História Equilibrium - Capítulo 20


Escrita por: ~

Postado
Categorias Star Wars
Personagens Kylo Ren, Leia Organa, Luke Skywalker, Rey
Tags Adam Driver, Despertar Da Força, Kylo Ren, Rey, Reylo, Star Wars
Visualizações 1.017
Palavras 5.225
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Fantasia, Ficção, Ficção Científica, Hentai, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Nudez, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Vocês devem estar pensando "Como assim, capítulo novo? Essa não era aquela moça que atualizava a cada mil anos? Será que esse é um sinal dos fins dos tempos?" Pois é abiguinhos, eu ando tão ansiosa com o novo game de Star Wars que vai lançar semana que vem e com o filme chegando que me animei e saí escrevendo desembestada. Quero tentar compensar vocês pela demora constante em atualizar e dar esse presentinho <3
Eu to percebendo que não consigo mais escrever pouco. Os capítulos estão cada vez maiores, mas é pq tem muita coisa ainda pra acontecer e eu não quero que essa fic leve 10 anos pra acabar huahauh então se estiver cansativo demais, ou chato demais, me avisem, por favor, que aí eu mudo a escrita... (Até as notas iniciais são longas, socorro)
Enfim, espero que gostem! Não deixem de colocar suas opinião, que são o mais importante pra mim!
Beijos e boa leitura.

Capítulo 20 - O Preço da Coragem


Fanfic / Fanfiction Equilibrium - Capítulo 20 - O Preço da Coragem

Os ganidos enfurecidos eram abafados pelo chiado do sabre bastão de Rey. O branco da sua lâmina girava letalmente na escuridão da noite, matando o que estivesse em seu caminho. Logo a margem do riacho se carregou do cheiro enjoativo de carne queimada e o metálico de sangue fresco. Alguns já haviam tombado sem vida no chão, montanhas de pelo escuro distribuídos pelo cascalho. Ahsoka usava sua Força para lançar os animais contra qualquer coisa que estivesse pelo caminho, jogando-os pelos ares como bonecos de pano. A Jedi parou um pouco para respirar depois de um giro rápido das pernas e foi nesse momento em que percebeu algo errado.

Eles não estavam diminuindo, apesar da pilha de corpos continuar aumentando. Novas feras surgiam de dentro da mata, latindo com ferocidade e uivando para a lua. Rey ainda sentia essa coisa esquisita em seu âmago, como se houvesse consciência humana dentro daqueles animais, ou algo próximo disso. Pareciam atraídos por algo a mais do que o faro. Ela não duvidava que não fossem apenas lobos grandes - uma matilha comum desistiria de caçar quando percebesse que a presa não era tão indefesa assim, mas eles pareciam cada vez mais determinados.

- Vamos ter que sair daqui! – Ahsoka gritou do outro lado, ofegante.

 Mas Rey não respondeu. Não conseguiu. Sua mente fez um click, como se uma nova porta se abrisse em seu subconsciente. Suas pernas se imobilizaram e ficaram pregadas no chão irregular de pedras. Parada ali, á beira do córrego, pequena perante a sombra monstruosa dos lobos que cresciam contra a luz pálida do luar, ela sentiu algo diferente dentro de si. Uma confiança que cresceu em seu peito em uma bolha de calor e se espalhou por seu corpo. Com uma placidez repentina, teve a plena certeza de que os cães não a atacariam. Não se ela fizesse do jeito certo.

Os gritos de alerta de Ahsoka soaram distantes aos seus ouvidos. Seus pés moveram-se sozinhos em direção a matilha, guiados por um instinto mais forte do que ela. O cascalho fazia um ruído baixo sob a sola de seus coturnos e era abafado pelos rosnados ferozes de mais de seis animais que se agruparam a sua espera. A Togruta parou a meio caminho dela quando percebeu que elas não estavam atacando como antes – pareciam apenas em estado de alerta, imóveis, quase reverentes. Ela decidiu esperar e ver o que aconteceria.  

