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História Era uma vez em Bollywood - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Esta história é um crossover entre Dragon Ball e filmes de Bollywood. Ao contrário da maioria dos meus AU eu optei por realmente fazer com que ela se passe em Mumbai. A maioria dos lugares citados, de fato, existe.
A história está um pouco mais adiantada em outras plataformas, então devo atualizar constantemente até que todas estejam com o mesmo número de capítulos publicados, então, passo a publicar 2 vezes por semana.

Capítulo 1 - Do laddakkyan (Duas meninas)


Fanfic / Fanfiction Era uma vez em Bollywood - Capítulo 1 - Do laddakkyan (Duas meninas)

As pessoas do ocidente não sabem, mas Bollywood não é um lugar, embora, se você estiver como turista a Mumbai, guias fajutos possam te garantir que podem te levar até "Os estúdios de Bollywood", porque é lá, na periferia de Mumbai, nos estúdios das pequenas ou grandes produtoras, que funciona a fábrica de sonhos que produz mais de 400 filmes por ano. São esses filmes que enchem de drama, alegria, dor, romance e esperança a vida de mais de 1 bilhão de indianos (e outro tanto de não-indianos).

Foi num dos estúdios da periferia de Mumbai, no ano de 1997 que essa história começou, com uma garotinha de 5 anos, de longos cabelos negros divididos em duas tranças e pele clara, assistindo uma filmagem, encantada, sentada numa cadeira de estúdio, extremamente comportada e fascinada, porque sua mãe estava lá, sob as intensas luzes do estúdio, usando um lindo sári vermelho e dourado, pronta para ouvir o comando do diretor e começar uma cena de dança. De repente, sua mãe disse, um tanto mau humorada:

– Mas onde é que o maldito está?

Chichi, a menininha, olhou em volta, com uma carinha zangada, e viu seu pai, o diretor, se aproximar do assistente e perguntar alguma coisa. Sua mãe aguardava, de braços cruzados, exatamente na sua marcação, com uma expressão severa no belo rosto. Kyra Cutelo era uma estrela cujo nome nos cartazes sempre garantia uma enorme bilheteria para qualquer filme, contanto que ela estivesse acompanhada de seu "par perfeito e alma gêmea", o ator fanfarrão, porém muito querido pelo público, Raaja Vegeta.

Chichi nascera ouvindo a mãe reclamar de Raaja todos os dias para o pai, por isso mesmo, não suportava o arrogante galã que sempre dividia a cena com ela. Se na tela brilhavam juntos, fora dela mal se suportavam, e não tinham sequer uma relação de amizade. Mas a verdade é que o público só os aceitava em par, e nenhuma tentativa de nenhum deles estrelar filmes com outros atores jamais funcionara tão bem quanto os dois juntos em termos de bilheteria.

De repente, a porta do estúdio abriu-se e Raaja entrou. Ele era um homem de cabelos escuros e pele morena que fazia muitas mulheres suspirarem com seu rosto bonito e porte físico impressionante, porque ele era alto para um indiano, povo conhecido por ter pessoas de estatura mediana ou baixa. Ele trazia um sorriso zombeteiro no rosto e vinha acompanhado por um garotinho emburrado, de uns sete anos, que andava de braços cruzados atrás do pai.

– Isso são horas, Vegeta? – disse Kyra, muito mau humorada. – estou pronta há séculos. E você está fedendo a bebida.

– Ah, me desculpe, Kyra – ele disse, rindo – Eu confesso que tomei uns uísques no café da manhã... é que a mãe do garoto e me deixou novamente e eu não tinha com quem deixar o pirralho. Mais uma vez, aliás...

– O quê? De novo?

– Pior, dessa vez é porque ela está grávida... mas pensa que eu não sei. Daqui a pouco ela volta.

– Coitadinho – disse Kyra, autenticamente comovida porque sabia que o menino já devia ter testemunhado um sem-número de brigas entre Raaja e sua instável esposa, Fasha Sadala, cantora e herdeira daquele estúdio, uma mulher fragilizada e depressiva que separava e voltava para o marido constantemente. – Venha, querido – ela disse, estendendo a mão para ele – vou deixar você ali com Chichi. Vocês podem depois brincar juntos.

