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História Escolhas que não nos pertencem - Capítulo 1


Escrita por: e marhux


Notas do Autor


Yooo! Galera, eu achei que fosse demorar mais, mas é com graaande honra que venho dizer que finalmente está sendo postada minha primeira história do Aniverse. Eu espero que gostem -> porque eu amei escrever e vou continuar escrevendo com a maior empolgação do mundo. Enfim, boa leitura <3

Capítulo 1 - Ironia do Destino


A noite fria caía suavemente mais uma vez. O som das árvores que tinham suas folhas começando a secar e a cair pelo inverno poderia aterrorizar os mais novos que se aventuravam por aquelas bandas, mas não a ela. Para Ochaco, não existia o luxo de sentir medo, muito menos de meros barulhos com os quais a muito custo se habituou. 

Os passos que dava pela grama barulhenta eram, apesar de tudo, silenciosos. O único som proveniente da garota era o do seu corpo ágil cortando o vento, como se não passasse de um espectro lamurioso buscando atormentar algum infeliz que se encontrasse no local errado e na hora errada. Essa definição não é de todo errada, já que era exatamente isso que a filha mais velha da família Uraraka procurava: pessoas que se encontrassem , na estrada mais distante da capital, esquecida pela vida e por aqueles que costumam chamar de “dignos de respeito”. 

Avistou, ao longe, a pequena luz que indicava a presença do fogo. “Uma tocha, talvez”, pensou. 

Era comum que os homens tomassem aquele caminho quando voltavam de algum bar afastado ou quando eram meros bandidos. Em dias de sorte, passava alguma carruagem carregando pessoas importantes —  pessoas ricas —, desavisada sobre o perigo de transitar  por aquele local. Entretanto, se aquilo era uma tocha, provavelmente seria só mais um viajante. Bem, até mesmo meros viajantes precisam de dinheiro, de bens. É sobre isso que a vida se trata, afinal.

O som das vozes e risos do grupo de bêbados que escolheu aquele local para acampar invadiu os ouvidos atentos de Ochaco, que se escondeu atrás do tronco mais próximo e segurou a pequena adaga nas mãos. Fechou os olhos, amaldiçoando-se por ter de roubar de pessoas dignas de pena como aquelas. O que será que se passava na cabeça de homens que, de tão bêbados, abaixavam tanto assim a guarda? Qual era a força do espírito deles? 

A garota pulou num segundo, colocando a adaga no pescoço do mais novo entre eles. Apertou a lâmina forte o suficiente para que uma pequena gota de sangue escorresse, se misturando ao suor do garoto loiro. O semblante leve e animado dos homens que o acompanhavam foi substituído pelas faces hostis com as quais Ochaco há tempos se acostumou, e então apontaram suas facas na direção da pequena ladra. 

— Ei, o que pensa que está fazendo, garotinha? — A voz do maior era grossa. Ela percebeu imediatamente que aquele era, com grandes chances, o mais perigoso entre eles.

— Nada. — O sorriso despreocupado, porém ainda sincero, deixou eles confusos por um instante. — É só me entregarem aquelas sacolas e sairei daqui, como se nunca houvesse existido. 

— Me diga, garotinha… — O mesmo homem continuou, enquanto os outros mantinham a expressão abobada pelo álcool. — Quem é você? 

Ochaco suspirou, apertando mais a faca. 

— Apenas mais uma pessoa de quem as escolhas lhe foram tomadas. Agora parem de me enrolar e passem as sacolas, antes que eu pare de apertar a lâmina para simplesmente rasgar o que está sob ela. 

— Ei, ei, para que toda essa hostilidade? Vamos, pode ficar conosco essa noite… 

— Eu passo. — Soltou os ombros do garoto e arremessou, num giro, a adaga na corda que prendia o cavalo, quando ele começou a relinchar e correr. 

— Ei! Botobai, o cavalo! — O terceiro, que ainda não havia se pronunciado, ergueu a voz. — Não podemos deixar que fuja! São mais de meses a pé até o reino de…

— Silêncio. O álcool quase te fez falar muito mais do que deveria, Mizai. Garota, está indefesa. O que pretende fazer agora? — Virou-se para onde Ochaco estava, mas havia apenas o ar. O garoto que manteve como refém estava desmaiado; as sacolas não estavam lá.

