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História Erased (Malec) - Capítulo 5


Escrita por: BaneStan_88

Capítulo 5 - A Crise


Alec acorda cedo no domingo de manhã, se levanta e sai do quarto, estranhando o silêncio que reina no apartamento. Então, ao passar em frente ao banheiro do corredor, que está com a porta aberta, se depara com Magnus saindo do chuveiro, completamente nu.

 — Ai, meu Deus! – diz Alec, virando de costas o mais rápido que consegue. – Me desculpe, eu não sabia que você estava aí!

 Magnus solta uma risada alta.

 — Sabe, não há nada aqui que você já não tenha visto antes. – afirma, encostando a porta, antes de completar: – Ou tocado. Ou... outras coisas.

 — Acontece que eu não me lembro de ter feito nada disso. – retruca Alec, sentindo as bochechas esquentarem.

 Magnus ri mais uma vez. Poucos segundos depois, diz:

 — Pronto, já estou decentemente coberto. Pode se virar.

 Ele se vira e o vê secando os cabelos com a toalha, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, ainda sem camisa. Alec não consegue deixar de ficar surpreso ao notar o peitoral definido e os bíceps inflados dele – quando está vestido com suas roupas elegantes e modernas, Magnus aparenta ter um corpo bem mais esguio. Ao perceber os seus olhares, o outro pergunta:  

 — Por que você está me olhando desse jeito esquisito?

 Alec sente as bochechas esquentarem ainda mais.

  — Por nada. – responde, dando de ombros e tentando disfarçar o quanto está sem graça.

 Magnus o encara por alguns instantes com um sorrisinho travesso no rosto, como se soubesse muito bem porque ele estava o olhando daquele jeito, mas por fim apenas pega a camiseta vinho que está pendurada no gancho atrás da porta e a veste, sem dizer nada. Depois sai do banheiro, segura o seu braço e começa a arrasta-lo pelo corredor.

 — Vem, vamos aproveitar para tomar um bom café da manhã antes que os meninos acordem.

 Alec o segue até a cozinha e então Magnus começa a abrir e fechar os armários, continuando a falar:

 — Deus bem sabe que eu amo os meus filhos mais do que tudo nessa vida, mas devo confessar que um pouco de sossego e silêncio em um domingo de manhã são sempre muito bem vindos.

 Alec fica em pé no meio da cozinha, enquanto Magnus coloca o pó de café na cafeteira, assobiando baixinho. Ele não consegue deixar de abrir um sorriso bobo diante da cena e continua a observa-lo por alguns instantes, até que decide se por a ajuda-lo. Os dois preparam torradas com manteiga e muita canela e então se sentam à mesa para comer. Magnus puxa a cadeira ao lado da sua e apoia os pés sobre o assento, antes de dar uma mordida generosa na torrada e soltar murmúrios de satisfação.

 — Meu único crime é amar demais os carboidratos. – diz, ainda mastigando.

 Alec ri, totalmente encantado por vê-lo assim, parecendo tão relaxado e leve, tão diferente do Magnus que viu até agora em todas as manhãs, sempre preocupado em cuidar de Max e Raph, tentando garantir que comam o suficiente, escovem bem os dentes e não se atrasem para a escola. Alec se pergunta se é a ausência dos meninos que está o fazendo a agir assim, se o fato de não ter que servir de exemplo para os filhos o faz se sentir mais livre para deixar sua verdadeira personalidade vir à tona e simplesmente ser ele mesmo.

 — Você está me olhando daquele jeito esquisito de novo. – comenta Magnus, lhe encarando com curiosidade.

 Alec balança a cabeça, tentando dispersar seus pensamentos.

 — Eu só estava pensando... Depois de casar, a gente passou bem pouco tempo morando sozinhos, não foi? A minha irmã me contou que nós adotamos os meninos logo em seguida.

 Magnus assente e bebe um gole de café.

 — Trouxemos Max para casa só três meses depois do nosso casamento.

 — E quanto ao Raph? – pergunta Alec. –  Izzy disse que nós adotamos os dois ao mesmo tempo.

