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História Entre a Ficção e a Realidade - Capítulo 28


Escrita por: e Anya_Dallerys


Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 28 - Cabelos loiros


Emilia

Banbridge, Irlanda do Norte | Quinta, 15 de março de 2018, 21:14

Emilia costumava voltar para o hotel caminhando junto com outros colegas, porém ao sair do trabalho naquele dia pegou um táxi. Estava bastante ansiosa para chegar ao hotel logo e conversar com Kit.

O namorado não foi para o estúdio aquele dia. Aparentemente a história de Jon Snow terminava com a morte dele, por isso as jornadas de trabalho de Kit tinham diminuído bastante e ele entrava no set apenas para regravar algumas cenas. Daenerys, ao contrário, tinha um caminho mais longo, chegando a Porto Real e ao Trono de Ferro.

Emilia ficou sabendo do destino final de sua personagem numa reunião que teve com Carl, Elen, David e Dan à tarde. Soube também que para gravar este final teria que viajar para Dubrovnik, na Croácia, onde passaria duas semanas. A merda é que a viagem seria na próxima semana, poucos dias depois que todo mundo soubesse de seu relacionamento com Kit, então sua esperança de que os dois estariam juntos nesse período conturbado foi por água abaixo.

Atravessava o hall de entrada do hotel, ansiosa por encontrar o namorado e contar-lhe logo, quando o recepcionista a chamou:

— Senhorita Clarke! Deixaram isso aqui para a senhora.

Ele colocou um pequeno buquê de lírios brancos sobre o balcão. Emilia o pegou, aspirou o cheirinho suave das flores e perguntou:

— Quem deixou?

— O entregador da floricultura. Ele disse que encomendaram as flores e pediram para deixar aqui para a senhora..

Emilia agradeceu e carregou o buquê consigo para o elevador. Ao chegar ao quarto jogou-o sem muito cuidado sobre a cama. Um cartão de envelope negro saiu do meio dele, mas Emilia não lhe deu atenção. Foi diretamente à porta de conexão com o quarto de Kit e abriu-a devagar, como sempre faziam quando tinham ficado muito tempo fora. Assim se ele tivesse esquecido de trancá-la e houvesse outra pessoa no quarto, eles não seriam pegos em flagrante.

O namorado falava alto e Emilia parou com apenas uma fresta da porta aberta. 

— … tenho a noite toda. — Ele dizia. — Onde você está? — Kit andou pelo quarto e mexeu nas cortinas da janela. — Estou vendo o táxi. Não combinamos que eu te encontrava no restaurante? — Voltou para dentro entrando no campo de visão de Emilia que só então percebeu que ele conversava com alguém pelo telefone. — Mudou para onde? Não… Não precisa pedir desculpas. Me espera. Estou descendo.

Ele desligou e entrou no banheiro. Emilia esperou uns dois minutos até que ele voltasse e entrou no quarto. 

Kit estava pronto para sair. Vestia uma calça e camisa sociais escuros cujos botões ainda estavam desabotoados; o cabelo bem penteado e o cheiro do perfume espalhado por todo o quarto. Olhou brevemente para Emilia quando ela entrou e voltou a se concentrar em colocar o relógio.

— Chegou cedo hoje. — Ele comentou distraído.

— Vim de táxi. — Emilia se aproximou dele e começou a abotoar os botões da camisa bem devagar para poder observar seu corpo por mais tempo. — Onde você vai?

Afobado, Kit deu um passo para trás e terminou ele mesmo a tarefa que Emilia iniciou.

— Thomas está com problemas. Eu já te contei que ele era viciado em jogos de azar?

— Não.

— Ah… Deixa pra lá. Depois te explico a história toda.

Kit foi até o espelho olhar-se pela última vez. Pegou o celular e a carteira e voltou até a namorada, dando-lhe com um selinho rápido de despedida.

Emilia não ficou satisfeita. Segurou-o pelo braço obrigando-o a voltar-se para ela, colocou a mão atrás da nuca para ele não escapar e o beijou de verdade. Kit a abraçou e correspondeu com igual intensidade.

— Desse jeito não vou sair daqui. — Ele disse quando as bocas se afastaram.

— Então fica.

— Não posso. Thomas voltou a jogar.

Emilia soltou o namorado. 

