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História Entrega por trás das lentes - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oi, meus anjinhos!!! Mais uma comissão saindo do forno!

Essa fanfic é um pedido que recebi através das comissões que eu abri pra incentivar o #BlackLivesMatter! Vou deixar no comentário desse parágrafo o post no twitter para que você possa entender melhor se tiver interesse, mas de uma forma geral, se você fizer uma doação eu escrevo uma fanfic para você!

Muito obrigada ParkAlenie por ter doado de forma tão altruísta!!! Você é fofa demais e eu ameeeei sua ideia de plot, espero que você goste da forma que eu desenvolvi!
Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único: Sobre um ponto zero e seu unicórnio


— Sinceramente, a professora Jung passou dos limites dessa vez… — Jungkook suspirou, desanimado, antes de morder mais um pedaço do misto quente que trouxera de casa.

— Hm, por quê? — Jihyun, que comia distraído ao seu lado pareceu despertar de seus pensamentos.

Os dois estavam sentados em uma mesinha de concreto no meio do pátio composto por grama pisoteada na frente do prédio de Belas Artes, esperando dar o horário da próxima aula assim como todos os outros estudantes do local. Não era à toa que a grama estava daquele jeito. Sinceramente, desde a última aula Jungkook estava pronto pra ir para casa, sentindo-se completamente derrotado.

— Por causa daquele trabalho final que ela passou — explicou, parecendo ofendido com o fato de Jihyun não entender seu sofrimento. — Amor e entrega… Que tema bosta, você já pensou no que vai fotografar?

— Quero fazer um ensaio com minha namorada — Jihyun voltou a sorrir bobo, suspirando. — O conceito seria de que ela é o amor, mas quem se entrega sou eu, por trás da câmera. Pensei em representar isso com tecido e outras decorações… Eles originariam de mim, da câmera e…

Foi como se uma torneira invisível abrisse na garganta de Jihyun, e Jungkook afundou o rosto nas mãos, esperando que ele acabasse. Claro que normalmente era muito interessado nas coisas que o colega falava, mas, sinceramente… Tinha que prestar pouca atenção para não falar algo rude quando o assunto era romance.

Jungkook estava certo de que amor romântico era algo meio que inventado pela sociedade. Claro que a maioria das pessoas sentia atração por outra, afinal, a espécie humana literalmente foi projetada para reproduzir e sobreviver; porém tinha certeza que havia uma romantização entre o conceito de atração e amor, apenas uma necessidade de preencher conexões vazias com algo a fim de fazer com que o mundo parecesse menos solitário. 

Não é como se Jungkook não tivesse tentado procurar aquele tal amor romântico. Envolvera-se com várias pessoas durante aqueles anos de faculdade, mas, de fato, nunca passara de atração. Nunca encontrara aquele sentimento que tanto exaltavam. Decerto ele era uma projeção de expectativas egoístas em cima de alguém.

Então, se fosse comentar alguma coisa sobre o ensaio de Jihyun, provavelmente seria algo como "ah, não sei por que se incomodar de fotografar um amor que vai provar-se inexistente daqui alguns meses, quando o incômodo de vocês em ficar juntos for maior que a necessidade de parecer feliz e completo". E convenhamos que aquilo não era bem o comentário mais legal a se fazer sobre o trabalho de alguém.

— Uhum, entendi — foi o que respondeu quando Jihyun parou de matraquear sobre o ensaio.

— Ai, Jungkook, arranca essa careta do seu rosto, capaz de assustar uma criança!

— Bom que não existem crianças no ambiente universitário, então acho que está tudo bem — riu baixinho. Que bom mesmo, não tinha nenhum jeito para pirralhos, era melhor que assustasse eles com sua cara mesmo.

— Então… O que você vai fazer para seu trabalho final?

— Não faço a mínima ideia — Jungkook bufou. Para ele, a pergunta soava “onde você vai achar um unicórnio para poder fotografar?” porque a missão que lhe deram parecia impossível e irreal.

— Eu tenho uma ideia pra você! — Jihyun falou depois de pensar um pouco. Jungkook ficou com medo, achando que o colega tentaria lhe empurrar pra alguma amiga de novo. Jurava que a falta de namoro com tais prentendentes já tivessem ensinado Jihyun que não ficava sério com ninguém.

— Hm… Qual? — perguntou à contragosto.

— Fotografar o Jimin!

— Quem?

— Meu irmão! Já esqueceu? Quando a gente era calouro eu levei você para uma apresentação no gramado da reitoria, meu irmão estava dançando lá.

— Desculpa, não lembro… — Não tinha como lembrar, afinal, estava podre de bêbado no momento. Só Jihyun mesmo para levar-lhe para assistir uma apresentação de dança no meio de uma calourada, não entendia até hoje como o colega não sentira de longe o cheiro de álcool desprendendo dele.

— Como não? Você elogiou ele um monte! — Jihyung reclamou triste, afinal, tinha ficado muito orgulhoso do próprio irmão na época. Na verdade, sempre tinha muito orgulho de seu irmão, ele era perfeito.

— Jihyun… Eu vomitei naquele dia, não vomitei? — Jungkook tentou buscar as poucas memórias que ainda tinha daquele dia.

— Sim… Logo depois… 

— Tá aí sua resposta. Lamento dizer, mas eu não estava no meu melhor estado naquele momento. Não duvido que seu irmão realmente dance bem, mas não tenho lembranças…

— Tá bom então… — Jihyun fez um biquinho magoado. — Enfim, quando meu irmão dança, é perfeito. Ele tem muito, muito amor e entrega mesmo pela profissão, sério! Eu vejo ele ensaiando toda hora, dedicando toda hora e isso definitivamente passa para o palco, para suas performances.

— Hm… — Jungkook gostou da ideia. Afinal, era possível ter amor e entrega à profissão, aquela era uma ótima ideia! Era algo que existia e, ainda por cima, dança sempre fornecia fotos incríveis. Tinha que ter certa técnica para capturar bem, mas nada que já não soubesse fazer. — Realmente é uma boa sugestão, me passa o número do seu irmão aí.

— Claro! — A animação de Jihyun voltou, como se nunca tivesse sido massacrada pela memória bêbada e falha de Jungkook. Pegou o próprio celular e enviou o contato do irmão por mensagem. — Prontinho!

