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História Encruzilhada - Capítulo 3


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Notas do Autor


E lá vamos nós

Capítulo 3 - Capítulo 3: Atritos


A semana de provas já tinha chegado e, com ela, uma tensão sufocante. A impressão é que toda a universidade ficava com uma atmosfera escura, sufocante... O local aparentava estar carregado com algum tipo de energia que fazia os menos preparados passarem mal. Essa era a grande mágica da vida universitária: todos estavam suscetíveis a aqueles efeitos.

Diego não havia encontrado o amigo acordado quando adentrou o quarto na noite anterior. Aquilo era, de certa forma, um alívio. Sua cabeça ainda estava processando os acontecimentos anteriores.

O celular tocou pontualmente as 6:30. Diego rapidamente o desligou e sentiu sua garganta amarga. Ele estava gripado.

“Obrigado, chuva!”

Apertou os olhos e buscou forças internamente para fazer tudo o quê precisava naquele dia. A luz da manhã lentamente se fazia presente no quarto, que estava numa coloração azul devido às cortinas. As moradias da universidade eram basicamente prédios com dormitórios para 2 ou 3 pessoas e 1 banheiro. Em cada andar havia 1 cozinha coletiva e 1 lavanderia. 

Diego levantou de sua cama e encarou o outro lado do quarto. Nenhum sinal de Ricardo, o quê não era muito comum. Até que ouviu o barulho da porta do banheiro sendo aberta, de lá saiu um Ricardo ainda descabelado.

-Posso saber onde o senhor estava noite passada?

-Não... – disse Diego escondendo o rosto com um travesseiro.

O interesse de Diego era perigoso. Mais cedo ou mais tarde teria que contar ao amigo sobre seu passado envolvimento com o colega de turma.

-Ah não !? – subiu na cama de Diego e começou a puxar o travesseiro - Pode me falando o nome dele e o endereço!

-Para, seu bobo. Eu estava na casa da dona Yoko... choveu e eu fiquei preso lá – desistiu de tentar conter o amigo.

-Hum... Não sabia que você gostava de uma MILF – zombou já sentado em sua própria cama.

-Ricardo!!!

Os dois começaram uma verdadeira guerra de travesseiros em meio ao quarto iluminado apenas pela luz do banheiro.

~.~

Aquela manhã, embora ensolarada, não influenciava em nada os sentimentos nebulosos e os arrependimentos de Lee. Morava sozinho há dois anos na Austrália, longe da família e das regras que qualquer jovem não independente financeiramente dos pais seguia. A ligação de sua mãe informando que não seria mais possível mantê-lo do outro lado do mundo, por motivos financeiros, foi como um choque em sua pacífica e tranquila fuga da realidade na terra dos cangurus.

Não tinha o quê fazer. Seu único foco estava em desenvolver a fluência no inglês e sair com os amigos. Sequer havia procurado um emprego, vivia integralmente com a quantia que os pais enviavam-no mensalmente. Portanto, por mais que detestasse a ideia, voltou para o Brasil.

-Posso entrar? – notou que sua mãe estava na porta de seu quarto.

Era nítido nos olhos da mulher de meia idade o cansaço. Cuidar de duas crianças, da casa e ainda trabalhar não eram tarefas simples. Seu pai era pouco presente. Vivia trabalhando e viajando a mando da empresa de TI da qual era contratado há mais de 15 anos.

Mesmo chegando ao Brasil, não tinha sequer falado com o pai. Nem ao menos perguntou à mãe sobre esse. Assim eram eles. Frios.

-Pode – falou encarando o quadro ao lado da porta. “Danganronpa”.

-O quê você acha de sair com seus amigos hoje? – disse sentando na cama.

-Amigos? Faz tempo que não saímos...

-Ontem te receberam bem aqui. Todos fizeram questão de vir quando eu disse que você voltaria pro Brasil.

Na noite anterior, Yoko chamou alguns amigos da época do colégio para visitarem o filho. A mulher queria de todas as formas fazer seu filho se sentir bem em casa, pois sabia o quanto ele não desejava voltar.

-Talvez...

Yoko sorriu e acariciou as pernas do filho. Fazia tempo que não o tinha tão perto.

-O Diego vai te levar até a universidade, ele se ofereceu pra mostrar o campus.

-Diego? – não se lembrava de nenhum.

-O rapaz que olha as crianças enquanto eu trabalho.

-Ah... – falou desanimado. Não estava com vontade de ser simpático com estranhos.

-Depois vocês marcam... – falou se levantando e indo até a porta – Sei que não está feliz em voltar. Mas vou fazer tudo pras coisas ficarem agradáveis.

~.~

Prova de laboratório. Diego detestava aqueles momentos. Era sempre uma incógnita. Chegou no prédio do instituto de química em torno de 9 horas e correu para colocar o jaleco e repassar algumas reações químicas. A prova basicamente era determinar quais eram os reagentes que cada grupo havia obtido das mãos do professor. Ricardo chegou antes no prédio pois Diego precisava ir até a administração da faculdade resolver problemas com sua bolsa de monitoria.

