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História Era uma vez em Bollywood - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Kuch Kuch Hota Hai (Alguma coisa acontece)


Fanfic / Fanfiction Era uma vez em Bollywood - Capítulo 3 - Kuch Kuch Hota Hai (Alguma coisa acontece)

Depois da morte de Bardock, Gine recebeu o seguro (que não era tanta coisa assim) e decidiu se mudar com os filhos do apartamento de classe média que ocupavam num conjunto para uma pequena casa, na região de Andheri East, mais pobre que sua vizinhança anterior, sabendo também que deveria começar a trabalhar de alguma forma. Mas, na primeira semana em que procurou trabalho ela constatou que seria muito difícil complementar a renda que tinham quando Bardock era vivo sem trabalhar horas intermináveis fora de casa.

Gine estava firme, sabia que precisava se manter de pé. O status das viúvas indianas costumava ser o pior possível: na cultura hindu do passado acreditava-se que uma viúva deveria renunciar à vida depois da morte do marido, um costume antigo que, mesmo em grandes cidades como Mumbai, onde ele não era mais incentivado desde antes da independência, custava a morrer de vez. Bardock e ela não tinham mais os pais vivos, então, ela assumia que agora ela era a cabeça da família e cabia a ela e somente ela a difícil missão de criar e educar as suas três crianças. Precisava de uma ocupação que permitisse a ela viver e não negligenciar seus filhos numa idade tão complicada.

O seguro de Bardock e a diferença que ela apurara com a venda do apartamento e a compra da pequena casa periférica ajudariam por algum tempo, mas as pensões às viúvas tinham sido reduzidas alguns anos antes, por um político que prometera ajudar a todos mas só trouxera desgraças. Gine pensava nos três filhos, em como iria sustentá-los dali em diante. Já não pagavam aluguel, é verdade, mas eles estavam os três estudando, e os materiais, uniformes e tudo mais... e ela teria que pagar por tudo com cerca de 2/3 do salário que Bardock recebia como policial, que já não era nenhuma fábula.

Raditz, de 16 anos, dissera a mãe logo depois da morte do pai que estava pronto para parar de estudar e trabalhar, Mas Gine ralhou com o filho e disse que ela e Bardock tinham o ideal de ter três filhos com os estudos completos e que ela não aceitaria que ele parasse os estudos. O rapaz fez cara feia mas não quis contrariar a mãe de imediato. Na sua cabeça, porém, ele deveria ser responsável pelo sustento da família como homem mais velho da casa.

Ela podia sentir-se desanimada, porém, ao chegar em casa naquele dia, depois da interminável maratona de entrevistas de emprego infrutíferas onde ela percebera o olhar de desprezo dos entrevistadores diante do seu sári branco de mulher enlutada, Bulma e Kakarotto a abraçaram correndo, felizes por tê-la de volta depois de um dia inteiro. Ela sorriu. Havia estado com eles o tempo todos desde que Raditz e Kakarotto tinham nascido e desde que Bulma se tornara a filha amada com que havia sonhado. Raditz se aproximou, mais preocupado e disse:

– Conseguiu alguma coisa, mamãe?

– Ainda não, meu filho... mas é difícil, sabe? Eu só trabalhei num call center há muitos anos, quando conheci seu pai, e meu inglês anda bem enferrujado. Mas vou continuar tentando – ela sorriu para o mais velho, que estava se tornando um rapaz bonito e muito alto, agora que a fase de ser um adolescente estranho estava passando.

– Maanmaan (mamãe), tô com fome – choramingou Kakarotto – O Raditz fez o pior frango tandoori da minha vida, mamãe... e o chapati (pãozinho caseiro) dele é seco e duro...

– Você só reclama, mas aprender a cozinhar que é bom... – disse Raditz, olhando feio para o irmão.

Kakarotto mostrou a língua para o irmão e disse:

– Mamãe, faça Pani Puri (bolinho frito apimentado) por favor?

Empolgada pelos choramingos do irmão, Bulma entrou no coro:

– Ah, maan, eu posso te ajudar se a senhora prometer fazer gulab jamum (doce de leite em calda). A senhora faz o melhor do mundo, maan, eu comi outro dia na casa da Pooja e não se compara ao seu...

– Bulma, que história é essa de ir comer na casa da Pooja? Não pode sair se convidando assim para a casa dos...

– Ela me chamou, mamãe, eu juro pelos cachos do cabelo de Krishna que...

