História Entre poções e o coaxar de sapos - Capítulo 2


Escrita por: §

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Categorias Boku no Hero Academia (My Hero Academia)
Personagens Eijirou Kirishima, Izuku Midoriya (Deku), Katsuki Bakugou, Ochako Uraraka (Uravity), Shouto Todoroki, Tsuyu Asui
Tags Bakushima, Comedia, Elfos, Kiribaku, Magia, Poções, Tododeku, Tsuchako, Universo Alternativo
Visualizações 55
Palavras 3.874
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Fantasia, FemmeSlash, Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Slash, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Dei uma revisada e voltei com a segunda parte dessa one (que saiu um pouco do controle e ficou enorme).

Espero que gostem e boa leitura!

Capítulo 2 - Delivery de poções


Ao ouvir o retraído barulho de um sino — este que estava pendurado logo acima da porta principal —, Bakugou desligou o fogo para não queimar sua poção e voltou o olhar para a entrada. Para os que ainda pensam que ele usava fogão, ou melhor, caldeirão, ambos à lenha, ele tinha uma novidade: a inovação não vinha à toa, e a eletricidade fazia muito bem o seu papel. E o sino… Por que não havia jogado aquilo fora ainda? Quando Katsuki estava com dor de cabeça, aquele barulho era insuportável. Talvez pela nostalgia, ou por ser um presente de sua mãe, que o objeto ainda tinha a sorte de ficar pendurado naquele lugar.

— Boa tarde. — Era uma voz conhecida, e o “sotaque” era, praticamente, inconfundível.

Com um aceno de cabeça, Bakugou cumprimentou Tsuyu Asui, uma das suas constantes clientes, de volta. 

— O mesmo de sempre? — O mago mexeu um pouco em sua prateleira, realocando alguns frascos para o lado. Abriu um sorriso de canto ao achar um em específico no fundo do suporte de madeira. 

Um líquido esverdeado escuro completava o tubo de ensaio até o topo, esse que era hermeticamente tapado por um lacre. Entregou-o à moça, em outras palavras, à kappa. Bakugou não tinha certeza se ela realizava um feitiço para mudar sua aparência com o intuito de deixá-la mais “humana”. O que entregava, de fato, a sua espécie verdadeira era as pontas de seus dedos e a língua maior do que o normal, características típicas de um anfíbio.

Tsuyu se dirigiu a uma das extremidades do balcão, local onde estava localizado o caixa. Bem ali, em cima da máquina registradora, estava um sapo de olhos vermelhos e, o fato mais chamativo, usando um chapéu de bruxo. O tom amarelo vibrante do animal não deixava que ele passasse despercebido.

 cuidando bem do Alecrim? — Com o dedo indicador, Asui acarinhou a cabeça do sapo cuidadosamente, empurrando o dito chapéu para o lado. Alecrim coaxou em retribuição, reconhecendo sua antiga professora.

Tsuyu trabalhava com a criação de sapos, tais anfíbios eram amplamente usados como assistentes na área de medicina devido ao seu grande conhecimento da natureza, em especial, de plantas medicinais. Magos e bruxos também os utilizavam em seus estabelecimentos, por exemplo, Katsuki. Eram animais organizados e que não confundiriam tão facilmente os ingredientes. A casa do jovem estava a salvo de explosões por enquanto. E, por incrível que pareça, tais sapos ainda não eram capazes de falar. 

— Nunca tive parceiro melhor. — Bakugou não se arrependia nem um pouco em ter pedido um assistente à Asui. Alecrim era muito mais eficiente do que a maioria dos seus antigos funcionários, e olha que ele ficava a maior parte do tempo só pulando de um lado para outro da loja. — E a cara redond… — tossiu forçadamente. — Digo, Ochako, como vai?

— Ela ainda brava com você. — Tsuyu não deixou passar o desdém na voz de Bakugou. Por isso, ela cruzou os braços e fechou a cara para encará-lo com seriedade.

— Ela queria dar o caralho de uma poção pra deixar o paciente dela verde! — Levantou os braços dramaticamente. — E pra curar de uma gripe! Depois a culpa vai ser minha por ter vendido isso a ela. E foi só pra ela parar de encher o meu saco. — Tais brigas não costumavam ter muita lógica. Até os envolvidos se atrapalhavam no meio disso.

