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História Entre Mundos Diferentes - Parte 2 - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oiii gente. Sim, sou eu mesma , a Gisele. A pessoa que sempre se atrasa kk e dessa vez eu fiz o quê? Isso mesmo, PERDI MINHA ANTIGA CONTA! - Palmas para mim: 👏👏 rs

Obs : se você não faz ideia de quem eu sou e do que estou falando, a parte 1 dessa história está postada aqui no spirit em outra conta chamada: Gii34

Voltando...

Mudei de celular nesse meio- tempo e simplesmente não lembro minha senha e e-mail da conta antiga, o que tornou impossível de entrar lá de novo.
Mas eu não podia largar tudo, por isso conto com você que me acompanhava, prometo fazer essa parte 2 ser inesquecível. Irei começar de onde parei, mas com muito mais ação, não perdem por esperar kk
Capítulo de hoje uma versão que muitas histórias não contam... nossa vilã narrando em três, dois , um...

Boa leitura!

Capítulo 1 - Os vilões também tem sua história para contar


Fanfic / Fanfiction Entre Mundos Diferentes - Parte 2 - Capítulo 1 - Os vilões também tem sua história para contar

 - Lara , acorda. Ei , vamos garota.

Uma imagem embaçada de Jade me sacodiu pelos ombros. Sua voz tão distante que parecia vim de outro campo sensorial longe de mim.

- É melhor você acordar agora se não eu não respondo por mim. - Senti uma pontada em meu braço, começou a doer , eu conhecia bem aquela dor.

- Ai! - Levantei em um pulo. Jade me soltou de uma vez olhando para os lados onde passageiros a encararam.

- Não foi nada. Sabe como são as crianças... Cheias de pesadelo.

Alisei meu braço onde aquelas unhas pintadas com esmalte preto haviam perfurado.

" Última chamada : todos os passageiros se retirem devagar de nosso avião. Repito : se retirem até a porta de desembarque. Chegamos em nosso destino , Buenos Aires. "

Levantei ainda meio tonta de sono.

- Se comporte. - Jade sussurrou em meu ouvido. Segurou meu braço , como uma forma de garantia de que se eu ousasse fugir , não ia conseguir por muito tempo.

- Onde estamos ? - Perguntei.

" Repito : Chegamos em nosso destino , Buenos Aires".

- Você ouviu o piloto. Bem - vinda a Argentina , pirralha.

Foi assim que Jade deu as boas - vindas ao meu novo lar.

                  

                          ☆

 

Me encolhi ao lado de Jade como um gato assustado enquanto fazíamos todo aquele processo de chegar ao aeroporto, pegar as malas e da o fora para seja lá onde ela me levaria.

- Sua filha ? - A moça de uniforme perguntou enquanto checava se tudo estava conforme a lei e éramos consideradas inofensivas para seu país. Jade não possuía uma ficha criminal , ainda. E mesmo assim, era perigosa a todos a sua volta. Principalmente para mim.

- Hã , sim... Minha pequena. - Acariciou meu cabelo castanho gigantesco na época. Meio que tremi ao seu toque e aquele sorriso de boneca Barbie falso.

- Ela parece assustada. - A moça estreitou as sombrancelhas, desconfiada. Se não fosse toda a documentação que eu tinha, podia jurar que Jade era uma pisicopata que rapitou uma jovem garota para trabalhar clandestinamente na Argentina.

 A parte sobre ela ser louca não deixava de ser verdade.

- Ah ela é meio tímida assim mesmo. E eu digo o tempo todo, Lara larga esses livros e vai ver gente minha filha. Mas pensa que ela me escuta? Que nada. - Meu braço começou a sofrer de novo. Em breve teria uma marca nova de seus dedos gravados na pele.

- Não está acostumada com muita gente.

Eu assenti , sorrindo amarelo para a moça. Que pareceu cair no papo e concordou como os filhos não escutavam os pais.

- Não se assuste Lara. Fará bons amigos por aqui. - Ela disse um pouco alto demais como se eu não escutasse bem . Sorri novamente e sussurrei um " obrigada". Gravei seu nome : Gabriela.

A primeira pessoa a me tratar bem em toda a minha vida.

Buenos Aires foi onde o mundo me foi apresentado. Aos quatorze anos , minha vida fora daquele porão finalmente começou.


