1. Spirit Fanfics >
  2. Entre as Sombras e o Abismo >
  3. T1E1 - A Academia de Eel

História Entre as Sombras e o Abismo - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá!
Depois de muito matutar com essa história, finalmente posto o primeiro capítulo.
É um universo alternativo de Eldarya, onde nossos personagens são crianças.

Temos bastante mistério e ação, e também muita comédia, e eu espero que curtam!
Comentários são bem vindos, críticas também.
Beijos!!

Capítulo 1 - T1E1 - A Academia de Eel


 

 

 

Um estrondo de proporções indescritíveis ensurdeceu todos na cidade, e foi ouvido do subsolo, como se tivesse acontecido ali mesmo.
O calor das chamas era tão insuportável, que podia ser sentido mesmo de dentro do abrigo subterrâneo… O mesmo valia para o cheiro de carne queimada.
As crianças pequenas choravam, enquanto alguns professores tentavam acalmá-las. Os mestres que ali se encontravam eram velhos demais para lutar, ou estavam aleijados ou não tinham força sequer para segurar uma espada ou uma lança. Eram todos frágeis e dependentes.
As crianças maiores e os adolescentes estavam todos de armadura e munidos de alguma arma mais leve, mas também estavam apavorados.
Valkyon se agarrava ao seu irmão mais velho, Lance, que já tinha idade suficiente para portar uma daquelas armas, e estava ao lado da pesada porta de metal. Lance empurrou de volta o pequenino para o fundo do abrigo.


-Sai daqui! Volta lá pra trás, não é seguro aqui!
O menino chorava, e se agarrava às pernas do irmão.
Lance ficou com pena do irmãozinho. Nenhuma criança deveria passar por aquilo. Ainda mais crianças tão pequenas como ele. Enquanto seus pais estavam lá fora, lutando para proteger os entes queridos, as crianças tinham que ser mantidas no abrigo subterrâneo,  para que não morressem espetadas por uma lança do inimigo… E eles não pensavam duas vezes antes de espetar quem quer que se colocasse entre eles e o seu objetivo. Eles não tinham piedade. Apenas atropelavam quem estava no seu caminho.


O irmão mais velho segurou finalmente a criança no colo e o levou para o fundo da antiga mina de obsidiana que servia como abrigo.
-Fique aqui um só um pouquinho, tá bem? Eu preciso proteger a porta junto com os outros… Se você ficar lá, vai me distrair, e eu não posso correr o risco de machucar você, irmãozinho… Será que você pode fazer o favor de cuidar das outras crianças enquanto eu cuido da porta? Tome, fique com a adaga da mamãe.


Lance entregou para o irmãozinho uma adaga de obsidiana que pertencia à sua mãe, e o pequenino, ainda fungando, pegou a pequena arma e a segurou com força.
-Agora não chore mais. Fique aqui e cuide das outras crianças.
Valkyon concordou com a cabeça, ainda sem falar nada e entre soluços, com o nariz escorrendo e com a adaga em punho, colocou-se à frente das outras crianças menores e dos professores, acreditando realmente que estava protegendo a todos.


Não se sabe quanto tempo se passou entre as últimas explosões e o momento em que a porta foi derrubada.
Os jovens que estavam na linha de frente deram alguns passos para trás. Ninguém realmente acreditava que o inimigo tentaria entrar ali, porque lá dentro só havia crianças comuns e velhos, e lá fora estavam os melhores e mais fortes guardiões de Eel. Isso só poderia significar uma coisa: os guerreiros que estavam lá fora foram derrotados...E os únicos em condições de combate que restaram para proteger os demais, eram eles.


Os jovens guerreiros de Eel estrategicamente se colocaram nas laterais da porta, e quando um dos inimigos entrava, eles simplesmente os atacavam de dentro, mas em algum momento, precisaram sair e lançar-se contra os seus atacantes, com um grito de guerra ensaiado durante os recreios da escola. Assim, os jovens de Eel começaram a lutar contra os inimigos, tentando manter a luta do lado de fora, evitando assim que eles entrassem na mina.


Valkyon olhava apavorado para a entrada do abrigo, agora com a porta destruída. Se o irmão e os outros não pudessem impedir a entrada dos inimigos, ele pensava que seria a única esperança de quem ainda estava lá dentro.
Transpirando e com a respiração ofegante, Valkyon engolia os soluços e o medo, e embora estivesse sentindo a cabeça rodar e o peito apertado pelo pavor, ele lembrou-se da promessa que fez para Lance, de que protegeria os outros, e não saiu do seu posto.
Os menores berravam e os mais velhos tentavam acalmá-los, mas a situação era desesperadora demais para convencer as crianças de que tudo estava bem.


