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História Entre Medos e Temperos - 2 Temporada - Capítulo 34


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Notas do Autor


Olá queridas!

Então... o capítulo de hoje não é um capítulo fácil de ler. É um capítulo intenso, muito, muito intenso, foi difícil demais escrevê-lo (acho que o mais difícil em 93 capítulos), porque a carga sentimental foi bem forte. Sei que para muita gente o ideal eram ter apenas capítulos fofos e sexo, mas não faz bem meu estilo, apesar de gostar muito, hehe.
O capítulo de hoje é um capítulo necessário. Não sei como andam os corações de vocês. Racionalmente, para mim, é claro que eu desejo e quero que a Pao seja muito feliz e que siga com seus projetos onde tiver, mas ainda dói saber que ela saiu do MC. Isso é algo que só o tempo vai nos curar.
Eu já disse antes, vou repetir. A escrita é meu refúgio, é a forma como eu encontro de tentar dar forma aos sentimentos, como eu tento lidar com a realidade, mesmo através de uma ficção.

Sei que é um capítulo doloroso, mas ele é necessário. Não apenas para a fic, mas acho que para nossos corações também... de certa forma.

Boa leitura!

Capítulo 34 - Capítulo XCIII - Renascimento


Fanfic / Fanfiction Entre Medos e Temperos - 2 Temporada - Capítulo 34 - Capítulo XCIII - Renascimento

Capítulo XCIII – Renascimento

 

A relação entre uma criança e a mãe é, quase sempre, próxima. Essa proximidade se torna ainda mais forte quando algumas coisas influenciam essa relação.

Ausência afetiva do pai.

Ficarem sozinhas, uma com a outra.

Serem a fortaleza uma da outra.

Como Paola e Francesca.

A relação entre as duas transcende uma relação ‘normal’: além de mãe e filha, são amigas, confidentes, companheiras. Como que uma criança de 9 anos pode dar forças a uma de 48 é um dos grandes mistérios da vida.

Francesca estava pronta para ir para a escola. Com sua farda, com sua mochila dos Vingadores, seus headphones. Estava pronta. Mas quando foi dar um beijo na bochecha da sua mãe para se despedir ela sabia que sua mãe estava triste.

Poucas pessoas sabem a relação entre uma mãe e uma filha que passaram muito tempo sozinhas, uma sendo o apoio da outra.

Cria-se um vínculo.

Como aço.

Francesca saberia reconhecer a tristeza da mãe mesmo com quilômetros de distância. Havia se tornado vigilante, atenta, a todos os altos e baixos dela ao longo dos anos.

- Bom dia, mi amor. Tenha uma boa aula.

- A senhora tá triste.

Paola havia decidido nunca mentir para Francesca. Nunca. Podia talvez não falar coisas que seriam muito pesadas ou que não deveriam ser ouvidas por uma criança, mas sempre mantinha a verdade.

- Estou.

- Por quê? – Fran retirou sua mochila prontamente, sentando-se no sofá ao lado da mãe. Paola tentava beber café da sua caneca com Glória descansando a cabeça no seu colo e recebendo cafuné atrás da orelha.

- Hoje é o último dia que eu vou gravar.

- Se arrependeu? Tá tudo bem, mamá, tenho certeza de que se disser ao tio Pato ele volta atrás também.

- No, no me arrependi – Paola sorriu melancolicamente – Mas tá doendo.

- Quer que eu vá? Eu fico lá te apoiando.

Paola sentiu vontade de chorar, puxando-a para um abraço apertado.

- Você é maravilhosa, mi amor, maravilhosa. Mas no quero que perca um dia de aula sequer.

- Hoje não tem conteúdo. É só entrega de trabalhos e notas...

Paola estava prestes a dizer não, mas sentiu o cheiro amadeirado de Henrique e, logo depois, seu olhar cruzou com o dele.

- Nisso eu tô com a Fran. É só um dia. E eu sei que gostaria.

- É, mamá. Quando terminar a gravação, a gente pode sair para algum lugar!

Com o coração apertado, sentindo-se dolorida, ela aceitou.

 

De fato, era especial estar com Fran naquele dia. Quando abriu seu camarim, levou um susto a ver uma montanha de flores, caixas, cestas, cartazes, cartões...

- Nossa, mamá! É tudo pra senhora!

