grande parte da minha vida odiando qualquer tipo de bebida alcoólica.

A primeira vez que provei uma cerveja foi já na faculdade, quando completei vinte anos. Meus amigos, aproveitando que a família de Doyoung estava viajando desde o ano novo, fizeram um churrasco para o meu aniversário e compraram tanta carne e bebida que daria para alimentar um batalhão. Eu estava relutante no começo, mas como sempre fui um tanto curioso, acabei provando depois de John e Ten prometerem que cuidariam de mim caso eu passasse dos limites.

Eu gostei da cerveja, mas me apaixonei pelo vinho branco suave que tinha na adega do casarão dos Kim, e foi após beber uma garrafa inteira praticamente sozinho, que eu tive meu primeiro porre. Como prometido, eles cuidaram muito bem de mim, ao ponto de me darem um banho quente, secarem meus cabelos e me colocarem para dormir como se eu fosse uma criança de seis anos. E no dia seguinte, eles riram da minha condição e me mostraram uma série de vídeos meus chorando enquanto cantava Into The New World, e até arriscava alguns passos muito mal executados.

Naquele momento, descobri que beber não era tão ruim quanto eu imaginava e passar vergonha não era nenhum fim de mundo, contanto que fosse na frente de pessoas nas quais eu confiasse o bastante para deixa-las cuidarem de mim. Mas, em público, cercado por pessoas que eu não conhecia, eu dava o meu melhor para perceber meu limite e ficar dentro dele.

O mesmo não podia ser dito de Jungwoo.

Eu não fazia ideia de quanto tempo estávamos na festa, mas pareciam ser horas. Minha mente estava leve como uma pluma e meu corpo parecia formigar pelas doses de gim tônica que havia ingerido. Meus reflexos estavam um pouco lentos e eu estava mais risonho do que o comum enquanto dançava, esbarrando em vários corpos suados e desconhecidos, porém, eu definitivamente não estava bêbado. Por isso, quando Jungwoo apoiou sua cabeça em meu ombro, com o corpo mole e mal se aguentando em pé, não tive problemas em deixar que apoiasse seu peso em mim, mesmo dando um passo para trás para manter melhor o equilíbrio.

— Está tudo bem? — perguntei, preocupado com seu estado. Na confusão da boate lotada, não tinha percebido que ele havia bebido tanto e foi impossível não me perguntar se ele era sempre assim quando ia a lugares como aquele.

— Eu ‘tô enjoado — respondeu com a fala enrolada, tão baixo que eu não teria ouvido se seu rosto não estivesse perto do meu ouvido.

— Quer ir ao banheiro? Eu te levo.

O segurando com mais firmeza, cutuquei o ombro de Johnny antes de apontar para Jungwoo, quando seus olhos caídos se prenderam em nós. Ele parecia preocupado quando acenou com a cabeça, antes de levantar o celular e chacoalha-lo, um gesto claro para que eu lhe ligasse caso houvesse algum problema.

Atravessar a multidão carregando outra pessoa era mais difícil do que parecia, ainda mais quando estávamos tão longe dos sanitários. Jungwoo se esforçava para acompanhar meus passos, sua cabeça escorada na minha e seu braço jogado por cima dos meus ombros, mas ele estava tão cambaleante que seus esforços não adiantavam muita coisa.

— Me leve até o terraço — pediu ele, se referindo a área de fumantes do segundo andar. — Eu preciso de um ar.

O dito terraço ficava no final do corredor dos banheiros, separado por uma porta metálica de segurança e indicado por uma placa de led bastante chamativa. Após empurrar a barra antipânico com a mão livre, consegui abrir a porta o suficiente para Jungwoo e eu passarmos lado a lado por ela. O ar estava fresco e as conversas paralelas eram muito mais baixas que a música barulhenta do lado de dentro, o que me fez sentir bem logo de cara.

O espaço amplo era muito bem decorado, com varais de lâmpadas amarelas cruzando de ponta a ponta e muitos pufes e sofás espalhados por ali, a maioria desocupada já que as pessoas fumavam em pé, escoradas nas muretas de tijolos à vista. Após arrastar o Kim até um pufe estofado verde neon e ajuda-lo a sentar, me agachei em frente a ele no chão e acariciei seus cabelos enquanto ele apoiava a testa em seus joelhos.

