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História Empresário - Capítulo 16


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Notas do Autor


Oi, Upinhos do meu coração!! Como vocês passaram a última semana? Espero que bem!

Vários mimos do BTS e Hobinho aniversariante pra alegrar nossos dias, né? Hihi. Falando sobre aniversários, hoje é da minha amada idolsinha Jacque! Espero que você goste de uma dedicação nessa bagunça de fanfic tbm kkkk

Boa leitura e não se esqueçam de favoritar!
#JKNãoUsaGravata

Capítulo 16 - Culpa, a disputada


Fanfic / Fanfiction Empresário - Capítulo 16 - Culpa, a disputada

Jimin não respondeu, ainda em choque em ver Jungkook pela primeira vez desde que percebeu o quão nojento havia sido com ele. Sua cabeça não era capaz de formar as palavras, nem a boca capaz de dizê-las. Uma onda de culpa o consumiu ao ver o CEO encarando-lhe tão preocupado, tão doce… ele não merecia a piedade daquele homem. Não merecia que ele parecesse tão genuinamente angustiado com o seu estado.

Sem perceber, deu alguns passos tímidos para trás no corredor e as pernas vacilaram. Por mais que estivesse inundado de vontade de ao menos pedir desculpas ao Jungkook, o medo de fazê-lo crescia a cada segundo. O medo de admitir com palavras. O medo de compartilhar tudo errado que fez. O medo de ser nojento e vergonhoso não só pra si, mas para Jungkook também.

Até porque sempre manteve tudo para si. Sabia que compartilhar seria demasiadamente doloroso. Sabia que compartilhar significava expor ao julgamento alheio. À invalidação, à rejeição. Em alto e bom som. Jimin gostava de ficar sozinho justamente para não existir ninguém que pudesse lhe rejeitar. Se já era rejeitado por coisas relativamente normais… não queria imaginar como seria seu julgamento como molestador.

Contudo, sentia que era quase um dever revelar aquilo ao Jungkook. Tentou respirar fundo.

— O que aconteceu? — Jungkook insistiu, nervosamente. Seu coração estava tomado por um medo agonizante de ter causado tudo aquilo. Aproximou do Jimin pelo corredor frio e escuro do prédio mesmo que estivesse descalço. — Você tá passando bem? Quer que eu te leve em algum lugar?

O estagiário apenas encarou Jungkook em silêncio, porque não conseguia falar. Prendia a respiração e tensionava a garganta, tentando prender o choro que insistia em voltar. Não podia chorar na frente dele. E sua frustração de ter as palavras engolidas junto com os soluços vergonhosos só lhe trazia mais lágrimas aos olhos, em um ciclo aprisionador. E, sinceramente, o comportamento solícito do Jungkook não ajudava. Os olhos redondos refletindo a mais genuína preocupação pareciam mais um estilo de tortura muito refinado.

— Eu bem que queria te chamar pra ter uma conversinha, mas… Desculpa ter te incomodado aquele dia, desculpa por tudo… — O mais novo começou a transbordar toda agonia e culpa que sentia. Os olhos preocupados começaram a marejar e as mãos tremeram um pouco. Jungkook sentia-se engasgado, porém tentava ao menos tossir aquela culpa toda para fora. — Eu…

Foi interrompido. Pelo choro de Jimin. Porque Jimin não aguentava mais ouvir Jungkook, a vítima de todo seu comportamento quebrado, desculpar-se. Parecia que cada segundo naquele ambiente fazia com que Jimin se sentisse pior. Era um choro alto, com soluços não requisitados e chamativos. Patético. Jimin enterrou o rosto nas próprias mãos, envergonhado, enquanto Jungkook observava em choque.