                         ☆



Você deve estar se perguntando onde estão meus pais. Aqueles que deveriam ter cuidado de mim , me acolhido em uma casa com cama quentinha e me dado todo o amor do mundo, e não terem me jogado com uma tia maluca que resolveu me esconder do mundo e da luz do sol. Eles não me largaram realmente, pelo menos não foi essa a história que Jade me contou.

Segundo a bruxa má, meus pais morreram em um acidente de carro. Eu sobrevivi, e Jade era a única parente viva que eu tinha. Desde então me lembro de crescer naquela caverna na qual brincava quando era criança , como uma destemida guerreira  , eu descobriria a saída e veria o mundo, até parece.

Jade me levou para aquele esconderijo assim que dei os primeiros passos - como se isso fosse um sinal de que podia me virar sozinha- , com dois anos , ela levou minha cama e meus brinquedos para o lugar da casa que ninguém pisava a anos. O porão tinha um cheiro de mofo misturado com pó e teias de aranha por toda parte. Nada parecido com um castelo encantado.

Eu achei que era uma brincadeira - vamos pegar todas as minhas coisas e as esconder lá embaixo, uhuu - óbvio que ela se aproveitou e disse que poderíamos brincar daquilo por muito , muito tempo. Minha imaginação me protegeu até um certo momento , quando certas perguntas começaram a me acordar : por que eu não ia a escola como todas as crianças? , Por que eu nunca podia sair para tomar sol? Por que ela mal falava comigo e me tratava como uma prisioneira? Por que ... por que ... por que. Porque eu era uma. A brincadeira iria durar, para sempre.

Minha concepção sobre a quantidade de seres humanos existentes era bem rasa , então parecia que todos estavam centrados naquele único aeroporto. O arrastar de roda das malas de um lado para o outro , os gritos de felicidade e os choros de despedida, o estalo das colheres de açúcar na xícara de porcelana, as conversas que vem e vão , os atrasos, gritos , risos, vozes...

- Opa, a mocinha está bem ? - Um cara duas vezes maior do que  eu me encarou com preocupação.

- Desculpa , eu não queria esbarrar em você. - Ele sorriu. O nó da gravata perfeitamente apertado juntamente com um blazer que valia mais do que eu poderia imaginar entregava de onde ele vinha. Então veio um sorriso, de um branco fora do comum que combinava com sua pele negra.

- Sem problema. - também sorri. - Senhor. - Acrescentei. Ele riu, o que era engraçado?

- Não sou tão velho assim. Boa viagem ou... Boas - vindas. - Fingiu arrumar um chapéu imaginário como cumprimento. Isso foi engraçado.

Nunca tive a chance de descobrir seu nome. Seria possível ser um bom começo?

Até hoje , a coisa mais preciosa que fez aquele dia valer a pena , foi o amor dele. O amor daquele garoto que me cumprimentou no primeiro dia de aula...


                          ☆


Quando Jade parou em frente a um prédio velho , pensei que a gasolina havia acabado ou que o motor havia decidido pifar logo ali , no meio de uma rua aparentemente inabitável , mas para minha péssima sorte aquele era exatamente meu destino.

- Chegaamoos!- Ela cantarolou jogando a chave do carro no ar , ela caiu como uma luva em sua mão.

- Como assim chegamos? Essa é a minha casa? - Apontei com o indicador para aquele monte de ruínas.

- Sim Lara , é sua nova casa. Olha, não é linda ? 

     Não é possível!

- Você só pode tá brincando!

Jade riu , eu nunca a havia visto tão feliz.

- Estou sendo cem por cento sincera.- Passou a palma de sua mão por minha cabeça como consolo. Mas nada vindo de Jade parecia ser bom, tudo machucava , até quando ela tentava ser legal.

- Pense bem, é melhor do que o porão. - Ela largou meus cabelos para segurar a ponta do meu queixo com um dos dedos , a unha de bruxa ergueu minha cabeça lentamente.

- E para quem viveu junto com os ratos todos esses anos , qualquer lugar serve.

Tava demorando. Eu costumava iguinorar seus comentários, eles me alfinetavam como uma agulha lá no fundo, mas nada além disso. Mas agora foram como uma faca rasgando meu coração.