Rey finalmente ficou á um palmo de distância da besta que tomava a liderança. Dava para sentir o hálito quente batendo contra seu rosto. Ele ainda mostrava os dentes que, vistos de perto, eram do tamanho do seu dedo indicador e pareciam afiados como lâminas. Mas naquele momento, ela estava atenta aos grandes olhos amarelos com pupilas dilatadas, parecendo crepitar como fogo. Ele tinha mesmo uma consciência espelhada ali, na janela da alma. Indo mais a fundo, sentiu algo ainda mais latente arrepiar sua pele: uma espécie de conexão. Delicada, instável, quase imperceptível. Uma ponte que levava até o outro lado de um abismo, uma via de mão dupla que interligava ser humano com animal. Ela de repente soube que se tratavam de Vornskr, criaturas capazes de farejar seres portadores da Força, e estavam famintos.  

Devoradores de Jedi.

Esse pensamento fez o cão balançar a cabeça e dar um latido seco, mas ela não se abalou. Algo dentro de si dizia que ele não a atacaria agora. Ahsoka trancou a respiração á poucos metros atrás; pronta para agir se fosse preciso. Se existia de fato uma ligação entre eles, Rey pensou, então existia também a possibilidade de intervir em suas vontades. A garota se concentrou naquela ponte estreita entre os dois, devagar e com cuidado, ciente de que aquilo parecia loucura, mas certa de que funcionaria. Não demorou muito para constatar algo vibrante no peito, parecendo muito com um segundo batimento cardíaco. Sentiu emoções primárias que não lhe pertenciam - fome, raiva, medo. O cão baixou as orelhas e Ahsoka poderia jurar que ele até balançou o rabo em dado momento.

Aquilo trouxe á Togruta uma forte sensação de déjavu. Ela conheceu um homem capaz de domar criaturas selvagens daquela forma, e ele o fazia de maneira muito semelhante. Isso poderia significar muita coisa, ou então apenas uma coincidência tremenda. Mas seria possível? Um dom raro desse só poderia ser herdado, certo? Talvez. De qualquer forma, estava funcionando. Rey ergueu a mão com calma, testando se poderia tocar no focinho da coisa, pronta para manda-los embora, quando um ruído alto ecoou pela mata.

Parecia um galho seco se partindo ao meio. Não havia mais vento e dava para ouvir agora folhas sendo pisadas ás pressas. Os cães moveram-se inquietos, apontando suas orelhas como um radar para o outro lado. Parecia fogo crepitando, mas não havia fumaça. Foi se aproximando, aumentando de intensidade, um chiado inconfundível e constante junto a uma pressão leve no peito. Um chiado que só poderia vir de uma arma em específico: Um sabre de luz.

Foi tudo muito rápido. A confusão recomeçou, os animais se agitaram enquanto Rey sentia Kylo se aproximar taciturno pela trilha. Pelo canto de olho, viu Ahsoka voltar a se defender da melhor forma possível sem seus sabres, mas ela já não parecia com tanta agilidade. Alguns voltaram a cerca-las, outros mergulhavam na floresta em busca da nova ameaça que surgia. O cão-lobo de cinco metros e meio que a Jedi tinha custado para criar a ligação se chacoalhou para se livrar daquela influência hipnotizante. Mostrou os dentes e tentou saltar sobre a Jedi, que se desviou e não teve outra escolha a não ser perfurar o animal pelas costas com um golpe fatal.

Pôde ver de relance a luz vermelha do sabre de Kylo sombreando a orla da floresta, onde a margem do riacho começava. Ele parecia lutar contra uma dezena de criaturas atrás dos arbustos, mas ela não se preocupou com isso. Dirigiu-se até Ahsoka e constatou que ela parecia cansada, perigosamente mais lenta.

- Você precisa ir! Agora!

A togruta limpou o suor da testa e hesitou, apertando os lábios em uma risca.

- Não vou te deixar sozinha!

-  Ahsoka!  Eu não estou sozinha!

- Ok, ok! – Encolheu os ombros, dando-se por vencida.  - Mas ele precisa me ver antes! Para ver que você não me ajudou!

Não era necessariamente preciso, mas Rey decidiu não contestar. No momento em que o cavaleiro surgiu das sombras e pousou os olhos sobre as duas, Rey sentiu as pernas cederem quando Ahsoka lhe deu uma rasteira e ela bateu com força contra o cascalho, perdendo o fôlego por um instante. Ainda assim, conseguiu presenciar os dois sabres de luz presos ao cinto de Kylo saírem voando em direção á sua verdadeira dona que sumiu no escuro.  