O primeiro impulso que ele teve foi tentar abraçar Jimin. Afinal, Jungkook sempre foi uma pessoa de muito contato e carinho físico. Mas o estagiário afastou-se assim que percebeu a movimentação, porque ver Jungkook tentando lhe abraçar só fazia com que o nojo que sentia dele mesmo aumentasse. O CEO recolheu os braços para trás do corpo, arrependido. É claro que Jimin não ia querer seus toques…

— É… — Coçou a sobrancelha após alguns momentos de silêncio tenso, inseguro. Não tinha a mínima pista do que deveria fazer para melhorar a situação e isso lhe deixava tão vulnerável que queria simplesmente se esconder entre seus lençóis, como se pudesse ser criança de novo. Ser adulto realmente era muito ruim. — Quer entrar? Acho que vai ser mais fácil conversar lá dentro.

Jimin assentiu timidamente com a cabeça, movimento resultante de muita força de vontade. Prendeu a respiração antes de acompanhar Jungkook hesitantemente até o apartamento dele. Tentou recuperar a compostura, pois daquele jeito ele não conseguiria fazer nada do que tinha planejado, nada do que devia.

Jungkook ligou as luzes da sala e fechou a pesada porta do apartamento de luxo enquanto Jimin tirava os all-stars, desconfortável como nunca. Definitivamente não pertencia àquele lugar. O dono do apartamento foi até a cozinha americana e colocou água na chaleira elétrica, indicando que Jimin sentasse no sofá.

O estagiário obedeceu mesmo que a cada passo dado, a sensação de que era um intruso crescesse. Era só para ele ter pedido desculpas e ido embora logo, mas… não conseguiu e agora estava invadindo mais um espaço pessoal de Jungkook. Achava tão errado estar na casa dele, compartilhar o mesmo ambiente que ele, que cada detalhe parecia uma tortura.

Sentar no sofá cinza e macio parecia tortura, afundar os pés descalços no tapete escuro e felpudo parecia errado, assistir Jungkook preparar um chá com naturalidade na própria cozinha, no próprio espaço, parecia uma transgressão. A única coisa que deixava-lhe menos desconfortável era a decoração do lugar, que definitivamente não combinava com Jungkook.

Talvez com um CEO, mas não Jungkook.

O apartamento era todo em tons de cinza; paredes brancas ou de cimento queimado, poucos móveis e uma cozinha em estilo industrial. Era tudo muito frio e severo, minimalista. Era quase como se fosse um mostruário, não parecia que alguém morava de verdade ali, já que não possuía decorações divertidas ou até mesmo pessoais. A mesa de Jungkook no trabalho, por si só, parecia ter muito mais a personalidade dele do que o lugar em que vivia. Era um tanto estranho.

Jungkook com certeza parecia deslocado também, apesar de vestir um blusão grande preto e shorts de academia cinza que teoricamente estavam dentro da paleta de cores. Algo em seus longos cabelos embaraçados de sono lhe tornavam um tanto quanto adorável, assim como os olhos meio inchados. O essencial, talvez, fosse sua presença, que mesmo consumida em culpa e agonia, era regada de uma gentileza estranha e que parecia um tanto quanto errada na situação em que se encontravam.

Jimin parou de observar o ambiente e o CEO, voltando o olhar para os próprios pés afundados no tapete, respirando fundo e tentando conter o choro, ou não conseguiria se desculpar do jeito que queria. Alguns minutos depois Jungkook sentou-se no sofá também, bem distante para não invadir o espaço pessoal de Jimin que nem tinha feito mais cedo. Droga, estava muito nervoso. Estendeu uma caneca ao estagiário antes de bebericar um pouco da própria.

O estagiário acomodou a porcelana entre as mãos, sentindo-se estranhamente acolhido pelo calor e pelo cheirinho que emanava. Ela era laranja e do Jungkook rosa claro e ficou um pouco mais tranquilo ao finalmente ver um pouco de cor no cenário. Quase voltou a chorar tamanha a gentileza que transbordava por cada detalhe do Jungkook. Gentileza que não merecia.

— Não sei se você gosta… é de capim limão — Jungkook murmurou.

Jimin assentiu só para expressar alguma reação, não lembrava de já ter provado ou gostar. Arriscou tomar um pequeno gole e arrepiou-se um pouco ao sentir a bebida descer e aquecer o corpo que, pela primeira vez, percebeu estar frio. Como não tinha percebido antes? Usava um pijama leve, era óbvio que passaria frio. Notou que os dedos do pé congelavam, mas o nervosismo era tanto que sentia todo seu corpo queimar.