- Por que você foi tão cruel comigo todos esses anos ? - tentei controlar a voz embargada, naquela época meu sangue não era tão frio.

- Por que eu nunca te quis. Nem seus pais te quiseram.

- Eles não escolheram ir embora. - Eu me recusava a dizer uma voz alta o que realmente aconteceu com eles. Era a parte em mim que mais doía.

- Você tem medo né? De dizer a verdade. - Jade limpou uma lágrima que escapou do poço profundo cheio delas que crescia embaixo de meus olhos.

- Eles morreram. Uma hora você vai ter que aceitar.

- Ela era sua irmã. - Jade encostou as costas no banco exausta de mim, daquela conversa. - Como pode dizer uma coisa dessas ?

- Por que sua mãe nunca foi como eu. Ela era igualzinha a você.

- Ela era ... Boa ? - Sussurrei com uma chama de esperança surgindo lá no fundo da minha alma. Ela não era como Jade , não tinha o coração de pedra. E eu ... Não era ruim, nunca me tornaria o monstro que me criou. Pelo menos achava que não.

Jade riu apontando o dedo para mim como se eu tivesse acabado de contar uma piada.

- Jade.

Ela continuou rindo abaixando a cabeça no volante.

- Jade eu não disse nada.

- Ai ai...- Ela suspirou limpando o rímel borrado na lateral dos olhos.

- Eu não disse nada demais!

Então finalmente ela olhou para mim, com um sorriso assustador. Aquela psicopata...

- Você acha mesmo que ser como sua mãe te faz especial? Ela era uma boba. Queria proteger essa gente que não daria nada por ela. Escuta aqui Lara...- Chegou mais perto de mim , recuei para trás até minhas costas encostarem na janela do carro.

- Eu já te aguentei por tempo demais , sua mãe era a ovelha negra da família , eu não tenho a obrigação de cuidar de sua filhinha também.

- Por isso me trouxe para cá ?

- Você tá crescendo. Poderia abrir a boca a qualquer instante . Nem pense em usar seus poderes perto dessa gente, eles podem ser bem piores do que eu.

- Ninguém é pior do que você.

- Ai é? Experimenta ser diferente , para ver o que eles fazem.

- O quê?

- Você tem muito o que aprender piralha... As pessoas são cruéis, e se você não pode com elas , você se torna igual.

- E se eu não quiser ? - Levantei uma sombrancelha.

- Vai acabar igualzinha a seus pais. - Alguma coisa em seu olhar me fez acordar para a verdade. 

     A ficha havia caído.

   A presença que sentia deles o tempo todo , a certeza de que eles poderiam ter se safado e fugido para algum lugar , tinha uma explicação muito clara : eles estavam vivos. Dados como mortos por defenderem o que era justo.

Jade saiu do carro enquanto eu gritava que ela havia sumido com meus pais , que havia sido mantida em cativeiro esse tempo todo porque mais uma sabendo de seu plano só causaria problemas. Gritei para todo o mundo ouvir. Mas ninguém me resgatou.

Ela arrudiou o carro e abriu minha porta, me recusei a tirar o cinto de segurança.

- Não, não , NÃO! EU NÃO VOU. - Tentei a impedir de abrir mas ela era muito mais forte do que eu .

- Vamos garota! - Jade me puxou pelo braço. A chutei com as duas pernas , esperniei , me joguei na calçada de joelhos imitando um choro de criança.

- Já chega. - Ela resmungou me levantando por de baixo do braço. Meus pés foram se arrastando até a portaria. Avistei no balcão alguém com o rosto completamente coberto por um jornal.

- Socorro! Socorro. - Berrei, o jornal se mexeu , um par de olhos nos encararam por cima dele. Jade aproximou a boca perto de meus ouvidos e sussurrou:

- Cala a boca ou eu não respondo por mim.

O moço olhou para mim. Me levantei obedecendo a ordem da general. Ela sorriu amarelo indo até o balcão, a segui um pouco atrás.

- Essas crianças... Não sei o que eu fiz pra ela ser tão mimada. - Disse naturalmente vasculhando a bolsa.

O cara barbudo , na época de cabelo cheio olhou por cima do ombro de Jade , arrumei o cabelo desgrenhado da cara de volta para trás das orelhas e resolvi que era melhor não o encarar. A essa altura estava prestes a cair em prantos. Ela ia me abandonar de novo , dessa vez completamente sozinha - não que ela fosse uma boa companhia - em um mundo cheio de trouxas , igualzinho aos do Harry Potter.

