História Epifania - Capítulo 10


Escrita por:

Postado
Categorias MasterChef Brasil
Personagens Ana Paula Padrão, Erick Jacquin, Henrique Fogaça, Paola Carosella, Personagens Originais
Tags Pana
Visualizações 401
Palavras 2.719
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Atualização um dia antes do programado. Uhu! :)

Gente, muita gratidão pelos comentários, pelo olhar de vocês sobre a estória, por estarem comprando essa narrativa. Tenho conhecido pessoas incríveis com “epifania” e isso me deixa extremamente feliz.

Às meninas do “o que cazzo é isso?”, obrigada pelos risos. E à “Juliana, por favor”, por favor! Não nos mate com Fells. 😅

Mais uma vez: obrigada, obrigada, obrigada.

Ps.: veja lá no Spotify a playlist da fic. Chama-se “Epifania_”.

Capítulo 10 - Rotinas


Fanfic / Fanfiction Epifania - Capítulo 10 - Rotinas

A semana passou com a velocidade que lhe é habitual. Logo estávamos na terça-feira novamente. Era a última semana de agosto e eu já começava a respirar mais aliviada. Tínhamos gravado o quinto episódio da temporada naquele fim de semana e perdido uma cozinheira incrível: Mirna. Tinha sido um final de trabalho difícil de gravar, com choro no mezanino e uma tristeza indiscutível entre os jurados. Eu mesma me senti um pouco para baixo quando a vi abrindo a porta. Mas são coisas da vida. O jogo era exatamente esse.

Tenho uma dificuldade muito grande em chorar. As minhas vivências me fizeram construir isso, na verdade. Era difícil chorar com a eliminação de alguém – que continuava vivo e com saúde – depois de passar anos acompanhando zonas de guerra. Vendo a miséria assim na frente. 

Bom, eu chorava embriagada. Ou com um filme muito triste. Ou em circunstância como a que eu vivia, onde meus hormônios jogavam comigo. A bem da verdade, eu chorava com minha própria miséria também, mas eu tinha plena consciência de que ela não era exatamente miserável.

E eu acordei com vontade de chorar, naquela terça.

Eu e Paola estávamos tentando levar as coisas como se nada tivesse acontecido. Às vezes eu até conseguia. Brincava com ela, sorria por alguma bobagem que ela falava, me sentia aberta e livre. Eram momentos bem curtos, se tenho que ser sincera. Na maioria das vezes eu me observava criteriosamente. Se eu sorria demasiado. Se eu a tocava sem necessidade. Se eu agia com alguma estranheza.

Eu sentia o quão alguns dos meus gestos a incomodava; o que era completamente compreensível. Então eu os evitava, e fazer isso demandava bastante de mim.

Era tão difícil.

Por exemplo, era muito esquisito não conversar com Paola após uma eliminação. Àquela altura da competição ela já estava mais sensível aos resultados daquele jogo e, em outros tempo, sentaríamos no camarim enquanto eu enxugaria as suas lágrimas e trocaríamos algum conforto. Ela falaria notas de quão difícil aquela profissão poderia ser e como aquela competição por vezes se assemelhava ao real. Podendo, até mesmo, ser injusta. Então levantaríamos, ela seguiria para a casa e a filha dela e eu para minha vida. 

Eu não a vi depois que Pato demandou um “corta” e finalizou a gravação. Os corredores já estavam quase vazios quando segui para o meu camarim e a porta do dela estava aberta quando passei. Solitário. Eu sei que faz pouco tempo, mas é inevitável que eu me pergunte se as coisas voltarão ao normal...

Me parecia que não. 

Bom, depois do que pareceu uma corrida alucinada contra o tempo, Pato nos deu mais alguns dias de folga. Não havia dúvidas de que estávamos adiantados e ele priorizaria a edição do primeiro episódio, afinal, na semana seguinte, finalmente setembro, o masterchef profissionais estrearia. 

E tudo precisava estar pronto antes disso.

Naquela terça, no entanto, também seria lançado o "anapaulapadrão.doc", uma espécie de documentário que fizemos ao longo das filmagens do primeiro masterchef profissionais no qual eu apresentaria um pouco dos bastidores do programa. Lembro que, ao tempo, tinha sido muito divertido gravar – principalmente porque gravávamos longe de marcações e de palcos – e que Paola havia me acompanhado em todo o processo.

Sempre empolgada. E linda.

Era início de tarde. Estava em casa, estendida no sofá que ficava próximo à varanda. Raios de um bonito sol ultrapassando as longas janelas de vidro. 