- Uau...

- Esse é do tio Jacquin, esse é da tia Rô, Tia Ana, Tio Gustavo, Tio Pato, Tia Marisa... – Fran sorriu de orelha a orelha – Até Alê Costa te mandou chocolates!!!! Eba!!!

- Nem se anima, menina.

Paola se emocionou. “Caramba, eu vou chorar o dia inteiro?!”

As flores, tomando todos os espaços. De cada pessoa da produção, de cada pessoa que compartilhou tantos dias. Quantos presentes, meu Deus!

Uma leve batida na porta aberta a fez virar.

- Tem espaço para o meu?

- Cê no precisa me dar nenhum presente, Hique.

- Pai, dá um beijão nela!

- Menina!!!

Fogaça, vendo Paola ficar VERMELHA quando ele se aproximou, tascou um beijo bem forte, ouvindo a menina rir de se acabar.

- A mamãe fica vermelhona!

- Para você – Henrique lhe entregou um ramalhete de orquídeas brancas – Vou sentir sua falta, argentina.

Paola recebeu as flores, sentindo seu coração dar uma cambalhota. Não conseguiu segurar suas lágrimas, soltando num soluço. Fran e Henrique a abraçaram imediatamente, fechando-a com força.

- Agora vem. Tem uma surpresa para você lá no nosso camarim.

- Ah meo Deos, cês vão me fazer chorar o dia inteiro...?

Francesca lhe deu a mão, puxando-a porta a fora com o ramalhete nos braços.

 

Assim que Paola apareceu na porta do camarim de Fogaça e Jacquin, precisou cobrir a boca com o susto e a emoção que a tomou. Estavam todos lá, toda a equipe. Havia uma faixa que dizia “Você sempre será da família MasterChef!” e um bolo com o quarteto no topo.

Paola não conseguiu.

Não conseguiu.

Desabou no choro ali mesmo, na frente de todo mundo.

Ninguém precisava dizer nada, era a mesma dor compartilhada.

Até Jacquin, com um fuá rosa e óculos roxo num terno verde começou a chorar.

Até Ana, tentando se esconder no fundo.

Até Francesca, grudada na cintura da mãe.

Todo mundo chorou.

- Oh minha gente... vocês vão me fazer chorar o dia inteiro...?

Todos os rostos estavam inchados, fungando e lutando para se controlar.

É essa a intensidade que uma pessoa querida causa por onde passa.

Paola se sentia destruída, acabada por dentro, como se estivesse sendo cruel com eles. Consigo mesma.

- Que bolo lindo! – falou com voz de choro – Tá super parecido com a gente...

- A Ana tá do mesmo tamanho que a gent – brincou Jacquin – Tem que cortar no meio...

- Hahaha, engraçadinho você! O seu tá pela metade dos lados!

- Eu non sou gordo, eu sou gostoso!

Paola riu.

Olhava para seus amigos brincando entre si.

Sabe quando estamos em despedida de um lugar, ou uma pessoa, e observamos tudo com os mínimos detalhes? Como se quiséssemos guardar na memória?

A gente observa tudo como espectador, não como participante.

Enquanto Jacquin e Ana discutiam, ela observava como se tudo fosse um filme.

Henrique, notando seu olhar, sentiu um aperto no peito.

“Ela está se despedindo...”

Sentindo-se sufocado, saiu discretamente.

 

- Ei, marrento...

Henrique se virou, guardando o maço de Marlboro no bolso.

Ana se aproximou dele, apoiando os cotovelos sobre a marquise da área externa, onde costumavam se sentar para conversar nos intervalos de gravação.

- Anda fumando?

- Tô tentando me controlar, mas tem horas...

Ela confirmou, compreendendo. Ana mesmo estava se sentindo mal.

- Como que você tá? Eu sei que está apoiando, porque sabe que é importante para ela. Mas eu quero saber como você está.

Henrique levou as duas mãos até a nuca, baixando o rosto, agoniado.

- Minha vontade é de pedir que ela fique. Eu quero implorar que ela fique. Eu quero pedir pelo amor de Deus que a gente fique juntos até o último dia do programa – Fogaça sentiu sua garganta travar. Ana levou sua mão até as costas dele, alisando para soltar a pressão – A gente começou junto, era para terminar junto. Porra.