 — Nós fomos ao abrigo para buscar apenas o Max, só que aí vimos um garotinho mais velho, com lindos olhinhos castanho escuros, e ficamos apaixonados por ele na mesma hora. – conta o outro, sorrindo com a lembrança. – Mas somente a adoção do Max estava acertada, então tivemos que dar entrada na papelada para adotar Raphael também e só pudemos trazer ele para casa quase um mês depois.

 — Deve ter sido difícil se adaptar a toda essa nova rotina, com duas crianças pequenas em casa, tão pouco depois do casamento. – comenta Alec, antes de enfiar o último pedaço de torrada na boca.

 Magnus assente mais uma vez.

 — Ah, com toda a certeza. Esses dois meninos quase nos levaram à loucura nos primeiros dois meses. – confessa, rindo. – Mas aí eles abriam um sorriso lindo ou passavam os bracinhos ao redor do nosso pescoço e isso fazia todo o resto valer à pena. Adotar esses dois foi a melhor decisão que nós tomamos.

 Alec sorri, lembrando que sua irmã disse a mesma coisa. Antes que possa dizer alguma coisa, os meninos entram correndo na cozinha, ainda de pijama e com os cabelos arrepiados.

 — Eu não acredito que vocês estão tomando café da manhã sem a gente! – diz Max, com a vozinha cheia de indignação.

 Magnus volta a assumir o modo pai na mesma hora, tirando os pés de cima do assento da cadeira e esticando a coluna.

 — Ora, eu decido deixar vocês dormirem até mais tarde e é assim que me agradecem? – provoca, pegando o menino no colo.

 Raphael se aproxima e senta na cadeira ao lado da de Alec.

 — O que tem para comer? – pergunta. – Estou morrendo de fome.

 Magnus põe Max de volta no chão e se levanta.

 — Nós comemos torradas, mas pensei em permitir uma pequena extravagância alimentar nesse domingo e servir aquele cereal açucarado que vocês tanto adoram. O que acham?

 Os pequenos assentem e batem palmas, animados com a ideia, e Alec não consegue deixar de sorrir mais uma vez. Ele queria tanto se lembrar dos muitos outros cafés da manhã em família que os quatro já tiveram juntos, tanto. Mas a realidade é que não lembra de nenhum momento sequer dos que viveu ao lado deles e não há nada que possa fazer a respeito.

 Magnus serve o cereal dos meninos e os dois começam a comer. Ele volta a se sentar e passa a mão carinhosamente nos cabelos de Max, que está muito ocupado enfiando uma colherada atrás da outra na boca. Então o pequeno pergunta:

 — Papai, você se lembra daquela vez em que estava trazendo a sua tigela de cereal para a mesa, tropeçou e derrubou tudo em cima do Presidente Miau? Foi bem engraçado!

 Alec abre a boca para explicar novamente que não consegue se lembrar de nada que aconteceu nos últimos anos, mas Raphael se adianta:

 — Max, quantas vezes eu vou ter que te dizer que o papai bateu a cabeça com muita força e perdeu a memória? Agora você tem que explicar as coisas para ele e ter muita paciência.

 Magnus encara o filho com surpresa e Alec sorri ao perceber que Raph está repetindo o que ele mesmo disse quando os dois conversaram na manhã anterior. Max franze o rosto em uma careta de pesar.

 — Desculpa papai, é que eu sempre esqueço que você não lembra mais das coisas.

 Alec balança a cabeça.

 — Não precisa pedir desculpas, Max. Na verdade, eu gostaria de me lembrar dessa cena, porque deve ter sido mesmo muito engraçado.

 — Eu não achei graça nenhuma em ter que dar banho no gato e tirar todos os pedaços de cereal que grudaram no pelo dele. – resmunga Magnus, fazendo os outros três rirem.

 Quando os meninos terminam de comer, todos se sentam na sala para assistir um filme, a bagunça do café da manhã ainda esquecida na cozinha. Só na hora do almoço, depois de prepararem alguns sanduíches, é que Alec e Magnus tratam de limpar tudo. Eles passam a tarde sentados na sala, lendo, enquanto Raphael e Max brincam no quarto deles, e o domingo se desenrola tranquilamente, até terminar naquela mesma rotina de toda noite.