Sofia, por incrível que possa parecer, estava deitada ao meu lado. Os pelos longos e escuros encostados na minha pele numa carícia inevitável. 

O aparelho de som, uma vitrola preciosa que havia herdado aos 18 de minha avó Lucíola e que eu tratava como uma relíquia, ressoava uma antiga canção. A voz de Cartola expirava e eu não saberia dizer quando comecei a amar aquela música, porque eu devia ser pequena demais. E com memórias de menos. 

Ela me lembrava tempos longínquos, a maravilha dos silêncios e das pausas, a força das vozes, e a capacidade que tínhamos em relação à vida. Era melancólica o suficiente para me lembrar, também, de Paola, mas eu fazia um exercício – permeado de esforços – em lembrar cada vez menos dela. Em pensar cada vez menos nela.

"Preste atenção, querida...", cantarolei, os dedos resvalando no corpo macio de Sofia.

Claudia, a gata, me olhava da outra poltrona, o corpo esbelto estendido, sentindo a preguiça de uma tarde abafada. 

Eu tinha o celular na outra mão, um dos dedos deslizando pelo ecrã. Se eu me envolvesse efetivamente no que o mundo virtual falava sobre mim, ficaria insana. Se eu desse uma mínima vazão ao que falavam sobre mim e Paola, entraria em curto. Eu sempre achei a maior bobagem aquelas montagens e palavras que soltavam sobre a gente. Cheguei até mesmo a rir com Paola de uma publicação que a tinham marcado e que ela acabara por ver – e me mostrar – numa circunstância qualquer.

Hoje elas me incomodavam.

E doíam.

Mas eu não tinha dito que ia parar de pensar em Paola?

Que coisa mais devastadora é o ócio...

E olha que eu nem deveria estar às voltas dele. Eu deveria estar relaxando minha mente e meu corpo. Deveria estar me preparando psicologicamente para o jantar de mais tarde e otimizando a minha estada nas redes sociais. Minha missão naquele dia era: 1. fazer um vídeo, informal, falando sobre o novo posicionamento editorial da revista Claudia; 2. preservá-lo para publicá-lo no dia seguinte.

Obviamente, eu não havia feito nada ainda.

Minha desculpa poderia ser a de que eu estava aguardando Guta chegar para fazer o vídeo. Mas, como eu disse, era apenas uma desculpa. Estava mais do que acostumada a fazer pequenas filmagens para o Instagram e a ideia era a ausência de formalidade mesmo. Eu só estava... desestimulada. 

Tinha me alimentado bem naquele dia, ao menos. Glória até me deu um sorriso sincero e feliz – depois de dias resmungando – quando voltei para a cozinha com o prato vazio. Não consegui, no entanto, deixar de comer no escritório. 
Um passo de cada vez. 

A campainha tocou. Sofia levantou de sua pose majestosa, saindo do lugar. Eu ainda sentava quando Glória passou em direção à porta. Não precisei sequer perguntar para saber que se tratava de Guta que entrou pela sala com sua simpatia de sempre.  Ela trazia Mané na coleira; eu havia deixado o pequeno no veterinário pela manhã, para banho e tosa e tinha pedido para que ela passasse por lá quando viesse para minha casa. Grandes amigas também servem para isso.

-- Oi, meu amor! – sussurrei cheirando aquele filho delícia, quando ele se jogou em uma corrida desesperada para os meus braços - Cê tá tão cheiroso, lindão! - Mané tinha a língua para fora, numa postura típica de quem estava sorrindo, e me cheirava e lambia alucinado. Era lindo. E incrível. E eu me sentia amada. 

-- Meu deus, ela fala com o cachorro, mas com a amiga nem osso! – a voz de Guta interrompeu meu momento de amor e olhei para ela atravessada. Ela riu – Nem me olhe assim, eu acho realmente um absurdo...

-- Deixe de ser dramática e venha cá me dar um abraço. E eu te vi na sexta. – reclamei. 

-- E você viu Mané de manhã – ela retrucou, revirando os olhos.

Revirei os meus também e a abracei. Ambas rimos. Eu conhecia Guta há tanto tempo que sequer conseguia lembrar. Nos tornamos amigas logo e foi tudo tão rápido e tão sincero que desde então não nos desgrudamos. Ela acompanhou a perda de meu filho; o tortuoso processo de divórcio; a adoção de Mané, quando eu senti que precisava de um novo companheiro. Anos antes, fora ela quem tinha me presenteado com as irmãs Sofia e Claudia.

Hoje ela era minha companheira de trabalho.

