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História Era uma vez... - Capítulo 46


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Notas do Autor


Boa noite!
Aviso: vou responder os comentário só manhã. Tá tarde e tenho que trabalhar. Haha. Mas eu responderei sim!
Muito obrigado pelo apoio de todos vocês!
Boa leitura! 😘😘😘💕💕💕

Capítulo 46 - Eu sou Yara.


Fanfic / Fanfiction Era uma vez... - Capítulo 46 - Eu sou Yara.

   *6 Semanas Atrás*

 

  Por volta das vinte e três horas da noite, a Tribo da Água via-se calma e pacífica. O frescor da noite e a leve neblina davam um ar irresistível aos apaixonados pelo luar.

 

   Para alguns, momento ideal para apreciar as belezas da que aquele local proporcionava. Para outros, dormir. Mas para alguns em especial, nem um nem outro.

 

   No Castelo de Suiko, uma dessas pessoas usava do ambiente favorável - e enfim silencioso por completo - para "devorar" seu alimento favorito: uma bom livro.

 

  De velas acesas sobre a pequena escrivaninha, Yara lia concentradamente um livro que, segundo suas informações, já fora um de grande apreciação pelo seu pai, motivo que a cativava ainda mais.

 

  Porém, sua tranquilidade é interrompida quando ouve a porta ser aberta. Era Lili que, como sempre, visitava Yara para "motivá-la" a ir dormir.

 

  - De novo, Yara? Eu já não disse? Isso não é hora de estar lendo. - disse Lili ironicamente emburrada.

 

  - Mas mãe, é a melhor hora. O Castelo inteiro está em silêncio agora e é quando eu tenho tempo. - justificou-se Yara suplicante.

 

  - Sem desculpas. Quero você na cama em cinco segundos. - disse Lili malvada. - Nossa... por que você não é como o seu irmão? Ele já está dormindo à  horas!

  

  - Me desculpe... - disse Yara meio receosa do humor, sempre exagerado, de sua mãe.

 

  O rosto da morena por si só foi o suficiente para duas coisas. Primeiro para assustar a garotinha. Segundo para a mesma entender que não conseguiria convencer sua mãe mesmo com carinha de anjinho. Não que fizesse muito isso.

 

  Fechando o livro tristemente, Yara suspirou já com saudades da leitura. Lili, no entanto, mostrou um sorriso de lado, satisfeita pela obediência. Mas o sorriso também tinham outros significados. A Rainha agora apreciava a filha e seu crescimento e percebeu que, de certa forma, ela se parecia com o seu pai - pelo bem ou pelo mal - e sua maturidade a deixava não apenas preocupada, mas orgulhosa, pois Yara tinha apenas 6 anos e meio.

 

  Percebendo o olhar da mãe, Yara sorriu de volta, deixando a escrivaninha e guardando o livro.

 

  - Vem. Eu te coloco na cama. - disse Lili pegando-a no colo.

 

  Yara recebeu de bom agrado, abraçando a mãe que parecia bem menos brava.

 

  Em alguns passos já estavam na confortável cama de Yara ao qual Lili fez questão de acomodar a filha.

 

  - O dia foi muito cansativo hoje? - perguntou Yara ao ouvir um suspiro cansado de Lili. - Eu posso ajudar em alguma coisa?

 

  - Não. Estou bem. - sorriu Lili. - Você me ajudaria bastante se fosse apenas relaxar agora e dormir.

 

  - Tudo bem. Eu posso fazer isso. É muito fácil. - riu Yara.

 

   Dando um beijo da testa de Yara, Lili se despediu. Na porta, porém, não pôde deixar de dizer em um tom tenebroso:

 

  - Ah, e se eu te pegar acordada de novo, vai se ver comigo, mocinha. - disse numa ameaça que seria irônica se não fosse assustadora.

 

   Fechando a porta, a garota sentiu que enfim pôde respirar.

 

  Todavia, apesar de passar longos minutos olhando para o teto, Yara não tirava da cabeça a vontade de ler o restante do capítulo que parara pela metade.

 

  Conseguiu resistir por longos vinte minutos, porém, cedeu à tentação, desafiado o risco de morrer pela mãe que poderia ser tão malvada e assustadora, quanto gentil e engraçada.

 

  - Só mais um capítulo. - sussurrou se levantando da cama.