Adentrou o grande laboratório enquanto o professor ainda dava as instruções. Passou por despercebido e foi de encontro ao amigo.

-Já descobriu o nosso grupo? – sussurrou.

-O professor não vai sortear. Dessa vez, nós montamos.

-Ai... menos mal. Da última vez quase zerei por causa do grupo de imbecis.

-Podem formar grupos de 4 pessoas. 1 integrante de cada vem até a minha mesa para retirar os frascos.

-Quem vamos chamar? – Diego questionou o amigo.

-Acho que você não vai ficar muito feliz, mas o Shin veio me perguntar se poderia fazer com a gente.

Diego demorou pra raciocinar.

Shin era um dos amigos de Rafael. E bastou se lembrar disso para notar o quanto estava sendo encarado pelo último.

-Droga! Me fala que você disse não. Por favor! – praticamente implorou.

-Ai, eu fiquei sem jeito. E talvez ele não traga o Rafael.

Diego levou as mãos até os olhos e apertou. Sabia exatamente o quê Rafael queria. Mas não, ele não o tiraria do sério.

~.~

-EU FALEI! – praticamente gritou, chamando atenção de todos os grupos.

-Não adianta olhar para o grupo do lado. Não há reagentes iguais nas bancadas – o professor disse sereno.

-Mas era muito óbvio, não é possível que nesse nível ele entregue cloreto de sódio pra gente – Rafael tentava rebater.

Diego sentiu desde o começo da prova que a substância dentro do recipiente de número 4 era sal de cozinha mas ninguém deu ouvido. A possibilidade era pequena, visto as substâncias com as quais trabalharam no semestre. Mas algo lhe dizia que era sim sal de cozinha.

-E você continua sendo um idiota teimoso! Se tivessem me escutado, já teríamos terminado essa prova há séculos! – rebateu.

-Você continua sendo um mal-agradecido, todo mundo ajudou nos outros 3 frascos. Não é que você tá fazendo sozinho – retrucou no mesmo tom.

Shin e Ricardo apenas observavam a discussão dos outros 2.

-Gente, importante é que terminamos...

-Fica quieto, Shin. Se o seu amigo não fosse tão cabeça dura, teríamos feito o teste de chama em 5 minutos de prova. Mas não...

-Você é muito mal-agradecido. Não devia ter te dado carona alguma ontem!

Ricardo encarou o amigo. Sua feição era um misto de confusão e surpresa.

-Se não fosse por mim, você nem teria conseguido sair do prédio, não força – retrucou com os olhos revirados.

Shin riu como quem estava por dentro da história.

-E quando é que você ia me contar isso, senhor Diego? – foi a vez de Ricardo se pronunciar.

-Eu não comentei? – o tom de dissimulação era nítido.

-Os senhores já terminaram a prova? Podem trazer na minha mesa, estão fazendo muito barulho – o professor disse com sua voz grossa assustando os 4.

Os rapazes não questionaram, apenas terminaram de escrever os nomes e se dirigiram até o professor.

~.~

-Pode me contar o quê rolou – começou Ricardo enquanto se trocavam no banheiro.

-Não rolou nada... Ele chegou lá e me ofereceu uma carona – respondeu colocando o jaleco branco na mochila.

-Você nunca me disse que ele morava naquele prédio... – falou desconfiado.

-E por que isso é relevante? Eu nem sei onde ele mora. Aliás, você deveria estar mais preocupado com a prova de orgânica – desconversou.

-Isso também é importante... Mas você não vai conseguir escapar por muito tempo.

-Não tenho nada a esconder, mr. Ricardo.

-Isso é o quê veremos – concluiu enquanto ambos saíam do local.

O prédio do instituto de química era dividido em setores. Ao todo eram 8 espalhados por 4 prédios com 2 andares. Cada setor possuía ao menos 1 banheiro. Diego e Ricardo saíram do ambiente branco que ficava exatamente de frente para o laboratório onde ocorreu a prova anterior e deram de cara com um Rafael inquieto.

-Podemos conversar rapidinho – falou envergonhado.

-Já entendi... – Ricardo disse fechando os olhos – Vou na cantina comprar uma coxinha, te espero na biblioteca.

Diego mentalizou alguns diálogos possíveis enquanto Ricardo caminhava. Já sabia o quê o outro queria consigo. Era uma questão de tempo...

-Pode falar. Mas rápido porque eu tenho que estudar – cruzou os braços.

Rafael ainda estava com o jaleco. Tinha as mãos dentro do bolso como uma forma de disfarçar o nervosismo.

-Hum... Você quer ir pra uma sala vazia? – falou tirando um óculos dos bolsos.

-É o quê!? – disse incrédulo.