— Está melhor? — perguntei, recebendo uma palma erguida como resposta. Era uma pergunta idiota, ele não parecia nada bem. — Se eu soubesse que iria beber tanto, não teria tirado os olhos de você.

— Eu sou adulto, Jaehyun. Sou responsável por mim mesmo. — Após jogar os fios escuros para trás, deixando a testa à mostra, ele apoiou os antebraços nas coxas e sorriu daquele jeito doce e travesso, com o qual eu já estava tão acostumado. Mesmo bêbado ele continuava bonito. — Mas obrigado por cuidar de mim, papai. Vou ser um bom garoto da próxima vez.

Rindo da resposta debochada, não resisti em beijar seu sorriso, não aprofundando o contato mesmo quando ele segurou a gola da minha camisa e me puxou para mais perto. Jungwoo era ainda mais provocativo quando bebia, ficava excitado facilmente e não perdia a chance de agarrar alguém — nesse caso, felizmente era eu —, porém ele não estava em condições algumas de ser beijado, não quando estava enjoado e mal conseguia ficar em pé sozinho. Ele murmurou quando me afastei, reclamando enquanto franzia o cenho e um bico teimoso tomava conta de seus lábios.

— Que tal a gente ir embora? — questionei, tirando o celular do bolso e vendo que já eram quase quatro horas da manhã. Depois de receber um aceno desengonçado de Jungwoo, que logo após voltou a apoiar a testa nos joelhos, pedi: — Fica paradinho aqui, ok? Vou avisar Johnny e chamar o Uber.

Me levantando, alonguei as costas rapidamente antes de caminhar até a mureta mais próxima, aproveitando a brisa fria para afastar os fios de cabelo suados de meu rosto. Mantive um olho no Kim enquanto digitava uma mensagem para Johnny avisando que estávamos partindo, então abri o aplicativo de transporte. Estava digitando o endereço de Jungwoo quando senti alguém parar ao meu lado.

— Jung Jaehyun... — Ao ouvir meu nome ser murmurado por uma voz desconhecida, virei o rosto na direção, tendo minha visão parcialmente tapada por uma nuvem fina com cheiro de melão. Tossi quando aspirei a fumaça do cigarro, o cheiro doce misturado com compostos químicos fazendo meu nariz pinicar. Abanando a mão em frente ao meu rosto, a fim de afastar logo a fumaça, me surpreendi quando percebi que o homem ao meu lado era o mesmo ruivo com o qual esbarrei nas escadas, horas antes. Com um sorriso ladino e uma sobrancelha erguida, ele retirou o cigarro dos lábios finos. — Aceita?

— Eu não fumo — respondi, analisando-o dos pés à cabeça, mal notando seu peito nu por baixo do blazer aberto. Ele usava uma calça de couro apertada e de cós alto que eu tinha certeza ser feminina, assim como tinha certeza de que nunca tinha o visto na vida. Ele parecia o tipo de pessoa difícil de esquecer. — Como sabe meu nome?

— Acredito que todos em Gimje saibam.

Paralisado, eu assisti ele sorrir, sínico, antes de voltar a pôr o cigarro na boca. Enquanto a fumaça preenchia os pulmões daquele desconhecido, eu sentia os meus esvaziarem ao passo em que todo o ar se esvaía do meu corpo, minhas veias gelavam e minha mente entrava em uma espécie de estupor. Estava em branco, eu não conseguia pensar, respirar ou sequer dizer alguma coisa, então só fiquei ali, com os olhos presos nele enquanto o ruivo soltava mais uma nuvem de fumaça, dessa vez em outra direção, ao invés do meu rosto.

— Sabe... — Segui seus movimentos quando ele apoiou os cotovelos na mureta e passou a fitar o céu escuro acima de nós, parecendo pensativo ainda que o sorriso ladino continuasse em se rosto. — De todos os lugares do mundo em que eu poderia esbarrar com você, nunca pensei que seria aqui, em uma boate gay de Itaewon.