Mas que nada sabia sobre minha situação com Paola.

E continuaria sem saber. Eu realmente não estava disposta compartilhar, ainda, sobre aquilo. Principalmente quando eu queria – quando eu PRECISAVA – esquecer. 

-- E você vai me dizer porque tá ouvindo essa música de fossa? – ela perguntou, interrompendo meus pensamentos. 

Olhei para Guta de maneira interrogativa, apenas em seguida prestei atenção na melodia. À altura, estávamos na última música do Lado A e Cartola cantarolava, em um samba sofrido: "meu coração vive reclamando noite e dia, por isso eu peço que ela volta para a minha companhia". Eram os acordes finais de "Não posso viver sem ela" – e que coisa mais extraordinária é a vida, não?

-- Não é música de fossa, é Cartola – retruquei – um clássico.

-- Sei – ela respondeu, irônica. E eu odiava quando ela usava de suas ironias contra mim, mesmo que considerasse aquela uma de suas qualidades mais divertidas – E você só escuta Cartola quando tá na bad.

Quando foi que eu comecei a ser lida tão facilmente pelas pessoas ao meu redor? 

Isso era terrível. Principalmente para uma jornalista, convenhamos.

-- Cartola é um clássico! - repeti, por fim. Não muito disposta a entrar naquele debate.

-- Eu não tenho dúvidas. É capaz desse disco ter a idade da sua vitrola. – ela continuou, mordaz.

Nessas horas eu realmente detestava Guta.

-- Pode parar de implicar comigo e vamos trabalhar que você não veio aqui pra fazer hora...

-- Ôh mulher difícil...

Sua voz soou como um murmúrio baixo, mas eu já não a ouvia. Logo organizávamos a sala e o local onde gravaríamos.

Naquele ínterim, escutava as aleatoriedades de Guta sem realmente ouvi-las. E as respondia sem realmente falar. Quando, enfim, sentei para gravarmos o vídeo, respirei profundamente buscando todo o ar de meus pulmões. Um sorriso atravessado se formou em meu rosto, mas era tão irreal quanto forçado. 

O texto ecoou da minha boca na mesma medida em que fora gravado. Pelo menos eu conseguia ser tão profissional quanto sempre. 

"Olá minha amiga de Claudia, meu parceiro de Claudia. Hoje nós lançamos o novo posicionamento da marca Claudia que você vai ver em todas as nossas plataformas a partir de outubro: hashtag eu tenho direito. Direito de ser feliz. Eu tenho direito de me casar de não me casar. De ter filhos, de não ter filhos. Eu tenho direito de não ser assediada. Eu tenho direito de não sofrer preconceito moral, preconceito racial. Eu tenho direito de não sofrer violência doméstica. Eu tenho direito. Participe com o seu direito nas nossas redes sociais. Um beijo para vocês".

Quando, enfim, Guta disse que estava bom, me lancei para trás, a cabeça encontrando no tecido macio do sofá. Eu sentia que ela me olhava, atenta. E que eu continuava esquisita demais para que as pessoas, especialmente aquelas próximas, não questionassem. 

Mas não havia muito o que eu pudesse fazer. Então me despi das minhas mascaras e me deixei respirar um pouco minhas angustias.

Eu estava em pânico só de pensar no que poderia me esperar mais tarde. 

Não havia como fugir, no entanto.
**

O resto da tarde se passou com tranquilidade. Publiquei dois vídeos mais curtos no Instagram, que tinham sido gravados com os chefs no fim de semana.  Jacquin e Fogaça ficaram empolgados em falar sobre o programa; Paola havia sido pega de surpresa. E me surpreendeu.  Foi um dos poucos momentos em que ela se aproximou de forma natural e eu tenho que admitir que meu coração deu um pulo quando ela tocou em meu rosto e beijou meus cabelos. 

E eu sequer consigo falar sobre o "linda e maravilhosa", ainda que, racionalmente, eu compreendo que eram carinhos esperados da parte dela.

Da minha também, se fosse muito antes.

Jacquin tinha nos convidados, a todos, para jantar na casa dele e de Rosangela. Rô tinha se tornado uma boa amiga e já virara parte da trupe, presente em todas as ocasiões. Ela era divertida, entusiasmada, e deixava Jacquin cada vez mais centrado. Era nítido o quão feliz ele estava e eu me sentia muito bem em saber que tinha participado daquilo desde o começo. 

Que havia visto o amor deles nascer e crescer.