E ficaram em silêncio por longos minutos. Jungkook esperava ansiosamente o começo de uma conversa e empurrava os lamentos de culpa que queriam libertar-se de sua garganta de volta com os goles de chá, tentando acalmar a ansiedade crescente em seu peito. Queria muito mesmo saber como poderia se redimir com Jimin, já que tinha certeza que ele estava mal daquele jeito por sua culpa. Na verdade, o que mais dava medo era não poder se redimir.

Essa era a ideia que mais lhe tirava a paz. Porque com certeza viria acompanhada daquele sentimento horrível de… inutilidade. Detestava, mais do que tudo, ser inútil. Detestava assistir coisas darem errado sem poder fazer nada. Detestava ser impotente. Qual era seu valor se não pudesse ajudar pessoas que amava? Ou corrigir erros que cometeu?

Jungkook já se martirizava muito por qualquer tipo de erro, por menor que fosse. Por mais que ninguém visse problemas nele. Ou até mesmo o consolasse pelo que aconteceu. Ele se esforçava tanto para não cometer que quando cometia… bem, pelo menos tinha que ser capaz de resolver.

E aquela demora só dava tempo para a sua mente tentar ficar criando planos de ação, como se fosse algum problema da UP2U. Deveria pagar indenização para o Jimin? Levar ele ao psicólogo? Garantir que Seunghyun fosse preso? E por mais que pensasse, mais frustrado ficava quando percebia que nada servia. Nada parecia o suficiente. Talvez tivesse que carregar aquela culpa que já tinha abraçado por toda sua vida. Aceitar que ainda era inútil. Que sempre foi, só se enganava fingindo que não era nos momentos que tudo dava certo.

Finalmente Jimin respirou fundo, parecendo resoluto. Apoiou a caneca laranja que tanto tinha lhe agradado (sabe-se lá por que) na mesa e virou de frente para Jungkook, que também aprumou-se ao ver as ações do outro. Ah, Jimin realmente estava encrencado, porque toda vez que olhava Jungkook diretamente daquele jeito, ficava com muita vontade de chorar.

— Vim aqui pedir desculpas, Jungkook… — Sua voz mal saía e a cada palavra havia uma nova pausa para segurar o choro.

— Pedir desculpas? — Jungkook ergueu as sobrancelhas, confuso. — Eu que te devo desculpas… sou o maior culpado por toda essa situação. Me desculpa, de verdade… Juro que pensei muito, mas não sei o que posso fazer para me redimir.

— Não, Jungkook… Escuta — Jimin pediu enquanto mordia os lábios. O CEO assentiu e foi tomado por mais uma onda de culpa, dessa vez por ter cortado a fala do Jimin. Ficou quieto e se esforçou para se manter daquele jeito. — Eu… eu não sei muito bem como falar isso, porque é nojento…

Jimin parou de novo de falar, engasgado com um soluço de dor. Tinha tanto, tanto nojo dele mesmo. Era tão difícil admitir… admitir o quão nojento ele era. Ele não queria ser nojento. Ele só queria fugir da dor.

— Me desculpa… — Jungkook murmurou mais uma vez, querendo desaparecer de tanta culpa. Era claro para ele que nem Jimin sabia como abordar aquilo. Sentiu-se mais culpado ainda ao pensar no esforço que o estagiário estava fazendo para falar.

Jimin ergueu o olhar, incrédulo, e negou com a cabeça. Jungkook não podia pedir desculpas. Porém, pelo olhar devastado do CEO, percebeu que aquilo mais tinha parecido um sinal de que não o perdoaria. Os lábios de Jimin tremeram, aflitos. Ele tinha que falar logo, ele precisava falar desesperadamente. Jungkook estava interpretando tudo errado e tinha que cortar aquele pensamento dele pela raiz.