– Elas hoje estavam vendo filme em vez de estudar – Disse Raditz, que recolhia o seu material de estudo para ajudar a mãe em qualquer tarefa – estavam suspirando por algum galãzinho idiota... – ele resmungou.

Bulma fez uma careta para o irmão e Gine acabou com a briga distribuindo tarefas. Cozinhar iria distraí-la dos problemas imediatos, que eram muitos. Mas pelo menos, comida jamais faltaria naquela casa, ela tinha certeza.

Depois do jantar, Kakarotto estava se entupindo com o doce que ela fizera, o saboroso gulab jamum e dizia, com cinco bolinhas de uma vez na boca:

– Momom, exe é o dofe maix...

– Não fale de boca cheia, Kakarotto! – ela ralhou. Raditz riu e fez uma cara debochada para o irmão que apontou para ele e disse:

– Ele eftá...

– Kakarotto! O que eu disse?

Bulma ria, comendo sua pequena porção de gulab. Ela comia quase dez vezes menos que os irmãos, mas Gine sempre acreditara que isso era por conta da sua constituição delicada, e não um pouco de paranoia adolescente para tentar concorrer a algum concurso de beleza ou dança quando ficasse mais velha. Mas a menina logo repetiu a porção, dizendo:

– Mamãe... todos os seus doces são maravilhosos!

Gine sorriu. Kakarotto, que engolira todos os seus doces e buscava por mais, imersos na calda, disse:

– Mamãe, a senhor faz os melhores doces de Mumbai! O seu halva (doce gelatinoso de cenoura) é comida dos deuses, Ganesha desceria dos céus para comer seu besan ladoo (doce de farinha de grão de bico com manteiga clarificada e castanhas)... os reis pagariam fortunas pra comer o seu kaju katli (doce caramelado de caju) ou pista rolls e o barfi (doces à base de castanhas diversas)que a senhora faz, tenho certeza!

Kakarotto delirava pensando nos demais doces que a mãe fazia quando, de repente ela parou e pensou. Ela olhou para o filho mais novo, que sempre achara o menos inteligente e deu na testa dele um beijo estalado, dizendo:

– Kakaroto, meu pequeno Krishna! Você me deu uma ótima ideia!

Mumbai, 3 anos depois (2007)

O enorme SUV de vidros filmados atravessava um bairro da classe baixa e média-baixa da região de Andheri East, que era enorme. O motorista era também um segurança, um jovem de 24 anos e cabeça raspada, muito sério. No banco de trás, uma adolescente de 16 anos, usando uma calça jeans e um top cropped, os longos cabelos presos num rabo de cavalo e óculos escuros mexia, entendiada, no seu celular Blackberry, enquanto olhava, às vezes, pela janela. Ao lado dela, um assistente gordinho e de pele clara, que lembrava ligeiramente um porco, falava ao telefone:

– Não, não mesmo, Pual. Não vamos examinar a proposta dele, não ainda. Não vamos fechar NADA, meu caro, os senhores Vegeta e Cutelo ainda não tem proposta e nem roteiro para essa estreia, conforme-se.

Ele desligou o celular mal-humorado e disse, olhando para a garota:

– Meu poderoso Lord Ganesha... como é insistente esse tal de Yamcha. Quer por que quer que seu primeiro filme de romance seja com ele.

A garota levantou os olhos do celular e disse:

– Por que insistem nisso, Oolong? Eu tenho só 16 anos! Estou feliz fazendo os filmes da Princesa Shanti!

– A Princesa Shanti precisa de um final feliz para que você possa passar aos próximos filmes, os de romance, aventura, drama, comédia, ação. E para um final feliz, ela precisa de um príncipe, Chichi, e todos querem ser seu príncipe.

– Não sei porque a Princesa Shanti precisa de um príncipe para ter um final feliz. Eu não quero me casar agora, porque ela iria querer?

– Não é agora, é no próximo filme, quando você tiver 17 anos. Imagine, você encontra um jovem e belo galã e vocês dançam juntos... como sua mãe e o maravilhoso Lord Raaja Vegeta eram, um par de sonho! Vamos fazer crores e crores (1 Crore = 10 milhões de rúpias) de bilheteria, Chichi!

– Você é muito chato Oolong. – ela fechou a cara e olhou para fora. Continuava detestando com todas as forças de sua alma o antigo par de sua mãe, que agora era seu produtor, e junto com seu pai, controlava sua carreira com mão de ferro.

