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História Era uma vez em Bollywood - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Maahi-ve, Maahi-ve (Minha amada, Minha amada)


Fanfic / Fanfiction Era uma vez em Bollywood - Capítulo 2 - Maahi-ve, Maahi-ve (Minha amada, Minha amada)

Mumbai, abril de 1999

Muitas estrelas de Bollywood morreram ainda jovens. Madhubala morreu de uma doença cardíaca incurável aos 36 anos, no auge de uma carreira de sucesso; Meena Kumari terminou de filmar Pakheezah e faleceu por problemas decorrentes do alcoolismo, aos 38 anos; Smita Patil faleceu aos 31 anos ao dar à luz seu primeiro filho. Nutan e Nargis morreram já não tão jovens, ambas na casa dos 50 anos, porém, suas mortes foram dolorosas e sentidas... Todas, algumas das maiores estrelas, foram choradas, lembradas por anos e anos depois de seus desaparecimentos.

Mas ninguém estava preparado para a morte de Kyra Cutelo aos 33 anos e para a tragédia que se seguiu depois.

Era a temporada de filmagem pós-Holi, o festival das cores, e ela estava filmando mais um romance em parceria com Raaja Vegeta, uma nova história de amor baseada num romance clássico do século XIX, "Maahi-ve, Maahi-ve". Ela era a linda cortesã por quem o Marajá se apaixona, num filme que havia sido planejado 25 anos antes para outra atriz, que morrera jovem sem chegar a filmar a história.

Chichi estava na escola e King Cutelo, que dirigia a esposa em mais um filme, tinha saído cedo para preparar as filmagens e ela pegou seu carro conversível, uma Ferrari 1995, vermelha, e saiu rumo aos estúdios Sadala. Kyra não era uma má motorista e nem era de correr muito, mas, numa curva da estrada que levava da sua casa, na famosa praia de Chowpatty até o estúdio, na periferia Oeste de Mumbai, ela colidiu de frente com um caminhão que fazia uma ultrapassagem perigosa na contra-mão.

Raaja Vegeta estava a caminho do estúdio, atrasado como sempre. Ele andava mais tranquilo que antigamente. Sua esposa Fasha voltara para casa e dera à luz o pequeno Tarble, segundo filho do casal, e ele, cansado das indisciplinas do pequeno Vegeta Jr., mandara o menino para um colégio interno prestigiadíssimo no rico município vizinho, Navi Mumbai. Mas isso seria até os 11 anos, quando o enviaria para outro colégio interno ainda mais caro e exclusivo, em Londres ou na Suíça, de onde ele só voltaria – se voltasse – aos 18 ou 22, dependendo se faria ou não faculdade na Europa. A vida dele já estava toda decidida pelo pai.

Raaja havia acabado de deixar a estrada que seguia para o norte depois da praia de Juhu, onde ele morava, quando o trânsito parou de vez e ele buzinou, irritado. Foi quando um pedestre no meio da multidão que se acumulava no caminho até o acidente o reconheceu:

– Veja, veja! – gritou o homem – é o senhor Raaja Vegeta! – ele tentou virar o rosto e não ser reconhecido, puxando os óculos escuros mais para cima, quando ouviu o homem completar – céus, que choque será para ele perder sua grande estrela...

Raaja olhou para o homem, assustado, e baixou o vidro da sua enorme Land Rover preta e perguntou:

– Do que você está falando, criatura?

– É ela, senhor, é ela... a nossa grande estrela, Kyra Cutelo... é ela que está lá na frente, debaixo daquele caminhão...

Raaja saltou do carro imediatamente. Ele correu os 500 metros que o separavam do acidente com o coração aos saltos. Os bombeiros e paramédicos acabavam de tirar Kyra do que sobrara da Ferrari. As pessoas quando o reconheciam, abriam caminho. Kyra estava ensanguentada, seus belos e longos cabelos pretos tinham precisado ser cortados para retirá-la das ferragens do acidente.