— O paciente não era um humano puro, era um híbrido de um com um peixe. E você sabe muito bem que Ochako-chan é especialista nesses seres. Ela devia saber o que estava fazendo — alegou Tsuyu. 

Tal poção, que fora o motivo do desentendimento, não possuía outros efeitos colaterais a não ser mudar a cor da pele do indivíduo. Mas a vontade de estar certo era o que mantinha o orgulho dos dois humanos estufado.

— Que seja! — Bakugou revirou os olhos, ignorando a bronca de Asui. 

Viram só? Ele estava ficando mais calmo do que na adolescência. Era quase um poço de serenidade. Tudo bem, sem exageros. Porém já era um avanço não sair retrucando tudo e arranjar mais brigas.

— E o depravado do seu ajudante? — Desta vez, a pergunta veio de Tsuyu enquanto ela colocava o dinheiro em cima da bancada. Alecrim o grudou com sua língua para, em seguida, devolver o troco do mesmo modo e no mesmo lugar.

— Demitido. — Simples e direto.

— Já era de se esperar.

Não trocaram outros comentários, apenas uma sugestão para que Bakugou visitasse Uraraka e parasse com essa rixa infantil. Ela até citou o caso quando os dois amigos de infância discutiram para saber qual animal era melhor: ovelha ou alpaca. Cada um possuía a sua preferência, já que cada família cuidava de um desses animais na vila. Esse incidente aconteceu na época em que ainda estavam no colégio. Pelo jeito, alguém anda espalhando os constrangimentos passados com outros de fora. E o fofoqueiro da vez não era Katsuki.

[...]

O cartaz de “Procura-se assistente” não estava sendo muito produtivo nos últimos dias. Ninguém veio falar com Bakugou sobre a vaga, embora sua loja ficasse localizada no centro da cidade e em uma das avenidas principais. Até pensou na possibilidade de Mineta ter falado mal do emprego por ter sido demitido, no entanto, provavelmente, não havia contado os motivos por trás dessa dispensa. Quem sabe ele só estivesse meio paranoico mesmo. Foram poucos dias, alguém apareceria em breve.

Bakugou não se importava com a espécie de seu novo assistente, o que valia era se o trabalho seria bem feito. Como o esperado, Starling tinha a predominância de elfos, porém a porcentagem de humanos era a segunda maior. Em sua opinião, Bakugou considerava os elfos fisicamente atraentes, já havia ficado com alguns durante os vários anos que morava nessa cidade, mas nenhum relacionamento sério. Com ninguém, se fosse para falar a verdade. 

Não era apenas a aparência a justificativa para que o mago os admirasse: havia conhecido elfos inteligentes e capacitados nas mais diversas áreas, muitos de seus antigos professores eram de tal linhagem. Por natureza, eles eram seres calmos e gentis (os da subdivisão da luz, no caso), mas isso não queria dizer que poderia generalizá-los. Seja qual for o ramo, a generalização de personalidades gerava uma imprecisão de conceitos em qualquer sociedade.

Seu último relacionamento tinha sido com uma moça confeiteira que trabalhava no castelo da família real. O namoro não deu certo porque, segundo ela, Katsuki gastava mais tempo com o nariz enfiado em seus livros de magia e desenvolvendo novas poções do que dando atenção a ela e experimentando seus doces. Refletindo sobre a situação, Bakugou admitia que aceitar aquele relacionamento fora uma atitude meio impulsiva da sua juventude, tomada no calor do momento e sem pensar no que ele realmente sentia e se estava disposto a construir uma união naquele momento e com ela em específico. A conclusão fora que construíram uma amizade, e, de vez em quando, Bakugou até recebia algumas guloseimas em sua caixa de correio.

Aquele seria mais um fim de tarde normal, sem mais pedidos a serem concluídos ou clientes à espera de atendimento. Tudo estaria na mais perfeita monotonia se o barulho do pequeno sino dourado não ressoasse uma vez mais naquele dia. Tratava-se de um elfo. Mais especificamente, um elfo de fios rubros, camisa dobrada até os cotovelos e suspensórios. 

Ele segurava o cartaz antes grudado no vidro da janela, além de um sorriso que lhe tomava a expressão de orelha a orelha. Essas que eram bem pontiagudas, assim como seus dentes por coincidência.

