História Entre amor e vingança - Capítulo 23


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Categorias Histórias Originais
Tags Amor, Drama, Ódio, Violencia
Visualizações 21
Palavras 5.028
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção Adolescente, Magia, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


"O essencial é invisível aos olhos", o título do capítulo é baseado em uma frase bastante conhecida do livro O pequeno príncipe, tem grande relação com o paradeiro da Pedra do Ar.

O que fazer quando sua única opção é ser forte?

Resumo do último capítulo:
Sakura e Kiran foram até Lyon, uma cidade antiga da França, para conseguir a pedra do ar. Encontraram uma passagem secreta que os levaram para uma dimensão diferente, obscura e com uma intensa energia negativa. Apesar do poder de sentir a energia das pedras, Sakura não conseguiu encontrar o objeto desejado. Uma criatura de capuz preto que comanda os corvos, atacou os dois jovens. Kiran começou o ataque enquanto Sakura continuou a sua busca, porém sem resultados. O indiano se machucou demais na batalha contra seu inimigo, Cordeau, além de ser encurralado por um furacão de penas afiadas.
E agora, esse é o fim de Kiran? O que Sakura poderá fazer para ajudá-lo?

Tenham uma boa leitura!

Capítulo 23 - O essencial é invisível aos olhos


Fanfic / Fanfiction Entre amor e vingança - Capítulo 23 - O essencial é invisível aos olhos

As penas iriam atacar o indiano a qualquer momento, aquela cena era horrível. Kiran não conseguiria se levantar mas parece que ele conseguiu força de algum lugar, pois moveu levemente as mãos e alguns grãos de areia começaram a fazer movimentos circulares ao redor do corpo do moreno. Eu entendi muito bem o recado, ele iria tentar um último ataque mas seria tudo em vão. Eu sei que seria. Balancei a negativamente a cabeça pedindo para que ele desistisse dessa ideia boba. Kiran apenas sorriu e ia murmurar algo sobre fugir até que ficou surpreso. Seu semblante ficou distante e pensativo, algo o incomodava e eu não fazia a menor ideia do que era.

- Kiran... – Sussurrei confusa.

- Sakura! – Ele me olhou como se tivesse descoberto a coisa mais importante de todas. – A pedra... Ela não é física.

- Hein?

Cordeau apenas soltou uma risada e lançou uma pena enorme e negra que cortou a sua costela. Kiran gemeu de dor e apoiou o local ferido, saía tanto sangue que eu pensei que à qualquer momento ele teria uma hemorragia. Sei muito bem que essa foi uma demonstração do corvo do quanto era forte, porém eu precisei ignorar. Tinha que fazer algo urgente.

Pensei no que o indiano quis dizer com aquilo. Se a pedra não era física, como eu saberia onde encontra-la? Em que forma ela estaria? A minha cabeça doía só de pensar nisso. Cordeau fez pouco caso da minha confusão mental, apesar de sentir um leve tom de preocupação em sua expressão. Ele estava incomodado com algo, eu pude sentir isso. Ele fechou os punhos e mais penas começaram a ir contra o indiano, ele usou o leve furacão para desviar duas ou três. Contudo, as outras fizeram longos cortes por todo o corpo do rapaz.

- E agora o grande final. – Diz Cordeau.

Eu ergui o olhar e vi uma enorme pena apontada para a testa de Kiran. Uma imensa angústia tomou conta de mim, meu corpo tremeu e eu senti que poderia chorar à qualquer momento. O indiano apenas respirou fundo, prendendo o ar em seus pulmões.

- NÃO! – Eu gritei desesperadamente apoiando ambas as mãos na cabeça enquanto caía de joelhos. Puxava o meu cabelo com tanta força mas a dor não incomodava, nada seria pior do que assistir ao que estava por vir.

Esse seria o fim e eu mal tinha ar para gritar mais do que isso.

Ar...

O ar ao meu redor é diferente, ele me deixa mais forte e não consigo me cansar com tanta facilidade. Finalmente entendi o que Kiran queria dizer, a pedra do ar está ao nosso redor.