Sentindo meu coração acelerar no peito e minha respiração voltar a funcionar, joguei uma olhada rápida em Jungwoo, que continuava no mesmo lugar que antes. Imitando a mesma pose do desconhecido, apoiei os cotovelos na mureta, mas mantive meus olhos sobre o perfil de seu rosto. Ele era bonito, mesmo confuso e assustado, era impossível não perceber. Seus traços eram finos e seus olhos eram grandes, sua mandíbula era bem marcada e sua boca era larga, mesmo que fina.

Eu definitivamente não o conhecia.

— É engraçado — continuou ele, suas íris escuras como breu enfim se prendendo às minhas. — Eu cresci ouvindo meu pai dizer que eu deveria ser mais como você. E olhe só para nós, não poderíamos ser mais parecidos, uh?

— O que você quer?

— Fazer novas amizades, talvez? Você pode não saber, Dream Boy, mas eu sou um cara muito sociável. — O uso do meu antigo apelido, de quando era capitão do time de futebol, fez um arrepio subir pela minha coluna. Apesar do que o ruivo havia dito, aquele apelido não era conhecido pela cidade toda, somente pelos alunos da escola onde estudei. Então, a única explicação era ele ter estudado lá. — Pela sua cara, você não parece muito interessado na minha amizade. Isso é uma pena.

— Quem é você?

O desconhecido sorriu enquanto apagava o resto do cigarro nos tijolos da mureta, seu olhar ainda segurando o meu. O piercing em sua sobrancelha destacava ainda mais a forma como ele a erguia e aquela expressão arrogante já começava a me irritar.

— Alguém que já está de saída. — Foi o que ele respondeu, se afastando de costas com o cigarro amassado ainda em mãos. — Parece que seu namorado precisa de você. Nos vemos por aí, Jung Jaehyun.

O assisti girar nos próprios pés e contive a vontade de ir atrás dele, olhando para Jungwoo a fim de lembrar minhas prioridades. Respirando fundo, acompanhei o desconhecido com os olhos até vê-lo jogar o resto de seu cigarro em um tambor de ferro que servia como lixo, pouco antes de sair pela única porta do terraço e voltar para a festa. Puxando os fios de meu cabelo em desespero, apertei os olhos e suspirei, então esfreguei o rosto e tentei voltar aos meus sentidos.

Eu não poderia fazer nada naquela noite, não com Jungwoo no estado em que estava, mas não era como se eu fosse ficar parado quando alguém que — claramente — não gostava de mim poderia espalhar meu segredo por aí. Seria difícil encontrar alguém que eu nem ao menos sabia o nome, mas eu daria um jeito.

Voltando para perto do Kim, alisei suas costas e me espremi ao seu lado no pufe, que era grande o bastante para caber nós dois. Enquanto ele apoiava sua cabeça em meu ombro, abri novamente o aplicativo de transporte e finalmente consegui chamar o maldito Uber, agradecendo por ele ainda demorar uns dez minutos para chegar, já que assim me daria tempo o bastante para pagar minha comanda e a de Jungwoo.

Estava na hora de ir embora, a festa já havia dado muito mais do que tinha para dar.

 

[...]

 

Ao chegar no apartamento do Kim, a primeira coisa que fiz foi o obrigar a tomar banho. Ficávamos há tempo o bastante para que tivéssemos tomado inúmeros banhos juntos, então não pensei duas vezes antes de tirar a roupa e entrar no box junto com ele. Ele era teimoso como uma criança quando bêbado, mas estava sonolento demais para discutir quando enfiei sua cabeça embaixo da água fria e esfreguei seus cabelos com seu shampoo de frutas vermelhas. Depois que ele estava limpo e cheiroso novamente, o deixei sentado em cima da tampa fechada do vaso sanitário, enrolado em uma toalha felpuda que estava pendurada por ali, enquanto eu terminava de me lavar.