– Ela está viva? – ele perguntou aos paramédicos – ela vai sobreviver?

O homem reconheceu o grande astro e disse, num tom bem baixo:

– O estado dela é desesperador... sabemos quem o senhor é. Pode entrar em contato com o marido dela? Pode ser que não haja tempo sequer para uma despedida...

– Ah, poderoso Krishna! – ele disse, e pegou o seu imenso celular para ligar imediatamente para Cutelo, que, alheio àquilo tudo terminava a preparação para as filmagens finais da produção. Celulares não eram tão comuns nem funcionavam tão bem na Mumbai de 1999, mas depois de um tempo, ele conseguiu sinal e o diretor atendeu – Cutelo, houve um acidente – as pessoas em volta choravam ouvindo o desespero do grande astro – Kyra, Cutelo, Kyra sofreu um acidente...

– Diga a ele que a estamos levando para o Hospital Nanavati– disse o paramédico – mande-o ir direto para lá.

Ele disse as instruções para o marido da estrela e soube que, por ser parente, não poderia ir na ambulância ao lado dela. Ele então perguntou a um dos paramédicos se ela estava consciente e ele disse que talvez, não era tão provável.

– Deixe-me despedir dela...

Os paramédicos consentiram, e ele segurou a mão de Kyra, que já olhava o vazio, perdida entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Raaja Vegeta então debruçou-se sobre ela e sussurrou ao seu ouvido, achando que ninguém ouviria:

– Maahi ve, Maahi ve... por que me deixou?

Kyra apertou os dedos de Raaja e seus olhos se encontraram por um instante, antes dela fechar os dela para sempre.

Os paramédicos se entreolharam, cientes do escândalo que seria se aquela cena vazasse, e correram para levá-la para dentro da ambulância. Raaja voltou, arrasado, para seu carro, mas em vez de seguir com o carro para o hospital, deu meia volta porque queria ir para qualquer lugar deserto onde pudesse gritar de dor e desespero... porque a única mulher que ele de fato amara em toda a sua vida, sua Maahi ve (amada), morria naquele minuto dentro de uma ambulância, a caminho de um hospital em Mumbai.

***

Ninguém soube quem contou, ou como aquele sussurro apaixonado vazou, mas, o fato foi que, no dia seguinte, a maior história do dia não era apenas a morte de Kyra Cutelo, mas a confissão de amor de Raaja Vegeta a ela, que estampava todos os jornais de fofocas no dia seguinte, em letras garrafais: MAAHI VE, MAAHI VE... POR QUE ME DEIXOU?

A fala não era conclusiva, e nem mesmo denunciava nada além de que Raaja Vegeta nutria sentimentos pela falecida estrela... mas a grande pergunta era: seria ele correspondido? Tudo isso manchou de cinza os funerais da estrela. O diretor King Cutelo pediu a todos compreensão e privacidade naquele momento tão delicado, mas o telefone não parava, as pessoas queriam saber, não paravam de perguntar, se ele sabia dos sentimentos de Raaja Vegeta para com a sua esposa.

E era claro que ele sabia. Há muitos anos ele sabia.

King Cutelo não era idiota. Anos antes, quando os três eram muito jovens e ele também era um ator, mas por sua aparência comum, dedicado às comédias, sempre em papéis secundários, ele trabalhara no primeiro filme que Raaja e Kyra haviam protagonizado. Raaja logo apaixonou-se por Kyra e foi intensamente correspondido. King via, com tristeza, Kyra e Raaja sempre unidos, e como os dois ainda eram adolescentes, o romance era um segredo de estado em Bollywood. Claro que King apaixonou-se por Kyra também, mas pensava que jamais a conquistaria. Foi quando se interessou por direção e foi chamado para ser assistente de um diretor querido e famoso.

