História Encontrando-se - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Amizade, Amor, Badboy, Boxeador, Drama, Esperança, Liberdade, Luta, Mma, Original, Romance
Visualizações 30
Palavras 2.063
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Literatura Feminina, Luta, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


♡ amo vocês ♡

Capítulo 2 - Entorpecido


- Kevin, ‘tu ‘ta chapado, cara? Essa droga deve ser da boa, não tem como me arrumar um pouco não? – escuto uma voz abafada bem ao longe, dou um longo fungado e me enrolo mais nos lençóis da cama. Minha cabeça está a ponto de explodir, não sei por causa da pancada de ontem ou da vodka que veio a seguir. O fato de Isaac estar tagarelando a essa hora da manhã só piora minha enxaqueca e preciso me segurar para não quebrar o nariz do meu melhor amigo. De novo.

            - Porra, Kev! Acorda, é meio dia! ‘tu tem uma luta daqui... meia hora. Pode ficar de ressaca depois dela – Isaac ainda insiste e puxa o lençol de cima de mim. Sorrio meio grogue de sono ou de bêbado, sei lá, sabendo que Isaac acaba de dar olá a minha bunda.

            - Cara, que merda de hábito é esse? Pra que dormir pelado? – reprimo a vontade de dizer “pra espantar você, babaca” e escuto os passos de Isaac se distanciando. Coloco-me sentado na cama e sinto o sol aquecer meu rosto diante da janela enorme que desce do topo da parede até o chão. Já tem muito tempo que planejo comprar uma cortina e acabo nunca fazendo isso, mas não é como se a coisa da nudez me assustasse.

            Nada me assusta. Nada.

            Me espreguiço e depois de um longo bocejo fico de pé, esticando os músculos e escutando a movimentação fora do quarto. Escuto Isaac discutir alguma coisa com uma mulher, provavelmente uma das conquistas da noite e engulo uma risada. A porta se fecha brutalmente e Isaac abre a minha logo depois, pouco ligando para a minha ereção matinal.

            - Essas mulheres são um porre! Uma noite e elas querem um anel de noivado! ‘Tá pra nascer a mulher que vai me amarrar, Kev. ‘Tá pra nascer.

            Dobro os dedos e sinto a pele latejar. Os nós estão muito machucados, a vermelhidão está beirando ao roxo e sei que vai piorar depois da luta de hoje. A mão esquerda até que não está tão ruim se não o punho com um hematoma enorme.

            - E ai, está pronto pra luta de hoje? – Isaac pergunta enquanto visto a cueca box e a bermuda por cima. Dou de ombros depois de um riso de escárnio e caço os coturnos pelo quarto.

            - O Stephen merece os socos de hoje – é tudo que digo depois de achar os coturnos espalhados pelo quarto e vestir uma camiseta preta amarrotada.

            - Se merece. Ele é um babaca metido. Ganha dez pontos se quebrar o nariz do imbecil – sorri e se levanta com a mochila nas costas. Isaac é meu melhor amigo desde os dez anos de idade. Era um garoto magricela e excluído que falava muito, ainda melhor que Kevin Marx, o menino esquisito do fim da rua. Depois de provocar uma briga com uns garotos mais velhos, Isaac e eu tivemos uma seção de porradaria e voltamos pra casa nos arrastando. Desde aquele dia, descobri um irmão. Por uma coisa muito mais forte do que sangue, que é uma coisa acidental. Um irmão por escolha.

            - Boxeador Marx ganha por nocaute mais uma vez, o Marx voltou, o Marx voltou! – Isaac imita a platéia e me arranca um sorriso.

            Boxeador Marx. A risada cruel do meu pai ecoa pela minha cabeça e ainda posso ouvi-lo me chamando de viadinho.

            Cerro os punhos ignorando a dor quando flexiono os dedos e me preparo para vencer mais uma luta.

            Quem é o viadinho agora, pai?