O garoto olhou para Kyra, emburrado, e disse:

– Não vou a lugar nenhum e não quero brincar com aquela guria irritante. Vou ficar aqui mesmo onde estou.

Raaja revirou os olhos e disse:

– Garoto, sente lá do lado da outra pirralha porque eu não estou com paciência para suas malcriações hoje. Se a sua mãe não fosse uma louca, tinha levado você com ela... senta o rabo lá naquela cadeira e me deixa em paz. Preciso trabalhar para pagar seus malditos videogames.

O menino olhou para o pai, ainda emburrado e então aceitou a mão de Kyra, que olhou feio para Raaja, antes de dizer:

– Se continuar tratando seu filho assim, Vegeta, ele nunca vai respeitá-lo. Você não vai ser maior que ele para sempre, viu? Venha, querido – ela disse suavemente.

Ela sentou o menino ao lado de Chichi, que o olhou com uma expressão condescendente. Ele olhou para ela emburrado e disse:

– Sua mãe é uma chata.

– Você é que é chato. Ela é maior estrela de Bollywood, Kyra Cutelo.

– Meu pai diz que ela é uma bruxa.

– Seu pai, aquele lá? – ela apontou para Raaja com o queixo e Vegeta fez que sim com a cabeça.

– Minha mãe diz que ele é um imprestável. E que a sua mãe é uma coitada por aturá-lo.

– Sua mãe não sabe de nada.

– E seu pai também não.

A gravação estava a ponto de começar, depois que Raaja estava devidamente vestido e maquiado quando um assistente de diretor gritou:

– Acudam aqui que as crianças estão brigando!

Kyra olhou na direção onde deixara o pequeno Vegeta e deu um grito. Ele e Chichi estavam embolados no chão, trocando socos e mordidas, e ela correu, junto com as demais pessoas, até os dois, segurando Chichi, que continuou tentando acertar o menino com os pés, enquanto ele tentava se desvencilhar do pai e partir para cima da menina.

– Chichi Cutelo! – gritou Kyra – que modos são esses?

– Esse nojento, maan (mamãe)!. Ele quem começou, puxando meu cabelo! Eu vou dar na cara dele!

– Você disse que meu pai é um bêbado! Eu vou te mostrar só uma coisa, sua pirralha metida!

– Ela não está errada, moleque! – disse Raaja – como é que você parte para uma briga como essa com uma menina?

O garoto olhou feio para o pai e disse, sério:

– Você também já bateu na minha mãe!

Raaja pegou ele pelo colarinho e disse:

– Eu nunca fiz isso, seu mentiroso. Sente-se aí e não crie mais problemas. Eu devia te mandar para um colégio interno. E não estou certo se é não isso que vou fazer em breve... fique quieto e não me crie mais problemas!

Kyra levou Chichi para longe do pequeno Vegeta e disse a ela:

– Ei, porque precisou socar e morder o garoto?

– Ele te chamou de bruxa e disse que eu era insuportável, mamãe – ela disse, com lágrimas nos olhos – eu odeio ele. Não quero ficar do lado dele!

– Não diga isso, não é bonito uma mocinha falar algo assim. – ela acariciou o rosto da pequena e disse – você não deve odiá-lo, ele é apenas um menino, vocês deveriam ser amigos.

– A senhora odeia o senhor Raaja. Não é amiga dele, porque eu deveria ser amiga do filho insuportável dele?

– Não, eu não odeio o pai dele... – ela disse, e viu Raaja, de braços cruzados no meio do set fazer um gesto como se ela estivesse criando problemas – Tá, eu não gosto dele e o acho irresponsável. Mas faço tudo para manter isso longe de mim, querida. É isso que uma estrela faz, e um dia você vai ser uma. – ela levantou-se e deu um bejio no alto da cabeça de Chichi – fique aí quietinha e assista a gravação, ignore o menino chato e olhe só para a mamãe. Temos que terminar tudo hoje, por causa da moção. Quando começar a chover vai ficar muito difícil de filmar, ok?

