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História Enquanto a cidade funde, a gente afunda - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Um retorno sobre os mesmos passos para onde quer que se vá.


Descartado, favor retornar ao remetente

Lavínia ainda é uma das minhas músicas preferidas a aquele livro ainda me faz sentir o mesmo, eu pensava que não dava pra vender histórias, não comprei nenhuma, mas se pudesse e tivesse eram em livros assim que gastaria tudo o que recebesse. Histórias assim a gente escuta de gente que passa a noite sentada na esquina, ou no bar, ou em casa.

Se fosse enumerar tudo o que eu não sabia e agora sei talvez desse um livro, se fosse enumerar as que ainda falta saber, daria uma coleção. Que uma vida pode ser levado por uma pessoa, um gato e uma planta meio morta na pia da cozinha. Que a planta de plástico está ali pra te lembrar que pra durar mais nessa vida não dá pra ser de verdade, e é por isso que eu me pinto todo dia em frente ao espelho, cobrindo as marcas do tempo que não significam mais que falta de estética.

Cortei as unhas semana passada, até toparem na carne, essa semana já encobriram tudo de novo. As pintei de vermelho pra lembrar do sangue que corre na veia, lembrar que ainda estou aqui, vivo.

O diabo é mais chamado que uns santos por aqui, a gente teme o nome mas o inferno nunca foi em outro lugar se não dentro de nós mesmos. 

Perambulei pelas ruas naquela madrugada pensando que te encontraria em alguma viela, o poste quase não iluminava nada, mas você nunca foi de se misturar pelas pessoas comuns, de carne osso e amor.

Fui até a porta do psiquiatra porque pensei que estava enlouquecendo, acho que me receitaram um remédio e foi só isso mesmo. Ninguém tem muita paciência hoje em dia pro que o outro tem a dizer, não de verdade.

Se você pudesse realizar um desejo, o que você pediria?

Pros amantes da literatura eles já têm a resposta se Capitu traiu ou não Bentinho, e eu respeito demais Machado de Assis, mas eu sou filha de quem escreve a vida em rascunho na borda do jornal, quem não terminou a escola e os livros que pegou na mão foi sorte, lê-los um privilégio. Eu sou da palavra que corta a alma, que rasga no seu trejeito em que o tempo não tem linha que deixe cronológico, que as palavras perdem seus pontos vírgulas e traços. As palavras são atropeladas, e eu gosto que elas fiquem assim.

Lavínia era louca, enlouqueceu, ou nunca esteve tão sã?

O acidente mais feio que sofri foi das palavras que me atropelam, elas passam sem pedir sinal e seguem sem avisar também. Eu escrevo antes de sentir porque não tem sentimento no mundo que faça quem não quer ficar.

Te mandei um telegrama na época que não enviam mais, um cartão postal de Niterói de 84 porque 2019 me acabou antes que eu pudesse nascer, de fato.

Eu quebrei a garrafa de café pra não poder beber mais, acaba que eu passo o pó dentro da caneca, deixando ele mais forte ainda, meio amargo. Sempre meio, metade, nunca inteiro, igual.

Eu fujo da cidade mas ela permanece, onde eu vou é igual e uma coisa liga a outra e eu continuo andando em círculos no mesmo lugar. A rua muda de nome, a casa muda de número, a fachada é outra e a janela às vezes está do lado direito, outro do esquerdo, as vezes não está em lugar nenhum, mas é a casa, é o quarto, é na porta a direita, no segundo andar, no sótão. E a esquina da rua é a mesma, com o bar ao lado ou sem, o poste aceso outrora apagado, mas é o mesmo poste e a mesma cidade.

Eu não sei se estamos fadados ao destino ou se a gente é escravo dos nossos próprios desejos. A vida é o maior jogo de azar que eu já joguei, sorte passou longe em qualquer sentido.

Se fosse pra dizer sobre as últimas palavras que saíram da sua boca, seria o desejo de não poder me desejar nada, porque a sua compaixão me dói mais que o desprezo que você já sentiu.

A pausa dramática só funciona na minha cabeça, e o fim só é digno de quem viveu majestosamente, não é sobre grandes feitos, nem sobre ser bom ou ter vivido sem medo.

As últimas páginas são o começo de uma história nova, as últimas palavras um prelúdio de alguma coisa que ainda não foi contada. É por isso que eu sempre começo pelo fim.

Você nunca terminou a leitura, e é por isso que as histórias que ninguém contaria não fazem grande euforia na estante das livrarias.

A gente tem que viver pra ler ou ler pra viver? Escrever pra viver ou viver pra escrever?

Coloquei naquele papel tudo que fica na garganta e desce rasgando até queimar, o que quer voltar e engoli mesmo assim, o ácido que fica na boca é a lembrança amarga do que não tem ouvidos pra escutar tamanha história de desesperado.

Eu grifei o último verso do começo que precedida o fim, não tava escrito que era mas dava pra saber. A gente sabe que vai terminar antes do começo e mesmo assim arrisca sem pestanejar. Você piscou umas quatro vezes antes de vender a alma pro desconhecido e é por isso que quem anda assombrado sou eu.

Se tudo fosse diferente, e se a cidade não me consumisse 24/7 de tudo que restou, se você não fosse o sinônimo da minha claustrofobia, ainda assim assinaria embaixo.

Vendi a alma pro inferno, mas o demônio era você.


Notas Finais


"Suportamos a existência tentando converter o banal em épico."

http://www.culturapara.art.br/Literatura/vicentececim/obras2.htm


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