- Entendo perfeitamente o que quer dizer.

Henrique a olhou, vendo que Ana também estava chorando.

- O que acalenta um pouco é saber que ela está saindo para fazer algo que ama, que gosta. Mas eu me sinto igual. Minha vontade é de trancar ela no camarim.

- Tipo isso – ele riu – Tipo isso...

- Não vai ser a mesma coisa sem ela.

- Não... – Henrique tocou no maço, nervoso. Passou a mão na careca – Não vai ser. Juro que eu tô lutando. Juro.

Ana o abraçou, com força.

Afinal...

Os dois estavam sofrendo.

- Vem, vamos. A equipe vai fazer uma troca na canalização para mudar as bancadas de lugar e Pato tá meio doido com os horários. Já já ele aparece.

Henrique quase precisou ser arrastado para o estúdio.

 

Posicionados na parte de trás do palco enquanto Ana Paula iniciava a gravação, Paola sentia seu estômago revirar e Henrique seu coração doer. Ela buscou sua mão, apertando com força, sentindo-o gelado.

Olharam-se.

E não foi necessário mais nada.

Ela via o quanto ele estava destruído.

Ele via o quanto ela estava triste.

Os dois viam que era a última vez.

Henrique apertou sua mão de volta, respirando fundo.

Quando foram chamados na frente do palco, Fogaça nem parecia que estava presente. Era como se sua mente se refugiasse num universo paralelo onde nada doeria. Não conseguia nem olhar na direção de Paola. Nem olhar.

Com todos os participantes da temporada amadora posicionados em suas estações, foi até uma surpresa ver Ana Paula gaguejar.

- Hoje... Hoje é uma gravação especial. Muito especial – Paola, vendo que sua amiga estava lutando para não chorar, baixou o rosto, cobrindo seus olhos – Nós iremos nos despedir de um dos chefs, um dos meus amigos, que... vai agora voar e fazer tudo aquilo que sempre sonhou.

Os participantes ficaram tensos, cochichando entre si. Mas não foi muito difícil perceber que se tratava de Paola.

A argentina caiu no choro, ali, sem dizer nada.

- Mentira! – disse Adalberto – Não, minha gente, não...

- Ela vai sair?! – perguntou Elaine em choque – ELA VAI SAIR?!

- Por tudo que é mais sagrado a Paola não!!! A Paola não!!! – Lilian quase chorou de verdade – Ai meu Deus...

Todos os participantes ficaram em completo estado de choque, paralisados, enquanto o estúdio, em silêncio, ouvia Paola chorando. Ela olhou para Pato, pedindo tempo, saindo do palco imediatamente.

Khadija olhou para Fogaça, que parecia desolado, depois para Jacquin, que olhava para o chão entristecido.

- A Paola vai sair do programa?! Como assim?! – Emanuel perguntou prontamente – Mas ela É o programa!

Os cochichos continuaram.

Henrique se retirou do palco, indo atrás de Paola, que tentava respirar e controlar suas lágrimas. Alisou suas costas, oferecendo um copo d’água.

- Eu acho que no consigo...

- Consegue sim. Consegue.

“Fica. Por favor. Fica!”

- Como cê pode tá tão calmo, meo?

- Eu não estou... – ela o fitou com carinho - ...você consegue.

Ela confirmou, aceitando sua mão de volta para o palco.

Todos os olhares a fitavam com choque, arregalados.

“Mimi, ayudame...”

- Hoje... – sentiu sua garganta travar - ...hoje é meu último dia como jurada do MasterChef. Eu tomei essa decisão depois de muitas coisas. Para mi, isso aqui, tudo isso, foi incrível. Eu no tenho palavras para agradecer por tudo.

Não se ouvia qualquer som nesse momento, todos em estado de choque.

- Cozinhar é um ato de amor. De entrega. Eu sempre fui uma cozinheira. Sempre fui, sempre serei. E eu busco sempre, na mia vida, me sentir desafiada. O MasterChef foi um desafio, um desafio que me trouxe amizade – olhou para Jacquin e Ana – E me trouxe amor – disse olhando para Fogaça, que estava claramente vermelho e limpava lágrimas – Mas é uma jornada que se encerrou para mi. Eu quero que vocês recebam quem vier de braços abertos, que deem o melhor de vocês, sempre. No se esqueçam de que uma boa comida no é uma comida cheia de firulas e acrobacias. Cozinhem com o coração, com o estômago, com sua intuição. No cozinhem para NOS agradar, se for bem feito, vai ser bom.