Kylo gritou encolerizado. Ameaçou segui-la, mas hesitou quando a matilha de cães voltou a cerca-los. Viu os lekkus compridos de Tano desaparecer entre dois olmos e soube que era uma causa perdida. A caçada não valeria a pena: levariam dias para encontrá-la naquele planeta e sua nave já estava com escassez de combustível. Não poderia prolongar sua estadia ali, principalmente porque o lugar era muito perigoso e eles não possuíam suprimentos nem condições necessárias para isso. Ele ajudou Rey a se levantar e falou com certa frieza:  

- Vamos embora.

Dois minutos bastaram para que exterminassem os insaciáveis Vornskr e voltassem em silêncio pela trilha.

 

 

O som das turbinas se tornou um alívio quando chegaram a clareira da floresta. A Silencer estava reparada e pronta para partir. Os olhares espantados recaíram sobre os dois assim que entraram na nave, mas ninguém falou nada. A sombra no rosto de Ren dizia claramente para que não fizessem perguntas, e isso foi respeitado. Ele se aprumou no banco do comandante e acenou rápido com a cabeça para que o piloto decolasse. Rey, por outro lado, seguiu até o fundo da nave e desabou no assento ao lado de Fenrir, nitidamente exausta. Soltou um longo suspiro enquanto as árvores diminuíam de tamanho lá em baixo.

- O que aconteceu? Você está bem? – o cavaleiro sussurrou em tom preocupado quando já estavam a muitos pés do chão.

 Ela piscou e se virou devagar para ele. As duas piscinas que eram seus olhos brilhavam sob as pestanas louras.

- Estou, obrigada. Não foi nada demais.

- Nada demais... – ele repetiu com incredulidade, as sobrancelhas franzidas. – Rey, você está coberta de lama e sangue. Espero sinceramente que não seja o seu sangue.

- Ah... – ela olhou baixo, parecendo notar isso pela primeira vez. Seu cheiro também não era o dos melhores. – Não, não é meu. Surgiram só alguns.... Contratempos.

- Contratempos. Tá, ok. Mas cadê a Togruta?

- Fugiu.

- Sério?

- Sim.

- E ele não vai atrás dela? – Fenrir indicou Kylo lá na frente com um gesto sutil da cabeça.

- Não.

Suas respostas monossilábicas eram um claro indício de que ela não queria conversar. Pelo menos não agora. Rey agradeceu com o olhar quando ele assentiu e decidiu deixa-la em paz. A Jedi se recostou no banco de maneira mais confortável e voltou a refletir enquanto saíam da órbita do planeta, sentindo uma tempestade eclodindo em seu coração.

 Havia muita informação para digerir. Ahsoka estava lá em baixo nesse momento, provavelmente a procura de um lugar seguro para passar a noite. Ela sabia se virar sozinha, mas isso não impediu Rey de se sentir culpada. A garota procurou se atentar ao fato de que não teve outra escolha além de deixa-la para trás – ela teria morrido de maneira horrível se fosse entregue a Snoke. A Jedi jamais se perdoaria por deixar isso acontecer.

Além disso, ela agora não sabia o que esperar de Kylo: sua imprevisibilidade o tornava um enigma. Não dava para saber o que se passava em sua cabeça naquele momento, embora tivesse suas suposições. Ele viu a prisioneira escapando sem sua ajuda, mas ela duvidada de que Ren tivesse comprado a ideia. Seu desinteresse poderia significar qualquer coisa, menos complacência. Ela sabia que não havia muito o que ser feito. 

Rey estava cansada demais para pensar no que aconteceu com os Vornskrs, então decidiu refletir sobre isso mais tarde. Assim que fechou os olhos, levou um bom tempo para afastar a agitação da sua mente. Antes de adormecer, presa no limbo que a prendia entre o mundo real e o dos sonhos, uma voz tenra soou em seus ouvidos. Parecia estranhamente familiar.

Confie nos seus instintos.

 

XXX

 

Rey só voltou a acordar quando sentiu uma mão apertar gentilmente seu ombro. Fenrir murmurou algo que ela não entendeu e então desatrelou o cinto, acompanhando os cavaleiros pela rampa até o lado de fora. O barulho das turbinas foi diminuindo, e o som de movimentação no hangar militar se tornou claro aos seus ouvidos. A Jedi esfregou os olhos e se levantou, sentindo-se estranhamente mais cansada do que antes. A primeira coisa que viu foi Kylo Ren de pé, parado na porta, calçando suas luvas. Não dava para decifrar a expressão em seu rosto, mas não parecia muito boa. Quando se aproximou, ele falou em um tom neutro sem olhar para ela.