Ela é o próprio ar dessa colina, por isso Cordeau não ficava muito cansado e nem machucado porque absorvia a energia vindo do vento. Essa sensação boa que eu senti quando atravessei o portal foi por causa da energia que fluía entre nós. A neblina está densa e escura porque a energia foi corrompida, eu posso usar o meu poder para purifica-la e assim terei a pedra do ar ao meu favor.

Olhei para os dois com uma determinação nunca vista antes. Respirei fundo e fechei os olhos por alguns segundos, libertando todo o poder que tinha dentro de mim. O meu corpo ficou quente e eu senti que a luz o envolvia como forma de proteção. A energia fluía sobre o meu corpo com graciosidade, bolinhas de luz flutuavam ao redor e algumas atravessavam as penas. Elas “dançavam” alegremente por todo o ambiente e logo brilhavam mais do que antes. Aquele ambiente macabro, aos poucos, começou a se moldar conforme a minha vontade e então a névoa escura lentamente ficou mais clara. Parecia uma imensa nuvem branca e macia rodeando todo o coliseu, uma imensa ventania atingiu o ambiente e as árvores, antes secas, agora estavam cheias de folhas. O clima estava puro e o ar fresco, comecei a sugar aquela nuvem branca para dentro do meu corpo. Ela ficou ao meu redor e logo percebi que a mesma sumia aos poucos, estava sendo convertida na energia que entrava em mim.

Quando a nuvem sumiu por completo, meu corpo estava diferente. Ele vibrava e eu me sentia revigorada, como se fosse capaz de derrotar tudo e todos. Algumas mechas do meu cabelo flutuavam na altura do rosto e eu podia perceber como tinha controle sobre aquele local. A energia passava por mim e me dava forças para consegui encarar a situação.

Fiquei de pé lentamente enquanto uma forte ventania formava-se ao meu redor. Ela expulsava as penas ao meu redor e também desfizeram o furacão que envolvia Kiran, as penas foram todas pulverizadas com a força com que o vento batia nelas. Kiran voou um pouco longe e bateu as costas em uma rocha, por sorte foi algo fraco e ele não fez nenhuma expressão de dor. Pelo contrário, parecia surpreso com o que estava vendo.

O meu olhar estava fixo em Cordeau que havia recuado um pouco por causa da ventania. O ar brincava e dançava ao redor do meu corpo, animado para a próxima ordem silenciosa que eu daria. A poeira subia mas não ousava entrar em contato com os meus olhos, ela desviava de mim com habilidade. Um sorriso de canto apareceu em meus lábios. Kiran não corria mais perigo e eu agora estava no nível do meu inimigo. Não, eu estava acima dele. Cordeau perdeu a sua fonte de energia, esse era o momento certo para atacar.

 O vento sussurra em meu ouvido para atacar, até consigo sentir as vibrações dele ao redor do corvo. – Penso com um olhar determinado, meus punhos estavam fechados com força e só agora notei. – Ele é meu!

- Que droga! – Exclama Cordeau. – Eu devia ter te matado primeiro antes de acabar com minha fonte de energia. Mas não se preocupe, você vai morrer agora!

Ele avançava contra mim rapidamente, sua capa flutuava para trás enquanto alguns corvos vinham atrás dele. Eu apenas flexionei os joelhos e deu um impulso em sua direção. A minha velocidade estava bem acima da média, o vento me empurrava e conduzia, abrindo espaço para que eu avançasse. Passei por Cordeau e ele nem percebeu, olhou para os lados procurando por mim. Comecei a correr para os lados, confundindo-o e então apareci em sua frente dando um soco em sua face. O meu punho foi coberto por uma espessa camada de ar que deu um baita impacto no ataque. O corvo foi atingido e voou à vários metros saindo do meu campo de vista.

- Isso. – Murmuro e desvio o olhar para Kiran. Ele sorria abertamente, como sempre fazia.

- Você conseguiu. – O indiano diz fazendo um sinal positivo com os dedos para mim.