Chichi ficou olhando a mãe se afastar com o pallu, a parte solta do sári, balançando elegantemente e desejou muito ser como ela quando crescesse. E por isso, quando o seu pai, que era o diretor, gritou "gravando" ela ficou bem quietinha e observou encantada sua mãe, que dançava e fingia cantar uma música forte e movimentada que dizia:

Duas folhas caíram da árvore no outono

Dos seus galhos

Elas tinham visto muitas estações, mas caíram juntas

Para voar juntas até o vale

Essas folhas são corações

Onde estiverem, separadas vão se partir

Pois nasceram para ficar unidos...

Do coração, do fundo do coração.

(Dil Se Re, música de A.R.Rhaman do filme Dil se, de 1997)

Ela olhava para Raaja sorrindo e ele devolvia, com um olhar apaixonado. Pareciam de fato um casal maravilhoso, mas, por mais que ela entendesse que sua mãe e ele não eram um casal de verdade, que apenas encenavam aquilo tudo, Chichi ficou olhando e pensou: "Quando for a minha vez eu não vou querer fazer filmes com alguém que eu deteste como a minha mãe detesta o senhor Vegeta. Eu vou achar um par a quem eu realmente ame..."

E assim, Chichi ficou ali, quietinha, pensando em como seria esse par perfeito que um dia seria seu companheiro e verdadeira alma gêmea.

***

Dias depois, começou a temporada das monções, e as chuvas foram muito intensas castigando toda parte ocidental da Índia, principalmente Mumbai. Mas dois meninos pobres em uniformes escolares não estavam se importando muito com isso conforme corriam pelas ruas alagadas da periferia de Mumbai, pulando por partes mais altas da rua para evitar a enchente, às vezes subindo em carros parados pelas ruas. Eles apenas queriam chegar em casa.

– Kakarotto, cuidado para não chegar perto demais da beirada do carro, você pode cair e a água te arrastar. – disse o maior, um menino forte e grande para seus dez anos, que tinha cabelos muito longos.

– Eu não vou cair, Raditz! – disse o menor, que tinha seis anos recém-completos – eu me seguro em você se perder o equilíbrio.

– Precisamos nos apressar, maan deve estar apavorada. Ajeite a mochila nas costas. Não podemos perder nosso material, é muito caro, pitah (papai) disse que com nosso daada (vovô) doente precisamos economizar...

– Você que disse que dava tempo de chegar em casa antes da chuva! Não devíamos ter ido jogar cricket no campinho...

– Eu me enganei. Aqui é mais perigoso, Kakarotto... estamos muito perto do canal.

– Tô vendo... nem tem lugar nenhum seco.

– Vamos ficar um pouco em cima desse carro para ver se a chuva para e a água baixa um pouco. – disse Raditz – qualquer coisa a gente volta e tenta dar a volta pelo morro, ou pede ajuda ao professor Kame, que mora aqui perto.

– Ai ai. Tô com uma fome danada. Será que a mamãe fez palak paneer?

– Pode ser, mas vamos é tomar uma bronca antes do jantar – disse Raditz, olhando preocupado para o céu, que não dava pista de diminuir a fúria. De repente, ele sentiu Kakaroto cutucando-o e olhou. – o que é?

– Olha lá, bhaee (irmão)... não é uma menina?

Raditz olhou para o lugar para onde Kakarotto apontava e viu uma menina presa em cima de uma árvore, na parte mais alagada da rua. Podia se ver que havia um carro parado quase embaixo de onde ela estava. Ele ficou olhando para ver se havia alguma forma de chegar até lá. Viu que podia, pulando aqui e ali, sempre por cima dos carros parados, chegar até o capô do carro.

– Você fica aqui, Kakarotto!

Com muita habilidade, Raditz pulou de um a outro capô de carro, quase escorregando mais de uma vez, até onde a garotinha, que ele viu que chorava e tremia, estava. Ela era pequena e tinha um cabelo muito azul amarrado em duas maria-chiquinhas e olhos do mesmo tom. Raditz reconheceu imediatamente que ela usava roupas que pareciam muito caras e tinha uma mochila cor de rosa nas costas. Devia ser de família rica.

– Oi! – ele disse – como é seu nome?

A garota olhou para ele como se não conseguisse entende-lo e ele repetiu:

– Como é seu nome?

– Quem é você? Meu pai disse que ia conseguir ajuda e que eu ficasse na árvore... mas ele e minha mãe sumiram. Você é ajuda? – o hindi que ela falava era inseguro, como se não fosse sua língua materna e ela parecia procurar as palavras antes de falar.