O ajudei a vestir um short de dormir antes mesmo de pensar em mim e sequei seu cabelo da melhor forma possível, então o coloquei na cama e o cobri com o lençol. Deitei ao seu lado quando também estava pronto para dormir, mas mesmo com meus olhos pesados de sono e com os primeiros raios solares se infiltrando pelas frestas da janela, eu não consegui dormir. Tudo o que eu pensava era no desconhecido da festa e em como eu havia me enfiado em tal situação. Talvez fosse questão de tempo até algo assim acontecer, eu não estava sendo tão cuidadoso quanto poderia, afinal, então não havia ninguém a culpar além de mim.

A vida na capital era tão diferente que, por algum tempo, acho que esqueci todas as complicações que vinham com meu sobrenome.

Peguei no sono sem perceber, com o corpo quente de Jungwoo colado ao meu e seu ronco baixo abafado em meu ombro. Acordei um tanto perdido e cansado, com o som estridente do toque do meu telefone e refletindo em como colocar minha música favorita como toque havia sido uma péssima ideia. Eu não fazia ideia de onde ele estava, já que o som parecia vir de longe, mas os resmungos mal-humorados de Jungwoo me fizeram afastar o lençol e levantar da cama.

Encontrei o aparelho na bancada do banheiro, que ficava no outro lado do corredor, o que me fez lamentar ter deixado as portas dos cômodos abertas naquela madrugada. Se elas estivessem fechadas, eu provavelmente nem teria escutado o telefone tocar.

— Alô — atendi, com o total de zero vontade. — É bom ser importante.

E você acha que eu te acordaria as três da tarde de um domingo se não fosse importante? — perguntou Ten do outro lado da linha, parecendo tão bem-humorado que me deu vontade e socar sua cara bonita. — Eu quero companhia para maratonar Diários de um Vampiro e você foi o único sortudo que atendeu. Vem logo, ’saeng.

— Já tentou o Dodo? Ele sempre atende...

A última vez que nós assistimos um episódio, ele chorou porque a Elena terminou com o Stefan. — Ele bufou tão alto que tive que afastar telefone do ouvido. — Fala sério, quem é que shippa Stelena?! Delena é muito superior!

— Hyung... — gemi, esfregando os olhos enquanto caminhava do banheiro para a cozinha, não querendo acordar Jungwoo mesmo que eu estivesse louco para voltar a dormir. — Estou um lixo depois da festa de ontem, não...

Ótimo, eu fiz sopa para ressaca, você vai se sentir um novo homem depois de provar — interrompeu ele, pouco ligando para minhas desculpas. — Agora arruma logo essa bunda magra e vem para cá, eu ‘tô carente e preciso de alguém para ser a conchinha de fora.

Suspirando, estava quase dando o braço a torcer quando tive uma ideia nem tão genial assim. Se havia uma pessoa naquela cidade capaz de me ajudar a encontrar o desconhecido do terraço, esse alguém era o Ten. Eu sabia que ele faria perguntas, suspeitaria de algo e talvez até descobrisse sobre Jungwoo e eu, já que era muito bom arrancando a verdade de alguém — mas ter um dos meus melhores amigos sabendo sobre minha orientação sexual era mil vezes menos pior do que ter alguém do meu passado, com contato direto a todos que não deviam saber sobre mim, livre por aí com meu segredo em mãos.

E tempos desesperados, exigiam medidas desesperadas.

— Hyung, eu vou — concordei. — Mas preciso de um favor seu.

Um favor? Será que nenhum de vocês pode fazer algo por alguém sem querer nada em troca? Fala sério...

Revirei os olhos para o drama alheio enquanto abria a geladeira, não me surpreendendo ao ver que estava quase vazia, com apenas as mercadorias que eu havia comprado na semana anterior preenchendo duas prateleiras. Jungwoo não sabia cozinhar e comia fora o tempo todo, mas eu adorava e sentia falta já que não tinha cozinha em meu quarto, por isso cozinhava na casa dele sempre que dava.

— Bem, se você não quer mais que eu vá...

Só vem logo, pode ser? — Derrotado, Ten suspirou do outro lado da linha, o que me pareceu bastante engraçado. Ele era um verdadeiro “drama king”. — Seu chantagista de merda, você não era assim quando te conheci.