- Precisamos ir até o Supremo Líder.

- O que? Agora?

- Sim.  

Pôs-se a caminhar a passos largos em direção ao speeder estacionado na entrada da base enquanto sua capa esvoaçava em suas costas. A Jedi hesitou por um momento, confusa, e então correu para alcançá-lo. 

- Tem algo errado? - Ren pareceu não ouvir a pergunta. Ela marchava incomodada ao seu lado, passando por uma tropa de death troopers armados até os dentes.  – Está me ouvindo?!

- Estou.

- Então converse comigo! 

- Entre no speeder, Rey.

 Não soou como uma ordem, nem pareceu rude, mas ela não gostou do mesmo jeito. Cruzou os braços e parou junto dele na frente do veículo, agora bastante irritada. 

- Eu não vou a lugar nenhum se você não me responder.

- Não aqui. – ele sussurrou inquieto, varrendo os olhos pelo hangar. – Entre e nós conversamos no caminho.  Por favor.

Ela viu um brilho estranho traspassar seus olhos, e isso conseguiu convence-la. Rey deu a volta na máquina e sentou no banco de couro do passageiro, atrelando o cinto de segurança. Kylo dispensou o motorista que deveria leva-los até a torre e assumiu o volante, caindo nas ruas de D`Qar por um caminho propositalmente mais longo. O cotovelo estava apoiado sobre a pequena janela e seus dedos passavam pela testa de forma apreensiva. Quando falou, sua voz soou rouca e cansada.

- Preciso saber o que conversou com a Togruta.

Ela hesitou um momento.

- Não muito.

- Seja sincera comigo.

- Estou sendo. Ela me deixou entrar na mente dela, então não foi preciso falar muita coisa.

Kylo virou a cabeça de maneira brusca, agarrando o volante com as duas mãos. Olhou para ela atônito por um segundo e voltou a encarar a pista.

- Ela estava mentindo, não estava...?

- Não. Tudo que ela disse é verdade.

Ele se remexeu inquieto; seu pomo de adão subiu e desceu na garganta. Não falou nada por alguns segundos. Abriu a boca, mas tornou a fechá-la com um suspiro trêmulo. Parecia travar uma luta dentro da cabeça. Rey franziu o cenho, incomodada com sua atitude estranha, então voltou a falar.  

- Olha, se esse é o motivo de tanta angústia, não precisa se preocupar. Eu assumo a responsabilidade pelo o que aconteceu, pela fuga dela. Você não precisa falar nada.

- Não é isso. – ele balançou a cabeça. - Apenas me diga o que mais descobriu.

- Não acho muito seguro falar agora.

- Tem a ver com a gente?

- Sim.

- E com aquilo também? – Rey o fitou de esguelha. – Sabe do que estou falando. O que combinamos de fazer juntos.

- É, tem a ver.

- Merda...

Kylo uniu as mãos grandes como se fosse rezar quando pararam no semáforo e se perdeu novamente em pensamentos. A garota cortou o silêncio com irritação.

– Por que está agindo que nem um maluco?

- Você não entende... – ele suspirou, a fitando com uma seriedade sombria. – Não deveria ter feito isso.

- Isso o que?!

- Deixar ela fugir.

- E o que eu deveria fazer, então?! – sua voz subiu algumas notas. - Deixar Snoke matá-la?! Eu não sou uma pessoa sem coração que -

Kylo esmurrou com violência o volante, fazendo Rey saltar em seu banco. Depois do susto, a Jedi sentiu o sangue esquentar de raiva.     

- Qual o problema, hein?! Está com medo daquele ser asqueroso por acaso?! Vamos mentir, oras, é simples! Vamos inventar uma história, vamos –

- Não, Rey! – Kylo Ren também começou a gritar. – No momento em que você ajudou ela a escapar, você se condenou! Snoke vai te torturar no lugar dela!

- Pare de me subestimar, pelo amor de Deus! Eu não vou entregar nosso plano!

- Eu não dou a mínima para nosso plano! Eu me importo com você, por que é tão difícil de entender?!