Parece que havia chegado a hora de Bakugou tirar a poeira das perguntas que eram feitas nas entrevistas de emprego.

 

Com a loja já trancada e duas cadeiras, uma de frente à outra, Bakugou pegou um pouco de chá, também oferecido ao seu visitante, tomou um gole e limpou a garganta. Sua memória era das boas, iria lembrar-se de alguém tão… bem-afeiçoado quanto aquele elfo. Seria ele um dos seus parceiros de um sábado à noite? Pouco provável, o ruivo não aparentava ser do tipo que apreciava tais eventos de música alta e som quase ensurdecedor. Quem seria Katsuki a ficar moldando alguém pelas primeiras impressões? O correto seria conhecê-lo melhor antes de tirar conclusões precipitadas.

— Seu nome? — Bakugou fez a primeira pergunta.

— Kirishima Eijirou, senhor!

— Senhor? —  Esboçou uma careta irônica, mas não o repreendeu pelo termo. Afinal, aquele tratamento emanava respeito.

Kirishima abriu um sorriso amarelo, abaixando a cabeça em um breve pedido de desculpas. Bakugou balançou uma das mãos, sinalizando para que deixassem isso para lá.

— Idade?

— 412.

— 412?

— Foi isso o que eu disse — o entrevistado reafirmou a sua resposta.

— Vocês têm aquele calendário próprio… — Coçou a nuca ao se lembrar de tal particularidade. — E se converter em idade humana?

Kirishima apertou o próprio queixo entre o indicador e o polegar, sustentando uma cara pensativa. Até que respondeu:

— Em torno de 25.

Realmente, o entrevistado tinha uma aparência bem jovem. Na realidade, todos os elfos a tinham. A semelhança que propiciava uma compreensão equilibrada, além de empatia entre aqueles dois grupos de seres vivos há séculos, apresentava-se no desenvolvimento cognitivo: seres humanos e elfos progrediam em iguais proporções. No caso, um elfo de 412 anos tinha a mentalidade de um humano de 25. 

— Vocês não são seres quase imortais? — Bakugou já tinha estudado sobre eles, talvez essa indagação viesse mais como uma forma de alongar o assunto. Imunes à velhice e a enfermidades, suscetíveis apenas a atentados violentos contra suas vidas. Era o que se lembrava do assunto.

O elfo balançou a cabeça em concordância.

— Interessante — Bakugou soltou um murmúrio para si mesmo, escondendo a boca atrás de sua xícara de chá. 

— O quê? — Kirishima enrugou o cenho em dúvida.

— Você.

Naquele instante, apenas o coaxar baixo de Alecrim fora ouvido durante alguns segundos de silêncio.

Croac! Croac!

— Por acaso, isso foi um flerte, Bakugou-san?

Aquele elfo só sabia sorrir? E era aqueles sorrisos charmosos ainda, pelo menos, para Bakugou, era. E, nesse momento, era a opinião dele que estava sendo levada em conta.

— Tem meu nome escrito nesse cartaz? — Como Kirishima sabia esse detalhe? — E sem o -san.

— Acha mesmo que eu não ia me lembrar de você? — Kirishima se impulsionou para frente na cadeira, as duas mãos espalmadas nas pernas para sustentação. Katsuki elevou uma sobrancelha devido à sutil mudança no clima daquela conversa, mas esperou que o outro continuasse. — Além de que você é bem conhecido por aqui, sabia? Várias pessoas me recomendaram a sua loja. E não foram poucas! — mais um sorriso com os dentes à mostra. — Esse foi um dos motivos pra eu estar aqui.

Então, aparentemente, Bakugou não se lembrava de algum ocorrido em que já se esbarraram, mas Kirishima sim. Em que comemoração devia ter sido?

, fala aí. — O mago soltou o ar pela boca. — Em que hotel foi?

— Em que hotel foi o quê?

— Que a gente ficou, cacete.

— A gente não ficou em lugar algum! — Kirishima aumentou o tom de sua voz em surpresa, mas um profundo suspiro fora o suficiente para acalmá-lo. Ele se ajeitou na cadeira novamente, um semblante envergonhado lhe tomou conta pela sua alteração brusca.