 Na manhã seguinte, Alec sai cedo de casa, junto com Magnus e os meninos: chegou o dia de tirar os pontos da sua cabeça e o outro vai leva-lo ao hospital depois de deixar Max e Raph na escola.

 — Você não precisava perder meio dia de trabalho, eu poderia muito bem ir até o hospital sozinho, de ônibus. – comenta Alec, enquanto saem da garagem do prédio.

 — Não, senhor. – retruca Magnus. – Eu não posso te deixar andar desacompanhado por aí, sendo que perdeu uma parte da memória. É muito perigoso, você poderia acabar se perdendo.

 Alec apenas suspira, sabendo que Magnus tem um pouco de razão: ele não se lembra de morar nesse bairro, portanto poderia mesmo se perder. Eles passam na escola para deixar os meninos e então seguem até o hospital, onde Alec fica duas horas inteiras sendo examinado e avaliado mais uma vez, antes de finalmente se ver livre daqueles incômodos pontos que fazem seu couro cabeludo coçar e pinicar.

 — O corte cicatrizou perfeitamente bem, Alec. – avisa o doutor Herondale. – E os resultados dos exames mostram que a sua saúde também está ótima, em todos os sentidos, portanto está liberado para voltar à sua vida normal. O atestado que eu lhe dei permite que fique em casa até o fim do próximo mês, mas você pode retornar ao trabalho antes, caso se sinta confortável.

 — Mas o senhor acha que seria bom para o Alexander voltar a trabalhar agora, sendo que ele continua com uma parte da memória perdida? – pergunta Magnus.

 O médico suspira e coça a cabeça.

 — Como eu disse, Alec está liberado para retornar à rotina de antes. Agora, se vocês querem saber a minha opinião pessoal... Realmente acho que ele deveria aproveitar para descansar um pouco mais e se adaptar à essa nova realidade. – diz, antes de olhar para Alec. – Imagino o quanto deve ter sido difícil para você acordar e descobrir que tinha perdido todas as lembranças dos últimos cinco anos. O atestado que nós lhe demos aqui no hospital permite que você fique em casa até o fim do próximo mês, portanto não há motivos para pressa.

 Alec apenas assente. Depois, enquanto Magnus o leva de volta para casa, confessa:

 — Eu não me lembro quem é o meu atual chefe ou sequer como é o escritório onde estava trabalhando, já que só fui contratado há dois anos. Desde que recebi alta do hospital, tenho focado em me adaptar à essa nova vida da qual eu não me lembro mais e nem parei para pensar no que faria a respeito desse assunto. Por isso queria saber se você se incomoda que eu continue em casa por enquanto, até decidir como resolver essa questão.

 — É claro que eu não me incomodo, Alexander. – responde Magnus, sorrindo. – Você pode ficar em casa pelo tempo que achar necessário. E pode contar com o meu apoio, não importa o que decida fazer.

 Alec sorri em agradecimento à compreensão dele. Ele sabe que provavelmente o orçamento da casa conta com os salários dos dois e que vai ter que voltar a trabalhar um dia, mas ainda não se sente pronto para isso. Agora que Alec está começando a se encaixar melhor na própria família, a entender como a rotina deles funciona, e não quer se sobrecarregar. Como costuma dizer sua mãe: um problema de cada vez.

 Mais alguns dias se passam, até que certa noite Alec está dormindo, quando ouve uma vozinha já conhecida o chamando:

 — Papai! Papai, acorda!

 Ele ergue levemente a cabeça do travesseiro e abre os olhos, sonolento, para ver que os meninos estão em pé ao lado da cama, com os rostinhos preocupados.

 — O que foi? Aconteceu alguma coisa? – pergunta.

 — O papa está doente. – responde Max, torcendo as mãos.

 Alarmado, Alec senta na cama na mesma hora.