 

  De ponta de pés, andou pelo quarto até a escrivaninha, retirando da gaveta o livro e a vela. Estes foram levados para cama, onde acedeu a luz muito fraca e leu o livro muito escondida debaixo das cobertas.

 

  Um capítulo virava dois, dois viravam três e assim por diante. Essa brincadeira chegou a durar uma hora e meia e ela nem percebia o tempo passar ou o sono bater. Pelo contrário, sentia ansiedade em terminar o livro.

 

   No entanto, seu doce momento foi interrompido ao escutar barulhos estranhos vindos de longe do Castelo.

 

  Eram o bater de asas macabro de algumas aves que sequer deveriam estar acordadas. Haviam também estranhas vozes e ruídos distantes. Incomotada e curiosa, Yara levantou-se e correu para a janela observando a orda de pássaros fugirem da floresta ao longe. Parecia ser lá a origem das vozes e ruídos também.

 

  Forçando mais a vista, percebeu que o negro das sombras da floresta já não eram tão escuros. Tudo começava a clarear e não era o Sol que aparecia. Era, simplesmente, fogo que começava a se espalhar pela floresta, enquanto as vozes pareciam ficar mais fortes em sons de uivos e urros assustadores.

 

    A garota não entendeu bem de início, mas sabia que havia algo errado. E muito. 

 

  Foi então que percebeu que das matas flamejantes surgiam cavalarias - nada comuns às que conhecia - de homens e mulheres aparemtemente armados que gritavam assustadoramente.

 

  Não foi apenas isso. Ao observar o entorno da cidade e do Castelo, acabou percebendo os próprio soldados do Palácio abatidos e ensanguentados, mortos estavam. Não apenas isso. Assustada, viu, logo em seguida, os responsáveis pelo assassinato escalarem as paredes do Castelo e adrentarem nele sorrateiramente.

 

   Tampando a própria boca para não gritar, Yara percebeu que estavam sendo atacados. Assustada, porém reflexiva, controlou não apenas a respiração mais a si mesma, ordenando seus pensamentos e reações. 

 

  Logo concentrou-se no que era mais importante no momento.

 

  - Yu-hon... - sussurrou saindo disparada do quarto atrás do irmão.

 

     O quarto do irmão não ficava longe do seu. Na verdade, era ao lado. 

 

  No caminho, já ouvia o tilintar metálico. Sem dúvidas, já estava no Castelo e chegariam aos aposentos reais em breve.

 

   Apressou o passo e, chegando ao quarto de Yu-hon, fechou a porta rapidamente e pulou na cama do garoto que acordou com a atrás a da irmã.

 

   Ainda sonolento e confuso, começou a balbuciar:

 

  - Yara...? O que você tá faze-

 

  Antes que ele terminasse, a garota atirou-se nele, tampando-lhe a boca.

 

  - Shiii....! - sussurrava ela.

 

  - O que tá acontecendo? - sussurrou o menino ao tirar a mão da boca dele.

 

  - Precisamos fugir. Não é mais seguro aqui. - sussurrou séria, puxando o irmão da cama.

 

  - Eu não entendo. O que está acontecendo? - perguntou se levantando da cama.

 

  - Eu também não sei. - disse Yara com olhos confusos e preocupados. - Só estamos sendo invadidos.

 

  Após essas palavras, ouviram passadas pesadas. Na mesma hora, a menina puxou o irmão bruscamente e o levou até o armário, onde se escondeu com ele.

 

  No mesmo milésimo que fechou o armário, a porta foi aberta violentamente. Passos pesados circularam o quarto e logo puderam ouvir duas vozes estranhas:

 

  - Onde está o garoto? - perguntava uma ao vasculhar a cama.

 

 - Eu não sei. Ele deveria está aqui dormindo, não é? - respondeu brusco. 

 

  - Pode ter se escondido. Procure o moleque. A Rainha quer um bom refém de garantia.

 

  - Bem ousado querer logo o filho do rei, não? - riu desdenhoso.

 

  - Nós podemos, não podemos? Invadir esse Castelo foi muito fácil. - respondeu em tom de zombação.

 

  - Se essas são as defesas desse Reino, Kouka já é nossa. - riu vitorioso.

 

  De repente, uma terceira voz apareceu:

 

  - O que vocês estão fazendo aqui? Não encotraram o moleque do rei? 