Chichi acordava cedo. Muito cedo na verdade, às vezes, quando ainda estava escuro. Fazia uma hora de alongamento e Yoga, antes de um desjejum leve, com frutas e queijos magros, mas ela não podia comer muito, porque logo depois do café, começavam as suas aulas alternadas de bhangra (dança moderna), odissi, kathak e satthiya (danças tradicionais). Ela tinha também aulas de danças ocidentais como hip hop e jazz e ela dançava por duas horas, religiosamente, todos os dias.

Então, ela recebia seus professores e preceptores, e estudava por quatro horas, com um intervalo de meia hora para uma refeição leve, normalmente quase sem carne ou vegetariana e, após o fim das aulas, ela tinha que cumprir a sua agenda de atriz. Quando em filmagem, ela tinha de quatro a seis horas de trabalho pela frente, fora do período de filmagens, podiam ser gravações de TV, eventos beneficentes, e, eventualmente shows e ensaios para premiações, e ainda, aulas de intepretação com professores vindos a peso de ouro de escolas de arte dramática de todo mundo.

Quando chegava em casa, normalmente, era hora de jantar e, só então, tinha uma ou duas horas de lazer antes de dormir. Era assim, disciplinada e regrada, desde que estrelara o seu primeiro filme como a Princesa Shanti, oito anos antes. Não se podia dizer que ela era infeliz, no entanto, porque ela não conhecia outro modo de ser. Ela também tirava férias, como qualquer estudante, e, com, isso, aos 16 anos conhecia boa parte do mundo.

Chichi falava fluentemente inglês e francês; falava razoavelmente bem, além do hindi natural de Mumbai, outros três idiomas dos 18 oficiais da Índia: Tamil, Telugu e Urdu; tinha noções de Árabe e sabia algo de Mandarin e Cantonês, tudo aprendido desde pequena, já por causa do mercado de filmes de Bollywood, que englobava uma parte grande da Ásia, e, eventualmente, chegava à Europa e África. Aos 16 anos, já tinha três Filmfares, o Oscar do cinema indiano: como atriz revelação, jovem talento (prêmio especial que recebera pelo 10º filme que estrelara) e atriz coadjuvante, por um papel pequeno num filme estrelado por Kareena Kapoor, que se rasgara em elogios à então menina de 14 anos que fazia sua irmã doente (que morria no primeiro quarto do filme).

De repente, Oolong falou para o motorista:

– Tenshinhan, estamos chegando?

– Sim. Estamos, senhor Oolong. Aparentemente nossa locação é duas quadras adiante.

Chichi sorriu. Estava animada, adorava locações fora do estúdio. Era verdade que era complicado quando as pessoas sabiam, porque ela era muito conhecida. Mas, naquele dia, Raaja Vegeta havia fechado os dois quarteirões em volta da fábrica desativada onde ela e um coro de 48 bailarinos passariam as próximas 5 ou 6 horas gravando a coreografia que ela aprendera e ensaiara à exaustão três dias antes. Era a última gravação de "Princesa Shanti e a Joia de Mumbai", seu 14º filme encarnando a princesa aventureira e detetive, o personagem amado pelo público, mas do qual ela mesma já estava cansada.

No ano seguinte, ela protagonizaria "Princesa Shanti Feliz para Sempre" o primeiro romance dela, e, eventualmente, o último filme da personagem. No final do filme, a princesa casaria com um príncipe, como num conto de fadas do ocidente. E como mulheres casadas não são interessantes comercialmente no cinema indiano, ela finalmente estaria livre para fazer outros personagens, e apenas isso a deixava animada.

Logo paravam diante de uma antiga fábrica de azulejos que estava fechada e em breve seria demolida. Tenshinhan saltou antes e abriu a porta para ela e Oolong. O secretário saiu ao encontro do seu pai e de Raaja Vegeta, o produtor, que aguardavam no set. Tenshinhan a conduziu até o trailer, armado próximo à saída da fábrica, onde ela seria vestida e maquiada.

Lunch, sua maquiadora exclusiva, abriu a porta para ela assim que o segurança bateu.

– Boa tarde, princesa – disse a jovem e bonita maquiadora. Ela não era indiana, mas americana, havia sido trazida dos Estados Unidos pelo pai de Chichi depois de vencer um reality show de maquiagem. Ela encarou o segurança careca, que não havia tirado os óculos escuros e disse – e aí, Vin Diesel, tudo bem?