— Seu irmão não vai se incomodar com isso?

— Acho que não… — Jihyun, na verdade, não tinha pensado direito naquilo. — Meu irmão é perfeito, duvido que ele não vá te ajudar.

Jungkook acabou rindo e quase decidiu fotografar o próprio Jihyun, afinal, o amor e a entrega que tinha pelo seu irmão eram impressionantes. Jimin definitivamente tinha um fã muito dedicado que o promovia muito. Refletiu de talvez propor ao Jimin que inscrevessem as fotos em algum concurso depois, afinal, o dançarino poderia se beneficiar daquele jeito ao ser divulgado. Divulgação era tudo no meio artístico.

Logo os dois entraram na Escola de Belas Artes para a próxima aula, Jungkook ainda pensando na forma de deixar aquele convite mais atraente para Jimin, não gostava de apenas “ser ajudado”. E também não acreditava que as pessoas poderiam ajudar simplesmente assim, porque queriam. Provavelmente Jimin sentiria-se obrigado a ajudá-lo por causa do irmão, tadinho…

Enfim, aproveitou que a aula era desinteressante e que estava sem nenhuma paciência para assisti-la para ver se havia concursos de fotografia que poderia se inscrever. Achou uma que a própria faculdade promovia anualmente, daqui a três meses, uma da prefeitura concorrendo uma exposição na galeria municipal de arte da cidade e outra online, voltado pra espetáculos, que concorria a uma turnê de dança pelo país. Pareceram boas alternativas.

Com sua moeda de troca pronta, foi mandar mensagem pro tal Jimin que teoricamente conhecia, mas não fazia a mínima ideia de quem era mesmo olhando a foto de perfil. Lembrava um pouco Jihyun, mas não tanto quanto esperava. Ficou impressionado já, cada vez mais certo da sugestão de Jihyun ao admirar o ícone no aplicativo de mensagens. 

O garoto de cabelos descoloridos estava em uma pose um tanto quanto torta, o torso nu abaixado e os braços levantados, como se fossem asas tortas e doloridas. Os pés cobertos por polainas pretas estavam virados para dentro do corpo, dando à pose uma postura ainda mais frágil, estranha. Equilibrava-se na ponta dos pés e o olhar que direcionava à câmera era um tanto quanto vazio. A foto era claramente amadora, mas o próprio Jimin conseguia demonstrar muito sentimento, imagina se trabalhassem junto… Realmente eles poderiam ganhar algo se inscrevessem em algum concurso.

Mais motivado, Jungkook enviou uma mensagem grande, bem objetiva e explicando bem quem era, o que queria com Jimin e o que ele poderia ganhar se participasse de seu trabalho final. Quando enviou, sentiu-se estranhamente ansioso pela resposta — não costumava ligar muito pra mensagens. Talvez realmente quisesse muito fotografá-lo, queria muito evidenciar ainda mais a expressão artística e corporal de Jimin.

Passou o dia inteiro sem a resposta, mas mesmo assim começou a pensar em como realizaria o ensaio. Se o tema era amor… Talvez coisas mais leves, cores suaves, tecidos finos, poses delicadas, provavelmente era isso que a professora queria e que todo mundo ia fazer, queria garantir sua nota também. Começou a pensar onde poderia fotografá-lo, não conhecia tantos cenários românticos, teria que pesquisar.

Dormiu encucado com aquilo, refletindo que precisava procurar um figurino legal também. Será que Jimin tinha algum? Acordou com a resposta no celular e, por algum motivo, seu coração acelerou, estranhamente ansioso e animado.

Jimin [02:38]

Oi, Jungkook!

Claro que eu ajudo, só preciso saber quanto tempo você precisa de mim, ando meio agarrado

Se quiser conversar melhor, a gente pode se encontrar depois do meu ensaio hoje

Vai até às 19:30 na sala de ensaio A do departamento de dança :)

 

Jungkook [07:43]

Tudo bem, te encontro lá então

 

Jungkook suspirou aliviado ao ver que Jimin era objetivo, porque era um tanto também e confessava ser um defeito seu ser um tanto impaciente com quem enrolava demais. Talvez fosse uma característica um tanto estranha para um fotógrafo, que deveria aguardar os momentos certos para capturar a emoção certa pelas lentes, mas não conseguia fugir dela.

Assistiu às aulas normal e, depois delas, como não podia ir pra casa porque iria encontrar-se com Jimin, foi até uma biblioteca procurar lugares e referências para o ensaio, querendo inspirar-se. Era realmente incoveniente o curso de fotografia ter aulas de manhã e o de dança de noite… Se fosse pelo menos de tarde teria que esperar menos.

Passou umas boas duas horas pesquisando e, apesar de ter elencado e salvado algumas opções, não gostou de verdade de nenhuma delas. Cansado e um pouco frustrado, foi pro gramado da Belas Artes tirar um cochilo antes de comer em uma cantina qualquer. O dia demorava tanto pra passar… Jimin podia ter combinado um horário melhor, mas não podia julgar as obrigações e horários do outro.

Quando deu 19:00, foi até o departamento de dança. Mais cedo do que deveria, claro, mas não tinha nada melhor para fazer de qualquer jeito; estava tão entendiado que até mesmo baixara um joguinho besta de celular no wi-fi ruim da universidade para passar o tempo. Sentou-se no chão, apoiado na parede perto do corredor das salas de ensaio para continuar jogando no celular.

Apesar do isolamento acústico, ainda era possível ouvir resquícios das músicas vindo de cada uma das salas misturando-se em uma cacofonia murmurante. Distinguiu música clássica, algo que parecia hip hop e outra… Nem sabia o que era, bossa nova? Enfim, voltou a atenção ao Candy Crush, muito entediado.

Passaram-se bons minutos, longos minutos; passaram-se tantos que Jungkook resolveu pausar seu joguinho e olhar as horas no celular. 19:53. E Jimin simplesmente não aparecera, será que tinha levado um bolo? Não tinha recebido nenhuma mensagem dele.