 

  - Ainda não. - responderam.

 

  - Então não percam tempo, seus idiotas. Procurem! - ordenou. - Se ela não tiver esse garoto, cabeças irão rolar. Provavelmente as nossas.

 

   Yara e Yu-hon ouviam tudo do fundo do armário. Misturavam-se entre as roupas e se esforçaram para não mover um músculo ou fazer um barulho sequer.

 

  A fim de garantir isso, Yara, que era a mais velha, tampava a boca de seu caçula que mantinha uma respiração ofegante. Um sentia o outro tremer e torciam para que os estranhos fossem embora. 

 

  Enfim, ouviram os passos se distanciarem do quarto, mas não se deram ao luxo de respeitarem aliviados.

 

   Yara ainda detinha Yu-hon entre suas mãos. Mais do que tudo, queria protegê-lo e esse sentimento se fortaleceu ao ouvir que era ele que buscavam. Os fins eram o que mais a assustava. Queriam fazê-lo refém? Queriam matá-lo? Queriam torturá-lo? Yara teve a certeza de que não permitiria isso.

 

   Poucos minutos se passaram, mas ela ainda o segurava. Ouviam barulhos no exterior e decidiu que não era seguro sair. O plano de fuga era o que mais atormentavam-na. Não sabia exatamente o que estava acontecendo e se o socorro viria. Não sabia se era seguro esperar ou se deveriam ir atrás de ajuda.

 

  Enquanto pensava no que deveriam fazer, ambos escutaram novamente passos pelo quarto. Lentamente, ele se aproximava do armário e Yara arrastava Yu-hon para o fundo do mesmo. Queria deixá-lo o mais escondido possível, cubrindo-o com seu próprio corpo.

 

  Os passos chegavam mais perto lentamente e o coração latejava de tanto medo que chegava a doer.

 

  De repente, a porta do armário é aberta e as crianças não conseguiram deixar de soltar um curto grito assustados.

 

  - Shiiii. Sou eu. - disse uma voz feminina, tentando ser discreta.

 

  - Ayura... - sussurrou Yara que já usava o corpo como escudo de Yu-hon. 

 

  - Sim. - disse e as crianças saíram do armário na mesma hora. - Precisamos sair daqui.

 

  - Onde está a mamãe? - perguntava Yu-hon preocupado.

 

  - Com Tetora. Estão nas defesas do Castelo. - respondeu tentando parecer sob controle, mas a verdade era que não estava nem um pouco, mas continuou:

 

  - Ainda não sabemos quem são ou o por que estão aqui, mas vamos defender nossa Tribo até o fim.

 

  - Eu sei porque estão aqui. - começou Yu-hon meio sombrio, deixando a mulher curiosa.

 

  - Por que? Digam? - indagou curiosa.

 

  - Ayura... eles querem o Yu-hon. - sussurrou Yara num tom mórbido.

 

   Cerrando os punhos e franzindo o rosto, Atura disse decidida, transmitindo confiança:

 

  - Eu não vou permitir. Agora, venham comigo. Vou levá-los para um local seguro e logo vocês se reencontrarão com a sua mãe.

 

    Um pouco mais calmos, as crianças seguiram a mulher pelo Palácio para longe do perigo. Não antes de Ayura armá-los com pequenas adagas. Não que esperasse que usassem, mas era apenas precaução.

 

  No caminho cauteloso que tomaram, ainda haviam desafios. Ayura não escapou sem ter que matar dói ou três inimigos sorrateiramente para não chamar atenção.

 

  Nesse meio tempo, enquanto fugiam pelas sombras do Castelo, Yara olhava além dos muros e vislumbrava a vila em que nascera. Estava um pesadelo. As chamas invadiam e engoliam casas e pessoas, independentemente da idade. Vez ou outra conseguia ver além e encontrava os selvagem dilacerando as pessoas com fúria injustificável.

 

  Incrédula do que via, Yara acabou parando a corrida para observar o macabro show que se corria pelo exterior do Palácio. As mortes, o sangue, os gritos. O lugar que nascera e crescera se tornava cinza em poucos minutos de invasão de inimigos que sequer sabiam quem era.

 

  - Princesa...! Precisamos continuar...! - chamava Ayura num sussurro gritante.