Kyra e Raaja estrelavam o quarto filme juntos quando Raaja a traiu não apenas com uma, mas com várias garotas do coro. O flagrante rendeu um escândalo que ficou interno e foi totalmente abafado. Kyra, aos 19 anos, tentou imediatamente sair da produção, mas para efeito civil ela só seria maior de idade aos 21 anos, e as regras eram muito rígidas, muito severas, era impossível abandonar uma filmagem no meio do contrato, e ela engoliu o choro e a humilhação e levou o compromisso até o fim.

O filme foi um sucesso instantâneo, e Raaja achou que ela o perdoaria, mas ouviu um sonoro não quando perguntou se eles poderiam retomar o namoro. Kyra não o queria mais, e foi a vez dele amargar a dor do coração partido. O primeiro filme de King Cutelo como assistente de direção, no entanto, foi um sucesso, e ele foi escalado para dirigir um filme da dupla de ouro Raaja e Kyra. Durante as filmagens, se aproximou, com seu jeito engraçado e bonachão, da linda estrela e o improvável aconteceu: Kyra e ele casaram-se depois de um namoro tradicional, sem contato sexual, quando ela tinha 22 anos e ele 26.

Raaja jamais se perdoou por ter perdido Kyra, mas ela nunca mais o enxergou com os olhos apaixonados que tinha aos 16 anos. E para ele era uma tortura maior que todas manter-se sempre perto dela, por isso tinha o comportamento rebelde e irascível que o tornou conhecido como astro-problema.

***

Logo depois dos funerais e da cremação de Kyra, Cutelo o procurou. Ele estava só, retirado em sua casa na praia de Juhu, sem a mulher ou os filhos. O escândalo havia, mais uma vez, afastado Fasha dele. Suspirou ao ver Cutelo parar o carro na porta da casa. Era uma conversa dolorosa e inevitável.

– Eu vou voar até Vaaranasi, amanhã para jogar suas cinzas na escadaria do sagrado Rio Ganges, como ela sempre quis, afinal, ela era de lá... – ele disse, sem ao menos dizer bom dia – e seria bom que você fosse. Sabe que temos um avião. São menos de duas horas de viagem...

Raaja não conseguia encarar Cutelo depois de tudo ter sido revelado e disse:

– Não acha que vai ser um escândalo?

– Bem, nada pode ser pior do que já aconteceu até agora. Não sei se percebeu, mas todos pensam que você tinha um caso com minha esposa.

– Você sabe que isso é...

– Eu sei, Raaja, sei de tudo, na verdade. Por isso mesmo que eu a perdoei por nunca ter deixado de te amar, porque ela me amou mesmo apesar da paixão por você, que nunca se apagou de verdade no coração dela. – ele olhou para Raaja como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas foi o astro que disse:

– Eu não tentei mais nada depois que...

– Sim, eu sei que você desistiu quando ela engravidou... E é apenas por isso que quero que você vá comigo, porque você desistiu dela. Ajude-me a espalhar as cinzas dela e declare que a amou muito, mas que ela jamais o amou de volta. Vai ser bom para a sua carreira e para a minha, e vai ser melhor ainda para minha pequena Chichi, que não merece crescer com essa sombra de suspeita...

– Bem... eu o entendo. Eu o ajudarei, King.

– Vai ser difícil achar outra estrela como ela, não? Para fazer par com você.

– Sei disso, tanto que nem vou tentar. – ele olhou para o rosto de Cutelo, que parecia surpreso – eu vou migrar para a produção de filmes, já não sou tão jovem, não quero ser obrigado a contracenar com meninas novinhas. E podemos ser parceiros. Eu sou muito bom com essa coisa de dinheiro. E você é um diretor genial.

– Tem certeza, Vegeta?

– Absoluta. No momento certo, podemos lançar a sua filha como sucessora de Kyra. Ela é realmente a imagem da mãe, destinada a fazer o mesmo sucesso.

– E quando ela precisar de um par, vai ser quem? Espero que não o seu filho.

– Quem sabe? Vegeta Jr pode nem querer seguir essa carreira.