Um vulto apareceu atrás de mim, usando minha visão periférica pude identificar facilmente quem era. Segurei o soco de Cordeau com extrema facilidade apenas virando um pouco o corpo para o lado. Apertei firme o seu punho e então o lancei para longe, em seguida estiquei a mão para frente e uma intensa ventania o acertou na região do peito. O corvo cambaleou para os lados com uma certa dificuldade para se levantar, seus machucados agora não se curavam e eu pude perceber como ele estava ficando cansado. Segurei o próprio punho e o apertei ouvindo o estalo dos meus ossos, estava bem confiante naquela luta.

Cordeau aproximou-se de mim e lançou um bando gigantesco de corvos em minha direção. Eu apontei o dedo indicador para frente e outra rajada foi lançada, porém desta vez com um alto nível de corte. As aves viraram picadinho em questão de segundos, o inimigo não recuou e continuou com aquele semblante sério. Novamente dei um impulso e corria em sua direção, desta vez pulei para um pilar e depois para outros com agilidade. Era quase impossível me ver, eu estava mais rápida do que o olho humano poderia acompanhar. Movia-se agilmente naquele espaço que deixou de ser assustador para mim. Apareci em suas costas dando uma voadora, meus pés bateram com toda força na região e Cordeau foi impulsionado para frente.

Contudo, ele segurou o meu pé dando um rápido giro em meu corpo. Eu tentei me soltar mas não consegui. A criatura começou a girar comigo e as minha cabeça batia nos pilares os destruindo no primeiro contato. Um ser humano normal morreria com o impacto mas eu apenas senti uma dor de cabeça média, fiz uma expressão de poucos amigos e chutei com força a sua mão usando o pé livre. Consegui quebrar a sua mão e ele me soltou recuando um pouco. O corvo avançou até mim e eu fiz o mesmo, nós chocamos nossos punhos em um soco que levantou uma grande poeira no local. Nenhum dos dois iria ceder.

- Sakura, o nosso tempo vai acabar! – Kiran grita usando as poucas forças que tinha.

Eu percebi que não tínhamos muito tempo mesmo, com toda certeza mais de duas horas e meia haviam sido desperdiçadas. Olhei para o relógio em meu pulso enquanto desviava da sequência inacabável de socos de Cordeau. Tinhámos menos de quinze minutos, isso era um problema. Comecei a dar socos e chutes seguidos usando muita força, o vento ajudava a deixar os meus movimentos mais rápidos e os dele, mais lentos.

- Vamos logo, Sakura! – Resmungava o indiano.

- Calma, idiota! Eu estou tentando! -  Grito para o mesmo olhando-o de canto.

Acabo recebendo um chute na barriga, foi um movimento inesperado porém com muita força. Meu corpo voou longe e eu bati as costas em uma coluna quebrando-a por completo. As rochas caíram sobre o meu corpo mas eu erguia as duas mãos e uma forte ventania impediu que boa parte delas caíssem e causassem machucados em meu corpo. Esse era a gota d’água para mim. Eu me levantei enquanto as rochas flutuavam ao meu redor por causa dos mini tufões que as seguravam em baixo.

- Acabou, Cordeau. – Digo confiante.

O ar ao meu redor ficou um pouco mais denso do que o normal e um enorme furacão na horizontal foi em direção ao inimigo, junto com as rochas. Ele o atingiu fazendo com que seus machucados ficassem mais profundos e Cordeau recuou rolando pelo chão. O furacão que o atingiu tinha uma habilidade de cortar qualquer coisa, não sei como consegui fazer isso. Apenas imaginei o ar como lâminas gigantes. Seria impossível escapar desse ataque, pois usei quase toda a minha força para isso. O corvo lançou um redemoinho de penas contra o furacão, afastando o ar e desfazendo o meu ataque.

Meu coração gelou ao ver Cordeau caminhando até mim. Sua capa toda rasgada bem como o seu corpo mas ele carregava um sorriso confiante. Abriu os braços e soltou uma risada de deboche.