— Isso já faz um bom tempo, hyung. Além do mais, com quem eu aprendi a ser desse jeito? — Retirando uma sacola com verduras da geladeira, a deixei em cima da mesa enquanto equilibrava o celular no ombro e vasculhava em seu interior.  Antes que ele pudesse responder a provocação, continuei: — Vou fazer o almoço para mim e para Jungwoo e depois vou até aí. Quer que eu leve alguma coisa?

Eu ia dizer que quero só seu rostinho bonito... — A resposta de Ten me fez rir, nem um pouco surpreso ao ouvi-la. Ele era um flertador de primeira, nunca perdia uma chance de dar em cima de alguém, mesmo que não fosse a sério. — Mas eu aceito alguns doces também, então pode passar na padaria aqui perto e comprar uns bolinhos? Não demore!

Ele desligou antes que eu pudesse responder, mas isso também não era uma novidade.

 

[...]

 

Eu amava meus amigos, de verdade, de uma forma como nunca havia amado nenhuma amizade antes. Eles eram uma família para mim, a família que eu mesmo escolhi — amorosa, acolhedora e compreensiva como a minha biológica há muitos anos não era. Porém, entretanto, todavia, sempre tinha momentos em que eu gostaria, do fundo do meu coração, de subir até o prédio mais alto de Seul e empurrá-los lá de cima até que eles virassem patês contra o asfalto liso da cidade.

E foi exatamente assim que eu me senti quando, ao tocar a campainha do apartamento de Ten, quem abriu a porta foi ninguém mais e ninguém menos que Yuta Nakamoto — que, inclusive, não se prestou nem a me dar um “oi” antes de arrancar das minhas mãos a caixa branca da padaria no fim da rua, cheia de cupcakes com recheio de chocolate.

— Eu amo esses bolinhos! — exclamou o japonês, com um sorriso enorme enquanto ignorava minha carranca mal-humorada. — Como você adivinhou?!

Sem esperar uma resposta, ele entrou no apartamento, deixando a porta aberta para que eu o seguisse — e enquanto seus cabelos longos e castanhos sumiam sala a dentro, eu repetia para mim mesmo que não deveria matar Ten, pois ainda precisava de sua ajuda. Respirando fundo, apenas segui o mais velho.

— Jaejae, finalmente chegou! — Atirado em seu sofá com um balde de pipoca no colo e os cabelos cinzas parecendo úmidos, Ten mal olhou para mim, mais focado em pegar a caixa das mãos de Yuta quando este chegou perto, e então abri-la em cima da mesinha de centro. — Ai, cara, esses doces são tão gostosos!

Sinceramente, eu nem sabia o porquê de estar surpreso com algo assim. Era tão típico dele fazer drama e bancar o “pobre solitário abandonado pelos amigos”, que não era nada incomum mais de uma pessoa bater por lá, após cederem a todas as chantagens emocionais do tailandês. Com um suspiro derrotado, apenas retirei meus sapatos no hall de entrada antes de andar de meias até o sofá, onde peguei um dos bolinhos e me atirei contra o estofado.

— Achei que eu tivesse sido o único a te atender — murmurei quando o japonês foi buscar Coca-Cola na cozinha, soando mais rabugento do que o planejado.

— E foi, mas Yuta retornou à ligação quando acordou, então eu o chamei para assistir Harry Potter.

— Harry Potter? Mas você não queria ver Diários de um Vampiro?

— Eu mudei de ideia. — Dando de ombros, Ten enfiou um punhado inteiro de pipoca na boca antes de jogar as pernas sobre as minhas, da forma mais folgada possível. Ainda com a boca meio cheia, ele perguntou: — Mas então, precisa dos meus serviços para quê?

Não estava nos meus planos fazer aquilo com outra pessoa por perto, ainda mais quando essa pessoa era logo Yuta, que com certeza faria piadas com o assunto na frente dos outros caras, o que me obrigaria a explicar a situação. Ten tinha muitos defeitos. Era dramático, carente, astuto e um tantinho manipulador quando lhe convinha, porém, ele era um dos caras mais fiéis que eu já havia conhecido, e eu sabia que, mesmo sem que eu pedisse, ele não falaria sobre aquilo com os outros.