Houve silêncio. O sinal abriu e Kylo deu a partida no speeder depois que buzinaram atrás deles. Rey teria sorrido agradecida se de repente não se sentisse tão apreensiva. Se ele estava preocupado daquela forma, então ela também deveria estar.... Talvez o peso daquela informação ainda não tivesse claro o suficiente para ela até aquele momento, mas agora a ficha começava a cair. Snoke era impiedoso, cruel, obstinado. Ele faria de tudo para arrancar a verdade da Jedi. De repente o mundo pareceu um lugar escuro e sem graça.  

O cavaleiro pareceu notar seu encolher de ombros e se arrependeu do que havia dito. Sua voz tomou um tom surpreendentemente gentil agora.

- Desculpe, eu exagerei. Sabe que não sou um exemplo de autocontrole. – Ela não respondeu de imediato, então ele continuou. - Vamos falar a verdade e dizer que ela escapou. Não precisamos mentir, deve haver outras maneiras de....

- Vou enfrenta-lo.  – Sua voz tremeu um pouco. Limpou a garganta e repetiu com mais firmeza. – Vou resistir ao que for preciso. Aquele desgraçado não vai arrancar nada de mim, eu posso garantir isso.

Kylo suspirou. Esse não era o problema. Ele nunca duvidou de seu potencial, mas Rey não fazia ideia do que a esperava na sala do trono. Não foi algo pelo qual ela havia se preparado antes. Na verdade, ninguém no mundo estava pronto para enfrentar aquele tipo de coisa. E ainda havia a culpa, aquela coroa de espinhos pressionando seu crânio e o lembrando de que ela só estava nessa situação por causa dele....

Ela iria sofrer por causa dele. Mais uma vez.

- Rey, por favor...

- É minha decisão final, Kylo. Não insista.

Estavam estacionados em frente a Torre agora. A presença do Supremo Líder podia ser sentida dali, e não era nada boa. Eles trocaram um olhar cúmplice, perdendo-se na presença um do outro. A proximidade sempre foi reconfortante, como se pudessem se fortalecer na energia oposta, e agora precisavam mais do que nunca dessa conexão. Juntos eram mais fortes, foi isso que Ahsoka falou. Agora que Rey sabia que o futuro do universo dependia dos dois, sua visão do cavaleiro estava muito diferente. Ela finalmente reconhecia que precisava de Kylo, e Kylo precisava dela. Querendo ou não, estavam juntos nisso. A garota respirou fundo e o chamou.

- Vamos lá.

 

O caminho até a Sala do Trono nunca pareceu tão longo. Os corredores se esticaram numa ilusão de ótica bizarra, tornando-se intermináveis, e Rey teve a horrível sensação de estar em um labirinto sem saída. Seu coração ribombava no peito, as palmas das mãos suavam de antecipação. Apesar de tudo isso, sua convicção ainda subjugava o medo. Estava firme em sua decisão, decidida em se provar forte. Kylo Ren marchava ao seu lado em silêncio, tenso como ela nunca o viu ficar antes. Isso não a acalmava.

No fim das contas, não estavam em um labirinto. Chegaram ao hall onde os guardas vigiavam e não precisavam pedir permissão para entrar. As portas se fecharam atrás de suas costas e os deixaram finalmente a sós com Snoke em sua suntuosa sala oval. O Supremo Líder estava sentado em uma espécie de trono, vestindo um robe dourado como ouro com uma costura impecável. Seus olhos frios passaram por Kylo de forma breve e se fixaram na Jedi, causando-lhe um leve tremor pelo corpo. Ren foi o primeiro a se pronunciar.

- Supremo Líder, nós -

Ele se calou no momento em que a mão de Snoke se ergueu placidamente no ar. Ele aguardou alguns instantes e falou em sua voz fria e arrastada.

- Quero que a sucateira fale.

Uma pedra de gelo deslizou pela garganta até o estômago de Rey. Ela não era chamada assim a um bom tempo, e sinceramente não gostou do tom pejorativo naquela sentença. Apesar disso, sabia que deveria jogar aquele jogo da maneira correta. Respirou fundo para amortecer os sentimentos que ameaçavam aflorar e, quando iniciou seu relato, soou incrivelmente calma.   

- Descobrimos uma força antiga sob a base militar, algo condensado em um artefato que julgamos ser Sith. Uma espécie de holocron. A energia escura estava fora de controle, atingindo tudo ao seu redor e matando seus soldados. Foi puro azar dos Stormtroopers alojados lá, na verdade. Conseguimos contê-la, mas...

 - Um holocron Sith? – seu ceticismo era palpável. A feição já deformada pareceu ainda mais sombria.  