- Isso é tudo que consegue fazer? Essa brisa é incapaz de me machucar. – Ele diz com um sorriso de canto. – Agora é a minha vez.

Não imaginei que ele ainda teria forças para revidar. Cordeau invocou mais penas do que eu podia prever, suponho que havia mais de um milhão delas. As aves rodeavam todo o céu gritando desesperadoramente, prontas para atacar. Aquela cena me fez engolir seco. Desviei a minha atenção para o indiano e ele me encarava preocupado, pude sentir a tensão na sua expressão facial.

O inimigo lançou toda aquelas penas em minha direção, eu criei uma pequena esfera de ar e joguei naquele ataque. A bola se expandiu e o ar “explodiu”, espalhando-se por entre as penas e afastando algumas. Porém, a maioria continuou indo em minha direção. Respirei fundo e criei outras duas esferas e repeti o ataque. Não estava surtindo tanto efeito pois Cordeau manipulava as penas para que elas fizessem movimentos que afastassem as massas de ar que eu criava. Isso me irritava tanto.

Preciso fazer algo senão irei morrer pois a minha energia logo irá se esgotar! – Penso dando pulinhos para trás vendo as penas caírem como flechas perto dos meus pés. Não sei quanto tempo vou resistir a essa sequência de ataques mas preciso ser o mais forte possível. Kiran não tem energia para me ajudar e eu também não quero depender da sua ajuda. Agora que controlo a pedra do ar, não posso perder.

Acabei perdendo a concentração e as penas me atingiram em cheio. Consegui desviar de algumas mas boa parte delas fizeram leves perfurações nas minhas pernas e braços. Tinha um grande corte na minha bochecha que ardia e minhas mãos estavam bem machucadas. Caí no chão batendo as costas no solo duro, gemendo baixo de dor e reclamando internamente por ser tão descuidada.

- É o seu fim, garotinha. – Cordeau diz aproximando-se de mim.

Olhei o relógio no pulso e só tinha oito minutos, tudo estaria perdido se eu não o derrotasse aqui e agora. Levantei-me aos poucos olhando para o chão, minha franja cobria os olhos e eu estava ofegante. Pude perceber o sorriso convencido do corvo, ele achou que a batalha estava terminada. Porém, eu não podia perder. Eu não irei perder!

Tive uma ideia maluca e arriscada, resolvi executá-la pois era a minha única chance de vencer. Um sorriso confiante formou-se em meus lábios e Cordeau ficou confuso, ele estava atento a cada movimento meu.

- Você... – Ergui a cabeça exibindo o meu semblante confiante. – Perdeu... – Abria os braços concentrando todo o poder ao meu redor. – ...Essa batalha!

- Hein?! – Ele parecia confuso.

As massas de ar de todo o local começaram a circular ao redor do meu corpo. Elas se tornaram densas e formaram uma camada espessa de ar, servindo como “armadura” que cortava qualquer coisa que se aproximasse. Dei alguns passos para frente e a “armadura” seguiu os meus movimentos. Para manter essa consistência do ar era necessário muita concentração, então eu mal piscava os olhos.  Em passos lentos, aproximei-me de Cordeau cada vez mais. Ele apenas arqueou a sobrancelha com um sorriso confiante, lançando outro ataque com suas penas afiadas. Elas chocaram-se contra o meu escudo e viraram pó na hora, por causa da intensidade que o ar movia-se ao meu redor. O corvo ficou um pouco surpreso, porém logo o seu maldito sorriso apareceu no rosto.

- Acha mesmo que a sua “brisa” pode me deter? – Ele diz em um tom rude.

Engoli seco escolhendo permanecer em silêncio. Continuava a me aproximar, precisava arriscar tudo naquele último golpe. A minha fonte de poder logo iria se esgotar e eu não conseguiria me mover com tamanha facilidade. A distância entre nós parecia não ter fim, mesmo assim continuei avançando com determinação. Com toda certeza faltava cinco minutos ou menos para a passagem se fechar. Tempo era o que faltava naquele momento.

