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História Enlouquecer - Capítulo 1


Escrita por: e Kitsune__


Notas do Autor


Sempre quis fazer uma história Megami x Osoro e achei nos temas desse mês uma ótima oportunidade.

Capítulo 1 - Impulsionar


Megami ainda conseguia ouvir o tumulto no andar de baixo. Seu pai discutia com seu avô, ambos abismados com a briga que acabara de acontecer na mesa do jantar; ambos irritados com a petulância de Megami ao contradizê-los. 

Porque, para eles, uma garota tinha que se manter submissa, mesmo que fosse a futura herdeira de sua empresa. No fim, continuava sendo considerada inferior a eles, e deveria obedecer calada ao que diziam. 

“A maldição da nossa família é que as primogênitas têm que ser sempre mulheres. Isso é uma desgraça para os negócios.” Disse seu avô, olhando diretamente para sua mãe, como se a culpa por ter tido Megami antes de Kencho fosse única e exclusiva dela. 

É claro que não era a primeira vez que tinha de ouvir aqueles absurdos que os dois diziam. O quanto eles maltratavam as pessoas, o quanto às humilhavam; as ideias assustadoras de seu avô sobre a supremacia japonesa e seus devaneios esquisitos sobre uma suposta guerra a ser retomada. Em todas as outras vezes fora obrigada a engolir o orgulho pelo bem estar dela e de sua mãe, mas ultimamente estava sendo difícil. 

Megami já estava farta. Farta das visitas do “vovô”. Farta do jeito abusivo de seu pai. E farta de ser obrigada a manter a pose. Naquela noite acendeu um barril de pólvora; levantou-se da mesa de jantar e disse na cara dos dois o que achava de tudo o que estavam fazendo.

Seu pulso ainda doía depois de ser segurada por seu pai, enquanto era repreendida. Sua mente continuava a pensar em sua mãe, que, após ser considerada culpada por algo que não podia controlar, abaixou a cabeça e permaneceu quieta. Era do jeito que eles queriam; haviam transformado-na naquela pessoa acuada e submissa. 

E queriam fazer dela a cópia de sua mãe. Não estariam satisfeitos até que torturassem Megami ao ponto de transformá-la em um robô também. 

“Pelo visto você ainda não aprendeu o que é disciplina” seu pai dizia enquanto ainda a segurava com força. Mas o que mais machucava era sentir sua dignidade sendo jogada no lixo. “Vamos aproveitar que você entrou de férias hoje para fazer um treinamento intensivo de um mês na empresa. Veremos se depois desse tempo você vai continuar sendo essa pirralha petulante.”

É claro que o “treinamento intensivo” que aquele homem estava propondo — ou melhor, obrigando-na a fazer — seria uma forma de vingança por ter defendido sua mãe, além de ter respondido seu avô. E a vingança seria transformar sua vida num verdadeiro inferno.

Mas ela também sabia que sua coragem — ou súbita rebeldia — também tinha influências externas. Talvez ter se tornado mais próxima de uma certa delinquente nos últimos meses realmente surtira efeitos em sua personalidade. Agora, com os barulhos vindos de baixo parando, conseguia concentrar-se em outra pessoa, outro momento.

Não havia passado sequer um dia desde que vira Osoro pela última vez, mas a proposta descabida dela ainda permanecia fresca em sua mente.

“Que tal fugir comigo nessas férias, hein Megami? A vida de Saikou parece ser muito chata. A gente pode viajar pelo país enquanto eu te mostro como é viver fora desse mundinho de gente rica.” 

Apesar do tom de brincadeira e do jeito petulante da loira, Megami estava mais tentada do que nunca a realmente fugir com ela; esquecer dos problemas e escapar da rotina insuportável de ser torturada por seu pai o dia inteiro...

Antes que pudesse pensar direito no que estava prestes a fazer, o número de Osoro já tinha aparecido na tela, e o celular já estava em seu ouvido. Não demorou muito para que ouvisse uma voz arrastada do outro lado do telefone.

— Alô? — Osoro parecia ter despertado de um período de hibernação. — Megami?! É sério que nem nas férias você consegue desgrudar de mim? 

— Escuta, Osoro, isso é importante — Megami olhou para a porta do quarto, abaixando o tom de voz —, resolvi aceitar sua proposta. 

— Proposta?

— Você sabe. A de viajarmos nessas férias. 

A gargalhada de Osoro quase deixou Megami surda.

— Pera, pera aí… você tá falando sério? 

— Sim, mais sério do que nunca — a voz da Saikou continuava baixa e preocupante. Osoro parou de rir na mesma hora. — Conversamos melhor pessoalmente, mas eu realmente preciso fazer isso. Me encontre à meia noite na frente da minha casa e não se atrase.