— Vai ajudar seu amigo. — Disse deduzindo que era Thomas quem Kit iria encontrar. — Vou estar te esperando.

— Não precisa. Você deve estar cansada e não sei que horas volto. A gente se fala amanhã. 

Kit pegou um casaco e saiu apressado. 

Emilia apagou as luzes e voltou para o próprio quarto dando de cara com os lírios sobre a cama. Curiosa, pegou o cartão e abriu. Era semelhante ao que recebeu junto das rosas na sexta anterior, com letras douradas impressas sobre o papel preto. Porém a mensagem era diferente: “Quem trai uma vez, trai sempre. Cuidado!”

Novamente amassou o cartão e jogou fora junto com as flores. Era o segundo buquê de um desconhecido que recebia em menos de uma semana. Emilia não deu atenção para o primeiro, mas agora, lembrando-se dele e vendo o segundo dentro da lixeira, começou a se encher de dúvidas. Por que os bilhetes anônimos? Qualquer fã que enviasse um presente desejaria que o ídolo soubesse seu nome. Se não era um fã, então quem iria querer chatear-lhe com brincadeiras de mau gosto? E o mais estranho: por que enviaria mensagens sobre traição se, para todos os efeitos, ela estava solteira?

Foi até a janela e abriu as cortinas para olhar a rua. Um táxi estava estacionado lá embaixo, esperando por um hóspede. A porta se abriu e uma mulher de longos cabelos loiros saiu dele ao mesmo tempo que Kit saiu do hotel. Os dois se abraçaram longamente, conversaram um pouco, entraram de novo no carro e partiram. 

Emilia não era ciumenta. Nunca foi. Mas ao ficar debruçada sobre o parapeito da janela vendo o táxi dobrar a esquina não conseguiu negar para si mesma o medo que começava a sentir daqueles cabelos loiros.

 

*** 

 

Kit

Banbridge, Irlanda do Norte | Quinta, 15 de março de 2018, 22:23

Ela estava nervosa. Mexeu nos cabelos loiros, fazendo um coque mal finalizado que se desfez assim que tirou as mãos. Depois passou os dedos pelo colar e desceu para o broche do vestido, à frente e entre os grandes seios. Kit parou de acompanhar os movimentos no colar.

Há alguns dias se correspondia com Charlotte e a cada nova mensagem a preocupação com Thomas aumentava. Nelas Charlotte dizia que o marido ainda estava deprimido depois da morte de Richard, não queria trabalhar e, ela desconfiava, tinha voltado a jogar. 

Kit se surpreendeu ao receber uma ligação dela no começo da noite e mais ainda quando soube que estava em Banbridge especialmente para conversar com ele, o que significava que a situação era realmente grave. Por isso não hesitou em aceitar o convite para jantar. Só não esperava que fosse na varanda do quarto do hotel em que ela estava hospedada.

Estavam no fim do inverno, mas o vento frio da noite ainda soprava tremeluzindo as velas que Charlotte colocou sobre a mesa para iluminar o ambiente enquanto comiam um Irish Stew, um ensopado típico irlandês composto de carne com legumes e molho a base de cerveja escura. Ao ver que a refeição seria ao ar livre manteve-se vestido com o casaco, mas não sabia como Charlotte suportava o frio em seu vestido de alças finas.  

 — Quando saí ele ficou no quarto de pijamas. Nem veio se despedir. — Ela dizia sobre Thomas ao sair para viajar. — Está num estado deprimente.

— Então ele não superou mesmo a morte de Richard?

— Não sei dizer. Ele diz que está tudo bem quando pergunto, mas começou a mudar depois de janeiro: parou de ir na terapia; não tem ânimo pra mais nada e não terminou o filme que estava dirigindo, deixando o resto do trabalho, os créditos e o lucro para o produtor. 

— Ele não vai para Londres esse final de semana?

— Não. Eu vou como representante dele. Aproveitei a viagem e vim mais cedo para conversar com você.

Charlotte tomou um longo gole do vinho tinto e Kit a acompanhou com sua própria taça. Começava a ficar realmente preocupado.