Paola travou no momento em que viu Khadija começar a chorar. Alguns, no fundo, baixaram a cabeça, limpando as lágrimas.

Parecia um velório.

- Eu no quero me lembrar desse último dia com vocês tristes – disse até mesmo na direção de Ana Paula, que mal conseguia se conter – Por favor...

Jacquin, percebendo que nem Ana Paula, nem Fogaça, nem Paola tinham condições de começar a prova, respirou fundo.

- Entón, minha gent, vamos fazer uma prova linda! Uma prova inesquecível! Uma prova em homenagem a nossa Pôla. Podem levantar as caixas.

E quando todos levantaram...

Era a codorna da Festa de Babette.

 

Durante o intervalo da prova – em que a produção iria limpar as bancadas para o momento da avaliação e continuar os ajustes – os candidatos, reunidos no vestiário, pareciam mórbidos e infelizes. Cada um no seu canto, uns tentando parar de chorar, outros em estado de choque.

- O que vocês acham que rolou? – perguntou Amanda de forma geral – Pra ela decidir sair?

- Deve ter sido o rolê das fotos – comentou Gustavo – Se bem que ela não tem nada pra se envergonhar, vamos deixar claro...

- Cala a boca, imbecil. Demonstra respeito, por favor.

- Ihhhi, que foi? Tá chateado que vai perder sua chance com ela, Emanuel?

- Chance de que? Eu não tô dando em cima dela.

- Ah tá sim – disse Lilian com ênfase – Pera aí né, o Brasil todo tá vendo.

Quando Emanuel percebeu que os rostos estavam todos virados para ele, como se apoiassem aquele argumento, ficou irritadíssimo.

- Minha admiração pela chef Paola é puramente profissional.

- Claro. Você adoraria cozinhar para ela... a sós – Amanda cutucou – “Prove meu robalo, Chef”

- Bando de idiotas.

- Eu acho que foram as ameaças – disse Adalberto – A exposição.

- Mas ela própria se expõe – comentou Ana Beatriz – Tipo o protesto que ela foi domingo gente, pelo amor de Deus. Não é só o programa que expõe ela.

- Com certeza o programa dá muito mais visibilidade para ela, pô. É TV aberta, é completamente diferente de tá na Netflix ou HBO sei lá – comentou Jéssica, amarrando seu avental – TV aberta põe a cara pro Brasil todo. E é claro que trouxe coisas positivas pra ela, mas toda treta, toda treta mesmo, termina nela. Chega uma hora que cansa.

- Pode tá relacionado com Fogaça também, né?

O comentário de Júlia fez todo mundo se virar para ela.

- Fogaça?

- É. Tipo, o relacionamento deles é bombardeado o tempo inteiro, eles não podem pisar na rua que é aquele inferno. Pode ser uma forma de tirar, tipo, a pressão sobre eles.

- Eu acho que dona Paola cansou.

A voz baixa, carregada de sotaque e realmente intensa de Khadija fez todo o vestiário ficar em silêncio.

- Ela tem a expressão que eu tinha quando me despedi da Síria. Era a minha pátria, mas não dava mais para crescer ali. Eu vim para o Brasil em busca de uma nova vida, e mesmo que tenha doído demais, eu renasci aqui. Dona Paola tem esse olhar.

Houve um consenso geral, confirmando com as cabeças. As expressões desoladas, confusas, tristes pareciam estar num enterro.

- Cara, não vai ser igual... não vai – Augusto suspirou – Eu tenho certeza que quase todo mundo se inscreveu por causa dela. Quase certeza.

- Eu – comentou Cacique – Eu me inscrevi por causa dela. Paola trás humanidade, empatia. E poucas vezes eu senti isso numa cozinha, por causa das minhas origens.

- Eu me inscrevi por causa dela também. Quem não quer conhecer essa deusa de perto? Quem não quer que ela prove a comida que a gente faz? – indagou Elaine.

- Gente eu reproduzi todas as receitas dela do livro, tipo, TODAS.

- Eu também Ana – disse Bruna – Sei de cabeça.