- Sim.

Kylo se surpreendeu com a facilidade em que Rey mentia, mas não demonstrou isso. Permaneceu imóvel ao seu lado, concentrado nas nuances de energia que corriam como tornados pela sala. 

- E onde está esse artefato?

- Destruído. O planeta está livre agora.

Snoke se recostou na poltrona e passou os longos dedos pelo queixo, pensativo. Seu olhar se voltou então para Kylo e o ancião se dirigiu á ele.

- Vocês ficaram doze horas lá.

- Nossa nave precisou de reparos. Encontramos um planeta desabitado ali perto e tivemos de pousar para repará-la.

- Entendo. – ele suspirou, denotando qualquer coisa menos compreensão. – Essa história é realmente impressionante. – olhou para baixo, para o tapete rubro, unindo as pontas dos dedos. Sua feição se contorceu para uma carranca de raiva quando voltou a encará-los. – Uma pena que não passam de grandes mentiras.

Kylo ameaçou falar, mas Rey foi mais rápida. Ela parecia aborrecida.

- Foi uma longa e exaustiva viagem, senhor. Tivemos de enfrentar energia descontrolada, lutar contra animais selvagens sensitivos á Força e concertar uma TIE Silencer com ferramentas precárias. Veja bem nosso estado e perceba que não temos motivo para mentir.   

 Houve uma longa pausa repleta de antecipação. Ren desejou que ela nunca tivesse dito isso, mas agora era tarde demais. Os dois mantiveram o contato visual mais intenso que Ren já presenciou, com faíscas saindo dos olhos. Ele segurou a respiração sem perceber, desejoso de que Snoke relevasse a atitude impensada de Rey e os liberassem. Ao invés disso, ele apenas lançou uma única ordem á Kylo, mortal como uma faca recém-amolada.  

- Nos deixe a sós. 

 O cavaleiro sentiu o sangue gelar. Seu coração descompassou uma batida, zunindo nos ouvidos, tornando o mundo silencioso e em câmera lenta. Ele olhou de esguelha para Rey, que apenas estufou o peito como forma de demonstrar que não se abalaria. Sua feição era resoluta, quase raivosa. O cavaleiro não pôde evitar o pensamento escorrer para sua cabeça:

Era tudo culpa sua. 

- Senhor, me deixe explicar o que –

- Eu mandei nos deixar! 

A voz áspera do Supremo Líder cresceu e retumbou como um trovão pela sala. Não havia discussão. Kylo Ren assentiu com os lábios comprimidos e saiu da sala sem olhar para trás, temendo que se o fizesse, acabaria enfrentando-o e piorando a situação. Apesar de tudo, eles ainda tinham que se subjugar ás suas ordens; ainda precisavam manter o disfarce. Quando as portas se fecharam atrás de si, porém, Kylo não voltou para o quarto. Ele ficou no corredor, movendo-se de um lado para o outro como um tigre enjaulado. Olhou para os dois guardas parados ali e sentiu vontade de descontar sua fúria neles.

- Saiam daqui. – ele sibilou entre os dentes para os homens, que apenas se entreolharam sem entender. Ele repetiu a sentença de forma mais enfática e controlada. – Saiam!

O comando soou direto no subconsciente dos guardas e eles obedeceram, mesmo que não fizesse o menor sentido saírem de seus postos.  Assim que se encontrou sozinho, o cavaleiro se concentrou para tentar ver através da mente da Jedi.

 

 

- Você precisa entender, sucateira – o ancião recomeçou, soando como uma serpente peçonhenta prestes á dar o bote. – Que você é minha agora. Sua vida, força e lealdade pertencem apenas a mim. – em cada palavra frisada, a energia escura de Snoke parecia cercá-la cada vez mais, como os Vornskrs famintos fizeram algumas horas antes. - Sua antiga vida está morta, seus amigos logo perecerão também. A Primeira Ordem é sua casa, e eu sou seu Mestre. – Um brilho cruel traspassou os olhos azuis antes de continuar. - Sendo assim, quando eu pedir um relatório, você fala a verdade. Quando eu der uma ordem, você obedece.

- Eu não sou de ninguém. – Ren pôde sentir raiva em cada sílaba pronunciada pelos lábios da Jedi. – Pertenço somente a mim, e isso nunca vai mudar.