Sem esperar por uma resposta, Megami desligou o celular e o jogou longe, como se o aparelho estivesse em chamas. Correu para pegar suas coisas, mas estava tão imersa em seus pensamentos que mal sabia por onde começar. Afinal, o que estava prestes a fazer?

Deveria ao menos deixar uma carta escondida? Mandar uma mensagem? Achava que não. Era melhor desaparecer sem deixar rastros e só voltar quando aquele mês acabasse. 

Mas apesar do caos em sua cabeça, permanecia decidida em não voltar atrás; qualquer coisa seria melhor do que sua situação atual. Só não podia acreditar que estava mesmo fugindo com Osoro Shidesu. E que, de certa forma, pensar nisso acalmava seu coração antes tão turbulento. 

 

[...]

— Que foi? Sua surpresa é felicidade em me ver, ou ainda tá com medo de fugir? — disse Shidesu, levando Megami até o final do caminho de sua casa. 

Ao ter seus ombros envoltos por um dos braços de Osoro, um sutil e incômodo aroma de tabaco penetrou as narinas de Megami.

Depois dos portões havia uma moto parada, esperando por elas. O coração da Saikou acelerou; agora tinha certeza de que o que estava prestes a fazer não teria mais volta.

— Estou mais assustada por você ter chegado adiantada. Ainda são cinco para a meia-noite, e eu sei muito bem que você nunca foi um exemplo de pontualidade.

— Puta merda Megami, você arruma motivo pra chamar minha atenção até quando eu chego cedo. O negócio é simples, você me mandou não atrasar, então não atrasei — ela deu de ombros, pegando um capacete no assento da moto e entregando-o para Megami. — Achei que você fosse levar o que eu falei mais cedo na brincadeira, mas quem diria que eu ia estar participando do sequestro consentido da senhorita “presidente do conselho estudantil” agora?

Megami balançou a cabeça, sorrindo de canto. 

— Eu acho melhor tomarmos cuidado na nossa viagem. Infelizmente muitas pessoas me conhecem pelo país, seria perigoso se acabassem dedurando nossa localização para meu pai.

— Acredita em mim, não vai ter nenhum conhecido seu nos lugares onde eu vou te levar. 

— Como pode ter tanta certeza?

Osoro apenas sorriu. Megami conhecia aquele sorriso, e sabia que nada de bom poderia vir dele; no mesmo instante uma fisgada de agitação eletrizou todo o seu corpo.

— Você vai ver.
 

As duas atravessaram a cidade em poucos minutos — enquanto Megami se segurava para não repreender Osoro por sua irresponsabilidade ao dirigir —, chegando à uma pensão de beira de estrada próxima à saída de Buraza. O pequeno quarto que alugaram era tão simples quanto velho; escolhido a dedo por Shidesu. Como tinha dito antes, faria a Saikou viver de verdade: nada de hotéis cinco estrelas e comidas insípidas de gente rica. 

— Foi sua família mais uma vez, não foi? — a pergunta de Osoro acabou pegando Megami de surpresa.

— Como?

— Aqueles filhos da puta te fizeram alguma coisa de novo, tenho certeza. — A loira havia mudado completamente sua atitude; parecia mais do que furiosa. — Eu percebi pela sua voz no telefone, aquela não era a Megami que eu conheço. Você parecia assustada demais quando me ligou. O que eles fizeram dessa vez? 

— Eu não sabia que você era tão perceptiva.

— Geralmente eu não sou porque tô pouco me fodendo pra pessoa que tá falando. Mas eu te conheço Megami, e por mais que eu goste de pensar que você tá fugindo comigo por não resistir ao meu charme, também sei que alguma coisa aconteceu — apesar da brincadeira, Shidesu permaneceu séria. 

A Saikou suspirou. Não era a primeira vez que se abria para a delinquente, mas continuava a se sentir mal quando falava de seus problemas familiares.

— Eu só estou cansada de tudo, cansada das coisas sempre acontecerem do mesmo jeito. Pensei que fugindo com você, eu fugiria deles por pelo menos um mês. Hoje as coisas pioraram mais do que eu imaginava. 

— Olha, quando eu tava na sala da Genka pela milionésima vez esse ano, ela me disse uma coisa que eu não consegui esquecer, mesmo que a frase parecesse um daqueles clichês meio nada a ver — Osoro pulou no colchão ao lado de Megami, encarando-a nos olhos. — Era alguma coisa como: “não adianta ficar mudando de lugar o tempo todo, quando você se leva pra onde for.”

