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História Enchente, borboletas - Capítulo 1


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Notas do Autor


Está longe de ser a melhor coisa que já escrevi — sequer sei qual foi — e reconheço que não me agradou muito, apenas em partes. Mas ainda é Tyde (e talvez não honre o shippe), portanto, espero que fiquem minimamente satisfeitos. 🍁

Créditos ao(a) criador(a) da imagem usada.

Capítulo 1 - Borboletas assustam mais...


Fanfic / Fanfiction Enchente, borboletas - Capítulo 1 - Borboletas assustam mais...

Eles ardiam, os olhos dele. Vermelhos como cerejas e inchados como esponjas molhadas. Sei que ardiam porque ele não parava de piscar, era horrível.

É alergia? Talvez fosse o que as pessoas poderiam perguntar, e eu gostaria de dizer Sim, ele é alérgico. Mas eu não posso. Não é verdade.

Acho que a última vez que ele chorou assim foi nessa mesma data do ano passado. Todos os anos são assim, eles são completamente iguais. Clyde chora até suas lágrimas o sufocarem, com olhos vermelhos e soluços tristes. Talvez agora eu esteja só um pouco mais triste que os seus soluços, mas não tanto quanto ele.

Triste apenas em partes, porque de certa forma me sinto bem. Suficientemente bem para não chorar junto com ele — quem estaria consolando quem? —, eu devo ser alguém insensível.

Um monstro, é o que diriam se soubessem que namorados ficam bem com a dor de quem gostam:

— Está tudo bem agora, pode chorar.

Era o que eu dizia enquanto apalpava seus cabelos, mas as lágrimas só transbordavam.

Eram como enchentes. Elas chegavam e destruíam tudo; seu lindo rosto; seu sorriso; minha camisa, agora molhada; sua felicidade.

Eram como enchentes; sujas.

Eram como enchentes; eu não gostava delas.

Ficamos ao menos cerca de quinze minutos ali, escondidos no ginásio, à arquibancada. Minhas costas doíam, porque não é fácil ter seu namorado apoiado nos seus braços enquanto você fica preso contra uma parede dura e um chão podre. Mas o que dizer? Ele chorava mais do que qualquer outro. Se comparado, eu deveria estar bem.

Quando suas lágrimas cessaram, fiquei genuinamente aliviado, mas ele ainda soluçava:

— Suas bochechas estão tão rosadas.

Comentei enquanto erguia seu rosto, eu realmente queria vê-lo melhor. Queria poder testemunhar o que a maldita enchente fez com o rosto da pessoa que eu gosto. Mas ele só apertou seus olhos avermelhados e grunhiu:

— Consegue se levantar?

Eu sussurrava, porque talvez não quisesse parecer agressivo de alguma forma. Eu não precisava machucá-lo mais do que ele já estava. Poderia ser impossível conseguir tal feito:

— Eu não quero levantar. — Ah, ele não tinha sensibilidade alguma pelas minhas costas naquele momento. — Quero ficar aqui, com você...

Então afundou seu rosto contra meu peito. Sentia que ele se esforçava para manter seu rosto ali, era como se estivesse tentando entrar, se tornar parte mim.

Eu não sabia se gostaria de torná-lo parte de mim, mas estava certo de que queria deixá-lo entrar.

Beijei sua cabeça com todo o medo que me cercava, por que o que eu faria caso eu o beijasse e ele quebrasse?

E se ele voltasse a transbordar? E caso ele acabasse em pedaços novamente? Como diabos eu iria pegar pedaços tão pequenos de algo que já era quase poeira?

Eu estava tão assustado quanto ele, e foi só um beijo. Droga:

— Você poderia ter ficado em casa hoje. Eu passaria a matéria para você.

— Eu queria estar com você.

O que responder em momentos assim? Estamos juntos agora? Ah, bobo. Ou, eu também quero estar com você?

O que responder em momentos assim, em que seu namorado está triste pela data da morte da própria mãe?:

— Se você tivesse me chamado, eu teria ido até a sua casa.

— Mas então você também não teria a matéria, — eu pude sentir sua voz enroscar contra a garganta. — e eu não quero estar lá.

Eu pensei que poderia começar a me sentir mal e chorar, mas então me recordei de que era eu o responsável por consolar ele:

— Eu me importo mais com você do que com a matéria idiota... Estaríamos no lago agora, não sob uma arquibancada estúpida e empoeirada.

— Desculpa... — Eu ainda conseguia sentir sua voz se enroscando. Ele estava tão próximo de chorar, e eu estava tão longe de conseguir ajudar.

Passei as mãos por seus cabelos — seria mais romântico e fofo, mas elas acabaram enroscando em alguns fios —, até chegarem em sua nuca. Minhas mãos ainda desciam, e suas lágrimas também, pois as sentia contra meu peito. Eram como uma chuva suave dessa vez, e eu também tentava ser.

Baixei meu tom de voz enquanto passava as mãos por suas costas. Elas estavam tão tensas, e eu já estava tão calmo. Isso parecia tão injusto:

— Nós estaríamos andando de mãos dadas na rua. Eu iria te manter aquecido, e você iria ficar corado. Seria fofo.

Ele continuou chorando silenciosamente. Continuei falando:

— Eu teria comprado pão de forma em uma loja qualquer, porque eles rendem mais. Então iríamos alimentar os patos no lago, como um casal de velhinhos apaixonados.