 

   - Mas... Ayura... - balbuciava a menina horrorizada pelas chamas.

 

   - Vai ficar tudo bem, Yara. - disse Yu-hon tocando-lhe a mão e apertando-a carinhosamente. - Porque estamos juntos, então vai ficar tudo bem.

 

 O sorriso dele era assustado, porém sincero ao acreditar que enquanto estivesse juntos, tudo estaria bem, tudo ficaria melhor.

 

  Acenando com a cabeça, Yara deixou que Yu-hon a guiasse e seguiram Ayura juntos de mãos dadas o tempo todo.

 

   Enfim num portão traseiro, a mulher montou as crianças e partiram os três para o bosque, onde, ao julgar pela tranquilidade, estariam seguros.

 

  - Está tudo bem. Esse é o ponto de encontro com sua mãe. Ela vem para cá em breve. - explicou Ayura enquanto calvagava com os dois.

 

  Enfim no ponto de encontro, esperaram numa árvore robusta e antiga, muito visitada pela Lili na infância e seus filhos atualmente.

 

  Esperaram sob forte vigilância por meia hora. Eram uma tortura esses minutos. 

 

  Finalmente ouviram o galope de um cavalo e Ayura já entrava em gerada com suas espadas.

 

  Felizmente, com a aproximação do cavaleiro, perceberam que eram Tetora e respiraram aliviados.

 

   - Tetora. - chamou-a Ayura. Após olhar os lados e não encontrar quem procurava perguntou -  Onde está a Rain-

 

  - Onde está a minha mãe? - interrompeu Yu-hon, perguntando primeiro.

 

  - Ele não está aqui com vocês? Pensei que ela já estivesse aqui. - disse Tetora em real confusão e preocupação.

 

   Mal terminou a frase e já ouviram outro galopar. Entraram, então, as duas em guarda, mas esperançosas de reverem Lili.

 

  - Não ataquem...! - pedia o que parecia ser um guarda do Castelo. - Não ataquem!

 

  De fato, era. Galopava ainda muito ferido. As esperanças de que fosse a Rainha desapareceram, mas ao menos não era um inimigo.

 

  - Onde está a Rainha? Não veio com você? - perguntou Tetora.

 

  - A Rainha... - começou com dificuldade por causa do corte na barriga. - Nossa defesas foram destroçadas por completo...  A Rainha ainda está no Castelo... ela foi pega pelos inimigos... está nas mãos deles agora... eles podem matá-la ou pior...!

 

  Nesse momento, todos gelaram, principalmente Yu-hon e Yara.

 

  - Onde? - perguntou Yara seca.

 

  - O quê? - indagou o soldado confuso.

 

  - Onde exatamente a perderam? - indagou novamente seca. 

 

  - Estava... no lado Sudoeste do Castelo quando fomos derrotados. - respondeu.

 

  A conversa foi interrompida por um soluço de Yu-hon.

 

  - Esse pesadelo não vai ter fim...? - disse Yu-hon quase num choro.

 

   Com uma voz fantasmagórica, Yara refletia e soltava seus pensamentos de forma sombria ao olhar a destruição das chamas ao longe:

 

  - Não... não vai ter fim. Não enquanto eles não conseguirem o que querem. Caso contrário, "cabeças vão rolar", lembra? Mas não serão a deles. Serão as nossas. Do nosso povo! Da nossa mãe!

 

    - Você está sugerindo que entreguemos Yu-hon, o seu irmão? - perguntou Ayura com certa indignação pela hipótese.

 

  Horrorizada pelo entendimento que a mulher teve, Yara rejeitou com alguma ânsia.

 

  - Não! Jamais! - disse pegando na mão de Yu-hon.

 

  Pensativo, Yu-hon começou a dizer com certa tristeza, mas também coragem de decisão tomada.

 

  - Mas é a única maneira de pelo menos salvar a mamãe... eu vou! Eu tenho que ir!

 

  - Nem pense nisso, Príncipe. A Rainha Lili jamais nos perdoaria se permitissimos uma coisa dessas! - repreendeu Tetora.

 

  - Mas...! - começou o garoto.

 

  - Ei... - começou Yara pegando no rosto dele para fitá-lo nos olhos. - Ela tem razão. Não podemos entregar você. Você é o herdeiro do trono e o maior legado de Kouka. - disse com certa doçura no olhar e na voz. - É importante demais para o reino e para mim também. 