— E o que isso quer dizer?

— E eu sei lá, só achei que combinava muito com a situação — a loira riu, recebendo um soquinho no ombro de Megami. 

— Bobinha… — a Saikou riu junto. — Mas eu entendi o que você quis dizer. 

— Você não quer mesmo tocar nesse assunto né?

— Vamos só esquecer disso e aproveitar nossas férias, tudo bem?

— Bom, pelo que eu sei nunca se deve contradizer a ordem de um Saikou, então tá combinado.  

— Você faz isso o tempo inteiro, Osoro.

— Eu sei, mas agora acho mais interessante aceitar o seu pedido — e com isso a loira recebeu uma travesseirada no rosto. 

— Interesseira!
 

[...]
 

Osoro acordou mais cedo naquela manhã. O quarto ainda estava escuro, e faltavam alguns minutos para o nascer do sol. Aproveitando-se disso, a loira saiu de sua cama e andou em passos leves até a cozinha. A porta de saída do apartamento estava bem em sua frente; suas mãos foram até a maçaneta com cuidado.

— Onde pensa que vai?

Osoro deu um pulo para longe da porta, soltando um grito rouco da garganta.

— Megami, quer me matar do coração?! Não são nem seis da manhã!

Shidesu encarou de olhos arregalados a figura elegante sentada no balcão daquela cozinha velha. Era como uma deusa esculpida em mármore, que bebia seu chá sem se importar com o ambiente mundano que a rodeava.

— Eu sei, por isso estou surpresa por você já estar de pé — Megami sequer tirou os olhos da xícara. — Indo comprar cigarros, Osoro?

A loira cruzou os braços.

— Por que caralhos você tem que me conhecer tão bem?! 

— Você realmente deveria parar com isso — seus olhares finalmente se encontraram; era difícil encarar por muito tempo aqueles olhos prateados de recriminação. — Está acabando com sua saúde. 

— Escuta, Megami, eu sei que você odeia que eu fume, mas realmente não dá pra parar do dia pra noite.

— Se você começasse, aos poucos já se livraria desse problema.

Osoro riu com amargura, abrindo a porta de entrada.

— Foi mal Megami, tenta falar isso pro meu vício em nicotina — tentando amenizar o clima, a delinquente prosseguiu: — arruma suas coisas, quando eu voltar a gente vai sair daqui.

— E para onde vamos? — apesar da discussão implícita, Megami continuou com sua postura de sempre.

— Acho que é melhor fazer surpresa — o sorriso de Shidesu já estava de volta. — Mas separa suas roupas de banho, a gente vai precisar.


 

[...]


 

Depois de passarem a manhã toda na estrada, Osoro estacionou em uma zona arbórea distante de qualquer sinal de civilização. Elas andaram por entre as árvores, chegando em frente às águas calmas de um rio.

Megami desconfiou da inocência do passeio na mesma hora. A ideia de passar uma manhã agradável nadando em águas cristalinas não era bem a cara da delinquente; e, como um detetive durante um inquérito, fez com que ela confessasse. 

— Osoro, você não me disse que estaríamos invadindo a propriedade de alguém.

— Com medo de ser pega no flagra?

— Uma coisa é aproveitarmos as férias, outra completamente diferente é sairmos por aí cometendo crimes — o tom impositivo da Saikou não foi o suficiente para deixar Shidesu receosa. — Isso é inadmissível!

— Porra, você não me disse que tava cansada da monotonia da sua vida? Então, esse mês vai ser ideal pra você sair um pouco dessa sua bolha de Saikou. 

Antes que ela pudesse continuar a reprovar aquela ideia absurda, Osoro tirou parte de suas roupas e correu para pular dentro do rio. A Saikou congelou na mesma hora; era quase impossível fazer a delinquente mudar de ideia.

— Vem logo Megami, deixa de ser tão chata.

— Eu já disse que não vou participar disso — ela continuou a olhar para Shidesu com reprovação. 

— Ui, a presidente tá com medinho.

— Deixe de ser infantil. Esse tipo de provocação não funciona comig- 

Megami teve de se interromper para desviar de um jato d'água arremessado por Osoro. Mesmo conseguindo se livrar da primeira investida, a loira não desistiu de tentar molhá-la. Mais um jato; mais um movimento ágil para desviar.

— Pare já com isso!

— Ou o que? — Shidesu disse ao sair de dentro da água e caminhar na direção de Megami com um sorriso maligno no rosto. — A princesa vai me mandar pra sala da conselheira? 

— Estou falando sério, não comece — isso só serviu para incentivar a delinquente, que começou a correr em sua direção. — Osoro! 