— Foi mal, então. Não queria te ofender. — O loiro levantou ambas as mãos na altura do rosto. Tentou pensar em outra pergunta para dar continuidade à entrevista, não era o seu objetivo constranger o seu possível novo assistente da loja.

— Na verdade — começou Kirishima meio encabulado, um leve rubor tomando conta das maçãs de seu rosto devido ao que diria a seguir —, você estava fazendo sua especialização em poções e eu te convidei pra minha formatura…

— E? — Katsuki incentivou que o elfo continuasse.

— Mas você só me deu uma poção bebível com sabor de morango, recusou meu pedido e foi embora!

Ah. Agora sim fazia sentido o sentimento de que já se encontraram em algum lugar antes disso. Naquela época, os olhos vermelhos eram os mesmos, mas os fios ruivos eram pretos e para baixo, sem o amparo do gel. Talvez um dos motivos que dificultaram reconhecer Eijirou na hora? Bakugou até se orgulhava da sua boa memória, por mais que às vezes ela o ludibriasse e fosse mais seletiva do que ele gostaria.

Um elfo bonitinho (que Bakugou via com frequência pelos corredores e sempre o cumprimentava) veio oferecer-lhe um brownie naquele dia com o convite de um baile de formatura do último ano do colegial, mas Bakugou ficou com receio de ser uma pegadinha daqueles alunos zombeteiros, algo até comum naquele colégio nessa época de fim de curso (Uraraka tinha caído em uma brincadeira na semana passada àquela), e o elfo estar como cúmplice dessa zombaria toda.

O loiro coçou a nuca pelo seu eu do passado, relembrando a cena. O seu lado arredio havia falado mais alto. Nem para indagar se era uma brincadeira de fato. Kirishima poderia até mentir para levar a graça para frente, mas, apesar disso, questioná-lo teria sido uma alternativa mais viável, não?

— Você era um pirralho ainda — em vez de pedir desculpas pelo inconveniente de tempos atrás, Bakugou alfinetou de volta. Quando ficava ansioso, o seu lado adolescente rebelde ganhava mais força. 

— Eu já tinha 296,64 anos quando te convidei! — devolveu Eijirou.

— Converte!

— 18!

Ao bagunçar os cabelos entre os dedos, Bakugou soltou um grunhido e jogou os braços para cima.

— Desculpa, legal? Pela minha atitude idiota lá atrás. Eu fiquei com… receio. — Admitir emoções não era uma prática corriqueira ao loiro. Ele estava tentando dar o seu melhor para que progredisse a cada dia.

— Por que pedindo desculpas? Foi eu quem te chamei. E, se é um convite, você poderia aceitar ou não. — Kirishima deu de ombros, encostando-se à cadeira. — Mas quer saber? Tem uma coisa que você pode fazer pra se redimir. — Opa, esse não era um arquear de lábios como os anteriores. Teria alguma sugestão implícita ali?

Ah, é? E o que seria? — Katsuki cruzou as pernas e imitou a expressão alheia.

— Me dar um emprego na sua loja — disse de maneira simplista, dando uma risadinha do final. — Brincadeira. Ainda não passei no teste, né? Vamos continuar.

Bakugou não confiava muito no senso de humor de outras pessoas, até porque a maioria delas não entendia o dele mesmo. O sorriso involuntário não o poupou desta vez. Fingir um incômodo na garganta e bater no próprio peito era uma tática deveras antiga. Só não tinha certeza se havia dado certo.

— Você já trabalhou em algum outro lugar?

— Bem, eu acompanhava o príncipe desde criança. Morei naquele castelo até pouco tempo atrás. Eu ajudava o Shouto a se enturmar na escola e com o povo. Isso é considerado um trabalho?

— E por que você saiu de lá? — Katsuki mudou a posição de suas pernas cruzadas, ajeitando a postura. Então, Kirishima era amigo do noivo do Deku? Por essa ele não esperava. Isso já estava parecendo uma conversa informal entre colegas do que uma entrevista de emprego.

— Você não soube? — questionou o elfo. — O príncipe ficou noivo e vai se casar. A gente ainda é muito amigo, mas eu preferi sair de lá e dar mais liberdade pro casal. Ele até me ofereceu um emprego entre a corte, mas eu achei melhor procurar por um eu mesmo.