- Aqui. Eu comprei o apartamento do sétimo andar. Estava vazio a meses. - Jade entregou o recibo comprovando que era a dona.

- Hum. - Ele murmurou. Abriu uma gaveta e vasculhou um monte de chaves. Até entregar uma para Jade.

- Obrigada. O senhor é muito... Gentil.

- Vamos menina. - Murmurou me lançando um olhar por cima do ombro. Assenti deixando que andasse na frente. Mas não sem antes olhar para ele , todo caladão, que piscou para mim. Deixei escapar metade de um sorriso.

- QUE PORCARIA É ESSA ? - As paredes tremeram aos gritos da bruxa. Me apressei a correr até ela.

- O elevador não funciona! - Reclamou. Olhou uma última vez para a recepção.

- E que péssimo atendimento.

A segui subindo a escada, seus passos eram tão pesados que a madeira estava prestes a se partir a cada degrau.

O barulho dos corredores era imenso aos meus ouvidos. Nas profundezas da terra eu não tinha muito o que escutar.

Me joguei no sofá velho levantando um punhado de pó no ar. Tossi abanando o nada com as mãos. Mas não disse nada enquanto ela me dava todas as instruções.

- O apartamento tem dois quartos , poderá escolher o melhor para você, a torneira da cozinha as vezes espirra água demais ou de menos, mas nada que você não mereça. Ah e vejamos... - Foi até a janela da sala abrindo as cortinas , mais uma enxurrada de pó. - Terá uma ótima vista da cidade . - Me afundei ainda mais no sofá , claro , como se a vista de um muro fosse muito interessante.

- Ah , olha só. Um controle. - Jade pegou o controle - remoto da mesinha de centro, ligou a TV , exibindo uma tela repleta de linhas coloridas. Bufei .

- Na época dos meus avós era preto e branco e eles sobreviveram.

Não me dei ao trabalho de responder.

- Bem, preciso ir. Aqui , toma. - Jogou o molho de chaves em meu colo.

- Pode pedir o que quiser para o jantar. - Vasculhou a bolsa tirando algumas notas.

- Isso deve servir. - Me estendeu. - Vamos Lara eu não tenho o dia todo.

- Você acabou com minha vida. - Murmurei deixando algumas lágrimas saírem. Já era mesmo , eu não tinha outra escolha a não ser chorar. Mas peguei o dinheiro mesmo assim.

- Você nunca teve uma. - Disse ríspida. - Vou lhe mandar uma mesada a cada começo de mês , é bom não gastar tudo e vir me pedir mais depois. Ficou claro? - Assenti.

- Não quero despesas desnecessárias.

Estendi o dedão para ela.

- Engraçadinha.

Funguei mais uma vez , limpando o nariz com a manga longa da camisa.

- Ah por favor , não faça teatrinhos.

- Sai daqui.

- Como se eu fosse a pior tia do mundo, fiz de tudo por você.

- Jade , sai daqui.

- Seus pais estão muito bem, não se preocupe.

- SOME DAQUI ! - Me levantei de uma vez a levando pelo braço.

- Calma, calma. Eu conheço a saída. - Disse rindo. Apertei seu braço mais forte e abri a porta.

- SAIA AGORA. - A soltei no corredor. Seu corpo quase deu de cara com o chão, mas conseguiu se equilibrar voltando o olhar para mim.

- Mostrando as azinhas não é? - Arrumou o cabelo curto se recompondo.

- É melhor você ir embora ou não respondo por mim.

Eu nunca havia sentido tanto ódio dela em toda a vida desprezível que me deu, porque de alguma forma era minha única família. Mas não , ela tirou meus pais de mim, um acidente de carro coisa nenhuma! Eles deveriam está apodrecendo em uma prisão , junto com os ratos.

Ela não era nada mais que uma estranha, uma cobra peçonhenta cheia de veneno. Que merecia ser transformada em pedra.

- Você nunca transformou nada mais que sapatos e acha que pode comigo?

- Onde eles estão ?

- Não adianta querer saber. Nunca sairão de lá .

- Onde.eles.estão ? - Trinquei os dentes.