- Porra, o Fogaça vai sofrer viu... – comentou Gustavo - ...cês viram a cara dele? Parecia que estava sendo destruído.

- Mas ele vai ter ela todo dia em casa né, menos mal.

- Sei lá, Lilian, é estranho, tá ligado? Eles tinham essa relação super próxima.

- GENTE, será que é a Helena que vai entrar no lugar?! A galera da Revanche comentou que eles gravaram um episódio com ela, mas parecia que era só uma convidada... – Ana Beatriz ficou em choque - ...o que vocês acham?

- Eu acho que vou ter depressão – comentou Elaine – Sério.

- A gente sabe que quem entrar não tem culpa de nada, né. Mas as comparações vão ser inevitáveis, eu tenho pena da coitada que entrar, nossa...

- Eu também, Cacique – comentou Júlia – Não é fácil ficar no lugar da Paola Carosella né, porra...

- Eu vou fazer um comentário meio bizarro, mas eu meio que tô com ciúmes. Se eu ver Fogaça fazer uma gracinha para a novata eu vou ficar com raiva – Jéssica falou, vendo algumas pessoas concordarem – Gente, todo mundo aqui acompanhou a temporada passada. A gente quase engolia a TV, foi surto atrás de surto no Twitter, nossa, foi incrível. Eles se beijando na final. Porra, lindo demais. A história deles e tal. É lindo. Juro por Deus eu vou ficar muito bolada se eu ver alguma coisa.

- A coitada da Helena nem entrou e vocês já tão querendo a caveira, fala sério – Amanda alfinetou.

- Ninguém falou isso, deixa de ser doida – Bruna a enfrentou – É só um comentário geral, não é nada direcionado.

Concordaram todos.

A produção os chamou de volta, e Khadija tinha aproveitado para fazer sua terceira oração do dia, no canto. Ficando por último, não percebeu que Amanda havia ficado também, arrumando o cabelo no espelho.

- Vai perder sua protetora, hein? Agora vai ter que mostrar que sabe cozinhar mesmo.

Khadija a fitou com raiva.

Sempre ela. Sempre Amanda alfinetando.

- Dona Paola é apenas um ser humano decente. Ela exige na medida que tem respeito pela pessoa. Se ela cobra tão pouco de você, já tem sua resposta.

Amanda, de boca aberta, a viu ajeitar o hijab na frente do espelho e sair de cabeça erguida.

 

Francesca, com seus quase 10 anos de sabedoria, não sabia quem consolava primeiro. Estava no camarim da sua mãe, sentada contra a mesa com um caderno de desenho e várias canetinhas coloridas. Mal era possível ver os cabelinhos dourados da menina em meio a tantas flores e tantos presentes.

Sua mãe estava sentada no sofá, com o olhar triste, perdido.

Seu pai batia o pé no chão, também no sofá, roendo a unha do polegar.

Pegou seu desenho, enfiando-se entre os dois.

- É pra senhora.

- Para mi?

Fran confirmou, entregando o desenho. A imagem era facilmente compreendida: havia uma ponte que ligava de um canto a outro do papel. No canto esquerdo estava sua mãe diante de uma câmera, bem vestida, de salto alto e maquiagem, mas em suas costas um peso que a curvava. Por baixo da ponte passava um rio em que ela escreveu: cansaço, sobrecarregada, muitas horas em pé, sem tempo para brincar, cozinhar pouco, repetitivo, exaustão. Por cima da ponte estava escrito: coragem, mudança, sonhos, liberdade. Do outro lado da ponte estava Paola, diante de mais uma câmera, mas sem a roupa elegante, o salto alto e a maquiagem. Havia um sorriso, um relógio com o símbolo do infinito e, nas suas costas, um par de asas.

Paola só percebeu que estava chorando quando uma lágrima manchou o lindo desenho.

- Porque as asas, mi amor?

- Porque a senhora vai ficar leve, leve. E não pesada, como se tivesse mil quilos nas costas.

- Que lindo, anjinho!

- No és...? – perguntou ela emocionada, olhando para Henrique – Gracias mi amor, como te quiero. Seu apoio é tão importante para mi...

- Por quê? Eu sou só uma criança.

- No. Você é a pessoa mais importante da minha vida.

- E meu pai Henrique...?