Levantou-se, suspirando frustrado, e resolveu ir até o corredor das salas de ensaio para ver se conseguia verificar se Jimin, de fato, não estava ali. Afinal, não havia visto ninguém sair de lá e todas as músicas ainda tocavam.

Quando chegou mais perto, percebeu que havia uma pequena janela nas portas, mostrando o que se passava no interior. Observou curioso, pois nunca tinha visitado o departamento de dança antes, admirando as paredes cobertas de espelhos e barras brancas. Não reconheceu ninguém da primeira sala, mesmo procurando o rosto de Jimin entre jovens suados que debatiam em uma espécie de círculo e afastou-se rapidamente ao perceber que aquela na verdade era a sala de ensaio C. Não deveria ficar surpreso com o fato da numeração do prédio ser confusa, sempre era.

Andou dessa vez diretamente até a sala A, espiando pela janelinha dali. E o encontrou.

Reconheceu o homem não só pela foto, mas pela intensidade que expressava, assim como nela, mas infinitamente maior agora ao vivo. Estava sozinho na sala, o olhar vidrado nele mesmo através do espelho, analisando pela enésima vez se seu corpo realmente movimentava-se da forma que queria, da forma ideal.

Jungkook espantou-se com a forma que Jimin conseguia ser tão fluido, tão natural, mesmo que claramente observasse a própria movimentação, a blusa e calça pretas e largas evidenciando o contorno de seu corpo mais pareciam uma mancha de tinta formando desenhos na água. Era lindo.

E ficou lá, grudado na janelinha, observando. Se algum dia já estivera irritado com o atraso, Jungkook não lembrava mais, completamente hipnotizado pela dança de Jimin. Em alguns momentos ela parecia calma, e seu olhar descansava com tranquilidade nos movimentos belos do corpo, mas outros passavam tantos sentimentos, tantas emoções, que o fotógrafo sentia-se angustiado.

A música que tocava na caixa de som, um MPB calminho, parecia interminável, como se o final juntasse a um novo começo toda hora, mas essa transição era imperceptível. Jimin parecia preso em um loop, tentando fugir através da dança, porém mergulhado nele como se fosse a própria realidade. Não era de se espantar que ele não tivesse percebido as horas.

Cansado de assistir através da janela e em pé, Jungkook abriu a porta da sala de ensaio com cuidado e entrou silenciosamente. Jimin, atraído pela movimentação, arregalou os olhos, lembrando do compromisso.

— Continua dançando, por favor — Jungkook sorriu, sendo esta sua única resposta para todas perguntas e desculpas que pareciam ameaçar sair dos lábios preocupados de Jimin. Andou até perto do espelho e sentou-se lá, querendo descobrir um pouco mais da arte de Jimin.

O loiro concordou e foi até seu celular conectado à caixa de som da sala. Xingou-se ao ver que tinham passado das 20:00 e que realmente Jungkook tinha esperado muito, ele deveria ter colocado um alarme… Como não queria entediar seu convidado dançando eternamente a mesma música, resolveu trocá-la, talvez algo mais animado.

Foi descendo pela sua lista de músicas curtidas até achar uma que parecia boa. Fazia tempo que não dançava ela e talvez fosse boa para renovar seu estilo, tinha passado a última semana inteira focado em músicas mais lentas. Deu play e, durante a introdução da música, caminhou sem pressa para perto de Jungkook.

O fotógrafo ouviu espantado a música Neofolk começar a tocar, não sabia muito bem que ela poderia ser dançada. Observou um tanto ansioso Jimin andar para perto dele e sentar no chão, as pernas dobradas apoiadas no chão e os braços atrás sustentando o próprio corpo. Sem nenhuma vergonha, Jimin marcou Jungkook como seu ponto zero, estava dançando para ele e, de certa forma, com ele. Queria que Jungkook mergulhasse em tudo que queria mostrar.

Where the light shivers offshore. Jimin começou faz um pêndulo para os lados, esticando-se como se fosse levantar, mas logo quando parecia terminar de erguer-se, caiu no chão, encolhido contra seu próprio corpo. Jungkook sentiu seu coração pesar, tão dolorido.

Through the tides of oceans. Esticou uma das suas pernas para trás, e o torso levantou-se, acompanhando, como se quisesse segui-la, salvar-se, mas não conseguia. Caiu de costas no chão.

We are shining in the rising sun. As mãos ao lado do corpo subiram doloridas pelo peito, antes de buscar o céu, os dedos esticados fechando-se um por um, o quadril levantou-se junto, as costas arqueadas, alongadas, como se tentassem dar um espaço ao corpo que ele não possuía. 

As we are floating in the blue. Caiu por cima do ombro que sustentava seus quadris em cima e Jimin virou-se de barriga para baixo, novamente encolhido. Ergueu o corpo com um dos pés fora do chão, em uma ponta perfeita. Aterrisou no pé que suspendia, os braços contornando o corpo em um semicírculo lento, doloroso. Girou no pé de apoio, e levando o outro em um passé caindo para o lado, desequilibrando como se flutuasse, como se não precisasse ter medo de cair.

I am softly watching you. Pousou o pé como uma pena no chão e, com o outro, chutou para trás, pulando como se fosse pura brisa, os braços esguendo-se, as costas arqueando em um cambré que parecia demorado, mas não era. Em um segundo, mudou a intenção de seu corpo, o movimento lento transformando-se em rápido enquanto torcia seu corpo para o lado, cobrindo o rosto sofridamente com as mãos pequenas.

Oh boy, your eyes betray what burns inside you. Apesar de todos os segundos que a linha da música tinha, Jimin utilizou-os apenas para deixar com que as mãos caíssem lentamente até a lateral do corpo, observando Jungkook à sua frente com intensidade. O fotógrafo engoliu em seco.

Whatever I feel for you. Repentinamente, Jimin voltou a movimentar-se com velocidade, precisão, buscando com as mãos alguma coisa, acompanhando o badalar dos sinos da música. Segurou o pescoço com as mãos, parecendo sufocado antes de cair no chão novamente, deixando o peito do pé em ponta aterrissar primeiro, graciosamente. Ergueu o corpo com os braços esticados e com as pontas dos pés antes de passar a perna entre as mãos, seu tronco acompanhando lentamente o movimento em seguida.