 

   Num impulso, Yara abraçou o irmão com extrema força como se fosse seu último abraço e no fundo, sabia que o era.

 

  "Meu único arrependimento é não vê-lo sendo coroado." sussurrou a garota no ouvi do irmão. Este ficou confuso com a declaração da irmã.

 

  - Ela tem razão. Escute-a. - afirmou Tetora. 

 

  - Fico feliz que concordam com meu ponto de vista. - disse Yara com certa seriedade. - Yu-hon não vai. Eu vou.

 

  - O quê? - indagaram confusos.

 

  Na mesma hora, Yara puxou bruscamente o cordão no pescoço de Yu-hon - era o emblema real - e então saiu correndo colina abaixo, sendo ajudada pela gravidade e pela inclinação.

 

  - Não! Yara! Não faça isso! - gritou Yu-hon deixando lágrimas escapar.

 

  Tentou ir atrás da irmã, mas foi segurada por Tetora, enquanto Ayura começou a correr atrás da garota que já se encontrava ladeira abaixo, escondida entre as árvores. Por mais que tentasse, na mata densa e escura, não a encontrava.

 

  O local de brincadeira da Princesa e do Príncipe eram muito bem conhecidos por eles e Yara usou isso ao seu favor, mesmo tendo se arranhado e sujado deveras na queda da descida.

 

  Corria pela noite com coração palpitante e cachos que voavam ao vento. Segurava ao peito o selo real que roubara de seu irmão, querendo chorar pelo última vez que o vira.

 

   No entanto, sua mente estava limpa e seu coração cheio de certeza. Foi com essa determinação que Yara, sem hesitar, pegara fortemente as longas mechas douradas e as partia com a pequena adaga antes oferecida por Ayura.

 

  No corte, suspirava firme, criando a coragem que precisava para fazer a coisa mais ousada que fizera. Naquele momento, morria Yara e renascia como Yu-hon, herdeiro de Kouka.

 

   Vendo os cabelos ao chão, Yara ergueu-se no chão já assumindo outra postura. Já não era mais ela própria e teve essa certeza quando viu seu reflexo numa poça de lama que era refletida pelo luar.

 

  - Eu sou Yu-hon... - dizia sombria, colocando o o cordão por volta do pescoço.

 

   Sem mais perder tempo, correu em direção ao Palácio, em direção à sua mãe. Sabia onde ela estava e como encontrá-la.

 

 

  Correu pelo caminho da volta que já conhecia e adentrou o Palácio pela muralha que parecia mais tranquilo. Isso porque, no momento, era habitada apenas por cadáveres de sentinelas.

 

  "Yara" passou pelos corpos e pelo sangue de cabeça erguida, sempre correndo. Não tinha tempo para perder com os mortos quando queria defender os vivos. Apenas correu em socorro à sua mãe, ao seu povo.

 

   Finalmente, após tanto correr sobre as muralhas, encontrou uma orda de selvagens brincando de empurra-empurra com Lili, enquanto socavam-na vem ou outra.

 

  - Essa é a Rainha de Kouka. - falava uma mulher estranha na qual todos tinham o cuidado de não encostar.

 

 Vestia-se com pele de animal, usando máscaras e chifres de viados. Essa era quem já se conhece por Wigna.

 

  - Você não é de nada! - disse a sinistra, socando Lili. - Agora me diga... onde está o garoto?! - gritou raivosa.

 

  - Vai se fuder! - gritou Lili cuspindo o sangue na máscara.

 

 - Sua...! - gritou pronta para socá-la novamente. 

 

  Vendo a cena, "Yara" logo intrometeu-se sem medo e sem arrependimentos, gritando de cima da muralha:

 

  - Estou aqui! 

 

  Logo, todos os envolvidos viraram a cabeça e deram de cara com o "garoto" que os olhava destemido. 

 

  - E quem é você? - indagou desinteressada.

 

  - Eu sou Yu-hon. - disse cheio de convicção. - Soube que estava me procurando. Bom... eu estou aqui. - repetiu.

 

  - Yu-hon?! O que você está fazendo?! Vai embora!! Corra!! - gritou Lili.

 

  - Você é o filho de Soo-Won, o Rei de Kouka? - disse Wigna com desdém.