– Eu sou o Raditz, e aquele lá – ele apontou para o irmão, que acenou de longe – é meu irmãozinho Kakarotto. Nós vamos achar os seus pais. Mas você não pode ficar aí em cima, vamos levar você para a nossa casa, tá bem? Meu pai é policial e vai achar seu pai e sua mãe.

A menina sorriu e pareceu se animar. Então disse:

– Está bem! Eu vou com vocês...

Ela deu a mão que Raditz estendia e ele a segurou nas costas conforme foi pulando de carro em carro, até onde Kakarotto estava. De repente, o irmão disse:

– Oi, menina estranha do cabelo azul.

A menina fez um beicinho como quem ia chorar e Raditz deu um tapa de leve na cabeça de Kakarotto, que chiou.

– Não ligue pra esse bobão. Você não disse seu nome, menininha.

– Bulma – ela disse, timidamente. A gente vai ficar aqui na chuva? Na árvore eu me molhava menos.

– Não – disse Raditz – nós vamos para a nossa casa. Kakarotto, dá a mão para ela. Nós vamos pular ali – ele apontou um muro – do outro lado é a casa do professor Kame e ele pode nos ajudar.

Ele ajudou as duas crianças menores a passar do carro para o muro e então ele mesmo subiu. O outro lado do muro, de fato, era cimentado e, como o quintal era mais alto do que a rua onde estavam, não estava alagado. Raditz ajudou os dois a descerem e gritou:

– Professor, Kame, professor, Kame, pulamos o seu muro!

Um velho careca veio de dentro da casa e gritou:

– Poderoso Lord Ganesha! Vocês estavam na rua que dá no canal? Que perigo, crianças. Que perigo.

– Nós achamos que dava para passar – disse Raditz – mas parece que encheu tudo!

– Professor, achamos uma menina de cabelo azul em cima de uma árvore. – Disse o pequeno Kakarotto, e o velho viu a menininha, que se escondeu atrás de Raditz.

– Pelos deuses... o que ela estava fazendo ali?

– Não sabemos. Vamos levar ela para a nossa casa, nosso pai pode descobrir alguma coisa – disse Raditz – ela disse que os pais dela a deixaram ali e foram pedir ajuda...

– Hum... complicado. Mas vamos ver. Vou ligar para a mãe de vocês e avisar que estão aqui. Querem um chaay quentinho?

***

O professor ligou para a mãe dos meninos, que apareceu lá tão logo a chuva baixou, gritando:

– Vocês dois ainda vão matar a sua pobre mãe do coração! – a mulher de baixa estatura e cabelos arrepiados entrou na casa como um furacão, puxando os dois meninos pela orelha – eu já disse um milhão de vezes, corram para casa assim que acabarem a escola, antes que a chuva da monção comece!

– Aiai maan, foi o Raditz, ele queria jogar cricket no campinho, depois passamos perto do cinema porque eu queria saber se tem algum novo filme de ação do senhor Rish Kapoor ou do Govinda... ai ai larga, maan! – gritava Kakarotto.

– É verdade isso, Raditz? – ela virou-se para o maior, que engoliu em seco e o professor Kame a interrompeu:

– Gine, querida, não brigue tanto com os meninos... veja, eles encontraram essa menina perdida... acho que fizeram uma boa ação trazendo-a... o Bardock pode descobrir os pais e...

– Ah, Krishna amado... que belos cabelos azuis... – ela disse, virando-se para a pequena Bulma, que a encarou com os olhos azuis arregalados – Gine aproximou-se e segurou seu rosto entre as mãos dizendo – ela deve ser estrangeira... não é comum por aqui esse cabelo e esses olhos tão azuis...

A menina olhou assustada para Gine, mas gostou dela. Quando a mãe dos meninos a abraçou e disse que iriam achar os pais dela, ela se abraçou a ela com força e pensou que era alguém em quem poderia confiar.

***

Por três dias, Bardock, o pai dos garotos, procurou pistas ou notícias sobre a menina ou seus pais. Então, num registro de hotel e depois, com o confronto de fotos e registros médicos de dois corpos que apareceram no rescaldo da enchente, descobriu a pior coisa que poderia se imaginar.