Se eu tivesse que ser sincera – e essa é uma indagação que sempre faço a mim mesma – eu não queria ir ao jantar. Só de imaginar me encontrar com Paola em um local onde o vinho seria inevitável (desconheço quando o neguei, na verdade), sentia os nervos doloridos. 

Mas a ocasião pedia uma demanda especial; pedia por encontros; pedia que estivéssemos juntos. Era importante para o masterchef. Para a equipe que começava a se considerar quase uma família.

Eu estava arrumada. Não exageradamente arrumada, mas me sentindo bonita o suficiente para encontrar Paola que, para mim, começava a parecer um fenômeno da natureza.
Bom, nunca tão bonita quanto ela.

Eu começava a me sentir insegura; e era como se voltasse a ser a adolescente não ajustada ao seu próprio corpo, que não conseguia chamar a atenção de ninguém. Talvez porque meu objeto de interesse não pudesse, em tese, se interessar por mim. Talvez porque meu objeto de interesse não tinha interesse por mulheres.

Não adiantava eu dizer a mim mesma para parar de pensar em Paola.

Bastava isso para que minha mente passeasse por ela de novo. E de novo. E de novo.

Tirei uma foto bonita com meu filho; ele agitado, enérgico, confuso. Deixei a ração dos três separadas, água o suficiente para uma semana, e uma das luzes ligadas. 

Glória tinha ido embora no finzinho da tarde, mas o cheiro de café ainda parecia recém coado. E eu quase continuava ali. Naquele calor. Envolta à minha vida comum. Com meus filhos, com minha casa, nenhuma ilusão ou pensamentos obsessivos.

Eram quase nove e meu corpo continuava parado à porta.

Senti o celular vibrar, numa daquelas sintonias estranhas e inexplicáveis.

"Fogaça et Paola acabaram de chegar. Venha logo. [21:10]” - Jacquin.

E talvez tenha sido o nome dela aquilo que me motivos, mas em instantes estava porta a fora entrando no carro. 

O som do carro, as luzes da cidade, a melancolia que me envolvia. Tudo parecia me dizer para que eu voltasse. Mas eu continuei. Eu, como sempre, teimava em não ouvir meus sextos sentidos, minhas intuições miseráveis. Dizia a mim mesma que não havia nada demais. Que eu apenas encontraria uma amiga. Uma colega de trabalho. E outros amigos e colegas de trabalho. Nada demais. Completamente corriqueiro.

Eu suava, apesar disso. E creep em volume que eu normalmente não escutaria parecia dizer outro tanto. Mas em meia hora tinha cortado o congestionamento constante de São Paulo e entrava no elevador que me levaria até o andar de Jacquin.

Rosangela abriu a porta com um sorriso e um abraço. Acolhedor. Amigável. Trocamos amenidades e carinhos e entrei abraçada com ela na sala de estar, as luzes vibrantes do cômodo deixando-o iluminado.

A televisão estava conectada na Band e Paola estava em meio à sala, um vestido bonito, os cabelos selvagens, os lábios escondidos pela taça de cristal preenchida por vinho tinto. Seus olhos encontraram os meus. E houve o solavanco de minha parte. O inevitável. O sentimento inconfundível que eu tentava evitar, mas que parecia cada vez mais difícil, cada vez mais intolerável.

E eu queria fugir. E eu queria dar meia volta e sair por onde tinha acabado de entrar. E evitá-la o quanto possível, o quanto me fosse permitido. Ao mesmo tempo em que minha vontade maior era de trocar aquilo que ocupava os lábios dela.

E talvez meus pensamentos tenha soado alto; ou somente fosse o fato de que eu era cada vez mais decifrável para ela, porque ela desceu a taça e me lançou o mesmo olhar de sempre. Enérgico. Imponderável. Até desviar os olhos. Tudo em uma fração de segundos, que pareceram minutos ou horas. Que me impossibilitaram de ver as demais pessoas que estava na sala. Que não me permitiram enxergar a figura alta e desengonçada, com barba por fazer e sorriso amigável. E que se aproximava de Paola dando-lhe o abraço que a ele pertencia. Encostando os lábios naqueles macios. Num beijo simples e fácil que eu gostaria de poder dar.

E talvez se eu soubesse da presença de Jason, jamais teria pensado em ir até ali. E foi inevitável que a melodia que eu cantarolava no carro, uma das minhas canções favoritas, não passeasse de novo por meus lábios...

"But I'm a creep. I'm a weirdo. What the hell am I doing here? I don't belong here..."

 


Notas Finais


Gente, segue lá no Twitter: @inepiphany_

Até semana que vem! 😚


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...