As penas vinham novamente em minha direção, desta vez com mais velocidade. Porém, todas foram destruídas pela minha “armadura”. Eu estaria mais aliviada se não fosse pelo fluxo de poder que diminuía conforme a barreira era mantida.

- Sakura, cuidado! – Exclama Kiran.

Menos de cinco metros era a distância que me separava do inimigo. Ele avançava até mim correndo, sua longa capa preta flutuava no ar e pude perceber que Cordeau também estava perdendo sua energia. Era tudo ou nada!

Estiquei de leve o braço para o lado, de forma que Cordeau não percebesse tal movimento. Concentrei uma pequena passa de ar ao redor da katana e a trouxe para minha mão, rápida e precisamente. Segurei firme o cabo da arma respirando fundo. Agora estava frente a frente com o corvo e minha barreira não aguentaria mais um ataque. Cordeau ergueu o braço e uma nuvem de penas negras envolveram o seu punho. Esse seria o golpe final do inimigo também.

Antes mesmo de tentar o soco em mim, eu desfiz a barreira em um movimento rápido. Eu já estava com a katana de forma horizontal e há poucos centímetros de distância do alvo. Em um golpe preciso, cortei Cordeau ao meio atingindo, primeiramente, a sua costela.

- Sua... Mald... – Ele tentou falar mas cuspiu sangue, algumas gotas voaram em meu rosto.

Continuei forçando a lâmina da katana contra o seu corpo até que ela estivesse por completo do outro lado. Tive que segurar com ambas as mãos pois meus braços tremiam, eu estava fraca e isso era bem evidente. Logo após executar o golpe, uma rajada de ar atingiu o corpo de Cordeau que voou longe e se perdeu entre os arbustos da floresta.

Minha respiração estava pesada, encostei o joelho direito no chão enquanto me apoiava na katana. Estava difícil estabilizar a respiração mas eu precisava tentar.

- Você foi incrível! – Kiran disse aproximando-se de mim e se abaixou. – Quer ajuda para se levantar?

- Não. – Menti. Eu realmente precisava mas estava bem claro que não queria ser tocada. – Eu consigo me levantar.

Com muito esforço me levantei e olhei ao redor, aquela floresta macabra tornou-se um ambiente agradável. Qualquer um acharia que esse seria o paraíso, mas eu não. Murmurei um “Vamos” para o indiano e comecei a andar usando a katana como apoio. Mesmo com o fluxo de energia que esse local proporcionava, eu estava muito fraca para absorver qualquer coisa. Não havia nenhuma massa de ar nem brisa no local, eu acabei usando tudo que tinha para me defender.

O indiano me seguiu em silêncio, não fez nenhuma pergunta e parecia triste com a forma com que eu o tratei. Admito que estou sendo fria mas ele merece, todos merecem. Não posso ser boazinha com uma pessoa, senão não serei forte o suficiente para executar por completo a minha vingança.

Sair da caverna não foi um desafio, o maior deles foi andar pela floresta à noite. Parecia que o tempo dentro daquela colina passava de uma forma diferente do tempo aqui fora. As horas aqui passavam como meros minutos lá. Senti uma dor no estômago, um forte enjoo e a visão embaçada. Kiran disse que é, provavelmente, por causa da nossa viagem através das dimensões. Sim, isso mesmo. O indiano explicou que as pedras ficam em locais além do nosso plano físico, foi tão complicado entender que eu apenas concordei com a cabeça e caminhei mais rápido.

Era quase duas da manhã quando chegamos no hotel, apenas poucos funcionários andavam pelo local. Engatinhamos por baixo da mesa da recepção e fomos, em passos apressados, até o elevador. Ele subia lentamente e eu encarava o meu reflexo no espelho. Estava horrível. O longo cabelo todo bagunçado, a roupa rasgada, o corpo cheio de arranhões e a minha pele estava banhada de sangue. O estado do indiano era pior, ele estava com cortes mais profundos e uma hemorragia interna, eu suponho. Não sei como conseguiu se locomover até o hotel.