 

  - Sou sim. Como pode ver, eu tenho o selo da família. É a mim que tem procurado. - disse levatando o queixo orgulhoso ao erguer o colar real.

 

  - Bom... eu esperava mais de você. - soltou zombeteira ao analisar o "menino" de cima a baixo.

 

  Todos tiram nesse momento, tirando sarro do "garoto", mas ele não se deixou abater. Continuou firme e orgulhoso.

 

  - Que decepção. - continuou a fazer hora. - Mas...! Já que está aqui, por que não desce para a nossa festinha? 

 

  - Eu sei que está aqui porquê me quer como refém. Mas eu não farei isso. - ignorou Wigna.

 

  - Não? - perguntou despreocupada.

 

   - Eu já mandei você ir embora! Não se preocupe comigo! Apenas vá! - continuou Lili a gritar, mas era sempre silenciada com alguma surra.

 

 - Não encostam nela! - gritou "Yu-hon". - Deixem-na!

 

  - Você não quer vir comigo e eu não quero deixar ela em paz. É justo. - retrucou Wigna bem despreocupada.

 

  - É verdade. Eu não vim me entregar. Eu vim negociar uma troca. Uma em que todos saem ganhando. - argumentou.

 

  - Todos sabemos que em negociações um lado sempre perde. - replicou.

 

  - Desde que me tenha em mãos, considera deixá-la ir uma perda? - indagou perspicaz. - Se libertar minha mãe e partir sem ferir mais ninguém, eu desço dessas muralhas e vou com você aonde quer que for. Não vou oferecer resistência, nem vou tentar fugir. Vai me ter por completo para fazer o que bem entender. - disse firme.

  

  - E por que eu simplesmente não pego você aqui e agora, enquanto mato sua mãe na sua frente e apago a "Tribo da Água" do mapa? - perguntou asquerosa.

 

  Após reflexão, "Yu-hon" já tinha a resposta.

 

   - Porque senão a minha mãe não irá morrer. Eu irei morrer. - disse apontando a própria adaga no pescoço. - Então a sua invasão, seus mortos, suas perdas não terão valido de nada. Tudo por causa do seu orgulho.

 

  - Você não faria isso. - afirmou rindo.

 

  - Você não tem ideia do que eu sou capaz. - afirmou entredentes e olhos embrasantes.

 

  No mesmo momento, ele começou a passar a adaga pelo próprio pescoço e logo sangue já começava a sair lentamente. Porém, a adaga não parava. Pelo contrário, adentrava cada vez mais fundo. Wigna ficou a olhar até onde a brincadeira iria, mas ela não parava. Sempre mais fundo, saia cada vez mais sangue e nenhum sinal de hesitação era encontrado no olhar do "Príncipe". Apenas determinação e fúria que só os corajosos ou os loucos possuem.

 

 Cada vez mais sangue, Wigna se convenceu de que não era um blefe e percebeu que se o garoto morresse tudo seria em vão e não haveria refém que valesse a pena, pois, até onde sabia, até a Rainha era irrelevante ao Rei que a abandonara.

 

  - Ah, tudo bem... - disse num tom sarcástico. - Admiro sua coragem, pirralho. Eu faço a troca. Um valor pequeno trocar a Rainha abandonada pelo sucesso de Kouka. Além disso, boa sorte em encontrar sobreviventes na sua tribo. Eu acabei com ela. - riu.

 

   Soltando a adaga, o olhar de Yu-hon permanecia firme, apenas aguardando a libertação de sua mãe.

 

  - Podem soltá-la. - ordenou Wigna.

 

  - Minha mãe primeiro. - exigiu.

 

  - Tudo bem. - riu Wigna, mas prosseguir diabólica. - Mas se você trapacear, eu mato ela no ato e arranco o seu pintinho e te faço comer ainda cru.

 

  - Não! Yu-hon! Não se preocupe comigo! - disse Lili desesperada.

 

  - Não vou trapacear. - foi só o que disse.

 

  Mesmo que procurasse uma abertura, não a encontrou. Além disso, não queria arriscar pender tudo: sua mãe, irmão e povo. Comparado a isso, "Yara" não achava valor a própria vida.