O rapaz tentou ficar sério, mas os cantos de seus lábios ergueram-se ligeiramente.

– Boa tarde, senhorita Lunch. Espero que esteja tendo um bom dia. – ele diss;e, num inglês impecável. Lunch acabara aprendendo um bocado de hindi, mas ele sempre fazia questão de respondê-la na língua natal dela, que sorriu e disse:

– Quando vamos sair? Podia me levar para comer um pani puri e beber um pouco de bhang (bebida de leite com extrato de semente de cânhamo. Entorpecente leve). Prometo que não abuso de você.

Ele sorriu enigmaticamente e se afastou, balançando a cabeça à moda indiana e disse, já de costas:

– Não tomo bhang fora do Holi...

Ela deu um soquinho de leve na porta do trailer e disse:

– Ele nunca me dá um tiquinho sequer de condição! Viu isso, Chichi?

A garota riu com vontade. A sua maquiadora era a mulher mais livre que conhecia, embora na frente do pai dela e do produtor, ela se fizesse de santa porque sabia que poderia ser afastada de Chichi. Mas ela era a única pessoa em todo set que Chichi gostava realmente de conversar, embora fosse quase oito anos mais velha que a jovem atriz.

– Então? Vamos preparar você, princesa Shanti? – ela disse jovialmente e Chichi entrou com ela no trailer.

Lunch sentou Chichi na cadeira e imediatamente, adquiriu um ar profissional. Olhou a pele e os olhos dela por um instante, então começou a pentear os cabelos com vigor e e trançá-los para depois prendê-los num coque elaborado, antes de começar a maquiagem, cuidadosamente escolhida para harmonizar com o sári azul com detalhes em ouro e prata que ela usaria na gravação. Com Chichi maquiada, Lunch passou para ela o choli, uma espécie de top para se usar com o sári e a parkar (anágua de tecido fino), para ela vestir sob o sári. Então, ajudou-a na elaborada amarração da bela peça de chiffon, ajudando-a logo depois a colocar todas as joias e os delicados sapatos de dança. Finalizou seu trabalho com a maang tikka, uma jóia de ouro e rubi, presa por uma correntinha no coque e colada na testa dela com cola especial.

As mãos de Chichi tinham sido pintadas com henna na véspera e, quando a viu pronta, Lunch a pôs diante do espelho e disse:

– Veja, linda como sempre! Estamos fazendo uma bela transição. No ano que vem, no próximo filme, poderemos maquiá-la como uma adulta!

Chichi deu um suspiro triste e Lunch disse:

– O que foi, Chichi?

– Ah... eu gosto de crescer e da ideia de fazer novos filmes, mas, por mim, eu apenas deixaria de fazer os filmes da Shanti... sem essa idiotice de casar a personagem para agradar a audiência.

Lunch se encostara na penteadeira e olhava para a garota. Tinha uma certa pena dela, que era como um lindo pássaro preso numa gaiola de ouro, por isso, costumava exagerar um pouco quando contava para ela suas pequenas aventuras sexuais e namoros – todos no passado, porque jamais se envolvera com ninguém desde que chegara a Índia, quase três anos antes – porque sabia que aquela jovem talvez jamais tivesse nenhuma espécie de liberdade, e essa era a forma dela confrontar, ainda que de forma escondida, o terrível machismo dos tutores da jovem.

– Escute, Chichi – sorriu Lunch – vai ser bom fazer esse filme. Quando terminar, ninguém mais vai te perturbar para voltar a esse papel. Você vai ser livre.

– Livre? – Perguntou Chichi – com meu pai, meu "adorado" produtor e o Oolong no meu pé? Eu jamais vou ser livre com eles por perto.– ela suspirou – eu queria ser como a minha mãe desde sempre, mas não sabia o quanto isso era difícil.

– Daqui a pouco você se torna maior de idade e eles param de te encher. E aí você vai poder sair com rapazes bonitos... imagina, um desses artistas?

– Bah. São todos absurdamente babacas... – ela disse – eu gostaria muito de conhecer alguém diferente, Lunch... mas acho que meu pai vai acabar arranjando um casamento para mim...