            - Sejam bem-vindos ao Submundo, meus amigos babacas. Estamos na marcha para o campeonato final e vocês estão loucos pra ver os caras se esvaindo em sangue, eu sei, então vou ser breve antes que vocês me encham de porrada. É o seguinte, aqui se aposta tudo ou nada! O cara que sair daqui vivo leva a bolada e a chance de competir as finais, e o que sair numa maca... se der sorte de estar vivo, ele já ganhou alguma coisa, certo? Em mais uma etapa no centro da Spectrum, iniciando a nossa noite, a primeira luta, o campeão invicto daqui mesmo, da Spectrum, conhecido como Deimos e gêmeo do mal, Stephen Lockhart!

            Uma explosão de gritos começa e isso só consegue me inflamar. Encaro Stephen do outro lado do ringue com um sorriso presunçoso de merda e um olhar irritante sobre mim que me incomoda. Isaac distribui tapas amigáveis em meu ombro e sussurra algum impropério que não consigo ouvir diante da barulheira da massa ao redor de nós. O treinador permanece de braços cruzados ao meu lado. Lae é como um pai, embora tenha mais aparência de avô. Já cansei de ouvir gente me dizendo pra desistir dele, e que ele está velho demais para desempenhar bem o seu papel, mas é ele que põe meus pés no chão e é ele que está aqui quando a merda acontece. Foi ele quem me tornou o boxeador Marx.

            - E do outro lado, em sua primeira luta do Submundo, o rei da facção Prairie, vocês o conhecem como Kevin Destruidor Marx!

            O estrondo me enche de orgulho, mas não permito que isso infle meu ego. A multidão grita meu nome e o som familiar inicia a luta. Distancio-me de Stephen e ignoro a barulheira.

            - Olha só se o babaca do Marx não apareceu! Cara vou te falar, achei que você não tinha culhões, mas você arrastou seu saco até aqui! – Lockhart investe com tudo pra cima de mim, mas não é preciso muito esforço pra desviar de seus ataques previsíveis.

            O presunçoso idiota firma os pés e se precipita ao enristar o pé contra as minhas costelas de uma vez só. Bambeio por um segundo e agarro a perna com a mão direita, torcendo-a para o lado. O corpo desaba no chão depois de um grunhido de indignação e Stephen acerta um soco na base da minha bochecha. Apenas escuto o estalar de seus dedos e desço uma cotovelada que detona seu nariz. Uma placa de sangue se espalha pelo chão emborrachado e se mistura com meu suor.

            - Essa área é minha, Marx! Eu mando aqui e não é um fodido fraco como você que vai tirar isso de mim! – nossas pernas se embolam e empurro o punho de uma vez só no rosto já ensangüentado. Uma vez, duas, três, quatro, perco as contas. Apenas quando meu sangue e seu sangue se misturam e já não consigo mais sentir os dedos saio do estado entorpecido em que estou e observo a cabeça de Stephen tombar no chão de uma vez só, os olhos fechados e o nariz e a boca pingando sangue. O apresentador levanta minha mão de uma vez só e a sala inflama me trazendo de volta a realidade.

            - Kevin Marx liderando o placar, porra. O invicto caiu! O invicto caiu! – Lae me arrasta do meu torpor e me tira do centro do ringue. Deixo os holofotes e ele me analisa por um segundo de baixo da luz fraca.

            Ainda consigo me lembrar dos comentários maldosos do meu pai. De toda a pancada que levava. Da revolta que borbulhava dentro de mim, querendo sair. Sempre fui o garoto mal educado que as professoras odiavam. Que as mães temiam e que era a má-influência para os riquinhos da vizinhança. Sempre foi assim, desde que me conheço por gente. Nunca tive irmãos e dependia dos cuidados de gente estranha quando era ainda um bebê. Uma vida de merda, mas é aqui que você encontra gente assim.

            - Nocauteou o cara em minutos, Kevin. Boa. Precisamos cuidar desses dedos – Lae me diz. A sombra de um sorriso assalta meu rosto e observo Isaac no canto do ringue, com uma loira pendurada em seu ombro, muito distraída com o rosto enfiado em seu pescoço.

            - Depois. Preciso de um cigarro, vou dar uma volta. Respirar. Aqui ‘ta quente pra caralho. – O velho me entende melhor que ninguém, sabe quando preciso ficar sozinho. Normalmente é depois de uma luta que isso acontece. Depois do êxtase, vem o baque. Atravesso a multidão de gente caçando a saída, ignorando os gritos e os apertos de mão, os elogios. Atravesso a porta de correr que range e suspiro quando finalmente consigo minha dose de ar puro. Uma lufada de ar me lembra do que vim fazer na rua;

            Cigarros.