Os pais de Bulma haviam morrido. Eles eram pesquisadores estrangeiros radicados na Índia e não moravam ali, mas em Goa, do outro lado da Índia. Tinham se registrado num hotel de Mumbai com a filha quatro dias antes e alugado um carro que deveria ter sido entregue na tarde em que caíra a chuva da enchente, mas não havia nenhuma pista do que estavam fazendo em Mumbai. Se havia alguma passagem comprada para voltarem ao seu país de origem ou mesmo para Goa, ninguém sabia. Ele telefonou para a delegacia de Goa que tentou diligências, mas as poucas pessoas que lembravam do casal diziam que eles eram reservados e quase não recebiam visitas, estavam ali há três ou quatro anos numa casa alugada.

Bardock desconfiou da partida repentina do casal de Goa, mas não havia nada suspeito. Eles eram ingleses, tinham passaportes com os nomes de todos, inclusive o da menina: Bulma Burifs. Os pais eram Shorts e Penny Burifs Ele recebeu uma mala com os pertences deles, incluindo outras roupas da menina e algumas fotos e mais nada. Havia um caderno cheio de anotações e desenhos incompreensíveis que estavam na mochila da menina, mas Bardock não o entregou às autoridades, porque a menina se agarrava ao caderno dizendo que era do pai.

– Você vai ter que entregar a menina para as autoridades, Bardock – disse Toma Singh, o inspetor que havia investigado o caso junto com ele, consternado – e como ela não tem parentes, nem os registros de Goa dão nenhuma pista sobre isso, acho que ela vai parar em um orfanato... uma pena, sei, mas... ela é uma órfã, agora.

Bardock encarou Toma e disse:

– Eu não vou entregar aquela pobre menininha para um orfanato depois que Gine disse a ela que tudo ficaria bem.

– O que você pretende fazer, Bardock?

– Vou adotá-la. Vou agora mesmo pedir a guarda às autoridades. Mas primeiro, precisamos dar um funeral digno aos pais dela. Tem alguma pista sobre a religião deles? Não vi nenhuma informação sobre isso...

– Bom... – Toma olhou a ficha e disse – moravam em Goa, certo? Pelo que está marcado aqui, são anglicanos.

– Nossa... nunca conheci um anglicano na vida, mas também, nunca saí daqui de Mumbai... – disse Bardock. – descubra como é um funeral deles.

– Quem vai pagar por isso, Bardock?

– Ora, quem? Eu. Posso não ter rios de dinheiro, mas não vou permitir que os pais biológicos da minha filha adotiva sejam enterrados como indigentes ou cremados nos preceitos que não são os de sua religião!

– São muçulmanos que não aceitam cremação – riu-se Toma, que seguia o Sikh, uma denominação religiosa indiana conhecida pelos cabelos longos escondidos num turbante e as barbas e bigodes bastos sempre muito bem cuidados.

– Que seja. Vamos dar a eles o funeral adequado para a sua crença, seja ela qual for!

Foi ele quem deu a notícia à pequena. Bardock era um homem de aparência severa, no meio da casa dos trinta anos. Tinha cabelos escuros e arrepiados, que pareciam ser uma marca de sua família, e uma cicatriz no rosto, de um antigo confronto com criminosos, tempos antes. Como quase todo policial de Mumbai, ele tinha um bem cuidado bigode, preto como seus cabelos.

– Então, pequena... – ele disse, olhando nos olhos azuis, sentindo pena daquela inocência que transparecia nos olhinhos azuis dela – seu papai e sua mamãe não conseguiram ajuda... e parece que a água carregou eles. Infelizmente, eles não vão voltar.

Ela o olhou, com aqueles olhos enormes e muito azuis e ele viu a compreensão e a tristeza tomando o bonito rosto da menina, cujos olhos encheram-se de lágrimas.

– Meu papai e minha mamãe... eles morreram?

– Infelizmente, sim...