– Não fale isso, Chichi – Lunch disse, olhando-a de cara feia – se você tiver que conhecer outro rapaz, que não se pareça em nada com os babacas de Bollywood, eu tenho certeza de que vai. E vai ser quando você menos esperar. Agora, assuma seu lugar no set, quero ver você arrasando com meu visual.

Ela sorriu para a mulher e abriu a porta, saindo na direção da área de filmagem preparada no set.

Enquanto isso, um rapaz vinha pela Rua 11, da direção de Rhada-Krishna Nagar, um distrito um pouco mais pobre de Andheri, numa bicicleta de entregas, parando de vez em quando para entregar algumas caixas:

– Aqui, senhor Rajut... 2 caixas de milcake, 2 caixas de kaju katli e o mais especial... duas caixas do mais especial e delicioso besan ladoo de Mumbai, tenho certeza que seus clientes...

O homem apertou de leve a bochecha de Kakarotto rindo e disse:

– Ora ora, pequeno Kakarotto! Você não precisa tentar me vender os doces de sua mãe... eu sei que a viúva Gine tem os melhores doces de toda Andheri... talvez até os melhores de Mumbai. Provavelmente esses aqui irão embora muito rápido...

O rapaz sorriu para o homem, que perguntou:

– Sua mãe... ela mudou de ideia sobre aceitar a corte de um velho e solitário viúvo como ela?

O rosto de Kakarotto virou uma carranca e ele disse:

– Não, ela não mudou de ideia. Sinto muito, senhor Rajut... – ele completou com cara de quem não sentia muito coisíssima nenhuma.

O homem pagou a ele e entrou desolado para o seu restaurante. Kakarotto olhou para a sua lista e viu que faltavam apenas duas entregas: do senhor Kujit, na avenida Central e do senhor Poppo, que, por acaso, era também dono do bar onde ele fazia um bico limpando o salão para a noite.

Ele fazia esse serviço escondido, para ter algum dinheiro apenas dele, mas se sua mãe soubesse torceria suas orelhas, porque o bar do senhor Poppo vendia bebidas alcóolicas e era frequentado por vagabundos de toda espécie. Não adiantaria dizer que ele entrava lá quando estava fechado e apenas limpava tudo, Gine era muito protetiva em relação a ele.

Quando passava pela Rua 14, já para virar em direção à Cross Avenue, um caminhão velho e sacolejante com uma carroceria colorida de madeira repleta de gaiolas lotadas com frangos vivos buzinou ruidosamente do seu lado, fazendo-o querer xingar o motorista. De repente, ele percebeu quem dirigia e gritou:

– BHAEE! BHAEE!

Raditz freou o caminhão e Kakarotto parou, feliz, a bicicleta para abraçar o irmão, que bagunçou o cabelo dele e disse:

– Então... mamãe conseguiu o dinheiro da batedeira industrial?

– Sim, sim! Mas estávamos esperando você chegar de Déli para ir comprar. Eu disse que era só colocar na minha bicicleta mas ela me chamou de maluco e disse que precisávamos do caminhão... mas você demorou muito dessa vez...

– Eu não fui só até Déli – o irmão disse, passando a mão pelos longos cabelos – de lá surgiu uma carga para Agra.

– Uau! Viu o Taj Mahal?

– Bhaee... eu já cansei de ver o Taj Mahal.

– Eu sei, mas eu queria ir até lá.

– Sim... mas não foi só isso. Eu levei umas coisas de Agra para Uttar Pradesh.

– Nossa, Raditz, e isso deu dinheiro?

– Bem, um pouco. Então me propuseram um frete duplo, de Uttar Pradesh até Janupur, onde eu esvaziei o caminhão e peguei outra carga, que levei até Calcutá!

– Nossa, Calcutá é muito longe!

– Sim, mas tinha uma carga de lá para Varanasi, e de Varanasi tinha uma para Nova Déli! E lá tinha uma carga para Shimla.

– Uau... de lá você voltou?

– Não, bhaee... eu peguei uma carga em Shimla para Jaipur... e de lá para Gujarate, onde eu finalmente peguei uma carga para Mumbai! – ele abriu os braços – e eu consegui muito dinheiro, está tudo no banco já, na conta das emergências da mamãe.

– Então esses frangos vieram de Gujarate? São resistentes!

– Não, idiota, eu peguei no mercado na entrada da cidade para levar ao mercado sul! Mas no caminho te vi aqui e resolvi matar a saudade.

– Bhaee... você estava fora há mais de um mês!