 — Magnus está doente? O que ele tem?

 — Acho que o papa está com uma crise de dor de cabeça. – explica Raphael, que parece tão apavorado quanto o irmãozinho mais novo.

 Alec fica de pé e sai para o corredor, descalço, em direção a sala. Mas, ao passar em frente ao banheiro do corredor, vê que Magnus está lá, sentado no chão e com a cabeça apoiada na borda da banheira. Ele entra no cômodo e se agacha ao seu lado.

 — Ei, o que houve? – pergunta, segurando o ombro dele com delicadeza. – O que você tem?

 — Enxaqueca. – responde Magnus, quase em um sussurro, com os olhos fechados.

 Alec passa o braço ao redor do corpo dele e começa a ajudá-lo a se levantar.

 — Vem, eu vou te ajudar a ir para a cama.

 Aos trancos e barrancos, ele consegue praticamente o arrastar até o quarto e deita-lo sobre os lençóis ainda amarrotados.

 — Meu remédio. – diz Magnus, cobrindo a cabeça com as cobertas. – Preciso dele.

 — Aonde está? – pergunta Alec, mas ele não responde.

 Raphael puxa a barra da sua camiseta.

 — Deve estar no armário do banheiro, é onde o papa costuma guardar todos os remédios.

 Então Alec vai até lá, seguido pelos meninos. Ele abre a porta do armário acima da pia e começa a revirar os frascos que estão nas prateleiras, se perguntando qual deles é o certo. De repente Raph cutuca o seu quadril.

 — É esse aí! – diz, apontando para o recipiente que ele está segurando. – Eu lembro que o remédio que o papa toma para dor de cabeça tem uma cruz vermelha no rótulo.

 O menino parece muito seguro do que diz, por isso Alec decide confiar nele. Ele vai até a cozinha, pega um copo de água e segue para o quarto. Magnus está tão indisposto que Alec precisa praticamente ergue-lo da cama, enfiar o comprido na sua boca e ficar segurando o corpo dele enquanto bebe alguns goles de água. Depois, para a sua surpresa, ele tenta se levantar.

 — Os meninos. Preciso leva-los para a escola.

 Alec balança a cabeça com força e o empurra gentilmente contra o colchão.

 — Não, senhor. Você não está em condições de sair de casa nesse estado. Pode deixar que eu levo os dois para a escola.

 Apesar de não voltar a tentar ficar de pé, Magnus ainda tenta argumentar:

 — Mas você não se lembra de nada...

 — Eu me viro. – retruca Alec, com a voz transparecendo bem mais segurança do que sente na verdade.

 Ele realmente não sabe como funciona a rotina matinal dos meninos, mas também sabe que eles dependem dele agora, por isso simplesmente saia do quarto, determinado a dar conta de tudo e deixar que Magnus descanse.

 — Muito bem. – diz, encarando Max e Raph. – Para isso tudo funcionar, vocês vão ter que me ajudar e dizer o que eu preciso fazer.

 — Primeiro a gente precisa tomar banho e depois tomar café da manhã. – responde Raphael. – E você precisa preparar os nossos lanches antes da gente sair para a escola.

 Alec assente, tentando se concentrar.

 — Certo. Então, já para o chuveiro.

 Então os três entram no banheiro do corredor, os meninos tiram as roupas, se enfiam dentro do box e Alec liga o chuveiro. Enquanto os dois tomam banho, ele tenta fazer as mesmas recomendações que a mãe costumava lhe fazer quando era criança, como lavar bem atrás das orelhas e do umbigo e fechar os olhos na hora de enxaguar o xampu. Assim que ele desliga o chuveiro e pega a toalha, Raph lembra:

 — Agora você precisa pegar os nossos uniformes, na cômoda do nosso quarto. Pode deixar que eu ajudo o Max a se enxugar.

 Alec assente mais uma vez e vai até o quarto deles. Depois de encontrar os uniformes, ele sai para o corredor, mas lembra no meio do caminho que também precisa pegar cuecas e meias para os pequenos e dá meia volta. Quando finalmente pega tudo que precisa e chega ao banheiro, encontra os meninos já secos, lhe esperando em pé sobre o tapete. Enquanto Raphael põe suas roupas sozinho, Alec ajuda Max a se vestir, e depois começa a penteá-los.