- Você sempre estará em primeiro lugar, anjinho – ele agitou seus cabelos curtos.

Fran deu um sorrisinho envergonhado e teve suas bochechas amassadas por dois beijos ao mesmo tempo.

“É tudo o que eu preciso” pensou Paola “O apoio deles”.

 

 

 

Paola, um pouco mais reequilibrada, sentia-se verdadeiramente amada por todos naquele dia. Havia uma enorme bancada na frente do palco, onde todos os pratos foram devidamente posicionados. Alguns candidatos sorriam para ela, outros choravam discretamente.

Aproveitou o momento em que a gravação não dava início para observar, atentamente, cada minúsculo pedaço do estúdio.

As cadeiras onde eles descansavam nos bastidores – e onde tantas conversas aconteceram.

As luzes no alto, a TV onde ela acompanhava o fundo das bancadas a sua direita. A cor do piso, o brilho do inox.

O mezanino.

Fechou os olhos sentindo os cheiros. A temperatura. Os sons.

Queria impregnar-se de memória.

- ...me ajudem a receber, para fazer parte do corpo de júri, a chef Helena Rizzo!

As portas da cozinha se abriram, deixando Helena entrar.

Paola se esforçou – de verdade – para sorrir e aparentar a naturalidade que Helena merecia.

Mas como qualquer ser humano normal, com um coração que bate, sentiu o seu doer, muito. Os candidatos a aplaudiram, Paola aplaudiu também. Por um momento queria fincar seus pés ali e criar raízes.

Queria ser infantil e gritar: EU DESISTO, NÃO QUERO MAIS SAIR, VOU FICAR, PODE IR EMBORA!

Mas já havia passado desse ponto de imaturidade na sua vida.

Bem, nem tanto...

Quando Helena subiu no palco, Paola se inclinou rapidamente na direção de Fogaça, obrigando-a a ficar entre ela e Jacquin.

- Oi – ela se forçou – Seja bem-vinda.

Deu um abraço, dois beijos na bochecha. Observou-a cumprimentar Jacquin e depois Fogaça.

Segurou o ar.

- Uau, o cheiro está maravilhoso gente!

- Obrigado – disseram em uníssono.

Paola deslizou sua mão para pegar a de Fogaça, discretamente, apertando-a.

- Vamos começar? – perguntou Ana – Helena, querida, faça as honras.

 

Enquanto Helena e Jacquin faziam a primeira prova de todos os pratos, Paola cruzou suas pernas e braços, completamente contida, tentando controlar o turbilhão que havia dentro de si.

- Amiga? – Ela saiu do seu devaneio assim que Ana encostou-se a ela no palco – Perdida nos pensamentos...?

- Eu sou uma péssima pessoa?

- Pelo que?

Ela olhou para Henrique, sentado ao lado de Francesca nos bastidores, enquanto discutiam o que parecia ser algum jogo no tablet. Podia enxergar como ele tocava o bolso da calça, provavelmente onde estava seu maço de Marlboro. Depois olhou para Helena com Jacquin, ambos atentos ao que provavam.

- Por sentir ciúmes? Ou por estar fazendo ele sofrer?

- As duas coisas...

- Eu acho que você é só um ser humano, como qualquer outro.

Paola ficou cabisbaixa.

- Paola, Henrique – Pato chamou-os – A vez de vocês agora.

- Oke.

Paola se aproximou das bancadas, junto com Henrique. Enquanto ele avaliava um prato, ela avaliava outro.

Ficando diante de Emanuel, levou um impacto ao ver seus olhos vermelhos e sua cabeça baixa. Estava contido, parado, em desolação.

- Oi...

- Oi, Chef.

- Tá tudo bem?

Ele negou com a cabeça.

- No?

- Se me permite... a senhora vai fazer muita falta aqui. De verdade – Paola ficou surpresa, parando o garfo no meio do caminho – Queria ter mais tempo pra impressioná-la.

- Já me impressionou.

Emanuel a olhou com estranheza.

- A sua calma. A sua dedicação. Você é muito bom, muito talentoso – viu-o se emocionar – Estarei assistindo na TV de casa, continue asi.

- Obrigado, chef.