Os dois irmãos se abraçaram e o mais velho disse:

– Vai levar isso no Poppo? A rua dele e mais duas em volta estão fechadas, tive que contornar.

– É mesmo? – Kakarotto riu – ninguém vai me barrar ali, ninguém barra a bicicletinha de entregas dos doces da viúva Gine!

– Ok, vamos ver... Não esqueça de pegar o pagamento do Poppo.

– Não vou!

Kakarotto subiu na bicicleta e pôs seus fones de ouvido, e começou a ouvir a melodia de "Kuch kuch hota hai" (alguma coisa acontece) no seu velho e surrado mp3player (que tinha sido de Raditz, mas ele trocara por um mp4), cantando junto:

Você se aproximou

E sorriu desse jeito

Você se aproximou

E sorriu desse jeito

Você nem sabe

Que sonhos você me mostrou

Você se aproximou

E sorriu desse jeito

Você nem sabe

Que sonhos você me mostrou

Agora meu coração

Não está acordado nem dormindo

O que eu faço?

Alguma coisa acontece...

Ele chegou à rua do senhor Poppo e havia seguranças barrando a entrada. Ele tentou argumentar que tinha uma entrega urgente, mas os seguranças estavam irredutíveis. Aquilo era bem chato e ele disse:

– Bom, já que não vão me deixar passar, eu preciso falar com meu cliente, então eu vou ficar gritando aqui, afinal – ele apontou o bar, quase no fim da rua, perto da fábrica de azulejos desativada, – eu acho que de lá ele pode me escutar gritando... – ele encheu os pulmões de ar e começou a gritar, entusiasmado – SENHOR POPPOOO, SENHOR POPOOOOOO, POR FAVOOOOR, VENHA ME RESGATAAAAR, TEM DOIS GORILAS FECHANDO A RUAAAAA

Os dois homens se entreolharam e pensaram no seu patrão. Raaja deixara bem claro duas coisas: nada de reações violentas e nada de permitir gritarias na rua, o set estava incógnito e deveria permanecer assim. Aquele rapaz uivando loucamente ali os estava enlouquecendo, e provocaria sua demissão se o produtor ouvisse, então, um dos seguranças disse:

– Passe, passe... você vai demorar?

– Não muito, uma hora e meia, mais ou menos. É o tempo de entregar os doces e limpar o bar.

– Ok... mas não fique andando por aí... quando acabar venha direto.

– Tá bem – disse Kakarotto, que pensou: "Porque eu ficaria passeando nessa vizinhança feia do senhor Poppo? Aliás, por que tá tudo fechado? Eu, hein..."

Ele chegou diante da porta do bar, fechada, e usou a chave que o senhor Poppo dera a ele para abrir a portinhola. Cuidadosamente deixou as caixas de doce sobre o balcão. Normalmente, quando ele chegava sempre deixava a entrega e começava o seu serviço, por isso tinha a chave. Por volta das 5 da tarde, o senhor Poppo chegava, pagava os doces, a faxina e o expulsava, porque Kakarotto era menor de idade e não poderia ficar num lugar onde se serviam bebidas alcóolicas a partir das 6 da tarde.

Mas, o que ninguém sabia, era que quando ele entrava no bar para a faxina, ele se transformava em outra pessoa... Kakarotto era um dos muitos jovens de Mumbai que sonhava em ser um astro de Bollywood. Secretamente, ele já escolhera um nome artístico, porque Kakarotto sempre lhe parecera um tome muito pouco apelativo. E, enquanto varria e limpava a sujeira do bar, o rapaz ligava o som do bar e, dançando todas as coreografias dos filmes que ele sabia de cor, se transformava, na sua imaginação no astro de Bollywood, Son Goku.

Son Goku era o nome do herói de um dos poucos livros que ele lera inteiro na sua vida, chamado "A Jornada para Oeste". Son Goku era o herói do empolgante livro, um garoto meio macaco que tinha poderes especiais e lutava com monstros e gigantes. Ele adorava a história. E por isso, quando pensava em ser um ator, queria usar o nome do pequeno herói.

Tinha sido no bar do senhor Poppo que ele ensaiara para o concurso de imitações que vencera, imitando o famoso ator Sharukh Khan na coreografia mais famosa do filme Don. Tinha sido ali também que ele aprendera, com a ajuda de sua memória, a coreografia de sua música favorita, Dhoom Machale, do filme Dhoom 2. Era aquela que ele decidira ensaiar nesse dia. Ele estava terminando de varrer, ainda cantando a música suave que o embalara no seu trajeto de bicicleta até ali, que dizia que alguma coisa (especial) estava acontecendo. E parecia que algo especial estava destinado realmente a acontecer naquele dia.