— Não tenho nada para te desculpar, o nojento sou eu — disse firmemente. A respiração ainda estava meio presa, tentando acumular forças para terminar com aquilo de vez. Não podia deixar Jungkook esperando. — Você já notou, mas te assediei sexualmente pelos últimos meses. Me desculpa, de verdade. Eu… — Mais um suspiro. Não tinha justificativas para o que ele fez. Engoliu o próprio lamento. Não significava nada para Jungkook saber que o assédio que ele sofreu não foi por maldade. Ainda tinha sido assédio, independente das intenções. — Eu nada… Só quero que saiba que eu realmente me arrependo muito do que eu fiz. Me desculpa… me desculpa.

— Quê? — Jungkook perguntou, espantado e perdido. Encarou Jimin e este estava sério, fitando-o sem nem desviar o olhar, apesar de morto de vontade. Prendia a respiração e, junto com ela, o choro e a vontade de fugir. Jimin estava todo tenso. Mas tinha que aguentar. — Claro que não, Jimin, você não fez nadinha! Não precisa pedir desculpas.

— Ah, Jungkook… — Aquela foi a gota d’água para Jimin, e as lágrimas que segurava muito parcamente abriram seu caminho pelas bochechas quentes, cheias de vergonha dele mesmo. Ver o CEO em negação parecia doer fisicamente. Porque entendia muito bem o que ele estava sentindo. Carregou exatamente aquele mesmo sentimento no peito quando quase foi estuprado por Seunghyun. Ele não queria ser a vítima, não queria admitir que aquilo aconteceu, e ver Jungkook na mesma situação doía. Doía demais. — Eu sei que é mais fácil se você fingir que nada aconteceu… mas não é certo.

Jungkook titubeou. Passou alguns momentos em silêncio, porque sua consciência não podia negar que, de fato, passou os últimos dias “fingindo que nada aconteceu” assim como Jimin havia dito. Não analisou muito bem os motivos, ou o qual acontecimento exatamente ele estava negando a existência. Até porque se investigasse ia descobrir, e todo seu comportamento e negação era exatamente fugir daquilo. Mas Jungkook sabia muito bem que tinha fugido, e sabia que aquilo era muito fora do seu comportamento de sempre. E, por consequência, sabia que não era o certo.

— Foi assédio, Jungkook… — Jimin choramingou mais, completamente envergonhado, porém não se permitiu esconder o rosto entre as mãos. Tinha que encarar de frente. Ele achava tanto que estava seduzindo o Jungkook… Dava como garantido o interesse e a permissão do CEO perante seus atos por causa de uma imagem que criou sozinho. Uma imagem baseada naquelas que via dos semes de seus yaois, não da realidade, já que era exímio em fugir desta. Afinal, um seme nunca rejeitaria algo sexual e, portanto, não ligou se Jungkook realmente queria tudo aquilo ou não. Era nojento. Era vergonhoso. E ele não sabia ser nada além daquilo. — Aquela vez que minha calça rasgou… eu rasguei de propósito, eu queria que você visse… E quando eu derramei água no seu colo também… eu usei pra tocar seu pau sem permissão. A banana também foi insinuação, meu Deus, Jungkook… Tudo, tudo que eu fiz foi assédio.

Jungkook engoliu em seco, tenso. Os exemplos que Jimin deu impediram-lhe de fugir. De fingir que nada tinha acontecido. Tudo tinha acontecido. Tinha nomes, tinha datas, tinha locais, tinha responsáveis. E agora repousavam sob um forte holofote do qual não podia afastar o olhar. Finalmente, aceitou que tinha que ouvir, e começou a pensar no que sentiu durante as situações que Jimin citou.

Sua consciência estava tão afundada em auto martirização até o momento que a possibilidade de não ser o culpado parecia-lhe um tanto desconexa. Respirou fundo, tentando livrar-se do sentimento ruim que lhe corroía seu peito — clamando por sua atenção, clamando por um alívio que só viria com perdão alheio — para poder analisar de forma mais objetiva o que foi apresentado, sem se apossar de todas as culpas. Mesmo assim, era tão difícil.