Sorrindo, ela passou para a bancada do lado, onde se encontrava Khadija. Seu coração se contorceu, porque sentia-se apegada àquela moça de alguma forma. A sua resiliência e vontade de crescer era impressionante. Com um hijab preto que cobria todo seu cabelo e uma camisa de manga que ia até seus pulsos, era belíssima com sua maquiagem perfeita. Mesmo que seu corpo se escondesse tanto, podia ver como era bonita e simpática.

Khadija baixou o rosto, assim que ela se aproximou, chorando tanto, mas TANTO, que Paola precisou esticar sua mão e segurar seu pulso.

- No chora, mi amor, olha pra mi – Khadija se esforçou, com os lábios tremendo – Você é boa, acredita nisso.

- Eu só entrei no programa por sua causa, chef – disse aos soluços – A senhora que me deu forças para estar aqui. Eu vou sentir muito sua falta. Shukran, shukran, por tudo!

- Ow menina, cê vai me fazer chorar de novo...?

Paola e Khadija se olharam com dores, com lágrimas. A argentina queria abraçá-la, mas diante das câmeras e com a possibilidade de ser acusada de favoritismo, resolveu se compor.

- Vamos provar, oke?

Khadija confirmou, limpando suas lágrimas. Paola cortou a codorna, levando o pedaço até a boca.

E então se surpreendeu.

Arregalou os olhos.

- Menina!

- Ta ruim, chef? Salgado? Ficou cru?

- Meo Deos...! – Paola olhou para o prato, cortando mais um pedaço e recolocando na boca, fechando os olhos e saboreando – Como você conseguiu isso, menina?!

Khadija ficou sem entender nada.

- Anda estudando? Praticando?

- Sim, senhora. Estou tendo ajuda de Clara.

- Clara?! Da temporada passada?

- Sim, senhora.

Paola confirmou, absurdamente espantada. Retornou para o palco, discretamente afastando Helena de Henrique enquanto eles conversavam e ficando entre eles.

Se fecharam num círculo.

- A decisão é sua – disse Jacquin – É com você, Pôla.

Levou menos de dez segundos, deixando todo mundo surpreso.

Paola respirou fundo.

- Amanda, Adalberto e Khadija, um passo a frente, por favor.

Os três candidatos saíram das suas bancadas, ficando ali na frente.

- A cozinha é um espacio onde a gente tem que colocar, em primeiro lugar, a nossa alma. O prato tem que tá bom, bem bom. Tão bom que a gente quer dar a segunda garfada. Isso é um prato MasterChef – ela tentou conter-se, respirando fundo – Adalberto, o teu prato estava muito bom, muito saborosso. Poderia ter um pouco menos de sal.

- Sim, chef

- Amanda, o teu prato estava deliciosso, mas por dentro ficou um pouco seco. Eu comeria inteiro, mas era necessário ter um vinho do lado para descer.

- Sim, chef.

- Khadija...

A refugiada ficou tensa, arregalando os olhos.

- ...parabéns, mi amor, você ganhou sua primeira prova.

Khadija desabou em seus joelhos, chorando, enquanto todo mundo aplaudia. A emoção de todo aquele dia dominou a todos, havendo uma grande comoção de aplausos e lágrimas.

Paola guardou aquele momento como uma fotografia.

 

Francesca estava num papo aparentemente muito sério com Tia Ana quando as gravações terminaram. Paola estava abraçando e sendo abraçada pela equipe inteira, ainda recebendo presentes.

Porém seu olhar capturou o momento em que Khadija foi deixada sozinha por todos os participantes no fundo da cozinha.

Era para ela estar feliz, não era? Acabou de ganhar.

- Vamos? – perguntou Henrique, agoniado – Fran sugeriu da gente ir comer mexicana.

- Si, bueno – ela ainda olhava para Khadija – Querido, vai na frente? Eu quero trocar uma palavra com ela.

Henrique olhou na direção que ela apontava.

- É mia última chance de ajuda-la.

“última chance”

Isso doía como diabo dentro dele.

- Tá, vou lá fora com Jacquin então.

Paola confirmou, dando um beijo rápido nele.

Seguiu Khadija até o vestiário, vendo-a sozinha.

Sem querer, pegou-a tirando o hijab.

- Chef!

- Perdón, eu no queria...

Khadija tinha longuíssimos cabelos pretos, lisos, que iam até o meio da cintura. Paola ficou surpresa de verdade.