– Corta! – disse King Cutelo – e Chichi bufou, mal-humorada. Certamente alguém, que não ela, errara a coreografia. Whis, o coreógrafo dos filmes da princesa Shanti disse:

– A moça de bindi laranja. Isso. Você. Para trás quatro passos, você está entrando na marcação da moça atrás de você... sua última chance, amorzinho, se encobrir a outra de novo, troco você para a fila do fundo... Posição inicial, grupo!

Chichi se aprumou numa delicada posição de odissi. Virando ligeiramente a cabeça e dando um sorriso radiante. Nem parecia que estava fazendo aquilo pela vigésima vez.

Seu pai gritou "ação" e a música base, que servia apenas para eles dançarem e ela dublar e depois era mixada decentemente na edição do filme, começou a tocar e ela começou a se mover com graça no meio dos dançarinos, com seu sorriso bonito e profissional.

Foi quando se ouviu um estrondo e tudo ficou escuro. Uma das dançarinas gritou e Chichi disse:

– Calma, garota... isso deve ter sido só...

– O gerador! – gritou Tenshin da porta do estúdio improvisado, olhando para o lado de fora.

– Mas que droga – gritou Raaja Vegeta, que até então assistia a tudo calado – vou ligar imediatamente para trazerem outro. Só podemos ficar aqui um dia, é muito caro gravar aqui.

Chichi começara, sorrateiramente, a sair na direção não do seu trailer, mas da porta da rua quando seu pai gritou:

– Onde pensa que vai, mocinha?

– Pegar um ar! Esse galpão é quente demais. Não quero sair do pátio da fábrica, fique tranquilo.

– Seu trailer tem ar condicionado!

– Mas não tem sol – ela saiu e Vegeta comentou com Cutelo:

– Essa garota está cada vez mais rebelde, precisamos controlá-la!

Chichi dissera que não sairia do pátio, mas aquilo era mentira. Disfarçando, ela se esgueirou pelos figurantes, que haviam se espalhado pelo pátio para esperar o novo gerador, e se aproximou do portão da fábrica. Não havia seguranças ali porque a rua estava fechada e ninguém poderia imaginar que a atriz sairia por ali. Mas ela saiu. Queria olhar a vizinhança, como jovem curiosa que era.

Mas o lugar era meio decepcionante... uma ruazinha feia e imunda de bairro operário. Ela já ia voltar com um muxoxo quando ouviu uma música conhecida:

Dhoom again you wanna be with me on a roller coaster ride

Dhoom again I see your wildest dreams slowly come alive

Dhoom again we gonna break the rules and party all the time

Dhoom again we gonna steal the show

You know that it is no crime...

Dhoom 2 havia sido lançado no ano anterior e tinha sido um sucesso estrondoso. Ela seguiu a música do filme, curiosa e viu um estabelecimento comercial fechado, mas com a portinhola de acesso apenas encostada. Ela empurrou a porta ligeiramente para ver que era um bar. Havia um rapaz lá dentro dançando. Ela parou e ficou olhando da porta, porque ele pareceu a ela impressionantemente perfeito dançando a difícil coreografia que no filme era executada pelo ator Hrthik Roshan.

Ela ficou hipnotizada pela figura do jovem, pensando que nunca vira um garoto tão bonito e que dançasse tão bem. Sem perceber, ela atravessou a porta, que se encostou sozinha, e entrou no recinto bem na hora que o rapaz deu um giro e deu de cara com ela.

Os dois gritaram ao mesmo tempo, de susto, e o rapaz deu um pulo ágil e se escondeu atrás do balcão do bar. Chichi ficou olhando atenta e disse:

– Quem é você? Como aprendeu a dançar assim?

Um cabelo preto espetado apontou atrás do balcão, seguido por um par de olhos escuros arregalados e um rosto que ela achou muito bonito, observando-a e, estado quase catatônico. Os dois ficaram se encarando, mudos por um instante até que ele disse, quebrando o silêncio:

– Poderoso Vishnu... você é a Princesa Shanti!