Bakugou deixaria essa história para narrar outra hora. Ele conhecia muito bem o ocorrido, Midoriya não deixou ele ou Uraraka saírem antes de ter contado tudo o que desejava. Havia tempo que não via aquele cabelo esverdeado, ele devia estar ocupado com os preparativos da cerimônia.

— Você se especializou em algum tipo de magia? — Bakugou emendou mais uma pergunta, algo movido pela curiosidade.

— Eu gosto de feitiços de autodefesa, mas melhorei alguns de ataque também. Se esse emprego for de segurança, pode se sentir garantido! — O ruivo fez um sinal positivo com o polegar.

— Preciso mais é de um entregador das encomendas da loja. O Alecrim já me ajuda com a parte das poções. — Ao mencionar o nome do sapo, o anfíbio, que antes estava em cima do balcão como se fosse uma estátua, pulou no chão para logo após subir no ombro de Katsuki ao escalar o seu braço esquerdo. — Alecrim, dá o crachá pra ele.

— Você tem um sapo?! — Em um ímpeto, Eijirou se levantou da cadeira, escondendo-se atrás dela inutilmente. 

— Pensei que os elfos fossem amigos da natureza. — O loiro estranhou  a reação do seu mais novo funcionário.

— Eu gosto da natureza, só não gosto de sapos! É diferente! — De olhos arregalados e apontando um dedo acusador na direção do animal, Kirishima, antes agachado, pôs-se de pé e deu um passo à frente com cautela. Recuou a mesma distância quando ouviu o coaxar do sapo amarelado. Não era uma fobia, mas a tensão era nítida quando Eijirou estava na presença do dito anfíbio. — E eu pensando que ele era um enfeite da sua mesa…

— Melhor se acostumar, porque você acabou de ganhar um emprego. — O dono da loja jogou o crachá na direção de Kirishima, este que o segurou sem problemas. — A gente tem um quarto vago lá em cima quando você quiser descansar ou passar a noite por ficar muito tarde. Mas vou logo avisando: aquele é o quarto favorito do Alecrim. — Não resistiu em guardar a provocação apenas para si.

Kirishima engoliu em seco.

— Então… — resmungou o elfo de maneira quase inaudível, os olhos fixos no assoalho. — Eu poderia já passar essa noite aqui? Mas sem o sapo, por favor! Leva ele junto com você!

— Você não tem onde ficar?

— Vamos dizer que eu meio que saí de lá porque disse que não queria atrapalhar o casal (quase) recém-casado. E ainda não arrumei um lugar… — Kirishima desviou o olhar para a parede.

— Mas a porra daquele castelo é enorme! Como assim não tinha espaço pra você lá?!

— Eu não queria atrapalhar! —  retrucou.

Bakugou ponderou por um momento. Aquele elfo conviveu e era amigo do príncipe desde pequeno. Logo, era mais provável que fosse alguém digno de confiança. Se até a atual rainha (mãe de Todoroki Shouto) havia concedido um lugar no castelo para o ruivo, Kirishima deveria ter boa índole. Ele não aparentava demonstrar perigo algum, muito pelo contrário. Caso fosse possível, uma aura de simpatia e serenidade estaria circundando-o. Por fim, Bakugou tomou a sua decisão.

E, de alguma forma, ele sentia que aquela situação era deveras previsível.

— Não tem problema, você pode ficar aqui hoje — confirmou o dono na loja. — Mas, sobre o Alecrim, eu não posso garantir nada. Ele anda por onde tiver vontade. Se ele quiser dormir em cima da sua cabeceira, a culpa não é minha. — Bakugou deu de ombros, no entanto, sem disfarçar o divertimento em sua voz.

Após choramingar mais um pouco sobre não querer receber a visita do anfíbio durante a madrugada, Eijirou trouxe uma pequena mala, que Bakugou não fazia a mínima ideia de onde o elfo havia tirado aquilo, pegou a chave do quarto vago e foi arrumar-se.

Jantaram juntos naquela noite, Eijirou ajudando com os pratos e Bakugou cozinhando com os ingredientes que ainda sobreviviam em sua geladeira. Dispensaram Alecrim mais cedo, visto que Kirishima, apossado da tarefa de lavar a louça por livre e espontânea vontade, recusava-se a dividir o dever com o pequeno animal. O mago mais achava graça do que discutia a situação, mas não tardou em dar um descanso ao seu assistente de quatro patas.