- Eu te atrapalhei? É seu horário de oração?

- É sim, senhora.

- Posso ficar?

- Claro, não demora.

Paola confirmou, ficando num cantinho, observando-a ajeitar o hijab com habilidade, escondendo todo o cabelo de volta. Viu-a pegar o pequeno tapete e colocar no chão. Lavou as mãos, o rosto, retirou os sapatos. Ajoelhando-se, levantou as mãos para cima, repetindo a oração em árabe.

Ela não entendia muito bem tudo aquilo, mas sabia que era profundo e respeitador. Se esforçou por não fazer nenhum barulho.

Paola não é religiosa, é muito pragmática sobre isso. Mas era espirituosa e entendia a importância para os outros.

Não durou mais que 5 minutos, vendo-a guardar o Corão de volta enrolado no tapete.

- É bonito.

- Shukran.

- Está tendo uma relação complicada com os outros competidores?

- Alguns me tratam bem, mas a maior parte não entende.

- Está sofrendo algum tipo de...?

- Nada que já não seja normal para um estrangeiro muçulmano.

Paola se arrepiou.

Se ela, que morava no Brasil há décadas, era difícil, imagine...

- Eu agradeço de coração o que a senhora fez por mim, de verdade. Não é todo mundo que sabe ser assim.

- Vim falar com você a sós porque me preocupei. Vai precisar ser muito forte, menina, muito mesmo. No que já no seja, com sua história de vida... Mas precisa se impor, de verdade. Ou vão te engolir.

- É difícil se impor quando não se fala a língua.

Paola confirmou, lembrando muito bem disso.

- No baixe a cabeça.

- Sim, senhora.

Sorriram.

 

Henrique estava pilhadíssimo.

E havia um certo limite de até onde conseguia sustentar seu nervosismo.

Acendeu um Marlboro, tragando com as mãos trêmulas.

- A Pôla vai ficar brava.

- Eu preciso colocar pra fora de alguma forma...

Jacquin olhou para seu amigo, completamente destruído.

- Você vai ver ela todo dia em casa.

- Vai ser diferente...

- Porque?

Henrique tragou, soltando a fumaça aos poucos. Suas mãos tremiam demais.

- Eu tô com medo, Jacquin. Medo de descobrir que o que a gente tem era por causa do programa. E se fora daqui, fora de tudo isso, ela descobrir que não é tão forte assim? – Jacquin o fitou com confusão – E se... o que a gente tem... veio do programa?

- Mas você é burro, hein.

- Porra, Jacquin...

- Cês dos tem muito mais que o programa e cê sabe disso.

- A gente não teria se não tivesse se juntado de volta em 2013. Se o programa não tivesse acontecido, onde a gente estaria agora? Certeza que não íamos ter nada! O programa que manteve a gente unido e...

- Cê tá com medo de que?

- Que ela se afaste de mim. Vai, pode me chamar de burro, vai lá...

Ao ver Jacquin ficar em silêncio, Henrique se arrepiou inteiro, fumando com mais força, coçando a cabeça, agoniado.

- Eu tenho medo que isso afaste a gente. Porque era o programa que...

- Vocês moram juntos. Vão casar. Ô Fogaça...

- Não tá entendendo, eu...

De repente, um enorme estrondo fez o chão tremer. Em seguida, antes mesmo que pudessem compreender o que estava acontecendo, uma explosão estilhaçou todo o vidro da área externa. Henrique e Jacquin, estando no estacionamento, puderam ver a enorme fumaça preta que passou a dominar o céu, vindo exatamente do estúdio.

Fogaça sentiu seu coração parar assim que várias pessoas começaram a correr, em todos os sentidos, fugindo do local de explosão.

Seu olhar bateu em Francesca, com os olhos arregalados, correndo sem direção, completamente apavorada.

- PAI! PAI!

- FRANCESCA!

Correu até a menina, segurando seus ombros enquanto Fran parecia em estado de choque, tremendo da cabeça até os pés. Ana, atrás dela, parecia com a mesma expressão de quem viu um fantasma.

- Cadê sua mãe?! – ele balançou Francesca – CADÊ A PAOLA?!

- Ela tá lá dentro... Ela tá lá dentro, papai!

O coração de Henrique parou.


Notas Finais


Não me matem rs.


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