Notas Finais


1. O status social de uma viúva jovem na Índia é realmente complicado, principalmente se os filhos ainda são pequenos, porque apenas há cerca de 50 anos que a Índia passou a ter algum sistema de proteção social. Mas viúvas tem sua renda reduzida, por isso toda a manobra de Gine para sustentar os três filhos. Um policial morto em serviço na Índia costuma ganhar um seguro e muitas homenagens, mas isso não significa que sua pensão seja integral, infelizmente.

2. Sobre os pratos mencionados no capítulo: frango tandoori e o chapati são preparados no forno de carvão indiano, o tandoor, que parece um grande vaso com brasas no fundo, onde se cozinha de tudo: o frango em espetos e o chapati nas laterais. Mas num ambiente doméstico moderno, o frango é feito no forno com iogurte e temperos e o pãozinho numa frigideira ou numa chapa de fogão mesmo. Por isso o Kakarotto reclama, já que o resultado não é o mesmo. Já o pani puri ou golgappa é uma bolota oca de massa frita que leva um molho bem líquido e muito apimentado. Na Índia as crianças começam a comer pimenta bem cedo, por isso não é incomum que esse seja o prato favorito de meninos de 12 anos.

3. Os doces mencionados no capítulo são muito vendidos nas ruas, mas é extremamente comum serem fabricados por terceiros e as lojas mentirem descaradamente alegando a produção própria. Antes que vocês perguntem, o único que eu comi foi o gulab jamun, num restaurante indiano que eu acho até que já fechou. Achei bom, mas muito perfumado por causa da água de rosas. Os doces de castanhas, pelo que eu vi nas receitas, lembram os doces árabes que são bem gostosos, a diferença é que os doces de castanha árabe levam mais mel. O kaju katli tem uma curiosidade interessante: assim como as mangas e jacas vieram da Índia para o Brasil na época da colonização e se adaptaram muito bem, os cajueiros foram levados para a Índia e o Sri Lanka e seu fruto e castanha se tornaram muito populares naquela região.

4. Bhang, citado no capítulo, é uma bebida do tipo lassi, ou seja, à base de iogurte, ao qual se junta mel e sementes de cânhamo (isso mesmo, maconha) e, às vezes, suco de fruta. É levemente entorpecente, por isso seu consumo em algumas regiões só é permitido durante as festividades do Holi, o festival das cores.

5. As danças citadas no capítulo fazem a base do tradicional estilo Bollywood, que, desde a origem, mistura passos dos principais estilos de dança indiana, tendo como estilo mais usado o bhangra, que é mais vigoroso e o odissi, que é mais lento e delicado. Ao longo dos anos Bollywood incorporou danças ocidentais ao repertório, sendo comuns passos de discoteca, hip hop, street dance e até lambada. Bollywood é muito eclética quando se trata de suas coreografias, por isso Chichi tem essa rotina tão puxada.

6. Aliás, a rotina dela é baseada na rotina de uma atriz de terceira geração que começou bem jovem em Bollywood, Kareena Kapoor, hoje com 39 anos, que é citada no capítulo não à toa: na época em que está a história ela estava no auge da popularidade estrelando cerca de 5 filmes por ano.

7. Os atores citados, Sharuk Khan (hoje com 53 anos) e Hrithik Roshan (hoje com 46 anos) também são extremamente populares e conhecidos, e na década de 2000 viviam seu auge de popularidade. Particularmente, eu sou muito fã do primeiro.

8. As músicas citadas no capítulo são Kuch Kuch Hota Hai, do filme do mesmo nome de 1998, em que um rapaz e duas moças vivem um triângulo amoroso (aviso, o filme tem partes bem tristes), que já está traduzida no texto e Dhoom Machale (Dhoom novamente). Dhoom é uma palavra sem tradução específica, significa uma explosão enorme. A tradução da letra:

Dhoom novamente e fuja comigo em uma montanha-russa

Dhoom novamente e veja seus sonhos mais loucos ganharem vida lentamente

Dhoom novamente, temos que quebrar as regras e festejar o tempo todo

Dhoom novamente, temos que roubar o show, você sabe que não está em crime

Então roube tudo o que puder

A magia que você começou

Vamos gritar! Saia!

Vamos mais uma vez, vamos ouvi-lo

Dhoom machale (Dhoom novamente)

Kuch Kuch Hota Hai: https://youtu.be/S9DsCP9Th7Y
Dhoom Machale:https://youtu.be/G2r0mVq6YD0


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