 — Me deixa bem bonito, papai. – pede Max.

 — Ah, mas isso vai ser muito fácil, porque você já é um menininho muito lindo. – responde ele.

 O pequeno sorri de um jeito tão doce que seria capaz de derreter qualquer coração e Alec lembra do que Magnus lhe disse alguns dias antes, sobre como um sorriso ou um abraço dos meninos fazia todo o resto valer a pena.

 Eles saem do banheiro e vão para a cozinha. Alec sabe que Magnus não gosta de dar açúcar para os meninos com muita frequência, mas está com medo de que acabem chegando atrasados à escola e por isso decide apenas servir cereais e leite para os dois. Ele coloca as tigelas na frente deles e pergunta:

 — O que Magnus costuma preparar para o lanche de vocês?

 — Chocolate! – responde Max.

 Raphael lança um olhar repreensivo para o irmãozinho.

 — Se você ficar mentindo para o papai, ele não vai mais acreditar em você, Max. – repreende, antes de olhar para Alec. – A gente sempre leva um sanduíche de geleia, uma fruta e um suco de caixinha.

 Então ele começa a abrir e fechar os armários, procurando o que precisa. Depois de preparar tudo, leva o dobro de tempo para encontrar o papel toalha e os sacos de papel e, quando está quase terminando de embalar os lanches, Raphael anuncia:

 — Já acabamos de comer, papai.

 — Ótimo, eu também estou quase acabando aqui. – responde Alec, sem erguer os olhos do que está fazendo. – Escovem os dentes, peguem as mochilas e então nós poderemos sair.

 Os pequenos saem correndo pelo corredor. Ele termina de embalar tudo, vai para a sala, pega as chaves do carro no gancho ao lado da porta e fica esperando, pronto para sair. Quando os dois voltam, param no meio do cômodo e o encaram com uma expressão engraçada.

 — O que foi? – pergunta Alec, confuso.

 — É que você ainda está de pijama e o seu cabelo está todo... assim. – explica Raphael, girando as mãos ao redor da cabeça e apontando para todos os lados.

 — E tem um pouco de baba seca no canto da sua boca. – completa Max, fazendo careta.

 Só então Alec se toca de que, com toda a preocupação em cuidar de Magnus e dos meninos, não trocou de roupa ou sequer lavou o rosto. Ele sai em disparada pelo corredor, ao mesmo tempo em que diz:

 — Esperem só um minutinho, vou me arrumar bem rápido e já volto!  

 Alec se esgueira para dentro do quarto o mais silenciosamente possível, para não incomodar Magnus, pega as roupas que estava vestindo na noite anterior mesmo e vai para o banheiro. Depois de se trocar, lavar o rosto, escovar os dentes e pentear os cabelos na velocidade da luz, ele volta para a sala.

 — Prontinho, agora podemos ir. – diz, já abrindo a porta.

 Os três descem pelo elevador até a garagem, entram no carro e deixam o prédio. Por sorte, Alec ainda consegue lembrar do caminho que Magnus fez até a escola no dia anterior, antes de leva-lo ao hospital, e não demora muito para chegar lá – na verdade, o processo de prender Max do jeito certo na cadeirinha levou mais tempo do que o trajeto em si. Então ele desce do carro e solta os pequenos.

 — Querem que eu entre com vocês? – pergunta.

 Raphael balança a cabeça.

 — Não precisa, as nossas professoras já estão esperando ali. – diz, apontando para duas moças jovens paradas na porta do prédio, abraçando e beijando as crianças antes de leva-las para dentro.

 Alec assente.

 — Tudo bem. Então, boa aula.

 Max se aproxima para abraça-lo e depois Raphael faz o mesmo.

 — Tchau, papai. – dizem os dois, ao mesmo tempo.