De repente, o silêncio.
Absurdo.
Mortal.
Irracional.


Teria acabado a luta? Teriam os adolescentes vencido os inimigos?
Valkyon deu alguns passos em direção à porta, a despeito do velho mestre que implorava para que ele voltasse para o fundo da mina.
Ele prendeu a respiração quando se aproximou mais um pouco da saída.
E continuou sem respirar, quando uma sombra enorme projetada pela luz da Lua invadiu a entrada do abrigo… E o Monstro entrou na mina.
Valkyon engoliu o choro, olhou para trás, onde as crianças berravam e os professores gritavam para que ele voltasse, e segurou a adaga com mais força, apontando-a para o monstro.
O cheiro deles era inconfundível, uma mistura bizarra de laranja e de óleo de peixe.


A cabeça de esqueleto espinhudo virava-se de um lado para outro, tentando enxergar o que havia no fundo escuro da mina, mas guiado pelos gritos, ele avançou, e viu Valkyon.
O menino olhava apavorado para os espinhos afiados e pontudos que se projetavam das costas do Monstro, e ele era enorme, do tamanho de um Ogro… Porque um Ogro era a maior das criaturas que Valkyon já tinha visto na vida.
O bicho não tinha olhos, apenas órbitas vazias e luminosas, e uma cara medonha e cheia de galhos secos espinhosos, com diversas e enormes pontas que saíam da sua cabeça…
galhos escuros e retorcidos podiam ser vistos onde deveria estar a boca, e debaixo delas escorria uma substância marrom escura… A mesma que escorria dos ferimentos que ele tinha no tórax.
Valkyon agora só tinha olhos para o tórax do bicho, uma espécie de armadura, cheia de galhos secos e retorcidos. Aquilo ali era o esqueleto do bicho, que ficava por fora do corpo, e não por dentro, como de todo mundo… Por sua aparência os chamavam de Corpos-Secos.


Ele manteve o olhar fixo no tórax do bicho, e nas feridas de onde saía a gosma escura.
O monstro rosnou e um assobio encheu o ambiente escuro do abrigo, quando ele finalmente viu Valkyon.
O pequeno e apavorado projeto de guerreiro deu um passo para trás, e vendo que o bicho agora vinha em direção a ele, resolveu atacá-lo com o que ele tinha nas mãos… A adaga da mãe. Ele era a única esperança de todos ali dentro agora.
O monstro levantou a lança e mirou em Valkyon, que reunindo toda a coragem que tinha, deu o grito de guerra do irmão e correu em direção ao bicho.
Um dos professores também saiu correndo para tentar impedir a criança de correr para a morte, mas quando foi avistado pelo monstro, virou o alvo da lança, que cortou o ar a toda velocidade e atravessou o pescoço do velho brownie.


O velho caiu ao solo, sangrando, com a carne do pescoço lacerada.
As crianças gritaram ainda mais.
Valkyon ficou paralisado, olhando o velho professor se esvair em sangue e morrer, na ponta daquela lança que seria para ele.
O monstro então andou mais alguns passos em direção a Valkyon, e o agarrou pelos cabelos, levantando o menino do chão.
Valkyon começou a gritar, e foi arrastado pelos cabelos, enquanto o bicho mancava para o fundo da mina.


E quando chegou lá, localizou o que estava procurando: Uma criança crisal.
Valkyon não sabia que havia uma ali entre eles. Ela deveria estar com os outros, na fortaleza, protegida pela escolta fortemente preparada… Mas estava ali, parada, e olhava vidrada para o monstro… Como se estivesse hipnotizada. O bicho enfiou a lança num coldre nas costas e agarrou a criança, arrastando-a com ele e com Valkyon para fora. Assim que saíram da mina, Lance, que estava na porta do abrigo, enfiou a espada até o cabo dentro de uma das feridas do tórax do bicho, que caiu urrando.
Valkyon foi largado no chão, enquanto Lance correu para ele e o abraçou.


Os dois irmãos, abraçados, viram o monstro se arrastar para o campo de batalha, sem largar a criança crisal. Os valentes Guardiões de Eel jaziam ali ensanguentados, e alguns adolescentes continuavam batalhando.
Nesse momento, mais monstros apareceram, vindos do Fortaleza de Eel, carregando com eles outros monstros abatidos e feridos.


O vulto luminoso e inconfundível da Oráculo apareceu na saída da cidade, e com um canto que mais parecia um lamento, ela convocou os monstros para que abandonassem a cidade.
Os bichos que ainda estavam no campo de batalha, tratavam de exterminar com as suas lanças alguns soldados que ainda estavam vivos, e quando ouviram o canto da Oráculo, cessaram o massacre, foram até o monstro ferido que carregava a criança, e o escoltaram para fora a floresta, guiados pelas luzes da Fada.
Assim terminou aquela invasão, com apenas uma criança capturada.