Como havia um armário nos fundos com estoque dos uniformes da loja, Bakugou não teve muito trabalho em arranjar um para seu novo entregador de poções. Ambos possuíam a mesma estatura, logo, se não houvesse a enumeração correta, o dono emprestaria um conjunto seu até que a costureira, essa que morava do outro lado da avenida, confeccionasse outro sob medida.

No dia seguinte à contratação, Kirishima fora o primeiro a acordar com uma disposição não muito comum para o horário. Já devidamente trajado e com os endereços em mãos, além de uma mochila com os frascos devidamente organizados para evitar qualquer choque ou vazamento, lá se ia o ruivo com a bicicleta emprestada do ofício para o seu primeiro dia de trabalho. Bakugou apenas se esqueceu de mencionar que o primeiro nome da lista, Tsuyu Asui, era uma renomada criadora de sapos e que fornecia os melhores assistentes médicos à região.

A palidez com que Kirishima voltara ao fim de suas entregas não parecia muito saudável, nem mesmo para um elfo. Asui não tinha uma expressão que remetia a um sapo… Tudo bem, talvez a moça se assemelhasse a um anfíbio, mas isso já seria o suficiente para espantar a cor e a vivacidade da face do entregador? Pelo jeito, ser atendido pela kappa, já em sua primeira viagem, fora muito mais do que suficiente.

— V-Você não me avisou que tinham sapos gigantes comprando poções da sua loja! E ela falava ainda! Um sapo que fala! E se eu tivesse desmaiado e caído em cima da mochila?! Seria um desastre! Um desastre! — andando em círculos e com as mãos puxando os cabelos ruivos para os lados, esses que tentavam continuar presos em um rabo de cavalo, Kirishima se exasperava após refletir sobre o que passara horas atrás.

— Vocês estava em um consultório médico, elas iam tomar conta de você. — Encostado no batente da porta de seu armazém (parte de trás do estabelecimento), Bakugou encarava o elfo com um sorriso nos lábios, mas, no fundo, estava ficando com a consciência pesada de não o ter avisado sobre a “forma física” de sua cliente.

Asui e Ochako dividiam o mesmo local de trabalho em Starling. Aquela havia construído uma instalação espaçosa para cuidar dos girinos e sapos adultos, enquanto esta tinha o seu consultório na parte da frente do mesmo terreno. Ambas estavam investindo na construção de uma casa logo ao lado do local de trabalho delas. Pelo que Bakugou se lembrava, ambas estavam planejando morar juntas faz um tempo.

Decorridos algumas dezenas de segundos, Kirishima se aquietou um pouco e tirou do bolso um papel dobrado ao meio, estendendo-o ao chefe. A cor ainda não havia voltado ao rosto dele por completo.

— Já ia me esquecendo: uma médica que estava atendendo lá mandou te entregar isso — revelou o entregador, a respiração ainda não normalizada totalmente.

Desdobrando o papel e observando a letra bonita ali estampada, Bakugou trincou os dentes ao ler a simples palavra “MESQUINHO” ocupando todo o espaço do bilhete. Depois ele que era o infantil.

— Aquela…! E eu ainda fiz a porcaria de todas as poções do jeito que ela queria! — Bakugou amassou o papel entre os dedos, arremessando a bolinha no lixo. — Ela que não me venha aqui reclamar que os pacientes dela estão parecendo alfaces de tão verdes! Alecrim! Se aquela criatura aparecer aqui, você fecha a porta na cara dela! — Um coaxar foi ouvido, só não dava para saber se era em concordância ou julgando a atitude imatura do mago.

A segunda opção era mais óbvia. Tsuyu criou muito bem os seus sapos a serem éticos. Se pudesse revirar os olhos em descrença pela infantilidade de Katsuki, era o que Alecrim estaria fazendo neste exato momento.

Kirishima apenas tombou a cabeça para o lado, não entendendo o motivo da revolta. Por fim, deu de ombros e foi ao seu quarto trocar-se. Ele que não ia meter o nariz em assunto de sapo.


Notas Finais


Obrigada por ler!

Até a próxima parte!


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