Eu tinha duas opções: ou falava sobre o desconhecido da boate na frente de Yuta, ou teria que esperar mais tempo para ficar a sós com Ten — o que não seria nada fácil de acontecer. Eu também poderia dizer para ele que não queria contar na frente do Nakamoto, o que deixaria tão curioso que talvez até colocasse o japonês para fora do apartamento, mas isso seria meio injusto, não? Quero dizer, ele quem havia convidado Yuta, afinal.

— Eu preciso encontrar alguém — respondi logo, olhando sobre o ombro para ver se o outro mais velho ainda estava na cozinha. — Um cara que esbarrei na boate ontem. Ele é da minha cidade natal e nos falamos por lá, mas esquecemos de trocar números e coisa assim.

— E por que não procura o nome dele no Instagram?

— É que... — Como eu poderia explicar que não sabia seu nome, sem que soasse no mínimo suspeito? Depois de acabar de dizer que havíamos conversado, como eu poderia dizer algo assim? Enquanto eu pensava em uma desculpa que justificasse a falta daquela informação, Ten estreitava os olhos para mim, lendo minha demora em responder com uma dose extra de desconfiança. — E-ele me encontrou lá e lembrou de mim, mas eu não o reconheci, sabe? Então, para não ficar chato eu só... fui na onda dele.

Tecnicamente, uma meia-verdade não é uma mentira. Certo?

— Entendi... — respondeu ele, com um sorrisinho sacana surgindo em seu rosto e seus olhos ainda estreitos. — E ele não falou o próprio nome em momento nenhum? Tem certeza que vocês só conversaram mesmo ou...

— Não viaja, é claro que a gente só conversou. — Bufando, cruzei os braços em frente ao corpo. A mera ideia de algo acontecer entre o ruivo e eu já me deixava irritado, nunca que algo assim seria possível. — Vai me ajudar ou não, hyung?

— Ajudar com o quê? — perguntou Yuta, deixando o refrigerante e os copos na mesa de centro, ao lado dos bolinhos.

Eu nem havia o visto chegar.

— Jaejae quer encontrar um cara da cidade natal dele que ‘tá aqui em Seul. — Com a mão estendida em minha direção, Ten pedia meu celular enquanto respondia ao japonês. Agradecido pela forma simples como ele havia colocado as coisas, sorri para ele ao desbloquear a tela, então lhe entreguei o aparelho.

E era por coisas assim que eu havia procurado Ten para me ajudar, e não meus outros amigos. Apesar de tudo, ele ainda era mais maduro que todos eles juntos.

— Que maneiro, eu queria encontrar alguém de Osaka por aqui — disse Yuta.

— E aquela garota de engenharia da computação? — questionei, lembrando da japonesa bonita com quem o mais velho saía as vezes. — Sakura, não é?

— Ela é de Kagoshima, que fica bem longe da minha cidade natal.

— Jaehyun... — Ten me chamou, pondo um fim a conversa paralela entre Yuta e eu. — Esse tipo de lugar sempre tem fotógrafos, então, se seu amigo estava na boate de ontem e as fotos já foram postadas no Facebook, provavelmente tem alguma dele por lá. Como ele é?

— Magro, bonito, com um piercing na sobrancelha e cabelos vermelhos.

— Ele é bonito? — repetiu Ten, interessado.

— Pela descrição, parece meio sexy. — E apontou Yuta, dando de ombros.

— Será que dá para achar ele só com isso? — Sinceramente, eu não estava com vontade alguma de entrar na onda deles e dar mais detalhes sobre aquele cara arrogante.

— Bem provável. Fotógrafos de balada fotografam todo mundo, mas sempre preferem rostinhos bonitos. Chama mais atenção, sabe?

— É verdade. — Abraçando os ombros de Ten, Yuta sorriu convencido. — Por isso eu sempre saio nesse tipo de foto, um rosto como o meu é difícil de achar.

— Ah, claro. — Rolando os olhos, concordei. — Com certeza.

— Bem, vamos ver o que a gente acha por aqui... — Me estiquei para ver a tela do celular quando Ten murmurou, então o assisti passar as imagens em miniaturas de um álbum da página da boate, tão rápido que eu mal conseguia enxerga-las. Por isso me surpreendi quando, de repente, ele simplesmente se ajeitou no sofá e abriu uma das fotos, seus olhos arregalados enquanto escondia o celular de mim. — Uou. Santo uou.