You only seem to care about you. Voltou a ficar sentado, como na posição inicial, mas de costas para Jungkook, deixou o pescoço cair para trás, circulando lentamente, os fios loiros de sua franja caindo para trás como se fossem uma pequena cachoeira dourada.

Is there any chance you could see me, too? Deu um salto para o lado, a perna esticada puxando o corpo e parou ajoelhado no chão, pausando para olhar Jungkook demoradamente de novo enquanto a mão corria de seu peito até o pescoço. O olhar pesado, dolorido, como se fosse ele o eu-lírico da própria música. As mãos foram para a lateral de sua cabeça e, como um respiro, deixou-se cair no chão as pernas imitando o desenho de quando estava agachado.

'Cause I love you. Seguindo a música, fez um jeté no chão, erguendo o corpo em uma das mãos, enquanto as pernas, afastadas, apoiavam-o também antes de virar-se em seu corpo e saltar, aterrissando agachado em uma das pernas enquanto a outra mantinha-se esticada. 

A cada verso da música parecia que Jimin mergulhava mais em seu sofrimento, nos badalares dos sinos, nas batidas, na voz macia do vocalista. E Jungkook, Jungkook só conseguia assistir aquilo submerso, preso em cada movimento de Jimin, nos cabelos esvoaçando, ansiando receber aquele olhar pesado do dançarino de novo.

Quando o último toque de sino encerrou a música, Jimin permitiu-se cair no chão, ofegante. O tablado estava úmido com seu suor, que continuava escorrendo entre as peças escuras de roupa, fazendo-as grudarem no próprio corpo assim como o cabelo fazia em sua testa e na lateral do rosto. Tinha um problema: entregava-se tanto que às vezes depois da música parecia que toda energia que possuía esvaía-se naqueles poucos minutos de intensidade e paixão. Talvez ter plateia tenha o deixado ainda mais animado do que o normal.

O fotógrafo observou em silêncio, também considerando arte a forma que o peito de Jimin subia e descia rápido por causa da respiração entrecortada. A forma que a face do dançarino estava corada pelo esforço, os olhos pequenos fechados, parecia uma delicada pintura renascentista. O coração de Jungkook estava tão acelerado… Aquilo só podia ser arte.

Passaram uns bons dois minutos daquele jeito, Jimin deitado e Jungkook o observando; o único som que preenchia a sala era a respiração do dançarino. Jungkook queria tanto fotografar aquilo que sentia o ímpeto e a necessidade de fazê-lo quase rasgarem seu peito.

— Desculpa o atraso. — Jimin rolou para deitar em cima da barriga, a cabeça apoiada nos braços cruzados e um sorrisinho sem graça no rosto. Jungkook foi atingido novamente com o tom de voz doce, porque depois de ver Jimin dançando de forma tão sôfrega e dolorida, seu lado mais contido parecia desconexo.

O fotógrafo sentiu-se idiota ao perceber seus pensamentos, afinal, era óbvio que Jimin não poderia ser intenso daquele jeito o tempo todo. A dança era sua forma de arte e expressão, não fazia nem sentido tentar comparar Jimin dançando com o Jimin normal. Ele mesmo era outro quando estava atrás das lentes.

— Tudo bem, acho que foi importante eu te ver dançando — Jungkook respondeu, um tanto quanto reflexivo.

— Por quê?

— Porque o conceito que eu pensei para o ensaio definitivamente não combina com você — explicou. Nunca mesmo deixaria que algo tão intenso como Jimin fosse resumido em romance bobo e delicado.

— Desculpa…

— Pelo quê? Foi incrível, isso é bom! — Jungkook respondeu afobado, sentindo as bochechas corarem ao perceber como fora enfático. Aceitou que não poderia fugir de Jimin, porque precisava muito mesmo fotografá-lo, então continuou. — Por favor, me deixa te fotografar, prometo te dar as melhores fotos da sua vida.

Jimin acabou rindo da seriedade de Jungkook, sem entender por que aquele cara parecia tão afoito em tirar a foto. Precisava tanto assim daqueles pontos do trabalho final? Provavelmente. Daria um desconto, afinal, era amigo de seu amado irmãozinho.

— Tudo bem… A gente não se apresentou, né? — Jimin fez um certo esfoço para sentar-se no chão e estendeu a mão para Jungkook. — Meu nome é Jimin.

— Ah, sim… — Jungkook corou de novo, em choque com a forma que ele simplesmente não parecia funcionar direito ao lado de Jimin. — Eu sou o Jungkook.

— Me explica melhor o que você precisa de mim para eu entender. 

— Ah… Não sei se o Jihyun chegou a contar, mas a gente tem que fazer como trabalho final um ensaio que o tema é amor e entrega.

— Contou, sim, sei de todos os detalhes do ensaio que ele vai fazer com a Yeji — Jimin comentou todo animado porque achava o irmão fofo demais, não aguentava.

— É, esse aí mesmo — Jungkook resolveu não falar nada, porque vai que Jimin era romântico idiota e iludido que nem o irmão. — Aí ele comentou sobre você, porque sua dança tem muito amor e entrega.

— Ele me considera demais, minha dança não chega a esse nível.

— Chega sim, é incrível — Jungkook respondeu prontamente, deixando Jimin um tanto quanto tímido. — Você não é meu parente e não tenho nenhuma obrigação moral de te elogiar, estou falando sério. Eu estou encantado com sua dança, por favor, me deixa te fotografar.

— Ah… Deixo… — Jimin concordou, um tanto quanto sem graça com a declaração feita de forma tão séria. Quando Jungkook, livre da ansiedade de ter Jimin por trás de suas lentes, notou o que falou, ficou envergonhado também. Não que tivesse mentido em qualquer momento, só não queria que Jimin entendesse errado suas intenções. — Quanto tempo você precisa de mim?

— Meus ensaios fotográficos não costumam passar de três horas, no máximo. Você tem disponibilidade?

— Depende… Pra quando?

— Pra quando você puder… Só que na verdade eu gostaria de ver você dançando mais vezes pra construir o conceito melhor, é possível?

— Quando você tem que entregar esse ensaio?

— Daqui um mês e meio.

— Então um mês pra me assistir dançando? — Jimin riu, pensando que Jungkook estava em apuros.