Valkyon, nos braços de Lance, sob a luz pálida da Lua, conseguiu distinguir entre os mortos a sua mãe e o seu pai, e começou a chorar em desespero. Mas quando tentou libertar-se do abraço do irmão, este não se sustentou e caiu estendido ao lado dele. Foi quando Valkyon viu que o irmão também tinha uma lança atravessada no seu corpo.
-Lance! Lance, Lance!!! - Berrava ele, sacudindo o irmão.
E quando olhou dentro dos olhos entreabertos, azuis e sem vida de Lance, Valkyon desmaiou.


*******



O jovem Valkyon, agora com quase oito anos, sentou-se na cama, gritando, no meio de mais um pesadelo, e Nevra, o pequeno vampiro, jogou o travesseiro nele.
-Calma aí, cara! Foi um sonho, só um sonho! Sacode ele, Ezarel!
O pequeno elfo de cabelos azuis saltou do beliche onde dormia na cama de cima e sacudiu o amigo que dormia na cama de baixo, até que ele parasse de gritar.
-Acorda aí, você tá sonhando! É sonho, acorda! - Berrava Ezarel.
Valkyon estava desorientado e chorava sem parar, sacudindo a cabeça e desgrenhando seus cabelos platinados.
-Calma, calma! É sonho, é sonho! - Repetia Ezarel sem parar, até que o amigo se acalmou, olhou nos olhos dele e deitou-se de novo sem dizer nada, como se nada tivesse acontecido.
-É sempre a mesma coisa! Quase toda noite, ele acorda berrando, com esses pesadelos. E depois dorme de novo, está sonâmbulo! - Reclamou Nevra, levantando-se do beliche ao lado e recuperando o seu travesseiro.


-Coitado! Amanhã vai ficar arrasado de novo, é a segunda vez que ele sonha hoje. - Disse o elfo, olhando o amigo com pena. - Pelo menos dessa vez ele dormiu rápido, não ficou chorando horas e horas.
-Dessa vez ele nem acordou. - Disse o pequeno Vampiro - Aposto que amanhã nem vai se lembrar que isso aconteceu.
-Ele tá sonhando muito nesses dias, e os sonhos pra ele ficam mais reais. A gente precisa fazer alguma coisa, Nevra. Ele vai acabar ficando maluco com isso. E deixando a gente maluco junto!
-O que a gente pode fazer? Ele não quer que a gente conte pros mestres!
-Por que será que a gente não se lembra daquele dia? Por que só ele se lembra?
-Não sei, Ezarel. Eu me lembro de algumas coisas, mas muito pouco… Eu às vezes tenho sonhos também, mas não me lembro muito bem deles, quando eu acordo.


-Eu não me lembro de nada. Mal me lembro dos meus pais… - Disse Ezarel, com um ar de tristeza. - Queria lembrar. Vamos tentar lembrar, Nevra?
-Agora, no meio da noite? Tá doido? Eu agora só quero é dormir. Vai deitar e não enche.
Ezarel fez uma careta para o amigo e escalou o beliche de volta, se deitando de novo.
De olhos fechados, fez algum esforço para tentar se lembrar daquela noite do ataque, mas em alguns minutos dormiu de novo.
 


*******
 

 


Pelas caras aborrecidas dos alunos, a velha professora Feng Huang sabia que precisaria ter muita diplomacia para atrair a atenção das crianças naquele dia.
Aquela turma era um desafio.
Além de serem crianças inteligentes, a maioria eram os “Órfãos de Eel”, que não pensavam duas vezes antes de lançar mão dessa condição para conseguir vantagens e perdão para todo tipo de loucuras que costumavam aprontar.
Por serem os “pobres órfãos”, sempre conseguiam uma tolerância absurda da parte dos superiores, mentores e professores, toda vez que faziam algo proibido ou quebravam alguma regra. E era exatamente essa turma que estava aborrecida, entediada e desatenta naquele dia de aula.


A velha Mestra de pele morena se desdobrava para tornar a aula interessante, mas não estava tendo nenhum sucesso dessa vez.
-Realmente, turma… Acho que botânica nem sempre é um assunto interessante, mas é extremamente importante… Quem sabe, alguns de vocês se tornarão Curandeiros, ou Alquimistas, no futuro… E como o inverno não tarda, em breve muitas espécies de plantas estarão cobertas pela neve por quase dois anos… E não as veremos tão cedo, de modo que aprender seu cultivo nas estufas é fundamental!
O jovem vampiro bufou, e isso não escapou à audição privilegiada da velha Mestra.
-Hunnnfff!
-Por que esse suspiro, Nevra? Não acha que os meus argumentos são válidos?
Nevra era uma criança vampira agitada e com um pensamento rápido, e por demais preguiçoso e extremamente encrenqueiro e briguento. Olhou de lado para a professora, com um ar de “preciso responder mesmo?”...