- Você quer mesmo saber  ? Então eu vou contar. Eles vão apodrecer presos até o dia de sua morte, junto com todos aqueles que decidiram que de repente eram os bonzinhos. Vão pagar por terem se comportado mal.

- O-o quê? Meus pais , eles não concordavam com você? Eles não eram monstros? Você... Você condenou - os por fazerem o bem?! Eu fiquei órfã por sua causa!

- Mas você tem a mim. - Tentou tocar meu rosto.

- Não encosta em mim! - Dei um passo para trás.

- Seu coração de pedra...

A olhei no fundo daqueles olhos verdes, com todas as minhas forças no alvo , vamos Lara , é só atacar. A transforme em estátua para sempre.


Mas eu não consegui.


- Vamos, por favor . - Murmurei para mim mesma como se meu corpo pudesse escutar.

- Tá vendo só, você é uma piada.

Fechei a porta e desci de joelhos até o chão.

- Uma piadaaaa! - Suas risadas ainda continuaram atrás de mim.

- Vai embora!

Me encolhi como um gato assustado no chão frio rente a porta e chorei tudo que não havia chorado por quatorze anos.

Talvez minha imaginação tenha me protegido por um tempo , mas não para sempre. Aquele lugar era muito pior que o porão, era o mundo real.



                           ☆



A partir daí o inferno começou, Jack veio deixar meus matériais escolares na manhã seguinte a mando de Jade e me entregou um catálogo da escola.

- É uma boa escola. - Ele disse deixando a pilha de livros e cadernos no chão com uma mochila.

Li o catálogo com atenção. " VENHA CONHECER A MELHOR ESCOLA DE BUENOS AIRES ! " , estava escrito em letras maiúsculas. Aulas extracurriculares, professores renomados, uma enorme quadra de basquete, o lugar era do tamanho da Casa Branca, li alguma coisa assim sobre um país chamado Estados Unidos da América.

- Caramba...- Deixei escapar.

- Eu não disse.

- Você ainda tá aí? - Tirei os olhos do papel para encarar Jack.

- Vai precisar de mais alguma coisa?

- Na boa , o que você quer? Dinheiro? Porque eu não tenho.

- De maneira nenhuma senhorita. - Foi a primeira vez que ele me chamou de senhorita, e nunca mais parou.

- Então por que estar oferecendo ajuda? Ninguém trabalha de graça.

- Ser gentil ainda é de graça. - Ele sorriu. Aquilo me calou , deixei um riso escapar.

Jack não era o cara mais charmoso que já vi - apesar de não ter visto muitos caras até agora - com aquela barba por fazer e aqueles olhos cansados , mas havia algo de diferente nele, não era de falar com todo mundo, mas se ele gostar de você, digo por experiência, não vai sair do seu pé .

- Deveria sorrir mais vezes. - Me dei conta de que deveria estar com a maior cara de choro , tinha a impressão que chorei até dormindo . A imagem dos quais seriam os meus pais presos atormentavam meus sonhos. Sempre imaginei como seriam, eu me parecia com eles? Gostava de pensar que o cabelo castanho era do meu pai e minha mãe... uma loira guerreira de olhos prateados, assim como os meus. Ela daria uma bela cosplay da Annabeth Chase de Percy Jackson. Meus poderes poderiam ter vindo dela.

- E você deveria cuidar mais da sua vida. - Retruquei ainda sorrindo. Eu não era boa com socialização, o episódio no aeroporto me mostrou isso, mas com Jack era até bem fácil.

- Obrigada por ... tudo. - Apontei com a cabeça para os livros. - Deve pesar a beça.

- Não foi nada. - Ele deu de ombros.

- Espera só um segundo. - Corri até a cozinha e peguei um copo de água.

- Aqui. - O entreguei. Ele o virou de uma vez.

- Ser gentil ainda é de graça. - Repeti sua frase.

- É isso aí. - Me entregou o copo novamente.

- Posso te fazer uma pergunta?

- Você já fez. Mas tenho tempo para mais uma.

- Por que não foi gentil? Digo... quando chegamos, eu e Jade. Você não disse nenhuma palavra.

Jack ficou sério. Da mesma maneira que o vi quando cheguei.