A menina o abraçou, chorando e gritou:

– E agora, tio Bardock? O que vai acontecer comigo? – as lágrimas escorriam pelo rostinho inocente, partindo o coração de Bardock, que não era muito bom nessas situações. De repente, a esposa veio em seu socorro e pegou Bulma, tomando-a no colo e a consolando num abraço quente e amoroso:

– Ah, minha pequena neelam (jóia de safira), minha safira da coroa de Khrishna... infelizmente às vezes os deuses tem seus próprios caprichos...Eu e o Bardock seremos seu papai e sua mamãe, agora, minha menininha... por favor, chore à vontade, mas saiba que vamos amá-la como se fosse nossa filha de verdade.

Bulma chorou muito, mas, aos poucos, as palavras doces de Gine foram entrando em sua mente e coração e ela foi, aos poucos, se acalmando e chorando de mansinho. De repente, disse, baixinho:

– Então... posso te chamar de maan em vez de Tia Gine?

– Sim, minha florzinha de lótus, pode – disse Gine, ela mesma com lágrimas nos olhos – claro que pode. Mas primeiro vamos mandar seus pais para o céu, como manda a religião que eles seguiam.

– Ok – disse Bulma. – Mais uma coisa, maan...

– O quê?

– Quem é Krishna?

***

Depois do enterro, Bulma ficou muitos dias tristinha. Ela foi matriculada na mesma escola que Raditz e Kakarotto, mas, no primeiro dia, sentou-se uniformizada num canto, apavorada, antes de sair com eles para a escola. Os dois irmãos se aproximaram e Raditz disse, sentando ao seu lado:

– Está com medo de ir para escola, Bulma?

– Estou... mas é engraçado. Não me lembro bem de ter ido a nenhuma escola... não me lembro direito o que é uma escola.

- Mas você tinha uma mochila nas costas e tinha um caderno dentro dela, lembra?

- A mochila era minha... o caderno acho que foi meu pai quem colocou lá antes da gente sair de casa. Não a casa aqui, a outra casa que a gente tinha...

– Bom – disse Goku, sentando-se do outro lado – talvez você nunca tenha ido a uma escola... eu comecei a ir esse ano. – ele sorriu – agora tenho 6!

– Não sei... – ela disse – mas então vamos ficar na mesma escola?

– Sim – disse Raditz – eu sou mais velho, mas você e o Kakarotto vão estudar juntos.

– E você vai ser a única menina de cabelo azul na escola! – sorriu Kakarotto – Bhaee, você acha que vão implicar com ela por isso?

– Se implicarem eu dou uma surra – Raditz era conhecido por ser valente e destemido – ninguém vai mexer com a minha pequena bahaan (irmãzinha). Ouviu, Bulminha? Você é nossa bahaan, nossa caçula. Nós sempre vamos te proteger.

– Sempre – ecoou Kakarotto.

Diante do sorriso franco dos dois novos irmãos, Bulma levantou-se e foi para a escola com eles. Não havia o que temer.

***

Muito longe dali, um homem relatava a outro:

– Então, Don Freeza... nós os pegamos, pareceu acidente da monção... Mas infelizmente não achamos as anotações... eles estavam com os documentos falsos, foram enterrados com outros nomes que não são os deles... mas eles estavam com a filha, e não a achamos. Pode ser que as anotações estivessem com ela...

– E porque ela está viva e não morta?

– Não a achamos no meio da chuva... e quem a encontrou foi um policial. É uma menininha de 5 ou 6 anos... não sabe de nada e nem vai dar problemas... e se ela tivesse sido mandada para um orfanato poderíamos ir atrás dela... mas foi adotada, entende? Por esse policial.

O homem, que usava um rabo de cavalo e era bonito, levou um tapa de Freeza, o chefe, que era um sujeito baixo e calvo com cara de poucos amigos, usando um terno inteiramente branco com uma gravata roxa e um grande anel de ouro com uma pedra de granada incrustada no anelar esquerdo.

– Isso é por você e os outros serem incompetentes... Mas a garota não interfere em nada nos nossos planos. Então vamos deixar assim... e ela está em Mumbai. Nunca vai sequer imaginar que seu pai biológico tinha trabalhado para mim, e se ninguém por aqui sabe quem são os Briefs, está tudo certo. Quando saíram há três anos da Inglaterra eles não disseram que vinham para a Índia por causa do nosso acordo de sigilo. Ela provavelmente vai receber outro nome, ninguém vai associá-la a eles e muito menos a nós. Deixa quieto, Zarbon, deixa quieto... em algum momento as anotações sobre as cápsulas vão aparecer.