Pude ouvi-lo fungar e me apertar mais um pouco. As dores nas costas já não eram tão ruins:

— Ficaríamos lá, sentados. Eu te daria muitos beijinhos enquanto me sentiria estranho por ser observado pelos patos, mas ainda continuaria te beijando. Só iríamos embora no fim da tarde, quando o sol de inverno fosse dormir. Seguraria sua mão de novo, e não soltaria ela até chegarmos em minha casa. Você dormiria lá, com as minhas cobertas. Dormiria comigo.

Só então fechei meus olhos e senti seu corpo contra o meu. Dizer tudo aquilo me fez sentir livre de muita coisa. Ele me fazia sentir livre de muita coisa.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas eu não me incomodaria se fossem horas, porque ainda seriam horas o abraçando. Somente então ele quebrou o silêncio:

— Isso parece um livro sobre um romance bobo. Que tipo de bosta você tem lido, Token?

Ele ergueu a cabeça para mim. Eu podia vê-lo perfeitamente. Seu rosto não estava avermelhado por estar envergonhado, era por motivos piores, mas era tão fofo.

Eu queria muito beijá-lo, e dessa vez queria torná-lo parte de mim. Eu o aceitaria:

— Eu leio algumas matérias do New York Times... Não é um tipo de romance escroto, são coisas que eu gostaria de fazer com você.

— Você quer fazer coisas escrotas comigo.

— Você sabe que tipo de coisas escrotas são. — Sorri, e esperava que ele fizesse o mesmo, mas não aconteceu. Talvez ainda só estivesse triste demais. — Eu só não quero que você fique de baixo de uma arquibancada.

— Eu prefiro a arquibancada... Porque não gosto de alimentar os patos.

— O quê? Sem chance! E as outras vezes?

— Bom, você gosta. É claro que eu iria fazer.

Dessa vez sentir que suas bochechas ficaram mais vermelhas, por algum tipo de vergonha verdadeira. Sem lágrimas, ainda bem.

Minhas mãos deslizaram, enfiei elas sob sua camisa. Ele estava realmente envergonhado, e sinto que com um pouco de raiva também, porque eu sei que é um momento errado e inoportuno.

Eu não deveria fazer esse tipo de coisa enquanto ele lamentava pela mãe. Eu fui, realmente, um péssimo namorado:

— Que merda é essa, cara?

— Eu estou te aquecendo, como eu disse que faria. Não estamos caminhando e nem pulando sobre montes de neve, mas é algo como isso.

Ele me encarou por alguns segundos, com um certo teor de incredulidade em sua expressão, então riu. Era uma risada fofa, mas ainda parecia um pouco triste:

— Isso parece um romance tosco... E é gay. Isso é tipo um livro do David Levithan.

Que voz rouca ele tinha. Meu estômago se enchia de borboletas, elas poderiam transbordar pela minha boca e causar outra enchente. Dessa vez seria uma mais bela e, consequentemente, assustadora.

Borboletas.

Ainda passava minhas mãos por sua pele. Era tão quente, e lá fora estava tão frio. Eu gostaria de nunca tê-lo solto. Jamais tê-lo longe de mim:

— Você está melhor?

— Acho que sim... — Respondeu, quase grunhindo.

— Vamos ficar aqui até que minhas costas quebrem?

— Bom, eu acho que esse é o plano.

Ah, ele realmente não tinha nenhuma consideração pelas minhas costas.

No fim, realmente ficamos lá até a minhas costas cederem. Foi um incomodo até que a dor finalmente passasse, mas a risada romanticamente diabólica de Clyde aliviou as coisas.

Sentia que ele ainda choraria, e sei que ele o faria caso eu ousasse me afastar dele, mas não fiz. Como poderia?

Não o levei de volta para sua casa naquela noite, não eram bons tempos para deixá-lo. Na verdade, talvez nunca seja um bom tempo para vê-lo ir.

Quando chegamos em minha casa, mamãe preparou a sua melhor sopa e fez questão de mimar o Clyde de várias formas possíveis. Teria sido legal, se não fosse verdadeiramente frustrante ver que ela parecia ser melhor do que eu naquilo. É ridículo saber que sua mãe precisa de muito menos para evitar que o seu namorado transborde em dor.

Às vezes, sinto que ele se tornou tão próximo da minha mãe porque ele sente falta de alguém importante. Parece especialmente contente ao lado dela em dias assim.

Se fosse eu em seu lugar, ficaria com ciúmes. Não acreditaria que é justo as pessoas terem entes queridos enquanto eu sou aquele que tem que perdê-los. Mas ele nunca se sentiria assim, porque ele é uma versão melhor de mim.

Ele dormiu comigo naquela noite. Sua pele era tão quente, e a luz da noite a tornava tão azul.

Passar meus dedos por seu corpo era como conhecer a única coisa em mim que eu não repudiava. Como eu poderia?

Estava ao ápice do prazer quando deitado com ele, quando respirava com ele.

Eu estava dentro dele, mas eu duvido que ele se sentia tão preenchido quanto eu.

Talvez seja por conta disso que odeio suas enchentes, porque elas levam muito dele. Aquele muito que eu não consegui conter. Então, se eu o possuo, não deverei deixar que mais coisas transbordem. Irei conter as lágrimas com minhas mãos. Em suas rachaduras e furos eu irei desferir os mesmos beijos que marquei contra seu corpo inteiro naquela noite.

Em todas os machucados eu deixarei a minha marca. Também gostaria de marcá-lo por dentro, e assim farei, caso ele volte a sofrer.


Notas Finais


É, eu realmente não sei o que sentir sobre esse pedaço de algo.

Espero que tenham ficado mais satisfeitos do que eu em alguns aspectos. 🌷<


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