- Sabe senhorita, eu reconheço a maldade de um coração, mesmo disfarçado com sorrisos falsos e bobos , você estava triste. E sua tia era o motivo disso.

Olhei para minhas mãos segurando o cristal, passei o dedão ao redor da borda em círculos.

- Ela é minha única família. Meus pais... enfim, moram longe.- Voltei a olhar para ele:

-Não tem como fugir disso.

Jack acentiu , pensei que ele iria da meia - volta e sair quando me perguntou:

- Você joga cartas?

Meu coração de pedra se derreteu por dentro.

- Posso aprender.

Naquele mesmo dia cheguei da escola quase chorando, joguei a mochila no chão da portaria e o abracei. Ele me perguntava o que tinha acontecido, mas eu me negava a responder. Quando finalmente falei, minha voz saiu aos soluços:

- Por que as pessoas são tão cruéis ?

Jack segurou meu rosto com as duas mãos mais sério do que nunca.

- Eles te fizeram mal? - Acenti.

- Me acham estranha.

- Estranha? Estranha como?

Funguei limpando o nariz .

- Eu não sou como eles, eu nem sei me comportar direito! Eram tantas pessoas Jack, tantos rostos...eles me olharam estranho. Fiquei com medo.

- Posso te dizer uma coisa?

- Já disse. - Sorri torto. Ele também.

- Ok, então posso dizer duas coisas?

- Pode.

Então ele segurou meu ombro e me olhou nos olhos.

- Primeira coisa , senhorita Lara, todo primeiro dia é um saco.

Comecei a rir.

- É uma droga, pode acreditar. - Ele confirmou , como se eu não tivesse entendido.

- Um droga ? - Disse entre risadas.

- É. Você não tem noção de como foi o meu.

- Ah , do tempo da palmatória?

Livros era o que Jade era obrigada a me dá para me manter ocupada no porão. E a época da palmatória nas escolas só me fez ter mais medo de uma.

- Ei, eu não sou tão velho assim ! Mas para ser sincero, a palmatória era péssima.

- Uma droga. - O imitei.

- Uma verdadeira droga.

- Terrível.

- Um inferno!

Tive outra crise de risadas e o abracei de novo.

- Obrigada. Mas Jack. - Levantei a cabeça. - O segundo dia vai ser uma droga também ?

- Segunda coisa, não importa o quanto tentem te machucar por ser diferente, não deve acreditar nessas mentiras. Essas pessoas senhorita, vivem uma droga de vida e acham que todo mundo deve viver assim também.

Acenti sem mais perguntas.

Jack:

- Quer jogar cartas ?

E o segundo dia foi uma droga também, o terceiro, o quarto, quinto ... Mas o que não disse para Jack foi que, uma só coisa fazia tudo melhorar, uma pessoa na verdade.

Leon era gentil comigo, sem eu precisar lhe da motivos para isso. Já as outras pessoas com uma vida ruim , só pioravam a minha. Aos poucos fui me rendendo a isso e esquecendo o conselho de Jack. Fui me rendendo a solidão e parando de jogar cartas com ele depois da escola. No começo era cansaço de aguentar aquele povo rico que tinha mais coisas do que eu poderia conseguir a vida inteira, depois foi perdendo a graça, não tinha mais esperança de me aceitarem como eu era, vai ver Jack só se tornou meu amigo porque teve pena , ao longo dos dias , aquela tradição não tinha mais sentido, o primeiro dia havia sido ruim como todos os outros e nada mudaria . A não ser que eu mudasse.

Um ano se passou , completei meus quinze anos com um bolo de aniversário que Jack encomendou, havia escrito " parabéns senhorita Lara!" em glacê azul. Era minha cor preferida. Ele me mandou assoplar as velinhas e fazer um pedido, lá do fundo do coração .

- Mas cuidado com o que você deseja. - Me alertou. Respirei fundo e fechei os olhos. Eu fazia quinze anos sem meus pais, quinze anos sem nenhum aniversário digno a não ser aquele, com Jack. Um estranho que me amava como filha.