– Está bem – disse o homem, esfregando o rosto onde levara o tapa e saindo.

Não era muito bom contrariar o Don, e ele sabia bem disso.


Notas Finais


1. Todos os títulos de capítulos desta história estão em hindi. Um pequeno capricho. Alguns são títulos de músicas ou de filmes, mas o capítulo 1 é uma exceção porque não achei nenhuma referência que pudesse se encaixar na história. Menina – Ladakee, que soa como "Laarqui" no singular e Laarquian no plural. Como a história quase toda gira em torno do que acontece com Chichi e Bulma ao longo dos 20 anos seguintes, Do Ladakyaan é o título que se refere a essas duas meninas.

2. Kyra não é um nome muito comum em hindi, ainda mais grafado com y, mas é um nome próprio que significa "raio de sol". Escolhi este nome para a mãe da Chichi por achar que seria bonito.

3. Já Raaja, que é o nome do pai do Vegeta, significa simplesmente "Rei" em sânscrito, a forma antiga do hindi. O pai da Chichi, que também é um rei no original se chama King, que, por incrível que pareça, é um nome próprio na Índia, graças à influência inglesa.

4. Maan – mamãe; Pitah – Papai; Daada – vovô; usarei eventualmente alguns tratamentos familiares em hindi, mas sempre que aparecer pela primeira vez num capítulo colocarei a tradução num parêntese logo a seguir.

5. Cricket é o esporte nacional indiano, herdado dos ingleses, que se joga numa formação semelhante ao baseball, mas com tacos diferentes. O maior

6. Palak Paneer é um prato típico hindu que consiste em um bolas de massa de queijo ensopadas ao molho de espinafre, é servido com o pão típico indiano (que se chama naan ou chapati, dependendo da região da Índia). É um prato vegetariano muito popular em Mumbai, onde é feito com queijo de cabra caseiro. O paneer, queijo indiano caseiro bem ácido, à base de leite de vaca ou cabra, é a base de muitas receitas da culinária hindu. Chayy é chá preto com leite e especiarias.

7. Neelan, como a Gine chama a Bulma, é um nome próprio indiano que significa safira ou azulada. Neela, puramente, significa "azul".

8. Uma breve explicação: nos filmes indianos, os atores raramente cantam realmente, a maioria é dublada por cantores profissionais. Por isso Kyra e Raaja fingem cantar.

9. Quando aparecerem músicas em hindi na história, sempre aparecerão traduzidas. Dil Se Re (do fundo do coração), do filme Dil se (do coração), é uma música que fala de almas gêmeas, conceito obsessivamente presente no cinema indiano. O filme Dil se conta a história de um rapaz que, estando com o casamento arranjado, se apaixona (e é correspondido) por uma jovem da Caxemira, que na verdade é uma terrorista numa missão suicida. O clipe, do filme de 1997: https://youtu.be/YwfCMvo19s8
10. "Don" é um título usado para criminosos na Índia, e veio de um filme, "Don", filmado em 1978 com Amithab Bacchan no papel principal, um chefe mafioso chamado "Don". Junto com Deewar (o muro) e Sholay (brasas) são os três filmes que definiram o estereótipo do "bravo jovem indiano", personagem másculo recorrente nos filmes de Bollywood. Don teve uma refilmagem em 2006 com Sharukh Khan no papel de Don, que ele reprisou em Don 2, de 2011. É um exemplo perfeito do filme indiano do gênero masala, que mistura drama, ação, comédia e romance.

11. A Índia é majoritariamente hindu, mas há muitas religiões que são professadas no subcontinente indiano, como o Islamismo e o Jaina, uma versão mais ascética e rígida do hinduísmo. No capítulo o Toma, companheiro de trabalho de Bardock, aparece como um Sikh, uma religião que surgiu da união ideológica do Islamismo com o Hinduísmo professada no livro Adi Granth, escrito pelo guru do Sikhismo, Baba Nanak. A crença central do Sikhismo é a tolerância e a igualdade, e na Índia o Sikh tende a agir como moderador nos conflitos entre a maioria hindu e os muçulmanos.


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