— Isso — confirmou. — Por que está rindo?

— Porque eu sempre tô dançando, quero ver como você vai conseguir acompanhar.

— Final de semana também? — perguntou Jungkook.

— Também.

— Então posso te assistir durante os finais de semana, que tal?

— Pode ser. Nos sábados eu costumo dar aulas de futebol em um orfanato perto da minha casa, aí as responsáveis, quando descobriram que eu fazia dança, liberaram uma salinha de dança que eles têm lá no prédio pra mim. Você pode vir depois do treino, te passo o endereço por celular.

— Aulas de futebol? — Jungkook perguntou, confuso.

— É — Jimin começou a rir. — Amo jogar futebol e amo crianças.

Bem, duas coisas que Jungkook detestava, mas faria de tudo para recolher todos os elementos e ideias necessárias a fim fotografar Jimin da forma mais perfeita possível. Não estava em posição de reclamar sobre qualquer coisa. Se Jimin dançasse no inferno, ele estaria lá.

Não que o orfanato não fosse uma espécie de inferno pessoal para Jungkook.

 

-x-

 

No primeiro sábado que Jungkook foi encontrar Jimin, percebeu estar na porta do endereço muito mais cedo do que marcaram, talvez movido pela animação e desespero de ver o dançarino novamente. Tinha algo em Jimin que o cativava e o deixava tão curioso que tinha uma certa urgência de vê-lo para poder capturar o que estava acontecendo.

Foi recepcionado por uma senhora animada que o acompanhou até a quadra em que Jimin estava dando aula. Jungkook observou um tanto quanto admirado o tamanho do orfanato, pois só tinha visitado alguns pequenos nas visitas que sua escola do ensino médio fazoa. Esse era um prédio enorme, parecendo um grande colégio — e talvez fosse, antigamente —, lotado por crianças agitadas que corriam de lá para cá, quase atropelando-o.

A quadra tinha uma pequena arquibancada na qual várias crianças e adolescentes estavam sentadas para assistir a aula de futebol, cantando gritos de torcida inventados na hora e qualquer outra coisa que as pequenas mentes criativas poderiam bolar. Um pouco sem graça, pois queria muito ter jeito com crianças mas não conseguia, Jungkook agradeceu a senhora e subiu na arquibancada para esperar Jimin terminar de dar a aula.

Sentou-se relativamente fundo, sem querer ser percebido pelas crianças e pelo dançarino lá, tão cedo. Mas mesmo apesar da distância que achava segura, sua atenção fora rapidamente capturada pelo dançarino. Jimin estava completamente diferente daquela vez, com um conjunto colorido de roupas esportivas, a franja longa presa em um elástico. Debaixo de um dos braços carregava uma bola e na outra mão segurava um apito, que parecia ser incapaz de usar porque estava sorrindo toda hora.

Os olhos cheios de dor do Jimin dançarino foram trocados por dois risquinhos bem humorados e gentis do Jimin professor de futebol. Dava dicas e assistia as crianças que, em uma fila, chutavam para o gol a bola monocromática, uma de cada vez. Jungkook ficou admirado com a organização delas, nenhuma cortava a fila e todas brincavam pacientemente uma com as outras enquanto esperavam sua vez. Tinha certeza que se fosse ele dando aula ali, estariam todas sem controle.

— Tio, você é novo! — Uma menininha de no máximo seis anos despertou Jungkook de sua admiração a Jimin em um susto. Ela pulou em seu colo, esmagando seus testículos com o joelho e o fotógrafo fez muita força pra não chorar na frente da peste.

Jungkook não conseguiu responder de imediato, concentrado na própria dor e sem saber conversar com uma criança. Elas entendiam tudo que dizia? Tinha que brincar? O que era pra fazer?

— Sou a Mimi — a menininha murmurou fazendo um biquinho, chateada com a falta de resposta de Jungkook. Levou as mãos pequenas e gordinhas até os cabelos negros do fotógrafo, afastando sua franja desajeitadamente pra ver melhor seu rosto. — Quenhé você, tio?

— Sou o Jungkook — respondeu e aquilo pareceu o suficiente pra menininha, que apenas deu um sorriso sem os dentes da frente e abraçou o pescoço do homem, que continuou sem saber o que fazer. Ficou uns bons dez segundos em pane antes de ter coragem de abraçar as costas pequenas da menininha de volta.

— Tio Goo, Mimi bagunçô o cabelo, prende o cabelo da Mimi! — A menina apontou o próprio cabelo que, de fato, estava uma bagunça. Um dos lados do que um dia foi uma maria chiquinha estava frouxo e o outro nem elástico tinha.

Jungkook nem pôde responder, apenas aceitou o elástico rosa que a menina tirou do próprio pulso antes de acomodar-se de costas em seu colo. Balançava as perninhas, parecendo confortável em assistir o treino ao ter achado um paspalho que nem Jungkook para prender seu cabelo.

O fotógrafo, sem ter mais o que fazer, obedeceu a ordem tão enfática da nova companheira. Tirou o elástico que quase caía da maria chiquinha frouxa e colocou em seu pulso junto com a outra. Não fazia a mínima ideia do que estava fazendo, porque nunca teve que fazer o penteado de ninguém, mas não poderia ser tão difícil assim… Era só amarrar os dois lados.

Passou a ponta dos dedos pelos cabelos lisos da garotinha, tentando arrumá-lo e desatar os maiores nós. Engoliu em seco quando os dedos agarraram e acabou dando um puxão tão forte que até a cabeça da Mimi inclinou-se para trás. Ela resmungou um pouco, mas continuava entretida no treino, e Jungkook, que estava muito preocupado de fazer a menina chorar, suspirou de alívio. Talvez as crianças fossem muito mais resistentes do que pensava.

Separou o cabelo ao meio e, com muito cuidado para não puxá-lo novamente, amarrou as duas marias chiquinhas. Ao perceber que o trabalho estava feito, Mimi saiu de seu colo para virar-se de frente pra ele, parecendo extremamente séria.

— Mimi tá bonita? — perguntou. Jungkook observou o penteado novamente e, ao ver que estava torto, tentou ajeitá-lo novamente. Aparentemente era realmente mais difícil do que parecia.