 — Tchau, meninos. Comportem-se bem, eu venho buscar vocês mais tarde, certo?

 Ele fica observando enquanto os dois se aproximam das professoras, ganham beijos e abraços e entram na escola de mãos dadas com elas. Depois Alec dirige de volta para casa, aliviado por ter conseguido dar conta de tudo. Ele entra no apartamento, segue direto para o quarto e se agacha ao lado da cama.

 — Magnus, eu só queria dizer que já levei os meninos para a escola. – sussurra. – Deu tudo certo.

 Magnus descobre a cabeça e abre um único olho.

 — Muito obrigado.

 — Você precisa de alguma coisa? – pergunta Alec, ainda falando bem baixinho. – Quer que eu prepare algo para você comer?

 Magnus faz uma careta, como se só a ideia de comer o fizesse se sentir pior.

 — Não. Só preciso dormir, no escuro, até essa dor de cabeça terrível passar.

 Alec assente, ficando de pé.

 — Tudo bem, vou deixar você descansar. Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.

 Ele fecha as cortinas e desliga o abajur, deixando o quarto na mais completa escuridão, depois sai dali. Antes que feche a porta atrás de si, ouve a voz de Magnus:

 — Me acorde quando chegar a hora de buscar os meninos.

 — Ok. – responde Alec, mesmo sabendo muito bem que não vai fazer isso.

 Ele se põe a arrumar a bagunça que fez enquanto cuidava dos meninos, enxugando o banheiro, colocando as roupas sujas na máquina de lavar, a louça do café da manhã na lava louças e dando uma geral no apartamento. Assim, a manhã passou bem rápido e quando se deu conta, já era hora de comer alguma coisa e depois buscar Max e Raph. Antes de sair, Alec vai até o quarto e deixa um bilhete em cima da cômoda, só para o caso de Magnus acordar antes dele voltar.

 Os meninos tagarelam sem parar durante a volta para casa, contando cada detalhe do que fizeram na escola. Quando chegam no apartamento, Alec abre a porta e os dois entram fazendo a maior algazarra, então ele repreende:

 — Ssshhhhh! Não façam muito barulho, o Magnus ainda está dormindo!

 Max e Raph se calam e assentem, com uma expressão culpada. Alec deixa que os dois brinquem um pouco no quarto e fica pensando no que fazer para o jantar. Por fim, decide preparar uma canja, a mesma receita que sua mãe lhe preparava quando ele estava doente, dizendo que era capaz de curar tudo. Mas, antes de começar a prepara-la, Alec vai até o quarto dos meninos e pergunta:

 — Vocês gostam de canja?

 Raphael concorda com a cabeça, sem tirar os olhos da folha de papel onde está desenhando.

 — Eu gosto.

 — Eu também. – responde Max.

 Então Alec segue para a cozinha e começa a fazer o jantar. Ele lembra que, quando ainda morava com Izzy, também costumava preparar canja para a irmã sempre que ela ficava doente e sente uma pontada atingindo seu coração. Pelo jeito, por mais que tudo mude, certas coisas sempre permanecem iguais.

 Quando a comida fica pronta, Alec chama os meninos para comer. Ele serve dois pratos de canja para eles e coloca outro em uma bandeja.

 — Você não vai comer também, papai? – pergunta Max, já levando uma colherada à boca.

 — Mais tarde. – responde Alec. – Antes vou levar um pouco de canja para o Magnus, ele não comeu nada o dia inteiro.

 Ele sai carregando a bandeja pelo corredor com cuidado, entra no quarto e fica surpreso ao encontrar Magnus sentado na cama.

 — Oi. Está se sentindo melhor? – perguntando, se aproximando.

 O outro sorri.

 — Estou sim, obrigado.

 Alec pousa a bandeja na frente dele com cuidado.

 — Eu fiz uma canja, para não irritar o seu estômago. Espero que goste.

 Magnus sorri mais uma vez.

 — Você sempre me preparava uma canja quando eu tinha enxaqueca. – conta, pegando a colher para prova-la.

 — Está boa? – pergunta Alec, ansioso.