Em um movimento rápido, Shidesu levantou-a em seu colo, correndo para jogar-se no rio junto dela; Osoro era extremamente forte, então Megami resolveu deixar-se ser levada. 

Assim que voltou à superfície, acabou se deparando com a loira sem ar de tanto rir.

— Ora, sua… — Ela agarrou Osoro pelos ombros, fazendo-na afundar; como resposta, Shidesu jogou água em seu rosto, sucedendo em acertá-la dessa vez. 

Sem conseguir mais se conter, Megami sorriu perante à teimosia da delinquente.

— Viu? Não foi tão ruim assim, foi?

— Não pense que eu mudei de ideia só porque você me carregou até aqui. Aliás, acho que já ficamos por tempo demais. 

— Tsc, se você continuar desse jeito não vamos conseguir fazer nada durante as férias — Osoro jogou a cabeça para trás, flutuando de costas na superfície da água. — Se queria algo sem graça, seria melhor ter chamado suas amiguinhas do conselho pra passear no shopping.

Megami franziu as sobrancelhas; depois de tanto tempo convivendo com Osoro, já estava acostumada com seu jeito pouco polido de ser, mas às vezes se esquecia da falta de filtragem que ela utilizava em suas palavras. 

Não deixaria aquilo passar em branco.

— Isso no seu tom de voz é ciúme, Osoro? 

— E se for, o que você faria? — a loira disse em tom de desafio; ambas sorriram.

Se alguém tivesse se dado ao trabalho de olhar por entre as árvores e observar as duas durante o resto do dia, teria visto que, apesar das provocações e brincadeiras, a expressão rígida da garota de cabelos prateados foi gradualmente se tornando mais complacente, e seu coração mais leve. De certa forma, ter Shidesu tão próxima aumentava a coragem de Megami; um efeito hipnótico e quase entorpecente, como se a delinquente transmitisse sua indisciplina pelo simples toque. 


 

[...]



 

Depois do incidente no rio, Megami começou, aos poucos, a se sentir mais confortável perto de Osoro. Era difícil não repreendê-la algumas vezes, mas quando não faziam nada muito grave, resolvia deixar-se levar pelo momento. De certa forma — por mais que nunca fosse admitir isso em voz alta —, Shidesu estava certa. Ela queria, sim, sair daquela bolha em que ficou presa durante toda a sua vida, e aquela viagem era uma ótima oportunidade para isso. 

As duas se afastaram ainda mais de Buraza, o que lhe trouxe certo alívio. Passaram as noites em pensões e hotéis de última categoria, enquanto experienciavam situações e lugares totalmente novos para Megami. 

Ela descobriu-se feliz em viver daquele jeito; sentia-se livre. Experienciou pela primeira vez a vida fora dos luxos e obrigações que seu sobrenome carregava. Ignorou todas as mensagens e ligações, bloqueou os números e impediu qualquer contato com sua família.

O Japão era um país grande o suficiente para que não a encontrassem, e seu pai nunca envolveria a polícia. O escândalo deixaria as pessoas mais atentas à sujeira que ele escondia debaixo dos panos.

Mas o próximo acontecimento memorável daquele mês ocorreu duas semanas depois, em um bar meia boca de uma cidade qualquer.

— Nada contra a lei? 

— Não senhorita.

— Que nos coloque em problemas?

— Não. Nem um pouco.

— Que nos faça correr risco de morte?

— Porra, eu sou tão imbecil assim?! 

— Sim, você é. Da última vez você me obrigou a invadir o vagão de um trem de carga em movimento que nos levou para o meio do nada — Megami encarou Osoro com um olhar de reprovação. — Demoramos um dia inteiro para achar algum sinal de civilização e carona para voltarmos até onde sua moto estava.

— Porra, aquele dia foi incrível! Você deveria ter visto sua cara — Osoro riu. — Mas fica calma, hoje só vamos nos distrair. Você já foi em algum bar desse tipo na sua vida? Com música ao vivo e gente sem grana que só quer distrair a cabeça?

— Não.

— Foi o que eu pensei. Não vamos fazer nada absurdo, princesinha. Eu só quero que você visite alguns lugares que gente normal frequenta.

Se ao menos Megami soubesse que ela iria, sim, meter-se em uma situação absurda, teria ficado com a guarda menos baixa após ouvir a delinquente; mas nem mesmo Osoro poderia adivinhar o decorrer dos acontecimentos daquela noite.


Notas Finais


Queria agradecer à excelente betagem da @cry_b3ar_baby_ (e também queria agradecer à ela por colocar na minha cabeça que a Osoro tem a voz do Naruto).


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