Contudo, tinha todas as cartas que precisava na mesa. E percebeu, com certo choque amedrontador, que Jimin estava certo. Foi assediado por todos aqueles meses e, finalmente, soube explicar por que ficava tão nervoso e desconfortável perto do estagiário. E também por que se incomodava com aquilo. Incômodo que escolheu negar e enterrar, para que assim pudesse fingir que estava tudo certo.

Logo ficou claro que simplesmente não teve coragem de encarar o assédio de frente. Na verdade, faltou tanta coragem que se recusou a reconhecer o que tinha acontecido até ter sido comunicado do fato, com todas as palavras e até mesmo certa insistência. Queimou de vergonha, porque não era como se tivesse sido assediado sem perceber, chegou um ponto em que já podia ter entendido a problemática toda, mas fugiu daquele fardo por medo.

Obviamente, sentiu-se culpado da mesma forma. Porque era Jungkook, ele sempre se sentia culpado.

Apesar de tudo, apesar de finalmente ter reconhecido o assédio que sofreu, Jungkook só conseguia ficar envergonhado por ter fugido daquele problema por tanto tempo. Por ter normalizado a situação abusiva tanto para ele, quanto para Jimin e todos os outros ao redor dos dois. Ele poderia ter conversado com o estagiário e ajudado ele a reconhecer os próprios atos que nem fazia agora. E, se reconhecesse, poderia melhorar, mas foi tão mais fácil tentar ignorar aquilo que fugiu da própria solução.

E, sinceramente, Jungkook não conseguia sentir rancor do Jimin. Nem rancor, nem ódio, nem nojo. Só sentia culpa olhando para o rosto vermelho de choro dele. Para Jungkook, estava quase em vantagem, porque já tinha até mesmo recebido desculpas do Jimin, o que amolecia o seu coração. Não conseguia pensar que Jimin era, de fato, mal caráter. Não era como Seunghyun… Era diferente, apesar de não saber explicar tão bem os motivos que lhe faziam acreditar naquilo.

Mas acreditava em Jimin. No lado positivo que ele às vezes mostrava. Acreditava naquele que estava pedindo perdão. Não conseguia duvidar nem um pouco de que ele estava arrependido.

Poderia estar tudo bem se sua fé não fosse tão alicerçada no próprio sentimento de culpa. Jungkook não sabia muito bem se estava perdoando porque realmente acreditava naquelas desculpas, ou se era porque queria desesperadamente acreditar, e abrir uma brecha pela qual sua culpa pudesse fugir.

Bem, mais um problema para o Jungkook do futuro.

— Você está certo… — Jungkook concordou por fim, depois de um longo tempo ponderando e fazendo um ridículo malabarismo com seus sentimentos sob o olhar atento e ansioso de Jimin. — Você realmente me assediou, e eu te desculpo por isso. Gostaria que você me desculpasse também.

— Que merda você tá falando, Jungkook? — Jimin levantou a voz, incrédulo. Aquilo tinha lhe deixado tão irritado que não aguentava mais segurar tanta revolta. — Você não pode pedir desculpas! Caralho! E você não deveria me desculpar também.

— Claro que eu posso pedir desculpas! Eu me sinto muito culpado por várias coisas… — Jungkook suspirou. — Queria pedir desculpas pelo… ocorrido na UP4U. O Seunghyun fez aquilo porque queria me atingir de alguma forma, e te usou para isso, ou seja, foi por minha culpa. E quanto ao assédio… se eu tivesse reconhecido esses acontecimentos e notificado a você antes, a gente poderia dar uma trabalhadinha em cima disso… Eu sou sua liderança, eu tô aqui para te ajudar.

— Jungkook… — Jimin quase rosnou. Jungkook encolheu e desviou o olhar. Estava com esperanças de que Jimin simplesmente aceitasse aquilo e pronto. Estaria tudo certo. Contudo, o estagiário estava tão irritado que até mesmo tinha parado de chorar. — Você é imbecil? Você tá se culpando por umas coisas que nem fazem sentido! Trabalhadinha? Enfia esse diminutivo no teu cu! Para de tentar diminuir o que eu te fiz.