-Pra ter mais privacidade... ou a gente pode ir pro meu carro – abaixou o tom.

-Não mesmo, você pode falar aqui mesmo. Tá rolando prova, ninguém vai aparecer por esse corredor.

-Tudo bem... – abaixou a cabeça – eu só queria saber se você aceita sair comigo nesse final de semana.

Rafael falou aquelas palavras numa velocidade elevada. Era como se ele cuspisse cada sílaba. Embora Diego já esperasse, aquilo não era algo tão comum de se ouvir.

-Sair? – repetiu retoricamente – Não achei que você estivesse falando sério.

-Eu tava... Pensei em te levar pro cinema. Acho que você vai gostar de um filme que vai estrear – começou animado.

-Então... – baixou o olhar – Eu acho melhor a gente não se aproximar muito – disse por fim.

-Como assim?

-Melhor a gente não manter muito contato.

-Por quê? – questionou sério.

Aparentemente, Rafael levava aquilo bastante a sério. Tão a sério a ponto de assustar Diego.

-Eu não posso confiar numa pessoa que sai comigo num dia e no dia seguinte aparece nos stories do instagram com uma namorada que eu nunca soube que existia – falou de uma vez.

-Sobre isso, eu já tentei te explicar na época. Nós já não tínhamos nada há muito tempo-

-Mas isso não tem explicação, Rafael. Pra mim, é muito óbvio tudo o quê aconteceu.

Um pequeno momento de silêncio entre os dois. Era como se o mundo em volta tivesse parado.

-As coisas nunca são tão simples.

Pela primeira vez desde que passaram a se ver diariamente, Diego notou uma fragilidade em Rafael. O mais alto era sempre como um grande pedaço de gelo, pouco manifestava emoções. As pessoas o conheciam apenas pela forte voz e nada mais.

-A resposta é não.

-Essa é sua última palavra? – perguntou incerto.

-Sim... – concluiu já encarando o chão.

Rafael acenou com a cabeça e o deixou ali no corredor. Frio. Assim como ele costumava agir.

~.~

Quando chegou na casa de dona Yoko, havia um bilhete na porta avisando que a mesma precisou sair mais cedo naquela terça-feira e que demoraria para chegar. Diego poderia deixar as crianças com Lee assim que terminasse.

O problema era quê já se passavam das 21 horas e não havia sinal algum do garoto pela casa.

Jun e Hitomi já haviam pegado no sono e Diego os levou até o quarto. Não podia simplesmente sair dali e deixar as crianças sozinhas. Mesmo que isso significasse menos horas de estudo para a prova do dia seguinte.

Estava prestes a telefonar para dona Yoko quando ouviu o barulho das chaves na fechadura.

Lá estava seu algoz. Entrou vestindo uma roupa confortável, um pouco suado e com uma mochila nas costas.

“Então o bonitinho estava malhando e me deixou aqui?!”

-Boa noite – falou amargo.

-Oi... – falou já dando as costas para Diego.

“Como sempre, um poço de educação.”

-Não sei se você ficou sabendo, mas você deveria estar aqui 2 horas atrás.

O asiático o encarou enquanto tomava um copo com água.

-Como assim? Minha mãe não tá em casa? – questionou retirando alguns pertences da mochila.

-Tem um bilhete ali falando que você cuidaria dos seus irmãos. Mas, pelo visto, você preferiu ser um rato de academia a cumprir o quê combinou com a dona Yoko! – Diego falava num tom elevado.

-Hey! Qual é o seu problema? Eu me esqueci, beleza? – se defendeu.

Diego levou a mão até a cabeça e respirou.

-Eu espero mesmo que isso não volte a ocorrer.

-Quem é você afinal? Até onde eu sei, você trabalha pra minha mãe.

-Não interessa. O meu horário vai até as oito – falou já pronto para sair.

-E esse showzinho todo só porque eu não te dei bola ontem? – falou rindo.

Diego estava descobrindo uma outra face de Lee. Ele preferia muito mais quando o outro ficava apenas calado.

-Não me deu bola? Você acha o quê? Que eu dei em cima de você só por ter sido educado?

-Está sendo bastante educado mesmo... até tentando sair comigo com a desculpa de “conhecer o campus” – gesticulou.

-Quê?!

“Só pode estar doido!”

-Olha, eu vou embora agora porque realmente preciso estudar. Mas espero que você engula todas essas palavras. Passar bem – terminou se retirando do apartamento.

“É cada maluco que me aparece...”

Na volta, dentro do ônibus, Diego pensou em cada acontecimento daquele dia. Não conseguia se decidir qual parte do dia havia sido mais estressante. Buscava alguma música para ouvir em seu celular e notou o nome de um álbum: “Bons Ventos Sempre Chegam”. Sim! Era daquilo que ele precisava. Acalmou sua mente e se permitiu esquecer os problemas ao menos durante o resto do caminho.



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