— Mizai, seu idiota! Você me distraiu, e aquela menina fugiu! Ladrazinha de merda…

Longe dali, as sacolas pesavam jogadas pelo ombro de Uraraka. A corrida frenética até sua casa nos limites do vilarejo era sempre a mesma, então já havia se acostumado com o peso e com os galhos que, nos primeiros dias, a fizeram tropeçar. O peito que subia para cima e para baixo enquanto ofegava procurava desesperadamente por uma pausa que jamais vinha, e a mente ficava turva com a situação. 

Não era uma ladra natural. Não gostava de precisar disso para sobreviver ou ajudar em casa, e costumava não fazer saques grandes como aquele, em que pegava tanto dinheiro. Entretanto era sua última noite antes de ser levada pelo nobre para quem fora vendida, pretendia garantir pelo menos um mês de despesas para seus pais e seus irmãos mais novos. 

Fechou os olhos fortemente quando o pensamento de seu casamento veio novamente até a névoa que era sua mente. Lembrava-se claramente das palavras de seus pais: “Ochaco, você vale bastante para aqueles nobres”, foi isso que ouviu e teve que ligar sozinha as peças. Foi vendida por um preço razoável para um membro qualquer da nobreza. Logo daria adeus para a vida como conhecia, sabia disso. Entretanto não deixava de doer. 

— Não seja assim, Kacchan. 

— É perigoso passar por aqui, já sabe disso. 

Ochaco se virou rapidamente na direção da pequena conversa. Pela sua convivência na floresta, sabia que vinha de uma pequena trilha que cortava o caminho. Dificilmente passavam por lá, até mesmo ela, uma vez que o número de ladrões e todo tipo de bandido era muito maior. Todavia as vozes vinham de lá, e o barulho cada vez mais próximo de uma carruagem alertou seus sentidos. 

“Então um deles é um nobre, hm? Será que é esse ‘Kacchan’?” O pensamento permaneceu em sua mente.

Correu na direção da trilha, já sabendo o que fazer. Deixou as sacolas roubadas embaixo de um tronco coberto pela neve que começava a cair, lembrando-se de ser rápida e, principalmente, não fazer nada idiota. Aquela floresta era parte de uma pequena montanha, o que fez com que o terreno em que a garota se encontrava fosse mais baixo e até um pouco íngreme; apesar de tudo, as pernas dela eram fortes. Subiu o suficiente para encontrar a carruagem vindo, quando decidiu rapidamente: aquele seria seu último grande ato. 

Respirou fundo, contando os segundos para interceptar na hora certa aquela estrutura que passava por um local tão perigoso — se perguntou como ainda não haviam sido atacados. Assim que percebeu a sua deixa, arremessou a pequena adaga na roda da carruagem, fazendo-a parar. Se escondeu quando o guarda que guiava a máquina saiu de seu lugar, indo checar o que aconteceu. “É agora!”, pensou, saindo da floresta e chutando com força a barriga do guarda ajoelhado. 

— Um nobre, hein? — Sorriu, vendo o corpo grande ser arremessado para a pouco mais de um metro dali. 

Abriu a porta da carruagem, encontrando um garoto pequeno usando roupas chiques — reconheceu imediatamente que aquele tecido era caro. Por um momento, os olhos verdes a distraíram com o brilho que não combinava nem um pouco com a face assustada. 

— Me dê tudo o que tiver e então o deixarei ir. 

— O-o quê?! Não! Eu… é… 

— Rápido! 

— O K-kacchan! 

Ochaco olhou para o guarda, que já se levantava e corria na sua direção. 

— RÁPIDO! 

— O-ok! — O menino enfiou a mão no casaco e tirou de lá uma caixinha pequena. — É tudo de valor que tenho aqui! Por favor, não faça nada com o Kacchan!

Uraraka tomou a caixinha das mãos do nobre bem a tempo de desviar do golpe do soldado que o acompanhava. Os olhos arregalaram com a proximidade brusca da lâmina que teria cravado em si, caso não houvesse desviado, mas foi rápida para pensar. Pulou no degrau da estrutura e tomou a rédea de um dos cavalos, cortando a outra e deixando que fugisse. Quando conseguiu montar aquele que segurava, guardou a caixinha dentro da capa e cavalgou para longe do local, deixando para trás a carruagem, o nobre de feição tão gentil e aquele guarda que foi tão facilmente enganado. 