-Não, não acho que são válidos.
A turma toda, que cochichava baixinho, calou-se e olhou para ele, com uma expectativa divertida. Sempre que Nevra era interpelado, e obrigado daquela forma a responder um mestre, a conversa ficava muito interessante. E naquilo, a turma estava bastante interessada.
-E eu posso saber o motivo?
Nevra remexeu-se desconfortável na cadeira, e revirou os olhos cinzentos.
-Se eu responder sinceramente, a senhora vai me castigar?
A velha professora riu.
-Claro que não, eu espero toda a sinceridade dos meus alunos… Eu já faço uma ideia do que você vai me responder, mas gostaria que se expressasse com as suas palavras.


Nevra olhou para seu colega do lado. O elfo magricela de olhos verdes e cabelos azuis já ria dele, com uma cara debochada de… “ Agora você se ferrou!”.
-Eu acho… Éééé… Que é perda de tempo ficar ensinando coisinhas de plantinhas e florzinhas inúteis pra gente, quando tá chegando o inverno, e a gente sabe que vai ser atacado de novo! Deviam botar todo mundo pra aprender a lutar e dar socos, atirar com arcos e forjar espadas!
Um tumulto geral tomou conta da classe, e muitas crianças concordavam com a cabeça, apoiando a opinião de Nevra.
A professora soprou um apito para controlar a turma e silenciar os alunos, porque agora todos queriam falar ao mesmo tempo.


-Fiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuuuu! Silêncio! Levantem a mão se quiserem falar, todos terão sua vez!
Deixem o Nevra terminar! Levante-se, Nevra, todos querem ouvir.
Nevra levantou-se, meio envergonhado, e continuou.
-A gente já é grande o suficiente pra segurar uma espada, e batalhar também!
-Hahahaha! - Ezarel deixou escapar uma gargalhada - Nevra, você nem consegue levantar uma espada, quanto mais usar ela!
-Claro que consigo!
-Ezarel! Deixe o seu colega terminar, e espere a sua vez, se quiser falar!
O elfo era a típica criança hiperativa, que aprendia em alguns minutos tudo o que lhe era explicado, e depois passava o resto das horas que restavam atrapalhando a turma.


-Então, professora… - Continuou Nevra, fazendo uma careta para Ezarel - Eu posso segurar uma espada, então já sou grande o suficiente para aprender a lutar, não acha? A cidade precisa de toda a ajuda possível!
-Não creio que os Guardiões do QG compartilhem da sua opinião… - Falou ela - Você só tem oito anos, e com a chegada do inverno, ainda só terá doze, e as crianças da sua idade ficarão no abrigo do novo domo crisal quando a cidade for atacada. Você acha mesmo que os Guerreiros vão se arriscar a perder vocês também, no caso de haver uma batalha? Vocês são a esperança de Eel. Se não sobreviverem, quem vai tomar conta de tudo, quando todos morrerem?
Nevra não tinha resposta e bufou de novo, e a professora mandou que ele se sentasse.


Uma infinidade de pequenas mãos estava levantada, e ela arrependeu-se de ter dito que todos poderiam falar. Suspirando, escolheu outra criança.
-Pode falar, Miiko. - A pequena Kitsune subiu na cadeira. - Mas desça daí, fale do chão! - Ela desceu, decepcionada.
-Exibida… - Cochichou Ezarel para ela, que meteu a língua para ele.
-Pois eu acho muito válido aprender sobre as plantas! A gente não pode lutar, nem tem idade nem força pra isso… Mas se a gente souber preparar poções e pomadas, podemos ajudar os soldados feridos quando acontecer uma batalha!
A professora sorriu. Era exatamente aquilo que ela queria tentar explicar.
-Isso, Miiko, muito bem!  - Miiko sorriu e sacudiu as suas quatro caudas de raposa, ajeitando orgulhosa seus longos cabelos negros trançados. - Tem mais alguma coisa para dizer?
Ela olhou com seus olhos azuis para Ezarel e virou-se de novo para a professora.
-Tenho! O Ezarel está fazendo careta pra mim!