– Vamos deixar que o tempo responda. Mas é melhor não. Há muitos jovens em Bollywood, ela pode ser par com outro. Deixemos que o tempo decida.

– Isso mesmo, vamos deixar para o tempo responder.

***

Chichi olhava para o mar, da Baía de Mumbai, entristecida. Sua mãe era a mulher mais linda do mundo, mas agora não estava mais ali para consolá-la nos momentos tristes e nem para dar beijos ou fazer cosquinhas que a faziam rir.

Ela tinha apenas 7 anos, nenhum irmão, nenhum amigo na escola. De repente, o pai aproximou-se dela. Ele nunca havia sido como sua mãe, não era um homem carinhoso, mas estava sempre preocupado com sua pequena. Ele aproximou-se e disse:

– Minha pequena flor de lótus... eu sei como é triste.

Ela o encarou com os enormes olhos negros e disse:

– Pitah (papai), a maan (mamãe) amava aquele homem?

– Não, minha filha. Sua mãe não o amava. Ela amava muito a nós dois. Ele que confundia as coisas.

– Eu o odeio. Maldito.

– Não o odeie. Ele vai produzir seu primeiro filme, minha doçura...

Ela ficou olhando para o pai, intrigada. Achava que filmes eram coisas de adultos.

– Filme, pitah? – ela perguntou e ele sorriu.

– Nós escolhemos um grande roteirista e ele escreveu um papel especialmente para você. O nome do filme é Princesa Shanti. E você será a princesa. Vamos começar a preparar a produção e você vai estrelar quando tiver nove anos.

Ela balançou a cabeça para os lados e disse:

– Então... eu vou ser como a maan... mas sem um senhor Raaja? É isso, pitah ?

– Exatamente, pelo menos até você ter idade para ter um par romântico.

– Eu não quero um par romântico, pitah . Meninos são nojentos.

– Você não terá pares românticos enquanto não crescer o suficiente.

– Ótimo – ela disse, pensando "Não quero crescer nunca".

– Você sabe o que a senhora Uranai fez hoje, minha pequena sitaara (estrela)? – ele disse, sorridente, porque queria ver sua menina sorrir pelo menos um pouco.

– Não, pitah ... – ela disse, intrigada. O pai nunca comentava o menu do jantar ou do almoço.

– Gulab Jamum (um doce)! – ele disse, sorrindo deliciado ao pensar nela comendo seu doce favorito. Chichi então olhou-o desconfiada e disse:

– Mas ainda não jantei, Pitah... Maan nunca me deixava comer doce antes de jantar, e só deixava eu comer doces se eu comesse algo saudável como lentilha ou couve flor...

– Minha shahad (doçura), papai hoje acha que você pode comer o doce que mais gosta... e a maan não vai se importar, lá de onde ela está te olhando.

– Está certo, papai... mas antes eu quero comer chapati com thali (prato vegetariano com arroz, grão de bico, lentilha e iogurte). A comida favorita que maan fazia para mim! – ela abraçou o pai, que, então, não conseguiu conter as lágrimas. Não tinha sido à toa que decidira chamar os filmes de "princesa Shanti (benção)". Chichi era a maior benção em sua vida, sem a qual ele não suportaria a perda da esposa.

Dois anos depois, ela estreou o primeiro filme como a princesa aventureira Shanti. E foi um sucesso imediato. Todas as meninas da Índia queriam ser como a destemida e aventureira princesa, herdeira de um reino que estava sempre ameaçado pelo vilão Kabir Shankara, interpretado pelo grande ator Piccolo Daimaoh.

O enredo poderia parecer bobinho, mas a pequena Chichi interpretava brilhantemente a menina, depois a adolescente, que derrotava sempre os planos do terrível Kabir, sempre querendo destronar seu pai, o rajá Radesh, interpretado pelo próprio pai dela, que decidiu voltar para a atuação brevemente, lembrando seus tempos de comédia, porque o rajá era extremamente engraçado.