Jungkook encarou o chão. Ansioso e suando frio. Era como se tivesse sido completamente desmascarado. Cada palavra de Jimin era tão precisa que lhe deixava tonto.

— Claro que faz sentido ser culpa minha… — tentou retrucar, mas sua voz vacilava.

— E desde quando a falta de caráter dos outros é culpa sua? Por acaso você foi lá e pediu pra que aquele homem fizesse aquilo comigo? Eu hein, você nem ao menos respondia as provocações dele! Não é sua culpa ele ter essa fixação por você, muito menos é sua culpa ele ser um violentador. Ele é por conta própria, e você não tem nenhuma parcela de influência nisso.

— Mas…

— Jeon Jungkook, o mundo não gira ao redor de você! — Jimin sibilou, tomado por uma revolta que nem sabia dizer de onde vinha. Ele nunca sentia raiva. Assim como não sentia tristeza, nem mesmo felicidade. Sempre foi entorpecido, mas agora estava inundado de sentimentos, tantos que nem sabia lidar. Jungkook arregalou os olhos, espantado, e finalmente voltou a olhar em direção ao Jimin, assistindo toda aquela indignação fervilhante quieto, amedrontado. Tinha muito medo mesmo de ser exposto. E Jimin não parecia ter dificuldade de enxergar suas intenções. — Você é só um homem, não faz sentido você jogar pra suas costas pesos que você não tem que carregar, cuide dos seus.

Jungkook abriu a boca para retrucar, porém o olhar de Jimin em sua direção foi tão severo que perdeu as palavras. Engoliu em seco.

— Você também não tem nenhuma culpa em ter sofrido assédio. Você é a vítima! — Jimin continuou. Estava tão revoltado de ter que explicar uma coisa básica daquelas ao CEO. Não era ele o mente aberta? — Você não tem culpa, eu que sou nojento e mal caráter. Eu que continuei mesmo você dando pistas claras de desconforto…

“Você pode até pode se responsabilizar pelo meu crescimento profissional dentro da Up como meu líder, mas você não tem nada a ver com o que eu sou. Se alguém é culpado por eu ser desse jeito sou eu mesmo, ou talvez meus pais e as situações que eu passei durante a vida… Sei lá. Enfim. Você é uma parcela muito pequena da minha existência pra poder se responsabilizar pelas minhas ações.

“Então vai pra puta que pariu com as suas desculpas, eu não quero elas. Sério mesmo. A cada desculpa que você dá, eu fico com vontade de ficar chorando por mais três horas!”

Jungkook apenas observou, estarrecido, aquele lado que Jimin nunca lhe mostrou. Não sabia que o estagiário xingava, nem nunca o tinha visto levantar a voz. Na verdade, Jimin falava bem pouco de um modo geral. Ainda mais se comparado ao discurso acalorado que tinha acabado de acontecer. Jimin até mesmo respirava pesado, tentando recuperar o fôlego.

Mas de fato, não tinha como Jimin ter mostrado aquele lado antes, porque era composto de todas as emoções que tinha mantido perfeitamente enjauladas por todo aquele tempo. Aquelas que eram bestas ferozes dopadas, para que não dilacerassem o seu coração com as garras intensas. E de fato, a irritação de Jimin era tanta que estava pouco se fodendo para a imagem que tinha. Na verdade, que nem tinha mais, afinal, tinha acabado de fazer com que Jungkook percebesse que era um assediador nojento.

Ele não tinha imagem. Não tinha nada a perder e tinha todas aquelas emoções borbulhando de forma estranha dentro do peito. Talvez (era tudo muito confuso e novo para dar certeza) Jimin não se importasse com mais nada além de conseguir fazer Jungkook calar aquela boca que só sabia lamentar culpa. Não bastasse ter que lidar com o peso e o nojo de ter assediado o homem, agora tinha que aguentar também a revolta de vê-lo tentar contornar a situação, como se ela fosse simples! Estava triste, enojado, irritado e desesperado. Tudo ao mesmo tempo.