Thomas adorava Londres. Ousava dizer que era o que ele mais amava depois do pai, recém falecido, da esposa e do trabalho. Se ele vivia nos Estados Unidos era unicamente por causa da carreira. Sempre que podia ia a cidade do Big Bang, “comer bem e sonhar”, nas palavras dele. A festa da Dolce & Gabbana no próximo domingo seria a oportunidade perfeita para Thomas visitar sua amada cidade e ele não querer ir era alarmante.

Apesar de ser um evento internacional, a celebração de lançamento do perfume seria quase como uma festa particular para Kit. Ele e Emilia estariam presentes por serem garotos propaganda da marca. Seria ali que anunciariam ao mundo que estavam juntos e não duvidava que se tornassem o centro das atenções, para os convidados e para a imprensa. Kit contava com o apoio de Thomas, que devia estar presente porque foi o diretor do comercial. Na falta dele, Charlotte seria sua representante.

— Ele voltou mesmo a jogar? — Kit perguntou.

— Tenho quase certeza que sim. — Ela soltou o garfo e começou a contar nos dedos de unhas pintadas de escarlate os motivos que tinha para acreditar que o marido voltara ao antigo vício. — No começo de fevereiro ele saiu por dois fins de semana seguidos sem me dizer para onde ia. Depois, quando a fatura do cartão chegou, ele a escondeu de mim. Liguei pedindo uma cópia, mas eles disseram que foram proibidos por Thomas de divulgar essas informações.

— Mesmo pra você?

— Sim. E domingo passado ligaram do banco dizendo que a fatura estava há três meses sem ser paga. Mas não pude perguntar a Thomas o motivo porque ele tinha desaparecido de novo. — Ela suspirou e bebeu mais um gole de vinho. — Lembra do Ohtake que a gente tinha na sala?

Kit lembrou-se da famosa e cara escultura contemporânea de Tomie Ohtake que o casal de amigos ostentava na sala de sua casa em Los Angeles.

— Que vocês tinham?

— Exatamente: tínhamos. A escultura desapareceu. Não importa quantas vezes eu pergunte, Thomas não me diz o que fez com ela. Eu amava aquela escultura porque foi um presente do meu pai. E ele vendeu para pagar dívidas de jogo! Está tudo uma droga! — Ela se levantou exaltada e caminhou até a beira do balaústre. Colocou a mão no rosto e fez algo que Kit nunca a viu fazer: chorou. — Desculpa por vir jogar toda essa merda em cima de você Kit, mas os irmãos dele não me suportam e não conheço mais ninguém tão próximo de Thomas.

— Você fez bem. — Disse se levantando também. — Thomas nunca me contaria. Pelo menos agora eu posso tentar ajudá-lo antes que seja tarde.

Charlotte se virou. Tinha a maquiagem borrada pelas lágrimas, com duas faixas pretas da máscara cortando a cor de pele da base. Ela andou até Kit e o abraçou enquanto lamentava: 

— Eu tentei ser forte, mas não sou. Estou cansada. Não sei se aguento outra recaída dele. Só quero sumir. Continuar com a minha vida bem longe dele e de toda essa merda… 

Kit passou os braços ao redor dela oferecendo o refúgio que ela buscava em sua aflição. Sabia que ela era uma mulher forte. Era inteligente, bonita e excelente em seu trabalho. Passara com Thomas por duas crises com o vício, sustentara-o no dia da cremação de Richard e teve o cuidado de ir até Banbridge pedir por ajuda, mesmo sofrendo com as atitudes do marido. Mas, apesar de muitas vezes agir como tal, não era sua mãe. Ela não precisava ser forte por Thomas. 

— Você pode continuar com sua vida. — Kit tentou consolar e aconselhá-la ao mesmo tempo. — Não se destrua por ele. Thomas terá a mim, a família e os outros amigos. 

Ela intensificou um pouco o abraço e Kit afagou-lhe os cabelos.

— Obrigada por me dizer isso.

— Talvez vocês só precisem de um tempo…

Charlotte afastou o rosto. Tinha parado de chorar e sustentava um novo brilho nos olhos, embora sua voz continuasse embargada.

— Acho que não é uma questão de tempo.

— Talvez sim. Talvez não. — Kit disse se afastando. — Relacionamentos são complicados. Digo isso por experiência própria. Há seis meses eu fiquei noivo de Rose. Terminamos em dezembro de forma conturbada e agora… — Hesitou ao perceber que iria falar “estou namorando minha melhor amiga”

— E agora…? — Charlotte repetiu curiosa. — Você está apaixonado por outra pessoa?