E por sete anos ela estrelou filmes de aventura, dançando e cantando (na verdade a voz era de uma cantora bem mais velha que conseguia fazer a voz de uma criança) e cresceu em frente às câmeras.

Mas quando ela estava com 16 anos os fãs já não se contentavam em ver Shanti dançando e cantando e derrotando o velho e já cansativo vilão Kabir Shankara. Eles exigiam um romance para a jovem princesa.

E foi quando os problemas de Chichi começaram.

Delegacia do distrito de Sangam Nagar, Mumbai, abril de 2004

Num velho computador da delegacia, o inspetor de primeira classe Bardock Saiyajin olhava um arquivo morto de um acidente ocorrido sete anos antes.

Bardock nunca aceitara completamente a ideia de que os pais biológicos de sua pequena neelam (safira) como ele chamava sua adorável filha adotiva, Bulma, tinham sido simples vítimas das moções.

Um pressentimento que não o enganava dizia que havia mais, porque os pais dela haviam sido encontrados de uma forma muito suspeita... não tinham recursos forenses avançados no departamento de homicídios, mas, mais de uma vez Bardock observara as fotos dos corpos, que olhava naquele momento, agora digitalizadas, e achara que, mesmo com os corpos um pouco sujos de lama ele podia distinguir marcas no pescoço de ambos.

Marcas de estrangulamento.

Nada podia confirmar a sua suspeita, mas ela existia. Quem eram os pais de Bulma, afinal? Não eram indianos de nascimento, embora aparentemente estivessem ali desde antes do nascimento de Bulma, e apenas alguns dias antes de suas mortes, eles haviam se mudado de Goa para Mumbai. Havia algo estranho, ele podia sentir... mas não tinha certeza do que era. Ele achava que talvez estivessem fugindo de algo ou alguém. Talvez nunca soubesse, mas não era isso que o faria desistir de tentar descobrir.

Enquanto ele olhava os arquivos pela enésima vez, um outro policial perguntou:

– Bardock, esse é o caso dos pais biológicos de sua filha?

– Sim, é – disse Bardock, distraidamente.

– Ela está com quantos anos agora?

– Ela? Doze – o rosto de Bardock se iluminou num sorriso – muito inteligente, melhor aluna da turma... se não fosse por ela, Kakarotto jamais passaria de ano, sabia? Amo meu filho, mas ele é muito lerdo na escola, Bulma o ajuda muito. – ele disse, sacudindo a cabeça e rindo.

– Por que estava olhando o arquivo do acidente dos pais dela, Bardock? – o outro perguntou, quase que casualmente.

– Ah... apenas uma cisma que eu tenho, Nappa – ele riu – não é nada sério.

Ele fechou os arquivos e encerrou o acesso. Napa balançou ligeiramente a cabeça e saiu do recinto.

– Eu acho que ele tem alguma suspeita... – Nappa dizia ao telefone, horas depois, fora da delegacia.

– Isso é relevante como? – disse a voz do outro lado.

– Pode chegar no seu chefe, sabe? Uma coisa pode levar a outra.

– Entendo... você encontrou o caderno que nós te perguntamos, o caderno do homem morto?

– Não... Bardock nunca me falou em caderno nenhum, Zarbon.

– Entendo. E ele está fuçando a história dos defuntos. Isso não é algo bom.

– Então, a informação vale alguma coisa? – a voz do homem era ansiosa, cheia de ganância.

– Pode ser que sim, pode ser que não – o homem do outro lado soava vago. – não é muito auspicioso matar um policial...

– Quem falou em matar? – perguntou Nappa, nervoso. – eu só queria saber se a informação interessa...

– Se interessar, você vai saber, Nappa. Você é um bom informante.

Seis dias depois, a delegacia recebeu um chamado, Uma suposta venda de drogas próximo a pequeno conjunto habitacional, perto dali. Um lugar tranquilo, nada violento.