E Jungkook desarmou-se. Ou melhor, foi obrigado a se desarmar. Observou aquela barreira que levantava quando sentia-se mal para esconder seus sentimentos ruir, como se fosse feita de vidro. Estremeceu, terrivelmente exposto.

Desarmou-se porque Jimin já tinha desvendado todo seu comportamento doloroso e problemático. Porque não tinha mais para onde fugir, apenas entregar-se e levantar as mãos em sinal de rendição. Apoiou a caneca na mesa de centro com o último vestígio de forças que tinha e suspirou enquanto tombava as costas e a cabeça no encosto do sofá.

Puxou o cabelo para trás e cobriu os olhos com o braço, completamente derrotado. Tentava pensar o que ia fazer da sua vida. A única coisa que se passava por sua cabeça era fugir, porém estava encurralado e sem alternativas.

— Tudo bem, sem desculpas por minha parte — aceitou, com certa dificuldade. A frase parecia ter arranhado todo seu interior até sair. — Mas eu aceito suas desculpas.

— Por quê? — Jimin reclamou, ainda estressado e apertou os punhos contra as pernas descobertas de tanta frustração. Não conseguia entender o CEO. Ele tinha um parafuso a menos? — Caralho, Jungkook, eu te assediei, não mereço seu perdão! Você tem que me demitir, que nem deveria ter feito quando me viu aquele dia em cima da sua mesa… você não consegue? Eu posso pedir pro Jin diretamente, se quiser.

— Não! — Jungkook finalmente levantou a voz desesperado. A voz estava embargada. — Você não pode pedir demissão!

— É claro que eu posso. — Jimin apoiou a mão na testa, tentando ter provas de que estava vivendo a realidade, porque nada daquilo fazia sentido. — É a melhor opção. Por que você não quer que eu me demita?

— Porque é a forma que eu tenho de me sentir menos miserável, menos inútil — confessou Jungkook, baixinho, antes de começar a chorar vergonhosamente. Frágil, inútil, nojento e desvendado. — Eu sou um merda. Um merda inútil e incapaz. E o único jeito que eu tenho de me sentir menos merda é tentando fazer coisas que parecem boas.

“Você já viu… eu constantemente me culpo pelas coisas. E só consigo me sentir menos pior se eu conseguir resolver elas. Eu tô te desculpando não só porque eu acredito que você não fez por mal… mas também porque se eu te desculpar e você se mantiver na Up, eu posso fazer alguma coisa pra te ajudar. Qualquer coisa, sabe? Não precisa ser muito. E se eu convencer minha consciência de que eu consegui te ajudar, vou finalmente me sentir melhor.”

— Jungkook, isso não faz sentido nenhum… — Jimin estava boquiaberto.

— Acho que não faz mesmo. Ninguém pode entender o que eu sinto, porque é um sentimento nojento e egoísta. Eu quero te desculpar porque eu sou egoísta, eu quero que você fique porque eu sou egoísta. Eu quero que você melhore porque isso vai fazer com que eu me sinta bem, é isso — despejou, afundando a cabeça nas mãos, sem acreditar que tinha admitido tudo aquilo em voz alta. — E eu quero muito me sentir bem… Eu odeio ser inútil. Doí demais.

— Isso é muito estranho…

— Eu sei. — Jungkook deu de ombros, sem saber mais como agir. Estava consciente daquilo. Ia à psicóloga por causa daquilo, mas obviamente ainda não tinha aprendido a lidar com seu sentimento de insuficiência apesar da sua melhora através dos anos. — E você não tem que atender meu pedido, porque ele é um pedido egoísta. Mas por favor, fica. Me deixa fazer alguma coisa, ou eu vou ficar muito mal mesmo.

— Se isso faz sentido para você… — Jimin murmurou um tanto atordoado, sem entender. Ele deveria mesmo estar aceitando aquele pedido descabido? — Se realmente é melhor do que eu me demitir, eu fico com você.

— Obrigado… — Jungkook deu um sorriso amarelo e aliviado, apesar de completamente envergonhado em ter deixado aquele seu lado tão problemático à mostra.