 — Está, sim. – responde Magnus. Depois come mais uma colherada e completa: – Espero que os meninos não tenham te dado muito trabalho hoje.

 Alec balança a cabeça.

 — Não, eles se comportaram muito bem. Só que eu fiquei pensando em como deve ter sido difícil para você conseguir dar conta de tudo sozinho nesse último mês. A partir de agora eu vou te ajudar a cuidar da casa e dos meninos, porque não é justo deixar todas as responsabilidades nas suas costas.

 Magnus larga a colher e suspira.

 — Eu só fiz o que era necessário, assim como você fez nessa manhã. Não existe uma fórmula mágica ou um guia que ensine como lidar com os momentos difíceis da vida. Nós apenas fazemos o melhor que podemos, torcendo para que seja suficiente.

 — Você fez mais do que o suficiente. – afirma Alec. – Hoje eu pude perceber o quanto é difícil ser pai. Quer dizer, os meninos foram muito compreensivos, Raph me explicou tudo que eu precisava fazer, mas ainda assim me atrapalhei todo e quase levei eles para a escola vestindo o meu pijama. E com baba seca no canto da boca, ainda por cima.

 Magnus ri e leva a mão à lateral da cabeça.

 — Não diga coisas engraçadas, minha cabeça dói quando eu dou risada.

 — Desculpe. – diz Alec, já ficando de pé. – Bom, acho melhor eu dar uma olhada nos meninos. Vai que eles decidiram virar o prato de canja na cabeça um do outro?

  — Ah, não se preocupe, já faz mais de um ano que eles pararam de fazer isso. – retruca Magnus, rindo mais uma vez.

 Alec começa a sair do quarto, mas ouve o outro lhe chamando quando chega a porta e se vira novamente.

 — Alexander... Eu só quero dizer obrigado por tudo que você fez hoje. Por mim e pelos meninos.

 — Você não tem que me agradecer por nada. – afirma Alec. Depois sai pelo corredor e completa, sem saber se Magnus ainda pode lhe escutar: – Afinal de contas, vocês são a minha família agora.

  Quando termina de jantar, Alec vai dar uma olhada em Magnus e o encontra já dormindo. A bandeja em que trouxe a canja mais cedo está apoiada no chão, ao lado da cama, então ele entra no quarto silenciosamente para pega-la e leva-la de volta para a cozinha. Depois de limpar tudo e colocar os meninos na cama, Alec se acomoda no sofá, cansado e pronto para dormir. Mas, antes de pegar no sono, escuta passos se aproximando e ergue o corpo para ver quem é. Ao ver Raphael em pé no fim do corredor, ele se senta, alarmado.

 — Raph, o que você está fazendo aqui?  Aconteceu alguma coisa?

 O menino balança a cabeça.

 — Não. Eu só queria dizer que você pode dormir comigo na minha cama, se quiser. O sofá é muito pequeno.

 Alec não consegue de deixar de sorrir diante da preocupação dele.

 — Eu posso me ajeitar por aqui mesmo, não precisa se preocupar.

 Raphael assente devagar. Depois se aproxima, para ao lado do sofá e diz:

 — Você cuidou do papa, de mim e do Max direitinho hoje. Se as coisas continuarem assim, acho que a gente vai conseguir ficar bem.

 — Eu espero que você esteja certo. – responde Alec, sorrindo novamente.

 Raph fica calado por alguns instantes e então pergunta:

 — Posso te dar um abraço?

 Alec assente, esticando os braços.

 — É claro que pode, vem cá.

 O menino se atira em cima dele e Alec envolve o seu corpinho quente e miúdo. Ele pode sentir as batidas do coraçãozinho de Raphael contra o seu peito e fecha os olhos, surpreso ao perceber que aquele pulsar lhe parece já familiar. Eles ficam abraçados por um bom tempo, até que o pequeno se afasta.

 — Boa noite, papai.

 — Boa noite, Raph.

 Então Raphael volta para o seu quarto e Alec logo pega no sono, ainda sentindo o calor do corpo dele na própria pele.

 

 

 



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