– Vamos, Nappa? – Bardock colocou sua pistola no coldre e se aproximou do carro – quem dirige?

– Você. – o outro disse, distraído – estou de saco cheio dessa viatura velha.

– Ok, disse Bardock... mas depois quero uma forra. Vai me pagar Samosas na barraca da rua principal quando voltarmos.

– Feito – riu Nappa. Os dois entraram no carro e partiram.

Era uma fábrica de bolsas abandonada. Tinha sido invadida numa época não muito distante, mas o dono expulsara os invasores e cercara tudo com arame farpado. Eles iriam investigar apenas por fora, não podiam entrar, não havia saído o mandado de busca em tempo hábil. Eles saltaram, não parecia nada diferente de outras vezes que haviam estado ali, por denúncias quando estava invadido.

– Denúncia falsa, provavelmente – disse Bardock, olhando para a fábrica, vendo o cadeado da entrada enferrujado e a aparência de que ninguém abria o portão há tempos. – mas podemos tentar um mandado para abrir o...

Um barulho de clique chamou a sua atenção e ele virou rapidamente, na direção de um terreno baldio bem atrás dele. Não houve tempo de reação nem para ele e nem para Nappa. Uma rajada de tiros varou os dois policiais, que caíram imediatamente. Então, um homem alto, de olhos verdes e rabo de cavalo se aproximou. Bardock ainda tentou puxar sua pistola do coldre, mas o outro foi mais rápido e atirou no seu coração, matando-o. Nappa sequer deu o mesmo trabalho. Ele havia caído morto na primeira rajada.

Mas por garantia, Zarbon, o bandido, deu um último tiro que estourou sua cabeça careca.

Alguns dias depois, num templo às margens do Rio Mith, uma mulher, duas crianças e um adolescente se preparavam para despejar nas águas as cinzas de Bardock e pediam à deusa da morte Kali que Krishna que o guiasse em direção à sua Luz, a Brahma para que o julgasse com olhos amorosos e à grande mãe Lakshimi que um dia o conduzisse de volta e fosse generosa com ele na sua nova vida.

Raditz segurava as cinzas do pai, compenetrado. Durante a cremação coubera ele, agora com 15 anos, ler os mantras, fazer a pooja (oração) e ter a dolorosa tarefa de quebrar o crânio do pai na pira ardente para liberar sua alma purificada pelo fogo, porque, independente da sua pouca idade, ele era o homem mais velho da família. Agora ele via a sua mãe segurando o retrato do pai tristemente e pensava que deveria protege-la, mas sem saber muito como. Para não pensar mais nisso, Raditz deu dois passos decididos e deixou fluir para as águas as cinzas de Bardock.

O pó do que um dia fora o corpo de um pai amoroso e policial competente se misturou às águas diante dos olhos marejados de sua esposa. O filho mais velho permanecia emburrado e os dois mais novos se abraçavam, desolados. Então, a mulher levantou a cabeça, deu um beijo no retrato do marido que ela guardaria a partir daquele dia, o último em que se permitira chorar por ele e disse:

– Vamos para casa, bachche (filhos), seu pai não gostaria que nós ficássemos aqui vertendo água dos olhos como os filhos desolados do grande Ganesha...

– Maan – disse Raditz, preocupado – o que será de nós?

– Tem o seguro e a pensão do seu pai. E eu não tenho medo nenhum de trabalhar – ela sorriu para o filho mais velho, enxugando as lágrimas que teimavam em descer dos seus olhos – e não vai faltar nada para vocês. Vamos que temos ainda que andar até a estação de trem.

O menino sorriu de volta, mas não teve certeza se a mãe falava a verdade...


Notas Finais


1. Nenhum filme indiano me levou mais às lágrimas do que Paazezah, que eu cito no início do capítulo. Depois dele, Mother India e Mughal-e-Azam são os filmes indianos antigos que mais me emocionaram, e todos eles tem algo em comum: uma sofrida protagonista feminina. A mãe de Chichi é um amálgama de todas essas divas antigas de Bollywood na minha cabeça, porque muitas delas tiveram em suas vidas reais grandes dramas não muito diferentes do que começa este capítulo.