- Ora, coloque-se em seu lugar.- – Snoke zombou, exibindo o que parecia um sorriso no rosto deformado. - Você é só uma garotinha problemática com medo de ficar sozinha. - Um mero grão de areia de Jakku, teimosa e prepotente como a maioria dos Jedi um dia foram.

- Se eu fosse tão imprestável assim, você não estaria me mantendo nesse seu palácio. – Kylo tentava de todas as formas mandá-la se calar através de sua conexão, mas ela o afastava de sua mente como uma mosca incômoda. – Nós dois sabemos do meu potencial, e por isso eu não tenho medo. Você precisa de mim. 

- Ora, ora. Os anos sobrevivendo no lixão lhe ensinaram a ser esperta. – sua risada era medonha e sem humor algum. – Tem razão. Há mesmo um potencial aí, embora muito mal aproveitado.  Mas nós vamos mudar isso, ah sim. Vamos transformar água em vinho, e isso vai começar a partir de agora.

Rey sentiu uma mudança de ares. Algo ruim iria acontecer. Embora estivesse prevendo isso, sua voz vacilou em uma ultima tentativa de argumentação.

- Eu não estava mentindo.

- É o que vamos ver.

Snoke estendeu a mão direita no ar. Houve um segundo de silêncio, e então a sala foi tomada por gritos. Rey nunca imaginou que pudesse sentir tanta dor em sua vida. Era como se mil agulhas estivessem perfurando sua carne até os ossos, causando câimbras nos músculos tensionados. As veias queimavam como fogo e sua cabeça latejava furiosamente. A força da energia escura do ancião era tão grande que seu corpo foi erguido á alguns metros do chão, reagindo ao estímulo corrosivo da fúria do Supremo Líder em seu sistema nervoso. Ela estaria se contorcendo se pudesse, mas a Jedi apenas plainava presa em uma posição vertical, com a cabeça para trás, os dentes cerrados e o rosto vermelho de tensão.   

 

XXX

 

Ninguém escutou Kylo esbravejar no momento em que foi expelido da mente da Jedi. Ele agarrou seus cabelos, sem saber o que fazer; consumido pela frustração. Os gritos de Rey vindos do outro lado o rasgavam por dentro, acelerando seu coração já em pedaços. Fúria, medo e culpa lutavam por espaço em um cruel rodízio no peito. Ele não deveria tê-la envolvido nisso. Deveria ter pensado em outra coisa, tentado sozinho, arranjado outro meio... Mas agora era tarde. Espalmou as mãos na superfície da porta trancada, batendo nela com força e não recebendo resposta. Snoke sabia que ele estava ali, provavelmente se deleitando com sua reação. Isso o enfureceu de uma forma imprescindível.

Em uma última alternativa desesperada, Kylo se concentrou e tentou reestabelecer a conexão. Era a única ajuda que conseguia pensar no momento.

 

XXX

 

Rey não foi capaz de formar pensamentos coerentes. Havia apenas a terrível percepção de dor e a espera ansiosa, quase suplicante, pelo fim da agonia. Se sua vida acabasse ali, seria um alívio. O mundo desapareceu ao seu redor e só havia a energia escura alterando a química do seu sistema nervoso, envenenando suas veias, apertando seus pulmões. Os segundos se esticaram em uma eternidade, tempo o suficiente para seu cérebro reagir por um lapso de tempo e destacar uma informação importante. Rápido como um piscar de olhos, ela se lembrou vagamente de que deveria manter informações importantes longe do Supremo Líder.

Mas havia tanta dor...

O que era mesmo importante?

A morte seria um alívio...

Tem a ver com esconder algo dele... Algo da missão. E tem uma Togruta.

Tudo queima, é como ser rasgada em mil pedaços...

Ele está sondando sua cabeça! Não deixe que ele veja!

E tem a ver com o... Kylo! O plano! 

Ela barrou Snoke no último segundo, blindando sua mente á sete chaves. Mesmo já sem fôlego para gritar, mesmo com os músculos se contorcendo sob a pele, mesmo com o pior dia de sua vida nunca chegando ao fim... O Supremo Líder não conseguiu tirar nada dela. Houve então uma segunda percepção, algo quente que inundou seu peito, uma espécie de sombra em sua mente... Não uma sombra ruim, mas sim do tipo que te esconde do sol escaldante no deserto. Parte da dor foi simplesmente sumindo, trazendo certo alívio ao sistema nervoso, como se alguém interferisse no poder malicioso de Snoke. Ela reconheceu com espanto o responsável pela ajuda.