- Você ficará bem...? – Digo quebrando o silêncio. Kiran fica surpreso com o meu tom de preocupação e vira o rosto para olhar o meu semblante. – Eu... – Olho para o lado desconfortável com aquela situação. – Eu acho que seria um problema para mim ser vista com alguém todo machucado! – Mudo o meu tom tornando-o mais frio, o indiano apenas ri baixo.

- Eu ficarei bem. Durante o caminho pela floresta, eu liguei para uma equipe médica da região. Por sinal, eles já devem estar me esperando no quarto. – Diz calmo.

- Hein? Como fez isso?

- Eu apenas ofertei uma boa quantia em dinheiro para eles. – Kiran diz saindo do elevador quando ele abre as portas.

- Entendo... – Sussurro e também saio do elevador. Caminhamos até os nossos quartos que ficam um ao lado do outro. Paro na frente da porta e aperto os punhos com força. – Sobre hoje...

- Hum?

Pensei em me desculpar pela forma rude que eu o tratei, ele me ajudou muito na busca da pedra. Além do plano da vingança ser executado perfeitamente por causa dos seus planos infalíveis. Eu poderia engolir todo esse orgulho e deixa-lo de lado, seria melhor assim. Porém, eu não consigo pois algo me impede de derrubar esse muro que eu estou construindo. Eu não quero mudar, preciso continuar fria e talvez pior. Continuei olhando para a porta de madeira, esperando que ela me desse alguma força. Infelizmente, isso dependia somente de mim. Suspirei baixo e neguei balançando a cabeça.

- Nada. – Digo entrando no meu quarto e trancando a porta. Apoio as minhas costas nela e coloco ambas as mãos na madeira, sentindo-a gelada. Solto outro suspiro, desta vez alto e longo. Olho para os meus próprios pés decepcionada comigo mesmo. Há tanta coisa que eu não compreendo, é frustrante.

Depois de um longo banho, cai na cama e apaguei instantaneamente. Todo o meu corpo formigava e doía, pude sentir as feridas sendo curadas de forma lenta. O poder de Amaterasu tem suas vantagens. Eu nunca me senti tão cansada assim na minha vida. Acordei quando eram quase uma da tarde, sentei na cama e cocei a cabeça tonta. Meu estado ainda não era dos melhores. O cabelo mais bagunçado do que nunca e alguns cortes ainda estavam lá.

Talvez devêssemos passar mais tempo aqui, até as feridas terem sumido completamente. – Penso voltando a me deitar na cama. Fiquei debaixo do cobertor encolhida, apreciando a brisa gelada do ar condicionado. Realmente eu estava cansada pois adormeci por umas duas horas.

A porta bateu algumas vezes e eu continuei imersa em meus sonhos. Porém, logo acordei pois o barulho estava ficando irritante. Abri os olhos resmungando alguma coisa, caminhei até a porta e a abri sem nem conferir quem era. O sono ainda me guiava no momento. Ergui o olhar e vi Kiran usando um sobretudo preto e longo, quase tocando seus joelhos. O cabelo dele estava preso em um rabo de cavalo e usava um cachecol azul escuro entorno de seu pescoço. Ele parecia surpreso e muito corado. Fiz careta sem entender o porquê de sua reação. Olhei para mim mesma e percebi que estava usando um pijama com um pequeno decote que chamava atenção. Engoli seco e rapidamente virei de costas para ele, indo até a coberta e me enrolando nela. Sentei no colchão macio e fiquei olhando para o lado com as bochechas levemente rosadas.

- O que você quer...? – Resmungo.

- Só pensei que você iria querer passear um pouco, aliás vamos embora em três dias. – Ele diz ainda na porta do quarto. Pelo visto não entraria sem a minha permissão.

- Estou cansada e não tenho ânimo para passear agora.

- Ficar o dia todo trancada no quarto não é a solução.

- Você é tão cha...

Começo a falar erguendo a cabeça, porém fico calada ao ver o indiano frente à frente comigo. Seus olhos fixos no meu, acabei sentindo o meu rosto corar. O seu cheiro agradável de camélia invadiu as minhas narinas, fazendo com que me perdesse em pensamentos. A respiração quente dele passou pelo meu rosto e causou um leve arrepio.