Passei todo o ano da escola mentalmente, tentando jogar fora os momentos ruins , que não eram poucos, até que os únicos bons que restaram, eram aqueles em que Leon estava, ele juntamente com Max , Camila e Francesca me defendiam, Leon muita das vezes me dizia que aquelas pessoas eram ums ignorantes, que nunca conseguiriam entender a beleza de um belo quadro. " você é como a arte Lara, muitos não conseguem entender " . Aquela frase pairou em minha mente como um disco quebrado. Na época Leon trocava algumas palavras comigo, ou eu mesma o pegava desenhando sozinho e chegava por trás de suas costas bem devagar só para lhe dá um susto. De alguma forma sua amizade me ajudou a suportar a oitava série.

Mas já estava pesado demais, eu queria ser como aquelas pessoas! Estava farta de ser um quadro que ninguém entende. A raiva aumentou dentro de mim, me peguei vendo a visão da Lara que todos amariam, popular, cheia de amigos. Era esse o meu desejo.

Assoprei as velinhas com todas as minhas forças. Teria que da certo. Abri os olhos e Jack me olhava sorridente.

- Eae? O que você pediu?

- Não vou contar.

- Ah qual é , nem uma dica?

- Se eu contar, não se realiza.

Jack bufou brincando e me ajudou a cortar um enorme pedaço de bolo.

- Quem receber esse vai ser um baita sortudo ein. - Ele falava como se tivesse várias pessoas com a gente. Além de eu e ele na portaria.

Segurei o pedaço, e obviamente iria entrega- lo para Jack . Mas por um segundo imaginei meus pais logo ali , na minha frente, minhas mãe com seu cabelo loiro e meus olhos, papai com um sorriso mais brilhante que as estrelas. Me imaginei os entregando aquela primeira fatia, logo depois sendo acolhida por um abraço no meio deles.

- Lara, tá tudo bem ? - Jack segurou meu ombro.

- Claro. Toma , é seu. - O entreguei limpando as lágrimas fugitivas em meu rosto, para que ele não percebesse.

Passei o resto da " festa " , comendo bolo com um sorvete que Jack guardou no frigobar velho da portaria e jogando seu lendário jogo de cartas com a sensação de que meu desejo ainda estava ali, junto comigo, eu não o tinha feito. Ao apagar as velinhas, eu desejei o que não devia .

No ano seguinte , comecei a usar metade do dinheiro de Jade para novas roupas, parei de catar pedras no meio do campus e entrei para o grupo de líderes de torcida. De " olha só, a garota que fala com as pedras ! " fui para " Aquela é Lara, a garota mais popular da escola ". A nova Regina George.

Jack tentava puxar assunto comigo, mas passei a trata- lo como um funcionário e não como amigo, se é que um dia fomos isso. Parei de descer para jogar cartas, deixei toda aquela garota com uma esperança de encontrar os pais para trás. Jade devia ter razão, eu não era como minha mãe, sobreviver a esse mundo era impossível, a não ser que eu me tornasse como eles. A coração de pedra poderia lidar com tudo, até com aquelas garotas que de minhas amigas, não tinham nada.

- Vamos Lara! - Caroline apertou a buzina do carro esporte rosa de teto aberto.

- Já vai ! - Disse tentando andar o mais rápido possível com aqueles saltos que Jéssica me obrigou a comprar, desci os últimos degraus da escada , aquele elevador não era consertado nunca , e finalmente:"terra firme " . O que não mudou muita coisa. Caroline pressionou a mão naquela buzina por mais tempo dessa vez, se divertindo com a situação.

- Tô quase lá. - Esbocei um sorriso torto. Caroline me lançou um " legal " com um dos dedos , com Jéssica e Britanny rindo no banco de trás.

Quando cheguei na calçada vi Jack se aproximando, voltando do supermercado. Apressei o passo para abrir a porta do carro, meus pés se embalhararam um no outro e perdi totalmente o equilíbrio, cai para frente.

- Opa. - Um braço segurou minha cintura.

- Tudo bem senhorita? - Era Jack. Suas compras estavam no chão, ele soltou tudo para me ajudar. Escutei os risos das garotas no fundo mas não deixei de notar como ele me olhava. Com carinho, esperança, como se eu ainda fosse aquela garota de um ano atrás, que chegou da escola chorando, e não aquele monstro que matou aquela menina por não ter sobrevivido mais que um ano sendo ela mesma .

Me recompus como se nada tivesse acontecido.

- Estou bem. Obrigada. - Acenei com a cabeça como uma rainha.

- Tem certeza? - Ele insistiu, se referindo a muito mais do que a topada.