— Tá — respondeu, direto do jeito que era. Mimi pareceu ofender-se com aquilo e colocou as mãozinhas na cintura.

— Mimi é uma picesa, Mimi é linda, sim!

— Mas eu concordei… — Jungkook tombou a cabeça, sem entender o que ela queria que dissesse.

— O tio Goo tem que falá que a Mimi é uma picesa, tio Ji sempre chama a Mimi de picesa! — Apontou o professor de futebol, como se quisesse que Jungkook compreendesse o bom exemplo que ele representava.

— Você é uma princesa, Mimi — Jungkook obedeceu novamente. A menina, parecendo satisfeita, bateu palmas e saiu correndo pra ir conversar com outra rodinha de crianças, simples assim. Jungkook suspirou de alívio pensando o quanto ele era péssimo com crianças.

Felizmente para seu coração angustiado — e seus testículos surrados —, Jungkook não recebeu mais nenhuma visita infantil até o final do treino, e pôde observar em silêncio Jimin professor de futebol. Incrivelmente, tinha gostado dele também. Percebeu que talvez estivesse atraído pelo homem e xingou-se por isso, pois não era conveniente querer ficar com alguém com quem precisava trabalhar… Talvez depois que fizesse o ensaio do seu trabalho final.

Jimin acenou pra ele logo após mais 20 minutos, quando apitou, indicando o final do treino, e correu os olhos pela arquibancada para ver se o fotógrafo já havia chegado. Os dois cumprimentaram-se com o testemunho de dez crianças que amontoavam-se e pulavam em cima do dançarino, querendo brincar com ele.

Também seguiram os dois adultos quando Jimin foi mostrar a sala de dança do orfanato. Era bem menor do que a da universidade deles, mas era limpa, arejada e bem cuidada. Jungkook foi sentar em um canto para assistir Jimin praticar e, como se vivesse seu maior pesadelo, as crianças fizeram o mesmo, amontoando-se em seu colo e no colo umas das outras, Mimi e suas chiquinhas novamente bagunçadas obviamente fazia parte do grupo. O fotógrafo perguntou-se como aquelas crianças conseguiam ser tão desenvoltas socialmente falando.

A dança de Jimin foi diferente daquela vez, um tanto quando mais leve e animada, talvez porque sentia-se feliz perto das crianças. Apesar de ter tirado o casaco esportivo, revelando uma regata preta por baixo, as calças coloridas e chamativas ainda eram engraçadas.

E Jungkook, achando que só era cativado pelo sofrimento construído através do contorno dos músculos de Jimin, perdeu-se novamente no outro. Porque era igualmente intenso e lindo a forma que seus saltos transformavam-lhe em uma pluma, a forma que rolava no chão e parecia brincadeira. a forma que deixava-se cair no chão e era rodeado pelas crianças, com os olhos sorridentes. Era puro.

— Tio Ji, quero ser dançarino que nem você! — um menino um pouco mais velho que estava sentado quietinho ao lado de Jungkook, esperando a música terminar antes de interromper a prática de Jimin, falou. Os olhinhos brilhavam, encantados e emocionados. Normalmente Jimin escondia-se para praticar, mas Jungkook havia chamado atenção demais das crianças para esgueirar-se daquela vez.

— Tio Ji é um píncipe mágico! — Mimi conjecturou, parecendo impressionada com a própria descoberta. —  Ele voa! Joonie não é píncipe, não pode voar!

— É claro que o Joon pode voar, Mimi — Jimin explicou pacientemente, com um sorriso. — Todo mundo pode voar, o tio Ji aqui também teve que estudar e praticar bastante pra aprender.

— Viu? — Joon cruzou os braços e empinou o nariz com um biquinho manhoso.

— Ser jogador de futebol é bem melhor! — um outro menininho intrometeu-se. — Tio Ji chutando a bola é muito mais legal!

E Jungkook, que naquele primeiro momento ficou confuso e perdido na discussão das crianças, foi aprendendo o quão normal elas eram já que todo final de semana era a mesma coisa. Bem, a discussão das crianças, não a dança de Jimin.

O fotógrafo esperava que a expressão de Jimin dependesse apenas do ambiente — sôfrego na universidade, leve com as crianças —, mas na verdade não funcionava assim. Cada ensaio que assistia, descobria um pedacinho diferente do dançarino e chegou um ponto que simplesmente nem tentava mais adivinhar o que Jimin faria, apenas ansiava fazer parte de uma plateia de crianças animadas observando o tio que dava aulas de futebol dançar. Jimin sabia ser dolorido, leve, divertido, ambíguo; sabia ser triste e raivoso. Sabia e pintava com seu corpo toda a paleta de sentimentos confusos dos seres humanos.

E Jungkook assistia, boquiaberto, junto com as crianças amontoadas ao seu redor que também não sabiam interpretar muito bem aquilo, só assistir.

O fotógrafo também acostumou-se com a dinâmica do orfanato e, ao ser feito de bobo por Mimi de novo, que queria muito fazer um desenho dela mesma vestida de princesa, acabou sendo encarregado de dar aulas de pintura para uma turminha de vinte catarrentos durante o horário do treino de futebol. Não sabia como aquilo tinha acontecido, até porque nunca estudara desenho formalmente, mas estava lá, porque uma das responsáveis do orfanato achou que seria uma boa ideia e Jungkook, dentro do raio de influência de Park Jimin e Mimi, parecia ter desaprendido a falar não.

Quando Jimin e Jungkook deixavam o orfanato depois do ensaio, com um sonoro “tchau” cantarolado pelas crianças, sempre iam tomar um suco de uma lanchonete ao lado. Não lembravam muito bem quem teve aquela ideia primeiro, mas gostavam da rotina, pois era onde conheciam-se por palavras e não só por convivência e arte. 

Rotina que deixava Jungkook ainda mais enrascado, porque definitivamente gostava muito de todo pedacinho de Jimin que descobria e sentia-se ainda mais atraído por ele. Nem procurava reciprocidade na expressão do outro, afinal, não queria estragar seu ensaio com os próprios interesses.