- Vamos sair, Sakura. Agora. – Ele foi frio e direto em suas palavras. Sei que não queria me controlar, apenas estava preocupado comigo.

- Tá bom... – Sussurro desviando o olhar.

Kiran ficou breves segundos olhando para mim, eu estava desconfortável com aquela aproximação. Ele percebe isso, suspira baixo e afasta-se de mim dando as costas e saindo do quarto em passos lentos.

- Te espero em meia hora no saguão. – Diz e fecha a porta.

Pisco rapidamente os olhos sem entender a sua mudança repentina de humor. Resolvi fazer o que ele dizia, tomei um bom banho novamente e troquei de roupa. Vesti um sobretudo bege, botas pretas, meia calça preta e um short jeans claro. Deixei o cabelo molhado solto, assim secaria mais rápido. Ao chegar no saguão do hotel, apenas parei ao lado do indiano e acenei positivamente com a cabeça para prosseguirmos.

As ruas de Paris realmente são belas e bem iluminadas. O cheiro agradável do café nos rodeava e eu senti vontade de entrar na primeira cafeteria que visse. O meu cabelo já estava quase seco mesmo com o ar úmido que me deixava levemente arrepiada. Kiran apontava para as lojas animado e falava sobre a culinária local. Eu ouvi tudo atentamente. Por causa do frio e da cultura local, ninguém nos questionou por usar sobretudos porém, a nossa real intenção era esconder os cortes da luta na colina.

Paramos em uma cafeteria e resolvemos sentar na mesa mais próxima da calçada. Alguns casais andavam de mãos dadas e falando bobagens naquele local. Os idosos gostavam desse clima, por isso pude percebê-los em mesas ao nosso redor. Kiran continuou falando sobre comida e fazia os nossos pedidos ao garçom, eu tinha avisado o que desejaria comer antes de entrar na cafeteria.

- Ainda estou dolorida. – Comento.

- Sério? Eu também! Os médicos ficaram surpresos com a regeneração rápida do meu corpo. Mesmo assim, disseram que eu devia ficar de cama por algumas semanas. – Kiran diz calmo como sempre.

- E você está passeando por aí como se nada tivesse acontecido? – Olho o indiano arqueando a sobrancelha.

- Sim! – Ele sorri animado. – Não precisa se preocupar, Sakura!

- Não estou preocupada... – Resmungo e volto a olhar para as pessoas na rua.

Percebo que ele ficou com uma áurea negativa, abaixando a cabeça e murmurando coisas que não pude ouvir. Kiran parecia triste com a forma que eu agia, não sei explicar mas senti uma angústia interior.

O nosso pedido chegou mais rápido do que eu pensava. Eu escolhi um tal de éclair e o Kiran optou pelo clássico croissant. O café de ambos foi normal. Dei uma leve mordida na massa e soltei um suspiro baixo apreciando a explosão de sabores. O chocolate invadiu a minha boca e o seu sabor era incrível. O indiano comia em silêncio olhando para a própria xícara. Bebi um pouco do café e fiquei olhando ao redor. Logo ficaria escuro.

- Paris é um lugar belo. – Murmuro distraída.

- Sim. – Ele sorri. – Mas antigamente o nome dessa cidade era Lutetia que significa “lama”.

- Não consigo imaginar esse lugar coberto de lama. – Digo e tomo outro gole do café. – Aqui é a capital das compras e da moda, afinal.

- É, difícil imaginar. – Kiran sorria fraco. – Muitos pensam que aqui é conhecida como a “cidade das luzes” por causa da iluminação mas...

- É por causa dos intelectuais. – Termino de beber o café. – Iluminismo, certo?

- Sim! – O indiano parecia animado com o assunto. – Eu sempre quis aprender mais sobre esse tal de Iluminismo... O que era exatamente? – Pergunta-me curioso.

- O movimento nasceu aqui mesmo na França, acredito que tenha sido no século XVII. Era um grupo de pensadores que acreditavam na razão acima da religião.