A turma toda riu.
-Bem… - Falou a Mestra - Não acho que você deva se preocupar com isso, ele é que deveria se preocupar, porque se bater um vento na cara dele, a careta vai se congelar, e ele ficará com a cara torta para sempre…
Ezarel, que revirava os olhos e torcia a língua, rapidamente ajeitou a cara, e olhou sem graça para o outro lado, enquanto a turma ria.
-Não se trata apenas de plantinhas e florzinhas, senhor Nevra… - Continuou a professora - O preparo de poções e medicamentos é muito importante, e se vocês não aprenderem a reconhecer a diferença entre uma erva medicinal e uma erva venenosa, podem acabar com sérios problemas! - Nevra revirou os olhos, visivelmente aborrecido. - Ezarel, pare de cochichar com o Valkyon e fale pra turma o que você acha disso.


O elfo levantou-se com um sorriso no rosto.
-Se eu aprender a reconhecer uma erva venenosa, a senhora me ensina a fazer veneno? Porque isso ia ajudar muito, podíamos espalhar comida envenenada na época do ataque, e todos os Corpos-Secos iam comer e morrer. Não é um bom plano?
A mestra suspirou.
-E se mais alguém comer o veneno, Ezarel? Como pode ter certeza de que mascotes ou faeries desgarrados não vão achar a comida antes dos invasores?
-Se alguém comer, comeu, ué! Morreu… Quem manda comer o que não é seu?
-E você acha que podemos desperdiçar comida, envenenando-a? Não acha irracional?
Ezarel pensou um pouco antes de responder.
-É. Ia sobrar menos pra nossa ração do dia. Não é um bom plano… Melhor fazer bombas de veneno então.


A turma riu de novo.
Um a um, todos iam expressando a sua opinião, e a professora acabou conseguindo entreter a turma por mais algum tempo, com aquele assunto interessante.
Não era fácil argumentar por muito tempo com crianças órfãs que tinham entre oito e nove anos, todas ainda revoltadas e traumatizadas pela perda dos pais, no último ataque à cidade.
De todas as crianças, apenas Valkyon e Ykhar não levantaram a mão para falar.
A professora estimulou-os.


-Valkyon, não tem nada para dizer?
-Não. - Respondeu simplesmente o garoto de olhos cor de âmbar e cabelos platinados, tão magro, que um pequeno vento o carregaria sem problemas.
-Não gostaria também de lutar e combater ao lado do seu amigo Nevra?
-Não gosto de violência. Detesto luta e não quero ser soldado. Eu não sei usar nem uma adaga de obsidiana… Eu quero ser um mago e aprender a reconhecer as plantas.
-Então deve ter prestado atenção na aula toda, não é? Ou será que você estava cochilando, quando eu explicava sobre os corantes, que são fundamentais para diferenciarmos as poções?
Valkyon ficou vermelho, e não respondeu. Ele costumava dormir bastante nas aulas, visto que seus pesadelos de quase todas as noites não deixavam que ele dormisse bem.


-Eu posso ter me distraído… Preciso de mais uma poção pra atenção…
-Ele está tendo insônia! Acorda a gente todas as noites com pesadelos! - Berrou Nevra. Valkyon deu para ele um olhar fuzilante.
-Então não vai tomar mais nenhuma poção para atenção, você precisa é conversar com um curandeiro sobre sua insônia… Após a aula, você vai procurar a Ewelein na enfermaria.
-Eu… Não quero ir.
-Mas vai sim senhor, e no final da aula eu mesma vou acompanhá-lo até lá.
-Eu vou junto, pra ajudar! - Berrou Ezarel.
-Ótimo, Valkyon, já tem a companhia do seu amigo. Está combinado. - Disse ela, já olhando para Ykhar, que se encolhia no canto.


Valkyon cochichou para Ezarel.
-Você só se ofereceu pra ir pra poder ver a Ewelein!
-Claro! Acha que eu sou bobo?
-Você é bobo. Acha que ela um dia vai dar bola pra um bocó igual a você?
Ezarel fez um muxoxo de pouco caso e não respondeu.
Valkyon virou-se para Nevra, furioso.
-E você é um traidor, Nevra! Você me paga, fofoqueiro!
-Você não dorme, a gente não dorme. Se precisa de remédio, a Ewelein vai te dar. - Respondeu ele, já com a atenção voltada para a professora, que interpelava Ykhar. - Vamos ouvir a besteira que a orelhuda vai falar…


-Vamos, Ykhar… - Ela tentava convencer a brownie coelhinha a se expressar - Só falta você… Diga alguma coisa…
A menina arregalou os olhos verdes e começou a torcer as pontas dos cabelos ruivos que caíam sobre seus ombros.
-Eunãoquerofalarnadaporquenaosei…
-Fale devagar. Não é possível que não tenha nada para dizer. O que acha da aula de botânica?


-Acho… Legal…
-Você gosta?
-Gosto de vegetais. Mas eles não estão com um gosto muito bom…
-É verdade… - Disse a professora -  As plantas da nossa estufa estão com o crescimento bastante lento nessa colheita, e nosso cozinheiro diz que não há muita maana para que os alimentos cresçam e fiquem com um sabor melhor. Mas as novas crianças crisais vão começar a liberar maana nos próximos dias, e tudo deve melhorar.