2. A estrada que leva do centro de Mumbai até a periferia, a rodovia Oeste, sofreu reformas de modernização há alguns anos, ganhando trechos longos em pontes sobre o Mar da Arábia, braço do Oceano Índico que banha o lado Oeste do subcontinente indiano, mas em 1999 ainda tinha longos trechos em mão dupla ao longo da costa escarpada do Oeste de Mumbai. É nessa estrada, que só conheço da primeira versão do filme Don, de 1978, que imaginei o acidente.

3. O amor de Raaja por Kyra era seu grande segredo, é Maahi ve é uma expressão do dialeto Punjab que é uma significa, literalmente, "Amada". A inspiração veio de uma música do filme de 2003, Kal ho naa ho, que foi meu primeiro contato com o mundo de Bollywood. Na verdade não existe nenhum romance com esse nome, foi uma invenção minha. Mas fiquem com a música Maahi ve, que, ao contrário do capítulo, é bem alegre:
https://youtu.be/1BWdglekty0

4. Varanasi, às margens do Ganges, é o destino de muitos viajantes para despejar cinzas de seus parentes mortos e oferendas à deusa Ganga, encarnação divina do Ganges na religião hinduísta. É bem longe de Mumbai, cerca de 1600 km de distância. Há muitas reportagens e relatos sensacionalistas de blogs e outras fontes ocidentais falando mal de Varanasi, e dizendo que lá "o Ganges é cheio de corpos em decomposição" e outras bobagens do gênero. A verdade é que essas postagens juntam várias fotos de reportagens indianas muito gráficas de quando, eventualmente, um corpo inteiro é encontrado (normalmente fruto de algum funeral clandestino) e mostram tudo de uma vez, dando uma impressão errada de uma frequência maior do que a, de fato, ocorre. O Ganges é o rio mais poluído do mundo, mas isso não significa que Varanasi seja uma cidade onde a cada metro você vá ver um cadáver boiando no rio.

5. Funerais indianos são longos, complicados e envolvem várias etapas, da limpeza do corpo à cremação e posterior aspersão das cinzas em águas correntes, mas eu preferi não detalhar muito os dois funerais desse capítulo. Cabe saber apenas que é um ritual presidido por homens, e, no caso de Bardock, Raditz teria essa tarefa desde o momento da preparação do corpo até o recolhimento das cinzas, e seria o único autorizado a portar a urna com as cinzas do pai até o momento da aspersão. O que para nós pode parecer um costume bárbaro, quebrar o crânio do falecido enquanto as chamas o consomem, para hindus é algo perfeitamente normal e ajuda a "purificar" a alma do falecido.

6. Indianos gostam de doces muito aromáticos e açucarados. O que é citado nesse capítulo, o Gulab Jamum, é um doce peculiar: normalmente feito com leite, leite em pó, semolina e manteiga clarificada e aromatizado com cardamomo, depois frito e mergulhado em uma calda perfumada com anis-estrelado e água de rosas. Essa configuração de fritura + calda é comum em outros doces, como o malpua, que é também à base de leite mas tem forma de panqueca e o jaleebi, que é uma espiral de massa de grão de bico frita em manteiga clarificada e mergulhada em calda doce.

6. O Thali é um dos pratos vegetarianos mais populares da Índia, que mistura grão de bico, lentilhas, arroz, e outros tipos de grãos com molhos muito condimentados. É acompanhado pelo tradicional pão indiano frito, que se chama chapati ou naan, dependendo da região, e é feito praticamente na hora da refeição para chegar quente e macio à mesa.

7. No próximo capítulo, esses dois mundos praticamente separados, o da jovem estrela Chichi e o do menino pobre Kakarotto (que em breve será chamado de Goku) praticamente colidem, e nossa história realmente começa.


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