Aproximou-se de Jimin, que ficou completamente tenso em meio a sua confusão. Segurou as mãos pequenas do estagiário entre as dele, encarando seus olhos esperançosamente. Jimin poderia ser descrito como um ponto de interrogação ambulante. Não sabia se deveria ter aceitado aquilo, muito menos aquele toque. E aquele olhar do Jungkook… tinha cheiro de problema. Tudo parecia meio errado.

— Vamos melhorar juntos, Jimin… Você me lembra que o mundo não gira ao meu redor e eu… não sei o que você precisa… Te aviso se você assediar os outros?

— Eu… — Jimin encarou as mãos nas suas, perdido no fluxo dos acontecimentos. Também não gostava da frase do Jungkook. Estava até mesmo irritado com ela por algum motivo. Mesmo assim, ele tinha feito uma boa pergunta. Era difícil dizer o que ele precisava. — Eu acho que eu preciso descobrir quem eu sou…

Foi a vez do Jungkook ficar confuso, porque não fazia a mínima ideia do que Jimin queria dizer com aquilo. E, do nada, o estagiário voltou a chorar copiosamente. Lembrou o quão vazio ele era e estava naquele momento, sem os yaois que nortearam sua vida inteira.

Chorou porque reconhecer todos os seus erros e enfrentá-los era doloroso e não sabia nem por onde começar, nem para onde ir. Porque estava perdido e só.

Jungkook, preocupado, abraçou Jimin por impulso. Provavelmente, se tivesse pensado melhor, não o teria feito. E Jimin, se não estivesse se sentindo tão sozinho, não o teria aceitado. O CEO torceu para que sua gentileza fosse minimamente genuína daquela vez, por mais que ainda alimentasse seu egoísmo e lhe deixasse mais tranquilo com a própria consciência. Não entendia o que se passava na cabeça do estagiário… mas queria entender e ajudar. Queria acreditar que aquilo poderia ser bom para os dois.

— Tudo bem… Eu te ajudo nisso também.


Notas Finais


E aí? O que acharam da conversa? Esperavam o que aconteceu?

Sinceramente, eu realmente não quero passar nenhuma mensagem nem sequer próxima de "fique com seu agressor". Como eu disse, escrevi por vários capítulos antes de postar e estava disposta a nem postar ou ter que mudar tudo se fosse o caso. Analisando os contextos, vi que era compatível com os personagens, mas sendo sincera, até agora eu fico um pouco preocupada com essa parte e espero que todos saibam que, PELO AMOR DE DEUS, ISSO NÃO QUER DIZER QUE VÍTIMAS PRECISAM PERDOAR MTO MENOS CONTINUAR PRÓXIMAS DO AGRESSOR! Sim, ele pode ter motivos, que nem o Jimin, e até melhorar depois, mas não vai ter deixar de ser o agressor da vítima e a saúde dela tem que estar SEMPRE em primeiro lugar

Ao mesmo tempo, deixei desse jeito porque simplesmente foi um desenrolar que fazia sentido pros personagens. Não está escrito porque é certo, nem saudável, nem nada. Espero também que tenha ficado claro com a narrativa que o fato dos jikook continuarem lado a lado nos próximos capítulos é problemático e está acontecendo porque o Jungkook tem uns parafusos a menos também. E, sinceramente, ele simplesmente reagiu desse jeito por culpa. Se o Jungkook estivesse bem emocionalmente falando, provavelmente só aceitaria as desculpas, demitiria o Jimin porque é a decisão mais lógica e aí é aquele meme de créditos do filme kkkkkkkkkkkk acabou a história

Enfim, era isso. Desculpa as chuvas de textões nas últimas postagens, fico insegura real de ficar distinguível pra vocês na história a linha do que é "certo", e o que está acontecendo na história por causa do contexto e personalidades dos personagens.

Espero que a leitura tenha sido interessante! Muito obrigada mesmo por todo o apoio que vocês me dão! Eu não tenho como agradecer o suficiente. Também amo ver vocês comentando na #JKNãoUsaGravata lá no twitter!

Beijinhos de luz e até 06/03 às 19:00!


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