Kit não conseguiu disfarçar e sorriu abertamente.

— Estou. Eu não esperava, mas aconteceu. 

— Como foi?

— Uma loucura. Em um dia estava tudo bem, no outro uma foto despertou os sentimentos adormecidos e quando percebi estava apaixonado. Nada teria acontecido se ela não tivesse tomado a iniciativa.  — Disse recordando-se de como a foto de Jon e Daenerys que vazou em dezembro fez Emilia dizer-lhe “Eu te amo” e ele descobrir os próprios sentimentos.

Quando terminou de falar Charlotte também sorria.

— Nada como uma história de amor para alegrar meu coração. — Ela disse. — Mas você não vai me dizer quem é?

— Não posso ainda. Quanto a Thomas, prometo que vou conversar com ele e… 

Charlotte o interrompeu balançando as mãos abertas à frente do corpo pedindo que parasse.

— Por favor, não vamos mais falar de Thomas. — Ela fechou os olhos e girou em círculos no lugar com os braços abertos, os cabelos loiros voando com o vento. — Eu estou cansada de chorar, mas agora, depois de conversar com você, sinto como se tivesse me libertado. Não me sinto bem assim a séculos.

Kit atendeu ao seu pedido. Sentaram-se e terminaram o jantar falando de tudo: da festa de domingo, da viagem para Londres, das gravações da série, do novo filme que ela estava escrevendo. Tudo. Exceto sobre Thomas e a paixão secreta de Kit.

Voltou tarde para o próprio hotel. Tomou um banho e abriu a porta de conexão entre os quartos devagarinho. Tudo estava apagado e Emilia não se mexeu. Ela devia estar exausta pois estava trabalhando muito naquela semana, por isso não quis acordá-la. Desejou um “boa noite” silencioso e fechou a porta.

 

***

 

Emilia

Banbridge, Irlanda do Norte | Sexta, 16 de março de 2018, 00:40

— Você tem que perguntar para ele. — Lauren disse do outro lado da chamada de vídeo.

— Não vou.

— Deixa de ser cabeça-dura mulher! 

— Não vou perguntar nada. Não quero que Kit ache que eu estou desconfiando dele.

Esteve conversando com Lauren desde que Kit saiu. Contar para alguém foi bom pois fez com chegasse a conclusão de que estava sendo ridícula. Percebeu enquanto relatava os acontecimentos e desconfianças para a amiga que não estava agindo segundo seus princípios. Parecia outra. Uma ciumenta que fica esperando qualquer deslize do namorado para fazer um escândalo. Sempre odiou esse tipo de pessoa e não queria nunca agir assim. Por isso decidiu que não falaria nada com ele. Se tivesse que ser chamada cabeça-dura para sempre não se importaria.

— E você, ainda está conversando com o italiano? 

— Não. Mas surgiu outra pessoa. — Lauren tentou conter o sorriso mas não conseguiu. — Passo horas e horas conversando com ele por mensagem. Aaahh! Tenho certeza de que estou apaixonada.

Emilia, que até aqui esteve deitada, sentou-se, interessada na novidade.

— Me conta logo quem é. — Pediu..

— Não vou. — Ela disse séria. — Acho que você não vai gostar.

— Então eu o conheço?

— Ai! Para Emilia! Eu não devia nem ter te dito isso. Agora você vai ficar me perturbando e eu, com minha boca grande, vou acabar contando.

— Você está certa. Conta logo.

— Acho que você vai me odiar quando eu disser quem é.

— Conta logo! — Insistiu pela terceira vez.

— Hoje não. Pelo menos dessa vez vou segurar minha língua. Tenho que ir dormir. Tchau. E você conversa com Kit!

Ela finalizou a chamada não tendo tempo nem de ver Emilia rindo da reação exagerada dela.

Emilia desligou o celular, encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos para dormir, mas continuou ouvindo os barulhos do hotel. Percebeu o som de chuveiro ligado no quarto de Kit. Minutos depois ele abriu a porta de conexão entre os dois quartos. Ficou algum tempo observando-a mas por causa da escuridão não percebeu que ela estava com os olhos abertos. Emilia não queria conversar com ele, por isso mexeu-se só depois que a porta foi fechada.



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