XXX

Kylo Ren fechou as mãos em punhos. Sua expressão franzida era de pura concentração, embora o coração acelerado dificultasse o processo. Quando finalmente conseguiu estabelecer a conexão, suas pernas cederam e ele ficou de joelhos, de frente para a porta, os cabelos escuros lhe cobrindo a face. A dor que agora ele compartilhava com Rey percorreu seu corpo como se lhe estivessem espancando, as veias queimavam, a cabeça latejava. Entretanto, ele não se importou. Presenciou a luz agora fraca da Jedi em sua mente e soube que se tornou algo mais suportável para ela. Estava funcionando: Separados por uma grande porta de mogno e ferro; unidos em sua complexa ligação. Ninguém no mundo compreenderia o quão forte era aquela sensação de complemento. 

Quando Snoke finalmente interrompeu a tortura, a sensação ruim foi embora tão repentinamente quanto surgiu.

Houve silêncio. Por um terrível segundo, no entanto, Ren não sentiu sua presença. A luz da Jedi pareceu extinguir por completo, deixando-o literalmente no escuro. Ele pensou em puxar seu sabre e abrir um buraco na porta, mas elas por fim se abriram. O cavaleiro correu para dentro da sala sem se importar com o que o Supremo Líder diria e se agachou ao lado de Rey. Ela estava caída no chão, imóvel e muito pálida. Ele segurou seu pulso e soltou o ar aliviado quando sentiu seus batimentos cardíacos.    

- Da próxima vez que interferir, será punido de maneira pior. – Snoke sussurrou de seu assento, letal e sem fôlego. – Agora tire-a daqui.

XXX

 

Rey estava perdida na linha tênue entre sonho e realidade. Sua mente vagava por uma viagem desconexa e, finalmente, livre de dor. Em um momento, identificou braços fortes a carregando, e isso lhe trouxe uma reconfortante segurança. Mergulhou então em um sono agitado e aquela voz familiar soou de novo em sua cabeça, mas ela não conseguiu identificar o que dizia. Depois de um tempo no qual ela não soube medir, sentiu estar deitada sobre algo macio e com um cheiro almiscarado muito semelhante ao de Kylo. Era bom. Tentou abrir os olhos, mas só conseguiu ver vultos através dos cílios e vozes soando distante. Uma masculina e outra feminina.

“Preciso que a limpe e troque suas roupas”

“Sim, senhor”.   

 Mais uma imersão no mundo da fantasia e, desta vez, com Leia, Luke e Finn. Eles sorriam e conversavam com ela, mas então lhe davam as costas e a abandonavam, acusando-a de ser uma traidora. Luzes coloridas piscaram sob as pálpebras. Vozes soaram indistintas em sua mente. A sensação molhada de um pano com água morna em seu rosto a fez sair desse pesadelo, e ela identificou Arista, a empregada do Castelo Forte, inclinada sobre ela com seus lekkus azuis dependurados. Isso a fez se lembrar de Ahsoka. Tentou sorrir, mas não conseguiu. Ao invés disso, perdeu novamente os sentidos.  

Agora só houve o vazio. Tranquilizante, livre de preocupações, como uma noite bem dormida deveria ser. Pareceu durar uma eternidade. Só voltou a emergir desse mundo quando uma presença forte e conhecida preencheu o aposento e se aproximou dela. Mesmo semi-inconsciente, soube que era Kylo.  Ele se sentou ao seu lado na cama, ficou um tempo ali, sem se mover. Ameaçou sair, mas Rey reuniu forças o suficiente para segurar seu braço e impedi-lo. Ela não queria que ele se afastasse. Tentou murmurar algo, mas a voz não saiu de sua garganta. Seus olhos fechados não presenciaram a feição surpresa e agradável que surgiu no rosto do cavaleiro, e a Jedi não soube dizer se a sensação de ser aninhada mais uma vez entre os braços de Kylo foi sonho ou realidade. Mas sabia que era bom – o calor, o cheiro, as batidas fortes de seu coração perto do ouvido - e queria que durasse para sempre.

Ele também queria. 


Notas Finais


E aí, já estão dormindo em pé? huahuahu Próximo capítulo vai ser uma coisa que já está a tempos sendo aguardada por vocês. Vou tentar não demorar.


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