Um mês passou rápido demais e Jungkook só percebeu que precisaria parar de simplesmente assistir Jimin e fotografá-lo quando Jihyun chamou-lhe entre as aulas para pedir opinião sobre o ensaio que fez com Yeji. O primeiro susto para o fotógrafo foi perceber que teria que dar tchau para aquele seu novo cotidiano, mas que acostumara-se com facilidade; o segundo foi ter achado lindas as fotos que o amigo tirou.

Não que Jihyun não possuísse talento, longe disso, Jungkook notava que ambos os irmãos eram igualmente apaixonados por sua própria arte, o susto foi porque o fotógrafo notou que algo dentro dele mesmo havia mudado. Porque o Jungkook de um mês atrás seria capaz de ver a beleza técnica do enquadramento, do jogo de luzes, do cenário, mas nunca sentiria-se emocionado em observar a obra. 

Porém seu coração flutuou um pouco ao ver Yeji, tão utópica e graciosa pelas lentes de Jihyun. Ao ver que havia pequenos elementos propositais na composição que teoricamente estragariam o cenário, mas não conseguiam porque Jihyun fotografara a namorada de forma a dar ênfase nas coisas que amava nela. Ao enxergar e perceber a interpretação que o amigo dava ao amor.

E Jungkook ficou assustado, pois não sabia se estava pronto para a própria mudança. 

Teve um pouco de dificuldade em pensar em como seria o seu ensaio, afinal, o próprio Jimin tinha tanto dentro de si que não sabia se ele, que sentia-se subitamente vazio e incapaz, conseguiria enquadrar tudo aquilo através das próprias lentes da câmera. Porque a certeza que tinha de conseguir encontrar algo belo, técnico e sombrio, pareceu ser esmagada pela genialidade furta-cor de Jimin.

Durante o último treino de Jimin no orfanato antes do ensaio que combinaram de fazer quarta-feira à noite, um dos poucos dias da semana que o dançarino tinha disponibilidade, Jungkook sentiu seu medo derreter-se pelos olhos ao deixar-se ser engolido completamente pela ventura de assistir a alma de Jimin traçar formas fluidas com seus movimentos precisos. Mimi enxugou os olhos de seu mais novo tio quietinha, apesar de um pouco estabanada, e acomodou-se no colo do fotógrafo como se tentasse consolá-lo de algo que ele mesmo não entendia.

Pensou que estaria tudo bem quando encontrou-se com Jimin de noite no gramado gasto que ficava em frente ao prédio de Belas Artes, vazio àquela hora. Tinha pegado alguns holofotes do departamento de teatro e sua câmera. E só.

— Vai ser aqui mesmo? — perguntou Jimin confuso ao observar Jungkook ajeitar os holofotes em cima de um tripé improvisado. — Pensei que fosse ser algo mais elaborado.

— Também pensei — Jungkook riu, sentindo-se bobo e nervoso com a presença de Jimin, que era confortável por causa de sua personalidade doce, mas que o intimidava por ter passado a admirar demais o dançarino. — Mas eu percebi que a única coisa que você precisa para mexer comigo é um chão.

Jimin corou levemente ao ouvir aquele elogio, sentindo-se agitar com a sinceridade que sabia vir do outro. Bem… Talvez ele realmente não precisasse de nada além do chão, desde que tivesse algo que lhe sustentasse, suas emoções pareciam aflorar automaticamente através da pele e compeli-lo a entregar-se aos próprios movimentos.

Enquanto Jungkook arrumava as luzes, Jimin apoiou a mochila no chão e começou a despir-se, tremendo um pouco com o ar frio noturno. Como havia combinado com Jungkook, vestira por baixo da roupa o short bege que utilizava na maioria das apresentações, que camuflava-se em sua pele. A grama e a terra sob seus pés agora descalços pareciam acolhê-lo, como se estivessem dizendo “estamos aqui, somos seu chão”, mesmo que os grãos do solo seco arranhassem-o um pouco.

— Pode ficar em pé ali, por favor? — Jungkook apontou para um ponto que as luzes que arrumara convergiam. Corou um pouco ao ver que Jimin já estava com o figurino de sua apresentação, mas tentou não reparar muito em suas próprias emoções.

Jimin seguiu as instruções, tampando os olhos com a mão ao sentir-se ofuscado pela iluminação. Jungkook observou maravilhado a perfeição existente em cada um dos detalhes de Jimin, na pele arrepiada de frio, na boca avermelhada, nas curvas de seu corpo, de seu instrumento de expressão.

Ajustou um pouco mais as luzes e, através da lente da câmera que pesava em suas mãos, contornou o dançarino, deixando que a própria imagem decidisse qual era o melhor ângulo. Normalmente, decidiria antes mesmo de fotografar, mas agora… Queria que tudo fosse espontâneo e certo, como a própria dança de Jimin era. Queria que sua câmera o guiasse para o melhor da obra, apenas a emoção ditando o que deveria fazer. Aquilo não era técnica, não precisava de nada além de Jimin e da forma que seu coração parecia pesar diferente no próprio peito.

No momento que os pés pousaram na grama do ponto perfeito, Jungkook soube que era ele antes mesmo de verificar o viewfinder. Ajustou o obturador e o foco, deixando suas mãos experientes obedecerem as ordens de seu coração. Afogava-se na perfeição que era Jimin envolvido em um halo de luz, branca, forte, tão contrastante com sua pele morena.

— Não vou direcionar suas poses, faça o que você quer expressar e eu vou achar a melhor forma de te fotografar. — Foram as únicas palavras que disse antes de concentrar-se completamente na tarefa de ser capaz de traduzir por foto tudo que Jimin era por movimento.

O dançarino, com o interior borbulhando de possibilidades e emoções, não precisou de mais nada, apenas entregou-se à própria arte. Marcou Jungkoook com seu ponto zero novamente, assim como fizera da primeira vez que falaram-se, mas daquela vez o ato tinha um peso diferente. Tinha a mesma vontade de cativar, de imergir, mas talvez o motivo para tal fosse diferente.

E dançando, Jimin deixou tudo que era aflorar. Foi Jimin que sangrava em pânico, foi Jimin que brincava e sorria, foi todos os Jimins que existiam em seu interior naquele momento e ansiavam em conhecer os próximos Jimins.