- Tenho sim. Agora se me dá licença...- Apontei com a cabeça para as garotas.

Jack percebeu a existência do carro de luxo de Caroline e me deu passagem para abrir a porta .

- Claro. Vá se divertir com suas amigas. - Sorriu.

- Anda logo Lara! - Caroline abriu a porta para mim. - Não dê atenção a esse estranho. Entrei e coloquei o sinto.

- Caroline ele não é um estranho. - sussurei.

- Ah , o empregado. Volte a seus afazeres, vai. - Abanou uma das mãos. Olhei para Jack com vergonha daquelas pessoas , com vergonha de mim.

Ele apenas arrumou o boné cinza de seu uniforme, assim como o cara do aeroporto.

O carro disparou, o fazendo sumir de minha vista.

- Vou te contar, esses empregados não sabem mais se comportar, acham o quê , que são nossos amiguinhos ? Você também né Lara, deu tanta atenção para um simples...

- Porteiro?

- É. - Ela deu de ombros. - O chame como quiser.

Já ia rebater mas ela foi mais rápida e continuou falando , Caroline amava falar.

- Eu já te disse para se mudar desse apartamento, eu posso conseguir uma cobertura para você no melhor bairro de Buenos Aires, Jéssica e Britanny moram por lá , não é meninas? - Lançou o olhar rápido para o banco de trás.

- yesss! - Disseram em uníssono . Nosso grupo era muito parecido com um show, Caroline era a voz principal, Jéssica e Britanny o coro que a acompanhava, e eu ... bem, eu cuidava das luzes que brilhavam sobre elas , me contentando com as migalhas.

- Você tem que ser nossa vizinha Lara. - Jéssica disse.

- Nós três juntas vamos dominar aquele prédio darling. - Britanny disse passando gloss na boca . - Jéssica passa o espelho para mim vai.

Jéssica revirou os olhos mas obedeceu, tirando um espelho da bolsa.

- Tá vendo só . - Caroline voltou a falar. - Você seria muito bem - vinda. Mil vezes melhor do que aquele muquifo.

Intervi antes que ela dissesse coisa pior:

- Eu já te disse. Meus pais não ficam me bancando.

- Por que não? Você é rica darling.

Essa mania de me chamar de " darling " err.

- Eu decidi ser independente.

- Hum...- Ela murmurou baixando o óculos que estava em sua cabeça , mas não fez mais perguntas. Aquela conversa de independência sempre colava.

- E quanto a Jack ele é um amigo.

As três caíram na gargalhada.

- Que foi ?

- Oh darling. - Ela parou no sinal vermelho. E tirou o óculos por um segundo para me encarar com aqueles olhos verdes.

- Você passa tanto tempo conosco e ainda não aprendeu? Somos abelhas rainha, dignas de um trono, diferentes.

- É a primeira regra Larita . - Jéssica disse. Elas só me chamavam assim quando eu " saía do modelo " .

- Se destaque.- Britanny completou. Ambas bateram as mãos com um gritinho.

Me destacar pela roupa que visto? - tive vontade de dizer.

- Você as ouviu. - Caroline cerrou o assunto. Me perguntei como um dia quis ser como ela , como a admirava na escola. Uma pessoa que se acha diferente pelo " dinheiro". Ela era a mais velha de nós, não podia dirigir com dezesseis anos mas o fazia mesmo assim, não importava a multa que levasse. Eu na época com quinze, Jéssica e Britanny também, queriam se encontrar em um grupo , mesmo que isso significasse sermos servas de uma rainha.

Aos poucos aquilo me consumiu, a vontade de me destacar, pelo luxo, pela beleza, pela popularidade, iguinorei todos que não fossem como eu , até mesmo Leon, que tentava chamar minha atenção o tempo inteiro. Eu me achava especial por aquilo que viam em mim, e não pelo o que eu era. Era assim que tinha que ser, eu não podia com eles , então me juntei a eles. Conselho básico de sobrevivência.




Notas Finais


Espero muito que tenha gostado da história de nossa Regina George.

Leon e Violetta marcarão presença no próximo. Quero tanto voltar a escrever sobre eles. Me desculpem please 😂

Até o próximo capítulo amados leitores , de ENTRE MUNDOS DIFERENTES- PARTE 2.


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