- Naquela época o teocentrismo dominava...

- Isso mesmo. Para os iluministas, a religião bloqueava a evolução humana. O lema deles era “Liberdade, igualdade e fraternidade”.

Continuo a explicar sobre o Iluminismo enquanto Kiran prestava atenção em cada palavra. Eu odiava história mas comecei a gostar após as nossas viagens. Quando descobri que iria para a França, resolvi aprender o máximo possível sobre a cultura local e o seu passado. Nunca imaginei que esse tal “Iluminismo” seria tão interessante.

- Graças ao Iluminismo, tivemos a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. – Falo bocejando.

- Uau! – Os olhos do indiano brilhavam. – História é fascinante, não é?

- Sim... É sim.

Se eu dissesse que queira que esse momento terminasse logo, estaria mentindo. Mesmo com o meu jeito rude e frio de ser, Kiran continuou ao meu lado e sem questionar nada. Decidimos dar uma volta pelas ruas da cidade e ficamos jogando papo fora. Evitamos o máximo possível falar sobre o que aconteceu na colina, ainda era difícil entender que eu e o Kiran somos responsáveis em manter o equilíbrio do mundo.

(...)

Chegar em casa foi tão bom, meu pai pulou em mim dando um forte abraço. Fiz careta e soltei um gemido abafado contendo a dor por causa dos machucados. Eu estava usando uma jaqueta e calça, então não foi possível percebê-los. Tentei dar o mínimo de detalhes sobre o meu falso passeio na casa de praia da Miku, não queria estragar a mentira. Quando entrei no meu quarto, joguei a mala em um canto e me joguei na cama.

Como é bom estar em casa.- Penso abraçando o travesseiro. Fechei os olhos e fiquei longos minutos parada e relaxando. Amanhã seria um longo dia de aula e eu precisava recuperar minhas energias. Aliais, não podia esquecer do meu trabalho de meio período. Dormi muito bem e nem percebi que meu corpo ainda estava machucado.

No outro dia, cheguei na escola mais cedo do que o habitual. Fui para a sala em passos lentos e deixei a mochila em cima da minha mesa. Olhei ao redor e a Miku ainda não havia chegado, dei nos ombros e resolvi sair da sala. Quando passei pelo pátio vi o indiano sentado no banco debaixo da cerejeira, ele lia um livro com um semblante sereno. Aproximei-me lentamente, respirei fundo e criei coragem para ser gentil com ele.

- Bom d-...

- Sabe, Sakura. – Kiran diz fechando o livro, erguendo o olhar para mim. Ele parecia sério por causa da sua expressão e tom de voz. – Temos que nos afastar.

-  Hum? – Fico confusa.

- Eu percebo que a minha presença te incomoda e não desejo isso. Vamos apenas manter contato para falar o necessário... – Ele se levanta passando por mim evitando olhar em meus olhos. – Perdão mas eu sei que te faço mal. – E dito isso, o moreno sai caminhando para a sua sala.

Eu fiquei paralisada olhando para o horizonte sem acreditar no que estava acontecendo. Kiran sempre foi gentil comigo e aturou o meu jeito de ser. Agora quer se afastar do nada? Não compreendo! Porém, ele está certo em concordar que me incomoda. Eu não consigo ficar perto dele, talvez eu o odeie como o Yatori. Aquelas lembranças horríveis sempre estarão correlacionadas com ele, não posso fazer nada.

- É... Devemos nos afastar mesmo. – Murmurei para mim mesma, colocando as mãos dentro do casaco e dando as costas para a cerejeira. Continuei o meu caminho normalmente, aceitando a sua decisão. Era o melhor a ser feito. Eu e ele nunca poderemos ser amigos, nos piores momentos de minha vida o Kiran fez parte.


Notas Finais


E no final tudo deu certo, mesmo assim ainda há muita aventura pela frente.
Agora Kiran pretende se afastar de Sakura. Por qual motivo? Será que ele não suporta mais ser tratado assim?
Espeço vocês no próximo capítulo.
Obrigada pela leitura!


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