 

  Assim que Lili foi solta, Yara desceu das muralhas. Já havia aceitado seu destino. Não havia mais volta. Não havia mais arrependimento. Não havia mais nem sua própria existência, pois para proteger aqueles que amava, foi preciso deixar de ser ela mesma. Mas em nenhum momento surgiu arrependimentos.

 

  Quando recebeu sua mãe já ao chão, abraçou-a fortemente, igual fizera com Yu-hon.

 

  - Não! Você não vai! Por favor, leve-me no lugar dele! - suplicou Lili.

 

  - Calma, mamãe. - disse Yara com voz tão tranquila que parecia que iria dormir. - O futuro do país está à salvo. O legado de Kouka está seguro.

 

  - Do que você tá falando, meu filho? - indagou Lili num tom fraco.

 

  - Eu... sinto muito por não ter ido dormir mais cedo, mas eu realmente não conseguia parar de ler. - disse Yara retirando o livro do manto e entregando à Lili. - É um ótimo livro.

 

  Ao se dar conta do livro, Lili percebeu exatamente tudo. Não se tratava de Yu-hon. Nunca se tratou. Era Yara o tempo todo. Nem mesmo ela foi capaz de distinguir de primeira. Talvez por estar zonza pela surra, talvez por causa da situação agonizante em que se encontravam que suprimiu o raciocínio. Mas logo percebeu que estavam realmente idênticos.

 

  - Não... você... - Não encontrava palavras. Por quê? - chorava tocando o rosto e os cabelos cortados de Yara.

 

   Com um sorriso meigo de Yara, Lili gelou por fora e entrou em desespero por dentro.

 

   - Por Kouka. - disse antes de passar direto pela mãe.

 

  Por um momento, Lili não acreditou na realidade. Yara nem havia ainda ido embora e Lili já sentia uma dor insuportável da perda de um filho. Não iria aguentar. Não iria permitir.

 

   Por um momento, o mundo parecia andar em câmera lenta. Parecia que nada mais fazia sentido e apenas via tudo passar sem acreditar que aquilo era real.

 

  Mas, ao olhar ao redor e ver Yara caminhar sem medo pela multidão inimiga de selvagens e bárbaros, percebeu que era real. Yara não sentia medo ou remorso, mas Lili sim.

 

  - Não! - gritou inconformada.

 

  Correndo na direção de Yara que já conversava com Wigna, Lili queria impedir a loucura da filha.

 

  - Não! Não! Não! Não! - tentava alcançar Yara, mas era impedida pelos selvagens que barravam sua passagem. - Me soltem! Me deixem ir atrás....

 

 "Dela" era o que iria dizer, mas percebeu que se o segredo fosse descoberto, Yara seria morta na mesma hora. Não poderia de forma alguma permitir isso. Pelo bem ou pelo mal, não mais existia Yara; apenas Yu-hon.

 

  Vendo Yara ser amarrada e montada de boa vontade ao cavalo de Wigna, a Rainha entrava em colapso.

 

  - Não! Não! Me deixem ir com "ele"! Me deixem ir com "ele"! - se atirava, inutilmente, entre os guerreiros.

 

  Enquanto isso, Yara se distanciava cada vez mais sem sequer olhar para trás.

 

  - Não! Não! Não! Não! - gritava. - Yu-hon! Yu-hon! Yu-hon! Yu-hon! Yu-hon!

 

   Yara cavalgou escutando os gritos da mãe. Partia o seu coração ouvir sua mãe chamá-la desesperada. Partia seu coração deixar para trás seu irmão. Partia seu coração deixar para trás a terra que nasceu e cresceu e que provavelmente nunca mais voltaria a vê-la; nem as pessoas que amava. Era de partir o coração deixar de existir.

 

   Com essa dor ao peito, Yara deixou que, escondido, duas lágrimas finas caíssem pelo seu rosto enquanto ouvia sua mãe que gritava sem sequer poder gritar o nome da própria filha.

 

 

 

***

*Atualmente*

    - Y-Yara...? - indagou perplexo pelas similâncias. - É você? Yara, não é? - aproximou-se.

 

  - Não! Está enganado. Sou Yu-hon! - respondeu estampando a boca de Haru, com o pavor de quem Guarda horrível segredo. - Nunca mais me chame de Yara na frente deles. - concluiu a garota com um olhar ameaçador, cheio de seriedade.


Notas Finais


Espero que tenham gostado!
Até o próximo capítulo! 😊💕💕


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