            Preciso de cigarros agora.

            Deixo as calçadas abarrotadas de gente da Spectrum e alço a mochila da moto de Isaac estacionada bem ao meu lado. Caço uma camiseta dentro das coisas e acho uma preta toda amassada. Visto mesmo com o suor e todo o sangue e depois pouso uma jaqueta nos ombros. Atravesso as ruas cansado, sentindo os efeitos da luta. A costela lateja de dor sob a jaqueta e pressinto um hematoma. Os dedos ardem como o inferno e sinto o sangue escorrer por entre eles. Nada que não possa agüentar. Se tem uma coisa com que convivo bem desde criança é com a dor.

            Uma velha amiga.

            Entro na conveniência e uma atendente jovem e aparentemente hispânica muito atraente me sorri interessada, atirada de um jeito que me irrita. Pavio curto sempre me colocando em problemas.

            - Posso ajudar? – ela me pergunta, piscando os olhos forçada e ajeitando o cabelo.

            - Cigarros. – ela se esgueira por trás do balcão e se estende para pegar uma cartela de marlboro. Empina a bunda para cima propositalmente e não consigo evitar olhar, mas me dá tédio. Mulheres assim são maçantes de um jeito que não posso explicar.

            Desvio o olhar para as bebidas enfileiradas e uma garrafa de vodka me prende atenção, mas não é hora de me embebedar. Ela me chama a atenção com um pigarro e me estende o cigarro depois de um sorriso. Estendo umas notas amassadas que tiro do bolso e tomo o marlboro com a mão, ignorando qualquer coisa que disse e me retirando do estabelecimento. Observo a praça logo à frente e me sento na calçada depois de acender o cigarro. Trago de uma vez só e seguro por um tempo antes de libertar a fumaça e observar enquanto ela dissipa no ar.

            Uma garota me prende a atenção depois de se remexer em um banco. Tem cabelos ruivos compridos que escorrem pelas costas e balançam no ar. Não consigo ver seu rosto, mas posso apostar que é bonito. Usa roupas desgastadas e treme quando o vento bate em seu corpo pequeno e magro.

            Sinto meus pelos eriçarem de preocupação e não consigo controlar meus pés, apenas observo resignado meu corpo se mover até a menina. As árvores balançam acima de mim e ela se vira.

            Eu estava certo. Pra caralho. É linda. Tem uma boca pequena e perfeita, um rosto simétrico e olhos enormes que me observam atentamente. Observo quando franze o cenho e não consigo desviar meu olhar de seu rosto. Os cabelos ruivos são bonitos de um jeito que me fascina.

            Sento-me ao seu lado em silêncio depois de esmagar o cigarro sob as botas pesadas. Espero que diga alguma coisa, mas ela não diz nada. Ficamos juntos ali, estáticos, eu a observando como um maníaco e ela olhando para o nada enquanto chora. Me sinto tão conectado com ela que antes que eu possa impedir, minhas lágrimas escorrem também. Nunca choro. Nunca chorei. Quando o desgraçado do meu pai me enchia de porrada e me dava motivos para chorar, eu segurava as lágrimas e agüentava. Agora vou chorar por uma porra de uma menina que nem conheço? Dou um fungado e espanto essa merda que escorre pela minha cara. A menina me olha por um segundo e sinto sua mão gelada segurar a minha. É pequena e fina, mas tem algumas pequenas cicatrizes pelos dedos. Até na mão dela eu ‘tô reparando?

            Aperto seus dedos entre os meus esperando que isso esquente sua mão e me lembro da jaqueta sob meus ombros. Deslizo-a para fora dos braços e a deixo no banco. Me levanto depois de olhar para o rosto bonito e delicado que não chega a me encarar e dou as costas. Tenho que voltar para a Spectrum e resolver as coisas. Deixo a menina para trás junto com uma parte do meu coração e ainda escuto sua voz baixa e tão delicada quanto a dona me chamar.

            Não agora.

            Talvez nunca.

 


Notas Finais


♡ obrigada por ter lido até aqui, espero que tenha gostado ♡


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