-Eu queria… Conhecer as crianças Crisais. - Disse Ykhar - A senhora podia levar a gente lá um dia?
-Estamos programando uma excursão ao Domo Crisal, e levaremos todos vocês lá. Acho que todos estão curiosos sobre as novas crianças, e seria interessante para animar a aula de ciências. O que acham disso? Acham que Ykhar estragou a surpresa?
As crianças ficaram animadas, e começaram a falar todas juntas.


Não era frequente que levassem as crianças da academia ao Domo Crisal, e pairava uma grande curiosidade sobre aqueles faeries estranhos e raros, que eram tão importantes para a vida naqueles tempos difíceis.
-Quando a gente vai? - Perguntou Miiko - Podemos ir amanhã?
-Bem, amanhã é muito cedo, mas assim que tudo estiver combinado com os Mestres Crisais, eu os avisarei. Agora chegou a hora tão esperada por vocês… A hora em que a aula acaba e vocês podem almoçar…
Um pequeno alvoroço começou entre os alunos, e enquanto a professora guardava seu material, Valkyon começou a escorregar de fininho para escapar antes que ela o visse.
Mas ela o viu…


-Senhor Valkyon! Onde pensa que vai?
-No banheiro? - Disfarçou ele.
-Não senhor, vamos à enfermaria falar com a Ewelein. Ezarel, você vem junto mesmo?
Ezarel já estava com a mochila nas costas, confirmou com a cabeça e saltou da cadeira, correndo até a porta.
A velha professora acompanhou os meninos até a enfermaria, que ficava no segundo andar da academia.
Ewelein era uma elfa adolescente de cerca de dezessete anos, lindíssima, com cabelos prateados, tranquilos olhos azuis e uma paciência de dar inveja a qualquer avó de quinhentos anos. Ela era aprendiz de curandeiro, e também era uma órfã de Eel.
Ela trabalhava atrás de um balcão triturando ervas, e quando a professora entrou ela a cumprimentou.


-Boa tarde, Tia! Em que posso ajudá-la?
-Boa tarde, Ewelein. Trouxe o pequeno Valkyon para você examinar… - Disse ela, puxando Valkyon pela mão - Além de estar magro demais, o menino anda dormindo mal por causa de pesadelos. Talvez esteja com alguma deficiência de vitaminas, ou algo parecido?
-Talvez verminose? - Sugeriu ela, levantando facilmente Valkyon e o colocando sentado sobre a maca, e examinou-lhe as conjuntivas. - Ponha a língua para fora.
Valkyon obedeceu, e com um palito, ela abaixou a língua dele e examinou a garganta.
-Vire a cabeça para os lados… - Mandou ela, enquanto apalpava seu pescoço e mandíbula em busca de gânglios.
Ewelein prosseguiu examinando Valkyon sentado, deitado e depois segurou um pequeno aparelho junto ao ouvido dele para a contagem de maanas.


-Ele parece bem, apenas está meio fraco. Você não tem dormido bem por causa de pesadelos? - Perguntou ela para Valkyon.
Ele fez que sim com a cabeça.
-E o que tem nesses pesadelos?
-Os Corpos-Secos atacando a cidade.
Ewelein suspirou. Ainda bem que não eram muitas as crianças tinham pesadelos desde a noite em que perderam a família, no último ataque à cidade. Embora tivessem se passado quatro anos, alguns dos pequenos órfãos ainda sofriam com o trauma, mesmo tendo tomado poções para bloquear as lembranças daquele dia triste.
-Acho que ele poderia tomar uma poção para dormir. Se tiver um sono mais profundo, talvez não tenha pesadelos. Infelizmente, não existem poções para pesadelos, Valkyon… Mas se você quiser, pode sempre vir conversar comigo sobre isso, tá bem? Quem sabe a gente faz uns desenhos dos monstros e enterra lá fora? Isso costuma espantar os sonhos ruins.


Ele assentiu, e não disse nada. Tinha olheiras profundas das noites mal dormidas e bocejava sem parar.
-Vou mandar as poções para o alojamento dele, e o tutor pode dar antes dele dormir. Qual é o número do seu alojamento, Valkyon?
-Alojamento sete - Disse ele.
Ewelein anotou, e depois olhou para Ezarel, que se escondia atrás de uma das macas.
-E você, Ez, também tem pesadelos? Está tão magrinho também!
Ezarel sacudiu a cabeça.
-Está sentindo alguma dor? Tem algum machucado? - Ele novamente sacudiu a cabeça, totalmente envergonhado. - Por que está aqui então?