Seu corpo estava cada vez mais sujo de terra e grama, mas isso não foi impedimento. Aquela era sua terra acolhendo-o. Assim como Jungkook havia notado, a única coisa que precisava para ser todos os eus que abrigava dentro de si.

Jungkook não podia negar que, apesar do minimalismo, aquele era o ensaio mais difícil que fizera em toda sua vida. Mal respirava, determinado em capturar Jimin em todos seus picos de glória, energia, destreza e paixão. A entrega do dançarino era tanta que o dedo do fotógrafo mal parecia parar de apertar o disparador da câmera.

Quando Jimin parou de dançar, caiu exausto no chão como sempre fazia; o suor quente da pele causando um contraste quase dolorido com a frieza do chão e do ar. Jungkook fez o mesmo, também sentindo-se esgotado, mas antes arrastou-se até Jimin, até a luz, para entregar seu próprio casaco. Os pertences dos dois pareciam longe demais naquele momento.

— Deu certo? — Jimin murmurou, os queixos batendo de frio enquanto aceitava o casaco alheio de bom grado, feliz que o tecido ainda retia o calor do fotógrafo.

— Você me diz — Jungkook sorriu orgulhoso e apertou o botão para exibir as fotos. — É claro que eu vou editar depois, mas sinceramente… Elas me parecem perfeitas.

Jimin colocou a mão na boca, espantado, enquanto Jungkook passava as fotos para o lado. Ele realmente não tinha mentido quando falou que lhe daria as melhores fotos da vida dele. A iluminação, que parecia tão simples e improvisada, mostrava-se linda na tela e Jimin conseguia ver cada mísero detalhe do próprio corpo, detalhes que nem ao menos conhecia.

Jungkook admirou, feliz, a forma estonteante que cada uma das fotos transmitia sentimentos completamente diferentes, mesmo nada do cenário tendo mudado. Demorou-se mais em uma foto, em que Jimin saltava com uma expressão de puro júbilo, como se tivesse alcançado o próprio nirvana, o rosto rodeado pelo vapor de sua respiração quente no ar frio. Parecia voar, mas o seu amado chão, tão necessário, fazia-se presente nos joelhos e cotovelos sujos de terra, nos pedaços de grama presos nos fios descoloridos. Jimin era lindo.

As mãos de Jungkook tremeram e, Jimin, estranhando e preocupado de ter deixado o outro com frio por ter roubado seu casaco, encarou seu rosto. Encontrou lágrimas rolando dos olhos grandes de Jungkook, que levantaram-se da foto e fixaram-se com intensidade no homem tão incrível em sua frente.

Jimin não apenas transbordava, como lhe ensinara sobre entrega. Jungkook nunca tinha ficado tão envolvido em um ensaio na vida, mesmo tendo participado de superproduções com cenários e figurinos incríveis. Entregou-se, porque apenas sua entrega poderia capturar a pura arte de Jimin, e queria guardá-la para si.

O dançarino mordeu os lábios, estranhamente cativado por aqueles poucos centímetros que os separavam. Os holofotes tinham sua luz refletida pela pele corada de Jungkook e faziam as lágrimas finas brilharem. Apenas Jungkook brilhava, todo redor de ambos cobertos pelo breu da noite. E, desde o começo, para Jungkook, apenas Jimin fazia-se ver em toda aquela imensidão do mundo.

Não saberiam dizer quando os lábios uniram-se, assim como não sabiam dizer quando os encontros na loja de suco tornaram-se casuais e quando a vontade de continuar se encontrando fez morada em seus peitos. Talvez apenas tivessem seguido a respiração afoita de ambos que teimava em misturar-se, em compartilhar seu calor na noite tão fria. O toque de suas bocas pareceu libertar a torrente de emoções que guardaram e acumularam durante o último mês, até transbordar.

As mãos de Jungkook subiram até os fios da nuca de Jimin, trazendo-o para mais perto, sôfrego em sentir mais de seu gosto, de serpentear a língua contra a sua. O fotógrafo estava acostumado com aquela coreografia úmida, porém o beijo de Jimin, assim como sua dança, passava tanta coisa que Jungkook tinha a impressão de que estava beijando pela primeira vez.

Talvez porque fosse a primeira vez que beijava alguém que sabia amar. Porque Jimin não era apenas uma lição de entrega, mas também um catalisador do sentimento que nem sabia que existia dentro de seu peito. E que não saberia existir se não houvesse ficado perdido e afogado nas camadas de Jimin, se não tivesse feito do orfanato seu pequeno refúgio também, se não necessitasse tanto manter aquelas coisas preciosas para si, revisitá-las.

Sinceramente, a professora Jung tinha passado dos limites daquela vez. Mandara-lhe fotografar um unicórnio e no fim, procurando talvez um belo cavalo branco, realmente encontrou tal criatura mágica. Talvez porque Jimin, que possuía lábios tão macios, plantara uma semente de surrealidade e crença infantil em conto de fadas dentro de seu peito ao defini-lo como seu ponto zero.

Com um certo desespero e animação pela descoberta, Jungkook enlaçou seus braços ao redor do corpo coberto com o próprio casaco, trazendo-o para mais perto a fim que terminassem de compartilhar seu calor. Queria, precisava, necessitava... Entregar-se ao seu recém descoberto amor. 


Notas Finais


Espero que tenha gostado dos jikooks que são tão diferentes, mas que se completam tão bonitinho, aff!!! Amei escrever sobre eles!!

A coreografia que o Jimin faz no primeiro encontro foi feita por mim e a música é I Love You, do Woodkid. Minha mãe dança contemporâneo há anooos e o namorado dela é professor, então desde criancinha eu sou apaixonada e assisto muitos espetáculos. Fiquei muito feliz de receber esse tema e passei umas boas manhãs dançando a música pra ver se encaixava tudo direitinho, mas como eu nunca fiz aula de ballet contemporâneo formalmente (só clássico) ficou uma bosta e nem gravei, espero que tenha dado pra entender o suficiente através da escrita, que é algo que eu pratico mais, né hsuahuashsua

Obrigada de novo por ter pedido, ParkAlenie e espero muito que tenha gostado!
Beijinhos de luz e até a próxima!


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