— O que foi? — perguntei, tentando enxergar a tela do celular enquanto Ten a virava para Yuta, que na mesma hora arregalou os olhos também. — O que é?!

— Olha, eu sei que você parece ser heterossexual e tudo o mais, eu mesmo sou! — disse o Nakamoto, tirando o celular das mãos de Ten para olhar a tela mais de perto. — Mas quando um cara é atraente desse jeito, não tem nada demais em dizer que ele é um puta gostoso, sabe?

— Qual é, ele nem é tão bonito assim. — Mal-humorado, passei por cima do tailandês até alcançar o celular e arrancá-lo das mãos de Yuta, virando a tela para mim logo em seguida.

A imagem postada era muito bonita, eu precisava admitir. Com os cabelos vermelhos jogados para trás, úmidos do que deveria ser suor, seu tronco levemente definido exposto pelo blazer aberto e uma luz escarlate o cobrindo por inteiro, estava o mesmo cara da noite anterior, o desconhecido do terraço. Ele encarava a câmera meio de lado, como se recém a tivesse percebido, e pelo ângulo não era possível ver o piercing em sua sobrancelha direita.

Ele parecia misterioso, estando tão sério em meio a uma festa lotada. Borradas ao fundo, era possível ver outras pessoas dançando, rindo, se divertindo, e o fato dele estar tão sóbrio fazia a imagem parecer um tanto... triste. Mas tudo o que eu pensava naquele momento era que, realmente, eu havia encontrado o tal desconhecido.

— Ele não foi marcado na foto, como faço para achar seu perfil?

— Vê nos comentários. — Quem respondeu foi Yuta, já que Ten estava ocupado demais pendurado em meu ombro, espiando a imagem do ruivo. — Talvez alguém tenha visto a foto e o marcou por lá.

Sem demoras, fiz o que o mais velho aconselhou e, de fato, entre vários comentários perguntando quem era aquele cara, havia um que parecia conhece-lo. “Lee Taeyong, bela foto”, era o que dizia no comentário de uma garota chamada Kang Seulgi, e sem qualquer motivo concreto, hesitei em abrir o perfil marcado ali.

— Lee Taeyong... — murmurei, pensativo. Tinha certeza que nunca havia sequer ouvido aquele nome antes, então como ele podia me conhecer?

— Será que é ele? — Ten perguntou, tão curioso quanto eu.

— Que tal a gente descobrir logo? — Arrancando o celular da minha mão, Yuta tomou a frente, exibindo a tela para mim e para o tailandês quando o perfil marcado foi aberto, exibindo uma imagem circular do mesmo ruivo da noite anterior, sentado no que parecia ser uma cafeteria e com o queixo apoiado na mão. — É, parece que é ele mesmo. E tem um link para o Instagram, uhul!

 Seu nome era Lee Taeyong, tinha vinte e três anos, trabalhava em um bar de Itaewon e era fotógrafo freelancer — isso foi o que descobrimos através de seu perfil no Instagram. Sendo dois anos mais velho, tudo indicava que Taeyong havia estudado na mesma escola que eu, mas não no mesmo ano. Talvez ele tenha se formado enquanto eu terminava o primeiro, talvez ele tenha conhecido meu apelido através de outra pessoa.

De qualquer forma, quanto mais eu via as imagens de Taeyong, mais certeza eu tinha de que nunca havia o visto antes, e mais desesperado eu me tornava para esclarecer a situação.

Eu precisava, urgentemente, vê-lo.

 

 


Notas Finais


Advinhem quem tentou manter a história totalmente dramática e dark, mas não conseguiu? 🤡🤡 (em minha defesa, Jae e Tae vão ser dramaticos o bastante, então não tem problema criar um núcleo meio cômico, né? haha).
Me digam aí o que acharam da chegada desse Taeyong com pose de mal que fuma cigarros docinhos de melão? Hmm...
Obrigado a quem leu e espero que tenham gostado do capítulo.

~Beijos e até a próxima ♡


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