-Ele veio para acompanhar o amiguinho. - Respondeu a professora - Mas ele está muito estranho, ele não costuma ser assim tão quietinho… Pelo que eu o conheço, estaria subindo pelos móveis e mexendo nos seus armários. Você está bem, Ezarel? Quer que ela te examine?
Ele sacudiu a cabeça tão violentamente, dizendo que não, que seu cabelo espalhou-se por cima dos olhos.
Ewelein sorriu.


-Ok. Se precisar, venham me ver. Agora vou terminar essas misturas, porque preciso entregá-las à tarde lá no Domo Crisal. São vitaminas para as novas crianças, e precisam estar bem processadas, coadas e sem resíduos, senão elas vomitam.
-Então vamos deixá-la trabalhar. Obrigada, Ewelein.
-Obrigado, Tia. - Disse Valkyon para Ewelein.
-Não tem de que, meu amor. - Falou ela, dando um beijo nele. Valkyon ficou vermelho e pulou de cima da maca.
Ezarel ficou roxo quando ela beijou o rosto de Valkyon, mas continuou sem dar um pio.


Ewe acenou para Ezarel e ele deu um sorriso sem graça, saindo com a professora e com Valkyon.
-Podem ir para o refeitório agora pegar suas rações de comida - Disse ela - E não se atrasem para a  primeira aula da tarde!
Os meninos assentiram e desceram correndo as escadas do Hall da academia, entrando como um foguete pelo refeitório.
Quando estavam na fila para receber sua ração de comida, Ezarel reclamou.
-Quem foi que mandou você beijar ela?
-Mas foi ela quem me beijou, bobão.
-Mas você deixou! Não pode fazer isso!
-Por quê não?
-Porque ela vai ser minha noiva, eu já te falei, não pode sair por aí beijando a noiva dos outros!


-Mas ela não sabe disso! E você não falou nada pra ela, ficou só olhando ela com cara de parede.
-Eu não tinha nada pra dizer!
-Podia dizer pra ela que vai casar com ela.
-Eu não posso dizer isso ainda, porque sou pequeno, e ela não vai querer.
-Ela não vai querer nem depois. Você sempre vai ser menor do que ela.
-Quando ela lembrar que só tem nós dois de elfo na cidade, ela vai querer. Você vai ver. Os elfos acabaram.
-Quero ver mesmo. É mais fácil ela arrumar um namorado de outra raça do que esperar você crescer.
Ezarel deu um cascudo no Valkyon.


-Ai, por que você fez isso? Doeu, sabia?
-Não roga praga!
-Não tô rogando praga, tô só falando! Agora fiquei com dor de cabeça, seu bocó!
-Ahhhh, seu fresco!
Enquanto discutiam, Nevra juntou-se a eles na fila para pegar a comida.
-Já brigando de novo? Depois eu que sou o encrenqueiro!
-Não estamos brigando. - Falou Ezarel - O Valkyon que tá me enchendo.
-Eu não fiz nada! Você só tá com raiva porque a Tia Ewe me beijou!
Nevra arregalou os olhos.
-Ela te beijou? Verdade? Onde foi, na boca?
-Não foi um beijo, foi só… Um beijinho de pena dele! - Reclamou Ezarel.


-Ela me examinou todo e vai me dar uma poção pra dormir. - Disse ele sem nenhuma expressão no olhar  - Assim eu não vou mais ter sonhos ruins.
-Eu quero tomar também. - Declarou Nevra.
-Pra quê? Você não tem pesadelos! É só pra mim, não é pra vocês beberem o meu remédio!
-Nevra é invejoso. - Disse o elfo - Quer tomar o seu remédio porque não tem um pra ele.
-Por que Valkyon vai tomar remédio?
Perguntou Miiko, que estava atrás deles ouvindo a conversa, e Ykhar estava ao lado dela.
-Não interessa. - Falou Nevra - Vocês são muito intrometidas.
-Por que não pode contar? Valkyon tá doente?
-Não, é por causa dos sonhos ruins. - Respondeu ele pacientemente.


-Eu estou animada pra ir ao Domo crisal, vocês não? - Perguntou Miiko. - Essa fila não anda? - Emendou ela, ficando na ponta dos pés para ver a frente da fila.
-Eu nem quero ir. Não tem nada interessante lá. - Falou Valkyon.
-Pois eu quero. Se eles são assim tão poderosos, eu quero entender o porquê. - Ezarel não parava quieto, pulando num pé e depois no outro.
-Eles não são poderosos, são só Crisais. - Falou Ykhar - Mas tenho pena das crianças, elas são tão sozinhas, ficam presas lá no Domo, e não têm outras crianças pra brincarem com elas.
-Elas que brinquem entre si. - Disse o Elfo - Por que não tem criança suficiente lá? Elas gastam?