Parou o cavalo apenas quando reconheceu o tronco em que escondeu as sacolas. Quando desceu, as segurou, enfiando a caixinha dentro. O peso dela mostrava que continha algo de valor dentro, e, ao conferir, encontrou várias pequenas pedras do que julgou ser não só algum metal precioso, como rubi e esmeralda. Enquanto contava o conteúdo, encarou as duas pedrinhas verde e vermelha, lembrando-se dos olhos de quem roubara anteriormente. A esmeralda fez com que Ochaco reconhecesse imediatamente o olhar do nobre indefeso, enquanto a vermelha a lembrou da hostilidade do guarda que o acompanhava. Por algum motivo que nem mesmo ela sabia, decidiu que as levaria com ela para seu casamento — uma pequena lembrança da sua vida vergonhosa e desonesta. 

Colocou as sacolas sobre os ombros novamente, deixando o cavalo para trás. Eles não podiam encontrá-lo em sua casa. 

Naquele instante, não quis retomar sua corrida. Andou calmamente pela grama congelada, sem se importar em ser silenciosa ou ágil. Queria apenas sentir aquele último momento de liberdade e a fragrância livre da floresta que nunca mais veria. Inspirou fortemente, esquecendo o ar gelado que invadiu seus pulmões com a ação. Viu os dedos se avermelharem com o clima e matutou se passaria frio mais alguma vez depois que fosse levada para seu casamento.

Viu de longe a fumaça que emanava da chaminé, sorrindo com a visão da pequena casa que dividia com sua família. A família Uraraka outrora foi rica, mas havia se afundado em dívidas na geração de seu pai. Quem sofreu foram eles: Ochaco, seus pais e seus dois irmãos mais novos. Depois que foram expulsos pela burguesia do reino em que viviam, se alojaram ali, naquele pedaço de fim de mundo, a parte mais distante de uma vila abandonada pela nobreza e pelos deuses. 

A única que se adaptou com a mudança repentina de vida foi ela, a filha mais velha. Inicialmente, tentou trabalhar, mas ninguém acreditava que uma garota como ela seria útil. Procurou tentar produzir algo que pudesse vender, mas era um desastre. Seus pais brigavam o tempo todo, e sempre tinha que intervir para que um dos irmãos não saísse ferido. E apesar daquilo tudo, não entendia nem sentia nenhuma tormenta ou raiva de seus familiares. Roubava para sustentá-los, e, embora tenha sido vendida como uma mercadoria qualquer, achou que era justo ajudar como podia, mesmo que precisasse abrir mão da própria vida e aceitar um destino que não foi sequer escrito por si. 

Abriu a porta devagar, encontrando a mesa de jantar vazia. O olhar melancólico, porém otimista, assumiu o controle de seu rosto enquanto deixava as sacolas na mesa e pendurava a pequena capa em um gancho qualquer. Segurou as pedrinhas com força quando foi para o quarto que todos dividiam e se apoiou na parede, deixando as costas escorregarem até tocar o chão e se encolher pelo frio. Na escuridão, fitou a cama pequena que seus irmãos dividiam, deixando a mente viajar pelo cenário mórbido. Viu sua mãe sozinha espremida entre eles, e a ausência de seu pai mostrou que ele estava criando mais dívidas em um bar novamente.

Suspirou, levantando-se. Precisava buscá-lo, mesmo que odiasse o cheiro de bebida e o humor terrível de seu progenitor pouco lúcido e ainda menos sóbrio. No caminho, pensou se havia uma possibilidade de seu noivo ser o mesmo nobre de quem havia roubado naquela noite. 

Que ironia do destino seria caso fosse isso que a aguardava.


Notas Finais


Bom dia, bom dia ^-
Antes de tudo, quero agradecer pela equipe incrível do projeto, destacando: @soursweety - que fez uma betagem maravilhosa e foi um amor; @DarkAnnie - que é a designer dessa capa linda e que eu não imaginava que teria sido tão boa;
E @Luciano- que é um helper incrível e ajudou essa história a ir pra frente, juntamente de @Shashycs <3

Enfim, nos vemos nos coments ou no próximo cap!


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