-Sei lá. Só sei que nascem poucas crianças lá. - Respondeu Ykhar.
-É porque eles não botam ovos suficientes. - Falou Nevra, com ar de sabe tudo.
-Ai, seu burro! - Berrou o elfo - Crisal não bota ovo, Crisal é planta!
-Então eles deviam botar mais sementes! Fácil!
-Eles não botam semente, idiota… Eles botam… Botam… - Ezarel hesitou.
-Hahahaha! Você também não sabe! Depois eu sou o burro!
O velho e rabugento cozinheiro Karuto, o fauno de quem todos tinham medo, reclamou com eles.
-Prestem atenção, seus pivetes, a fila andou! Estendam logo seus pratos pra receber a comida, senão vão voltar pro fim da fila!
Ezarel obedeceu na hora, estendendo o prato, onde Karuto jogou uma maçaroca branca e grudenta de alguma coisa que não tinha cheiro.


Ezarel olhou para aquela bolota gosmenta no meio do prato, e depois olhou para Karuto.
-O que foi, pivete? Não gostou da cara da comida? Não precisa comer!
-Ahhh, não, claro que eu gostei, parece delicioso! - Disse o menino, saindo depressa dali e se sentando à uma das mesas, com uma careta enorme de desânimo.
Valkyon também sentou-se com ele, seguido de Nevra e das duas meninas.
-Quem chamou vocês duas pra ficar aqui? Essa mesa é só dos homens do nosso clube! - Falou Nevra.


-Rá! Nem tô vendo homem aqui, só os bocós pirralhos! - Respondeu Miiko, se sentando assim mesmo. -E vocês não são os donos da mesa.
Ykhar olhava para a bolota no meio do prato e a remexia com a colher.
-Irrccc! - Falou ela - Isso vai colar na minha goela!
-Se não quiser comer, eu como. - Resolveu Nevra - Pode me dar.
-Eu vou comer. - Disse ela - Senão depois vou ficar com mais fome ainda… Além de nojento, não deve ter gosto de nada.


-Isso é proteína e vitamina misturada. - Respondeu Ezarel - Parece meleca, mas mata a fome. Quem sabe as crianças novas possam transformar isso aqui em pão de mel…
-Vai sonhando! Elas são crianças, não são bruxas. - Disse Ykhar, rindo.
- Pois eu queria ser uma bruxa. - Disse Miiko.
-Você já é uma bruxa, hahaha! - Respondeu Nevra.
-Você é tão bobo… Eu nem ligo. Pode falar besteira à vontade.
Valkyon era o único que permanecia quieto, enquanto os outros discutiam.
Ele observava tudo e todos, com a maior atenção. Na verdade, estava pĺanejando pedir à Ewelein que ela o ensinasse a ser curandeiro. Era o que ele mais queria ser, para aprender a curar os outros da morte. Mas se contasse aquilo para todo mundo, todos iriam zoá-lo, além do que, Ezarel ia acusá-lo de novo de querer roubar a sua noiva. Então ele ficou quieto, e começou a comer a sua bolota sem gosto. E comeu tudo até o final.


Quando todos terminaram de comer, ainda tinham fome. Mas Karuto não permitia que repetissem, porque senão faltaria comida para os outros alunos.
-Ai, ainda tô com tanta fome… - Reclamou Nevra - Comeria um Panalulu, se ainda existisse um.
-Bebe água que passa. - Disse o elfo - Eu faço isso quando fico com fome.
-Com a fome que eu tenho, se tiver que beber água pra matar ela, vou beber o oceano todo, elfo bocó.
-A gente vai acabar morrendo de fome, isso sim. Se a comida plantada não cresce e a gente não tem de onde tirar alimento… - Reclamou Miiko - Vamos morrer de fome.


-O que os Crisais comem? - perguntou Ykhar- Será que eles passam fome também?
-Eles não comem, eles são plantas. - Disse Ezarel, como se entendesse de tudo.
-A gente então podia comer eles… - Nevra deu um sorriso e seus caninos pontudos apareceram - Eles podem ter um gosto bom.
-Nevra, deixa de ser idiota! Eles são nossos amiguinhos! Você comeria o Valkyon? - Perguntou Ykhar.
-Eu comeria… Com a fome que eu sinto… Comeria todos vocês!
-É melhor então você tomar mesmo o remédio de dormir do Valkyon… Vamos ficar mais seguros! - Disse o elfo rindo, e depois lambendo o fundo do prato vazio, enquanto as garotas faziam cara de nojo.

 

******* Continua.....


Notas Finais


É isso aí!
Espero que gostem!
Beijos!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...